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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A Mimosa da Graça.

 




Fiquei admirado: gastaram-se (gastámos) quase dois milhões de euros em projetos de erradicação da mimosa e outras espécies invasoras. É muito dinheiro. Mas realmente tinha de ser. As mimosas e outras acácias ocupavam já cerca de 17 mil hectares de terrenos no continente, dois mil deles em áreas protegidas. No Parque Natural do Montesinho, no Gerês, na serra do Açor, em Viana, nas margens do Mondego, tudo se transformava num denso manto dourado ao chegar a primavera. Mal punha pé, ou antes mal lançava raízes num sítio qualquer logo começava a instalar-se, usando todas as armas de que dispõe: cresce rapidamente, produz quantidades enormes de sementes, que permanecem viáveis no solo durante vários anos, formando povoamentos extremamente densos, mesmo em solos muito pobres, mesmo sem intervenção humana. O pior é que o fazem à custa das espécies nativas que vêem o seu crescimento dificultado pela densidade e pelas substâncias segregadas pela mimosa. Que às tantas começaram a invadir os terrenos de cultivo. Foi aí que se começou a tomar a sério o problema. 
Porque até aí não era um problema. Pelo contrário, admiravam-lhe as lindas flores ornamentais, com os seus caraterísticos pompons amarelos que enfeitavam as encostas de Portugal inteiro e faziam a felicidade dos passeios e dos fotógrafos de domingo. Eram apreciadas e procuradas. A moda oitocentista das plantas exóticas abriu-lhe as portas: as primeiras mimosas australianas, importadas da Austrália através de viveiristas europeus, foram plantadas em meados do século dezanove em Lisboa, na Quinta do Lumiar, propriedade dos futuros duques de Palmela. A seguir, o interesse industrial abriu-lhes o caminho para a horticultura comercial: por ser de crescimento rápido, fornecer madeira e lenha, taninos para os curtumes, além de poder ser usada na fixação de solos e consolidação de taludes. Um empresário portuense plantou 600 hectares de acácias e eucaliptos nas suas propriedades orgulhosamente batizadas Nova Austrália e Nova Tasmânia, nos arredores de Abrantes.  E também o Estado via na mimosa um auspicioso factor de desenvolvimento, pelo seu interesse económico e florestal, e desatou a plantá-las no Gerês e em matas públicas do litoral centro. 

 

O problema (agora já se dizia “ecológico”) que a mimosa trazia consigo só começou a tornar-se evidente nas décadas de 1970 e 1980: os grandes incêndios criavam grandes zonas disponíveis que a mimosa de crescimento rápido colonizava imediatamente. Um estudo feito na serra da Estrela apurou uma densidade de mais de 62 mil sementes por metro quadrado.
A invasão era imparável: o êxodo rural, o abandono dos campos, a redução da agricultura e do pastoreio tradicionais deixava-lhe o terreno livre. E o decreto-lei que finalmente classifica a – dourada, promissora, tão bonita que ela é – mimosa, Acacia dealbata de seu nome completo, só chegou em 1999. O que pode explicar que (apenas nos dois municípios estudados) a área ocupada pela Acacia dealbata tenha aumentado 417% entre 2004 e 2021.


