quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Batatas Fritas, Irresistíveis.





Chamam-lhes French fries, mas a origem é disputada. Os belgas reclamam a invenção, os franceses o nome, mas a verdade é que tudo começou aqui ao lado, no século XVII, com nuestros hermanos — afinal, foram eles que trouxeram a batata da América do Sul para a Europa. Seja como for, se é na Bélgica que as batatas fritas são prato nacional, não há nenhumas como as portuguesas.

Cortadas à mão, em palitos, rodelas ou cubos, demolhadas em água e fritas em óleo de girassol ou azeite, devidamente salgadas — são iguaria de tascas e restaurantes respeitáveis, mas espécie em vias de extinção. A eficiência e a produtividade empurraram-nos para as congeladas e pré-fritas. Não é a mesma coisa, os cristais de gelo rompem as fibras no interior, pelo que se aconselha a dupla fritura. Mas, em abono da verdade, também não se lhes resiste: finas, longas, crocantes.

E nada de cascas, orégãos ou outras invenções. Apenas sal. Muito sal. Porque a perfeição, como sempre, está na simplicidade.

 

                            José António Nogueira de Brito


São Cristóvão pela Europa (366).

 

 

 

A Europabrücke (a ponte da Europa) é uma notável obra de engenharia que liga o Norte e o Sul dos Alpes. Inaugurada em 1963, era então a ponte mais alta da Europa. Ainda é hoje a ponte mais alta da Áustria. Um dos seus pilares tem a altura de 147 metros!

Onde antigamente os viajantes utilizavam autênticos caminhos de cabras hoje existe uma autoestrada moderna que permite uma viagem pelo desfiladeiro de Brenner com toda a comodidade.

Na área de serviço junto à ponte foi construída no mesmo ano a Europakapelle, a Capela da Europa, dedicada a São João Nepomuceno e a São Cristóvão e decorada no seu exterior por frescos de do pintor italiano Karl Plattner (1919-1986).

Uma janela no fundo da capela permite-nos descortinar um belo panorama sobre a ponte.

 




 Em Axams também nos arredores de Innsbruck, encontrámos uma estátua numa fonte, datada de 2007, e um mural numa agência bancária, de 1971, ambos representando o nosso Santo.






 

                                                        Fotografias de 2 de Agosto de 2026

                                                                                         José Liberato




quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Livre.

 





Nascida na Albânia de Estaline e espetadora de um regime em ruínas:

Um relato épico sobre o custo da liberdade, uma peça para a História

  

 

          Confesso que beneficiei de ter lido previamente outra obra maravilhosa de Lea Ypi, Indignidade, Uma Vida Reimaginada, Casa das Letras 2026, esta em volta de uma investigação no Arquivo dos Serviços Secretos Albaneses, uma busca para compreender a avó, e então a Albânia surge como o lugar que envolve o leitor num tempo feroz. Livre, Como Me Tornei Adulta No Fim Da História, também Casa das Letras 2024, é marcado por uma narrativa quer mágica quer comovente de uma menina de onze anos educada no socialismo albanês, tudo se inicia quando ela se agarra a uma estátua de pedra de Estaline, decapitada pelos protestos dos estudantes, naquele momento em que a utopia prometida entra em convulsão, e depois em estilhas, um povo em fuga, um sistema financeiro em colapso, tudo cabe nestas memórias prodigiosas em que a autora se questiona vezes sem conta sobre o custo da liberdade.

          Para aquela menina de onze anos, Estaline sorria com os olhos, aparece despretensioso aquela estátua mutilada que a menina observa no pequeno jardim perto do Palácio da Cultura, ela se sentia tão segura, tão abrigada por aquele regime que profetizava o fim do socialismo e o princípio do comunismo. “O socialismo dava-nos liberdade. Os manifestantes estavam enganados. Ninguém estava à procura de liberdade. Já eram todos livres, assim como eu, simplesmente ao exercerem essa liberdade, ou defendendo-a.” Em estado de choque, corre para casa, vamos ser inseridos numa atmosfera familiar, dela guardo reminiscências quando li o magnífico livro Indignidade, uma comovente elegia à sua avó. Esta vai reaparecer novamente, e sempre em termos luminescentes:

