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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

French Kiss (a saga continua).




 
Há muitos anos, numa galáxia distante, denunciei aqui e aqui o plágio descarado que a francesa Diane Ducret tinha feito à portuguesa Felícia Cabrita. Esta – que nunca vi na vida – intentou uma acção contra a copiona gaulesa. Ganhou na instância primeira, como é de justiça. Perdeu agora na Relação de Lisboa, que decidiu absolver Ducret, considerando – pasme-se – que não existiu plágio. Leiam e concluam, de boa-fé e sem preconceitos, se houve ou não plágio. E dos grandes. Concorde-se ou não com a fundamentação, há já algo que nos perturba: seis ou sete anos para resolver um caso destes? Que vergonha.
 
 

Não há coincidências.

 
 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

French Kiss.

 
 
 
 

 
         Já vão quase sete anos. Aqui no Malomil, denunciou-se um caso de plágio. A francesa Diane Ducret, escritora e colaboradora em vários órgãos de comunicação, como os canais France 3, Canal História e Europe 1, copiou, no seu livro Mulheres de Ditadores, de 2011, vários trechos da obra de Felícia Cabrita, Os Amores de Salazar.
         Não conheço e nunca vi na vida a jornalista Felícia Cabrita, mas li nos jornais da altura que se queixou às autoridades. Um dia, fui chamado à polícia, para dar testemunho do que escrevi aqui ou aqui (já agora, ver aqui, aqui, aqui). O relatório pericial concluiu ter havido plágio, como agora lei no jornal Sol  de 25/2/2017. O Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa condenou Diane Ducret a pagar uma indemnização a Felícia Cabrita e ordenou a apreensão dos livros da francesa que ainda se encontrem nos armazéns das Éditions Perrin, S.A., e da editora portuguesa da Srª Ducret.
         Não, não é Carnaval. É a vida, crua e real. Pour une fois, fez-se justiça.

 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

The Quesado Generator.

 
 

Jaime Quesado, quando jovem
 

 
 
Apesar de ter rosto e feições humanas, o Dr. Jaime Quesado, como sabemos, não existe. O que existe é um sucedâneo da Máquina de Turing, a Máquina de Quesado, também conhecida na gíria informática por Quesador. Feita de lata, de uma grande lata, o Quesador gera automaticamente textos, com sujeito e predicado, mas num dialecto próprio, o quesadês, que é uma linguagem empreendedora e tecnológica que ninguém percebe. Se alguém conseguisse ler o idioma quesadês rapidamente se daria conta que o Dr. Jaime Quesado anda há anos a reciclar os mesmos textos, ipsis verbis. A sinergia perfeita. Ou, para falarmos sério, o auto-plágio descarado.
Segundo consta, o Dr. Quesado é presidente de uma coisa chamada ESPAP – Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública. De facto, o nosso Jaimito tem partilhado à farta os seus serviços em diversos jornais e outras publicações de grande tiragem. Como nenhum editor os lê, ninguém se apercebe de que os textos-Quesado são um fraudulento negócio consigo mesmo, mantido ao longo de anos e anos de convívio público. Fernando Pessoa tinha heterónimos, Jaime Quesado basta-se a si próprio. Ele há Quesado nas versões 2.0, 3.0, 4.0, 5.0 e por aí fora, mas a base é sempre a mesma, desdobrada em notável intertextualidade. Mais do que um cronista, um grande clonista.   
A isto chama-se «empreendedorismo». Ou, se preferirmos, «inovação». Inovação tecnológica, mais precisamente. É só ir à pasta de arquivo do laptop, encontrar um texto com uns cinco ou seis anitos, e num ápice voltar a carregá-lo, revigorado e fresquíssimo, para as páginas de um jornal.     
Ainda ontem, nas entranhas do Público, o Dr. Quesado escreveu esta maravilha:
 
A sagacidade destas observações fez-me lembrar que já as tinha lido algures. Um discurso de Churchill, uma proclamação de Mandela? Não, um artigo de Jaime Quesado. De 2007, no Jornal de Negócios. Exactamente. Aqui vão pérolas:
 
 


Mais adiante, no Público de ontem, o Quesador volta a actuar com extrema eficácia. E diz, aos leitores incautos:
 