De resto é como no resto: demoramos sempre um certo tempo até nos darmos conta dos problemas.
Que o diga a Mimosa da Graça, uma graciosa leitaria e pastelaria que durante muitos anos serviu a Rua da Graça, em Lisboa, e de que já só resta o singelo portal com suas letras de um gosto quase clássico, à espera do destino que lhe será dado pelo fundo de investimento que já a deve ter comprado e que a há de vender. Talvez os donos não se tenham apercebido que os moradores da rua e da freguesia tinham desandado e já não foram a tempo de responder à nova procura dos brunches, e smoothies e matchas, e sucos de açai e as outras novidades que a boa da leitaria não tinha visto aparecer e instalar-se como gosto dominante. Como as mimosas da história, tinha aparecido por cá uma gente diferente, de gostos diferentes e com dinheiro, que aos poucos foram colonizando as pastelarias que por aí havia, e que agora se chamavam Neighbourhood, Brunch and Bites ou Locals Nomads. As espécies nativas não aguentaram a concorrência, as rendas e os trespasses subiram para totais inalcançáveis pelas modestas leitarias apanhadas a molhar o bolo de arroz no galão (quentinho, se faz favor). Foram sendo corridas. Mas tinha de ser. Não se podia perder este bem-vindo contributo para equilibrar o défice nacional. São milhares e milhares destas mimosas que diariamente são despejadas pelos voos e os cruzeiros ao preço da chuva chegados de todas as partes do mundo. E temos de lhes dar o que eles querem: por eles, mudámos as comidas que comíamos, mudámos os hábitos e costumes que seguíamos e mudámos até a língua que falávamos. Um dia (talvez) virá aí um tardio decreto-lei a moderar a falta de modos da invasão e ocupação, mas entretanto as mimosas vão alastrando, a um ritmo superior aos 417% das suas congéneres vegetais. 


Será que valeu a pena? – hão de um dia perguntar-nos. Não sei. A Leitaria Mimosa da Rua da Graça, em Lisboa, talvez seja uma espécie de resposta.


                                                    Zé Lima 






quinta-feira, 26 de março de 2026

Carta de Bruxelas







                                                                                        Os relógios do tempo




Margarete Buber-Neumann (1901-1989) foi uma testemunha com o destino do século marcado a ferro na carne, deportada nos campos de Estaline e depois nos de Hitler. Cruelmente, passa directamente de uns para os outros. Depois da execução do marido, o dirigente do Partido Comunista Alemão Heinz Neumann, em 1937, na URSS, Margarete é condenada em 1938 a cinco anos de detenção num campo. Em 1940 é entregue pelas autoridades soviéticas às autoridades nacional-socialistas. Mais cinco anos em Ravensbrück. A dupla experiência concentracionária foi passada a escrito num livro justamente célebre, Als Gefangene bei Stalin und Hitler. Eine Welt im Dunkel (1949).  Sem a ambição histórica dessa obra, Margarete Buber-Neumann conta em Die erloschene Flamme: Schicksale meiner Zeit (1976) alguns episódios em que se cruzou com esses destinos de um século. Não se trata das grandes personagens, embora também lá estejam, por exemplo Panait Istrati ou Milena ( a quem tinha já dedicado um livro, o único traduzido para português).

Um dos casos incluídos nesse texto é o de Karl Brunnengraber. A conversa narrada por Margarete Buber-Neumann é fruto de um acaso. Passageiros do mesmo voo de Berlim para Frankfurt, calharam-lhes lugares contíguos, o que levou à conversa – e ao destino comum. Ambos judeus alemães. Ambos antigos concentraccionários. Ambos a viverem na Alemanha. Brunnengraber, relojoeiro, conta como sobreviveu no campo – pai, mãe e irmãos já assassinados.  Um S.S. deu-lhe um relógio de pulso para reparar o mais depressa possível. De imediato, o prisioneiro percebeu que seria poupado aos transportes, enquanto fosse necessário. Explica que não terminava o arranjo antes de receber outro relógio para consertar. E assim «vivi por dois anos de um relógio para outro». Pelo meio narrou outras peripécias. No fim da conversa relatada pela autora, Karl Brunnengraber, reconciliado com a Alemanha, mostra-lhe uma bracelete de relógio que patenteara e explica-lhe longamente de que se trata; explicação, diz Margarete, «de que não comprendi uma só palavra». E, acrescenta o relojoeiro, a última frase do capítulo, «na minha cabeça tenho mais cinco invenções. Talvez ainda tenha tempo de as realizar todas....».