          “Ela nasceu em 1918, sobrinha de um paxá, segunda filha de uma família de destacados governadores provinciais do Império Otomano. Quando tinha 13 anos era a única rapariga do Liceu Francês de Salónica. Quando tinha 15, saboreou o primeiro whisky e fumou o primeiro charuto. Quando tinha 18, recebeu uma medalha de ouro por ser a melhor da escola. Quando tinha 19, visitou a Albânia pela primeira vez. Quando tinha 20, tornou-se conselheira do Primeiro-Ministro, sendo a primeira mulher a trabalhar na Administração Pública. Quando tinha 21, conheceu o meu avô, no casamento do rei Zog. Quando tinha 23, casou-se com o meu avô. Ele era socialista, mas não revolucionário. Ela era vagamente progressista. Ambos provinham de famílias conservadoras de renome, e que se haviam espalhado pelo Império Otomano ao longo de gerações (…) Quando tinha 28, o meu avô foi preso, acusado de promover agitação e de fazer propaganda, e condenado, primeiro à forca e depois à prisão perpétua, mais tarde comutava para 15 anos na cadeia. Quando fez 40 anos muitos dos seus parentes tinham sido executados ou haviam cometido suicídio, e os que sobreviveram dividiam-se entre o manicómio, o exílio e a prisão.”

          São fundamentalmente os pais e a avó que ocupam o espaço primordial da narrativa, Lea será educada sobre a gesta heroica da luta contra as forças italianas e alemãs, a defesa da liberdade, a intransigência da independência, a luta permanente contra os revisionistas jugoslavos e soviéticos e, mais tarde, os vira-casacas chineses. A partir de 1990, no rescaldo dos acontecimentos do Muro de Berlim e das mudanças que se estavam a operar em toda a Europa do Leste, o sopro da mudança chegava à Albânia, havia discussões acesas em casa de Lea, no ambiente dos amigos.

          A autora evoca o que lia e o que se era inculcado no meio escolar e familiar, como as crianças viam os turistas e os seus estranhos costumes. É uma narrativa que nos deslumbra no quadro mental em que vivia aquele país, as conversas encriptadas para nunca mencionar o nome das prisões, e assim chegamos ao fim da História, depois do 1º de maio de 1990, a Albânia foi declarada oficialmente um Estado multipartidário, já tinham passado quase 12 meses desde que Ceausescu fora fuzilado na Roménia, tinha começado a guerra do Golfo, aparecia o maior partido de oposição; foi então que a avó lhe contou toda a sua vida, isto enquanto ia desaparecendo o socialismo e o ideal comunista, agora só sobrava a palavra liberdade.

          Estamos na autora dos novos tempos, atos eleitorais, governos instáveis e impotentes, tiros nas ruas, greves, era como se estivesse a viver em terapia de choque. “A nossa economia planificada era vista como sendo equivalente à loucura. A cura consistia numa política monetária transformadora: equilibrar orçamentos, liberalizar preços, eliminar subsídios governamentais, privatizar o setor público e abrir economia ao comércio externo.”

          Virá, entretanto, uma carta de Atenas a anunciar que havia bens que pertenciam à família da avó, irão à Grécia, onde Lea não se sentirá feliz, anseia rapidamente voltar a casa. Há multidões em fuga na Albânia, os barcos atravessam o Adriático, as autoridades italianas recambiam praticamente todos. Sucedem-se as falências em cadeia, aparecem sociedades financeiras com os chamados empréstimos piramidais, muita gente perdoará tudo. O pai encontrará emprego, irá mesmo ter uma malograda experiência política, a mãe será ativista na oposição, a relação dos pais conhecerá uma gradual deterioração, a mãe partirá para Itália, o pai será finalmente um quadro com valor reconhecido.

          É neste país estilhaçado que se ouve em permanência a necessidade de reformas estruturais, as assimetrias na Albânia agudizam-se. Lea conhecerá a sua paixoneta, não haverá reciprocidade. Haverá um momento em que ela decidirá estudar noutros pontos da Europa. Dá-nos conta de notas do seu diário em 1997, a Albânia está em perfeito transe. Lea pondera no início da sua adultez quanto custa a liberdade, as escolas fechadas, tinham chegado forças de manutenção da paz, havia ajudas internacionais, ela decidiu ir estudar Filosofia, mais discussões acesas em casa, irá licenciar-se em Roma, aqui vai começar a sua carreira académica que a vai levar à London School of Economics. Rememora o que viveu e as mudanças que sonha: “A minha família equiparava o socialismo à negação: a negação do que quiseram ser, do direito a cometer erros e a aprender com eles. Eu equiparava o liberalismo às promessas deixadas por cumprir, à destruição da solidariedade, ao direito de herdar privilégios e de olhar para outro lado perante a injustiça. Voltei à casa de partida. Lutar contra o cinismo e a apatia face à política transforma-se naquilo a que se poderá chamar um dever moral; para mim, é mais uma dívida que tenho para com todos os que sacrificaram tudo o que tinham. O meu mundo está tão distante da liberdade quanto aquele de que os meus pais tentaram escapar. Escrevi a minha história para explicar, para reconciliar, e para continuar a luta.” Uma obra-prima.

