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Os relógios do tempo
Margarete Buber-Neumann (1901-1989) foi uma testemunha com o destino do
século marcado a ferro na carne, deportada nos campos de Estaline e depois nos
de Hitler. Cruelmente, passa directamente de uns para os outros. Depois da
execução do marido, o dirigente do Partido Comunista Alemão Heinz Neumann, em
1937, na URSS, Margarete é condenada em 1938 a cinco anos de detenção num
campo. Em 1940 é entregue pelas autoridades soviéticas às autoridades
nacional-socialistas. Mais cinco anos em Ravensbrück. A dupla experiência
concentracionária foi passada a escrito num livro justamente célebre, Als Gefangene bei Stalin und Hitler. Eine Welt im Dunkel (1949). Sem a
ambição histórica dessa obra, Margarete
Buber-Neumann conta em Die
erloschene Flamme: Schicksale meiner Zeit (1976) alguns episódios em que se
cruzou com esses destinos de um século. Não se trata das grandes personagens,
embora também lá estejam, por exemplo Panait Istrati ou Milena ( a quem tinha
já dedicado um livro, o único traduzido para português).
Um dos casos incluídos nesse
texto é o de Karl Brunnengraber. A conversa narrada por Margarete Buber-Neumann é fruto de um acaso. Passageiros do mesmo voo de Berlim para Frankfurt,
calharam-lhes lugares contíguos, o que levou à conversa – e ao destino comum.
Ambos judeus alemães. Ambos antigos concentraccionários. Ambos a viverem na
Alemanha. Brunnengraber,
relojoeiro, conta como sobreviveu no campo – pai, mãe e irmãos já assassinados. Um S.S. deu-lhe um relógio de pulso para
reparar o mais depressa possível. De imediato, o prisioneiro percebeu que seria
poupado aos transportes, enquanto fosse necessário. Explica que não terminava o
arranjo antes de receber outro relógio para consertar. E assim «vivi por dois
anos de um relógio para outro». Pelo meio narrou outras peripécias. No fim da
conversa relatada pela autora, Karl Brunnengraber, reconciliado com a Alemanha,
mostra-lhe uma bracelete de relógio que patenteara e explica-lhe longamente de
que se trata; explicação, diz Margarete, «de que não comprendi uma só palavra».
E, acrescenta o relojoeiro, a última frase do capítulo, «na minha cabeça tenho
mais cinco invenções. Talvez ainda tenha tempo de as realizar todas....».
Involuntariamente, o
texto de Margarete Buber-Neumann expõe uma ambiguidade, que lhe inverte o título: Die Kraft zu Überleben. O que estraçalha o destino de morte não é a força para sobreviver, é a
força para viver. A ambiguidade
dos relógios é a ambiguidade do tempo. Os primeiros, avariados, corporizam o
tempo da morte iminente, em que cada minuto ganho é uma fuga, que se pode
malograr no minuto seguinte. É o tempo do terror. Os segundos encarnam a
invenção, a interrupção do novo, são o tempo pleno, o tempo da promessa – da
promessa de uma vida livre.
João Tiago Proença
António
Cirurgião é, além de amigo, um colaborador regular e já antigo deste Malomil.
Textos preciosos, preciosos. Agora, pelas Edições Vercial, de Braga, dois
livros da sua autoria, ambos à venda na Amazon:
Memórias
Literárias e Musicais
https://www.amazon.com/dp/B0F2SNBR1R
Memórias
Políticas
https://www.amazon.com/dp/B0F1Y8HJS4
Parabéns ao Autor – Boa Páscoa para todos.
Foi nas férias de verão de 1984. Por norma, tal como
tinha vindo a acontecer nos anos anteriores, deveria ter ido passar essas
férias a Portugal, onde, como de costume, se encontravam à minha espera a
família, os amigos, as bibliotecas, os arquivos, as livrarias, os alfarrabistas
e as esplanadas. Porém, como no dia 14 de dezembro de 1983 fora surpreendido
por um maciço ataque cardíaco de que tive de ser reanimado quatro vezes – duas
na sala de emergência e duas na unidade de cuidados intensivos - e que me
obrigara a passar mais de um mês hospitalizado no Saint Mary’s Hospital, em
Waterbury, Connecticut, fui compelido a fazer outros planos. Dado que nesse
verão de 84 ainda me encontrava em estado de convalescença, decidi ir passar as
ditas férias a Gez, uma comuna francesa, na região administrativa de
Auvémia-Ródono-Alpes, do Departamento de Aín, localizada no sopé dos Montes
Jura, a cerca de dez quilómetros do Colo de la Faucille e a dezasseis
quilómetros de Genebra, Suíça. E aí me instalei, no chamado “País de Gez”, no confortável
chalé campestre, de vistas deslumbrantes sobre os Alpes Franceses, onde residia
o meu antigo aluno e especial amigo Armand F. Pereira, alto funcionário do BIT
(Bureau International du Travail), em Genebra, o qual me acolheu e tratou com
uma hospitalidade fraterna.
