Penso
rápido
A
celeridade ou prontidão com que as personagens de JPM fazem as coisas ou se
deslocam daqui para ali não é incompatível com momentos de reflexão mais
férteis. Sobretudo quando são acompanhados de gestos que ajudam a pensar quando
é preciso pensar: o Padre
Guilherme, "coçando
pensativamente a cabeça" (p. 74), Mateus "sentou-se, pensativo,
num pilar de amarração" (p. 121); "Mateus afastou-se pensativo"
(p. 144), "D. Pedro hesitou e cofiou, pensativamente, a barba"
(p. 206), o Duque da Terceira "ficou pensativamente a puxar os
pêlos do bigode" (p. 304), o Duque da Terceira "passou uma mão
pensativa pela face" (p. 304), o Duque da Terceira, "com gestos
calmos, acendeu um charuto e ficou pensativamente a olhar para o
rio" [Tejo] (p. 309), Etelvino de Vasconcelos "voltou pensativo
para dentro do café" (p. 311), Mateus "ia pensativo, a digerir
aquelas novidades" (p. 313), "Mateus ficou pensativo" (p.
322), "pensou um pouco, coçando o queixo" (p. 334) (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada).
Benedita
"ficou a olhar as águas, imersa nos seus pensamentos" (p. 44),
"O alemão fez um ligeiro compasso de espera como se estivesse a pensar"
(p. 115), "sentaram-se pensativos" (p. 350), "O chefe ficou
pensativo" (p. 421) (Uma Fazenda em África); Rui caminha por
Portobello Road (Londres) "em passo lento, pensativo" (A
Aluna Americana, p. 201); "o general passou a mão pelas suíças
grisalhas como se esse gesto o ajudasse a pensar" (p. 118),
"afastava-se, pensativo" (p. 183), "Napoleão ficou
parado, a pensar" (p. 194); "Bento fora toda a viagem pensativo"
(p. 240) (Até ao Fim da Terra), Robert "ficou imóvel e pensativo"
(p. 250) e Elvira "ficou por alguns minutos sentada, pensativa"
(p. 313) (Os Dias da Febre), Tarquínio Torcato "reclinou-se para
trás na cadeira, pensativo" (p. 88), Damião Costa "ergueu uma
mão pensativa e coçou a cabeça" (p. 105), "Bento ficou pensativo"
(p. 267), o rei Atanásio "balançava-se, pensativo, na sua
cadeira" (p. 297) e Vasco "regressou, pensativo, à Toca do
Tatu" (p. 308) (Do Outro Lado do Mar), Custódio "fumava e pensava"
(p. 188), Maria del Carmen "encostou a cabeça, pensativa, ao vidro
da janela do autocarro" (p. 242) (Vento de Espanha), "o
Professor José Hermano Saraiva bebia pensativamente o seu café, sentado
a uma das mesas" (p. 40) e Nelson Fernandes está "sentado a uma mesa,
de pensativa cabeça apoiada na mão esquerda" (p. 49) (Um de Nós
Deve Lembrar-se).
Em
certos momentos, JPM aproxima-se do Livro do Desassossego, de Bernardo
Soares (Fernando Pessoa), cujo núcleo (o núcleo do seu núcleo obsessivo) gira
em torno da relação significativa entre o fumo do cigarro e a capacidade do
narrador medir a extensão e a profundidade da sua existência. Como quem diz, no
seu recolhimento pensativo: "Fumo, logo existo". Ou "estou vivo
para poder fumar". Porque o conforto do fumo do cigarro funciona, ora como
matriz espiritual, que permite cartografar os trabalhos da subjectividade, ora
como um tubo de escape poético, porque nele confluem inúmeras sensações, ora
como um véu ou biombo que enquadra o transe poético do artista, em processo de
dissolução íntima.
Repare-se
nesta citação, que se justifica a si própria: "Mateus sentou-se, pensativo,
num pilar de amarração", e "enrolou laboriosamente um cigarro, que
acendeu, e ali esteve que tempos, fumando e sentindo, melancólico, que a
existência se lhe escapava em fumo" (O Estranho Caso de Sebastião
Moncada, p. 121).
Irreverente
e politicamente incorrecto, JPM descreve algumas personagens como fumadores
compulsivos e ansiosos, de cujos pulmões se podia extrair carvão: "Ela esmagou
o resto do cigarro no cinzeiro, como se a pergunta a irritasse" e
"Isabel esmagou o cigarro no cinzeiro como se estivesse a esmagá-lo
a ele" (A Aluna Americana, págs. 26 e 243); "disse Carlos, esmagando
o charuto com força, para esmagar a irritação que aqueles dois lhe
causavam" (Os Dias da Febre, p. 63); "Quando o cigarro
começou a queimar-lhe os dedos, atirou-o para o chão e pisou-o, rodando
repetidamente a ponta da alpercata para a esquerda e para a direita. Fê-lo com
exasperação, como se naquele momento estivesse a pisar as suas decisões
erradas e o estúpido rumo que dera à sua vida" (Vento de Espanha,
p. 143).
Varre,
varre, vassourinha
JPM
é um escritor plástico. Combina o material e o abstracto. Abarca, e mantém
unido, aquilo que as convenções e as regulamentações tendem a desagregar e a
contrastar: o espírito e o mundo, a natureza subjectiva e a natureza objectiva.
JPM observa os mundos exterior e interior com igual atenção, mantendo um
equilíbrio que lembra os romances do século XIX.
Os
narradores tendem para a subjectivação do material, e vice-versa. Voltados para
o real, o concreto, o objectivo, nunca esquecem o universo mental, a relação
entre o visível e o invisível. Em JPM, tudo isto se implica mutuamente. Quando
des-subjectivamos o subjectivo e des-objectivamos o objectivo, atingimos a
materialidade do abstracto e a imaterialidade do concreto. Ou, melhor, a
espiritualização da matéria e a materialização do espírito.
Para se ter uma ideia do que acabamos de dizer,
é preciso citar algumas frases – frases completa e plenamente construídas,
senão mesmo excelentemente
conseguidas – que jogam com muitos elementos do
imaginário do leitor médio, por via da transferência de significado de um
domínio físico (limpar o lixo com a vassoura) para o domínio psicológico (eliminar sentimentos, impulsos,
motivações): Eufrásia "varreu a decepção do rosto e limpando as
mãos ao avental", "Tentou varrer esses pensamentos da mente" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 19, 152); Bernardino "varreu
esses sentimentalismos", "Peter sentiu uma onda de admiração varrê-lo
dos pés à cabeça", Peter, magoado, "quis varrê-la rapidamente
da cabeça e do coração", "uma onda de tristeza varreu-lhe a
expressão" (Uma Fazenda em África, págs. 43, 106, 205, 341); "varreu
radicalmente as fantasias pela janela", "olhos varridos de
tristeza" (A Aluna Americana, págs. 229, 282); "lá nas
lonjuras do mundo, iria ser possível varrer para sempre" as
mágoas", Gaspar "varreu Clementina do seu pensamento" (Do
Outro Lado do Mar, págs. 41, 71); "a inquietação varreu-se da
sua cabeça" (Até ao Fim da Terra, p. 195); Elvira "foi varrida
por um desgosto dilacerante", "assim que entrou no quarto das
criadas, varreu o desejo" (Os Dias da Febre, págs. 131,
197); Henrique Lemos tentou "varrer aquela notícia do
pensamento", Manuel "procurou varrer tudo aquilo do
espírito", "foi varrendo a divisão com os olhos" (Um
de Nós Deve Lembrar-se, págs. 72, 133, 258).
Zeugmas
A
fusão, na mesma frase, entre as realidades concreta e psicológica, ou entre
materialidade objectiva e percepção subjectiva, é uma das grandes marcas
estilísticas de Eça de Queirós e de JPM. Através de recursos estilísticos como
a dupla adjectivação e as imagens sinestésicas, da conjunção do zeugma (uma
variante da elipse) com o cruzamento irónico, ou paralelismo sintático, do
concreto com o abstracto, JPM é um ás a combinar dois elementos de naturezas
completamente opostas. Os exemplos abundam, alguns deles fora da nossa
imaginação:
1.