 

 

Mário Beja Santos


Amnesia y Otras Bestias.

 



 

Amnesiay Otras Bestias é um livro de poemas da autora polaca Joanna Jarecka-Gomez publicado em castelhano neste ano de 2026 na Edizioni We.

 

O livro coloca-nos entre a memória e a amnésia, entre a violência e a ternura.

 

No poema "Ternura", Joanna Jarecka-Gomez descreve o encanto de uma vida partilhada entre duas pessoas, para depois nos confrontar com o terror dos conflitos actuais em "Kyiv em Chamas" e com o drama da Faixa de Gaza no poema dostoievskiano "Culpa y Castigo".

 

EM “Sócrates del siglo XXI” fala-nos do Sócrates do século XXI (temos um em Portugal!), que inventa a fórmula concisa "Miento, logo existo", mas também nos fala da contemplação ao descrever as maravilhas da Natureza em uma "Tarde de Verano".

 

No poema “Acelerado” denuncia a vida que vivemos em contínua aceleração. Quando queremos parar, falta-nos a vida. Como em “Drama digital” denuncia quem só vive para o mundo digital, muito competente, mas curvado. Falta a electricidade, perde-se a competência, mas mantém-se curvado.

 

Em suma, Joanna aborda as fragilidades e contradições do mundo moderno sem esquecer alguns fios de esperança. Um deles é a Europa.

 

                                                                            José Liberato




terça-feira, 1 de setembro de 2026

São Cristóvão pela Europa (365).

 

 

 

Rum, muito perto de Innsbruck, no sopé de altas montanhas, é um município que sofreu por diversas vezes um cataclismo hoje de grande actualidade: o deslizamento de terras e a avalanche de lama. O último foi em 1909 com muitas vítimas: existe mesmo uma igreja que constitui um memorial dessas tragédias. E o tema do brasão do município é a protecção contra avalanches…

A igreja paroquial é dedicada a São Jorge. Hoje essencialmente barroca, possui no exterior um fresco representando São Cristóvão.

 





 

Acima dos 1300 metros de altitude, o município de Navis, no meio de profundos vales alpinos, tem na sede do município a Bauernhaus Vögele, a casa rural Vögele, construída em 1720, com fachada muito decorada com pinturas, entre as quais uma com o nosso Santo.

Na aldeia de Unterweg, a capela do cemitério tem, na parede exterior exposta ao vale, um grande mural.

 



 


Finalmente em Telfes, a Mansão Moarhof, ao pé da Igreja Paroquial de São Pancrácio, é uma casa rural do Século XVI, decorada com frescos datados de 1597, entre os quais, São Cristóvão, neste caso acompanhado por São Floriano.

Revistas de arquitectura destacam esta casa como um invulgar exemplo de uma construção civil do final da Idade Média.

 



 

                                Fotografias de 1 de Agosto de 2026

                                                                    José Liberato





A procissão de botes baleeiros nas Lajes do Pico.

 









        Fotografias de Onésimo Teotónio de Almeida 







segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Numa procissão de botes baleeiros nas Lajes do Pico.

 









Desde os finais da década de 1950 comecei a ouvir o José Gabriel Ávila falar com entusiasmo e mostrar fotos da procissão dos baleeiros na festa da N. Senhora de Lourdes nas suas Lajes do Pico. Nunca esperei foi, quase aos 80 anos, participar numa.

O amigo José Guilherme Ribeiro, nado e criado no Cais do Pico, ganhou bem cedo amor a tudo quanto ao mar e à faina baleeira diz respeito. Hoje, está envolvido no museu da Indústria Baleeira na sua terra natal, mas também no Whaling Museum, em New Bedford, onde vive. Todavia nunca deixou de velejar e, por isso, continua a fazê-lo na Nova Inglaterra e no Pico, quando vem de férias. Há anos, levou-nos, à Leonor e a mim, a passear numa lancha baleeira entre o Cais do Pico e a Baía das Canas, no norte da sua ilha. Desta vez, convidou-nos a acompanhá-lo no barco baleeiro N. S. da Conceição que ia participar, com outros barcos baleeiros, na procissão de N. S. de Lourdes, nas Lajes.

