terça-feira, 6 de outubro de 2026

Conversas de maré cheia, há para ali gente que nos ilumina a vida.

 





 

          Por variadíssimas razões, não já confessáveis, este livro com cinquenta conversas abre janelas para a compreensão do nosso tempo, isto graças à batuta do jornalista Bernardo Mendonça e ao seu escol de entrevistados, à versatilidade das abordagens, e talvez o ponto mais esplendente onde se insere a leitura destas muito mais de quinhentas páginas, é que estes entrevistados ajudam-nos a perceber um pouco mais sobre nós e os outros, a entender a complexidade do nosso tempo, e, no seu todo, a ganharmos mais respeito sobre o antes, o durante e o que vem aí, nas nossas vidas e nos desafios socioeconómico e culturais que temos de enfrentar. A Beleza das Pequenas Coisas, por Bernardo Mendoça, Oficina do Livro, 2024, é uma surpreendente coletânea onde gente a mais díspar vem depor que não devemos temer a empatia, a solidariedade, a vida com projetos, seja qual for a idade que temos.

          A organização da escrita do jornalista, que partiu de um podcast, teve as suas exigências, como ele escreve: “Neste desafio de transformar estas entrevistas conversadas em texto, procurei manter a dinâmica original de cada momento, e sua oralidade, expressões – sotaques até – fazendo algumas escolhas na edição, mas sem deixar para trás as faíscas luminosas que representam o brilho e a verdade de cada instante.” O livro pode ser apreciado do meio para o princípio, ou do fim para o meio, irão entrar em cena, escritores, artistas, cineastas, políticos, cientistas e investigadores, atores e encenadores, jornalistas, juristas, todos eles revelarão o que encontraram nos seus percursos e foram desafiados a falar da beleza das pequenas coisas, o que pensam da felicidade, se a vida tem sido boa para eles. Como é óbvio, para cada um a sua verdade. O escritor Valter Hugo Mãe interpelado sobre as pequenas coisas que tem gosto em dedicar tempo e atenção, dirá: “Quando volto para casa, para as Caxinas – vejo as mesmas figuras, tenho amigos que vêm de muito longe e muito interesse em saber dos outros, essas coisas dizem-me respeito, interessam-me, sinto uma pertença. Tenho sempre a sensação de que o que acontece fora das Caxinas pertence a um certo mundo de fantasia, como se não fosse a realidade.”

          A poetisa e historiadora angolana Ana Paula Tavares, que já não é criança, perguntada sobre o que a idade lhe ensinou, responde: “Muitas coisas, mas tinha grandes expetativas. Pensava que, quando fosse velha, ia dormir menos. Não, continuo a dormir muito bem e preciso daquelas horas todas de sono, embora acorde sempre bem-disposta. A velhice tem-me ensinado a lentidão. Talvez não tenha sido à toa que Milan Kundera escreveu A Lentidão, não é? Tem sido difícil, porque eu era uma pessoa muito ativa, intensa. Tinha sempre muitas coisas que fazer. Agora demoro a fechar uma porta, a atar as sapatilhas. Mas ser mais lento ajuda a ser mais perfeito, a ter mais atenção.”

          A atriz e escritora Ana Zanatti, também perguntada sobre o que a idade lhe ensinou, declara: “Sobretudo, a não perder a jovialidade. Veja certas pessoas agarradas ao passado, a pensarem que no passado é que era bom. Gosto de viver o presente e de ter fé no futuro. Ter vontade de espreitar o amanhã, sempre.”

          O sociólogo António Barreto, interpelado sobre o que Portugal tem de mais extraordinário na sua identidade, é pronto na resposta: “Sou muito alérgico às ideias de carácter nacional, da maneira de ser de um povo. Felizmente que em Portugal há caracteres, no plural. Quando me dizem que os portugueses são tristes, digo logo o nome de um português alegre para compensar. Para mim, o que é realmente importante é a história, a memória e a cultura. Quando me pedem para dizer algo elogioso sobre Portugal, não falo na maneira de ser, que não sei qual é, mas no que se fez. Nunca deixará de me surpreender que um povo tão pequeno, num canto do continente europeu, com alguma pobreza fundamental, de terras, de recursos naturais, com maus terrenos agrícolas, que este povo tenha, ao longo de sete ou oito séculos, persistido em existir e persistido na sua independência e identidade própria, na sua língua e cultura.” Este mesmo pensador perguntado sobre o que mais lhe irrita também é pronto a responder: “O predomínio da subserviência. Subserviência diante de políticos, poderosos, ricos, padres, chefes, diante de toda a gente que tem algum poder; um estrangeiro, um motorista.”

