sábado, 19 de dezembro de 2020

São Cristóvão pela Europa (137) .

 



Voltemos aos São Cristóvãos desaparecidos.

E de novo a Basileia.

Um dos ex-libris da cidade é o edifício dos Paços de Concelho, a Rathaus:

 


Em 1501, Basileia aderiu à Confederação Helvética e em 1503 a cidade iniciou a construção do edifício a partir das ruínas de um antigo palácio.

O pátio interior é exuberante:

 


Uma parte das pinturas foi executada no início do Século XX.

Mas o que havia antes?

Num trabalho de Elisabeth Landolt de 1980 intitulado Die Statue des Munatius Plancus und der Bildhauer Hans Michel, menciona-se que havia uma pintura, hoje desaparecida, representando São Cristóvão, provavelmente no pátio ou então na fachada das traseiras,.

Com a colaboração do Arquivo da Cidade de Basileia que muito agradeço foi possível localizar uma fotografia de 1904 em que se identifica o esboço da dita imagem:

 


A mesma imagem encontra-se publicada num livro intitulado Rathaus in Basel 1904:





Esta é, portanto, mais uma imagem do nosso Santo que já não é possível vislumbrar.

 

José Liberato





quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Variações sem fim.

 

 



Um curto trajeto de carro-carrinha com dois amigos a escoltar uma extravagante máquina do século 21 chamada Mimi. Atravessam-se, por um instante, as Variações Goldberg tocadas por Glenn Gould, as mesmas que andavam há semanas no topo do top da colorida playlist-spotify de um deles.

Patati-patatá, havia que amparar a extraordinária Mimi, a memória também já não é o que era – o meu disco está cheio, disse-me um sobrinho com sinapses mais velozes – e eis que não me ocorre o nome da outra, da interpretação alter-Gould que queria partilhar. “A outra” é uma das mais de cinco centenas de interpretações desta obra-prima de J. S. Bach, sem contar com as várias gravadas pelo próprio Glenn Gould (a última em 1981). Tão particular, tão à parte e, não sem razão, tão entronizada é a interpretação de Gould, que parece tê-las fechado todas ali, na dele, como quem fecha o assunto.

E pur, e porém, continuam a mover-se. Cada variação corresponde a um compasso da primeira, a Aria, e Bach deu-lhe para fechar o ciclo das Goldberg com a Aria da Capo, parecendo sugerir que nada está acabado nunca, que nada se acaba afinal.

É também assim que as retoma Zhu Xiao-Mei, numa das mais aclamadas leituras dos últimos 30 anos. Num programa em que foi ouvida incógnita e elevada a referência moderna, louvou-se-lhe a humanidade perante a partitura, a naturalidade com que a conta, dança, declama -- toda a luz das Goldberg, os seus murmúrios e reviravoltas, a sua poesia funambulesca.

E é, ainda, assim que é ela própria entendida no documentário The Return is the Movement of Tao (O Retorno é o Movimento do Tao), de Michel Mollard (2014), em torno da visão da pianista chinesa sobre as Variações Goldberg. Ela que na sua vida se amparou em Bach para derrotar Mao. O documentário pode ser visionado em acesso aberto aqui, onde também se encontra um concerto ao vivo de Xiao-Mei.

Boas festas, João e Maria


Manuela Ivone Cunha 






terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Quem mata um urso.


 

Quem mata um urso devia saber, antes de mais, o que é um urso. No Diário de Notícias, em Péssima Companhia, aqui

 



Os olhos de Isaac Wodward.


Ilustração de Vítor Higgs

 

Os Olhos de Isaac Woodward, em «Péssima Companhia», aqui












segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

O NATAL segundo José Luís Brito.

