Mostrar mensagens com a etiqueta Mussolini. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mussolini. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Do marxismo ao fascismo em sorites.

 
Trinity College, Dublin - Biblioteca
 
 
 
A polémica em torno da afirmação de José Rodrigues dos Santos de que a imprensa fez eco – “as origens do fascismo estão no marxismo” (Público, 30-5-16) -, a propósito do seu mais recente romance, animou um pouco o debate público nacional. Manteve-se relativamente civilizado, o que não é muito comum na nossa tradição cultural. Alguma coisa boa resultou (serviu para esclarecimento de alguns conceitos políticos e uns quantos factos históricos), muito embora, no final de contas, o que a JRS parece ter importado terá sido apenas defender essa sua afirmação inicial. Ora ela é precisamente a razão da polémica, como procurarei explicar com a serenidade permitida pela distância geográfica. A minha pergunta é: depois dos dados apresentados por todos os intervenientes, será mesmo que a afirmação se pode manter?
Primeiro que tudo, nunca vi uma afirmação semelhante em nenhum livro de história ou teoria política, pelo menos dos autores que me habituei a respeitar. Então, a resposta parece-me clara: só mesmo se tomarmos esses termos em sentido nada rigoroso, tipo conversa de café, superficial e inconsequente, e, mesmo assim, só aplicada ao fascismo italiano. Por exemplo, a hermenêutica literária, que hoje escalpeliza muitos textos tradicionais apodando-os de machistas e racistas, teve origem na hermenêutica bíblica levada a cabo sobretudo pelos biblistas alemães do século XIX. Mas daí poderemos concluir o quê? Apenas que se trata de uma ligação histórica contingente totalmente alheia aos precursores da referida tradição hermenêutica. Numa sequência de eventos e influências díspares ao longo dos tempos, um evento ou conjunto deles acaba desencadeando uma série de outros em variadíssimas direcções por uma relação de sucessão, acabando o evento inicial por ter muito pouco a ver com o ponto de chegada.
         A questão da afirmação de José Rodrigues dos Santos emerge quando a leitura dela estabelece implicitamente uma mais estreita relação entre os dois termos: o fascismo faz parte da essência do marxismo. O problema, pois, está nesse possível sentido implícito na frase. O autor dela pode sempre reclamar não ter sido sua intenção estabelecer tão íntimo nexo, no entanto, muitos leitores poderão sempre responder: Mas foi nesse contexto que a entendi. E não sairemos daqui nunca mais. Seria preciso fazer-se uma sondagem aos leitores perguntando-lhes:  O que significou para si essa afirmação de JRS?
Por mim, entendi-a como querendo insinuar ser o fascismo uma consequência do marxismo, essa consequência implicando que o fascismo está lá no embrião teórico do próprio marxismo.
         Se essa leitura é legítima (eu honestamente, repito, li assim), então há que averiguar. Impõe-se, portanto, uma análise de conceitos e de movimentos políticos. Ela aliás foi feita – e muito bem - por alguns dos intervenientes cujos textos chegaram até mim (António Araújo e Francisco Louçã, Público, 30 e 31-5-16)
Mas queria acrescentar algo: identifico na frase de JRS uma falácia clássica (o termo tem o sentido técnico rigoroso de erro lógico) cujo nome ainda hoje circula pelo menos entre historiadores, cientistas sociais e até mesmo advogados (nos tribunais). Chama-se post hoc, propter hoc (depois disso, logo por causa disso). Uma sequência de eventos pode constituir apenas uma sucessão contingente sem o evento inicial ter qualquer relação de causa-efeito com a conclusão. O marxismo, ao passar por uma série de situações históricas, acabou nalgumas variantes que nada tinham a ver com as concepções do seu criador, Karl Marx. Isso aconteceu e acontece constantemente na história em todas as áreas. Um exemplo simples? A Inquisição. Não será necessário contar aqui as suas origens e desenvolvimento. E todavia, seguindo a lógica subjacente à afirmação de JRS, podemos criar uma situação paralela afirmando: a Inquisição tem origem no cristianismo.
Compreende-se que, se alguém tivesse feito tal afirmação, inúmeros cristãos e não-cristãos chamariam a contas o seu autor.  Ele viria defender-se explicando como historicamente as relações de sucessão ocorreram. Um pensante clássico, preocupado com o rigor lógico, porém, apontar-lhe-ia logo: falácia do post hoc propter hoc. A leitura benévola, porém, seria: Deixa andar, a frase é tão genérica que não vale a pena perder tempo com ela. Contudo, muita gente se incomodaria se ela fosse proferida por alguém com impacto entre os seus ouvintes.
(Um parênteses: a afirmação de JRS, lida no sentido rigoroso, incorre noutra falha lógica tradicionalmente apodada de sorites. De um termo passa-se para outro por qualquer relação semântica, terminando-se com uma conclusão estapafúrdia. O humor serve-se dessa técnica. Veja-se, por exemplo, aquela do filósofo acotovelando acidentalmente um transeúnte que reage: Tem Graça! O filósofo prossegue rua abaixo pensando consigo: Tem  graça? Graça do Senhor, Senhor dos Passos… Paços do Conselho… Concelho de Ministros… Ministro da Guerra… Guerra Junqueiro…. Junqueiro… Junqueira de Alcântara… Alcântara do Mar… Do mar à serra… Serra da Estrela… Estrelas tem o céu… O céu é azul… Azul, tinta de escrever… Escrever para França… De França vêm os bebés… Os bebés mamam… Mamas tem a vaca… A vaca tem cornos… Filho da mãe! Chamou-me corno!)