          A escritora Dulce Maria Cardoso questionada sobre as pequenas coisas do dia-a-dia a que atribui interesse e dedica tempo e atenção, também não demora na resposta: “Cuidar das minhas plantas tem-me feito aprender muito. É um antídoto sobre a pressa. Por muito que queiras um botão da roseira, tens de esperar, tratar da roseira, adubar, estar atento às pragas. Ajuda a pôr-te no teu lugar, porque podes fazer tudo e vem uma tempestade e estraga o arranjo. O teu trabalho é só mais um elemento entre tantos.”

          O filósofo Eduardo Lourenço, entrevistado quando tinha 93 anos, e perguntado sobre o papel de Portugal no nosso tempo, teve, como era o seu timbre, uma resposta que nos põe a pensar: “Somos aquilo que somos, e isso continua a ser importante praticamente a todos os níveis. Não sei se com razão ou sem ela, está sempre muito presente. Todo o nosso imaginário está vinculado a essas coisas. Nunca fizemos nada no mundo tão extraordinário. Uma coisa que contribuímos para fazer de expressão maior, são os nossos ex-países colonizados, a começar pelo Brasil. Aí fizemos uma coisa que não tem precedentes em parte nenhuma. Levámos o Brasil para o Brasil. O pré-Brasil para o Brasil. Levámos Portugal quase inteiro, simbolicamente: o rei, a corte, a nossa cultura. Nunca nenhum país foi favorecido à sua nascença com uma oferta tão grandiosa como essa. Mas o Brasil era a parte mais extraordinária também. O Brasil contribuiu para a possibilidade de nos tornarmos independentes, depois de 1640.

          E há depoimentos bem humildes, de gente maravilhada daa sua aprendizagem, caso da psicóloga e sexóloga Gabriela Moita quando interpelada sobre o que tinha aprendido que não sabia há décadas: “A própria noção de identidade. Isto aprendi com o que li, com a diversidade, mas também com a minha vida. A identidade é um conceito estranho, mas procurado, e é preciso percebê-lo. O que é que nos torna a pessoa que somos em cada momento, e esta pessoa que somos, o que tem a ver com a pessoa que fomos e com a pessoa que vamos ser? Não sei. Às vezes podemos ser outra, completamente diferente, e podemos ter desejado um caminho, e fomos por ali porque foi importante naquela altura, e depois ir por outro.”

          Uma extraordinária coletânea de personalidades de muitos misteres, depondo de si e sobre os outros, a nenhum deles falta a inquietação da beleza das pequenas coisas.

          De leitura obrigatória.  


                                                        Mário Beja Santos 


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

São Cristóvão pela Europa (373).

 

 

 

Arlberg é uma região muito turística, sobretudo no Inverno. St. Anton é considerada uma das melhores estações de desportos de inverno no Mundo.

Vários filmes passados no ambiente dos desportos de inverno foram filmados na Região como é o caso do Bridget Jones: the edge of reason.

O seu nome deriva do Desfiladeiro de Arlberg que se estende entre os estados austríacos do Tirol e Voralberg, entre Este e Oeste.

Mas a Região foi conhecida desde o Século XIV pelo comércio do sal. Um perigoso caminho de mulas percorria todo o desfiladeiro e era acompanhado por destemidos viajantes. Em 1978, construiu-se um túnel de 14 km que veio facilitar em muito as comunicações.

A primeira pequena Cidade por que passei foi a de Pettneu am Arlberg. A sua igreja paroquial, de estilo gótico tardio, é dedicada à Assunção de Maria.

No exterior, uma pintura mural representa o nosso Santo. Pintou-a, em 1933, o artista alemão Anton Spiess (1909-1945). Perseguido pelos nazis, morreu em Dachau três dias antes da libertação do campo.