O Estranho Caso de Sebastião Moncada: p. 318: "deixando-se levar
pelas mulas e pelos seus pensamentos".
2.
Vento de Espanha: pp. 94-95: "A vida dentro das paredes caiadas da
casinha onde ela vivia era cheia e intensa, as sensações fortes, quentes e
boas, como a castanha assada e o caldo-verde"; p. 113: "quatro homens
dividiam uma travessa de dobrada com grão e opiniões sobre uma coisa chamada
Legião Estrangeira"; p. 199: "refugiou-se atrás do pargo assado e de
uma das suas frases feitas"; p. 232: "arejar as ideias e o pó dos
dias".
3.
Até ao Fim da Terra: p. 159: a roupa "causava-lhe uma desagradável
sensação de sujidade na pele. Em pior estado ia a sua alma"; p. 188:
"O ponteiro vai avançando no mostrador do relógio e também avança nas
almas".
4.
Uma Fazenda em África: p. 145: "sacudiu energicamente as roupas
para afastar o pó e a melancolia"; p. 201: "Benedita bebeu mais um
gole de chá para ajudar a engolir a mandioca e o seu sofrimento";
5.
Do Outro Lado do Mar: p. 83: "Voltou a encostar-se ao balcão para
descansar as costas e as ideias".
6. A Aluna Americana: p. 93: "Dias
depois sobre a pedra de mármore da bancada da cozinha, por entre gemidos e
vapores de refogado".
O
Mundo de Sofia
Tudo
isto aproxima JPM da filosofia (JPM é um historiador, é um intelectual, é um
escritor, é um artista e, ninguém duvide, é um filósofo). Aquilo que mais o
preocupa é o sentido da vida e o sentido da vida é o que o mantém obcecado.
É
humano procurar o sentido das coisas, tal como é humano sentir vontade de defecar:
não valemos nada, não somos nada, não temos direito a nada. Cada um de nós está
à beira da obsolescência ou do esquecimento.
As
obras de JPM são autênticos tratados filosóficos, são livros analíticos e
teóricos. Mas, acima de tudo, são também terapêuticos: as suas personagens
querem encontrar uma orientação, uma verdade espiritual e prática ao mesmo
tempo: "Deitar-se a seu lado, sentir o seu calor, fazer-lhe festas,
penetrá-la devagarinho e deixar-se ficar dentro dela, tudo isso dava sentido à
sua vida", "precisava de um sentido para a sua existência" (A
Aluna Americana, págs. 107, 186).
Os
narradores de JPM, que estão além, ou mesmo aquém, do Bem e do Mal, ajudam-nos
a valorizar o verdadeiro significado do humano, lembra as experiências e
reflexões de Hans Castorp, n'A Montanha Mágica, e de Leopold Bloom, em Ulisses.
Tal como estes são viagens fascinantes à mente de Thomas Mann e de James Joyce,
também aqui viajamos através dos olhos de JPM, mas para o interior da sua
cabeça.
Para
criticar a superficialidade contemporânea, JPM passa do antropológico ao
ontológico: o sentido da vida e do ser. A precisão das suas observações sobre o
mundo e a vida mostram que, para ele, a literatura e filosofia mantêm uma
ligação umbilical e simbiótica.
Na
esteira de autores como Albert Camus, Jean-Paul Sartre ou Vergílio Ferreira,
para os quais o romance só subia a alturas inéditas quando coincidia com uma
excepcional capacidade filosófica do escritor, os livros de JPM são uma espécie
de Curso de Filosofia Positiva: Sátiro encolhe "os ombros numa
perplexidade filosófica" (p. 34), "A voz do estalajadeiro
despertou-o dessas considerações filosóficas" (p. 215) (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada); o piloto, um velho seco, que
"falava de uma forma tão filosófica" (p. 91), um homem mais
velho que, "às vezes interrompia as canções para cofiar a barba rala, com
ar filosófico" (p. 194) (Do Outro Lado do Mar); o governador
"concluiu, filosófico" (Haiti, p. 151); o cônsul
Joaquim Moreira sentou-se "enquanto ia cofiando seraficamente a pêra
aguçada, como se estivesse a reflectir (p. 15), "E, alisando o bigode, filosofou"
(p. 51), "A carta concluía, filosoficamente" (p. 109), "O
alferes filosofou" (p. 322) (Uma Fazenda em África); "filosofou
o leitor, repuxando a barba rala" (p. 26), "interrogou-se o alfaiate,
com ar filosófico" (p. 101), "exclamou Afonso, revoltado mas filosófico"
(p. 171), Elvira "era inteligente e filosófica" (p. 218) (Os
Dias da Febre); a letra da canção "Ícaro" (onde se percebe que a
bagagem literária de JPM é influenciada pelas canções
de Paulo Gonzo, tal como n'A Aluna Americana o é de João Pedro Pais,
nomeadamente a canção "Ninguém é de ninguém": na página 80, Doug diz
"Ninguém é de ninguém", e na página 115, Isabel diz também que
"Ninguém é de ninguém"), escrita por João Pedro Simões, era
"mais profunda e filosófica" (p. 110), o motorista António dá
"conselhos paternais ou filosóficos" a Guida (p. 148),
"Ela fez uma ligeira pausa antes de responder e depois disse, filosoficamente"
(p. 235) (Um de Nós Deve Lembrar-se).
Para
se ser filósofo é preciso ter a cara semeada de pêlos, para os poder alisar,
puxar, repuxar ou coçar. Dizem os franceses que os homens com pendor reflexivo
tendem a deixar crescer a barba – será uma barba metafórica? Ou uma barba
literal? – ou a retorcer o bigode (como se estivessem a afiar um lápis).
Como
as personagens de JPM mastigam lentamente os pensamentos pensados, tendem a
agarrar-se à barba (ou barbicha). Nestes livros, vá que não vá, há sempre uma
barba, um bigode, uma pêra ou mesmo umas suíças para cofiar: "D. Pedro
hesitou e cofiou, pensativamente, a barba" (O Estranho
Caso de Sebastião Moncada, p. 206); o governador de Santo Domingo "cofiou
a sua bem aparada pêra branca" e governador "cofiava a
barbicha" (Haiti, págs. 149, 151); José Ferreira Pinto Basto
"cofiou a barba em busca de inspiração", "Jervis de
Atouguia empertigou-se, cofiou a pêra castelhana" e o governador
Leal "cofiava a pêra num gesto sedutor" (Uma Fazenda em
África, págs. 216, 229, 379).
Inspiração
é coisa que não falta em JPM, nunca é um acaso ou uma circunstância pontual:
"O padre Inocêncio olhou para o céu para procurar inspiração"
(Do Outro Lado do Mar, p. 209); "permaneceu outros cinco minutos a
observar o firmamento através de uma luneta telescópica, como se buscasse
ânimo ou inspiração nas estrelas" (Haiti, p. 176).
Depois
das barbas, a bem dizer, os bigodes: D. Pedro
"alisou os bigodes", "bigodes ruivos que [o conde
de Vila Flor] repuxava sempre que se sentia inquieto" e "O duque
assentiu com a cabeça, dispensou o tenente e ficou pensativamente a puxar os
pêlos do bigode" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs.
131, 150, 304); Bernardino "alisando os bigodes com a mão
esquerda" e "Assumindo uma pose um pouco teatral enquanto cofiava
os grandes bigodes" (Uma Fazenda em África, págs. 64, 333); o
russo "cofiou os bigodes" (Vento de Espanha, p. 162).
No
século XIX, muitos homens tinham, nas laterais do rosto, suíças. Grandes,
impositivas: o piloto que conversa com Vasco "coçava as grandes suíças
brancas que lhe escorriam pela face até ao queixo" (Do Outro Lado
do Mar, p. 92); "coçando as suíças" (Os Dias da Febre,
p. 102), "concluiu o governador em tom espirituoso, cofiando as suíças
ruivas" (Uma Fazenda em África, p. 86).
Stop
Piolhos (100 ml)
Nestes
livros, pensar é uma das mais belas faculdades, mas também faz comichão no
couro cabeludo (talvez por causa dos impulsos eléctricos e químicos entre os
neurónios), levando as personagens a coçar a cabeça com um ar engraçado (este
pormenor pode parecer desconcertante, no meio de uma série de outras coisas
mais significativas, mas não o é. Pelo contrário, ajuda a explicar certos
rituais tipicamente marquianos).