Regressemos, todavia, aos conceitos e à história. Muito embora JRS lembre que “nem os académicos se entendem sobre todas estas definições e catalogações” (Expresso, 4-6-16), isso não implica que não valerá a pena tentarmos fazer alguma luz conceptual sobre os termos em causa nesta polémica. Resumirei ao máximo procurando ser tão rigoroso quanto possível.
Socialismo não é sinónimo de marxismo. O socialismo precedeu Marx. Era fundamentalmente uma doutrina política com base numa ética que valorizava acima de tudo a justiça social. O marxismo incorporou o socialismo numa doutrina muitíssimo mais abrangente. O marxismo é uma metafísica materialista, com uma lógica (a dialéctica – daí o materialismo dialéctico), uma epistemologia (a ciência empírico-positivista), uma filosofia da história (a luta de classes), inspirada numa teoria económica anti-capitalista, com uma teoria política sobre a tomada do poder (a revolução e a ditadura do proletariado), para a instauração de uma nova ética: a socialista. Bastará lembrarmo-nos do socialista francês Proudhon, autor do famoso A Filosofia da Pobreza, e da resposta que Marx lhe deu no seu A Pobreza da Filosofia. Quer dizer, Marx achava que o socialismo formulado por Proudhon era de uma grande pobreza filosófica. A sua doutrina (Marx não se intitulava marxista) instaurava uma nova maneira de propor o socialismo, fazendo-o brotar de um complexo e genial sistema que tornava o advento do socialismo algo inevitável.
Portanto, na lógica de JRS, poderíamos perfeitamente dizer, e aliás com mais rigor: o fascismo tem origem no socialismo.
Só que é mais do que sabido que o socialismo francês anterior a Marx, por exemplo, tem um fundo profundamente cristão. Portanto, poderíamos ainda alterar a frase e irmos bem mais longe: o fascismo tem origem no cristianismo.
Ficaríamos mais elucidados? Claro que não. Quem conhece bem a história do pensamento político ocidental conhece também toda a sequência de contingências.
O que achei deveras curioso foi o facto de ter figurado neste debate uma figura como Georges Sorel, que caíra inteiramente (ou quase) no olvido. O nacionalismo de Sorel é que veio inspirar uma série de desenvolvimentos de teóricos a ponto de líderes políticos acabarem por desistir por completo do marxismo, fazendo casar apenas o socialismo com o nacionalismo. E tudo isso sem nenhuma causalidade directa, apenas porque as visões do mundo se foram, por inúmeras razões, alterando.
Vai para três décadas, venho chamando a atenção para a importância de Sorel (no Réflexions sur la Violence, 1908) a fim de se entender a obra Mensagem, de Fernando Pessoa. Não propriamente por causa do nacionalismo, pois não era essa a grande novidade da proposta de Sorel, mas por causa do seu conceito de mito. Os marxistas tinham deixado de acreditar na possibilidade da revolução e Sorel veio explicar-lhes o falhanço: os povos não se movem por ideias abstractas, mas sim por mitos. Todavia, têm de ser mitos que lhes toquem fundo, que tenham algo a ver com a sua ‘alma nacional’ (na altura um conceito muito em voga). Foi assim que o nacionalismo, conceito obviamente já existente há muito, se espalhou entre os marxistas (e não só), para acabar sendo removido e dele recuperando-se apenas a faceta do socialismo. Hitler, por sinal, nada tem de marxista; é simplesmente um nacional-socialista.
Expliquei também (passe a auto-publicidade, os interessados terão tudo isso num volume meu recente: Pessoa, Portugal e o Futuro, Gradiva, 2014) que Pessoa conhecia Sorel e agarrou-lhe a ideia: para os portugueses ressurgirem do marasmo em que estavam, precisavam de um mito nacional e, no nosso caso, não era sequer necessário inventar um, pois já tínhamos o sebastianismo. Era só fazê-lo renascer e integrá-lo numa nova proposta colectiva, um novo ideário para o país.
Voltando ao modelo de associação conceptual de JRS, também aqui poderíamos dizer: Mensagem, de Pessoa, tem origem no marxismo soreliano. E, no entanto, trata-se apenas de uma importação de elementos por via puramente contingente.
Assim, no meio das simplificações todas atrás elaboradas, mas que procurei fossem estabelecidas com rigor histórico e conceptual, pergunto-me:  se a frase de JRS fosse tomada à letra e, portanto, como simples resumo de uma associação contingente – o marxismo também desembocou no fascismo –, teria provocado toda esta polémica? Creio que não. Até porque nunca teria surgido em título nos jornais. Porque foi entendida como implicando muito mais do que de modo algo inocente afirma é que ela provocou tanta celeuma. E é exactamente por tal motivo que também, a esta distância, me senti impulsionado a vir tentar destrinçar alguns conceitos. Não para defender o marxismo. Nunca fui marxista, muito embora inclua Marx como leitura obrigatória no programa de uma disciplina que lecciono há 35 anos, por achar fundamental para se entender o debate teórico sobre valores éticos. Porque acho possível fazer alguma luz e, mais do que isso, por julgar deveras importante que se a busque. Daí atrever-me a entrar nesta liça. Fosse a afirmação de José Rodrigues dos Santos um mero truísmo, não valeria a pena debatê-la. Mas também não teria valido a pena ele afirmá-la em caixa alta nos jornais e vir depois defendê-la.
 