E por quê em Gez, e não em Lisboa? Porque em Gez
poderia continuar tranquilamente a minha longa convalescença, ao ritmo
prescrito pelos médicos, ao passo que em Lisboa seria de tal maneira
apaparicado pelos membros da família, que, em vez de repouso, ver-me-ia forçado
a viver sob uma pressão contínua.
Como um dos remédios recomendados pelo meu
cardiologista consistia em evitar acarretar coisas pesadas, além da roupa de
vestir, reduzida ao mínimo, coloquei dentro de uma pequena bolsa de mão, ao
lado do passaporte, do bilhete de avião e dos medicamentos, um exemplar de
cinco obras de Fernando Pessoa, publicadas pela Ática: Poesias de Fernando Pessoa, Poemas de Alberto Caeiro, Odes de Ricardo Reis, Poesias de Álvaro de Campos e Mensagem por Fernando Pessoa.
Tendo, em mais de um semestre, incluído nos meus
cursos sobre poesia portuguesa Mensagem de Fernando Pessoa, e tendo verificado, com óbvia frustração, que, por
mais esforços que fizesse e mais voltas que desse à cachimónia, acabava sempre
por concluir que os alunos e eu nunca conseguíamos penetrar no âmago do misterioso e hermético poema,
perguntei-me se não seria conveniente aproveitar esse verão de “viajante sem
bagagem”, ou, melhor dito, de viajante sem biblioteca, para tentar, como
aconselha Rabelais na introdução a Gargantua, cravar o dente famélico e guloso na medula substancial
dessa obra de Pessoa. E foi assim que nessas férias de convalescença dos
ataques cardíacos só existiu um livro para mim: Mensagem de Fernando Pessoa. E foi assim que me pus a ruminar sobre
o significado desse poema épico de Pessoa, escrevendo notas no próprio livro ou
num pequeno caderno que me acostumei a trazer comigo, durante as escassas horas
do dia que não eram passadas a repousar, a dar longas caminhadas pelos campos,
a apanhar caracóis que o meu amigo Armand e os seus visitantes adoravam e eu
detestava; a dar passeios turísticos de barco pelo icónico Lago Genebra ou Lago
Lemano, coleccionando palacetes de escritores famosos e “petits châteaux”
encantadores, a espelhar-se, ufanos, nas águas límpidas e azuladas do lago; a
passar tardes inteiras em Lausanne, a quarta maior cidade da Suíça, apreciando
música de rua, produzida por jovens alunos dos conservatórios, vestidos à
hippie, regalando os olhos na arquitectura antiga e moderna, e visitando a
Catedral de Notre Dame, os museus e as casas onde viveram os poetas românticos
Shelley e Lord Byron e o romancista Ernest Hemingway, e onde o poeta T. S.
Elliot escreveu Waste Land (“by the waters of Leman I sat
down and wept”); a contemplar, fascinado, a majestade de Mont Blanc, sentado
numa esplanada de Chamonix, saboreando uma chávena de café ou de chá; a visitar
vilas feéricas nos Alpes Franceses, tais como Évian – les Bains e Annecy, a
Veneza francesa, assim chamada por via dos seus mágicos canais.
Como também tinha levado comigo a minha Olivetti
portátil, fiel companheira e confidente de todas as minhas viagens, até ao
advento da computadora, quando regressei aos Estados Unidos já trazia comigo,
escrito à máquina, um minúsculo e tímido esboço do que um dia viria o ser o meu
livro sobre Mensagem de Pessoa.