Involuntariamente, o texto de Margarete Buber-Neumann expõe uma ambiguidade, que lhe inverte o título: Die Kraft zu Überleben. O que estraçalha o destino de morte não é a força para sobreviver, é a força para viver. A ambiguidade dos relógios é a ambiguidade do tempo. Os primeiros, avariados, corporizam o tempo da morte iminente, em que cada minuto ganho é uma fuga, que se pode malograr no minuto seguinte. É o tempo do terror. Os segundos encarnam a invenção, a interrupção do novo, são o tempo pleno, o tempo da promessa – da promessa de uma vida livre.

 

                                                                                João Tiago Proença


terça-feira, 15 de abril de 2025

António Cirurgião: memórias literárias, musicais e políticas.





António Cirurgião é, além de amigo, um colaborador regular e já antigo deste Malomil. Textos preciosos, preciosos. Agora, pelas Edições Vercial, de Braga, dois livros da sua autoria, ambos à venda na Amazon:   

 

Memórias Literárias e Musicais

https://www.amazon.com/dp/B0F2SNBR1R


Memórias Políticas

https://www.amazon.com/dp/B0F1Y8HJS4

 

                                Parabéns ao Autor – Boa Páscoa para todos.


 


segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

não é a História que se repete, é o passado que não quer passar.

 










































                                    

                                            Fotografias de António Araújo





quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Génese do meu livro O “olhar esfíngico” da Mensagem de Pessoa.

 


 

Foi nas férias de verão de 1984. Por norma, tal como tinha vindo a acontecer nos anos anteriores, deveria ter ido passar essas férias a Portugal, onde, como de costume, se encontravam à minha espera a família, os amigos, as bibliotecas, os arquivos, as livrarias, os alfarrabistas e as esplanadas. Porém, como no dia 14 de dezembro de 1983 fora surpreendido por um maciço ataque cardíaco de que tive de ser reanimado quatro vezes – duas na sala de emergência e duas na unidade de cuidados intensivos - e que me obrigara a passar mais de um mês hospitalizado no Saint Mary’s Hospital, em Waterbury, Connecticut, fui compelido a fazer outros planos. Dado que nesse verão de 84 ainda me encontrava em estado de convalescença, decidi ir passar as ditas férias a Gez, uma comuna francesa, na região administrativa de Auvémia-Ródono-Alpes, do Departamento de Aín, localizada no sopé dos Montes Jura, a cerca de dez quilómetros do Colo de la Faucille e a dezasseis quilómetros de Genebra, Suíça. E aí me instalei, no chamado “País de Gez”, no confortável chalé campestre, de vistas deslumbrantes sobre os Alpes Franceses, onde residia o meu antigo aluno e especial amigo Armand F. Pereira, alto funcionário do BIT (Bureau International du Travail), em Genebra, o qual me acolheu e tratou com uma hospitalidade fraterna.

E por quê em Gez, e não em Lisboa? Porque em Gez poderia continuar tranquilamente a minha longa convalescença, ao ritmo prescrito pelos médicos, ao passo que em Lisboa seria de tal maneira apaparicado pelos membros da família, que, em vez de repouso, ver-me-ia forçado a viver sob uma pressão contínua.

Como um dos remédios recomendados pelo meu cardiologista consistia em evitar acarretar coisas pesadas, além da roupa de vestir, reduzida ao mínimo, coloquei dentro de uma pequena bolsa de mão, ao lado do passaporte, do bilhete de avião e dos medicamentos, um exemplar de cinco obras de Fernando Pessoa, publicadas pela Ática: Poesias de Fernando Pessoa, Poemas de Alberto Caeiro, Odes de Ricardo Reis, Poesias de Álvaro de Campos e Mensagem por Fernando Pessoa.