E lá fomos. 

Aqui vão as primeiras fotos quando, com o mar ainda calminho como um lago, porque abrigado pelo molhe do cais, nos preparávamos para a largada antes da chegada da procissão que viria da igreja Matriz da vila.

Na foto #1 está o nosso mestre e capitão. As outras são desses momentos preparatórios, numa manhã de uma luminosidade esplendorosa. Infelizmente o Pico, que dali é imponente, não estava completamente descoberto.

Não se pode ter tudo.

 

                    Texto e fotografias de Onésimo Teotónio de Almeida 




domingo, 30 de agosto de 2026

Panados: fritos, sim senhor.


Os panados são uma das últimas alegrias verdadeiras da vida. Fritos, claro. Nunca no forno. E muito menos naquela aberração moderna chamada airfryer, onde tudo sai seco, triste e com sabor a penitência. Um panado deve ser frito em bom óleo a alta temperatura, com cheiro a fritura fresca.

A panadura é feita com pão ralado, como sempre foi. Nada de panko, nem de cereais crispy — isso é para quem confunde crocância com barulho. A espessura? Fina. Nunca grossa. De vitela, se possível. De porco, não ficam atrás. De frango, se tiver de ser. Perú, só em caso de emergência nacional.

Pode ser à italiana, uma milanesa com esparguete e molho de tomate, ou com salada de tomate cherry e basílico. À austríaca, o wiener schnitzel, com salada de batata — sem maionese, de preferência. Ou à portuguesa, com arroz de tomate ou seco de ervilhas. Sempre com muito limão. Um ovo estrelado nunca é demais. E umas boas batatas fritas também não. E se não houver tempo? Uma sanduíche de panado marcha sempre — empurrada por uma imperial.

No topo da hierarquia está o escalope Armando, criação da família Redruello de Madrid: gigante, glorioso, coroado com um ovo cozinhado a baixa temperatura. Por cá já o encontram no fismuler. E os nacionais “panadinhos” em muitas casas honestas, como o Colina ou o La Campania. Mas cuidado. Que não venha um jovem chef desconstruí-los: panadura de um lado, carne do outro, e o ovo — quem sabe — ainda na casca.


                                            José António Nogueira de Brito




sábado, 29 de agosto de 2026

Não saltar refeições: uma máxima sagrada.

 




Saltam-se refeições como se fossem páginas de publicidade. Mas não devia ser assim.

O dia começa com a mais maltratada pelo Portugueses – o pequeno-almoço. O nome já nos devia fazer pensar, mas insistimos em “comer qualquer coisa”, em pé, de fugida. Como se isso nos fizesse mais eficientes e produtivos. O mínimo aceitável é pão com queijo, croissant com fiambre ou torradas com manteiga, sumo de laranja espremida e café, com ou sem leite. Sentado. Depois vem o almoço, sopa, prato principal e salada, sobremesa, nem que seja fruta, e café. Sempre que possível, um lanche para sobreviver na longa espera pelo melhor do resto do dia, o jantar. À mesa, e com tudo a que se tem direito. E, às vezes, só às vezes, uma ceia às escondidas, como quem comete um pecado delicioso.

Dantes já havia os lanches ajantarados, o pior castigo para uma tarde de domingo, a sugerir a vil eliminação do jantar. Nunca, nem que seja de restos. Agora temos brunches — essa invenção moderna para saltar refeições com estilo. Um almoço disfarçado de pequeno-almoço, servido por quem acha que torradas com abacate são uma refeição completa.

Saltam-se refeições como se fossem irrelevantes. Mas cada uma é um momento. Um ritual. Um direito.

Saltá-las? Só com ordem médica. Ou por acidente. Nunca por moda.


                                                        José António Nogueira de Brito 



À maneira!

 




Enquanto durar o verão, o almoço é peixe, de preferência junto ao mar. Em Cascais, o Entráguas continua a cumprir, com nota artística, pelo menos na arte da frigideira. E é isso que interessa para um belo linguado à maneira. Como quem diz au meunière.

Um parêntesis para homenagear o moleiro que acrescentou à solha acabada de pescar aquilo que tinha no moinho: farinha, pois. Inventou assim um prato que viria a ter o seu nome. Ou o da sua mulher, la meunière, que era quem o cozinhava.