 


Olaré, já tínhamos lido isto em qualquer lado… Pois claro, no histórico artigo de 2007 do Jornal de Negócios. Descubra as diferenças:
 
 

Para os que estão de férias e querem um passatempo divertido, é prosseguir a comparação destes dois artigos, ou dos muitos que o Quesador tem gerado. Em 22 de Outubro de 2007, nas páginas do Jornal de Negócios:
 
 
Agora, neste flamejante Agosto de 2015, no Público:
 
 
 
O copy/paste é tão escandaloso que, em ambos os textos, até os erros de português se repetem. E isto, claro, sem que nenhum editor note. Repetimo-lo: ninguém é capaz de entender o dialecto quesadês. Daí que no Jornal de Negócios de 2007 lá apareça «aptência», e ontem, no Público, se reincida na calinada: «aptência».
Desengane-se quem julgar que foi um delito isolado, um deslize preguiçoso típico da silly season. O doutor Quesado, apesar de se apresentar como especialista em inovação, inova pouco. Não gosta, dá trabalho. E, sendo boas as ideias e melhores as frases, que razões existem para não repeti-las vezes sem conta? Ninguém nota, ninguém lê. De facto, quem tenha fôlego para mergulhar neste mar de vulgaridades

 
 
 
não demorará muito a perceber que é igual a este oceano de lugares-comuns. E, atenção, estamos só a citar um trecho, para não maçar os leitores. Um artigo é de Julho de 2015, no Económico, outro saiu no Sapo, em Fevereiro de 2011. Quatro anos de diferença, mas a prosa mantém-se igual, linha a linha, palavra a palavra. Equipa que ganha não muda.
Jaime, chupista sonâmbulo, é até capaz de publicar o mesmo texto no mesmo jornal. É obra. Em 8 de Abril deste ano, saiu no Económico opinião  de Quesado. Título? «A aposta nas pessoas». Em 6 de Fevereiro de 2012, saiu, também no Económico, um artigo que se chamava… «A aposta nos talentos».
No texto de 2015, opina Quesado:

 
 
         No outro texto, publicado quatro anos antes no mesmo jornal, escrevia Jaime:
 


Por vezes, o Quesador comete a proeza de fazer uma tripla. O mesmo texto aparece-nos em três lugares diferentes. Quem comprou o Económico de 22 de Julho de 2011 certamente terá recordado o que Quesado escrevera em 4 de Outubro de 2007 no Jornal de Negócios. Retumbante, originalíssimo, e também saído no Sapo, aqui. Discorre Quesado – pasme-se – sobre a «classe criativa» (o que, manifestamente, não é o seu caso). Assim:
 


Quesado não se repete, as pessoas é que não o lêem. O mesmo naco de prosa tanto serve para evocar a personalidade de Diogo Vasconcelos como para falar da região do Vale do Minho 2.0 (!)
No Público, 8 de Julho de 2015:
 
 
 
Agora, no verdejante Vale do Minho Digital:
 


O exercício é simples, mas só acessível a quem tem talento e audácia – ou uma grande lata. Onde estava «Vale do Minho» substitui-se por «Diogo Vasconcelos», vai ao Quesador, cinco minutos ao forno, e já está, temos texto. Ou, melhor, temos textos, muitos e vários, já que o artigo que saiu o mês passado no Público diz:
 

 
E o que dizia Jaime Quesado sobre Diogo Vasconcelos um artigo saído anos antes, em Julho de 2011, no Jornal de Negócios?
 
 
Apresenta-se agora uma nova tripla de refogado: colheitas de 2013, 2014 e  2015.
E há mesmo registo de autogolos com oito anos de diferença, envergando camisolas de diversos clubes.
A jogar no plantel do Público, época de 2015:
 


Defendendo as cores do Jornal de Negócios, época de 2007:
 
 
 
Com oito anos de diferença, as mesmas frases, inteirinhas, as mesmas ideias – ou a falta delas. Temos outros casos, todos bons, de que se dá só mais um exemplo. Seis anos separam estas reflexões. Sendo ambas proactivas e muito inovadoras, para quê mudar?
 
