quinta-feira, 30 de março de 2017

Bodas de prata de um menu muito especial.

 
 

 
Começo por propor que recuemos até ao dia 26 de Fevereiro de 2017 e que entremos nos terrenos labirínticos da História Contrafactual, ou Alternativa, ou Especulativa, ou Virtual, ou outro nome qualquer da sua preferência que represente um afastamento da verdade dos factos. Imagine-se agora no Dolby Theatre, em Hollywood, e faça de conta que La La Land acaba de vencer os 14 óscares para que estava nomeado. Não vencer sem ter vencido, como aconteceu com o prémio de Melhor Filme, mas vencer claramente vencendo, como costumava acontecer nas edições anteriores. Eis o que, penso eu, aconteceria de imediato: uma comunicação social em êxtase relatava o novo recorde absoluto e a ultrapassagem efectuada a Ben-Hur (1959), Titanic (1997) e O Senhor dos Anéis (2003), detentores de 11 estatuetas cada. E eis o que, na minha opinião, passaria despercebido: pela primeira vez na história um filme com argumento original levava para casa o “quinteto mágico”, mais conhecido na sua terra como “The Big Five”. E assim se desprezaria, inacreditavelmente, o mais extraordinário feito da noite.
Regressemos ao dia de hoje para analisar com mais cuidado o desdém nacional e internacional a que este pentagrama da excelência é votado. Uma qualquer pesquisa no Google através das suas designações, em português ou em inglês, devolve-nos os cinco animais mais difíceis de caçar em África, vários quintetos futebolísticos mundiais, importantes agremiações de fagotes, trompas, clarinetes, oboés e flautas, e até uma paleta de sombras de olhos! Películas cinematográficas, o nome snob para filmes, é que nem vê-las. No entanto, até hoje, apenas três fitas conquistaram este conjunto formado pelas categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actriz, Melhor Actor e Melhor Argumento (original ou adaptado).
(alerta: com a utilização da palavra “fita” esgotei os sinónimos que conheço, pelo que, a partir de agora, será sempre “filme” até ao fim.)
E desses três protagonistas – Uma Noite Aconteceu (1934); Voando sobre um Ninho de Cucos (1975); O Silêncio dos Inocentes (1991) –, nenhum se baseou num guião original: o primeiro foi adaptado de um conto de 1933 e os outros dois de novels dos anos 60 e 80 (se uso “novel” em vez do nosso “romance”, é por não conseguir dissociar o romance do romântico, aplicando-o a todo e qualquer género narrativo em prosa, incluindo o que se ocupa de enfermeiras sádicas e de lobotomias (no caso dos Cucos), ou de esfoladores de mulheres e canibais (no caso dos Inocentes).     
Nascido em 1977, não tive oportunidade de assistir numa sala de cinema ao confronto entre Louise Fletcher e Jack Nicholson, e muito menos à obra de Frank Capra, ainda na era do preto e branco. Mas lembro-me muito bem do efeito que o filme de Jonathan Demme teve no meu impressionável cérebro de adolescente. Fui vê-lo duas vezes mediante pagamento de bilhete, aluguei-o no videoclube, gravei-o em VHS quando passou na televisão e, com a cassete já visivelmente cansada de tanta reprodução, comprei o DVD para continuar a orgia de visualizações. Sempre achei piada a repetir os filmes de que gosto mas é possível que neste caso tenha exagerado. Decorei diálogos, gastei o botão de pause para analisar fotogramas, e ainda hoje respondo “ready when you are, Sergeant Pembry” à minha mulher quando ela me pergunta se estou pronto para sair de casa. Como nunca mostrei vontade de lhe comer o fígado com favas e Chianti, ela perdoa-me estes abusos de linguagem. Acredito que apenas John Hinckley Jr., o homem que tentou assassinar o Presidente Reagan para chamar a atenção de Jodie Foster, por quem tinha desenvolvido uma obsessão doentia, tenha passado mais tempo a olhar para um ecrã preenchido com a imagem da actriz (o episódio está envolto em lendas, mas é mais ou menos seguro que Hinckley se sentou dezenas de vezes nas salas de cinema por onde passava Taxi Driver, filme que valeu a Foster, então com 13 anos, a primeira nomeação para os prémios da Academia).
Numa época em que Hollywood aposta no poder parolo-sedutor de Christian Grey e das suas 50 sombras para preencher anualmente o imaginário do Dia dos Namorados, causa algum espanto que os produtores de O Silêncio dos Inocentes tenham escolhido precisamente o dia 14 de Fevereiro de 1991 para apresentarem Buffalo Bill e Hannibal the Cannibal à sociedade. Conseguimos facilmente imaginar os excelentes trocadilhos sobre quem vai comer quem segredados à saída do cinema por casais de pombinhos apaixonados, mas a verdade é que, apesar de toda a tensão erótica que existe entre a jovem estagiária do FBI Clarice Starling e o muito experiente psiquiatra Dr. Lecter, este não é certamente o típico filme dos programas de São Valentim.
 
 
A ideia original era que fosse lançado no Outono de 1990, mas a distribuidora Orion, apostada em promover Danças com Lobos para os óscares desse ano, empurrou o thriller de Demme para o ano seguinte. Assim, o estrondoso sucesso que este obteve na 64th Annual Academy Awards foi, a todos os títulos, surpreendente. Em primeiro lugar, a cerimónia ocorreu no dia 30 de Março de 1992 (comemora hoje o 25º aniversário, o que significa que já não vou para novo), quando já tinham passado mais de 13 meses desde a estreia do filme. Se analisarmos a data de lançamento dos galardoados com a estatueta de melhor filme, salta à vista a preponderância das chegadas ao grande ecrã durante a segunda metade do ano, para não dizer durante o último trimestre. Entre 2000 e 2014, por exemplo, de acordo com um estudo que não foi feito por mim, mas sobre o qual lanço a minha bênção e as minhas mãos de larápio, apenas 2% de todos os nomeados para essa categoria tiveram a sua estreia nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março. Estamos a falar, para quem perceba pouco de matemática, de 2 filmes num universo de 100. Por outro lado, convém recordar que O Silêncio dos Inocentes foi, até hoje, o filme mais assustador a ganhar esse óscar. Este facto, totalmente pessoal e não sujeito a contraditório, é de realçar. Claro que também assusta que filmes como Uma Mente Brilhante ou O Discurso do Rei tenham ganho essa distinção, mas o susto que me interessa analisar agora é o que está relacionado com o medo e com o suspense. Admito que O Exorcista, um dos nomeados da colheita de 1973, a ter ganho a 46ª edição dos prémios, poderia baralhar as minhas certezas. Como não ganhou, o assunto está resolvido.
(se o caríssimo leitor reparou que o número da cerimónia hollywoodesca d´O Silêncio dos Inocentes é o espelho do número da cerimónia hollywoodesca d´O Exorcista, sugiro que se vá tratar com urgência.)
É bom não esquecer que o filme nos presenteou não com um, mas sim com dois excelentes (no sentido de horríveis) vilões. E foi até injusto, dado o seu desempenho, que Ted Levine não tivesse sido sequer nomeado para o óscar de melhor actor secundário pelo seu brilhante (no sentido de asqueroso) Buffalo Bill. Um homem que, entre outras coisas, prendeu os seus próprios genitais no meio das pernas enquanto executava uma dança extravagante para uma câmara de filmar, merecia esse reconhecimento.
 