 



         

          Uma boa parte deste Natal já aconteceu. Foi no sábado de manhã, em Lisboa, em pleno Tejo, junto ao cais das colunas. De repente, há uma vida humana em perigo. Bem perto, muitas pessoas continuam o seu passeio, filmam com os seus telemóveis. O corpo de um homem inerte boia nas águas sujas do rio. A face voltada para baixo, como o pequeno Alan Kurdi, a criança síria de apenas 3 anos de idade, que morreu da mesma forma ao largo da ilha de Lesbos, Grécia, e que o artista chinês Ai Wei Wei imortalizou na sua célebre fotografia em 2016.

          “Voltaria a fazer o mesmo. Uma vida humana não tem preço”, explicou humildemente José Luís Brito. Ele foi o homem que, como outros, vendo o sucedido não hesitou. Despiu a roupa que entregou ao seu filho de apenas 7 anos e saltou sozinho para salvar quem não conhecia.

Apenas um corpo sem rosto, boiando. Um desconhecido, como tantos com quem nos cruzamos diariamente. Um homem que minutos antes tentara o suicídio: de verdade, a procura da morte contém sempre um apelo escondido, um segredo dito em voz muda que apenas deseja uma coisa. A vida. Eu sinto que tenho de morrer para poder continuar a viver. Sem este sofrimento. Sem esta dor. Esta era a mensagem que recordava um dos meus mestres, Moses Laufer, director do Brent Adolescent Centre, em Londres.

          A capacidade empática e a capacidade de dádiva são características recentes da evolução da espécie humana. Têm cerca de 25 a 30 mil anos os primeiros túmulos que mostram que alguém foi cuidado por outrem até à hora da sua morte. E mesmo doente ou incapaz, foi investido pelos outros que dele quiseram cuidar, celebrando a vida através do ritual da morte.

O menino do Lapedo corresponde a uma descoberta arqueológica feita em Portugal no ano de 1998. Pela primeira vez era encontrada a sepultura de uma criança envolta numa mortalha de tom vermelho, junto da qual existia um ramo de pinheiro queimado: cuidar, envolver, dar aroma. Celebrar a presença do outro no momento da sua dolorosa partida.

          Ninguém pediu nada a José Luís. As imagens que documentam o seu acto heróico foram obra do acaso. Não agiu esperando recompensa ou celebração. Saltou para o desconhecido, com certeza arriscando a sua própria vida diante do filho, por um mero impulso de consciência. Por breves minutos relembrou-nos o que tanto esquecemos e não praticamos ao longos dos dias, dos anos, em tantos natais, afinal, como outros: cuidar de alguém. Estar perto dos que mais precisam. Ajudar os que sofrem e, silenciosamente, ainda vivem (?) em silêncio na sua imensa dor. Os que já não têm rosto e simplesmente flutuam ao sabor da corrente, tristes, esquecidos, perdidos.

          Obrigado pelo exemplo, José Luís.

          Obrigado pela luz!

          Feliz Natal para ti!

 

          Pedro Strecht

          Médico Pedopsiquiatra

           

 

 

 

 

 


uma história extraordinária.


 

https://www.nytimes.com/2020/12/13/world/americas/miriam-rodriguez-san-fernando.html?smid=wa-share





quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

São Cristóvão pela Europa (136).

 

 

Em Berna, junto à Igreja Espírito Santo, foi construída na primeira metade do Século XIV a Christoffelturm, a Torre Cristóvão. Em 1864 foi demolida após decisão muito polémica das autoridades locais.

Para a Torre tinha sido encomendada muito apropriadamente uma estátua de São Cristóvão em 1496. Tinha 10 metros de altura e era de madeira.

Mas em 1526 chegou a Reforma a Berna e a presença de santos na via pública viu o seu fim.

Mas pragmáticos, os habitantes de Berna resolveram manter a estátua. Tiraram-lhe o Menino Jesus e o halo do Santo, puseram-lhe um chapéu, uma espada e uma alabarda no lugar do atributo do tronco da árvore. O santo transformou-se num guerreiro que guardava a Torre.