 
Isto foi no Jornal de Negócios, em 15 de Abril de 2009. Agora, no Económico, de 18 de Junho de 2015. Vira o disco:
 




A questão-Quesado é séria e grave. O problema não está num especialista em inovação e criatividade ser um auto-plagiador compulsivo. O problema é que uma opinião, emitida desta forma, não tem nenhum valor. Compra-se um jornal, paga-se pelo papel impresso, esperam-se ideias, boas ou más. Ora, se se diz a mesma coisa sobre Diogo Vasconcelos e o Vale do Minho, em que ficamos? «A ausência da prática de uma “cultura de cooperação” tem-se revelado mortífera para a sobrevivência das organizações e também aqui Diogo Vasconcelos foi sempre muito claro.» (Público, Julho de 2015). «A ausência da prática de uma “cultura de cooperação” tem-se revelado mortífera para a sobrevivência da Região.» (Vale do Minho Digital). Se se escreve exactamente a mesma coisa, sem tirar nem pôr, sobre Diogo Vasconcelos e o Vale do Minho, se se publica o mesmíssimo artigo sobre Diogo Vasconcelos no Jornal de Negócios, de Julho de 2011, e no Público, de Julho de 2015, que valor ou interesse tem o que se opina, o que se diz ou escreve? Zero, nada Aos editores dos jornais, por respeito aos compradores, aconselha-se que, antes de os publicar, façam uma passagem dos textos de Quesado pelo Google. Descobrirão maravilhas. Agora saber como é que uma pessoa que assim procede, copiando-se vezes sem conta, ludibriando os seus leitores, tem condições para presidir a um alto cargo da Administração Pública… isso é outra conversa, ainda mais séria e mais grave.
 
António Araújo
 

  

terça-feira, 7 de julho de 2015

French kiss.

 
 
 

 
A história remonta a finais de 2011 e começou aqui no Malomil (que continuou a acompanhar o assunto aquiaqui, aquiaqui e aqui). Passados alguns anos, li no jornal Sol, por um acaso, que Diane Ducret, autora de Mulheres de ditadores, foi formalmente acusada pelo Ministério Público de plágio a Felícia Cabrita, autora de Os Amores de Salazar. A justiça tarda – esperemos que não falhe.


terça-feira, 27 de novembro de 2012

«Nada neste livro é original».

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Justiça: Chegou a integrar conselho de jurisdição do PS
Advogado plagia livro de Direito
O ex-subdirector do Instituto Superior de Ciências da Administração (grupo Lusófona), Jorge Gregório, tem publicado um livro – ‘Introdução ao Estudo do Direito – teoria e prática’, da editora Quid Juris – com partes copiadas de uma obra de Manuel Cavaleiro de Ferreira, sem nunca a referir.
"Se aconteceu, foi por lapso", justifica o advogado Jorge Gregório, que chegou a integrar o conselho de jurisdição do PS durante a liderança de Sócrates. "Nada neste livro é original", admite. Confrontado com a ausência da referência à obra ‘Noções Gerais de Direito’, de Manuel Cavaleiro de Ferreira – professor falecido em 1992 – responde: "Se aconteceu, só pode ter sido lapso ou, provavelmente, as passagens estavam noutro livro que consta da bibliografia". A editora não comenta.
Suspeitas de plágio na tese de doutoramento levaram a Lusófona a retirar o grau de doutor a Jorge Gregório. A dissertação tinha sido entregue ao director de curso de Ciência Política, Fernando Santos Silva – responsável também pelas equivalências na licenciatura de Miguel Relvas –, tese que seria a mesma anteriormente recusada pela Universidade Portucalense. Jorge Gregório demitiu-se da docência no ISCAD no início deste mês.
 
 
 
 

 

domingo, 22 de julho de 2012

O Palácio Industrial do dr. Kahn.

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Fritz Kahn (1888-1962)

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Antes do 25 de Abril, muitos lares portugueses tinham nas suas estantes Nossa Vida Sexual, do dr. Fritz Kahn, em edição brasileira. Talvez seja essa a razão pela qual ainda alguns se lembram do seu nome. De certeza que a sua reputação em Portugal não se deveu às 64 páginas de O Mundo Maravilhoso dos Insectos, saído entre nós na década de cinquenta, na colecção “Biblioteca Mocho” da Editorial Organizações.