Assim
em Uma Fazenda em África: "coçando a calva luzidia" (p.
50), Bernardino: "considerou, coçando desconsoladamente a cabeça"
(p. 112), "Costa coçou a cabeça" (p. 141). Mas também em Os
Dias da Febre (p. 42: "disse Vidal, coçando a cabeça, com
preocupação"), em Vento de Espanha (p. 22: "coçando a calva
como se revolvesse a memória") ou em Do Outro Lado do Mar (p. 111:
Damião Costa "passou uma e outra vez a mão pela cabeça, como se
estivesse a ponderar").
Janela
discreta
Muitas
vezes, quando se põem a pensar, de modo a unirem o pensado ao ver, levantam-se
e aproximam-se da janela. Em JPM, ir à janela é muito mais do que ir à janela,
é aprender a ver: Etelvino de Vasconcelos está "virado para a janela,
onde a chuva continuava a bater, escorrendo pelos vidros", Luísa
"olhou pela janela e viu que ainda era manhã", "D. Miguel
olhou por uma das janelas do seu gabinete não tanto porque a beleza do
pôr-do-sol lhe atraísse o olhar, mas porque sentia a necessidade de se evadir
daquelas salas sorumbáticas", "ficou por alguns momentos silencioso a
observar as paisagens distantes", "Aproximou-se da janela e
olhou para os montes distantes", Luísa "olhou pela janela para
a humidade desolada do Outono de Lamego em que o verde dos campos e o cinzento
do céu quase se confundiam", D. Miguel "foi até à janela que
dava para poente e respirou fundo", "regressou à janela. A sua
necessidade de evasão não parava de aumentar", Etelvino: "ficou
absorto a olhar para a janela que escurecia com a entrada da noite"
(O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 57, 82, 85, 86-87, 156,
173, 238, 240, 328); "Ficou por momentos a olhar os pombos que poisavam
no parapeito da janela", Benedita "gostava de passar longos
períodos a contemplar o azul do mar, como costumava fazer nas janelas do
quarto dos pais", Benedita "ficou absorta a olhar para o vazio",
"a sonhar riquezas e a olhar para além da janela e da claridade que
iluminava a tarde, lá fora", "Joaquim Baptista Moreira deixou-se
ficar parado à janela", Benedita "abriu a janela e sorveu o ar
fresco da manhã às golfadas", "O governador Leal estava à
janela do palácio governamental, de olhar perdido na baía" (Uma
Fazenda em África, p. 28, 30, 192, 217, 222, 250, 388); "Custódio
Moreira (...) levantou-se na cadeira e olhou, pela janela do escritório,
para o que se passava lá fora", Lurdes descansava "junto à janela,
observando o trânsito lá fora", Custódio "foi até à janela do
quarto, olhar lá para fora, para os telhados de Lisboa", "Estava uma
manhã mole e quente, pintada num céu imaculadamente azul, e ele [Esteban
Zanelli] espreguiçou-se enquanto olhava distraidamente para os telhados
de Lisboa" (Vento de Espanha, págs. 30, 71, 109, 208).
A
paisagem do outro lado das janelas parece-lhes lugares onde acontecem coisas
maravilhosas: Carlos "foi até à janela virada para nascente e viu
os telhados de Santarém batidos pela intensa luz da manhã", "Pensava
na doença de Auzenda enquanto ia olhando o sossego da rua a partir da janela
da sua saleta", Elvira "olhou por momentos para a chuva que escorria
pelo vidro da janela", "Elvira olhou pela janela virada
para nascente e angustiou-se ainda mais com o negrume daquele céu em
estrelas" (Os Dias da Febre, p. 22, 141, 199, 285).
Intermináveis
momentos passam-se à janela: o major Teles "ficou a contemplar a chuva que
batia com força nos vidros das janelas. (...) Ficou a olhar lá para fora
durante um interminável meio minuto", Maria Constança "foi até à
janela olhar para a rua" e, mais adiante, a mesma Maria Constança
"ergueu-se e foi até à janela do quarto que dava para a rua" (Até
ao Fim da Terra, págs. 117, 165, 171); "em longos minutos de
contemplação, da sua própria janela", "estava tão feliz que se
deixou ficar à janela do quarto, sonhadora" (Do Outro Lado do Mar,
p. 167, 240); "Era nisso que pensava quando se levantou da secretária e foi
até à janela contemplar a esplêndida vista da baía e o mar que brilhava ao
luar. (...) Dirigiu-se, de seguida, à janela virada a leste, onde
permaneceu outros cinco minutos a observar o firmamento através de uma luneta
telescópica, como se buscasse ânimo ou inspiração nas estrelas" (Haiti,
p. 176).
Enfim,
a janela é uma imagem recorrente e a prova de que dá grande prazer ao espírito
ler este autor: "O governador Leal estava à janela do palácio
governamental, de olhar pedido na baía, contemplando não sabia exactamente o
quê" (Uma Fazenda em África, p. 388) e "Era nisso que pensava
quando se levantou da secretária e foi até à janela contemplar a
esplêndida vista da baía" (Haiti, p. 176).
Uma
fera enjaulada
A
inquietação leva-os a passear de um lado para o outro, da
mesa para a janela e da janela para a mesa, "numa agitação de
animais enjaulados": Etelvino "enquanto
andava de um lado para o outro", Mateus "vivia num permanente
desassossego que o fazia andar de um lado para o outro", D. Miguel
interrogou "andando de um lado para o outro", Mateus:
"ergueu-se e andou de um lado para o outro", Etelvino
"andando de lá para cá" (O Estranho Caso de Sebastião
Moncada, p. 106, 121, 293, 322, 335); "Um homem pequeno andava
nervosamente de um lado para o outro", Ribeiro dos Santos percorria
a sala "incessantemente de um lado para o outro como se o movimento
o ajudasse a preencher aqueles grandes espaços vazios", "José Leite
andava de um lado para o outro, ansioso por partir", "José
Leite começou a andar de um lado para o outro, como um animal enjaulado",
"como o surdo rosnar de uma fera enjaulada", "Começou a andar
nervosamente de um lado para o outro", Peter levantou-se "e
pôs-se a andar de um lado para o outro, com o copo na mão, como uma fera
enjaulada", "O velho Costa andava de um lado para o outro"
(Uma Fazenda em África, p. 50, 79, 143, 307, 355, 357, 381, 398).
De
modo a enfrentarem os seus medos e os seus fantasmas, passam horas nisto:
"andava de um lado para o outro, sem conseguir sossegar" (Até
ao Fim da Terra, p. 183); Vicente Ogé "andava de um lado para o
outro" e Joséphine "a andar de um lado para o outro no
quarto" (Haiti, págs. 18, 215); Vidal "andava nervosamente de
um lado para o outro no seu gabinete" (Os Dias da Febre, p.
47); Tarquínio Torcato "andava de um lado para o outro, como uma
fera enjaulada" e "andando nervosamente de um lado para o outro
no seu quarto" (Do Outro Lado do Mar, págs. 281, 314).
É
assim mesmo
Para
quem ainda o não leu e o quer ler, é importante dizer que os romances de JPM
não são de leitura fácil. Porque JPM é um pesquisador da profundidade da
existência, da verdade imanente de todas as coisas, das essências íntimas
intangíveis. Os seus livros têm um valor de lição filosófica, o que faz dele um
escritor emblemático e com mensagem. Em certo sentido, JPM é uma especialista a
construir teorias e explicações complexas sobre o sentido da vida.
Sátiro
"disse a si próprio que a vida era assim mesmo, feita de
imprevistos, e havia que saber navegar com todas as marés. Queríamos ir para
ali e o vento empurrava-nos para outro lado, mas a verdade é que havia um outro
lado, e enquanto outro lado existisse, não podia queixar-se" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 265); Damião
Costa "disse a si próprio que a vida era mesmo assim" (Do
Outro Lado do Mar, p. 113).
