segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

São Cristóvão pela Europa (257).

 


Há outras imagens de São Cristóvão no Alentejo.

No Crato, no Núcleo Museológico da Igreja Matriz, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, uma imagem bem antiga do nosso Santo.

 


 

Em Cuba do Alentejo, a Igreja do Carmo foi concluída em 1654. De um dos lados foi também construído um Convento atribuído às Recolhidas da Ordem do Carmo, doutro a horta e o pomar.

No interior, uma pintura a fresco, de grandes dimensões, hoje em mau estado, representando São Cristóvão.

Tem uma inscrição, muito difícil de ler, mas que permite uma datação: Este quadro mandou fazer o Padre João Mendes Vieira, capelão do Padroado que instituiu Martinho Janeiro Sebolinho de Barahona. No ano de 1759.

 


 

                        Fotografias de 8 de Dezembro de 2023.

 

                                                                José Liberato





Maria Veleda.


 



No final do século XIX, Portugal era um país agrário e tinha mais de 90% de analfabetos. Por serem consideradas frágeis (lembra-vos algo que disse um candidato do Chega, recentemente?), as mulheres só podiam ser educadoras, médicas ou funcionárias públicas, não podiam pedir o divórcio e eram tuteladas pelos maridos. Os homens podiam votar. As mulheres, mesmo as que tivessem estudos e uma profissão, as solteiras e chefes de família, não podiam votar. 

Maria Crispim era solteira, tinha dois filhos e trabalhava como educadora quando começou a escrever crónicas nos jornais. Designou-se Maria Veleda, em homenagem à sacerdotisa germânica que liderou o seu povo e enfrentou o Império Romano. Escreveu na imprensa do Algarve, primeiro, e depois em jornais nacionais, sediados em Lisboa, onde se tornou professora. O foco da sua escrita, e também o das peças de teatro que encenou, foi quase sempre a condição feminina: o desinvestimento do Estado na instrução das mulheres, a sua dependência económica em relação aos maridos, o impedimento legal a que votassem. Em suma, a ordem instituída que as considerava inferiores aos homens. 

Maria Veleda escrevia em tom cáustico, atraía respostas mordazes e ripostava na crónica seguinte. Era comum vê-la em debates políticos, praticamente sozinha entre mares de homens. Muitos deles eram-lhe hostis, mas outros, como Magalhães Lima e António José de Almeida, figuras máximas do republicanismo, incentivaram-na, tornando-a cronista d’O Século e dirigente da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.  

Com a Primeira República, que trouxe maior igualdade às relações conjugais e permitiu o divórcio, não chegaram a democratização da instrução nem o direito de voto para as mulheres. Numa época em que o movimento sufragista noutros países garantia mais direitos para as mulheres, não sem que muitas arriscassem a vida e fossem presas, a postura gradualista do republicanismo português gerava enorme frustração em Maria Veleda: “não sou sufragista, mas se o fosse pediria tudo e, se não dessem tudo, não aceitaria nada”, escreveu. António José de Almeida considerava-a “demasiado vermelha”. Em poucos anos, Maria Veleda desencantou-se do activismo e afastou-se. 

Mesmo depois do 25 de Abril, que trouxe o sufrágio universal ao nosso país, quando em 1976 foram atribuídos nomes de rua à urbanização da Quinta dos Condes de Carnide, a mais importante das ruas foi dada a Ana de Castro Osório, a gradualista antecessora de Maria Veleda na liderança da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. O radicalismo não deixou boa lembrança. Será por esse motivo que a Rua Maria Veleda surge mais perto da Rua Adelaide Cabete, sublinhando que, mais do que o activismo político, o que ali se memorializa é a Obra Maternal de apoio a crianças órfãs, que dirigiram.

 

                                                Rui Passos Rocha


domingo, 25 de fevereiro de 2024

Cesário Verde.


 



Neste mesmo dia, em 1855, nasceu na baixa de Lisboa um filho de comerciantes. O pai tinha uma loja de ferragens na Rua dos Fanqueiros e esse filho, varão primogénito, foi encaminhado para a gestão dos negócios. Assim foi: em adulto, geriu a loja e lidou, também, com a exportação de fruta e vinhos, outro negócio da família. 