 
 
Onésimo Teotónio Almeida
 
 
 
(publicado originalmente no JL - Jornal de Letras Artes e Ideias, de 22-VI-2016, aqui reproduzido com permissão do autor. Obrigado, Onésimo, um abraço!)

 

 

 

 

domingo, 5 de abril de 2015

Os Novos Messias, por Luís Cebola.

 
 
 
 
 
«Embora a palavra do chefe seja o viático das grandes massas, outros fluidos de interpenetração sugestionam os indivíduos nas horas solenes dos espectáculos ideológicos.»

terça-feira, 17 de junho de 2014

Os Novos Messias, por Luís Cebola.







         Ao terminar o meu estudo sobre os célebres ditadores, o deus Marte acaba de guardar, temporàriamente, o gládio flamejante da guerra, para fazer o seu periódico repouso, depois de haver acordado no Homem o instinto de ferocidade.
         As populações escravizadas estão a reintegrar-se no direito à vida e à liberdade.
         Enquanto Marte dorme, haja, ao menos, por todo o  Mundo, a alegria de viver dentro das normas da Democracia.



quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Vidas singulares: Gino Bartali.

 
 
 
 

 
Há poucos dias, nem sequer há uma semana, o Jorge, amigo grande, dos mais generosos que tenho, mandou-me uma notícia do Haaretz. Dizia-se aí que Gino Bartali tinha sido homenageado no Yad Vashem. À minha ignara pergunta sobre quem era Gino Bartali, respondeu o Jorge também com uma pergunta, letal, e um pequeno texto que explicava tudo:
.
O ciclismo, a épica da rivalidade Coppi/Bartali, serão uma lacuna na sua cultura? Coppi representava a esquerda e Bartali a direita.  Era a luta entre as duas Itálias do pós-guerra. A mitologia é irresistível. Mas, de facto, Coppi votava na DC e Bartali era amigo de De Gasperi. Este pediu-lhe um dia que ganhasse uma etapa da Volta à França para acalmar as tensões do atentado contra Togliatti. Bartali assim fez e, ao fim da tarde, a Itália confraternizava. E, durante a guerra, Bartali lá ia na bicicleta levando documento para salvar judeus… Nunca se vangloriou disso. Era um homem justo.
-
Depois, com a generosidade de sempre, mandou-me um texto que escreveu para o Público, em Junho deste ano, aqui divulgado parcialmente:  
.
O italiano Gino Bartali ganhou o seu primeiro Tour de France em 1938. Fausto Coppi triunfa pela primeira vez em 1949. Temos de fazer um curto desvio por Itália para perceber a dimensão histórico-política do ciclismo.
 
 

 
O muito popular Giro d’Italia transfigura-se no pós-guerra. As primeiras voltas são o reencontro da Itália vencida consigo mesma. “Era também a revista da nossa pobreza, um país destruído e virado de pernas para o ar por uma guerra catastrófica”, anota um historiador. Nas bermas das estradas, olhando a caravana, “os italianos começavam apenas a sorrir.”
 
A Itália não era só um país arrasado, mas politicamente dividido e dilacerado. O Giro teve uma função unificadora. Em 1947, surge uma nova literatura ligada ao ciclismo, que é reescrito como um romance nas colunas dos jornais. Escritores comunistas e conservadores, de Vasco Pratolini a Dino Buzzati, de Alfonso Gatto a Curzio Malaparte, de Gianni Brera a Cesare Zavattini, passando pelos grandes nomes do jornalismo político, mitificam ou politizam o Giro.
 
 
 
 
 
 
 
Os italianos projectaram sobre o ciclismo a sua divisão política. O católico Gino Bartali passa a representar a Igreja e a Democracia Cristã. “Bartali conquista o paraíso a pedalar”, escreveu Brera. Fausto Coppi – que, ironicamente, votaria na DC – passa a encarnar a Itália moderna e progressista. Malaparte teorizou este contraponto mitológico num ensaio de 1949: “Gino é filho da fé. Fausto é filho do livre pensamento. Bartali pertence aos que crêem nas tradições, Coppi é dos que crêem no progresso.” Quando os espectadores gritam “Viva Bartali” ou “Viva Coppi”, não estão necessariamente a pensar nos ciclistas.
 
Arqui-rivais, foram amigos. Muito custou a Bartali ser suplantado pelo jovem concorrente, cinco anos mais novo. Há uma célebre foto do Tour de 1952 em que os dois correm isolados na montanha e há uma garrafa de água a passar de mãos. Quem passa a água a quem? A foto, que fez capa de jornais, ilustra a reconciliação dos italianos.
 
 
 
 


No dia 14 de Julho de 1948, um estudante dispara três tiros sobre Palmiro Togliatti, secretário-geral do Partido Comunista Italiano. No hospital, Togliatti apela em vão à calma. O país está em estado pré-insurreccional. O Governo admite pôr as tropas na rua. Bartali está em França, a correr o Tour. O primeiro-ministro, Alcide de Gasperi, telefona-lhe para Cannes, pedindo-lhe que ganhe a etapa e o Tour para salvar a Itália. Bartali cumpriu.


Estava em 24.º lugar, a 20 minutos de Louis Bobet. Ganha a etapa isolado – e as duas seguintes, vencendo o Tour. A notícia da vitória chega a Itália, no dia 15, às 17h30, “e as manifestações, como por magia, transformam-se em festa” (La Repubblica).
 