Uma aguarela de 1818 mostra-nos a Christoffelturm junto à Igreja do Espírito Santo:

 


Outra representa a Torre no fim da Spitalgasse:

 



Quando da decisão de demolição debateu-se o que fazer com a estátua. O Conselho da cidade resolveu preservar as partes historicamente interessantes da estátua como a cabeça, as mãos e os pés. Ao menos salvou-se alguma coisa…

Assim, no Museu Histórico de Berna, se estivesse aberto, poder-se iam ver hoje a cabeça e um pé do nosso Santo depois de tantas vicissitudes ao longo de 600 anos.




O local onde estava a torre hoje é assim:



Para terminar tínhamos de chegar a Portugal. À cidade de Tomar.

Numa das entradas da cidade, na Ponte Velha, existiu outrora uma estátua de pedra representando São Cristóvão. Foi mandada colocar em 1710. Correu que o pó das pernas da estátua tinha poderes curativos. O povo passou a raspar as pernas do Santo, o que não beneficiou a saúde da estátua.

No início do Século XX havia pessoas que se lembravam da estátua.

O que é certo é que uma investigação do blog cethomar encontrou no diário de um viajante inglês chamado Robert Southey (1774-1843) a seguinte entrada correspondente a Tomar e ao dia 1 de Março de 1801:

(…) Há uma estátua numa das extremidades, tão desgastada pelo tempo, que a tosca aparência da criança que está nos seus braços seria insuficiente para identificá-la como São Cristóvão sem a ajuda da tradição. As pernas estão esburacadas sem piedade, porque se considera que alguns dos grãos da perna de S. Cristóvão, tomadas num copo de água, são um remedo excelente para as sezões. (…)” in “Journals of a Residence in Portugal, 1800-1801”

 


O que aconteceu à estátua? Ou caiu para a água e juntou-se ao entulho do rio ou foi recolhida. Uma das possibilidades é tratar-se de alguma das estátuas que hoje se encontram no Convento de Tomar e nas suas imediações:




José Liberato



A Covid é um lugar estranho.

 



https://www.health.com/condition/infectious-diseases/coronavirus/4-hour-erection-coronavirus





Grand Tour.





 



domingo, 6 de dezembro de 2020

Prendas de Natal 2020.

 



Prendas de Natal 2020.

 

Abriu a época das sugestões, dos passeios aos presentes. Se a quadra confina ou desconfina, ainda não se sabe, menina. Não há é como evitar a besta, o assunto-assombração do regime fechado.

Segue, por conseguinte, um combinado de sugestões devidamente ajustado à época, a de 2020. E não se fala mais nisso, no pasa nada.

Também não se passa nada, nada de nada, em As Jóias da Castafiore, a deliciosa -- de todas, talvez a mais deliciosa -- banda desenhada de Hergé. Ao contrário das outras aventuras de Tintim, trepidantes de viagens e vilões, nesta ninguém vai a lado algum, nem acontece coisa alguma. Ou acontece tudo, um tudo que é nada e um nada que é tudo, num delirante novelo de peripécias e mal-entendidos em que toda a gente se agita sem sair do sítio, o castelo de Moulinsart.

Ora esta comédia imóvel, a anti-aventura em huis clos a que até um filósofo famoso consagrou um extenso artigo em torno da impossível comunicação entre os seres humanos, é também uma engenhosa brincadeira inspirada no enredo de La Gazza Ladra (A Pega Ladra), uma ópera de G. Rossini que, essa, não é considerada nem cómica, nem séria, mas sim… “semi-séria”. E chamar a algo “semi-sério” é já por si mesmo, convenhamos, um nadinha cómico.