Acontece que este jovem chamado Cesário Verde viu morrer duas irmãs e um irmão. E que também ele, dos 22 anos até aos 31 com que morreu, padeceu da tuberculose que matou dois desses irmãos. Tamanho sofrimento familiar, mais as leituras que o moldaram, fizeram dele um observador sensível ao que o rodeava, em particular às vivências dos mais desfavorecidos. 

A poesia de Cesário Verde relata a pulsão de vida e o dinamismo do comércio na baixa lisboeta: os navios que chegavam e partiam, o rebuliço de gente, a força e a graça das varinas. Mas mais do que isso, fala-nos da sujidade, da pobreza, dos moribundos de cólera, peste e tuberculose, doenças que grassavam nos bairros pobres. Conta-nos, também, que nas noites sepulcrais de Lisboa, que lhe despertavam “um desejo absurdo de sofrer”, se ouvia um barulho aterrador vindo do Aljube: eram as “velhinhas e crianças” lá presas a baterem nas grades. 

A essa Lisboa decadente, e também à soturnidade industrial de Londres e de Liverpool, Cesário preferia o ar puro e a viçosidade da quinta de família em Linda-a-Pastora, nos arredores de Lisboa: a terra que sempre fazia brotar vida, as abelhas que “engordavam na vindima” e polinizavam, a poda das videiras, o trabalho braçal, dele próprio, dos seus e dos contratados. 

Tanto os seus poemas urbanos e decadentistas, entre eles “O Sentimento de um Ocidental”, como os pastoris, de que se destaca “Nós”, foram ridicularizados ou simplesmente ignorados pela crítica literária da época. Os poetas queriam-se eruditos e românticos, não a versejar sobre “o peixe podre [que] gera os focos de infecção”. Cesário Verde morreu sem saber que viria a ser considerado um dos principais poetas da modernidade portuguesa. Para isso foram essenciais o seu amigo Silva Pinto, que coligiu os seus poemas em livro, e Álvaro de Campos, o heterónimo de Fernando Pessoa que venerava Cesário Verde. 

Republicano convicto, é homenageado em Lisboa, desde o início da década de 1920, através de um Jardim Cesário Verde. E o Estado Novo, que nele se inspirou para a propaganda da ruralidade, acrescentou a esse jardim o busto que aqui vemos.  

 

                                                           Rui Passos Rocha


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Gisberta Salce Júnior.

 



Há exactamente 18 anos, num dia 22 de Fevereiro, morria Gisberta Salce Júnior no Porto. Causa da morte: afogamento. Causa da causa: sete dias (sete!) a levar pancada de um grupo de 14 rapazes adolescentes, que a deixaram inconsciente e, temendo tê-la matado, resolveram atirá-la para um poço.  

Causa da causa da causa: transfobia. Causas da causa da causa da causa: invisibilidade social das pessoas transgénero e hostilidade generalizada para com elas, bem como o facto de que os 14 adolescentes, nascidos em contextos de violência e negligência, estavam entregues a uma instituição de acolhimento cuja ideia de integração social consistia em ensinar um ofício e o temor a Deus, bem como em, aos fins-de-semana, deixar jovens com tal passado à sua sorte, livres para cirandar e asneirar pela cidade. O local onde encontraram e mataram Gisberta ficava a 40 minutos a pé da instituição que os (des)acolhia. 

Gisberta nasceu no Brasil e emigrou aos 18 anos, fugida de uma vaga de assassinatos transfóbicos. Viveu no Porto os últimos 20 dos seus 46 anos de vida. Nos últimos 10, com SIDA. Fez de Marilyn Monroe em espectáculos transformistas na noite portuense, prostituiu-se para ganhar a vida. Foi sem-abrigo nos seus últimos anos. Esse foi o estado em que 3 dos 14 adolescentes a encontraram e, apiedando-se dela inicialmente, lhe deram de comer, conversaram com ela, voltaram várias vezes. Até que falaram dela aos outros 11 e tudo descambou. 

O horror da morte de Gisberta levou Pedro Abrunhosa e Maria Bethânia a cantá-la, originou peças de teatro e uma curta-metragem premiada (em breve, também o fabuloso livro de Afonso Reis Cabral sobre o tema será vertido em filme). Os crimes transfóbicos passaram a ter penas pesadas, nasceram o Centro Gis e a Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto para dar apoio e visibilidade às pessoas transgénero. 