Tendo, em mais de um semestre, incluído nos meus cursos sobre poesia portuguesa Mensagem de Fernando Pessoa, e tendo verificado, com óbvia frustração, que, por mais esforços que fizesse e mais voltas que desse à cachimónia, acabava sempre por concluir que os alunos e eu nunca conseguíamos penetrar no  âmago do misterioso e hermético poema, perguntei-me se não seria conveniente aproveitar esse verão de “viajante sem bagagem”, ou, melhor dito, de viajante sem biblioteca, para tentar, como aconselha Rabelais na introdução a Gargantua, cravar o dente famélico e guloso na medula substancial dessa obra de Pessoa. E foi assim que nessas férias de convalescença dos ataques cardíacos só existiu um livro para mim: Mensagem de Fernando Pessoa. E foi assim que me pus a ruminar sobre o significado desse poema épico de Pessoa, escrevendo notas no próprio livro ou num pequeno caderno que me acostumei a trazer comigo, durante as escassas horas do dia que não eram passadas a repousar, a dar longas caminhadas pelos campos, a apanhar caracóis que o meu amigo Armand e os seus visitantes adoravam e eu detestava; a dar passeios turísticos de barco pelo icónico Lago Genebra ou Lago Lemano, coleccionando palacetes de escritores famosos e “petits châteaux” encantadores, a espelhar-se, ufanos, nas águas límpidas e azuladas do lago; a passar tardes inteiras em Lausanne, a quarta maior cidade da Suíça, apreciando música de rua, produzida por jovens alunos dos conservatórios, vestidos à hippie, regalando os olhos na arquitectura antiga e moderna, e visitando a Catedral de Notre Dame, os museus e as casas onde viveram os poetas românticos Shelley e Lord Byron e o romancista Ernest Hemingway, e onde o poeta T. S. Elliot escreveu Waste Land  (“by the waters of Leman I sat down and wept”); a contemplar, fascinado, a majestade de Mont Blanc, sentado numa esplanada de Chamonix, saboreando uma chávena de café ou de chá; a visitar vilas feéricas nos Alpes Franceses, tais como Évian – les Bains e Annecy, a Veneza francesa, assim chamada por via dos seus mágicos canais.

Como também tinha levado comigo a minha Olivetti portátil, fiel companheira e confidente de todas as minhas viagens, até ao advento da computadora, quando regressei aos Estados Unidos já trazia comigo, escrito à máquina, um minúsculo e tímido esboço do que um dia viria o ser o meu livro sobre Mensagem de Pessoa.

Vieram depois novos cursos ministrados por mim sobre poesia portuguesa, de que constava Mensagem de Pessoa; vieram as consultas de dicionários de símbolos e de monografias sobre simbolismo; vieram leituras de livros sobre arte poética, emblemas e crítica literária; vieram leituras de obras sobre rosacrucianismo, hermetismo, mitologia e psiquiatria; vieram leituras das Trovas de Bandarra e da História do Futuro do Padre António Vieira e o diálogo de Pessoa com esses autores; vieram depois pesquisas sobre o inegável diálogo entre Mensagem de Pessoa e Os Lusíadas de Camões; vieram depois pesquisas sobre o insofismável diálogo entre Mensagem de Pessoa e a Bíblia; vieram depois conjecturas sobre o sentido patente ou o sentido latente de determinados vocábulos ou sintagmas de poesias de Mensagem; vieram, por fim, as infalíveis alterações, adições e subtracções.

Chegou o dia em que me senti impelido a falar desse meu projecto de crítica literária à minha colega Marie Naudin, professora de Francês na minha universidade e leitora assídua e entusiasta de literatura portuguesa. Após uma rápida leitura do esboço do meu futuro livro, a única observação que ela me fez teve a ver com a ausência quase total, nos meus comentários provisórios às respectivas poesias de Mensagem, de uma breve referência biográfica aos figurantes históricos, tais como reis, rainhas, vice-reis, duques, infantes, navegadores e conquistadores. Que para um leitor que, como ela, ignorava praticamente toda a história de Portugal, essa breve referência biográfica seria de suma importância, não só para uma melhor compreensão dessa poesia em particular, mas também da obra, no seu conjunto. 