Médico ginecologista, de origem judaica, Fritz Kahn (1888-1962) notabilizou-se pela forma absolutamente inovadora e desarmante como apresentava o corpo humano. Em 2009, saiu um livro sobre ele, creio que o primeiro – e único – grande trabalho sobre Kahn. Fritz Kahn – Man Machine, de Uta von Debschitz e Thilo von Debschitz, publicado com a chancela da Springer, em edição bílingue (inglês-alemão). O livro, fascinante, mostra-nos o universo de Kahn em todo o seu esplendor mecanicista. Uma outra análise da sua obra pode encontrar-se neste artigo, aqui.
Sempre existiram metáforas antropomórficas, bastando recordar o celebérrimo frontispício de Leviathan de Hobbes (para não buscar exemplos mais remotos). Por outro lado, o organicismo foi uma doutrina política e jurídica que marcou a Europa, em especial a Alemanha. O que maravilha em Fritz Kahn é o modo como este explora o paralelismo entre o corpo humano e as máquinas, fazendo-o não com um propósito primordialmente estético mas didáctico. É óbvio que as suas imagens buscam a beleza, sofrem influências do surrealismo e de uma estética industrialista muito típica dos anos 20 e 30, estética que encontramos nos Estados Unidos ou na União Soviética ( onome que me ocorre de imediato é o de Viktor Koretski). Há também marcas de Art déco, do fotorrealismo documental em voga na época e do movimento Neue Sachlichkeit ("Nova Objectividade"). Simplesmente, a estética de Kahn, a maravilhosa estética de Kahn, fruto de uma imaginação prodigiosa e de uma inventividade desconcertante, não se esgotava em si mesma, visando antes ilustrar pedagogicamente, através da analogia corpo/máquina, o modo de funcionamento do corpo humano. Não hesitava em recorrer ao humor e à ironia, como os caricaturistas e os cartoonistas. Um dos exemplos mais curiosos é uma ilustração chamada “O médico do futuro”, de 1925. Um doutorado em Medicina a fazer desenhos assim? A sua obra mais conhecida foi.. um poster, “O Homem como Palácio Industrial”, de 1927.
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O Médico do Futuro, 1925. A fumar...


O Homem como Palácio Industrial, 1927



Não surpreende, pois, que milhares e milhares de pessoas tenham ficado de imediato seduzidas pelos seus livros, de uma tremenda originalidade e absolutamente fora dos padrões "normais" que caracterizavam as obras de divulgação científica da época. Imagens sobre imagens, todas diferentes; em cada uma delas, uma surpresa de inteligência e de inigualável talento narrativo. 
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A carta de Einstein para o cônsul dos Estados Unidos em Lisboa