Outra prova de que Gisberta não morreu em muitos corações é que em breve haverá uma Rua Gisberta Salce Júnior no Porto. Ficará entre a Rua e a Travessa das Eirinhas, na freguesia do Bonfim. A poucos minutos de onde Gisberta teve casa e dois cães, e a ainda menos minutos de onde foi sem-abrigo e perdeu a vida de modo horrível.

                                                                Rui Passos Rocha 


Argélia: o tempo da Fraternidade? (11).

 


Também surpreendente é o Museu Nacional Público de Belas Artes em Argel.

Criado em 1927 na colina sobranceira ao Jardim de Ensaios de Hamma, é considerado o mais importante museu de arte da Argélia mas talvez mesmo de África.

Expõe naturalmente artistas argelinos sendo o escultor Paul Belmondo, o pai do célebre actor francês, o mais conhecido.

Mas a panóplia de arte europeia é vastíssima. 




Belmondo 

 


Auguste Rodin


 

Camile Pissaro 



Claude Monet

 


Henri Matisse

 

 

A biblioteca

 

Mas a arte contemporânea está também presente em Argel.

Uma galeria de arte contemporânea foi também visitada.

 



 

 

                                    Fotografias de 20 de Outubro de 2024

 

                                                                José Liberato

 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

São Cristóvão pela Europa (256).

 

 

 

Voltemos à Pátria! E ao Alentejo.

Em Vila Nova da Baronia, concelho do Alvito, existe uma lindíssima ermida rural construída no Século XVI em honra a São Neutel. Sofreu bastante no terramoto de 1755 e desde há algum tempo passou a ser chamada de Santa Águeda

É profusamente decorada por frescos datados do Séculos XVII e XVIII, o que contrasta com o facto de não haver nenhuma entrada de luz. Um deles representa São Cristóvão, algo deteriorado.

Várias outras capelas e igrejas da Região têm frescos.

 







 

Na freguesia de São Cristóvão, no concelho de Montemor-o-Novo, de que já aqui se falou, o Dr. Carlos Vences possui uma extraordinária colecção de arte sacra que inclui evidentemente o nosso Santo. Uma pintura sobre madeira e uma imagem talvez do Século XVIII. Agradeço, sensibilizado, ao ilustre colecionador a hospitalidade.

 



 

 

                          Fotografias de 28 de Setembro de 2023 e 8 de Fevereiro de 2024

 

                                                            José Liberato






segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Argélia: o tempo da fraternidade? (10).

 


 

Um dos locais mais surpreendentes de Argel é o chamado Jardim de Ensaios de Hamma.

Criado em 1832 pelos franceses num local pantanoso e insalubre, destinava-se a sanear a cidade, mas também a constituir um jardim onde pudessem ser feitos estudos científicos sobre a adaptação de espécies botânicas ao clima local. O mesmo foi feito pelos franceses em outras paragens como os Camarões, Marrocos, o Congo ou as Maurícias.

Hoje é um jardim botânico que atrai famílias e visitantes atraídos pela sua beleza extraordinária.

Tornou-se célebre por servir de cenário em 1932 ao primeiro filme de Johnny Weissmuller (1904-1984) como Tarzan: Tarzan, o Homem Macaco.

 







 

                                                Fotografias de 20 de Outubro de 2023

  

                                                                                    José Liberato




domingo, 18 de fevereiro de 2024

Carta de Bruxelas.




 

                                                                                                    Dois em um

 


O antigo Primeiro-Ministro holandês, Dries van Agt morreu por eutanásia, acompanhado da sua mulher, Eugenie, num casamento de sete décadas. As reações afinaram pelo mesmo diapasão: tão bonito, acabar a vida assim, de mãos dadas com quem se ama – o pormenor que encantou o mundo. O derradeiro acto que coroa uma vida, com um adeus a dois.