 
 
Este psicopata, fruto de um cozinhado de vários serial killers reais e temperado com uma androginia à la David Bowie, é, na realidade, o verdadeiro monstro que debutou na sétima arte nos braços de Jonathan Demme. Hannibal Lecter, pelo contrário, já tinha “dançado” com o realizador Michael Mann em Manhunter (1986), embora, nessa altura, respondesse pelo nome de Lecktor. O actor escocês Brian Cox, então com 40 anos, foi por isso o primeiro a dar vida ao nosso canibal preferido, 5 anos antes do também cidadão britânico (natural do País de Gales) Anthony Hopkins. Como Manhunter foi um fracasso de bilheteira (os seus méritos só começaram a ser reconhecidos muito tempo depois da estreia), Demme e Hopkins puderam trabalhar o personagem como se fosse completamente novo.
 
 
 
 
O impacto que o filme de 1991 provocou, além de ter tido reflexo nos sempre polémicos óscares, também alterou o paradigma do suspense (“alteração do paradigma” é conversa de Prós e Contras, mas não deu para resistir), desencadeando uma nova onda viral de fascínio pelos cérebros dos serial killers. Não tendo nascido a tempo de assistir numa sala escura aos filmes de Alfred Hitchcock, sinto-me grato por ter conseguido ver O Silêncio dos Inocentes (ou o Seven de David Fincher, um outro exemplar de suspense de alta qualidade) no grande ecrã. Os magníficos close-ups, que agigantam a face de Lecter até ao ponto em que a sua testa e queixo já não cabem na tela, não assustam o suficiente numa televisão caseira. Jack Crawford, o responsável pela Unidade de Ciências do Comportamento do FBI (“unidade de ciências do mau comportamento” seria um nome mais honesto para o departamento em causa), avisa a sua protegida Clarice Starling do perigo que Hannibal Lecter representa. “Acredite em mim, você não quer ter o Hannibal Lecter dentro da sua cabeça”, é a frase que lhe dirige ao fim de cinco minutos de conversa, mas o realizador Jonathan Demme e o director de fotografia Tak Fujimoto asseguram, durante o resto do filme, que ele nunca mais sai da nossa.
 
 
 
Uma daquelas histórias que correm na internet conta que, quando perguntaram a Paul Thomas Anderson (o responsável, entre outros, por Magnolia e There Will Be Blood) quais eram os três realizadores que o tinham influenciado mais, ele terá dito “Jonathan Demme, Jonathan Demme, and Jonathan Demme”. A resposta estava naturalmente relacionada com os close-upsO Silêncio dos Inocentes.
O filme mostra-nos ao que vem desde os créditos de abertura. Enquanto desfilam pelo ecrã os nomes dos actores, produtores, argumentista, etc., acompanhamos uma jovem Jodie Foster a correr num bosque de forma desaustinada. Sabendo o espectador que se trata de um filme que envolve psicopatas, é inevitável que pensemos que a actriz está a fugir de um. Só quando ela passa por cima de um grande obstáculo em vez de o contornar é que a ansiedade acalma e percebemos que se trata simplesmente de uma pista de treino. Durante o resto do filme – e muito graças à música de Howard Shore e aos múltiplos ruídos que a equipa de som desenvolve – a plateia é muitas vezes mergulhada na aflição e grande parte do tempo é passado com o coração nas mãos.
O enredo conta-se em poucas linhas. Há um serial killer a monte (usando a terminologia da nossa GNR), que ocupa o seu tempo a raptar, assassinar e esfolar gordinhas; há um outro serial killer, famoso pelos seus hábitos alimentares, que se encontra devidamente enjaulado; e há uma agente estagiária do FBI, de aparente fragilidade, que vai tentar usar a inteligência deste último para capturar o primeiro. O resto são mind games de fazer inveja a José Mourinho, uma fuga de fazer inveja a Fátima Felgueiras e alguns anagramas de fazer inveja a Rogério Casanova.
A figura de Lecter é-nos servida em formato de duche escocês, submetendo-nos a contrastes sucessivos. Antes de o vermos pela primeira vez, esperamos o pior. É descrito como um monstro, revelam-se alguns pormenores macabros do seu comportamento e somos levados até à sua cela de Baltimore, nas profundezas da terra, através de incontáveis escadarias, alertas, portas blindadas, gradeamentos e polícias. Já na ala subterrânea de altíssima segurança, avançamos perante os olhares de outros presos de ar assustador, num sinistro crescendo de expectativa. Quando estamos já devidamente aterrorizados, esperando ver o próprio diabo encarcerado no final do corredor, eis que nos surge um homem gentil, sorridente, penteado e bem barbeado, a quem até o reles uniforme prisional assenta como se tivesse sido feito por um alfaiate de Savile Row. Mais tarde, já na magnífica prisão improvisada de Memphis, teremos o choque inverso. Foram-nos mostrados os seus requintados desenhos, o seu olfacto prodigioso, o seu gosto pela poesia, pela filosofia, pela haute cuisine e pelas Variações Goldberg de Bach, e estamos tão apaixonados pelos seus modos e maneirismos que já esquecemos as recomendações e avisos de Frederick Chilton, o director do hospital-prisão de Baltimore.
 