No
fundo, JPM acha que a vida é assim e eu estou com ele: "a vida era
assim mesmo" (Uma Fazenda em África, p. 428); Isabel "pensou que havia que ter
paciência porque a vida era mesmo assim" (Aluna Americana,
p. 259). Ou, o que vem a dar no mesmo: "a vida é difícil para
todos" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 77) ou a "vida era uma
estrada e era preciso segui-la" (O Prazer de Guiar, p. 113).
Bem
vistas as coisas, a vida é muitas coisas ao mesmo tempo: "a vida era verdadeiramente uma
caixa de surpresas" (Até ao Fim da Terra, p. 55); "A vida
dava muitas voltas e era uma caixinha de surpresas" (p. 93) e,
segundo Custódio, "a vida era uma caixa de surpresas e o Diabo
brincava com as pessoas" (p. 204) (Vento de Espanha).
JPM
fala em forma de máximas. Cada uma é como uma pérola que JPM expulsa
generosamente de dentro de si e atira ao leitor, para iluminar a sua alma, como
o sol depois de uma tempestade. Se duvidam, leiam Uma Fazenda em África:
"Percebia com cada vez mais nitidez que a vida era cheia de encontros e
despedidas, que tão depressa alegravam como magoavam o coração, e que pouco se
podia fazer contra esse rumo das coisas" (p. 243) e "a vida era um
desencontro, uma procura frustrada do que se amava" (p. 428).
A
sorte e o azar são os maiores romancistas do mundo, eis outra lição –
indesmentível e piramidal – com que JPM nos mimoseia: "A sorte e o azar
desempenhavam um papel central na vida de toda a gente" (Uma Fazenda em
África, p. 288); Ema dava-se conta "de que a vida era um profundo
mistério, uma roleta, em que a sorte (...) podia mudar de oito para oitenta ali
ao virar da esquina" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 69); "No
fundo, a sua vida sempre fora uma longa dança com a sorte e ele soubera
dançar" (Do Outro Lado do Mar, p. 102).
Quando
JPM contempla as voltas que a vida dá, o resultado não varia muito. É isso
negativo? Um defeito? Um sinal de preguiça? Longe disso. JPM sabe, por demais o
sabe, que a verdade é mais importante que a variedade. É consciente de que o
seu cérebro simplifica demasiado o mundo que o rodeia, de modo a elaborar uma
narrativa que permita aos leitores sentir que controlam o enredo: "A vida tinha muitos caminhos, uns traziam,
outros levavam" (Uma Fazenda em África, p. 264); "A vida
tem muitos caminhos, uns trazem, outros levam" (Aluna Americana,
p. 209); "Todos temos um caminho. O doutor tem um caminho e os
navios também" (Do Outro Lado do Mar, p. 93) e o barqueiro para
Vasco: "A navegação é como a vida. Todos temos um caminho. O senhor
[Vasco] tem um caminho e os navios também", diz o barqueiro para
Vasco, também em Do Outro Lado do Mar, p. 350).
Heróis
do Mar
Mas
JPM é um historiador que tem a História gravada na pele, nas mãos, na cara, nas
camadas de músculos e nervos que geram as expressões do rosto e moldam o
imaginário. Um imaginário português, bem verdadeiramente português, pois o
namoro de JPM com o imaginário das travessias marítimas não é trivial, antes
uma fonte de constante renovação do seu corpus literário: Custódio
"sentiu-se um Vasco da Gama acabado de chegar à Índia" (Vento
de Espanha, p. 20); quando Nuno "aterrou em Heathrow sentiu-se como
Vasco da Gama a chegar a Calecut" (Um de Nós Deve Lembrar-se,
p. 171); Sátiro sentiu-se "como um Colombo que descobrira a
América" (O Estranho Caso de
Sebastião Moncada, p. 60); Isabel,
em Londres, "foi bebendo as ruas e encantos de Londres com a avidez
de um Colombo que descobre Índias" (A Aluna Americana, p.
154). Todos eles grandes viajantes, como aquele que foi enviado à Índia e à
Etiópia por D. João II, para obter informes sobre o Preste João e as rotas do
comércio das especiarias, tendo estado em Goa, Ormuz e Calecute, percorrendo
seguidamente a costa oriental de África: "Sentia-se um bandeirante, um
descobridor, um rasgador de sertões, um viajante ousado, um Pêro da Covilhã"
(Uma Fazenda em África, p. 129).
Há
ainda várias referências ao navegador português Gil Eanes, famoso por ter sido
o primeiro a dobrar o Cabo Bojador (em 1434): em Um de Nós Deve Lembrar-se (sucessivamente
págs. 72 e 134), Henrique "passara, há dias, o seu Cabo do
Bojador" e Manuel pediu ajuda "ao seu adorado Jacques Brel, um
homem de grande sensibilidade, para que o ajudasse a vencer aquele Bojador"
(as personagens Manuel e Helena são fãs daquele cantor belga: para aquele, é o
"seu adorado", para esta, que a dada altura se põe a cantarolar
"uma canção de Jacques Brel", o belga é o seu cantor favorito",
p. 165; em A Aluna Americana, na página 107, José Duarte "pôs-se a
ouvir discos do Jacques Brel, o seu habitual consolo para os tempos em que
estava deprimido").
O
ter conseguido passar o Bojador foi um acontecimento que ficou para a História
por ter acabado com o mito de que aquela porção de terra que se estende para
dentro do Atlântico seria o "fim do mundo" e, por isso, um local
intransponível, de onde podiam surgir monstros ou figuras grotescas, de
aparência e dimensão diferentes: "O mar, que dava o pão, podia ser um
monstro tenebrosos", "O mar era um monstro cruel e traiçoeiro" (Uma
Fazenda em África, p. 275).
Celebrar
as conquistas e a heroicidade dos homens dos Descobrimentos – sim, devemos ter
orgulho nesta palavra que designa "aquilo que os navegadores portugueses
fizeram nos séculos XV e (parte do) XVI, abrindo novas rotas oceânicas,
encontrando e ligando terras e povos que até então Portugal, a Europa e, em
certos casos, todo o Velho Mundo pura e simplesmente desconheciam" (JPM,
"Não foi Salazar que inventou os Descobrimentos", Observador,
8 de Abril de 2026) – é um dos objectivo que guiam os romances de JPM:
"com a expressão impenetrável e dura de um conquistador" (Uma
Fazenda em África, p. 325), com a confiança "de quem vai conquistar o
mundo" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 120), "a sua jovem alma
de Velho do Restelo falou muito mais alto que a de todos os descobridores que o
habitavam", "Como um meticuloso cartógrafo do século XVI ia fazendo
um mapa das terras descobertas, ou melhor, o mapa da costa", "sabia
que mais para dentro do continente, era Terra Incognita, uma espécie de
África povoada de mistérios e ainda à espera do seu Livingstone",
"José Duarte respirou fundo como se tivesse chegado à Terra
Prometida" (A Aluna Americana, págs. 12, 49 e 112).
JPM
tem uma verdadeira paixão por tudo quanto diz respeito a barcos: "Nunca
nada é garantido e temos sempre de estar a navegar para corrigir a rota. Acho
que, no fundo, viver é corrigir a rota. Mas tu não sabes isso porque o teu
barco está parado" e "A vida é como as correntes marítimas, sabes? Se
não remarmos no mesmo sentido, os barcos afastam-se uns dos outros" (A
Aluna Americana. págs. 198 e 205). Talvez por isso, "a sua vida
[de Mateus] se tornara um permanente e complicado mapa de viagem e de descoberta
interior" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 297) e,
"no fundo, o mundo era como o convés de um navio, e exigia as mesmas
qualidades" (Do Outro Lado do Mar, p. 165).
JPM, "um homem que gosta de ser homem diante de si
mesmo" (Uma Fazenda em África, p. 169), empresta aos heróis-narradores reflexões
filosoficamente muito pertinentes, longamente meditadas, sobre o mundo: "O mundo era feito assim"
(Os Dias da Febre, p. 46); "A única certeza é que o mundo era um
sítio incerto e cruel" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p.