 
A vida privada de Coppi cimentou a sua lenda progressista. Em 1953, deixou a mulher e foi viver com a mulher de um médico amigo, Giulia Occhini, “La Dama Bianca”. A mulher de Coppi processou-o: o adultério era um delito. Giulia esteve três dias na cadeia. A Coppi confiscaram o passaporte. Foram julgados e condenados, com pena suspensa.
 
 
 
 
A predestinação de Coppi para o mito é confirmada pela sua morte, escreve Mura. Morrerá absurdamente em 1960, aos 40 anos. Apanhou malária numa corrida em África e foi tratado, em Itália, a uma gripe. Muitos, como Brera, acreditaram que “foi deixado morrer”.
 
Bartali morreu em 2000, com 86 anos. Mas deixava também uma história só muito tarde revelada. Durante a guerra, sem Giro para correr, treinava-se na estrada, passando com facilidade as patrulhas alemãs. Mas o treino era muitas vezes ficção. Fazia parte de uma organização de apoio aos judeus. Transportava, escondidos na bicicleta, documentos para fazer passaportes falsos. Terá contribuído para salvar 800 judeus. Tem um lugar na Álea dos Justos, em Jerusalém.
 
Jorge Almeida Fernandes
 
    Leituras:
 








 
 
 
 

 
 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Retrato do artista quando jovem cão.

. . .
.
.
 
Não sei porquê, ocorreu-me o título do livro de Dylan Thomas quando li as impressões que o jovem JFK trouxe de uma viagem por Itália e pela Alemanha. Seduzido pelo nazismo e pelo fascismo, Kennedy fez observações laudatórias sobre Hitler e  Mussolin. Fabulosa história contada hoje, no La Stampa, aqui.

 

domingo, 12 de maio de 2013

Filhos do fascismo.




.


 
As crianças na propaganda fascista italiana
(anos 1920-1940)


.
.
.

Fascismo desde o berço

O regime de Mussolini,  que durou de 1922 a 1943, utilizou maciçamente a propaganda.  Como regime assumidamente totalitário, dedicou especial atenção às crianças, que quis formar física e espiritualmente para construir o homem novo, l’uomo fascista. Os pequeninos eram a massa ideal de que se fariam esses novos homens fascistas, os futuros guerreiros do Império de Itália. A propaganda tomou directamente as crianças como alvo, mas utilizou-as também amplamente como tema.
.


 
 
“Benito Mussolini ama muito as crianças. Os meninos de Itália amam muito o Duce” (página do livro da primeira classe da escola elementar).
 

A Obra Nacional Balilla (imitada em Portugal pela Mocidade Portuguesa), órgão do Partido Nacional Fascista, arregimentava as crianças e adolescentes dos dois sexos a partir dos 4 anos de idade. Os rapazes Balilla vestiam farda de camisa negra e calção verde e, desde muito cedo, recebiam doutrinação política e formação paramilitar. As meninas Balilla, denominadas Piccole italiane (Pequenas Italianas), vestiam camisa branca e saia negra. O lenço azul era comum.

Com diferenças de vocabulário e estilo, os comunistas soviéticos também arregimentavam as crianças. Aí, os  Balillas chamavam-se Pioneiros. Na Coreia do Norte ou em Cuba ainda hoje existe a organização dos Pioneiros.



Postal de propaganda de 1939



CRIANÇAS!

Vós sois a aurora da vida
Vós sois a esperança da Pátria
Vós sois sobretudo o Exército de amanhã

                   Mussolini

 

 

 

 




Foto e postal de propaganda em que o Duce exibe o seu amor pelas crianças

 



Venceremos!  Mussolini Postal de propaganda fascista

 

 

Se Mussolini amava as crianças, era natural que estas lhe retribuíssem esse sentimento, como não parece restar dúvida em face deste desenho de A. Micheli, capa do livro Duce Nostro, de 1933.  Meia dúzia de pimpolhos, incluindo um bebé, disputam um retrato do amado Duce – uma espécie de super-pai, que o título do livro assimila ao Padre Nostro, o Pai Nosso que está no céu.

 
 


 
A Oração do Balilla
Do Livro da Quinta Classe

 
 
 

La preghiera del “Balilla”

Padre nostro che sei nei cieli…
Signore, benedici e proteggi sempre la mia Italia,
nella sua Romana Chiesa, nei suoi uomini di comando,
nelle sue madri, nei suoi guerrieri, nei suoi lavoratori,
nell’oro delle sue messi.
Benedici i Sovrani, i Principi, il Duce nostro

nella grande fatica che Egli compie;
e poiché l’hai donato all’Italia, fallo vivere a lungo
per l’Italia e fa che tutti siano degni di lui
che non conosce riposo vero se non quando
è in mezzo a noi fanciulli e ci sorride con il suo luminoso sorriso.
Benedici la mia famiglia, la mia scuola, i miei maestri,

la mia divisa d’onore e di promessa.
Concedimi una grazia: dare alla Patria il braccio,

l’anima e, ove occorra, la vita.
Sia benedetto il tuo Santo Nome.


 
Pai Nosso, que estás no céu...