 



 

St. Anton am Arlberg é porventura a mais importante localidade do Arlberg. O turismo desenvolveu-se desde 1895 e atingiu a sua expressão máxima com a construção do já mencionado túnel.

Em 1988, uma terrível avalanche causou vítimas. A autoestrada e o caminho de ferro ficaram soterrados por 5 metros de altura de neve.

A igreja paroquial combina um estilo barroco no exterior (foi consagrada em 1698) com um interior moderno.

Um altar é dedicado a Nossa Senhora do Quarto Crescente, estando ladeada por São João Baptista e São Cristóvão.

No interior há também um vitral representando nosso Santo. Lembra a Confraria de São Cristóvão, de que falaremos no próximo post. Foi oferta da família de um militar caído na Rússia em 1941.





                                         Fotografias de 3 de Agosto de 2026

                                                                            José Liberato



365 dias.

 



Há um ano iniciei estas pequenas crónicas, um título demasiado pomposo para uns meros desabafos gastronómicos. Alguém já me chamou gastrobully, talvez com razão, a fazer fé no título. Pelo sim, pelo não, faz-me sentido olhar para trás e relembrar os principais mandamentos. Tudo espremido, em poucas linhas descrevem-se as idiossincrasias de um confesso alarve.

Contra os gourmets, está visto e não preciso de me repetir. Não contra ninguém em particular, mas contra o género. Sem espumas, trufas, camas de ervas e outras invenções onde não fazem falta nenhuma. Para não falar de cozinha molecular, azoto líquido ou bolas explosivas.

Cozinha de verdade, no respeito pelas tradições, mas sempre a melhorar com cada geração que toma o testemunho da anterior. Cozinha nacional, uma das melhores do mundo, mas também todas as outras que merecem ser conhecidas: libanesa, indiana, peruana, chinesa ou japonesa, alguns exemplos do melhor de paragens longínquas.

Mas também sou feliz em Espanha, Itália, Grécia ou Turquia. E, sem a vergonha dos europeus mais ocidentais nas suas cozinhas, pelo contrário, pelo-me pela gastronomia alemã, austríaca ou polaca. A França dispensa introduções, mas até da inglesa gosto mais do que os próprios bifes.

Em suma, sou a favor da cozinha verdadeira, de raiz tradicional, da simplicidade, mas com domínio das técnicas culinárias, e da frescura dos melhores ingredientes. Que é como quem diz: sou contra os chefs e o seu endeusamento. Não contra nenhum em particular, só lhes desejo sucesso, mas não estou interessado no que pensam sobre a vida, nem acredito nas receitas que todos aprenderam com as avós e outras histórias da carochinha.

Admiro e respeito os cozinheiros, e mais ainda as cozinheiras que, com mão segura, lideram nos tachos e nas panelas a preservação do nosso património gastronómico.

Logicamente, sou contra as estrelas Michelin, mais apostadas na apresentação do prato e da sala, na inovação e criatividade dos chefs (quem mais?), na decoração, no fardamento e na formalidade do serviço.

Adoro os restaurantes com alma, com uma cara, tantas vezes de segunda ou terceira geração, genuínos, com uma cozinha vibrante, um serviço profissional e especialidades da casa que nos fazem voltar para comer sempre o mesmo, diferente em cada um, como só esse sabe fazer. Quanto aos novos, também gosto de conhecer, mas deixo-os primeiro fazer o tirocínio, depois da primeira leva de foodies e influencers.

E gosto de marisqueiras e cervejarias, marcas de Portugal. E as tascas, claro. Mas cuidado: as gastro-tascas são outra coisa. São uma tendência, com pratos desconstruídos e qualquer coisa em pão brioche.

Sou contra os brunches, os lanches ajantarados e, sobretudo, contra saltar refeições. Com sopa, prato principal e sobremesa — pelo menos fruta.

Sou contra o sous-vide, a air fryer, a Bimby e as panelas arrozeiras. E as placas de indução e as vitrocerâmicas. Quero fogo vivo, em grandes bicos de gás, fornos de noventa centímetros e, se possível, a lenha.

Nada de Teflon ou silicone. Preciso de colheres de pau e de tachos, panelas, frigideiras e utensílios de cozinha de ferro, cobre ou inox. E nas minhas facas japonesas ninguém mexe.