 
 
 
Olhamos para ele nesse momento como quem olha para um urso no jardim zoológico: sabemos da sua natureza, mas temos vontade de entrar na jaula para lhe fazer festinhas. E é nesta altura de vulnerabilidade do espectador que levamos com toda a sua selvajaria e requintes de malvadez, através de um ataque monstruoso a dois polícias, que inclui ventres abertos e faces arrancadas a golpes de canivete. É um momento poderosíssimo do filme, visualmente inspirado em trabalhos do pintor Francis Bacon, e que serve um duplo propósito de choque: Lecter sabe que o horror do cenário vai desorientar psicologicamente os polícias, aumentando assim as probabilidades de uma fuga bem-sucedida, e Jonathan Demme sabe que aquela cena vai acabar com todas as ilusões que fomos alimentando relativamente à humanidade do psiquiatra.
 
 
 
Há uma quantidade impressionante de páginas da internet dedicadas à forma como Anthony Hopkins deu corpo e voz à personagem, o que leva a que, tantos anos passados, mitos e verdades se misturem alegremente. Diz-se que estudou os répteis e a forma consciente e voluntária como, contrariamente aos humanos, piscam os olhos; que se inspirou na voz, na inteligência e na omnisciência do HAL 9000 da obra de Stanley Kubrick; que surpreendeu algumas vezes Jodie Foster e o realizador com frases que não estavam no guião; que tentou imitar os movimentos de um gato na cena final; que assistiu a julgamentos de homicidas reais para ouvir os seus depoimentos, como forma de inspiração. Folclore à parte, a verdade é que Hannibal the Cannibal é tão marcante que quase ninguém tem consciência do reduzidíssimo espaço temporal que ocupa no filme. Muitos actores secundários estiveram mais tempo no ecrã do que este vencedor do óscar de melhor actor principal, que não chega a utilizar 20 minutos das 2 horas de duração d´O Silêncio dos Inocentes! Os homens não se medem aos palmos e as interpretações não se medem ao cronómetro. Claro que, se quisermos desvalorizar este aspecto, podemos olhar para a coisa pelo prisma da área, como quem avalia imobiliário ou o preço dos cerâmicos de casa de banho. É que Lecter, através dos já referidos close-ups, ocupa mais metros quadrados de tela do que a maioria dos actores que o precederam na história do cinema.       
Todas as representações são de realçar, do desagradável Chilton ao circunspecto Sgt. Tate, passando pelo cordial Barney e pelo arrasado Mr. Bimmel. Até a cadelinha Precious desempenhou um papel que lhe valeu um clube de fãs, já para não falar do produtor Edward Saxon que, num impressionante cameo, “emprestou” a própria cabeça para colocar dentro de um frasco de vidro.


 

 
Apesar das críticas a que foi sujeito por causa das questões de género (a comunidade LGBT não perdoou a sexualidade confusa de Buffalo Bill, levando a que Jonathan Demme, carregado de peso na consciência, a presenteasse com Filadélfia em 1993), a verdade é que o filme é profundamente feminista no sentido mais nobre da palavra: a pequena Clarice Starling, não obstante o ar frágil, revela-se uma heroína verdadeiramente corajosa num ambiente policial marcadamente masculino; Catherine Martin não se resigna ao papel de vítima e dá luta ao tenebroso raptor; a Senadora Ruth Martin, mãe de Catherine, é retratada como uma mulher inteligente e sem medo de exercer a sua autoridade.


 

Mas não vale a pena atirar areia para os olhos de ninguém. É muito claro nesta altura do texto que os meus “heróis” são dois homens: Hannibal Lecter e Ted Tally, o modesto argumentista que teve a sinceridade e dignidade de dizer que o seu maior mérito tinha sido pegar num bom livro de Thomas Harris e não o ter estragado. Como disse Frank Capra, num registo semelhante ao utilizado por Paul Thomas Anderson, as três coisas mais importantes de um filme são o argumento, o argumento e o argumento. É da conjugação da pena de Tally e do talento de Hopkins que surgem as inesquecíveis frases de Lecter, sendo que a mais famosa – “A census taker once tried to test me… I ate his liver with some fava beans and a nice Chianti" – não é, definitivamente, a minha preferida. Além da que já referi anteriormente, e que uso para comunicar à minha mulher que já estou pronto para sair de casa, gosto particularmente da que utiliza para justificar a mentira sobre o verdadeiro nome de Buffalo Bill. Lecter informa a Senadora e as autoridades que o raptor de Catherine se chama Louis Friend, e Starling percebe que se trata de um nome falso, um mero anagrama para iron sulfide (em português, pirite de ferro), o famoso mineral dourado conhecido como ouro-dos-tolos. Nessa altura, apanhado a gozar com os seus carcereiros, Hannibal solta um delicioso "Oh, Clarice, your problem is you need to get more fun out of life", uma pérola de cinismo que nos revela o seu único verdadeiro medo: o tédio.  
No seu ensaio David Lynch keeps his head, David Foster Wallace, a propósito dos diferentes tipos de filmes, atribui ao dito cinema comercial o objectivo de entreter e ao cinema de arte (na Europa talvez lhe devêssemos chamar cinema de autor) a pretensão mais intelectual de “educar” ou o propósito estético de impressionar. DFW, com piada, conclui que o esforço interpretativo que temos de fazer em certos filmes faz do acto de compra do bilhete uma pura excentricidade, a de pagar para trabalhar. Não querendo colocar Jonathan Demme no altar dos verdadeiros autores, até porque nem sempre essa categorização assume contornos de elogio, parece-me muito redutor tratá-lo como uma mera peça da gigantesca engrenagem do cinema comercial. E não é por ter facturado uma pipa de massa que deixa de haver muita arte n´O Silêncio dos Inocentes. Por isso, política à parte, o meu desejo é que a última frase dos créditos finais do filme continue a inspirar o seu trabalho por muitos e bons anos.


 
 
Sérgio Barreto Costa
 
 
 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Saramago, ma non troppo.