A morte liga-se directamente ao kitsch, tal como o amor. Por razões de fundo.  Tratando-se das desestabilizações existenciais por excelência, cada uma delas dependendo da outra, conjuram inexoravelmente a transfiguração estética. Em vez do horror da decomposição do cadáver ou das cinzas, mais higiénicas, o corpo, sujeito às práticas estético-tantológicas, ironicamente retratadas por Evelyn Waugh n’ O Ente Querido, não mostra o nada que já é, torna-se uma aparência em negativo. Também o kitsch, basta lembra a provável etimologia do termo, pretende enganar. E com os mesmos objectivos: criar a aparência de uma harmonia inexistente, sossegar o pensamento, aferrolhar a imaginação.  A vida, porém, não é da ordem da estética. Avaliar uma vida esteticamente é cortar os laços do tempo antes do tempo. Só a vida dos mortos poderá ser bela. Para os Gregos de nenhum homem se podia dizer que era feliz antes de morrer. Enquanto o tempo corre, a vida pertence à vida, por mais que a morte brilhe como uma promessa; talvez por isso, no famoso poema de Dylan Thomas, são os adjectivos, ao introduzirem a nota da contradição, que fazem dele algo mais do que um apelo ou um pedido prosaico: do not go gentle into that good night. Fora do tempo, a vida pode revestir-se de um sentido estético, ser vista como uma obra de arte. Mas não no tempo, não enquanto for causa de sofrimento, não enquanto constituir uma interrogação para si mesma, não enquanto estiver ligada aos outros. Pode até suceder que seja necessário matar para que ninguém morra como numa obra de arte, para que o kitsch não se imponha, porque também ele pode ser assassino. Karen Blixen ilustrou modelarmente o problema em O Poeta, o último dos Sete Contos Góticos.

A pressão, às vezes sub-reptícia, às vezes insinuada, às vezes ostensiva, às vezes diáfana, a que são sujeitos os velhos, pela inutilidade, pelo estorvo, pelos custos, e sabe-se lá por que mais, fá-los interiorizarem o desvalor radical da sua vida. Há, ainda assim, uma consciência da verdade do negócio. Sabe-se bem o que se está a trocar. A fealdade moral da transacção não escapa a ninguém. Primeiro, foi o deslize lexical, falsamente moral – a eutanásia era uma morte digna – mantinha-se assim o horizonte do esforço e da superação, tanto no acto pessoal da escolha como na superação da resistência social que se associava à causa.

 Mas, agora, o kitsch à condenação acrescenta a mentira. Apesar das flutuações nos números, a prática da eutanásia a dois está a aumentar. Só é necessário que os velhos interiorizem como o momento será belo, para que o caminho fique desimpedido e suavemente se desapareça, quase sem morrer. Ser-lhes-á extorquido o acto a expensas da falsa consciência, a deles, tantas vezes debilitada, e a dos que ficam, que, além de se furtarem à má consciência moral, passam a dispor do plus de uma boa consciência estética: são os espectadores enternecidos da morte alheia.

De mãos dadas, tão bonitos! É o dois em um, e num duplo sentido.

 

                                                                João Tiago Proença


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Dia dos Namorados.

 




Hoje é aquele dia do ano que muitos casais comemoram e que para outros casais é indiferente; que pessoas solteiras gostariam de comemorar e outras acham uma piroseira. Um dia que se diz dos Namorados, mas que a Igreja, que o instituiu, prefere chamar de São Valentim – porque não só isso puxa a brasa à mitologização dos santos mártires, mas também acentua a importância do casamento (católico), que é, dizem, o verdadeiro sinal de união entre duas pessoas (heterossexuais). 

Por falar disso: não há provas de que o bispo romano Valentim, do século III, tenha celebrado casamentos num tempo em que estes estariam supostamente proibidos pelo imperador. Nem que ele tenha curado da cegueira a filha do seu carcereiro e, logo depois, caído de amores por ela. A própria Igreja, que o santificou, abandonou a celebração do Dia de São Valentim há cerca de 50 anos. 

Restam então os namorados, que existem e são muitos, felizmente. Pois se tiverem relações verdadeiramente amorosas (sejam elas monogâmicas ou de outros tipos, entre pessoas com as identidades de género x, y ou z), o que é certo, diz-nos a ciência, é que tendem a ter melhor saúde mental, melhores índices de pressão arterial, colesterol e inflamação, uma maior capacidade de entrega aos outros, um maior sentimento de bem-estar e de realização pessoal. 