Não dispenso nenhum de todos os talheres a que temos direito: pesados, gordos e maciços. Incluindo os de peixe, que importa não deixar morrer. E a colher, que é para a sopa, nunca para outros usos.

Pratos brancos de cerâmica, portuguesa de preferência, redondos como sempre foram. De entrada, sopa, prato principal e sobremesa, pois claro. Travessas de vários tamanhos e, com sorte, uma terrina sopeira.

Não vejo aqui espaço para bowls, que é como quem diz gamelas. E tudo menos as mini-travessas em que muitos restaurantes nos querem servir a refeição empratada, em vez das tradicionais travessas de inox para o centro da mesa. Isto antes de virarem moda, muito instagramáveis ou tendência no TikTok.

Contra as experiências, a corrida pelo último restaurante em soft opening, os festivais gourmet e os outros, com corners e pop-ups dos “chefs on fire”.

Voltar aos mesmos restaurantes de que se gosta, para comer aquilo que mais nos dá prazer e onde nos sentimos parte da casa, reconhecer velhos clientes e os empregados de mesa: são as únicas experiências que me interessam.

E, com a repetição, chegar ao privilégio de trocar ingredientes ou escolher os acompanhamentos que queremos, mesmo fora da lista.

O contrário da procura por surpresas sensoriais, explosões preparadas em laboratório ou, pasme-se, a refeição servida às escuras e com vendas para valorizar os outros sentidos!

Bom azeite, vinagre de qualidade, pão fresco e com côdea crocante, manteiga fria, boas azeitonas, pickles vários, um bom tomate maduro e firme, umas anchovas gordas e biqueirão de conserva, ventresca de atum ou camarões de espinho…

A lista de coisas simples e boas é infindável e ainda nem tocámos nos pratos principais. Não há que inventar. Há que fazer bem.  Comer pelo prazer de comer, não para se alimentar nem para provar.

E rejeitar sempre as raspas. Sejam de cenoura na salada, ou de lima no abacaxi e nas uvas.

 

                                        José António Nogueira de Brito


quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Orgulhosamente ceboleiro!

 





Sou o que se chama um grande ceboleiro. Não porque a “cebola crua com sal e broa” me tenha moldado o carácter, como ao famoso escritor, mas porque, simplesmente, adoro cebola.

Há quem se queixe de que é indigesta. Culpa dos frutanos, uns hidratos de carbono que nem todos digerem facilmente e que podem provocar aquela gasearia de que ninguém gosta de falar. Mas dizem que são esses mesmos frutanos que funcionam como prebióticos, alimentando a microbiota intestinal, seja lá o que isso for.

Outros queixam-se do hálito, provocado pelos compostos de enxofre da cebola, que insistem em permanecer na boca muito depois da refeição. Para uns, resolve-se lavando bem os dentes. Para outros, resolve-se fumando um cigarro. Não sei se passa o cheiro da cebola, mas certamente fica outro.

E há ainda os que, depois de a cozinhar, não suportam o cheiro que lhes fica nas mãos. Eu esfrego-as na lâmina da faca, debaixo de um fio de água fria. Há quem prefira detergente da loiça. Ou luvas.

Só não há mesmo solução para quem não gosta do sabor. Vá-se lá entender porquê.

Mas se o problema é a acidez, a bravura ou a doçura, talvez o erro esteja na cebola escolhida. Cultivada no Médio Oriente há mais de cinco mil anos, o que não faltam são variedades. Cada uma com o seu feitio. E cada uma com o seu destino.

A amarela é a rainha. A mais popular, usada em todo o mundo para refogados, sopas e estufados. Por cá é, sem discussão, a base de quase toda a cozinha nacional: o estrugido. Negá-lo equivale a cantar o hino nacional de outro país. Como certos selecionadores de futebol.

Depois vem a branca. Mais crocante, mais viva e até mais picante. Faz maravilhas na cozinha mexicana e aparece com frequência na espanhola.

A roxa é a minha preferida para comer crua. Saladas, pickles, sanduíches, hambúrgueres… tudo melhora com umas fatias finíssimas de cebola roxa. É naturalmente mais doce e, se ainda assim a achar demasiado intensa, basta passá-la por água corrente durante alguns segundos. Perde parte da bravura, sem perder a personalidade.