 

 
 
Acabo de ler num jornal peruano – Expreso – uma notícia que ontem ou anteontem já tinha lido num jornal português: que vai sair a lume, no dia 25 deste mês, um novo romance de José Saramago, intitulado Ensaio sobre a lucidez. Já o sabia muito bem, mas agora fico a sabê-lo melhor: que a máquina de publicidade montada por Saramago e pelos seus acólitos e pelos seus editores é poderosíssima, tanto a nível nacional como a nível internacional. O artigo em que se anuncia o novo romance é curto, mas nada fica a dever ao que de melhor se faz, em termos publicitários, na Madison Avenue da Cidade de Nova Iorque. A palavra-chave é o escândalo, fazendo-se questão de acentuar bem que o evento ultrapassará de longe o que aconteceu com o seu romance Evangelho segundo Jesus Cristo.
         Dizer que estou farto de Saramago até à ponta dos meus cabelos brancos é desnecessário. Li e estudei com certo interesse e alguma profundidade o Memorial do Convento. Dei esse romance em dois seminários sobre ficção portuguesa contemporânea na Universidade de Connecticut. Não posso esquecer o enorme entusiasmo dos meus alunos judeus americanos – três – pela história de Blimunda. E o meu também. Até porque cada vez estou mais convencido que carrego comigo aquela costela judaica (e aquela costela mourisca) de que falava Américo Castro, refutando o fanático e inquisitorial Don Marcelino Menéndez y Pelayo, apostado em demonstrar a todo o custo, falaciosamente, a pureza da raça dita ibérica. Isso pelo lado paterno, em virtude de meu pai e os pais de meu pai serem oriundos de Macedo de Cavaleiros e em virtude do estranho modo de meu pai viver – ou não viver – a religião. Que me lembre, nunca lhe vi pôr os pés na igreja. Naturalmente que o meu apelido de Cirurgião é mais um argumento a favor da minha potencial costela judaica.
         (Aqui abro um parêntesis para contar o que me contou Dona Mécia de Sena sobre o Memorial do Convento. Acabado de ler, Dona Mécia, tal como é seu costume, apressou-se a escrever uma longa carta a José Saramago para lhe dar a sua opinião sobre o romance, com aquela frontalidade e franqueza por que sempre se pautou a sua crítica literária. Que, entre outras coisas, lhe disse que a única coisa de que sobremaneira gostara fora da novela inserida no romance: a história de Blimunda. Mas que essa já estava escrita e publicada: era O Físico Prodigioso do seu marido, Jorge de Sena.)
Mas deixemos, por agora, estas digressões e passemos adiante.
         Li também com certo prazer o Ano da Morte de Ricardo Reis.
         Quanto ao Evangelho segundo Jesus Cristo, comecei a lê-lo por mais de uma vez, mas nunca consegui passar das primeiras páginas. É que a matéria já tinha sido tratada por Renan e por alguns dos seus discípulos e epígonos, e em melhor linguagem e melhor estilo.
         Não sei se o meu fastio em relação a Saramago se deve mais ao conhecimento do homem que ao conhecimento da obra. É que, para meu azar, tive a desdita de haver visto Saramago e de com ele haver convivido em demasiadas ocasiões. A primeira vez que o conheci pessoalmente foi na noite em que se estreou, no palco, em Agosto de 1986, no anfiteatro do Museu de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a tragédia de Jorge de Sena, intitulada O Indesejado (António, Rei). Terminada a representação, juntou-se um grupo bastante grande no Pavilhão Chinês, ao Príncipe Real, para uma longa sessão de tertúlia. Lembro-me que, entre outras pessoas, estavam D. Mécia de Sena, Vasco Graça Moura, Maria Velho da Costa, Orlando Neves, encenador da peça, e  Sinde Filipe, actor principal.
Voltei depois a estar com José Saramago por ocasião do congresso anual do New England Chapter da AATSP (American Association of Teachers of Spanish and Portuguese), realizado em data que não recordo na University of Massachusetts, em Amherst. O orador principal (keynote speaker), durante o banquete, foi José Saramago, antes de haver sido galardoado com o Prémio Nobel de Literatura, mas quase doentiamente ansioso por se ver reconhecido e aclamado pela comunidade académica. Fez um discurso longuíssimo e chatérrimo. Não disse sequer uma gracinha, coisa  obrigatória em discursos desta natureza. Não esboçou o mais fugidio sorriso. Dono do pódio, senhor absoluto de uma audiência cativa, ansiosa por se levantar da mesa e, em conversa amena, fazer o quilo de um jantar farto, mas tipicamente sensaboroso, Saramago falou longuissimamente e chaterrimamente, como já foi dito, com uma solenidade de sumo pontífice da verdade, como se dele dependesse o futuro das nações e a salvação da humanidade.    
         Vi Saramago por ocasião do congresso sobre Viagens na minha terra, de Garrett (Garrett’s Travels and Its Descendants), organizado por Víctor J. Mendes, professor da Universidade de Massachusetts, em North Dartmouth, nos dias 22 e 23 de Outubro de 1999, ano do centenário da morte de Almeida Garrett. Nesse congresso, já laureado com o Prémio Nobel,  Saramago também botou faladura, dando à sua comunicação o pomposo título de “Garret e Eu.” Tom solene e súper-sério, como sempre. Recordo-me de ele ter dito que Viagens na minha terra foi um dos primeiros livros que leu, sendo esse ou o único ou um dos escassíssimos livros que havia em casa dos pais dele. E recordo-me também de ele ter dito e redito que desse livro só lhe interessara – e só continuava a interessar-lhe –, desde a primeira leitura, a viagem propriamente dita. Que à deliciosa novela, a Menina dos olhos verdes ou a Menina dos rouxinóis, não lhe achara – nem achava - graça nenhuma nem qualquer relevância. Naturalmente que, com uma afirmação dessa natureza, Saramago outra coisa não pretendia fazer senão chamar a atenção dos ouvintes para a sua concepção da literatura como uma actividade de militância em prol de uma causa pragmática: a luta pela vitória universal do proletariado, cabendo a Saramago o cargo de profeta-mor, sumo pontífice e supremo líder.  
         E se eu não ficar por aqui, caio naquilo que mais detesto em Saramago: a repetição ad nauseam das mesmas ideias. De maneira que, para concluir, acrescentarei apenas que nunca vi nenhum escritor – e bastantes tenho conhecido através da vida – que se tomasse tão a sério como José Saramago.
 
 
Manchester, Connecticut, 8 de Março de 2004
 
António Cirurgião
 
 
 
 

terça-feira, 28 de março de 2017

O Kristang.


