quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Portugal, ascensão e queda, por Jaime Nogueira Pinto.

 

 

Foi devoto do salazarismo, acreditou piamente que Portugal ia de Minho a Timor, militou contra o ardor revolucionário, no ELP e no MDLP, reciclou-se, é doutor, sage, pensador e historiador, assume-se como nacionalismo irrevogável e nega a pés juntos que exista uma Direita em Portugal. O seu livro Portugal, ascensão e queda, Publicações D. Quixote, 2021, é uma 5ª edição com posfácio. Os textos de contracapa e da badana da capa são elucidativos do caráter ubíquo de uma narrativa acerca de uma nação singular, que é Portugal (resta saber se na comunidade internacional existe uma nação, uma só que seja, que não possua singularidade…).

Na contracapa, o ideólogo alerta-nos para o facto de ter desaparecido o Império Português vai para umas décadas como, século e meio antes, o Brasil conquistara a sua independência. Um outro ideólogo que seguramente Jaime Nogueira Pinto aprecia, Raymond Aron, escrevera um elogio sobre a Europa decadente, exatamente para contestar que os valores que o sage português entende caminharem para o ocaso. Porque o sage português dá como facto consumado a decadência da Europa e do Ocidente, advertência que não é novidade, os nacionalistas doutras precedências fazem-na regularmente, e muito antes de o Jaime Nogueira Pinto ter nascido. A possibilidade de sairmos desta decadência é posicionarmo-nos no mundo lusófono, nos tais povos e comunidades que emergiram do fim do Império. E escreve: “O lugar dos portugueses, que não se resignam à mediocridade mansa ou ressentida de tributários do Centro Europeu, pode também ser ao lado desses povos, erguendo a partir de um passado unido, sofrido, dividido, uma convergência futura”. E vamos agora ao texto da badana da capa, a linguagem é mesmo deprimente: “Arrastados, depois de Abril, para a mediania periférica da Europa e da Península, sem grandes projetos, os Portugueses enterram-se na insignificância, passando à mediocridade. É aí que estamos hoje, no comboio descendente da Europa, já sem sonhos de grandeza ou consciência crítica da pequenez”. E deixa-nos uma mensagem de Sibila: “Mas há uma Europa, também em queda mas consciente dela, que reage. Bem ou mal, por defeito ou por excesso, mas reage. E se o tempo ainda é de antítese, não tardará o tempo das sínteses. E para esse, todos não seremos demais”. O sapateiro de Trancoso não deixaria de lhe dar razão.

Para o sage, o caminho para a ascensão foi definido pelas Descobertas e a concretização do Império, houve sempre esta alteridade de apoio aos espaços ultramarinos a uma certa forma de sonho europeu. O sage é cultíssimo, cita com oportunidade, toda esta História acontecida e sancionada pela justiça dos factos, nos deve repor, com um novo look e uma nova natureza, a comungar com o mundo lusófono, e para termos perceção de que essa caminhada é inevitável vamos ter o seu olhar logo na fundação de Portugal, porque nos foi dada a oportunidade de virarmos as costas a Castela, começámos em Tânger, povoámos arquipélagos, descemos a África Ocidental, almejámos o Índico, houve para ali líderes de génio, como Almeida e Albuquerque, tudo somado e multiplicado vamos assistir a um processo de construção ideológica do Estado moderno em Portugal, gerarmos os nossos próprios mitos, caso do Sebastianismo, uma das provas insofismáveis de que o Nacionalismo Português está para durar, e convém não esquecer o Padre António Vieira e o seu V Império. Durante o Estado Novo também houve escritores cabalísticos como Jaime Nogueira Pinto, recordo Manuel Anselmo, Costa Brochado, Manuel Múrias, João Ameal, mas há mais, qualquer um deles podia escrever este parágrafo como Nogueira Pinto:

“O gesto de D. Pedro, ao coroar D.ª Inês rainha depois de morta, fazendo justiça poética ao que não se cumprira em vida, era um prelúdio político-amoroso da espera sebástica que, depois das Descobertas e de Alcácer Quibir, fora sendo, por negação ou afirmação, um traço constante na identidade portuguesa. O cumprimento do que não fora, mas que podia ou devia ter sido, do que fora começado, mas injustamente interrompido ou contrariado neste mundo, era projetado para um mundo futuro, um mundo que só após a derrota ou a morte podia conhecer a ressurreição, espécie de segunda vinda gloriosa”.