E depois há as chalotas. Parentes próximas, mas mais delicadas, mais elegantes e mais subtis. Não por acaso, os franceses fizeram delas quase o ingrediente nacional.

Existe ainda o cebolo, espécie de cebola comprida, de caule branco a terminar em verde. A verde vai para finalizar quase todos os pratos orientais. E a branca faz maravilhas num arroz branco, mais perfumado, muito comum na Colombia.

Com exceção de algumas cozinhas budistas vegetarianas, a cebola cozinhada é provavelmente o único ingrediente que qualquer cozinheiro do planeta diria ser indispensável. Refogada lentamente, desenvolve açúcares e leva doçura à base de quase todos os grandes molhos da cozinha francesa. E de muitos caris indianos. O que seria do mundo sem a sopa de cebola francesa? Ou as cebolas recheadas italianas e espanholas? Ou os onion bhaji indianos?

Mas crua não é menos dispensável. A salada algarvia não sobreviria sem ela. Em quantidades generosas. Nem um bagel com pastrami ou um choripán argentino.

Caramelizada, produz centenas de compostos aromáticos e transforma-se quase numa compota, talvez o mais extraordinário exemplo da reação de Maillard aplicada a um vegetal.

Mas é talvez na cozinha peruana que a cebola roxa mais brilha. É indispensável no cebiche, no lomo saltado, na causa limeña e até nos sánguches peruanos.

Onde está, então, o senão da cebola? Faz chorar. Ao ser cortada, liberta um gás sulfurado que, em contacto com as lágrimas, irrita os olhos.

Talvez.

Eu cá choro é quando se me acabam as cebolas.

 

                    José António Nogueira de Brito





São Cristóvão pela Europa (372).

 

 

 

Entramos no distrito de Landeck, sempre no Estado austríaco de Tirol.

Na estrada entre Wenns e Fliess, duas aldeias têm imagens de São Cristóvão.

Em Piller, a quase 1400 metros de altitude, na fachada de uma casa, um mural. Está assinado por S. Mathoi.

 



Em Gretlern, uma estátua surge numa curva da estrada.

 



  

Fliess é um município rodeado de montanhas.

A igreja paroquial é dedicada à Ascensão de Maria. Foi construída num estilo gótico tardio, admitindo-se que a torre date do Século XIV.

No exterior, um fresco do nosso Santo. A data de 1934 refere-se certamente a um restauro, dado que a pintura foi executada por volta de 1520.





Serfaus é uma pequena cidade hoje completamente dedicada ao turismo. Tem 7300 camas turísticas! A circulação automóvel foi proibida e teve de construir-se (imagine-se!) uma linha de metropolitano capaz de transportar 3000 passageiros por dia!

Existiu um fresco na Igreja Paroquial que não consegui encontrar. Em compensação, um apart-hotel chamado Haus St. Christoph exibe um mural do Santo.

 



 

                                        Fotografias de 3 de Agosto de 2026

                                                                         José Liberato





segunda-feira, 28 de setembro de 2026

São Cristóvão pela Europa (371).

 

 

Este texto ocupa-se, apenas, do município de Umhausen, ainda no distrito de Imst, Estado austríaco do Tirol.

A igreja paroquial é dedicada a São Vito. A torre e a nave mantêm características góticas, mas as remodelações foram inúmeras ao longo dos tempos.

Em 1964, descobriu-se um fresco representando São Cristóvão, de meados do Século XIV, que se encontrava tapado.

 



 

Uma casa de habitação, no centro da cidade, ostenta um mural do nosso Santo. É da autoria do pintor austríaco Franz Pizzinini (1910-1974) e está datado de 1992.

 


 

Num gaveto de um hotel, uns frescos muito curiosos, datados de 1684, representam um serafim, um querubim e os anjos Miguel, Gabriel, Rafael e Uriel.

 


 Estamos aqui a cerca de 50 quilómetros do local onde, em 1991, foi descoberto o famoso Ötzi, uma múmia preservada no gelo, em condições excepcionais.

As perícias revelaram que Ötzi terá sido assassinado há cerca de 5300 anos durante a Idade do Cobre. Trazia aliás consigo um machado deste metal. Curiosamente, foi encontrado a apenas 92 metros da fronteira, mas do lado italiano.