O meu estudo de uma análise crítica de Mensagem continuou a crescer e a tomar forma de gente e na minha segunda estadia como professor visitante na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, no curso de verão de 1987 decidi dar um seminário a alunos de pós-graduação exclusivamente sobre Mensagem de Pessoa. Devo, porém, confessar que, para minha desilusão, as achegas esperadas não foram famosas, para não dizer que foram praticamente inexistentes, mas o meu empenho em levar a cabo e aperfeiçoar o projecto literário foi tal que, na conclusão do seminário, o livro começava a aproximar-se da sua versão final.

Chegado a esse ponto, ainda longe de pensar numa hipotética publicação, comecei a sentir-me suficientemente à vontade para participar com excerptos desse estudo em congressos literários. De entre esses congressos, apraz-me destacar dois: Iberia & Mediterranean, organizado por Zultán Rózsa e Íldikó Puskás, em Budapeste e Debrecen, na Hungria, entre 26 e 29 de agosto de 1989, e IV Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, organizado por Almir de Campos Bruneti em Tulane University, New Orleans, Louisiana, entre 17 e 19 de novembro de 1988. Intitulei a conferência proferida em Budapeste, “O ‘Mar Português’ da Mensagem de Fernando Pessoa”, publicada nas pp. 245-259 do volume das actas, e a proferida em New Orleans, “Os profetas do Quinto Império da Mensagem”, publicada nas páginas 63-83 do volume das actas.

António Quadros, que, tal como eu, participou com uma comunicação no IV Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, em New Orleans, terá ficado tão bem impressionado, modéstia à parte, com a minha comunicação que, ao saber que se tratava do excerpto de um livro acabado, me pediu que lhe desse a honra de publicá-lo nas Edições do ICALP, na secção dirigida por ele, chamada Identidade: Cultura Portuguesa. E nessa mesma ocasião António Quadros, de uma gentileza exemplar, insistiu também comigo para que escrevesse uma obra para a secção da Biblioteca Breve, criada e dirigida pelo Eng. Beja Madeira, que, aliás, era o Director das Edições do ICALP.

E foi assim que nasceu o meu livro, intitulado A Sextina em Portugal nos Séculos XVI e XVII, publicado em 1992, com uma tiragem de 4000 exemplares. E foi assim que, no ano do Senhor de 1990, saiu à luz, com uma tiragem de 3000 exemplares, o meu livro intitulado O “Olhar Esfíngico” da Mensagem de Pessoa.

 

Manchester, Connecticut, USA

11 de dezembro de 2024

António Cirurgião

 

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

A década prodigiosa.

 



        É um livro volumoso, de mais de 600 páginas, porque, no fundo, no fundo, constitui um três em um: (1) memórias de juventude, contadas com contenção e reserva (por exemplo, quanto à sexualidade); (2) retrato de uma década, com abundância de factos e números; (3) almanaque revivalista, cozinhado com os ingredientes certos para o paladar dos mais nostálgicos. E a primeira coisa a dizer é que o autor soube conjugar e entrelaçar muitíssimo bem estes três planos, o que, convenhamos, não era tarefa fácil.

          Há o risco de este livro ser tomado, ou ser tomado apenas, como uma colectânea de referências pretéritas (a situações, a bens de consumo) para alimentar o mercado da nostalgia, quando a intenção do autor, segundo creio, foi muito mais vasta do que isso (daí nem citar sequer as Cadernetas de Cromos de Nuno Markl).

Como há o risco de julgar que o autor pretendeu teorizar sobre uma década que qualifica de «prodigiosa», o que também não julgo ter sido o seu propósito (daí não ter mencionado uma brincadeira que escrevi em forma de livro, Da Direita à Esquerda. Cultura e sociedade em Portugal dos anos 80 à actualidade).