O que Hergé talvez desconhecesse – mas o acaso faz bem as coisas, como se sabe -- é a pequena história por detrás da própria criação da Gazza Ladra. Consta que o diretor do Scala de Milão, conhecendo como conhecia a incontível alegria de viver de Rossini e temendo não ter a ópera pronta a tempo da estreia, confinou o pobre compositor no quarto. Gioachinno não tinha o direito de sair e atirava as partituras da Abertura pela janela para serem distribuídas pelos músicos da orquestra.

Custa a crer que um tema que tanto nos induz a contemplar o teatro do mundo em modo divertido, a banda sonora que o transfigura, tenha sido composto nestas condições. É fazer a experiência logo na dita Abertura, a partir do minuto 4’20’’.

E as Jóias da Castafiore? Ah... nem tudo o que reluz é ouro. Mas que interessa isso à pega? Só mesmo a Castafiore, o Rouxinol Milanês, é que se aflige -- e nós com ela, mais os castiçais que ela estilhaça nos agudos ao cantar a “Ária das Jóias”, da ópera Fausto, de C. Gounod. Haverá alguém que tenha lido a banda desenhada e não tenha ardido de curiosidade de saber a que soava “AAAAAh je ris, de me voir si belle en ce miroir….”.  Soa assim, a partir do minuto 2’20’’, na voz grande de Anna Netrebko.

Boas compras, como dizem no supermercado.


Manuela Ivone Cunha

 





Uma loja com mil anos.

 


https://www.nytimes.com/2020/12/02/business/japan-old-companies.html






sábado, 5 de dezembro de 2020

São Cristóvão pela Europa (135).

 


Prosseguindo a busca de São Cristóvãos desaparecidos.

 

Wiener Neustadt é uma cidade situada a 50 quilómetros ao Sul de Viena. Foi a residência do Imperador do Sacro Império Romano-Germânico Frederico III (1415-1493). A Catedral, consagrada à Virgem Maria e São Roberto, foi substancialmente reconstruída pelo Imperador:




Existem documentos muito interessantes que se reportam à aprendizagem das futuras rainhas na corte de Wiener Neustadt, em especial as filhas do Imperador Maximiliano II e de Maria de Áustria: a Arquiduquesas Isabel, nascida em 1554 e que casou com o Rei de França Carlos IX, e Maria, nascida em 1555. Também o Arquiduque Alberto (1559-1621), que veio a ser Vice-Rei de Portugal durante o período filipino, participou nesse programa.

Grande parte do processo de educação decorria na Catedral. Frederico III tinha encomendado para uma das paredes interiores do presbitério um grande fresco representando São Cristóvão, um santo que devia despertar a atenção dos mais novos dado que a sua lenda dizia respeito à salvação de uma criança.

Infelizmente, esse fresco foi sucessivamente deteriorado por diversas peças de mobiliário que foram pregadas nas paredes ao longo dos tempos, tendo os poucos vestígios que restaram sido apagados.

Outro aspecto relevante desse processo de aprendizagem foi a memória de Portugal. Em primeiro lugar, memória da Imperatriz Leonor(1434-1467), mulher de Frederico III, filha do nosso Rei D. Duarte, que viveu e morreu em Wiener Neustadt.

Num inventário de 1616 ainda se referem os paramentos litúrgicos por ela bordados que tinham como motivos São Jorge e São Cristóvão.

Mas persistia também a memória da Imperatriz Isabel, filha de D. Manuel I e mulher do Imperador Carlos V. E da Imperatriz Maria de Áustria, mãe das arquiduquesas em aprendizagem, que se considerava meia portuguesa por ser filha da Imperatriz Isabel.

 

 

Na cidade suíça de Basileia não foi a guerra nem a passagem do tempo. Foi a pressão urbanística que deu cabo de um São Cristóvão...

A pequena igreja de São Cristóvão foi demolida. Tinha sido construída em 1935. Situava-se na Kleinhüningeranlage 27:




 

No seu lugar nasceu um complexo chamado Centro da Igreja São Cristóvão. Nele está inserida uma igreja assinalada por uma cruz na frente do edifício:




 José Liberato




Plano Nacional de Vacinação.