A fotografia é de 1991.

Em Umhausen, existe em sua homenagem o Ötzi-dorf, um parque temático arqueológico

 


 

                    Fotografias de 2 de Agosto de 2026

                                                         José Liberato





domingo, 27 de setembro de 2026

O frade, o fradinho e o olho negro.

 




O feijão-frade é o parente pobre dos feijões em Portugal. Em regra mais pequeno e com um olho negro, o Vigna unguiculata, vulgo feijão-frade, é atirado para a categoria menor dos feijões para saladas, de consumo frio, muitas vezes tipo entrada. Talvez isso explique por que comemos tão pouco deste feijão: menos de meio quilo por pessoa… por ano. Não entendo: tem de haver pelo menos dez compatriotas a zero para compensar a minha alarvidade!

Nada que se compare com os consumos gigantescos de alguns países do Sahel, onde o feijão-frade é alimento de primeira necessidade. Níger, Nigéria, Burkina Faso e Gana estão entre os seus grandes consumidores, e não é de admirar. Foi na África subsaariana que começou a ser cultivado, há mais de 5.000 anos.

Não confundir com os restantes feijões que nos chegaram da América. Neste caso, o caminho fez-se ao contrário: o feijão-frade já andava por África, pelo Mediterrâneo e pela Península Ibérica muito antes dos europeus se fazerem ao mar. Fomos depois nós, portugueses e espanhóis, que o levámos para as Américas.

Perfeito para climas secos e pouco exigente em água, por lá se desenvolveu, a ponto de ser hoje do Brasil que importamos boa parte do nosso feijão-frade. Ou no caso, feijão-fradinho. Do Sahel africano para cá, de cá para a América e de lá outra vez para cá: é a prova de que, antes dos outros, já nós tínhamos inventado a globalização.

Está na altura de o trazer de volta ao prato e prestar homenagem aos dois grandes clássicos da nossa gastronomia com feijão-frade: com bacalhau e com atum.

O primeiro, servido quente ou morno, com alho, pede um bom lombo de bacalhau assado na brasa e desfeito em lascas, em abundante azeite de boa qualidade. O segundo, frio, faz-se com material da despensa: feijão e atum em lata, azeitonas de frasco e azeite. Ambos com muita cebola, salsa picada e pimenta.

Eu faço uma terceira derivação: salada de feijão-frade com camarão. Ao feijão bem escorrido junto tomate em cubos e sem grainhas, pimento e cebola bem picados e um alho triturado. Envolvo tudo com uns camarões sem casca e previamente cozidos, azeite, paprika e um golpe de vinagre. Coentros picados a gosto.

Com estas, mais as migas com feijão-frade e umas quantas sopas, o certo é que as nossas modestas quatrocentas gramas por bico chegam para nos tornar no maior importador europeu de feijão-frade, com cerca de 30% das importações europeias e muito à frente, por habitante, de espanhóis e italianos. Na Liga Europa ninguém nos bate, já bem sabemos.

E não é de somenos. Nutricionalmente, o feijão-frade está muito bem colocado entre as leguminosas: boa dose de proteína, muita fibra, ferro, pouca gordura e, sobretudo, muito folato. Não é nenhum “superalimento” e ainda bem, mas traz saúde e, ao que parece, fortuna.

Pelo menos é nisso que acreditam os americanos, que mantêm a tradição de comer Hoppin’ John, feito com black-eyed peas, arroz e porco, no primeiro dia do ano para chamar a prosperidade.

Mas isso já é outra coisa, mais para o capítulo das feijoadas. E sobre essas havemos de falar um dia destes.

 

José António Nogueira de Brito


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

São Cristóvão pela Europa (370).

 

 

 

Roppen é um município situado no distrito de Imst, no Estado austríaco do Tirol.

Em 1962, foi aí construída uma capela muito simples em homenagem ao Irmão Klaus, também conhecido como São Nicolau de Flüe (1417-1487), um Santo eremita suíço.

Na torre da capela, o pintor austríaco Elamar Kopp (1929-2020) criou um mosaico representando São Cristóvão. Constatando que o mosaico se degradava com o tempo agreste, o motivo foi transformado num mural pintado pelo mesmo artista, em 1989.

