O
modo como pensamos as relações entre os estados e as
sociedades constitui matéria a ter em conta, posto que são precisamente essas
interações que produzem o que entendemos por política. Para o que está em
causa, e por muito legítima que possa ser, a utilização dos conceitos estado colonial e estado pós-colonial na compreensão das realidades africanas é
problemática. Tal utilização acaba por dificultar mais do que facilitar as
análises sobre a dominação colonial europeia em África nos séculos XIX e XX. Os
obstáculos resultam quer da forte carga afetiva que tais conceitos comportam,
como se eles nos impulsionassem aprioristicamente a identificar na história um
lado mau/injusto e um lado bom/justo e quanto mais valorativas e
emotivas são as apreciações menor a capacidade analítica, como escreveu Marx
Weber (2005 [1919] «A
ciência como vocação» in Ibidem,
p.135); quer sobretudo porque as expressões estado colonial «versus» estado pós-colonial induzem à
partida pressupostos de descontinuidade histórica na estrutura e funcionamento
dos estados com as transições para as independências africanas,
descontinuidades no tipo de domínio dos estados sobre as sociedades que, na
verdade, podem não ser tão evidentes quanto à partida supomos.
Quando se pensa o estado a partir das
sociedades sob a sua tutela, quando se pensa o estado com base nas
representações sociais (ou nos discursos de senso comum) descobrem-se outras
possibilidades de interpretar a natureza e ação do poder central. Nelas os
conceitos de estado colonial e estado pós-colonial surgem relativizados.
Torna-se, por isso, preferível utilizar apenas o conceito de estado, sem
quaisquer adjetivações.
Recorrendo, a título exemplificativo,
ao estudo de caso que realizei em Moçambique resultou consistente a tese de
existir, no tipo de domínio do estado sobre as sociedades, um maior
distanciamento entre os dois grandes momentos do período pós-colonial (a
primeira república de regime monopartidário, entre 1975 e inícios dos anos
noventa, «versus» a segunda república
do multipartidarismo, a partir dos anos noventa), do que entre o período
colonial (até 1975) e o período pós-colonial imediatamente seguinte (Ribeiro
2008, op. cit.).
Não se podem, contudo, fazer
generalizações abusivas. Todavia, identifiquei três núcleos que marcam uma
continuidade significativa entre o tipo de domínio exercido pelo estado em
Moçambique no tempo colonial e o tipo de domínio exercido pelo estado em
Moçambique durante a governação do primeiro presidente do país independente,
Samora Machel (1975-1986). Ou seja, a partir da perspetiva do senso comum é
legítimo inferir que, com a independência, o regime político mudou, mas o tipo
de domínio do estado sobre as sociedades nem tanto.
Um primeiro núcleo que sustenta a tese
da continuidade entre o colonial e o pós-colonial tem a ver com o modelo de
interação do estado com o mundo rural em Moçambique, assente numa postura
impositiva e violenta, espelhada no deslocamento compulsivo das populações em
algumas áreas. Primeiro para os aldeamentos, na época colonial. Depois para as
aldeias comunais, durante a governação pós-colonial monopartidária. Nada de
semelhante ocorreu desde a instituição do multipartidarismo em Moçambique nos
anos noventa.
Um segundo núcleo prende-se com a
regulação coerciva da ordem pública, avaliada como tendencialmente eficaz pelas
pessoas comuns, cujo efeito positivo era a garantia da estabilidade e
previsibilidade do social. Enquanto no multipartidarismo surgido nos anos
noventa em Moçambique, em pleno período pós-colonial, são conferidos ao estado
atributos como os de apático, passivo, laxista ou mesmo imoral na relação com a
lei e a ordem, por seu lado, no sistema colonial e na governação de Samora
Machel o estado, nos discursos de senso comum, ganha atributos de autoritário e
capaz de fazer respeitar a lei e a ordem (sobretudo na época colonial) ou os
princípios de governação (sobretudo durante o monopartidarismo socialista).
Um terceiro e último núcleo em que
sustento a tese da continuidade entre o colonial e o pós-colonial quanto ao
tipo de domínio do estado sobre as sociedades relaciona-se com o controlo,
pelas autoridades, do acesso e usufruto individual a bens de elevado valor
material ou simbólico: «Se você tivesse
muito dinheiro» (no tempo colonial) ou «Se
você tivesse um bom relógio ou uma boa casa» (no tempo do presidente Samora
Machel), «iam querer saber ‘onde você
apanhou dinheiro?’» ou «‘como você
conseguiu isso?’». A partir dos anos noventa esse tipo de controlo por
parte das autoridades deixou de existir.
Este conjunto de referências baralha
teses apressadas sobre a descontinuidade entre o colonial e o pós-colonial em
África no que tem a ver com a sedimentação das estruturas sociais naquilo em
que elas dependem da natureza do poder central. Verificaram-se, sem dúvida,
transformações importantes com os acessos às independências, mas persistiram
também continuidades não menos significativas.
Retorno ao exemplo de Moçambique para
assinalar uma hipótese interpretativa diferente, mas que corrobora a ideia dos
cuidados analíticos necessários nas interpretações das relações entre o estado
e as sociedades ao longo do tempo. Se em pleno período pós-colonial, com a
transição do monopartidarismo para o multipartidarismo, o estado passou a
integrar uma dimensão de contratualização na sua relação com as populações,
sobretudo por via da instituição de eleições multipartidárias livres realizadas
desde 1994, essa dimensão de contratualização retomou de algum modo uma
tendência equiparável introduzida nos inícios dos anos sessenta, em plena época
colonial, com o fim do estatuto do indigenato, do trabalho forçado e das
culturas obrigatórias do algodão e do arroz, tendência depois alterada por
atitudes bem mais impositivas por parte do poder central com o acesso à
independência em 1975.
O
essencial a inferir deste ponto é que a eficácia na compreensão da época
colonial cresce quanto maior for o conhecimento com alguma sustentabilidade da
época pós-colonial e da atualidade dos países africanos, o que implica a
procura de lógicas de continuidade na longa duração temporal.
Este foi o
último desta série de dez textos que servem de introdução à leitura do livro O colonialismo nunca existiu! Colonização,
racismo e violência: manual de interpretação (Lisboa, Gradiva, 2013).
Termino com
agradecimentos: (i) aos que participaram e/ou divulgaram esta iniciativa e
permitam-me que destaque os blogues que fizeram referência directa aos textos:
Domadora de Camaleões, Diário de um Sociólogo e Blasfémias (agradeço que me informem se omiti algum);
(ii) à editora Gradiva por ter prontamente apostado na publicação da obra; e
(iii), por último, a António Araújo por ter aceitado, sem hesitações e desde a
primeira hora, partilhar os riscos de uma iniciativa como esta no Malomil, numa
época em que o debate público sacrifica vezes de mais o tempo e o espaço
necessários à sustentabilidade e coerência de temas e argumentos.
Resta-me a
certeza de não ter enveredado por argumentos gastos, inconsequentes, empiricamente
insustentáveis ou que atentassem contra a dignidade de indivíduos ou povos. Não
sei se existem caminhos alternativos para renovar com responsabilidade cívica
domínios do saber (demasiado) sensíveis que, não raro, estagnam em estádios que
impedem o reforço da qualidade de vida de muitas e muitas pessoas dos mais
diversos cantos do mundo.
Feliz
Natal e Votos de Bom Ano de 2014!
Gabriel
Mithá Ribeiro