 
 
As malhas que o Império teceu foram deslassando e hoje já pouco mais resta que afetos, sabores, línguas e um ou outro monumento em ruínas. Em Malaca há muito disso tudo. Talvez mais do que em qualquer outro dos muitos sítios por onde portugueses andaram e pararam e de onde há muito saíram.
É de lá que, de vez em quando, nos iam chegando notícias de meia dúzia de resistentes que teimam em falar um crioulo – o Kristang – onde facilmente se reconhecem os étimos portugueses, dançam o vira e o fandango, vão à missa e fazem romarias. Uns quantos pretensiosos acham aquilo tudo muito SNI, muito postal ilustrado, mas o certo é que a porfia acabou por alcançar a vizinha rica e surge agora uma data de gente em Singapura a buscar e cultivar a sua ancestralidade lusa.
Nós, os avoengos, práqui no Lar, não podemos deixar de nos enternecer com as traquinices deles: Gramática – ossu lingu; Dicionário – fala bem. E de fazer votos para que a Festa di Papia Kristang nos próximos dias 20 e 21 de Maio seja um sucesso.
 
José A. M. Lopes
 
 
 
P.S. - ver este vídeo e esta reportagem da BBC e, já agora, isto.
 
 
 
 
 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Memórias Perdidas - 14

 
 
 
 
 
Regresso às memórias perdidas. Desta feita, as de Maria José Gama ou, de seu nome completo, como assina no introito, de Maria José Gomes Coelho Carvalho dos Santos de Calheiros da Gama.
Prefácio de Adriano Moreira, e não por acaso. Adriano Moreira, juntamente com outras figuras do antigo regime e da actual democracia, é evocado no livro como uma das personalidades que – quem sabe? – poderiam ter dado um novo rumo às colónias ultramarinas, evitando o desastre humanitário dos «retornados», de que a autora se ocupou de perto, num admirável trabalho de organização e apoio. Desengane-se, porém, quem julgar que Maria José Gama é uma saudosista do Estado Novo. Pelo contrário. Até devido às suas origens familiares, sempre esteve do lado republicano-socialista de oposição a Salazar, bastando recordar ter sido seu pai – José, irmão de Teófilo Carvalho dos Santos – chefe de gabinete de Cunha Leal, governador civil de Viseu, deputado em 1922 e sempre, mas sempre, advogado. Era José Carvalho dos Santos amigo de Manuel Rodrigues, que o tentou dissuadir de se fixar em Angola após o 28 de Maio, desiludido com os ventos ditatoriais que sopravam sobre o seu país. Viajou José para África, no ano de 1932. A mulher ficou cá, negando-se a viver nos trópicos. E foi já em Angola que, tendo conhecido a sua segunda mulher, Isabel Gomes Coelho, nasceu Maria José, natural de Moçâmedes, «uma terra muito rica quer pela sua fauna, quer pela sua flora existente em virtude da sua privilegiada situação geográfica». Hoje, a terra chama-se Namibe – e lá existe, esplendorosa, a célebre Welwitschia, planta miraculosa. Existia em Lisboa, no Jardim Botânico, um exemplar desta planta que deve o nome ao cientista e explorador austríaco Frederic Welwitschia, mas, creio eu, a incúria dos homens levou a que lamentavelmente morresse.
Regressemos a Maria José. Em 1939, veio com sua mãe até à metrópole, de barco. Nova viagem até Lisboa, também por via marítima, em 1942. No auge da guerra, portanto. Nesta segunda deslocação, um submarino germânico obrigou o paquete a desviar a rota, indo até Casablanca, sob domínio alemão. «apesar de ter só 5 anos, jamais esqueci a imagem de homens armados junto de nós e do nosso camarote ter sido inteiramente revolvido», recorda-se Maria José, acrescentando, num pormenor delicioso, que com elas vinha um comerciante, de seu nome Adérito Sanches, que consigo trazia dezenas de cartas que depois iria, sem cobrar portes nem tarifas, distribuir pelos destinatários metropolitanos. Os malvados alemães nazis apreenderam toda aquela correspondência, que era muita e íntima.
Finda a guerra, ou por essa altura, José recebeu em Angola uma carta cifrada de seu irmão Teófilo, dizendo-lhe que se preparava um golpe para depor Salazar. Logo veio José de África em 1943, pronto a participar na conjura anti-salazarista que, como se sabe, não vingou. Como não vingou outra tentativa de golpe, em 1947, no mesmo ano em que Teófilo Carvalho dos Santos foi preso na sua casa de Alenquer. O irmão José seria seu advogado de defesa. Enquanto tudo isso se passava, Maria José lia os livros da condessa de Ségur, e o pai defendia os interesses dos Industriais de Moçâmedes, sendo, no plano político, apoiante da candidatura de Norton de Matos. Desiludido, foi de novo para Angola, fixando-se agora em Benguela, onde foi Presidente do Rádio Clube, 1º Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa e Presidente do Sport Benguela e Benfica. Maria José e a mãe ficaram em Lisboa, onde a primeira frequentou o Liceu Filipa de Lencastre, onde teve «professoras de grande nível intelectual» mas também docentes «excessivamente sectárias e facciosas que me fizeram uma guerra fria, humilhando-me pelo facto de não ser baptizada e ser filha de um oposicionista, bem como sobrinha de um líder da oposição a quem várias vezes era retirada a liberdade». Teve problemas, claro está, por não comprar a farda da Mocidade Portuguesa, organização, que curiosamente, lhe foi recordada quando, muitos anos depois, viu com seu marido, em Moscovo, uma actuação em marcha da Juventude Bolchevista.
Aos 18 anos, casou Maria José. Seu marido, Sérgio Marques Fernandes de Calheiros da Gama, era geólogo, engenheiro técnico e professor no Liceu Camões (depois, exerceria funções como técnico da Câmara Municipal de Lisboa). Mais tarde, em 1967, morreu seu pai e, no ano seguinte, Oliveira Salazar caiu de uma célebre cadeira. Facto curiosíssimo: apesar de todo o oposicionismo do antigo chefe de gabinete de Cunha Leal, diz Maria José que por várias vezes o Presidente do Conselho tentou demover José do seu auto-exílio, exortando-o a entrar nas listas de deputados pela União Nacional. 
Se Maria José não revela qualquer admiração por Salazar, é patente o seu fascínio por Adriano Moreira, cuja obra como Ministro do Ultramar enaltece viva e copiosamente. Aliás, foi aquando da visita de Adriano Moreira a Angola que Maria José, acompanhando a mãe do ministro e a esposa do general Venâncio Deslandes a uma visita aos combatentes hospitalizados, encontrou João de Mucaba, uma criança órfã que ficou ao seu cuidado.
Com o mesmo desvelo acompanhará os que vieram de África após o 25 de Abril, sendo uma das fundadoras e principais animadoras da CSARA – Comissão Socialista de Apoio aos Retornados. Esse é o principal tema do livro, porventura o trabalho da vida de Maria José Gama. Em Maio de 1974, Maria José ofereceu-se para colaborar com o Partido Socialista. Dirigiu-se à Cooperativa Estudos, na Avª Duque de Ávila, pertença de um grupo a que estavam ligados Raul Rego, Lopes Cardoso, Catanho de Menezes. Mais tarde, toma conhecimento da trágica situação dos retornados de África, já que seu filho mais velho, José Sérgio, na qualidade de voluntário da Cruz Vermelha, com eles convivia diariamente. Outro dos seus filhos, Rui Sérgio, fará parte da «corrente» de jovens do PS, do PPD e do CDS que, aquando do cerco ao Patriarcado, protegeu a saída do edifício de D. António Ribeiro. Por aqui se vê, portanto, que Maria José navegava nas águas do socialismo moderado, condenando o PREC («O País viveu uma situação muito conturbada e de grande intranquilidade») e os excessos desse tempo, quando se confundiu «democracia com libertinagem».
Nos primeiros tempos da CSARA, Maria José tenta mobilizar apoios. Falou com Maria de Jesus Barroso, tendo-lhe esta dito que só colaboraria se tivesse o beneplácito de Mário Soares. Tendo este apoiado entusiasticamente a iniciativa, a CSARA começa a funcionar, beneficiando de outro apoio de peso. Salgado Zenha. No período gonçalvista, diz Maria José, a televisão jamais noticiou os comunicados da CSARA, que sempre lutou contra a manipulação da imprensa e da rádio, as quais, no seu entender, procuraram a todo o custo «ocultar a realidade relativamente aos Retornados». Mais aliados de peso: Vasco da Gama Fernandes, Vera Lagoa, o jornalista Antunes Ferreira. Maria Irene Zenha. E outros, vindos da Noruega, do Instituto Norsk Folkehjelp, que muito ajudaram a CSARA nas suas oito áreas de actividade: assistência médica e medicamentosa; assistência jurídica; procura de empregos; distribuição de vestuário, calçado e agasalhos; distribuição de cobertores; distribuição de leite, especialmente para crianças e doentes; pequenos subsídios para alimentação, alojamento, etc.
Depois da CSARA, dedicou-se Maria José à ASAS – Associação para Serviço de Apoio Social, mas essas são contas de outro rosário, o rosário de uma vida de alguém que festejou o 25 de Abril e cita como seus heróis Salgueiro Maia e Jaime Neves. E pronto, aqui fica, a traços larguíssimos, uma síntese apertada da vida cheia de Maria José Gama, militante socialista inscrita com o nº 50.
 