Senhor, abençoa e protege sempre a minha Itália,
na sua Igreja Romana, nos seus homens de comando,
nas suas mães, nos seus guerreiros, nos seus trabalhadores,
no ouro das suas searas.
Abençoa os Soberanos, os Príncipes, o Duce nosso,
na grande tarefa que ele cumpre;
e uma vez que o ofereceste à Itália, fá-lo viver longamente
pela Itália e faz com que sejamos todos dignos dele
que não conhece verdadeiro repouso senão quando
está no meio de nós, crianças, e nos sorri com o seu sorriso luminoso.
Abençoa a minha família, a minha escola, os meus mestres,
a minha divisa de honra e promessa.
Concede-me uma graça: dar à Pátria o braço,
a alma e, onde necessário, a vida.
Seja bendito o teu Santo Nome.

 

 

Balillas de mama




 Postais ilustrados dos anos 20, de Aurelio Bertiglia, o ilustrador especialista em fascismo infantil.

 

 


Enquanto um Balilla fardado recebe “aprovisionamento” ao colo de Rosina, outro puxa um canhão de brinquedo. No berço, dois bebés burgueses brincam com o cãozinho e, segundo a legenda, exultam quando vêem chegar o rei com Benito (Mussolini) e o papá. 

 
A consciência política dos bebés fascistas era muito precoce.
Estes miúdos Balilla limparam o nariz a uma bandeira vermelha rasgada.



 Postal ilustrado de Alberto Bertiglia.


 

Pimpolhos de dois ou três anos, com fez de Balilla, fazendo a saudação romana. O primeiro ainda não tem camisa negra, mas o último até já é medalhado.
<!--[if !supportLineBreakNewLine]-->
<!--[endif]-->

 
 

 

Supostos mini-fãs do fascismo em pose para o álbum de família





 

Na escola primária a saudação romana era obrigatória.




Capa de livro da segunda classe da escola elementar


 
A doutrinação começava na escola elementar


Na capa deste livro da primeira classe, o edifício da escola é um fascio littorio, o emblema do fascismo.


 
 

 

 

 

Os Balillas mais novitos chamavam-se filhos ou filhas da loba. Em Portugal copiou-se para lusitos, primeiro escalão da Mocidade Portuguesa. Repare-se no M de Mussolini no peito. Na farda da Mocidade Portuguesa, o S de Salazar situava-se na fivela do cinto.
 
 
 


 
 
 

 

O queixo em riste era um ex-libris do Duce. Os miúdos acima parecem imitá-lo.
 

 

Soldadinhos de calção

Como o Duce amava muito os meninos italianos, preparou-os para a guerra.




 
As crianças foram iniciadas no manejo das armas, meio a brincar, meio a sério. Havia uma espingarda Balilla de fulminante, com baioneta de fantasia, como a que se vê na capa de um caderno escolar de 1936, ano da invasão da Etiópia pela Itália.

 





“Vós sois o exército de amanhã”





 

 

 

 

 


Jovens Balilla aprendem a marchar a passo romano, instruídos por camisas negras.



Balillas fardados numa ilustração do livro da segunda classe da escola elementar.
 
 

 
Balillas encarrapitados num M gigante esperam a chegada do Duce pela estrada, em Aosta, 1939. Na imagem seguinte, uma parada de Balillas e Pequenas Italianas, em Turim, 1939.

 

 

 
 
 

Uma pedrada desvirtuada

Balilla deve o seu nome a um herói infantil do século XVIII, um rapaz genovês que arremessou uma pedra contra soldados austríacos que ocupavam a sua cidade. Desse gesto patriótico o fascismo reteve sobretudo o elemento belicoso da pedrada, legítima defesa que transformou em símbolo de ilegítima agressão, primeiro contra os adversários políticos nacionais e, depois, contra os etíopes, os gregos, os albaneses, os russos e outros povos europeus e africanos.

A pedrada de Giovanni Battista Perasso, dito o Balilla, mitificada pela propaganda fascista.




A propaganda fascista de tema infantil não se destinava só aos jovens, tinha uma função importante junto dos adultos. A atenção votada pelo regime à juventude, as qualidades positivas associadas à infância e os valores familiares, como a disciplina, a obediência e a autoridade paterna, eram sugeridos por essa propaganda e utilizados na tentativa de coonestar, humanizar e legitimar o fascismo. Também a rebeldia juvenil interessava ao regime, mas canalizada para os seus fins políticos.

Quando em 1932 o industrial Agnelli lançou, com o apoio de Mussolini, o pequeno Fiat 508 de preço acessível, o nome escolhido para o modelo foi Balilla. A publicidade do automóvel explorou a deixa e produziu este cartaz. A figura do rapazinho inspira-se no herói do século XVIII, mas a camisa negra adequa-o à simbologia fascista. A importação de carros estrangeiros foi então proibida, para eliminar a concorrência. Esse gesto proteccionista e hostil ao estrangeiro está também insinuado no cartaz.

 
 

Nos anos 30, Mussolini decidiu massificar a propaganda radiofónica e fazer chegar os seus discursos a cada lar italiano. Foi encomendado um aparelho de rádio de preço político, mais acessível às bolsas populares. Era produzido por vários fabricantes e foi denominado Radio Balilla, ostentando o símbolo do fascismo, o fascio littorio. Ao centro, uma foto publicitária realizada para o seu lançamento em 1937.

 
 
 



,

Bebés de cacete em punho

 
O menino  de carinha laroca e barrete (fez) de Balilla, segura na mão um cacete, então usado pelos squadristi, os  caceteiros adultos que espancavam os opositores do regime fascista e escaqueiravam as suas sedes e casas.
.

 

 
 
O comportamento brigão era estimulado e canalizado pelo Estado fascista, que pensava a prazo na guerra. 

O grito de guerra fascista A noi! (A nós!) teve a sua origem em 1918, durante a Grande Guerra. Significava algo como “a vitória é nossa”.