Vieram depois novos cursos ministrados por mim sobre
poesia portuguesa, de que constava Mensagem de Pessoa; vieram as consultas de dicionários de símbolos e
de monografias sobre simbolismo; vieram leituras de livros sobre arte poética,
emblemas e crítica literária; vieram leituras de obras sobre rosacrucianismo,
hermetismo, mitologia e psiquiatria; vieram leituras das Trovas de Bandarra e da História do Futuro do Padre António Vieira e o diálogo de Pessoa com esses
autores; vieram depois pesquisas sobre o inegável diálogo entre Mensagem
de Pessoa e Os Lusíadas de Camões; vieram depois pesquisas sobre o insofismável
diálogo entre Mensagem de Pessoa e a Bíblia; vieram depois conjecturas sobre o sentido patente ou o
sentido latente de determinados vocábulos ou sintagmas de poesias de Mensagem; vieram, por fim, as infalíveis alterações, adições e
subtracções.
Chegou o dia em que me senti impelido a falar desse
meu projecto de crítica literária à minha colega Marie Naudin, professora de
Francês na minha universidade e leitora assídua e entusiasta de literatura
portuguesa. Após uma rápida leitura do esboço do meu futuro livro, a única
observação que ela me fez teve a ver com a ausência quase total, nos meus
comentários provisórios às respectivas poesias de Mensagem, de uma breve referência biográfica aos figurantes
históricos, tais como reis, rainhas, vice-reis, duques, infantes, navegadores e
conquistadores. Que para um leitor que, como ela, ignorava praticamente toda a
história de Portugal, essa breve referência biográfica seria de suma
importância, não só para uma melhor compreensão dessa poesia em particular, mas
também da obra, no seu conjunto.
O meu estudo de uma análise crítica de Mensagem continuou a crescer e a tomar forma de gente e na minha
segunda estadia como professor visitante na Universidade da Califórnia, em
Santa Bárbara, no curso de verão de 1987 decidi dar um seminário a alunos de
pós-graduação exclusivamente sobre Mensagem de Pessoa. Devo, porém, confessar que, para minha
desilusão, as achegas esperadas não foram famosas, para não dizer que foram
praticamente inexistentes, mas o meu empenho em levar a cabo e aperfeiçoar o
projecto literário foi tal que, na conclusão do seminário, o livro começava a
aproximar-se da sua versão final.
Chegado a esse ponto, ainda longe de pensar numa
hipotética publicação, comecei a sentir-me suficientemente à vontade para
participar com excerptos desse estudo em congressos literários. De entre esses
congressos, apraz-me destacar dois: Iberia & Mediterranean, organizado por Zultán Rózsa e Íldikó Puskás, em Budapeste
e Debrecen, na Hungria, entre 26 e 29 de agosto de 1989, e IV
Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, organizado por Almir de Campos Bruneti em Tulane University, New
Orleans, Louisiana, entre 17 e 19 de novembro de 1988. Intitulei a conferência
proferida em Budapeste, “O ‘Mar Português’ da Mensagem de Fernando Pessoa”, publicada nas pp. 245-259 do volume
das actas, e a proferida em New Orleans, “Os profetas do Quinto Império da Mensagem”, publicada nas páginas 63-83 do volume das actas.
António Quadros, que, tal como eu, participou com uma
comunicação no IV Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, em New Orleans, terá ficado tão bem impressionado,
modéstia à parte, com a minha comunicação que, ao saber que se tratava do
excerpto de um livro acabado, me pediu que lhe desse a honra de publicá-lo nas Edições
do ICALP, na secção dirigida por ele, chamada Identidade:
Cultura Portuguesa. E nessa mesma ocasião António
Quadros, de uma gentileza exemplar, insistiu também comigo para que escrevesse
uma obra para a secção da Biblioteca Breve, criada e dirigida pelo Eng. Beja Madeira, que, aliás, era
o Director das Edições do ICALP.
E foi assim que nasceu o meu livro, intitulado A
Sextina em Portugal nos Séculos XVI e XVII, publicado em 1992, com uma tiragem de 4000 exemplares. E foi assim
que, no ano do Senhor de 1990, saiu à luz, com uma tiragem de 3000 exemplares,
o meu livro intitulado O “Olhar Esfíngico” da Mensagem de Pessoa.
Manchester, Connecticut, USA
11 de dezembro de 2024
António Cirurgião
É
um livro volumoso, de mais de 600 páginas, porque, no fundo, no fundo, constitui
um três em um: (1) memórias de juventude, contadas com contenção e reserva (por
exemplo, quanto à sexualidade); (2) retrato de uma década, com
abundância de factos e números; (3) almanaque revivalista, cozinhado com os ingredientes
certos para o paladar dos mais nostálgicos. E a primeira coisa a dizer é que o
autor soube conjugar e entrelaçar muitíssimo bem estes três planos, o que,
convenhamos, não era tarefa fácil.