 



Os contribuintes portugueses são um grupo de risco. 



Ricardo Álvaro 

O Mao e o Vilão.

 


A China vai de Mao a pior.



Ricardo Álvaro


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

São Cristóvão pela Europa (134).

 

 

Na impossibilidade de viajar, há que dar voltas à imaginação, pelo que vou propor visitas às imagens desaparecidas do nosso Santo.

Talvez a mais célebre é a que encontrava à entrada da Notre Dame de Paris que Victor Hugo menciona abundantemente em Nossa Senhora de Paris e que já aqui tratei em http://malomil.blogspot.com/2018/01/sao-cristovao-pela-europa-49.html

 



 

Este desenho é da autoria de Adrien Dausatz (1804-1868) que foi um viajante de meados do Século XIX que percorreu o mundo islâmico da sua época. O desenho, que se encontra nos reservados do Gabinete de Estampas da Biblioteca Nacional de França, foi feito posteriormente a 1785, data da destruição da estátua. Uma das hipóteses é ter-se inspirado em Denis Diderot (1713-1784), o célebre enciclopedista.

Já aqui se mencionou também um diálogo de Diderot e Voltaire sobre São Cristóvão. Foi em http://malomil.blogspot.com/2018/01/sao-cristovao-pela-europa-53.html

 

Mas existe outra referência. Diderot considerava Shakespeare um génio fruste e sem gosto, cujas obras são inaceitáveis para um público francês. Emite esta opinião em várias cartas e em especial no seu ensaio Paradoxo sobre o comediante, publicado postumamente em 1830, onde teoriza o papel do actor de teatro.

Escreve Diderot referindo-se a Michel-Jean Sedaine (1719-1797), um dramaturgo francês de sucesso na sua época, hoje razoavelmente esquecido:

Vejo-o como se fosse um dos sobrinhos-netos de Shakespeare. Esse Shakespeare que não se compara nem com o Apolo do Belvedere, nem com o Gladiador nem com o Antínoo, nem com o Hércules de Glicão, mas antes com o São Cristóvão da Notre Dame, colosso informe, grosseiramente esculpido, entre as pernas do qual poderíamos passar sem que a nossa cabeça tocasse nas suas partes vergonhosas.

 


Durante a II Guerra Mundial, a cidade alemã de Dresden foi vítima de uma das maiores destruições de património a que se tem assistido. A sua praça principal, era, e é, a Altmarkt.

Foi reconstruída parcialmente.

Um dos edifícios perdidos foi a chamada Casa Gótica, na esquina com a Schlossstrasse. Valha a verdade que, na sequência de profundas alterações em 1861 e no princípio do Século XX, de gótica já tinha muito pouco. A fachada ostentava três estátuas em arenito: a Virgem Maria, São João Evangelista e o nosso São Cristóvão.

Existem fotografias de 1900 e 1910:







José Liberato





quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Uma paixão simples.

 



Esse homem, nunca mais vou voltar a vê-lo. No entanto, é este regresso, irreal, quase inexistente, que dá à minha paixão todo o seu sentido, que é não ter nenhum, e ter sido durante dois anos a realidade mais violenta que se possa conceber, e a menos explicável.

 





Apanhados pelo vírus.

 