 
 
Postal ilustrado de Aurelio Bertiglia, 1923.
 
 
“Eis-nos aqui…

cheios de ardor

cheios de amor

pela Ítala terra.”

 

Um fascistazinho rico, de cassetete chic, polainas e cigarro na mão! Aí vai o campeão, “pronto para a represália, pronto para a expedição” (uma expedição de pancada nos adversários políticos).
.



 
Postal ilustrado de Antonio Rubino, que foi director da revista fascista de histórias aos quadradinhos Il Balilla.

 
Jornada do Brinquedo Italiano
 






Este cartaz de uma exposição de brinquedos inaugurada em Junho de 1934 pelo general fascista Starace combina o elemento lúdico-infantil com a agressividade racista e colonialista, então dirigida contra a Etiópia, que no ano seguinte seria invadida pela Itália.

 
 
Pinóquio vira fascista
 

Criado em 1881 por Carlo Collodi, Pinóquio tinha várias qualidades que os fascistas tentaram explorar em seu proveito: era italiano, extremamente popular e amado pelo público infantil e adulto. Por isso fizeram dele Balilla, caceteiro e colonialista. Logo em 1923, publicaram-se as Aventuras e expedições punitivas de Pinóquio fascista, em cuja capa se pode ver um Pinóquio squadrista (membro de um esquadrão punitivo fascista), de camisa negra e fez de borla pendente, armado de um cacete, fazendo ingurgitar óleo de rícino a um comunista de barrete frígio vermelho. Numa das suas expedições, Pinóquio fascista destruiu a tipografia onde era impresso um lunario (almanaque) comunista.
.

 
 
 

Pinóquio Balilla

O travesso e disparatado Pinóquio não queria entrar para a organização Balilla, mas foi aliciado a aderir por um pedaço de chocolate e a possibilidade de ver cinema grátis. Uma vez membro, o fantoche tornou-se num Balilla entusiasta e até conseguiu a adesão à organização fascista juvenil de dois seus comparsas rebeldes (vestígios da raposa e do gato de Collodi). Esta história é relatada em Pinóquio entre os Balillas. Novas travessuras do célebre fantoche e seu arrependimento, publicada em 1927, cuja capa se vê abaixo.
.
 
 
.

Fascistização da banda desenhada


Após a Grande Guerra, a banda desenhada conheceu forte expansão em Itália. Logo no começo de 1923, os fascistas reagiram, lançando Il Balilla, revista de histórias aos quadradinhos centradas em personagens heróicas italianas. Em 1927 surgiu La Piccola Italiana, destinada às meninas. Mas a banda desenhada de origem americana recolhia as preferências do público infantil, especialmente nos anos 30, quando foram lançadas as primeiras revistinhas com as falas em balões, em lugar das tradicionais legendas sob as imagens. A revista Topolino, tradução italiana de Mickey Mouse, apareceu em 1932 e teve êxito imediato. Em 1935, surgiu o semanário I Tre Porcellini (Os Três Porquinhos), outro grande sucesso. Todavia, a crescente popularidade dos comics americanos e dos bonecos de Walt Disney – apesar da amizade pessoal deste por Mussolini – começou a tornar-se num problema político. Foram lançadas várias revistinhas com personagens italianos, mas a bonecada de Disney e as histórias de cowboys e super-heróis americanos ameaçavam “perverter” os princípios formadores da nova geração.

Em 1935, o Topolino já intercalava no seu conteúdo propaganda fascista e historietas italianas para contrabalançar a influência estrangeira. Em 1938, após a publicação de um manifesto de Marinetti sobre literatura juvenil, todas as bandas desenhadas de origem estrangeira foram proibidas, com excepção do Topolino, por decisão pessoal de Mussolini. Durante a II Guerra Mundial  o próprio Topolino foi extinto (1941), sendo substituído por Toffolino, revista cujo protagonista era não um rato, mas um rapazinho italiano, cujas histórias eram edificantes do ponto de vista do fascismo. Por fim os próprios balões foram banidos, substituídos pelas velhas legendas, e a banda desenhada foi completamente italianizada. Em 1943, com a queda de Mussolini e o começo do desembarque Aliado, desapareceram todas as revistas infantis, incluindo Il Balilla.
.
 



Desenhos de Antonio Rubino, ao tempo director da revista. Rubino foi o pai da banda desenhada com camisas negras.

 
 
A revista Il Balilla foi lançada em 1923, ainda antes da organização de juventude do mesmo nome, que só foi criada em 1926.

Na capa deste número de 1929, pequenos Balillas armados de mocas e espadas escorraçam uma bruxa da floresta e colocam sobre o peito um cartaz com que a bruxa os pretendia afugentar, contendo uma caveira e a inscrição “Perigo de Morte”.

...





 

Desenhos de Antonio Rubino

.


Nesta história, meninos Balilla num avião pilotado por um boneco levam a “chama eterna” de Roma e do Duce para a antiga Leptis Magna, na Líbia, sob o signo da renovação das glórias do passado e do cumprimento dos objectivos que o destino cometia aos soldados do Império Romano renascido. Não se vê um africano em parte alguma.

A Líbia (nome que data de 1934) tem um território seis vezes superior ao da Itália e foi sua colónia de 1912 a 1943.

 
 
Desenhos de A. Burattini.
 


A revista Topolino (Rato Mickey), que a partir de 1932 divulgava em Itália as figuras do império de fantasia Disney, inseria também historietas edificantes com um personagem infantil italiano, fardado de Balilla.