Há o risco de este livro ser tomado, ou
ser tomado apenas, como uma colectânea de referências pretéritas (a
situações, a bens de consumo) para alimentar o mercado da nostalgia, quando a
intenção do autor, segundo creio, foi muito mais vasta do que isso (daí nem
citar sequer as Cadernetas de Cromos de Nuno Markl).
Como
há o risco de julgar que o autor pretendeu teorizar sobre uma década que
qualifica de «prodigiosa», o que também não julgo ter sido o seu propósito (daí
não ter mencionado uma brincadeira que escrevi em forma de livro, Da Direita
à Esquerda. Cultura e sociedade em Portugal dos anos 80 à actualidade).
Três notas apenas:
-
este é um retrato da primeira geração que viveu a chegada em força da sociedade
de consumo a Portugal (as memórias de outros tempos falavam de bailaricos e
festas da aldeia, esta prende-se muito mais, e não por acaso, com aquilo que gastávamos,
comíamos, usávamos);
-
em segundo lugar, este é um retrato da primeira década de democracia plena,
ou quase (o Conselho da Revolução só foi extinto em 1982), sendo curioso
observar como a democratização e o consumismo correram a par, lado a lado, em convívio íntimo – e explicam
em larga medida as vitórias eleitorais de Cavaco;
-
em terceiro lugar, por fim mas não por último, este livro revela, com copiosos exemplos,
o ritmo alucinante como, em poucos anos de meados da década de 80, se alteraram
radicalmente os nossos hábitos culturais e de consumo. Em três, quatro anos, passámos dos
ténis Sanjo à Adidas, o que teve profundíssimas implicações sociais e culturais,
mas também políticas, ou essencialmente políticas. De semelhante, só a queda do
Muro em Berlim. E, de facto, o que em Portugal ocorreu nos anos 80 foi também a
queda de um muro ou, se quisermos, o derrubar das últimas pedras de uma
ditadura tingida de preto e branco. O juízo do autor relativamente à «década
prodigiosa» será talvez complacente ou benévolo em excesso, exagerado até, e,
claro, naturalmente ditado pelas circunstâncias próprias das suas origens, condição social e dos lugares onde cresceu. Mas que foi assim como ele conta, ai
isso foi.
António Araújo
Antes
de se tornar no Papa do existencialismo, em grande romancista e dramaturgo,
teatrólogo brilhante, ativista de grandes causas, Jean-Paul Sartre foi criança,
teve uma infância marcante, viveu num ambiente familiar tratado com desvelo e
atribui àquela atmosfera de livros o gosto em tornar as palavras que leu na sua
própria escrita. As Palavras, romance autobiográfico dado à estampa
poucos meses antes de lhe ser atribuído o Prémio Nobel da Literatura, é esse
estupendo exercício.
Escavando
a memória, libertando recordações, vai dar-nos essencialmente o que foi a sua
infância no meio dos livros, no recato do meio familiar e como a leitura lhe
definiu o modo de escrever, na pessoa em que se transformou. Dirá mesmo que
“comecei a minha vida como provavelmente a irei terminar: no meio dos livros”.
E adianta: “No escritório do meu avô, havia-os por toda a parte; era proibido
limpar-lhes o pó, exceto uma vez por ano. Ainda não sabia ler e já reverenciava
essas pedras erigidas; direitas ou inclinadas, robustas como tijolos nas
estantes da biblioteca ou nobremente espaçadas em áleas de menires, sentia que
a prosperidade da família dependia delas. Tocava-lhes às escondidas para honrar
as minhas mãos com a sua poeira, mas não sabia bem o que fazer delas e todos os
dias assistia a cerimónias cujo sentido me escapava: o meu avô – normalmente
tão desajeitado que a minha mãe lhe abotoava as luvas – manuseava esses objetos
culturais com uma destreza de oficiante. Vi-o mil vezes levantar com um ar ausente,
dar a volta à mesa, atravessar a divisão em duas passadas, pegar num volume sem
hesitar, sem se dar tempo de o escolher, folheá-lo ao voltar para a poltrona,
com um movimento combinado do polegar e do indicador.”
Muito
se fala da Alsácia Lorena, o avô domina fluentemente o alemão e o francês. A
biblioteca é volumosa, a vida social era fluente, como Sartre observa:
“Frequentávamos pessoas ponderadas que falavam alto e com clareza, baseavam as
suas certezas em princípios sãos, na sageza das nações, e não desdenhavam
distinguir-se do comum apenas por um certo maneirismo da alma, ao qual eu
estava perfeitamente habituado. As visitas despediam-se, eu ficava sozinho,
evadia-me desse cemitério banal, ia juntar-me à vida, à loucura dos livros.