Três notas apenas:

- este é um retrato da primeira geração que viveu a chegada em força da sociedade de consumo a Portugal (as memórias de outros tempos falavam de bailaricos e festas da aldeia, esta prende-se muito mais, e não por acaso, com aquilo que gastávamos, comíamos, usávamos);

- em segundo lugar, este é um retrato da primeira década de democracia plena, ou quase (o Conselho da Revolução só foi extinto em 1982), sendo curioso observar como a democratização e o consumismo correram a par, lado a lado, em convívio íntimo – e explicam em larga medida as vitórias eleitorais de Cavaco;

- em terceiro lugar, por fim mas não por último, este livro revela, com copiosos exemplos, o ritmo alucinante como, em poucos anos de meados da década de 80, se alteraram radicalmente os nossos hábitos culturais e de consumo. Em três, quatro anos, passámos dos ténis Sanjo à Adidas, o que teve profundíssimas implicações sociais e culturais, mas também políticas, ou essencialmente políticas. De semelhante, só a queda do Muro em Berlim. E, de facto, o que em Portugal ocorreu nos anos 80 foi também a queda de um muro ou, se quisermos, o derrubar das últimas pedras de uma ditadura tingida de preto e branco. O juízo do autor relativamente à «década prodigiosa» será talvez complacente ou benévolo em excesso, exagerado até, e, claro, naturalmente ditado pelas circunstâncias próprias das suas origens, condição social e dos lugares onde cresceu. Mas que foi assim como ele conta, ai isso foi.

 

                                                                          António Araújo        


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Como me fiz um homem inteiro, feito de todos os homens e que vale por todos eles.

 


 

Antes de se tornar no Papa do existencialismo, em grande romancista e dramaturgo, teatrólogo brilhante, ativista de grandes causas, Jean-Paul Sartre foi criança, teve uma infância marcante, viveu num ambiente familiar tratado com desvelo e atribui àquela atmosfera de livros o gosto em tornar as palavras que leu na sua própria escrita. As Palavras, romance autobiográfico dado à estampa poucos meses antes de lhe ser atribuído o Prémio Nobel da Literatura, é esse estupendo exercício.

Escavando a memória, libertando recordações, vai dar-nos essencialmente o que foi a sua infância no meio dos livros, no recato do meio familiar e como a leitura lhe definiu o modo de escrever, na pessoa em que se transformou. Dirá mesmo que “comecei a minha vida como provavelmente a irei terminar: no meio dos livros”. E adianta: “No escritório do meu avô, havia-os por toda a parte; era proibido limpar-lhes o pó, exceto uma vez por ano. Ainda não sabia ler e já reverenciava essas pedras erigidas; direitas ou inclinadas, robustas como tijolos nas estantes da biblioteca ou nobremente espaçadas em áleas de menires, sentia que a prosperidade da família dependia delas. Tocava-lhes às escondidas para honrar as minhas mãos com a sua poeira, mas não sabia bem o que fazer delas e todos os dias assistia a cerimónias cujo sentido me escapava: o meu avô – normalmente tão desajeitado que a minha mãe lhe abotoava as luvas – manuseava esses objetos culturais com uma destreza de oficiante. Vi-o mil vezes levantar com um ar ausente, dar a volta à mesa, atravessar a divisão em duas passadas, pegar num volume sem hesitar, sem se dar tempo de o escolher, folheá-lo ao voltar para a poltrona, com um movimento combinado do polegar e do indicador.”

Muito se fala da Alsácia Lorena, o avô domina fluentemente o alemão e o francês. A biblioteca é volumosa, a vida social era fluente, como Sartre observa: “Frequentávamos pessoas ponderadas que falavam alto e com clareza, baseavam as suas certezas em princípios sãos, na sageza das nações, e não desdenhavam distinguir-se do comum apenas por um certo maneirismo da alma, ao qual eu estava perfeitamente habituado. As visitas despediam-se, eu ficava sozinho, evadia-me desse cemitério banal, ia juntar-me à vida, à loucura dos livros. Bastava-me abrir um para nele redescobrir esse pensamento inumano, inquieto, cujas pompas e trevas ultrapassavam o meu entendimento, que saltava de ideia em ideia, cem vezes por página, e eu deixava-o seguir, atordoado, perdido.”