O prato ganhou fama, já na corte de Luís XIV, e tornou-se símbolo da alta cozinha. Primeiro em França, donde saltou o Canal da Mancha, dando-nos a Dover sole, e depois para o mundo. Por cá, enquanto esperamos pela reabertura do Tavares, o Pabe ou, mais recentemente, o Brilhante, ilustram bem a longevidade do prato na boa restauração de tradição francesa.

Alain Ducasse, quem mais cristalizou a receita, respeitando a sua simplicidade: peixe fresco, plano e delgado, sal e pimenta, farinha em quantidade quase invisível, fritura em manteiga, trabalhada depois em beurre noisette, cortada pelo sumo de limão e refrescada com salsa picada. Qualidade do peixe e domínio da frigideira. Não é preciso mais nada. Bom, umas batatinhas ao vapor também ajudam, sobretudo para absorver o molho.

Só que o que parece realmente simples não é. Farinha a mais, arriscando-se um panado. Manteiga que não chega ao ponto de avelã ou, pior, queimada. Limão a mais ou cedo de mais. Para não falar de batatas fritas carregadas de sal, arrozes caldosos ou apurados, açordas e outros acompanhamentos fortes, todos eles com a irresistível vontade de aparecer mais do que o convidado principal.

Depois temos os chefs que acham que têm de reinventar tudo, ou pelo menos dar-lhe um toque de sofisticação: alcaparras, vinho branco, natas, chalotas, ervas frescas ou espumas de qualquer coisa. Tudo pode ser bom, seguramente. Mas já não é au meunière.

Longe destes desvarios, admite-se uma variação. O peixe. Sempre plano: solha ou linguado, talvez até uma asa de raia. Mas inteiro ou em filetes?

A ortodoxia manda o peixe inteiro, com pele e espinha, e de tamanho médio, não vá a fritura secá-lo antes de a manteiga atingir o ponto. Um linguado sobre cozinhado, seco, é um peixe morto duas vezes.

Só que um comensal sozinho, que não este cronista, pode achar que um peixe inteiro de 500 gramas — o tamanho ideal — é muita coisa. Entram então os filetes. Está bem. Mas cuidado: para além da garantia de frescura, ganha capital importância o tempo de fritura. Sem pele (uma pena), há de ser reduzido ao mínimo essencial para dourar de cada lado. Inclina-se a frigideira, rega-se repetidamente o peixe com a manteiga espumante, ajudando a criar a superfície dourada. Depois retiram-se os filetes e constrói-se na frigideira a beurre noisette final, acrescentando o limão e a salsa no momento certo.

Simplicidade e boa técnica. Duas qualidades de um bom cozinheiro. Mas, para os chefs emergentes, parece que não chegam.

Acham sempre que têm de fazer o linguado “à minha maneira”. É de xutos. E pontapés.

 

                                                José António Nogueira de Brito


A alheira e outras histórias para turistas.




A alheira é o enchido mais português. Talvez só a farinheira lhe faça companhia. Tudo o resto tem parentes próximos em Espanha, França ou Itália. Presuntos, chouriços, morcelas de sangue: todos variam de país para país, muitas vezes até de região para região, mas, na essência, pertencem às mesmas famílias. Um enchido em que o pão é o ingrediente principal, esse, só mesmo por cá.

Os alemães têm o Grützwurst, feito com cereais ou pão ralado; os ingleses, o white pudding, com pão ou aveia; em Espanha há morcelas que também levam pão. Mas, em todos esses casos, o pão serve sobretudo para dar volume ou alterar a textura. A carne continua a definir o enchido.

A alheira faz exatamente o contrário. O pão não é mero enchimento. É o ingrediente espiritual. Perdão, estrutural. Depois de embebido no caldo das carnes, é amassado com alho — de onde lhe vem o nome — azeite e especiarias. Juntam-se as fibras da carne desfiada até se obter uma textura cremosa, quase untuosa. Enchida em tripa fina, vai ao fumeiro. Depois é só fritar. Sem azeite, na própria gordura, se for com pele. Com um fio de azeite, se for sem pele. Ou assar, já agora na air fryer, em casos urgentes, se estiver num quarto de hotel ou onde não houver cozinha.

É portugalidade pura. O pão, a gordura do porco, as carnes desfiadas — nunca picadas —, a predominância do alho, o fumeiro e a fritura final fazem da alheira um tesouro nacional.

Mas não é preciso inventar histórias.

