terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O Príncipe Maquiavélico?


 




“Todos vêem o que tu aparentas ser, poucos sabem realmente aquilo que tu és;

e esses poucos não se atrevem a contrariar a opinião dos muitos.”

Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Capítulo XVIII, 1532

 

No 40.º aniversário do noivado de Carlos de Inglaterra

e Diana Spencer, a 24 de Fevereiro de 1981.

 



Numa recente visita virtual à KPMG para assinalar os 150 anos da empresa, a Rainha Isabel II falou através de uma plataforma electrónica com sócios e funcionários. Entre eles estava John McCalla-Leacy, ex-atleta olímpico, sócio da KPMG e o primeiro negro a chegar ao Conselho de Administração da empresa.

 

Nascido em Londres, filho de pais jamaicanos, cresceu num típico bairro operário com um ambiente duro. Durante a conversa, John McCalla-Leacy pediu à Rainha para transmitir o seu agradecimento ao Príncipe de Gales pela oportunidade que, através da sua fundação The Prince’s Trust, recebeu enquanto jovem e que lhe permitiu encontrar novos horizontes e chegar onde chegou.

 



 

Isabel II realçou o orgulho que o Príncipe de Gales tem na The Prince’s Trust, uma organização que ao longo da sua história de quase 45 anos ajudou centenas de milhares de jovens de ambientes desfavorecidos a encontrar a sua oportunidade de mobilidade social, de fazer com que o elevador social funcione.

 

Já há dois anos, a longeva Rainha, sublinhando o privilégio de qualquer mãe fazer um brinde nos 70 anos do filho, lhe fez o rasgado elogio de o considerar capaz de ombrear com qualquer herdeiro do trono da história, “um campeão da conservação das artes, um grande líder da caridade (...), entusiasta e criativo”.

 

Contudo, poucas pessoas associarão o Príncipe de Gales com estas características ou com estes elogios ou, sobretudo, com o extraordinário serviço que vem prestando ao longo dos anos, tal é a força mediática que consistentemente o oblitera, em detrimento dos revezes da sua vida matrimonial ou das roupas usadas pela sua mulher ou pelas suas noras.

 

O Príncipe de Gales será uma vítima precoce da ‘cancel culture’, destinado a ver vilipendiado nos média e nas redes sociais, diga o que diga – ainda que diga o que está certo.

 

* * *

 

Quando Nicolau Maquiavel escreveu O Príncipe, a obra que perpetuou o seu nome enquanto autor mas sobretudo enquanto adjectivo para qualificar a perfídia e a falta de princípios, já Henrique VIII reinava em Inglaterra com Catarina de Aragão, a primeira das suas seis mulheres, a seu lado.

 

Notável pela brutalidade da sua análise e pela forma crua como subjuga princípios morais à concretização dos objectivos de poder, O Príncipe parece falhar na previsão da importância da vida matrimonial dos príncipes na manutenção desse poder. Tivesse Maquiavel vivido mais vinte anos e faria certamente uma adenda às edições subsequentes.

 

De facto, de Henrique VIII e memória colectiva retém pouco mais que a mnemónica “divorced, beheaded, died, divorced, beheaded, survived” para memorizar a sequência prodigiosa de mulheres com que tentou, sem sucesso a longo prazo, perpetuar nos seus descendentes a linhagem dos Tudor.

 

Pouco importam os seus grandes feitos políticos e as suas notáveis vitórias diplomáticas. Foi, para memória futura, o rei obeso que, para se divorciar, originou uma cisão na Igreja que dura até aos nossos dias e que tratou cruelmente seis rainhas, sempre em busca de um herdeiro.

 

O actual Príncipe de Gales parece estar há mais de 30 anos enredado em problema semelhante: tudo o que faz de bem parece evaporar-se da memória colectiva. A menção do seu nome desperta nas pessoas apenas a reacção às suas desventuras matrimoniais. A quarta temporada da série The Crown, da Netflix, abusa dessa imagem, inventando e distorcendo factos sem pudor, nem piedade. De tão bem feita que está, os espectadores facilmente esquecem que estão a ver uma ficção, ainda por cima muito parcial.

 

Ao longo dos episódios é-nos mostrado um príncipe que apenas se incomoda com a sua mulher, sem que se lhe veja qualquer acção positiva – num contraste com o Carlos da temporada anterior, preocupado em sublinhar a sua identidade e em vincar diferenças com uma instituição que é mostrada com algum do seu arcaísmo. Sobretudo, num contraste absurdo com a realidade.

 

É inequívoco que as questões matrimoniais foram, ao longo dos séculos, fundamentais para a realeza – e para as nações. O Padre António Vieira sintetizou-o de forma crua ao dizer que “reino sem sucessor é despojo”, no sermão que pregou pelo nascimento da Infanta D. Isabel Luísa Josefa, futura Princesa da Beira, filha de D. Pedro II, então Príncipe Regente, e da sua primeira mulher.  