O David Marçal e o Carlos Fiolhais fizeram aqui um belo e muito informativo livro. Li-o ontem à noite, de um fôlego. Na primeira parte, além de muitos e sólidos esclarecimentos sobre o que é a Covid-19, de conselhos práticos (lavar as mãos e arejar as divisões), um historial do que tem sido este ano. É impressionante vermos reunidos factos e afirmações – não só de Trump, o principal alvo, mas também da OMS, que só muito tardiamente aconselhou o uso de máscaras – que, no vórtice de tanta notícia, nos fomos esquecendo. Num certo sentido, este é também um belo livro de História. A segunda parte entra de pleno no combate que os dois autores vêm travando há muitos anos contra a pseudociência e a charlatanice. O nível de desinformação e fake news que ali vemos é criminoso, absolutamente criminoso. No final, ficamos com a sensação de alguma prudente reserva quanto aos processos que estão a levar às actuais vacinas (mas sem, de forma alguma, se aderir à palermice da anti-vacinação) e também quanto ao facto de, por natural urgência, muitos artigos científicos estarem a ser divulgados sem as necessárias cautelas, nomeadamente quanto a peer-review, o que já deu azo a alguns disparates. Disparate maior, inacreditável, é, como se diz no final, que uma editora como a Marcador, ligada ao grupo Presença, tenha dado à estampa um livro inenarrável, Coronavírus,Um Vírus Assassino, de um tal Igor Prokopenko, no qual se dizem pérolas como esta «os cientistas encaram seriamente a origem extraterrestre do novo coronavírus chinês». Que vergonha, que completa vergonha.







quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Portugal é mesmo, mesmo Sensacional.



https://www.facebook.com/1551152957/videos/10223833917666477/





 



Eduardo Lourenço e Vergílio Ferreira.

 


 

Foi durante o Congresso, realizado em 1996 na Universidade de Coimbra, para comemorar o quarto centenário da primeira edição da poesia lírica de Camões. Estávamos a entrar para a sessão de abertura, realizada no anfiteatro da Faculdade de Letras, quando uma estação de rádio portuguesa noticiou que Eduardo Lourenço tinha sido galardoado com o Prémio Camões desse ano. Como Eduardo Lourenço se encontrava no átrio do anfiteatro, dirigi-me logo a ele e dei-lhe os meus mais sinceros parabéns pelo Prémio tão merecido. Eduardo Lourenço agradeceu os parabéns e segredou-me ao ouvido:

– Ó Cirurgião, aqui só para nós, que ninguém nos ouça: se o Vergílio Ferreira estivesse vivo, mandava-me imediatamente um telegrama, seguido depois de uma nota na sua letra muito miudinha, e dizia-me assim:

- Eduardo, parabéns pelas coroas. E tinha toda a razão – continuou o autor de O Labirinto da Saudade. Não imagina o jeito que estas coroas me fazem! Como deverá saber, há uma grande crise de desemprego na França, e eu tenho o filho desempregado há muito tempo.

Foi assim, com esta reacção tão humana, a traduzir uma simplicidade extraordinária, que um dos maiores pensadores portugueses vivos e mestre exímio de ensaístas, críticos literários, filósofos e prosadores reagiu à notícia sobre a sua entronização no templo da fama, ao lado dos expoentes máximos oficiais do mundo das letras em língua portuguesa, o qual, dentro de momentos, iria fascinar e deleitar a selecta assistência com uma brilhante lição sobre Camões, príncipe dos poetas portugueses. 

                       

 

 António Cirurgião



Ainda as há.

    

Folhas e cores. Folhas coloridas.

Bunte Blätter (Folhas Coloridas), Op. 99: No. 1, de Robert Schumann.

Em dois tons: pelo garridíssimo Arcadi Volodos e pela pretérita mais-que-pefeita Clara Haskill.

 




 

Manuela Ivone Cunha




 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O mundo é um lugar triste (mas divertido).

 



https://observador.pt/2020/12/01/policia-de-bruxelas-interrompe-festa-de-sexo-em-confinamento-entre-os-presentes-estava-um-eurodeputado-que-se-demitiu/






E esta?



 



Tardes de feriado 2020.

 

 

Passear o cão na cidade morta.

 

A cidade morta /Die tote Stadt - "Gluck, das mir verlieb", de E. W. Korngold, por Jean-Yves Thibaudet




 

Passear o cão / Walking the Dog" de G. Gershwin,pela Saint Louis Symphony Orchestra





Manuela Ivone Cunha