Neste número de 1935, o Balillino – assim se chamava, para não haver dúvidas – lida com um touro que ameaçava uma pequena beldade.
.



.
No interior do Topolino era intercalada propaganda política, como retratos e citações de Mussolini. Neste caso, o Duce justifica a chamada da juventude italiana às armas (guerra da Etiópia) como um caso de “suprema necessidade”, tratando-se de assegurar “a potência e a glória da Pátria”.

Por baixo, mais um aventura do Balillino, sempre solícito a socorrer uma menina e a evitar pneus furados.
.
. 
No final dos anos 30, o regime fascista iniciou uma campanha de ódio contra os judeus residentes em Itália. Sob pressão da Alemanha nazi, foram aprovados diversos decretos, expulsando os jovens judeus das escolas, proibindo o casamento entre “arianos” e “semitas” e demitindo os judeus dos empregos públicos (1938). Em 1940, Mussolini fez saber que todos os judeus teriam de abandonar a Itália. Seguiram-se os internamentos em campos de concentração e, a partir de 1943, na Itália ocupada pelos nazis, as deportações para campos de extermínio alemães.
.
 
 
-
Neste número da revista Il Balilla de Janeiro de 1939, conta-se a história do “pobre judeu” Assalonne Mordivò, que chorava na rua, dizendo-se reduzido à miséria. Um rapazinho condoído, Pierino, ofereceu-lhe o seu farnel. Mas eis que um Balilla aparece junto de Pierino e desmascara o falso pobre, que escondia sacos de ouro sob o capote. Corrido a pontapé pelo Balilla, o judeu não parou até à fronteira, deixando cair as suas moedas de ouro pelo caminho.
.

Crianças na propaganda de guerra imperialista
.
Em 1935, Mussolini decidiu invadir a Etiópia, também dita Abissínia. Os fascistas proclamaram que os italianos tinham direito a um grande império colonial, para levar o facho da civilização romana a paragens bárbaras onde, diziam, ainda predominava a escravatura. Assim começou a breve, mas sangrenta aventura da “África Oriental Italiana”, juntando a Etiópia à Somália italiana e à Eritreia. O Império durou cinco anos e a guerra provocou mais de 500.000 mortos, muitos deles alvos de gazeamento em larga escala pela artilharia e pela força aérea italianas.

As crianças italianas foram alvo da intensa propaganda de guerra imperialista, como se constata pelos livros e cadernos escolares fabricados pelo Estado fascista. Mas as imagens infantis foram também largamente utilizadas na propaganda de guerra destinada sobretudo a um público adulto.

O ilustrador infantil e entusiasta do fascismo Aurelio Bertiglia, acima já referido, produziu em 1935 uma colecção de postais de propaganda intitulada La Conquista dell’Etiopia que adiante se expõe na totalidade.

.

.
A nova bandeira dos etíopes

Um ras (príncipe) e outros meninos etíopes, alguns armados, prostram-se diante da bandeira da sua nova pátria, a Itália de Mussolini. Os meninos das cubatas exultam e agitam bandeiras tricolores.

 

 



Uma guerra-brinquedo
.
Mulherzinhas etíopes de palmo e meio saúdam o soldadinho porta-bandeira italiano, enquanto um Balilla (de costas) recebe a rendição de outros meninos. Uma invasão idílica, sem os muitos milhares de mortos por gaseamento e bombardeamento da população civil.


.
Mais realismo


Um pouco menos idílica é esta corrida a pontapé que um ras etíope leva, com os seus fiéis guerreiros em debandada. Os soldadinhos de camisa negra nunca perdem o sorriso, como se tudo não passasse de uma brincadeira.



A perfídia dos invadidos…
.
Aqui vai outro ras em fuga, de nada lhe valendo a insígnia da Cruz Vermelha, perfidamente usada como escudo. A caixa de balas dum-dum (proibidas pela Convenção de Haia de 1899) também ostenta igual camuflagem. A baioneta de um pimpolho fascista avança para os fundilhos de um soldadinho etíope caído.


 
 
Um exército de bons samaritanos

Com os maus postos em fuga, é a altura de os invasores servirem o arroz e o cereal ao povo. Um pequeno camisa negra até pôs o avental. Dois meninos etíopes parecem incrédulos com a fartura.
.
 
.
Supressão da escravatura

Aqui se explica que os fascistas foram à Etiópia para quebrar as grilhetas do povo escravizado. “Onde tremula a bandeira italiana, aí está a liberdade!” – afirma o edital colado na parede.
.
 

.
Faccetta Nera

“Carinha negra” foi uma canção criada em 1935 como meio de justificação e mobilização para a invasão da Etiópia, ocorrida meses depois. Refrão: “Carinha negra, bela abissínia, espera, espera, que a hora se avizinha. Quando estivermos juntos de ti, nós te daremos outra lei e outro rei.” O elemento feminino da canção também era suposto ter um efeito mobilizador sobre o soldado italiano, numa mescla de fantasia erótica e política.

 


.
Fascismo para a Etiópia

Uma menina loura de saia plissada, segurando o fascio littorio, saúda à romana os meninos etíopes, enquanto um avião militar italiano sobrevoa a cena, pelo sim pelo não.

.


.

O mapa do Império


De novo a menina loira de saia plissada, com dois soldadinhos e um camisinha negra, ajudados por um menino etíope, a pintarem o mapa da Etiópia, Somália e Eritreia com as cores italianas.