63); "Para ele [Bernardino] o mundo abarrotava de desigualdades e de
injustiças contra as quais era forçoso lutar com denodo e a crença de um
Quixote" (p. 18), "Num mundo que lhe parecia cada vez mais ameaçador,
absurdo e aleatório ela sentia-se como uma palha soprada pelo vento, sem um
braço que a amparasse" e "as vaidades do mundo, onde nada é
duradouro" (p. 54) (Uma Fazenda em África); "neste miserável
mundo nunca sabemos o que desejar, pois a realização dos nossos desejos é, por
vezes, uma infelicidade" (Haiti, p. 242).
A
vida é demasiado confusa, e a nossa escala insignificante face à natureza do
universo, para julgarmos que conseguimos entendê-las sem entender JPM: "Muitas vezes quando julgamos que estamos a atar um fio,
estamos a atar outro" (Até ao Fim da Terra, p. 213). Na verdade,
este escritor fornece-nos várias chaves que permitem perscrutar o enigma da
fragilidade das coisas humanas: Tilly percebeu que "tudo na vida humana
era frágil e dependente do acaso, da sorte e do azar" (Haiti, p.
104), "De súbito dava-se conta de como tudo era frágil e incerto" (A
Aluna Americana, p. 174), "Era estranho como a sensibilidade dos
tempos mudava as coisas... e como as pessoas eram minúsculas e irrelevantes à
escala do universo" (Uma Fazenda em África, p. 204).
Atracção
pelo estranho
Costuma-se
dizer que eliminar o que é estranho e diferente é uma mecanismo que permite
normalizar a vida social. JPM segue o caminho inverso, é um homem que prefere
ver o mundo com os binóculos ao contrário. Sente, no mais fundo de si próprio,
uma "Atracção Fatal" pelo estranho e o inquietante, como se ele
próprio fosse um misto de Glenn Close e Michael Douglas (no filme homónimo de
1987, realizado por Adrian Lyne). Deixo-vos, apenas e só, uma amostra
estatística, colhida ao acaso (como convém):
1.
Uma Fazenda em África: "Que estranhas eram as rodas da Fortuna!" (p. 28),
"uma estranha e inoportuna
inquietação" (p. 32), "Portugal era um país estranho" (p. 46),
"Tudo era estranho" (p. 50), "uma estranha vibração" (p.
57), : "sentimento de estranheza" (p. 72), a preta que olhava para
Benedita "era uma mulher estranha" (p. 75), "Aquela estranha culinária" (p.
81), "pairava um cheiro estranho" (p. 105), "um estranho silêncio" (p.
116), "a estranha preta" (p. 145), uma "impressão estranha" (p. 157), uma
"estranha mistura" (p.
214), "estranha ansiedade" (p. 225), "uma estranha vibração" (p.
232), "em estranhas ondas de desejo" (p. 242), "estranho poder" (p. 247),
"estranho nome" (p. 253),
"um calor estranho" (p. 262), "estranha lacuna" (p. 318),
"estranhamente generoso" (p.
348), "estranha passividade" (p. 367), "estranha palidez" (p.
401), "maneiras estranhas" (p. 418), "um estranho mistério" (p.
426).
2. O Estranho Caso de Sebastião Moncada: "estranhos olhos" (p. 91),
Mateus "uma estranha mistura" (p. 93), "estranha experiência" (p.
98), "estranho brilho no olhar" (p. 187), "estranha lagoa" (p. 208),
"o mundo era um lugar estranho" (p. 319).
3.
Os Dias da Febre: "estranha culinária" (p.
39), uma "estranha sensação" (p. 84), uma "estranha sensação" (p.
141), "a religião é uma coisa estranha" (p. 173),
"uma sensação muito estranha" (p. 230), "estranhas coincidências"
(p. 317), "um estranho novelo" (p. 318).
4.
Vento de Espanha: "como se uma
força estranha o dirigisse" (p.
52), "Marrocos era um país estranho" (p. 144).
5. Do Outro Lado do Mar: "vago sentimento de estranheza" (p. 81),
"sentiu um estranho arrepio" (p. 155), "numa terra estranha" (p. 172),
"uma força estranha no olhar" (p. 302), "línguas estranhas" (p. 337).
6.
Até ao Fim da Terra: "uma estranha sensação" (p.
19), um "ambiente estranho" (p. 156), "um estranho país" (p. 187),
"estranha inquietação" (p.
195).
7. Um de Nós Deve Lembrar-se: "estranhamente atraída pelo
abismo", "uma terra estranha", "estranhos hieróglifos",
"as pessoas são estranhas", "uma estranha voz dentro de si", "um barulho estranho",
"dolorosamente estranho", "um estranho pudor",
"fazia estranhos sons", "acho-a muito estranha",
"o mundo era um lugar estranho", "era um fenómeno estranho",
um "estranho sentimento", "um estranho sorriso",
"um estranho convite", o "estranho nervoso em que
fervia", "um estranho sorriso".
Vendo
bem, como explica Um de Nós Deve Lembrar, "as pessoas são estranhas
e as relações humanas difíceis" (p. 53) e as relações humanas eram um jogo
complicado" (p. 57). Como solucionar este problema, só pela rama aqui
tocado? A sugestão de JPM, embora possa parecer simples, é profundamente
subtil: "As coisas e as pessoas deviam ser arrumadas nas devidas prateleiras
para serem identificáveis" (A Aluna Americana, p. 241).
A
literatura de JPM é uma estrutura organizadora de imagens e metáforas ("o
voo apavorado do pássaro em busca de uma saída apareceu-lhe como uma confusa
metáfora da sua vida", O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p.
71), mas também de símbolos e fórmulas representativas que resumem as facetas,
faces e estados de um mesmo poliedro. A sua capacidade de articulação e de
síntese é absolutamente notável. Numa só frase, JPM consegue reduzir a
complexidade íntima da vida numa única expressão ou consideração, que abre um
caminho que nos permite chegar ao universal.
Orgias
e sinfonias
De
repente, JPM sente-se poeta: "numa orgia de anedotas e
gargalhadas", "uma trovoada de tiros para o ar", "uma
orgia de luz e som, de clarões e explosões", "numa sinfonia
de suspiros" (Uma Fazenda em África, págs. 72, 105, 262, 429).
Noutros livros, uma nota de humor insinua-se: "uma sinfonia de
cláxones", "uma sinfonia de cláxones" (A Aluna
Americana, págs. 49, 199); "orgia de sangue" (Vento de Espanha,
p. 241); "orgia saqueadora" (Até ao Fim da Terra, p.
213); "uma autêntica orgia de divertimento aquático",
"uma impaciente sinfonia de buzinas de automóveis" (Um de
Nós Deve Lembrar-se, págs. 55, 229).
Resumos
Europa-América
Entender
JPM é entender toda a História de Portugal: "Estava ali resumida a força
de um povo e a história épica dos descobrimentos portugueses. Estavam ali os
anónimos sucessores de Gil Eanes e de Bartolomeu Dias e ele lamentava não ser
um Camões ou um João de Barros para os poder contar" e "pareceu-lhe
que aquela brancura fria e erma representava a sua vida" (Uma Fazenda
em África, p. 124, 35).
E
toda a História do Ocidente: Teresa "personificava o mundo estável
e conhecido"; José Duarte, segundo Isabel, "era a personificação
daquilo que os Americanos designavam por sex appeal"; "Manuel era
a personificação dessa resignação" (A Aluna Americana, págs.
12, 27, 160); "naquela família estava personificada toda a tristeza
de ser pobre numa cidade", "Acabara de ver a personificação do
fascismo" e "ele era o arquétipo do fascista" (p. 302) (Vento
de Espanha, págs. 29-30, 218, 302); Cap Français, a maior cidade de
Saint-Domingue, "era o símbolo da implantação das Luzes no Novo
Mundo" e "adoptara aquele pássaro [papagaio] como símbolo da
escravidão" (Haiti, págs. 168, 201); "Ao ouvir os versos
daquela cantiga, Vasco percebeu que estava neles, de uma forma resumida e
simbólica, todo o drama da ausência de liberdade", "Vasco
percebeu que era ali, naquela multidão parada, talvez ainda mais do que na
ponta do chicote, que estava bem vincado todo o horror da
escravatura", Sara considera que Tarquínio Tocato "personificava,
em simultâneo, o remorso e o perdão", "reparou na palmeira com os
ramos curvados pela força do vento e, por qualquer razão, sentiu que ela
representava Vasco Lacerda" (Do Outro Lado do Mar, págs. 222, 261,
270, 303); "aquele namorado simbolizava o Portugalzinho de que
estava farta" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 21).