Durante a República de Weimar, os cinco volumes de Das Leben des Menschen, que começaram a ser publicados em 1922, tiveram um sucesso estrondoso. Judeu, os nazis perseguiram-no. Expulso da Alemanha, fugiu para a Palestina e depois para França. Conseguiu finalmente escapar para Lisboa, graças a uma carta que Albert Einstein enviou ao cônsul norte-americano na capital portuguesa. Tendo-se fixado nos Estados Unidos, onde continuou a ser admirado e a ter êxito (inclusivamente, comercial), viu as suas criações serem plagiadas em livros de médicos e cientistas nazis. Primeiro, queimaram os seus livros; depois, copiaram-nos descaradamente. Com uma pérfida nuance: aditavam capítulos demonstrativos da superioridade da raça ariana e da inferioridade do povo judeu. No livro Der Mensch und sein Leben, Gerhard Venzmer copiou com despudor a obra de Kahn, acrescentando um capítulo intitulado “Ciência Racial e Pureza Racial”, em que fustigava sem piedade os “povos estrangeiros, particularmente os ciganos e os judeus”. 
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Pessoalmente, ao que parece, Kahn era um ser complexo, como as máquinas que desenhava. Sempre que se via acossado ou em perigo, fechava-se e escrevia, escrevia. Escrevia sem parar, horas a fio. Fê-lo nas trincheiras da Grande Guerra, para onde foi como médico; na casa de banho do seu gigantesco apartamento de Berlim, quando os nazis o começaram a rondar, ameaçadoramente; no campo de concentração em França, onde foi detido sob a acusação de espionagem. Um ser complexo e até desprezível. Senhor de um enorme magnetismo pessoal, era cheio de si, um exímio contador de histórias efabuladas, um sedutor e mulherengo que tratava as mulheres como objectos, exactamente como as máquinas que desenhava. Para ele, uma mulher deveria funcionar com uma precisão mecânica: servir-lhe de assistente, fazer investigação em bibliotecas, secretariá-lo, tratar-lhe das finanças e, se possível, cuidar da casa e do jantar. De igual modo, não ligava aos que não lhe interessavam para a concretização dos seus projectos, sendo muito pouco atento a filhos e netos. Mesmo do ponto de vista científico, não primava pelo rigor. O que lhe interessava, acima de tudo, era a popularidade – o que só seria alcançado se as pessoas gostassem e compreendessem os seus desenhos educativos, ao mesmo tempo complexos e simples. Uma vez, quando lhe apontaram erros nos seus trabalhos, respondeu: “Está bem, podem estar errados, mas as pessoas percebem-nos!”. Era só isso o que importava. Entrementes, interessou-se pela teoria da relatividade e pela filosofia oriental, não sendo por acaso que valorizava nesta a ideia de unidade entre todas as formas de vida. Mas, paradoxalmente, defendia o uso da Medicina como arma de guerra e fez a apologia da terapêutica hormonal como forma de a Humanidade alcançar a felicidade e a perfeição eternas. Em vida, teve grande sucesso, com uma bela casa em Long Island e nome a figurar na lista do Who’s Who. Em 1956, decide regressar à Europa, fixando-se na Suíça. Mas, de quando em quando, fazia périplos pelo solarengo Mediterrâneo. Em 1960, em Agadir, passou por uma estranha e horripilante peripécia: ao que parece, caiu num sarcófago, onde ficou encerrado horas a fio, no iminente risco de a tampa se fechar a todo o instante. Causou sensação por isso, sendo entrevistado para a televisão norte-americana. O cônsul da Dinamarca encaminhou-o, e à mulher Ellen, para esse país, onde residiu durante uns tempos. Entrou no ocaso. Na Dinamarca, os seus livros foram arrasados pela crítica, sendo objecto de escárnio. Com 79 anos, muito debilitado, decidiu viajara até Ticino, onde morreu contemplando um esplendoroso cenário alpino. “Rodeia-te de beleza…”, era a máxima de vida de Fritz Kahn. Morreu fiel a ela.
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Fritz Lang, Metropolis, 1927

Kraftwerk, The Man-Machine/Die Mensch-Maschine, 1978
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Apesar de ter sido esquecido durante muitos anos, a influência de Fritz Kahn é imensa e tem sido objecto de crescente interesse. Não terá sido o primeiro a retratar daquele modo o corpo humano, mas fê-lo de uma forma extremamente cativante, imediatamente apreensível para o cidadão comum e simultaneamente sedutora para os criadores artísticos. Fritz Lang inspirou-se nele quando realizou Metropolis e os Kraftwerk produziram em 1978 o álbum The Man-Machine. Mais recentemente, um trailer da MTV-Brasil, de Vinicius Costa, realizado em 2007, segue de perto a obra de Kahn. E, em 2009, Henning Lederer homenageou-o, neste vídeo:
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Vídeo de H. Lederer, 2009



Ilustrações de Fernando Vicente


Nos nossos dias, o ilustrador espanhol Fernando Vicente segue de perto, em muitas das suas criações, a abordagem de Fritz Kahn. E não só a analogia corpo/máquina é explorada em vários domínios, como se encontra perfeitamente instaurada uma cultura visual do corpo, em que aspectos relacionados com a Saúde, a História da Medicina ou outros servem de modelo e fonte de inspiração. Fala-se em "corporeidade"... Até Damien Hirst foi contaminado por esta pandemia estética e académica. Sem ofensa para ninguém, talvez a versão contemporânea mais acabada de Fritz Kahn seja a obra de Gunther von Hagens (n. 1945), o controverso mestre da plastinação de cadáveres importados da China. Agora, todas as máquinas, até as humanas, vêm da China. Sinais dos tempos.


 António Araújo
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