O conto de que a alheira foi criada pelos judeus convertidos em cristãos-novos é tão verdadeiro como a do Galo de Barcelos ter cantado para provar a inocência do peregrino. Até pode ter cantado. O problema é que a mesma história também se conta em França e em Espanha. Nós temos o de Barcelos, eles lá terão os galos deles.

O que sabemos é que a alheira já existia antes do século XV e da Inquisição. Aliás, basta olhar para a receita oficial da Alheira de Mirandela IGP: leva gordura e carne de porco. Mas os turistas gostam da lenda e não faz mal nenhum.

Também a comem com ovo estrelado, batatas fritas e salada. E aí já faz.

Está tudo mal, ou quase tudo. O ovo estrelado é uma adição relativamente recente, mas é muito bem-vindo, como acontece em quase tudo a que se soma o ovo a cavalo. As batatas fritas são uma tentação, embora não sejam o acompanhamento ideal. Batatas cozidas, ligeiramente salteadas na gordura onde se fritou a alheira, isso sim. E grelos salteados, claro. Salada é que não. Não é para aqui chamada.

E onde se comem as melhores alheiras? Em Lisboa houve durante muitos anos o mítico Paris, na Baixa, onde grupos de amigos se juntavam para almoços de alheira. Hoje talvez o Colina seja a melhor opção. Mas é para Trás-os-Montes que é preciso rumar. Mirandela, Vinhais ou Macedo de Cavaleiros oferecem inúmeras boas escolhas. Eu sigo para Chaves, ao Carvalho ou ao Aprígio, dois templos flavienses onde a alheira nunca desilude.

Mas pergunte a qualquer transmontano e ouvirá sempre a mesma resposta: não é nas cartas dos restaurantes que se encontram as melhores. Feitas em pequena escala, normalmente no inverno, para consumo da casa ou venda direta, é nos fumeiros das aldeias que elas vivem.

Por isso, tanta gente garante que a melhor alheira que alguma vez comeu foi em casa de alguém.

Só ainda não descobri foi de quem.

 

José António Nogueira de Brito


São Cristóvão pela Europa (364)

 


 

No distrito de Schwaz no Estado austríaco do Tirol encontrei mais dias imagens do nosso santo.

Em Bruck am Ziller, zona de mineração de cobre e prata, ergue-se a Igreja de São Leonardo. Em parte gótica, em parte barroca, como muitas igrejas da Região.

No exterior um belo fresco representando São Cristóvão datado de 1718 com um brasão na parte inferior. O brasão, que não consegui identificar, contem duas sereias de duas caudas, símbolo pouco benéfico que já discuti aqui e que veio a ser adoptado pela cadeia Starbucks.

 




A aldeia de Schlitters Foi palco de um dos eventos da chamada Revolução do Tirol em 15 de Maio de 1809, quando 55 das suas 78 casas foram incendiadas por tropas francesas e bávaras.

Em 1805, pela Paz de Pressburg, Napoleão elevou a Baviera a reino e anexou-lhe o Tirol, na posse da Casa de Habsburgo desde 1363, para grande revolta dos tiroleses sob o comando de Andreas Hofer (1767-1810). De início, os revoltosos tiveram algum sucesso, mas com a vitória na batalha de Wagram (6 de Julho de1809), os franceses adquiriram controlo da situação e esmagaram a revolta, tendo Andreas Hofer sido executado em Mântua.

A Igreja Paroquial de Schlitters é dedicada a São Martinho Originalmente construída no Século XVI, dispõe, no exterior, de um belo fresco representando São Cristóvão.

 



E entramos no Distrito de Innsbruck-Land que rodeia a cidade sem a incluir.

Em Tulfes, a Igreja paroquial é dedicada a São Tomé. Essencialmente gótica tem uma torre barroca de 38 metros de altura.

No exterior, um fresco monumental do nosso Santo.

 



Hall in Tirol foi uma cidade muito importante no Séculos XV e XVI do Império dos Habsburgos. Para além da exploração das minas de sal aqui se cunhava moeda.

A Igreja de São Nicolau, em estilo gótico, ocupa um lugar central na cidade antiga.

No seu interior, possui um fresco do nosso Santo, infelizmente impossível de fotografar com qualidade.

 



Em Absam, uma fonte tem uma estátua em madeira de São Cristóvão da autoria do escultor austríaco Karl Obleitner (nascido em 1929).


 

 

                                                 Fotografias de 1 de Agosto de 2026

                                                                                 José Liberato