Bastava-me abrir um para nele redescobrir esse pensamento inumano, inquieto,
cujas pompas e trevas ultrapassavam o meu entendimento, que saltava de ideia em
ideia, cem vezes por página, e eu deixava-o seguir, atordoado, perdido.”
Para
gozar na plenitude As Palavras, de Jean-Paul Sartre, Livros do Brasil,
2024, é preciso aceitar este passeio na memória até uma biblioteca do início do
século XX, dela extrair a formação de uma mentalidade, a descoberta de que foi
nesta infusão de leituras que nasceu o prazer da escrita. O menino Sartre é
puxado pela mãe e pelo avô, da leitura que hoje se designa por infato-juvenil,
um autêntico mundo de aventuras, a estudar em casa é depois inscrito no liceu
onde se descobre que era demasiado avançado para a sua idade. Vai olhando à
volta os adultos da sua família, confessa que e o seu corpo formavam um
estranho casal, é educado no catolicismo até que a fé, um dia, se esvaiu. Teve
as suas doenças e foi mimado nas suas convalescenças. Deus o angustia, e Dele
passa a descrer: “Se Deus me livrasse das aflições, eu teria sido uma
obra-prima assinada; seguro da minha parte no concerto universal, teria
aguardado pacientemente que Ele me revelasse os seus desígnios e a minha
necessidade. Eu pressentia a religião, aguardava-a, era o remédio. Se me a
tivessem recusado, eu próprio a teria inventado. Que não ma recusassem: educado
na fé católica, apreendi que o Todo-Poderoso me criara para a Sua glória: era
mais do que aquilo que eu ousaria sonhar.”
Educado
nesta atmosfera de gente cumpridora dos preceitos culturais burgueses, vai-nos
deixando registos esplendentes desta sociedade antes da Primeira Guerra
Mundial. O teatro, por exemplo:
“Os
burgueses do século passado nunca se esqueceram do seu primeiro serão no teatro
e os seus escritores encarregaram-se de nos relatar as circunstâncias. Quando o
pano subiu, as crianças julgaram-se na corte. Os ouros e as púrpuras, as luzes,
as pinturas, a ênfase e os artifícios punham algo de sagrado até no crime; no
palco, viram ressuscitar a nobreza que os seus avós haviam assassinado. Nos
entreatos, a estratificação das galerias oferecia-lhes a imagem da sociedade;
foram-lhes mostrados, nos camarotes, ombros nus e nobres vivos.“
Aprendeu
a ler, sente-se um beneficiário do amor familiar, é nisto que, surdamente, o
vai minando a epopeia da escrita. A segunda parte de As Palavras é em si
própria a génese da sua aventura na escrita, ele vai descrevendo as
sinuosidades em todas estas tentativas dos seus queridos juvenis, a mãe
orgulhosa com estes primeiros escritos, o avô mais cético. Em retrospetiva, faz
a sua confissão:
“Há
alguns anos, fizeram-me notar as personagens das minhas peças e dos meus
romances tomam as suas decisões bruscamente e em crise, que basta um instante,
por exemplo, para que o Orestes das Moscas conclua a sua conversão. Sem
dúvida: é que os faço à minha imagem; provavelmente, não tal como sou, mas tal
como quis ser (…) À falta de me amar, fugi para a frente; resultado: amo-me
ainda menos, essa inexorável progressão desqualifica-me incessantemente aos
meus olhos; ontem, agi mal, visto que era ontem, e hoje pressinto o julgamento
severo que farei incidir sobre mim amanhã.”
E
dá-nos uma despedida que é a sua assumida condição humana posta em palavras:
“Durante
muito tempo, considerei a pena como uma espada, agora conheço a nossa
impotência. Não importa: faço, farei livros; é preciso que o faça; servem para
alguma coisa, apesar de tudo. A cultura não salva nada nem ninguém, não
justifica. Mas é um produto do homem: este projeta-se nela, reconhece-se nela;
apenas esse espelho crítico lhe oferece a sua imagem (…) Lancei-me por inteiro
à obra para me salvar por inteiro. Se arrumo a impossível Salvação no armazém,
que resta? Um homem inteiro, feito de todos os homens que vale por todos eles,
e por quem valem todos os outros.”
Um monumento autobiográfico no topo da grandeza da escrita.
Mário Beja Santos