Indo por aí fora, sempre com esta guerra entre atlânticos contra continentais, iremos chegar ao liberalismo, a independência do Brasil e a gesta africana, a ocupação, o tempo de Mouzinho e de Alves Roçadas, sabe-se que os republicanos jacobinos até nos meteram na guerra para defendermos o Império, e chegou o momento avassalador, uma questão nevrálgica para Nogueira Pinto: demonstrar por A mais B que Salazar jamais foi fascista, que até temos tradições de autoritarismo em Portugal, o Estado Novo foi uma resposta a uma crise profunda, Salazar foi um pragmático conservador, poupou-nos a guerras calamitosas e manteve-nos orgulhosamente sós, quando ele deixa o poder, diz Nogueira Pinto, “a guerra de África, analisada quer na sua influência na vida das pessoas, quer nas suas consequências na economia nacional, não levava a esperar o desfecho que, em menos de seis anos, se iria verificar: internamente, a guerra entrara numa espécie de rotina e as baixas em campanha eram modestas para os efetivos envolvidos”. O que se seguiu foi resultado da falta de mobilização política e social, Caetano queria e não queria, o regime esbarrondou-se, e o autor volta a questões sobre as quais já escreveu muita tinta sobre as esquerdas e as direitas, o abandono puro e simples do Ultramar como forma de contrariar a política de Salazar. E assim chegámos à queda, a este viver sem sonho e sem glória, que ele apostrofa, vivemos na ordem inversa das caraterísticas da identidade portuguesa, estamos na mediocridade, em suma.

Era expetável que no anunciado posfácio ficássemos a saber mais, acabamos por ficar à espera, não se sabe bem qual é a Europa que está a reagir e como é que nós vamos entrar neste tempo de sínteses. Há quem se leve muito a sério e se mostre manifestamente incapaz de entender que o charlatanismo pode ser uma boa vitualha para os saudosistas, mas não passa pelo polígrafo. Afinal não deixamos de sonhar, continuamos a ser inclusivos, melhorámos todos os indicadores da qualidade de vida e se não há sonho sem resiliência, continuamos a sonhar com a equidade, os direitos humanos e uma outra ascensão que é andarmos espalhados pelo mundo, em tolerância, indiferentes aos amargores nacionalistas.


Mário Beja Santos

 



 

 


quarta-feira, 17 de novembro de 2021

São Cristóvão pela Europa (166).


 

Armamar é um lindíssimo concelho que pertence administrativamente ao distrito de Viseu, integra o território da diocese de Lamego mas que sobretudo se integra na famosa região do Douro.

Encontrei, também por lá, o nosso Santo.

Em primeiro lugar, na freguesia de Contim, onde foi erguida uma estátua de São Cristóvão:

 


A Igreja Matriz de Arícera dispõe de uma bela talha dourada e é mesmo dedicada a São Cristóvão:

 




Finalmente, em Travanca existe uma capela de São Cristóvão dispondo de uma imagem, de uma pintura no tecto e de um vitral:

 




Fotografias de 6 de Novembro de 2021.

José Liberato

 





segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Um registo da guerra que dá pelo nome de trono de armas, tragédia e triunfo humanos.

 


 

Uma História do Mundo em 100 Objetos, por Neil MacGregor, 2014, Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2014, é uma estimulante aventura em que os objetos ajudam a compreender a história mundial. Neil MacGregor usou da faculdade de Diretor do Museu Britânico para fazer palestras na BBC e dar à estampa esta admirável viagem encetada na Pré-História e que vem ao quase presente, permitindo ao leitor olhares sobre a hominização, o que aconteceu depois da Idade do Gelo, como tudo mudou com as primeiras cidades e estados, a alvorada da Ciência e da Literatura, os pensadores orientais, os construtores de impérios, os primeiros protocolos e formas de distinção, a ascensão das religiões mundiais… Um itinerário que nos leva até à sociedade de consumo, a emergência de guerras étnicas depois da descolonização, a importância que tem hoje o cartão de crédito e os mais prementes desafios energéticos.