 
 
Os cadernos escolares durante a guerra da Etiópia

Os livros para crianças e os livros escolares em particular foram na Itália fascista um veículo de propaganda maciça entre os jovens. Também os cadernos escolares, concebidos pelo Estado, de capas ilustradas a cores e contendo textos curtos, atingiam um público infantil vastíssimo em todo o país. Algumas capas relatavam a vida de Mussolini, outras tinham Balillas por protagonistas, outras ainda enalteciam figuras históricas. Umas despertavam o sentimento bélico, outras elogiavam comportamentos juvenis que os fascistas tinham por exemplares.

A guerra de agressão à Etiópia, um dos dois únicos países de África que na primeira metade do séc. XX escapavam ao colonialismo, foi oportunamente aproveitada em 1935-1936 como assunto de doutrinação para os cadernos escolares.

A guerra imperialista da Etiópia foi nesses cadernos justificada com considerações humanitárias, como a abolição da escravatura.
.


. 
O tema da educação do indígena africano era muito glosado nos cadernos escolares, provando as intenções civilizadoras do invasor. Neste caderno mostra-se “a primeira escola indígena sob a bandeira tricolor italiana”.
.



.-
A valorização e integração disciplinada dos jovens etíopes segundo modelos organizativos europeus (fascistas) era outro objectivo proclamado do invasor. Aqui se mostra um desfile de “Balillas” indígenas, dispensados da camisa negra.
.
 
 
.
.
Também a libertação da mulher etíope servia para justificar a invasão. Na capa deste caderno escolar italiano é relatado o “estranho rito matrimonial” de uma tribo da Etiópia. O homem comprava a mulher num ajuste com a mãe dela. A esposa, resistindo com unhas e dentes ao marido imposto, era chicoteada por este até à “submissão total ao seu legítimo senhor”.
 .

 
..
Subitamente, neste caderno escolar a mensagem torna-se muito diferente.
O objectivo dos fascistas italianos na África Oriental revela-se numa imagem e na sua legenda: SUBMISSÃO.
..


 .

Imagens infantis na propaganda da II Guerra Mundial

Em 1941-1942, o nosso já conhecido artista Aurelio Bertiglia criou uma colecção de postais ilustrados de figuração infantil em apoio do Eixo nazi-fascista. Já tinha feito algo semelhante durante a Guerra de 1914-1918, mas em apoio do lado oposto, dada a opção da Itália de então pelos Aliados.

Diga-se que as crianças foram sistematicamente utilizadas em todos os países ditos civilizados pela publicidade comercial e pela propaganda de quase todas as cores políticas durante o século XX. O ilustrador Bertiglia, em particular, explorou o filão durante quase meio século, nas suas várias modalidades, e produziu muitas centenas de postais ilustrados com crianças.

A série seguinte de imagens dispensa grandes comentários. O flagrante despudor na exploração da imagem infantil para propaganda de guerra diz muito sobre o seu autor, sobre o fascismo e sobre uma certa mentalidade da época, talvez não tão distante de nós quanto se poderá pensar.

Neste postal, soldados meninos italianos, alemães e japoneses correm a pontapé os meninos ingleses da Europa, África e Ásia. Repare-se no guarda-chuva dos soldadinhos ingleses, um estereótipo usado como troça.

 

.
.
Um carro nazi-fascista, composto do fascio littorio e de rodas com a cruz gamada, segue pela ilusória Via da Vitória, onde é proibido o trânsito de peões. O soldadinho inglês (de guarda-chuva) e o grego, a suar as estopinhas, ficam a comer o pó levantado, supostamente derrotados.

 .


.
O menino nazi põe o açaimo no leão britânico ferido, enquanto o menino italiano lhe corta as garras e o japonês se prepara para lhe cortar a cauda. O inglesinho tem a sua bandeira partida na cabeça e o guarda-chuva em fanicos.
.
 

.

Com Londres em ruínas, sobrevoada pela aviação alemã, os meninos do Eixo, marchando a passo de ganso, espezinham meninos ingleses caídos no chão, um deles com um guarda-chuva espetado no rabo. A violência e o sadismo selvagem da imagem chocam especialmente pelo elemento infantil envolvido na representação.
.
 

.
.Numa das imagens mais obscenas produzidas por Bertiglia, os meninos do Eixo tripartido empurram para o precipício uma apavorada menina inglesa (de guarda-chuva)  com um cãozinho grego pela trela. Um tiozinho Sam e um ursinho soviético (junto a uma garrafa de vodka vazia) observam a cena com presumível estupor.
..


..
De um sadismo não menos obsceno é esta imagem dos bombardeamentos de Londres pelos nazis. De calças na mão, os meninos ingleses (incluindo um bobby infantil, sob um guarda-chuva roto) estão apavorados. São representadas vários tipos de civis e apenas se entrevê um soldado meio tapado, o que revela gáudio pelo ataque aéreo contra a população urbana.
.
 


.
.
25 de Abril de 1945


O 25 de Abril é a festa da libertação da Itália, como a de Portugal.






Neste dia festejou-se nas ruas de Itália o fim do fascismo. Crianças subiram aos tanques ao colo dos pais.







© Recolha, texto e edição de José Barreto.
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.


Fontes: todas as imagens foram colhidas na internet e são presumivelmente do domínio público. As imagens de livros e cadernos escolares italianos provêm de DIA Banca dati di immagini per la Didattica, http://www.indire.it/archivi/dia/index.php