António Araújo

domingo, 26 de março de 2017

Proust in motion.







Église de la Madeleine, 14 de Novembro de 1904. Marcel Proust em movimento, o que é raro nele e na sua obra… Descoberto há pouco, um filme que nos mostra Proust como nunca o vimos.




sábado, 25 de março de 2017

O Estatuto dos Indígenas de 1954.







Gilberto Freyre com um pastor no Deserto do Namibe, 1952


  1. A feitura
         A primeira e principal justificação para a elaboração de um novo Estatuto dos Indígenas (substituindo o então vigente Estatuto de 1929) era a aplicação dos princípios fundamentais que passaram a estar consignados na Constituição, após a revisão de 1951, e na nova Lei Orgânica Ultramar, de 1953. Em 1951, apesar de algumas divergências de fundo entre a proposta governamental e o parecer da Câmara Corporativa (ainda mais conservador na matéria), a discussão parlamentar sobre o indigenato fora curta: mantiveram-se as “garantias dos indígenas” provindas do Acto Colonial, a tentativa de alteração da terminologia não passou e a única novidade foi a atribuição de natureza transitória ao regime de indigenato. Porém, num curso realizado em 1952-1953, Marcelo Caetano criticava a influência do «renovo das velhas doutrinas da assimilação integral das províncias ultramarinas ao regime europeu» e distinguia, considerando os diversos estádios culturais em que se encontravam os seus componentes, quatro situações (sociológicas) entre a população nativa: (i) indígenas primitivos;  (ii) indígenas em evolução; iii) indígenas destribalizados; e (iv) assimilados [1].  
Ora, era a situação dos destribalizados não assimilados que mais preocupava os mentores da política indígena. Não se tratava de caso exclusivamente português e Marcelo Caetano abordou a questão num parecer emitido no Conselho do Império Colonial, em 1941, defendendo agrupamentos populacionais próprios e a criação de um estatuto intermediário entre a cidadania e o indigenato, o de “semi-assimilado” – que abrangeria os negros e mestiços com um verniz externo de civilização e em rebeldia contra a disciplina tribal[2]. Tratava-se especialmente de indígenas que tinham frequentado as escolas das missões ou que tinham emigrado para áreas urbanas.