A paisagem que se avista da capela é deslumbrante.

 



 

Oetz é o município que dá o nome ao Ötztal ou Vale do Öetz. Neste vale, foi encontrado o célebre Ötzi, de que falarei no próximo post.

Este município tornou-se, no Século XIX, um dos pontos importantes do turismo alpino. A Gasthaus zum Stern (ou Albergaria da Estrela) existe desde o Século XVI e ostenta uma magnífica fachada pintada em 1573, onde, entre outros motivos, figura uma imagem do nosso Santo.

Encontrei-a em obras, mas publico aqui o que é realmente sem andaimes.

 




Em Wenns, a Platzhaus foi construída em 1576 para residência oficial do juiz. O seu exterior foi todo pintado. São Cristóvão está representado. De notar, a sereia de duas caudas.




 

Finalmente, ainda no distrito de Imst, a Igreja Paroquial de Tarrenz (deriva do Latim torrens, torrente em Português) é dedicada a Santo Ulrich. Primitivamente gótica, sofreu inúmeras remodelações ao longo dos tempos.

No exterior, dois frescos gigantes de São Cristóvão. Lado a lado.




                             Fotografias de 2 de Agosto de 2026

                                                                 José Liberato












quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Cervejarias - fine dining português.

 




Na capital, do Ramiro ao Pinóquio e da Liberdade (no Tivoli) à Nunes Real (cuidado com os preços, condizentes com a pavorosa decoração), ou a norte, da Cufra à Capa Negra II, passando pela Galiza, com ou sem francesinhas, as cervejarias são uma instituição nacional.
Aqui não se pede silêncio, pedem-se tremoços.
Começa-se com percebes, depois o camarão de espinho, as gambas com sal, presunto cortado à navalha, croquete opcional e bruxas mandatórias, se as houver.
Termina-se, como manda a lei, com o prego do lombo — no pão, cheio de mostarda, ou no prato, com molho à café, batata frita e ovo a cavalo. O picapau do lombo não é opção, no Pinóquio é obrigação.

O serviço é rápido, o barulho é vida, e as imperiais geladas descem com os dedos ainda a cheirar a mar.

Não há melhor.

E só se encontra em Portugal.

 

                                                        José António Nogueira de Brito





Séculos e séculos de segregação, agora as lutas pela cidadania em Portugal.

 





          Portugueses ciganos, Cinco séculos de resistência, por Ana Cristina Pereira, FFMS/Ensaios da Fundação, 2026, é uma viagem empolgante acerca de uma etnia cuja proveniência continua a ser objeto de discussão; a sua presença está historicamente documentada em Portugal, uma conceituada jornalista vai bater-lhes à porta, ouvir os seus anseios, traça-nos numa narrativa de grande vivacidade a história antiga e recente do anticiganismo, segregações, exclusões, preconceitos arreigados, basta recordar expressões que vêm da noite dos tempos como “ciganices” ou “um olho no burro e o outro no cigano”. Ficaremos, no termo desta categorizada, até com a ideia de que as insinuações de um populismo fervente e ignaro estejam a contribuir para atitudes mais inclusivas no trabalho, na escola, na autarquia, nos locais de residência. Há casos em que o discurso do ódio leva o comportamento democrático a fazer mais para derrubar os muros da desumanização, e com sucesso.

          Por esta leitura estimulante vamos conhecer, através de três gerações, o que tem vindo a mudar na cultura cigana, os ganhos em dignidade, os casamentos por amor, o reconhecimento pelas gerações mais antigas do valor da educação, as barracas que deram lugar a casas, o gosto pela sedentarização sem prejuízo da manutenção dos pilares da entreajuda familiar – é inequívoco que o cigano ama os valores da família.

          Vamos conhecer estudos, depoimentos, inclusive os itinerários desta minoria étnica transnacional, teve a sua placa giratória nos Balcãs, conheceu toda a casta de perseguições, foram gazeados nos campos nazis e o seu historial de marginalização em Portugal entronca o obscurantismo aos preconceitos mais alarves. Começaram a ter direitos de cidade na Constituição de 1986 e outros documentos subsequentes como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção Europeia dos Direitos Humanos. Como observa uma socióloga, esta abertura para a cidadania e para o reconhecimento da dignidade cigana foi sempre feita com bastantes vagares. E mostra-se como tem vindo a ser alargado o fosso entre ciganos e não ciganos.