 

A escolha de uma futura rainha (ou de um sogro poderoso) foi uma arma política importantíssima desde os alvores das monarquias como as conhecemos. Até meados do século XX, a escolha de uma consorte foi condicionada por factores políticos ou dinásticos, e eram, nas dinastias reinantes, verdadeiras decisões de Estado.

 

Muito embora tenha perdido a importância para a sobrevivência das nações a que o Pe. António Vieira aludia no seu sermão, a vida matrimonial do príncipe, do rei, terá sempre relevância constitucional e dinástica, seja pela posição que  tributo  de Inglaterra  assiste nas rr, preocupado em sublinhar a sua identidader a sua oportunidade de fazerr o à consorte estará destinada, seja pelo objectivo habitualmente subjacente ao casamento de um herdeiro, que é o de garantir a sucessão e a continuidade da Casa.

 

Não deixa de ser uma ironia que, quando perdeu boa parte a relevância para a sobrevivência do Estado, seja uma questão matrimonial a pairar de forma tão persistente como avassaladora sobre um reinado por começar.

 

Manifestamente prejudicado pela preponderância que a percepção da sua vida pessoal assumiu na opinião pública, o desempenho de Carlos enquanto herdeiro do trono – uma posição difícil, de esperar, pacientemente e certamente sem nunca o desejar, que a mãe morra, para se cumprir o destino que lhe estava reservado quando veio ao mundo – é totalmente ignorado. E, no entanto, destaca-se pelo acerto das causas que abraçou.

 

* * *

 

Mobilidade Social, Ambiente e Arquitectura serão os temas mais marcantes da acção desenvolvida pelo Príncipe de Gales desde que, tendo completado a sua educação universitária e militar, se estabeleceu como herdeiro do trono a tempo inteiro, há bem mais de 40 anos.

 

Com cerca de 7.400 libras esterlinas da indemnização que recebeu ao sair da Marinha, fundou a The Prince’s Trust, ou Fundação do Príncipe, porventura a sua mais notável criação. Através de uma rede de micro projectos e de ligações a empresas, constituiu uma rede para apoiar a formação e a empregabilidade de jovens oriundos de ambientes desfavorecidos.

 

Quase um milhão de jovens terão sido ajudados ao longo de quatro décadas, com um impacto económico enorme mas sobretudo com uma relevância social incalculável, através de apoio financeiro de talentos e de start-ups, de formação, de estágios.

 

São muitos os testemunhos de pessoas que, ao longo destes 40 anos, foram ajudados pela Fundação do Príncipe. De actores a músicos, passando por empresários que começaram com um apoio de 1000 libras da Fundação e acabaram a facturar 30 milhões anuais e a chegar à direcção de design da Coca-Cola.

 



Consciente do impacto da pandemia nos mais jovens, nos mais desfavorecidos e também nas instituições que vivem da angariação de fundos para os ajudarem, o Príncipe de Gales tem-se empenhado em encontrar novas formas de angariar fundos para o que o trabalho notável da sua organização não seja travado pelo Covid-19 e “a crise não defina as oportunidades de uma geração”.

 

Num vídeo publicado em Junho de 2020 refere o desafio de vencer em tempos do caos e da desordem económica, mas que “foi por isso que a minha Fundação foi fundada, para ajudar pessoas para um futuro melhor”. Mais do que boas intenções, a Fundação tem resultados concretos para apresentar.

 

Será porventura no Ambiente que a intervenção de Carlos de Inglaterra é mais constante ao longo do tempo. As primeiras intervenções sobre o assunto remontam ao início dos anos 70, quando o plástico ainda parecia a última maravilha e ninguém conseguiria convencer o mundo ‘moderno e promissor’ dos riscos que a poluição representava.

 

Ainda recentemente, falando com evidente paixão e conhecimento de causa, o Príncipe de Gales lançou mais uma iniciativa para sensibilizar o mundo para necessidade de para a destruição da natureza com efeitos permanentes, pondo em causa o futuro dos nossos filhos e netos. Mais do que alertar, a iniciativa pretende, sector a sector, analisar de forma concreta a forma como se pode descarbonizar a indústria e torná-la mais sustentável e amiga do ambiente.

 


 

Durante a polémica visita do polémico Presidente Trump a Londres em 2019, confrontou-o com o seu negacionismo das alterações climáticas, apelando à mudança de posição, mesmo sabendo de antemão a parede que tinha diante dele. Já este ano, representou o Reino Unido na cimeira virtual pelo ambiente que o Presidente Macron organizou e quase todos os meses incentiva os ingleses a fazerem algo positivo a pensar no Mundo em que vivemos.