Orlando Ribeiro e Talibé, Bissau, 1947


2. Noção de indígena


O novo Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique foi aprovado pelo Decreto-Lei n.º 39.666, de 20 de Maio de 1954, ou seja, pelo Governo reunido em Conselho de Ministros, deste modo, e pela primeira vez, ultrapassando a competência específica do Ministro do Ultramar (no caso, Sarmento Rodrigues). Continha 67 artigos, agrupados em 4 capítulos.
O Estatuto era especial e pessoal, acompanhando os indígenas quando e para onde se deslocassem (como era, sobretudo, o caso dos indígenas angolanos e moçambicanos “contratados” para as roças de S. Tomé e Príncipe).
A noção legal constava do artigo 2.º: «indivíduos de raça negra ou os seus descendentes que, tendo nascido ou vivendo habitualmente nelas [províncias da Guiné, Angola e Moçambique], não possuam ainda a ilustração e os hábitos individuais e sociais pressupostos para a integral aplicação do direito público e privado dos cidadãos portugueses». Eram, portanto, cinco os critérios utilizados: i)- raça; ii)- filiação; iii)- nascimento; iv)- residência; v)- cultura. Comparando com o Estatuto de 1929 constatam-se quatro alterações: a)- deixou de se definir o “não indígena”; b)- alargou-se o conceito de indígena aos “destribalizados” e “indígenas em evolução”; c)- a definição é geral (comum a todas as províncias de indigenato) e exclusiva (porque consta da lei e deixa de caber aos governadores de cada colónia); d)- em vez de dois (racial e cultural) passam a ser cinco os critérios usados na definição[3].
O indigenato não existia no Império britânico, assente na separação racial. Como regime legal fora criado no século XIX pelo Império Francês, onde provocou “um debate sem fim” por causa da variedade e complexidade destes estatutos pessoais[4]. Em 1945, vivendo-se ainda sob a forma de Império (substituída pela Constituição de 1946), reclamar a cidadania era um gesto revolucionário pois «a esmagadora maioria dos Africanos – e dos Argelinos – eram considerados nacionais franceses e súbditos franceses, mas não cidadãos franceses. Só poderiam tornar-se cidadãos se renunciassem ao respectivo estatuto pessoal (islâmico ou “costumeiro”), aceitassem as regras do código civil francês sobre o casamento e a herança e persuadissem os administradores que tinham assimilado completamente as normas sociais francesas[5]. A abolição do indigenato traduziu-se na generalização da cidadania enunciada pelo artigo único da chamada “Lei Lamine Guèye” (e cujo desenvolvimento admitiu a manutenção do estatuto pessoal de direito privado e distinguiu entre cidadania da República francesa e cidadania da União Francesa), aprovada por unanimidade em 7 de Maio de 1946 pela Assembleia Nacional Constituinte.
No direito colonial português, para Marcelo Caetano, numa construção restritiva, os indígenas eram apenas «súbditos portugueses, submetidos à protecção do Estado português, mas sem fazerem parte da Nação, quer considerada como comunidade cultural (visto faltarem-lhe os requisitos de assimilação de cultura) quer como associação política dos cidadãos, (por não terem ainda conquistado a cidadania)»[6]. Adriano Moreira sustentava uma opinião diferente, mais complexa. Primeiro, considerava a palavra “cidadania” adequada «para designar o estado jurídico caracterizado precisamente pela detenção dos poderes jurídicos pertinentes à intervenção no exercício da soberania»; depois, aproximava-se da doutrina francesa: «os indígenas integram uma categoria de nacionais que não são cidadãos, como não o são os não indígenas que não reúnam as condições fixadas por lei»[7]. Consequentemente, concluía que, no direito constitucional então vigente, o estado jurídico de “nacional” era «género de que são espécies os estados de indígena e não indígena»[8]. Portanto, em sua opinião, embora não-cidadãos, os indígenas seriam nacionais portugueses. Em 1961 foi mais longe: eliminou o estado de “indígena”, criou o de “vizinho da regedoria” e generalizou a obtenção do bilhete de identidade de cidadão português.
No Estatuto de 1954, a contemporização com os usos e costumes dos indígenas estava contemplada no artigo 3.º (sendo, desde logo, prejudicada por não existirem efectivamente codificações sistemáticas dos «usos e costumes próprios das respectivas sociedades»). A contemporização obedecia à chamada “cláusula de repugnância” [9], ou seja, excluía o que “repugnava” à civilização ocidental (a “moral”, os “ditames da humanidade” e os “interesses superiores da soberania”); por outro lado, a medida dos usos e costumes teria em conta o grau de evolução, as qualidades morais, a aptidão profissional bem como o afastamento ou integração na sociedade tribal (§ 3.º). Mas a aplicação dos usos e costumes próprios poderia, no domínio das relações privadas, ser afastada pois os indígenas tinham direito a optar pela lei comum em matéria de relações de família, sucessões, comércio e propriedade imobiliária (art. 27.º). Esta última previsão visaria a “assimilação parcial” (dos destribalizados), contra a qual se levantou Adriano Moreira, por a considerar inoperante e não conduzir «à indispensável coincidência entre o estatuto jurídico e o estatuto cultural» dos “assimilados” e destribalizados, sobretudo católicos[10].
Era no Capítulo II, sobre a situação jurídica dos indígenas, que o artigo 21.º regulava a jurisdição exclusiva das autoridades administrativas sobre os destribalizados, dispondo que elas exerceriam «por si sós jurisdição e polícia sobre os indígenas que deixarem de estar integrados nas organizações políticas tradicionais». Tratava-se de um regime especial em que os destribalizados continuavam a ser considerados indígenas. O projecto de Estatuto previamente aprovado pelo Conselho Ultramarino distinguia o “Estatuto dos indígenas em regime tribal” do “Estatuto dos Indígenas destribalizados” mas tal orientação não fora perfilhada pelo Governo e por isso as disposições sobre os indígenas destribalizados foram disseminadas e não submetidas a um título comum[11]. Segundo Diogo Ramada Curto e Bernardo Pinto da Cruz, embora a doutrina jurídica construída sobre este artigo 21.º postulasse que a destribalização tinha fundamentos económicos e estabelecesse que o destribalizado era um “marginal”, o primeiro objectivo da regulação do destribalizado visava o não reconhecimento de legitimidade do chefe tradicional e a lei restringia o seu enquadramento social a um problema de ordem política[12].





3. Os “assimilados” 

A condição de indígena “perdia-se” sempre e só pela aquisição de cidadania (a vulgarmente designada “assimilação”). Provava-se pelo bilhete de identidade (nacional) e podia revestir uma de três formas:
a)- a forma “normal”, realizada através de um processo administrativo onde o indígena requerente deveria comprovar que satisfazia cumulativamente os seguintes cinco requisitos: i)- ser maior de 18 anos; ii)- falar correctamente a língua portuguesa; iii)- exercer profissão, arte ou ofício suficientemente remunerado para sustentar a família; iv)- ter bom comportamento e ter adquirido suficiente ilustração e hábitos portugueses; v)- não ter sido refractário ao serviço militar nem desertor. 
b)- a forma “automática” através da outorga de um bilhete de identidade a quem beneficiasse das circunstâncias expressamente contempladas no art. 60.º;
c)- a forma “graciosa” mediante concessão da cidadania pelo governador da província.
  Os objectivos centrais do novo Estatuto eram os mesmos do anterior regime do indigenato: reduzir a população a um reservatório de mão-de-obra barata e até gratuita e facilitar a expropriação das melhores terras dos africanos a favor dos europeus[13]. As mudanças mais significativas foram a acentuação da natureza provisória do indigenato, a enumeração dos requisitos de aquisição de cidadania portuguesa e uma reformulação do conceito de indígena que, mantendo o factor étnico quanto aos «indivíduos da raça negra ou seus descendentes», acentuou o factor cultural, ao aceitar como critério já não a integração do indivíduo no grupo tradicional mas sim a sua integração no grupo dos cidadãos portugueses, ou seja, no grupo europeu. Assim, desapareceu a categoria autónoma de “assimilado” (cuja terminologia permaneceu porém na linguagem corrente para designar aqueles que, de qualquer modo ou em qualquer momento, haviam adquirido a cidadania) mas o regime do indigenato continuou a aplicar-se aos “destribalizados” (os quais, ao contrário da pretensão de Marcelo Caetano, não alcançaram a categoria de “semi-assimilados”), embora lhes tenha sido facultada a possibilidade de optar parcialmente pelo direito comum português.
Mantendo o núcleo do regime que vinha dos Estatutos de 1926 e de 1929, este Estatuto contrariava a lógica da assimilação que, em certa medida, enformara a revisão constitucional de 1951[14]. Mas, por outro lado, comprovava que os “assimilados” nunca foram uma figura central na doutrina colonial portuguesa e nunca haviam sido considerados como sinal de uma política de assimilação[15].