          Com a democracia, os ciganos ganharam ativismo e a própria justiça passou a punir o discurso do ódio. E temos uma incursão por esse movimento associativo e as suas características: Os Viquingues do Bairro de São João de Deus; o Governo criou o Alto Comissariado para a Imigração e as Minorias Étnicas, surgiram os rendimentos de inserção com exigências no campo da saúde, na empregabilidade e na formação; veio depois a Associação Cigana de Coimbra, relevou-se o papel da mediação; apareceu um projeto com vários parceiros com renome fruto da Iniciativa Comunitária EQUAL, onde a educação é prioritária. Enfim, há o trabalho nas redes sociais, as associações que surgiram lutam contra a discriminação externa (que dificulta o acesso à educação, ao emprego, à participação na vida pública) e contra a discriminação interna (procurando sensibilizar as velhas gerações que se abriram novas oportunidades para as meninas e para as mulheres).

          Temos uma súmula das políticas públicas, de um novo ativismo contra os ódios e preconceito, desmontam-se mentiras, não é esquecida aa ligação entre alguns ciganos e o tráfico de droga. Por vezes há desalento com a previsão de refluxos, basta recordar que a última Estratégia Nacional de Integração das Comunidades Ciganas acabou no final de 2023. Portugueses ciganos têm ganho projeção na sua participação política, é o caso de Carlos Miguel ligado à Câmara Municipal de Torres Vedras, a despeito da infamante campanha de oposição, dizendo “Querem um cigano na presidência da Câmara? Querem a Câmara cheia de ciganos?”. Hoje há ciganos a trabalhar em várias autarquias e como diz Carlos Miguel, “Nós só vamos conseguir ultrapassar o preconceito se as pessoas nos conhecerem melhor. onde é que as pessoas nos podem conhecer melhor? No dia a dia, na escola, no trabalho”. A reportagem desvela as atribulações para ter acesso ao emprego, há histórias de sucesso de portugueses ciganos que enfrentam no porto de trabalho as ideias feitas, o racismo mais desalmado, e aprendem a dar a volta a quem afina pela exclusão e a discriminação.

          Era inevitável, Ricardo Quaresma, uma das lendas do futebol nacional e internacional, aprendeu desde muito novo a ouvir alarvices nos estádios, do título “Ó cigano, passa a bola!” já teve as suas questiúnculas com o chefe da extrema-direita portuguesa e está pronto para mais. Confessa que fica feliz vendo pessoas da sua etnia a estudar cada vez mais, deixa uma observação: “É muito bonito dizer que o cigano tem que trabalhar. Eu concordo que o cigano tem que trabalhar. E oportunidades para o cigano trabalhar?”

          Há portugueses ciganos que são astros musicais e Ana Cristina Pereira faz deles um relato. Há também portugueses ciganos nas artes do palco e noutras esferas do universo artístico.

          No termo daa sua reportagem, a autora deixa as suas interrogações quanto à falta de meios para a fixação dos ciganos, o arrendamento local era lhes hostil e não só pelo preço da habitação. E deixa um comentário para a reflexão do leitor:

          “Poucas pessoas reconhecem o anticiganismo, como se fosse uma norma assente há pessoas que pensam que os ciganos não trabalham porque não querem trabalhar, são pobres porque são preguiçosos, vivem isolados porque não gostam de interagir com outras culturas.” Os ataques de que são alvos os ciganos não geram condenação moral. Enquanto o anticiganismo não for reconhecido, esta reação será vista como um alimento para maais ódio, mais discriminação, mais desigualdade.

          Nesse processo, importa o modo como contamos histórias uns aos outros – nos meus de comunicação social, nas redes sociais, no contacto direto com familiares, amigos, vizinhos. A inclusão de uma população tão marginalizada exige políticas públicas fortes, mas joga-se também na profundidade das relações interpessoais, na escola, no trabalho. Em suma, envolve a sociedade no seu conjunto”.

          De leitura obrigatória.

         

                                                                Mário Beja Santos