 

A intervenção de Carlos de Inglaterra nos diferentes domínios e não apenas nos enumerados, mereceria uma análise mais exaustiva, que desiludiria porventura os que procuram o brilho de diamantes e de lantejoulas, mas que elucidaria sobre a utilidade, no século XXI, da Monarquia britânica.

 

* * *

 

Maquiavel sublimou a imoralidade ao subjugar os princípios para privilegiar os fins, que tudo justificavam. O autor de O Príncipe defende a dissimulação, a mentira, a aparência, até evitar as boas obras – tudo como forma de manter o poder. Carlos de Inglaterra parece ter feito o contrário.

 

Escolheu admitir os seus erros privados em público. Quando podia ter esperado numa quietude cómoda, decidiu intervir. Fê-lo em nome dos princípios que considera relevantes para a sociedade – mesmo quando (ou sobretudo quando) a maioria, a opinião pública e a opinião publicada, vão em sentido contrário. O que é meio caminho andado para a impopularidade e para se tornar alvo do que se veio a designar a ‘cancel culture’.

 

Passou por defensor lunático do ambiente, quando ninguém via o ambiente em perigo. E, no entanto, há registos do Príncipe, há 50 anos!, a alertar para o perigo que os plásticos representavam para os oceanos.

 

Passou por retrógrado quando ainda nos anos 70 se insurgiu contra a destruição da construção tradicional e a devastação do campo britânico para construir bairros descaracterizados, sem alma e insustentáveis. E, no entanto, a realidade tem vindo a dar-lhe razão, com o abandono sistemático de prédios e bairros construídos nessa época ou com a constatação de que se transformaram em locais nada aconselháveis.

 

Escreveu a ministros e a Primeiros-Ministros, procurando usar a sua influência para mudar decisões que considerava erradas. Sucessivos governantes, especialmente trabalhistas, queixaram-se desse método de agir na margem (ou no vazio) da constitucionalidade – chegando a questionar no Parlamento o direito de o Príncipe fazer essa ‘pressão’.

 

O The Guardian, sempre muito pouco monárquico, procurou ter acesso aos memorandos que acabaram conhecidos por “Black Spider memos” e que, na opinião de alguns, mostravam um Príncipe a ultrapassar as barreiras constitucionais de intervenção nos assuntos de governação.

 

Os documentos acabaram por ser divulgados por ordem judicial e mostravam uma enorme latitude de intervenção política, mas sobretudo o entusiasmo que Carlos de Inglaterra colocava na defesa dos assuntos que abordava. A questão tornou-se de tal forma relevante que há dois anos o Príncipe teve de esclarecer que, enquanto rei, não actuaria da mesma forma.

 

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A longuíssima era isabelina que a Inglaterra vive desde 1952 é inédita por muitos motivos. Não é apenas o reinado mais longo de sempre, assistindo sob o peso de uma mesma coroa à passagem solene de primeiros-ministros, papas e presidentes. É também aquele que é sujeito a um escrutínio mais exigente, não apenas da soberana, mas de toda a sua família, de cada gesto privado e público.

 

Se é verdade que o poder de Isabel I de Inglaterra (r. 1558-1603) era bastante maior do que o da sua homónima, não é menos verdade que as mudanças sociais, políticas, religiosas e tecnológicas nunca foram tão profundas como no actual reinado. O reinado que se segue começará num mundo radicalmente diferente daquele, ainda reverencial, que viu uma jovem de 26 anos tornar-se Rainha de Inglaterra.

 

Em  1992, para comemorar os seus 40 anos de reinado e num momento de enorme fragilidade pessoal, Isabel II pronunciou aquele que é certamente um dos mais relevantes discursos da sua vida. Para a história ficou conhecido como o discurso do “annus horribilis”, mas é na reflexão da Rainha sobre a importância do decurso do tempo e da retrospectiva no julgamento dos acontecimentos, que está a parte fundamental.

 

Usando palavras que pareciam ecoar as de Cristo – «Quem de vós estiver sem pecado, atire-lhe a primeira pedra!» (Jo 8, 7) – Isabel II pediu compaixão, tolerância e gentileza, ainda que reconhecendo a necessidade de mudança e de adaptação de todas as instituições, incluindo o Monarca.

 

É inequívoco que a Monarquia tem procurado adaptar-se às novas circunstâncias – para permanecer relevante e útil a uma sociedade em que muitos procuram mostrá-la como desajustada.

 

O Príncipe de Gales tem sido o líder desse objectivo de modernização e de adaptação à nova realidade, como qualquer análise séria e descomprometida permitirá verificar. Tem-no feito, contudo, sem evitar os temas difíceis.

 

A utilidade que procurou dar ao lugar que ocupa foi a resposta a um certo vazio funcional da sua posição. Sem fazer sombra à Soberana, procurar servir o povo britânico e cumprir a divisa que acompanha o seu título: Ich dien (Eu sirvo). Maquiavel ficaria desiludido.

 

Ademar Vala Marques







1 comentário:

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