4. A importância do bilhete de identidade

Em Angola, no final da década de cinquenta, para uma população total de cerca 4.800.000 residentes, os brancos (cidadãos) eram aproximadamente 270.000 (3,6%), os “assimilados” (de ascendência nativa ou mista) cerca de 70.000 (2%) – dos quais eram “mulatos” cerca de 50.000 (1,1%) – e os indígenas 4.500.000 (95%)[16]. Os números relativos à Guiné Portuguesa e a Moçambique eram ainda mais desproporcionados.
Sobre esta política de assimilação, Adriano Moreira fala de “classe intermédia” (que, em sentido amplo, incluía, além dos assimilados, todos os destribalizados) que «pela sua vocação activa, e sendo originária da população indígena» ultrapassara «definitivamente, e por definição, a natureza de classe marginal podendo acontecer e tendo acontecido, ter-se transformado no núcleo de um anticolonialismo nacionalista». Preventiva e premonitoriamente, acrescentava que tal fenómeno ainda não se verificava no Ultramar português, mas importava «não ignorar a potencialidade dessa classe» [17].
O mero reconhecimento dos direitos cívicos ainda chegou a ser o tema central dos textos predecessores dos movimentos nacionalistas, nesta fase, de predominante origem cultural. Por exemplo, em 1958, uma petição da Liga Africana clamava: «O bilhete de identidade é, para nós indígenas, uma questão de vida ou de morte»[18]. Mas o indigenato não foi sequer abordado aquando da revisão constitucional de 1959. Depois, a sua abolição em 1961, seguindo o figurino francês e já em fase de generalizado “assalto à fortaleza colonial”, não salvou o Império Colonial Português nem a Nação Una.


António Duarte Silva
 


[1] Marcello Caetano, Os nativos na economia africana, Coimbra Editora, 1954, pp. 6 e 16/18.
[2] Citado e transcrito por J. M. Silva Cunha, O sistema português de política indígena, Coimbra Editora, 1953, pp. 185/187.
[3] José Carlos Ney Ferreira e Vasco Soares da Veiga, Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique- Anotado, 2.ª edição, Lisboa, 1957, pp. 14-20, e Mário Moutinho, O Indígena no Pensamento Colonial Português, 1895-1961, Lisboa, Edições Universitárias Lusófonas, 2000, pp. 123 e segs.
[4] Para um resumo, Emmanuelle Saada, “Et le droit colonial inventa l’indigène”, in L’Histoire, Paris, n.º 400/Junho 2014, pp. 48/51.
[5] Frederick Cooper, Français et Africains? Être citoyen au temps de la décolonisation, (tradução do inglês), Paris, Payot, 2014, p. 18
[6] Marcello Caetano, A Constituição de 1933 – Estudo de Direito Político, 2.ª edição, Coimbra Editora, 1957, p. 23.
[7] Adriano Moreira, Administração da justiça aos indígenas, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1955, p. 14.
[8] Ibidem, p. 15.
[9] José Luís de Oliveira Cabaço, Moçambique: identidades, colonialismo e libertação, Tese de doutoramento em Antropologia, Universidade de São Paulo, 2007, pp. 153.
[10] Adriano Moreira, “Problemas Sociais do Ultramar”, in Ensaios, Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1960, p. 157.
[11] José Carlos Ney Ferreira e Vasco Soares da Veiga, Estatuto…, cit., p. 38.
[12]  Diogo Ramada Curto e Bernardo Pinto da Cruz, “Destribalização, regedorias e desenvolvimento comunitário: notas acerca do pensamento colonial português”, in Diogo Ramada Curto (org.), Bernardo Pinto da Cruz e Teresa Furtado, Políticas coloniais em tempo de revoltas – Angola circa 1961, Porto, Afrontamento, 2016, p. 28.
[13] Tcherno Djaló, O mestiço e o poder – identidades, dominações e resistências na Guiné, Lisboa, Vega, 2012, p. 189.
[14] Valentim Alexandre, “ A descolonização portuguesa em perspectiva comparada», in Manuela Franco (coord.), Portugal, os Estados Unidos e a África Austral, Lisboa, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento/IPRI, 2066, p. 54.
[15] Cristina Nogueira da Silva, “Assimilacionismo e assimilados no império português do século XX: uma relação equivocada”, in Ângela Barreto e Cristina Nogueira da Silva (org.), O Governo dos OutrosPoder e Diferença no Império Português, Lisboa, ICS, 2016, pp. 346/347.
[16] Cfr. Fernando Tavares Pimenta, Angola, os Brancos e a Independência, Porto, Edições Afrontamento, 2008, p. 449, Quadro I. Os números apresentados por Douglas Wheeler e René Pélissier, História de Angola, Lisboa, Tinta- da-China, 2009, p. 393, são semelhantes, salvo quanto aos “brancos” (172.500).
[17] Adriano Moreira, “As elites das províncias portuguesas de indigenato (Guiné, Angola, Moçambique)”, in Ensaios, cit.,  p. 44.
[18] Citada por René Pélissier, La Colonie du MinotaureNationalisme et révoltes en Angola (1926-1961), Pélissier, Montamets, 78630 Orgeval, France, 1978, p. 73.