Sons
do silêncio
JPM
está sempre à procura da frase definitiva. Procura dizer tudo o que há para
dizer através da muda aprovação do silêncio: "silêncio
expectante, prenunciador de novidades", "misterioso silêncio",
"silêncio morno", "profundo silêncio",
"silêncio incomodado e impotente", "silêncios
opressivos", "silêncio meditativo", "num silêncio
imóvel e tolhido", "silêncio expectante",
"silêncio expectante", "silêncio
imóvel", "silêncio expectante e hostil", "silêncio
expectante apenas quebrado pelo hino", "num silêncio
assustado e impotente", "silêncio indiferente",
"imenso silêncio", "embaraçado silêncio",
"silêncio tenso e rancoroso", "um silêncio
grave, compungido", "um silêncio simétrico e
expectante", o bispo e o seu cabido aguardavam D. Miguel "em
respeitoso silêncio", "Os dois homens ficaram a
olhar-se longamente, em pesado silêncio",
"enigmático silêncio", "angustiado silêncio",
"o silêncio expectante de Mateus",
"desconsolado silêncio" (O Estranho Caso de
Sebastião Moncada, págs. 10, 14, 16, 17, 43, 65, 79, 82, 89, 94, 97, 108,
109, 143, 158, 178, 206, 208, 225, 233, 239, 250, 263, 286, 299).
O
silêncio não é apenas a ausência de ruído. Tem a sua própria realidade e esta é
tão forte e intensa que consegue sobrepor-se às outras realidades. Mesmo a
ausência de ruído não é "não existência", mas outro tipo de presença.
Bem vistas as coisas, o silêncio (Os Sons do Silêncio, de Simon &
Garfunkel, e Os Sons do Silêncio. O Portugal de Oitocentos e a Abolição do
Tráfico de Escravos, de JPM) é o ponto de unidade de toda a obra de JPM: "silêncio
escuro e arrepiante", "silêncio sepulcral que cobria
o cemitério", "silêncio denso, opressivo",
"silêncio austero", "respeitoso silêncio",
"silêncio natural e espesso", "em absoluto silêncio",
"o silêncio era tão profundo", "um silêncio
incómodo", "silêncio supersticioso", "silêncio
pesado, incómodo", "silêncio carregado de pesadas
ameaças", "silêncio embaraçado", "No
baleeiro fizera-se um silêncio sepulcral", "silêncio
sofrido, destroçado", "um profundo silêncio",
"silêncio expectante", "fizera-se um silêncio
sepulcral", "silêncio reverente e religioso",
"ouviu-o em silêncio reverente", "pesado silêncio",
"silêncio desolado" (Uma Fazenda em África,
11, 20, 22, 25, 43, 82, 86, 90, 137, 167, 188, 206, 233, 287, 311, 360, 365,
374, 400, 409, 411, 421).
Como
nos exercícios espiritual de Inácio de Loyola, JPM aprofunda a sua relação com
o silêncio, a sua obra inclui um forte compromisso com o silêncio: "silêncio
sepulcral"; "um penoso silêncio"; "silêncio
sepulcral"; "um silêncio espesso e profundo" (A Aluna Americana, págs. 150, 210, 246, 258); "silêncio
tenso e expectante", "pesado silêncio", "silêncio
opressivo", "pesado silêncio"; "respeitoso
silêncio"; "penoso silêncio",
"silêncio surpreendido", "um inquieto silêncio",
"silêncio sepulcral" (Até ao Fim da Terra, págs. 38, 57, 106, 107, 173, 174,
190, 194, 241); "estranho e profundo silêncio",
"nervoso silêncio" e "um silêncio
sepulcral", "um silêncio expectante", "uma
pesado silêncio", "silêncio
pesaroso", "pesaroso silêncio" (Haiti, págs. 22, 104, 142, 206, 248, 250); "silêncio
emocionado", "reverente silêncio", "silêncio
embaraçado", "absoluto silêncio" (Os Dias da Febre, págs. 9, 71, 117, 285); "silêncio
expectante", "silêncio expectante", "silêncio
maravilhado e reverente", "pesado silêncio",
"silêncio misterioso", "angustiante silêncio",
"pesado silêncio", "silêncio
expectante, angustiado", "um silêncio
sepulcral", "silêncio grave", "silêncio
embaraçado" (Do
Outro Lado do Mar,
págs. 19, 28, 74, 94, 129, 133, 143, 261, 320, 333, 364); "um silêncio
embaraçado", "silêncio balsâmico", "silêncio
absoluto", "um silêncio denso, pungente", um
"silêncio profundo" (Vento de Espanha, págs. 38, 112, 169, 229, 293);
"embaraçoso silêncio" (O Prazer de Guiar, p. 32); "fez-se um silêncio
sepulcral", "impaciente silêncio", "em
absoluto silêncio", "silêncio
expectante" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 44, 71, 153, 218).
Broncoscopia
Mas
JPM gosta de colocar as personagens em situações extremas ou opostas. Com ele
não há posição intermédia, ou silêncio. Os gritos são suficientemente altos
para fazer tremer os candeeiros: o anspeçada "gritou a plenos
pulmões" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 270); Bernardino "gritou a plenos pulmões",
"cantavam a plenos pulmões", Bernardino "gritou
a plenos pulmões", "Benedita ergueu-se e gritou a
plenos pulmões", "gritou a plenos pulmões"
(Uma Fazenda em África, págs. 44, 209, 317, 355, 422);
"a vida que respirava a plenos pulmões" (A Aluna Americana, p. 224); "gritou a
plenos pulmões" (Até ao Fim da Terra, p. 30); "ela deu por si a cantá-la a plenos
pulmões" (O
Prazer de Guiar, p.
137); "respirou a plenos pulmões", "inalou o
fumo a plenos pulmões", "gritar a plenos
pulmões", "gritava-lhe a plenos pulmões"
(Vento de Espanha, págs. 20, 142, 171, 182); um
cavaleiro que "gritava a plenos pulmões",
"gritou a plenos pulmões", "gritando a
plenos pulmões" (Haiti,
págs. 65, 83, 171); "a respirar a maresia a plenos pulmões"
(Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 260).
Aristóteles,
Moisés, João Pedro Marques
Como
facilmente se percebe, JPM nutriu-se das mais variadas tradições greco-latinas.
Tal como nestas, JPM é fiel ao princípio de que a literatura deve descrever
tipos gerais de personalidade, destinos, modos de viver, histórias
arquetípicas, etc. (o que faz dele um clássico moderno).
Prova disso mesmo encontramo-la nas abundantes
referências a uma Afrodite, a um Vulcano, a uma Circe, a um Ulisses, a uma
Penélope, a um Júlio César e por aí fora, até àquele que abre caminho entre as
águas ou por terra, em direcção à terra prometida: Moisés.
Nomes
com que JPM ornamenta o discurso para denunciar as graves lacunas do país na
divulgação das doutrinas e ideias da Antiguidade, fortalecidas no Renascimento,
mas totalmente esquecidas ou ignoradas em Portugal (por isso é que eu costumo
dizer que os romances de JPM também nos fazem aprender, que quem lê JPM aprende
sempre qualquer coisa).
Exemplos
da aproximação de JPM ao calcanhar do mundo – desde a Antiguidade Clássica
greco-romana aos temas bíblicos – não faltam. Aqui, JPM joga pelo seguro:
Afrodite:
"um sacrifício em honra de Afrodite" (O Estranho Caso de
Sebastião Moncada, p. 47); "Uma encarnação de Afrodite, descida
do Olimpo para o encantar ou para o torturar" (Os Dias da Febre, p.
197).
Apolo:
"aquele Apolo germânico" (A Aluna Americana, p. 244).
Aquiles:
Benedita lembrou-se "da primeira vez que o [Peter] vira, à distância,
iluminado pelos archotes, após ter morto os leões, como se fosse um bravo Aquiles
ou outro belo herói da Antiguidade" (Uma Fazenda em África, p.
332); o Tenente Narciso Sá Nogueira era "um camarada de armas versado em
história antiga, comparara-o ao lendário Aquiles" (O Estranho
Caso de Sebastião Moncada, p. 110).