Para gozar na plenitude As Palavras, de Jean-Paul Sartre, Livros do Brasil, 2024, é preciso aceitar este passeio na memória até uma biblioteca do início do século XX, dela extrair a formação de uma mentalidade, a descoberta de que foi nesta infusão de leituras que nasceu o prazer da escrita. O menino Sartre é puxado pela mãe e pelo avô, da leitura que hoje se designa por infato-juvenil, um autêntico mundo de aventuras, a estudar em casa é depois inscrito no liceu onde se descobre que era demasiado avançado para a sua idade. Vai olhando à volta os adultos da sua família, confessa que e o seu corpo formavam um estranho casal, é educado no catolicismo até que a fé, um dia, se esvaiu. Teve as suas doenças e foi mimado nas suas convalescenças. Deus o angustia, e Dele passa a descrer: “Se Deus me livrasse das aflições, eu teria sido uma obra-prima assinada; seguro da minha parte no concerto universal, teria aguardado pacientemente que Ele me revelasse os seus desígnios e a minha necessidade. Eu pressentia a religião, aguardava-a, era o remédio. Se me a tivessem recusado, eu próprio a teria inventado. Que não ma recusassem: educado na fé católica, apreendi que o Todo-Poderoso me criara para a Sua glória: era mais do que aquilo que eu ousaria sonhar.”

Educado nesta atmosfera de gente cumpridora dos preceitos culturais burgueses, vai-nos deixando registos esplendentes desta sociedade antes da Primeira Guerra Mundial. O teatro, por exemplo:

“Os burgueses do século passado nunca se esqueceram do seu primeiro serão no teatro e os seus escritores encarregaram-se de nos relatar as circunstâncias. Quando o pano subiu, as crianças julgaram-se na corte. Os ouros e as púrpuras, as luzes, as pinturas, a ênfase e os artifícios punham algo de sagrado até no crime; no palco, viram ressuscitar a nobreza que os seus avós haviam assassinado. Nos entreatos, a estratificação das galerias oferecia-lhes a imagem da sociedade; foram-lhes mostrados, nos camarotes, ombros nus e nobres vivos.“

Aprendeu a ler, sente-se um beneficiário do amor familiar, é nisto que, surdamente, o vai minando a epopeia da escrita. A segunda parte de As Palavras é em si própria a génese da sua aventura na escrita, ele vai descrevendo as sinuosidades em todas estas tentativas dos seus queridos juvenis, a mãe orgulhosa com estes primeiros escritos, o avô mais cético. Em retrospetiva, faz a sua confissão:

“Há alguns anos, fizeram-me notar as personagens das minhas peças e dos meus romances tomam as suas decisões bruscamente e em crise, que basta um instante, por exemplo, para que o Orestes das Moscas conclua a sua conversão. Sem dúvida: é que os faço à minha imagem; provavelmente, não tal como sou, mas tal como quis ser (…) À falta de me amar, fugi para a frente; resultado: amo-me ainda menos, essa inexorável progressão desqualifica-me incessantemente aos meus olhos; ontem, agi mal, visto que era ontem, e hoje pressinto o julgamento severo que farei incidir sobre mim amanhã.”

E dá-nos uma despedida que é a sua assumida condição humana posta em palavras:

“Durante muito tempo, considerei a pena como uma espada, agora conheço a nossa impotência. Não importa: faço, farei livros; é preciso que o faça; servem para alguma coisa, apesar de tudo. A cultura não salva nada nem ninguém, não justifica. Mas é um produto do homem: este projeta-se nela, reconhece-se nela; apenas esse espelho crítico lhe oferece a sua imagem (…) Lancei-me por inteiro à obra para me salvar por inteiro. Se arrumo a impossível Salvação no armazém, que resta? Um homem inteiro, feito de todos os homens que vale por todos eles, e por quem valem todos os outros.”

Um monumento autobiográfico no topo da grandeza da escrita. 


                                                                            Mário Beja Santos