O problema, muitos dirão, é que as Escadinhas do Amor (em Caneças, Odivelas) muitas vezes desembocam numa Rua do Jogo (na freguesia de Amor, em Leiria). Assim é. Porém, não faltam também casos de ruas dos Amores que acabam bem, como a dos arredores de Braga amorosamente colada a uma Rua dos Abraços.  

De todos os topónimos adequados a este dia, o meu preferido é o Jardim dos Namorados da cidade onde cresci, Penafiel. Não porque lhe associe memórias amorosas (olhem, não calhou), mas pela tranquilidade desse recanto, a beleza do seu verde, o ar puro que ali se respira e as vistas deslumbrantes – e também pela óptima biblioteca e a deliciosa pastelaria ali mesmo ao lado, bem no centro da cidade. 

 

                                                                    Rui Passos Rocha


terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Argélia: o tempo da fraternidade? (9).

 

 

Duas mesquitas se distinguem em Argel.

A Mesquita El Djedid foi construída em 1660 pelos Turcos e é também conhecida pela Mesquita das Pescas. Escapou à reconversão urbanística feita pelos franceses no Século XIX nesta zona da cidade.

Segue a forma de uma cruz latina como se fosse uma igreja cristã, o que pode ser explicado pela vontade de seguir um estilo bizantino. Outros elementos distintivos são a sua cor branca e o relógio da época francesa.

 


Outra mesquita situa-se no Casbah e é conhecida como a Ketchaoua ou Planalto das Cabras. Data de 1612 e acaba de ser restaurada.

No local existiram anteriormente as termas romanas e um próspero mercado de escravos.

A Administração francesa transformou-a em catedral de São Filipe, consagrada em 1860. Aqui se celebraram em 1921 as cerimónias fúnebres do compositor Camile Saint-Saëns.

Em 1962 voltou a ser mesquita.

 

 


O Monumento dos Mártires foi edificado em 1982 por ocasião do vigésimo aniversário da independência e desfruta de vista ampla sobre a cidade. Exibe uma estética comum a vários países árabes nessa época.

 





 

                                                Fotografias de 17 e 20 de Outubro de 2023.

 

                                                                                            José Liberato


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Tomás da Fonseca.

 



Leio sobre o início da vida dele e parece que estou a ler sobre o meu pai, nascido sete décadas depois: cresceu numa família de proprietários rurais; cedo se juntou à lavoura, tal como os muitos irmãos; teve de caminhar quilómetros e quilómetros, duas vezes por dia, para poder estudar; prosseguiu os estudos num seminário bem longe; e abandonou o seminário antes de se tornar padre, para desgosto dos pais. 

Mas ao contrário do meu pai, católico até hoje, Tomás da Fonseca tornou-se um ateísta fervoroso e militante para o resto da vida. Em artigos de jornal e nos livros que publicou, criticou o sadismo, a misoginia e a pedofilia nos seminários; escreveu que os professores deviam ser carinhosos para com os alunos, e não punitivos como era norma; pugnou por um ensino laico, liberto de obscurantismos e democrático (na região onde cresceu havia apenas uma turma para 12 raparigas em 20 quilómetros, enquanto três das muitas turmas para rapazes tinham falta de alunos). 

Foi assessor na Primeira República, odiou o sidonismo e ainda mais o Estado Novo, que o prendeu no Aljube por ter escrito sobre o Tarrafal. Criticou a beatificação de Nuno Álvares Pereira, instrumentalizado por monarquistas e conservadores no final da República. E, mais do que tudo, lançou-se de unhas e dentes contra o Cardeal Cerejeira e outros dois membros do clero por, juntos, terem montado a estratégia propagandística que fez das visões de Fátima, décadas antes, um fenómeno nacional e internacional com reconhecimento, até, pelo próprio Papa. 

Tomás da Fonseca morreu a 12 de Fevereiro de 1968, meses antes da queda de Salazar e anos antes do fim do Estado Novo. Bem no centro da sua Mortágua natal, a longa Rua Tomás da Fonseca serve de residência para a biblioteca municipal (a que foi dado o nome de um seu filho) e conduz os visitantes até uma Praceta 25 de Abril na qual se encontra um busto deste escritor, activista e professor. A apenas 10 minutos dali, de carro, chega-se a Santa Comba Dão e ao seu Largo Dr. Salazar. Duas mundivisões tão distintas em tão curta distância. 

 

                                                                    Rui Passos Rocha