Deusas
e deuses: "como se viesse de longe fazer oferendas a uma deusa"
e "à luz dos archotes, aquele caçador [Peter Sternberg], muito direito no
alto da plataforma e com um grande sorriso iluminado pela luz bruxuleante e
amarelada, pareceu-lhe um belo deus pagão rodeado de adoradores" (Uma
Fazenda em África, págs. 90, 116); "no exacto dia em que fora ao
mercado e vira pela primeira vez aquela deusa" (Haiti, p.
149); O cabelo de Caetana "dava-lhe uma aura de deusa grega"
(Do Outro Lado do Mar. p. 31); Mateus refere-se a Poleciana como "aquela
deusa, exigente e ousada, antecipando o inesperado prazer que ela lhe
daria" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 97); Joana Freitas tem uma "aura de deusa
inacessível" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 87).
Diocleciano:
"como os sete irmãos dormentes do tempo de Diocleciano" (Uma
Fazenda em África, p. 190).
Júlio
César: o Duque da Terceira "imaginou que deveria ter sido assim que Júlio
César se sentia quando passou o Rubicão" (O Estranho Caso de
Sebastião Moncada, p. 305); "sentia-se como um Júlio César
cercado de punhais", Bernardino "sorria e acenava às pessoas,
sentindo-se heróico e ufano como um general romano num desfile triunfal",
"Algures naqueles últimos meses tinha passado várias fronteiras dentro de
si e Lisboa tinha sido o seu Rubicão" (Uma Fazenda em África,
págs. 64, 117, 253).
Marco
Aurélio: "com o estoicismo de um Marco Aurélio" (A
Aluna Americana, p. 77).
Moisés:
Bernardino queria fundar uma colónia em Angola e "sabia que lá no fundo de
si tinha o estofo de um Moisés capaz de conduzir o seu povo através do
mar até à Terra Prometida", "um Moisés disposto a guiar aquela
gente e a insuflar-lhe uma alma", "ganhou o calor furioso de um
Moisés que acabava de quebrar violentamente as Tábuas da Lei" (Uma
Fazenda em África, págs. 18, 63, 65); "A mão esquerda da
recém-aparecida apertava firmemente o cabo de uma vassoura, como se fosse o
poderoso e autoritário cajado de um Moisés" (O Prazer de Guiar,
p. 85); "a cara de Gaspar transmitia uma força invulgar e assumia o
terrível aspecto de uma das figuras vingadoras do Antigo Testamento. Era um
Moisés, de olhos irados, envolto no fumo que vinha da fogueira" (Do
Outro Lado do Mar, p. 346).
Nero:
"sentiu-se como um Nero perante Roma a arder" (Haiti,
p. 167); Baptista Moreira "sentia-se um Tibério, um Nero, um homem
poderoso cheio de volúpias e perversões" (Uma Fazenda em África, p.
247).
Noé:
"cheirava o ar como um Noé precocemente cansado do dilúvio";
p. 207: "era um sacrifício visitar diariamente a sua arca de Noé"
[a vida campestre] (Os Dias da Febre, páginas 35, 207); "aquela espécie
de Arca de Noé" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 313).
Penélope
e Ulisses: Mateus "sentiu-se como um Ulisses a fraquejar face
aos encantos de uma bela Circe" [Poleciana], "Sou uma Penélope
sem remissão e tu és a minha paixão, o meu Ulisses, lá longe, na
guerra" [Luísa para Mateus], "Ao ouvir aquela ordem Mateus alarmou-se
e desesperou. Sentiu-se uma espécie de Ulisses que nunca chegava ao fim
da sua odisseia" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 96,
194, 296); Benedita "faria e desfaria a tapeçaria as vezes que fossem
precisas, como uma Penélope à espera do seu Ulisses" (Uma
Fazenda em África, p. 429); Isabel diz a José Duarte que "se deixasse
isto prosseguir no grau de proximidade que nós tínhamos iria ficar uma espécie
de Penélope e eu quero é ser um Ulisses", "Não quero viver no
Palácio de Penélope" (A Aluna Americana, págs. 113, 118);
Robert diz a Elvira que "não te quero hipotecada a ninguém ou encerrada
num palácio de Penélope" (Os Dias da Febre, p. 314).
Sansão:
Raquel para João: "Dantes era um Sansão" (O Prazer de Guiar,
p. 146); "A presença dela [Benedita] exercia sobre si [Bernardino] uma
atracção dissolvente, tirava-lhe a ira e a força, e ele tornava-se débil e
quase inerte como um Sansão" (Uma Fazenda em África, p.
289).
Séneca:
Bernardino: "era um voluntarioso, um estóico que bebera em Séneca"
(Uma Fazenda em África, p. 18); "Desejava ter o estoicismo de Séneca"
(A Aluna Americana, p. 239).
Vulcano:
Eleutério, ferreiro de Valongo, "trabalhava com a energia de um Vulcano"
(O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 69).
Zeus:
"Por muito Moisés que se sentisse, um governador autoritário, um Zeus
inflexível e soberbo descido do Olimpo" e Benedita "pareceu a Leal
uma majestosa deusa no meio da tempestade, uma esplêndida encarnação de Palas
Atenas, nascida da cabeça de Zeus, o deus dos trovões" (Uma
Fazenda em África, p. 69, 263).
O
busto de Napoleão
JPM
tem um entendimento secreto com as figuras monumentais da Antiguidade e também
com os heróis dos Descobrimentos: em casa de Luísa, "a meio da prateleira
um pesado busto de Cícero" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada,
p. 172); no gabinete do ministro, "um pedestal com um busto de Afonso
de Albuquerque" (Uma Fazenda em África, p. 227); na sala de
reuniões do Cercle des Philadelphes, "busto de Aristóteles" (Haiti,
p. 87). Isto habilita-nos a fazer a seguinte sugestão: não deveríamos lançar a
candidatura de JPM ao Nobel? Ou representá-lo, também a ele, num busto?
JPM
acumula vestígios dos clássicos da Antiguidade, mas também referências às
mitologias nórdicas – Peter sentiu-se como "um personagem de sagas
antigas" (Uma Fazenda em África, p. 83) e Isabel "tinha as
sobrancelhas assertivas, generosas, de princesa nórdica" (A Aluna
Americana, p. 26) – e mesmo à Idade Média. Por exemplo, afirma diz que o
governador Leal "em tempos idos tinha sido um Cid Campeador, capaz de
promover a guerra apenas para ter o ensejo de provar o seu valor" (Uma
Fazenda em África, p. 323).
Dr.
Marques, otorrino
Há
tantas referências destas na obra de JPM como variedades de queijos em França
ou pombos em Nova Iorque. Por vezes, o erudito encontra a veia popular, como
acontece no uso generalizado da expressão idiomática "As paredes têm
ouvidos", cuja origem remonta a Catarina de Médici, nobre italiana que
casaria com o rei Henrique II, tornando-se rainha consorte de França
(1547-1559). Reza a lenda que ela terá instalado tubos metálicos secretos
dentro das paredes no Palácio do Louvre, para escutar as conversas dos
adversários e traidores.
Na
verdade, as paredes de JPM têm órgãos auditivos: "a mulher fungou e
respondeu em voz baixa por hábito de secretismo não fossem as paredes ter
ouvidos",
"confidenciou em voz baixa, como se não quisesse que as paredes
ouvissem" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 62,
316); "disse, baixando o tom de voz e chegando-se um pouco para a frente, como
se as paredes tivessem ouvidos"; p. 391: "Costa assistira calado
àquele diálogo (...), porque as paredes tinham ouvidos" (Uma
Fazenda em África, págs. 97, 391); "As paredes tinham ouvidos";
"confessou [uma mulher conversando com Lurdes], baixando a voz, como se
tivesse medo de que as paredes a ouvissem"; "ensinou-lhe 'A
Internacional', que cantava baixinho, porque as paredes tinham ouvidos"
(Vento de Espanha, págs. 75, 123, 135); "sem ninguém a vigiá-los de
perto [Sara e Vasco], puderam trocar algumas palavras cautelosas e sussurradas porque
aquelas paredes tinham ouvidos" (Do Outro Lado do Mar, p. 232);
"Falamos no caminho porque aqui as paredes têm ouvidos" (Um
de Nós Deve Lembrar-se, p. 252).
Todas
as expressões populares movem-se dentro de uma estrutura de repetição, como no
conto de Jorge Luis Borges, "Pierre Menard, Autor do Quixote": as
frases são iguais e, ao mesmo tempo, completamente diferentes. O trabalho de
constante repetição visa criar a mais perfeita ligação entre as personagens, e
é acompanhado por um processo de construção de simetrias que induzem uma
familiarização entre os tipos e as situações da ficção marquiana.
Às
vezes esbarram, por
assim dizer, em muros, tabiques ou paredes invisíveis, que é o mesmo que dizer,
mas com redobrada estranheza, "em si próprias": Eufrásia
"estacou como se tivesse embatido numa parede",
"ergueu-se de novo como uma dura parede perante os seus olhos"
(O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 19 e 132); "Ela baqueou como se tivesse chocado com uma parede"
(Uma Fazenda em África, p. 381);
"parou como se tivesse
chocado com uma parede" (Do Outro Lado do Mar, p. 199);
"fora-se interpondo um muro de incompreensão e de desarmonia entre
eles", "frustrado com aquela inamovível parede de rejeição que
ela antepunha aos seus avanços", "Mas foi nesse homem estóico e
teimoso que Joséphine encontrou um muro difícil de derrubar ou
contornar" (Haiti, págs. 160, 214, 242); "A primeira vez em
que começou a ter uma suspeita quanto às causas do tabique que os separava"
(Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 197).
Graças
a tal método, hábil e engenhoso, com personagens tão calmas e paradas (como uma
parede num quarto vazio), JPM consegue fazer com que o leitor sinta que falar
com elas é o mesmo que falar com uma parede.
O Amor é Fundido
Neste
contexto, percebe-se que as ideias de "fusão", "sintonia",
"comunhão" ou "irmanação" sejam periodicamente reafirmadas.
Não só porque JPM consegue transplantar o seu mundo neuronal para o cérebro de
todos nós, fazendo com que os universos de uns e outros acabem por se fundir,
mas também porque ela nos aproxima do conceito de "fluxo da
consciência".
É
isso, não mais do que isso, que nos dizem os seguintes exemplos, escolhidos ao
acaso: Luísa, em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, confessa a Mateus
que "fundimo-nos um no outro" (p. 127); em A Aluna
Americana Isabel "fundia o seu corpo no dele
[Steve]" (p. 69); em Uma Fazenda em África, Benedita
"contemplou o quadro durante algum tempo como se quisesse sorvê-lo e fundir-se
com ele" (p. 252), Peter e Benedita "fundidos nos braços um do
outro sem darem pela passagem do tempo" (p. 378); ou em Os Dias da
Febre, quando nos é revelado que Robert "tinha necessidade de um
contacto pleno, absoluto, quase de se fundir nela [Elvira], tanto física
como espiritualmente" (p. 230).
Que
os livro de JPM correspondem a um esforço de procura da sintonia demonstram-no
as seguintes citações: "Os cortinados cinzentos da saleta harmonizavam-se
perfeitamente com os estofos coloridos" (O Estranho Caso de Sebastião
Moncada, p. 246).
O
mesmo em Os Dias da Febre: Pedro "sentia-se em sintonia com
aquela terra e gostava de a explorar cada vez mais e mais profundamente"
(p. 50), "Robert acordava com Lisboa, como se estivessem em sintonia
ou fizessem parte de um mesmo mecanismo" (p. 77) e Robert sentia
"havia uma estranha sincronia entre si e Lisboa" (p. 286). Em A
Aluna Americana: "uma cara em perfeita sintonia com aqueles
tempos de modorra" (p. 8), "Aquelas caminhadas na praia, sozinho com
o mar, o sol e o vento, ajudavam-no a sintonizar com a Terra, o Ar e a
Água" (p. 269) e "com os outros carros a movimentarem-se em
sintonia contigo" (p. 276). Enfim, Bernardino sentia-se "em
plena harmonia com aquele mundo" (Uma Fazenda em África, p.
129).
JPM,
o romancista, tem nostalgia da unidade, procura, por assim dizer, a aventura da
comunhão. A suprema harmonia, a reconciliação entre tudo e todos, entre as
coisas e o nosso interior. A plenitude é uma forma de libertação, ou de
desalienação: "Naqueles momentos de comunhão parecia que conseguia
encontrá-la lá no fundo" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p.
42); Peter "ficava geralmente em plena comunhão com a vida" (Uma
Fazenda em África, p. 205); "aquilo dava-lhe uma sensação de
infinito e de comunhão com Deus" (Haiti, p. 229); Isabel
e José Duarte permanecem abraçados "numa estranha comunhão
silenciosa" (p. 121) e "aquele momento de silenciosa comunhão
[de Isabel e José Duarte]" (p. 173), em A Aluna Americana; Custódio
"esteve em comunhão com o estuário [do Tejo] durante alguns
minutos" (p. 20) e Maria del Carmen "estava em comunhão com ele
[Vladimir Vorobiov]" (p. 290), em Vento de Espanha; "com esse
reencontro [o reencontro com Robert Huntley], viera (...) uma sensação
fortíssima de pertença, de comunhão" (Os Dias da Febre, p.
141); o Padre Guilherme "em meditação e comunhão com a natureza"
(Do Outro Lado do Mar, p. 248).
Meu
amigo, meu irmão
Os
romances de JPM pertencem a uma mesma comunidade estética e interpretativa,
como é visível no sentimento de "irmandade" que diversamente os
atravessa. Em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, a velha Inácia
"sentiu-se irmanada com as panelas e mais tensa ainda do que
elas" (p. 157) Mateus "sentia-se irmanado com a sua
gente" (p. 184), "o estalajadeiro lançou os dois braços no ar e irmanou-se
naquele grito telúrico" (p. 235) e Mateus "continuava a sentir-se irmanado
com aquele homem [Sebastião Moncada] que não conhecera" (p. 302).
Segue-se
Uma Fazenda em África, com Bernardino sentindo-se "unido a José
Leite por grande amizade, irmanados no combate como Castor e Pólux"
(p. 57). Em Vento de Espanha, "irmanado com aquela gente que
ia à bola" (p. 23), "a prisão irmanara-as [Lurdes e
Carmen]" (p. 263); "aquela visão trouxe-lhe [a Carmen] um sentimento
confuso e torturado de irmandade" (p. 321). Em Haiti, Joséphine
"por vezes chorava porque se irmanava no sofrimento dos
negros" (p. 25) e "enquanto o povo que assistia se irmanava em
aplausos e aclamações" (p. 174). Em Do Outro Lado do Mar, Vasco viu
um homem de barba ruiva (Alerta de spoiler: há muitos ruivos nos
romances de JPM) e, presumindo que fosse inglês ou holandês "sentiu-se irmanado
com ele, um condenado a trabalhos forçados numa terra estranha" (p. 172) e
Vasco, no funeral de Clarice, foi invadido por uma mistura de pena e saudade,
de mal modo "que os seus olhos se encheram de lágrimas, e sentiu a
premência de apertar as mãos dos pretos e pretas que estavam em seu redor, irmanando-se
na sua dor" (p. 317). Em Um de Nós Deve Lembrar-se, "estavam
todos irmanados nesse horizonte e nesse receio [serviço militar e ida
para a guerra em África]" (p. 40) e João Pedro e Eduardo Fialho
"estavam irmanados no mesmo sentimento" (p. 117).
Esta
osmose só não é perfeita porque JPM é um autor surpreendente, que gosta de
conduzir os leitores para fora do âmbito daquilo que é previsível, introduzindo
pequenas variações (como nas Variações de Goldberg, de Johann
Sebastian Bach), que provocam desconcerto nos mais apressados: "Luz
Soriano sentiu-se estranhamente geminado com aquele homem que, lá longe,
pensava e sentia exactamente como ele" (Uma Fazenda em África, p.
28).
Este texto é a pré-publicação de um estudo sobre a obra
de João Pedro Marques que será editado muito em breve.
João Pedro George