Este Trono de Armas é inquietante e avassalador, é uma cadeira feita com partes de armas produzidas em todo o mundo e exportadas para África. Temos procurado muitas definições abrangentes para todo o século XX, é verdade que prepondera a ideia de que foi o século da mulher, mas não escapa a algumas interpretações a matança em massa que se praticou em duas guerras mundiais, nas purgas estalinistas, no Holocausto, nos arrasamentos nucleares, nos campos de morte do Camboja, nos massacres do Ruanda, é uma lista praticamente infindável. Este trono é um monumento a todas as vítimas da guerra civil moçambicana. Desapareceram os impérios, pareciam prosperar ideologias globais e afinal tudo caiu em disputas sangrentas. Faltou previsão aos dirigentes dos movimentos nacionalistas e mesmo aos líderes coloniais para com tempo criarem competência para as novas experiências governativas, EUA e URSS, os Aliados eram manifestamente indiferentes a este desafio de organização do Estado que gerasse soberania e fizesse calar as etnicidades exacerbadas. A guerra civil em Moçambique foi uma das mais sangrentas e parece que ainda não estancou.

As armas que dão forma a esta cadeira traçam a história do século XX moçambicano. As mais antigas, no espaldar, são duas velhas G3 portuguesas. A FRELIMO era apoiada pela URSS, e isso explica que todos os outros elementos da cadeira sejam armas desmembradas produzidas pelos comunistas: os braços são da AK-47 soviética, o assento de espingardas polacas e checas, e uma das pernas da frente é um cano de uma AKM norte-coreana. Como enfatiza Neil MacGregor, “Trata-se da Guerra Fria em forma de peça de mobiliário, o Bloco de Leste em ação, lutando pelo comunismo em África e em todo o mundo”. Em 1975, o novo Moçambique apresentava-se como um Estado marxista-leninista, em resposta, os rodesianos e os sul-africanos criaram e apoiaram um grupo oposicionista, a Renamo, com o intuito de destabilizar completamente o país, as primeiras décadas da independência moçambicana foram tempos de derrocada económica e sangrenta guerra civil. Isto para sublinhar que as armas do trono participaram na guerra civil: um milhão de mortos, milhões de refugiados e 300 mil órfãos de guerra. A paz só veio em 1992, mas embora a guerra tivesse acabado, havia armas por todo o lado. O maior desafio que se pôs a Moçambique foi a destruição de milhões de armas e refazer a vida dos antigos soldados e das suas famílias.

O Trono de Armas tornou-se um elemento inspirador neste processo de recuperação. Fez parte de um projeto de paz chamado “transformar armas em ferramentas”, e no qual as armas usadas pelos dois lados eram entregues em troca de amnistia e ferramentas úteis, como enxadas, máquinas de costura, bicicletas e material para telhados. Entregar as armas era um ato de verdadeira bravura por parte destes antigos combatentes e teve projeção em todo o país, pois ajudou a romper o apego pelas armas e pela cultura de violência que atingira Moçambique durante tantos anos. Desde o início do projeto, mais de 600 mil armas foram entregues e transformadas em algumas esculturas. Graça Machel patrocinou o projeto que tinha o objetivo de “retirar os instrumentos de morte das mãos dos jovens e dar-lhes uma oportunidade de desenvolverem uma vida produtiva”.

Este trono, patente no Museu Britânico, foi criado por um artista moçambicano de nome Kester. Escolheu fazer uma cadeira e chamou-lhe trono, são raras nas sociedades tradicionais africanas, estão reservadas aos chefes tribais, príncipes e reis. O peso alegórico é inequívoco: é um trono em que ninguém se vai sentar, não está destinado a uma realeza ou a um senhor do mando, é a expressão de um espírito do novo Moçambique, é um marco da reconciliação. Como escreve MacGregor, há algo de particularmente perturbador numa cadeira feita com armas concebidas especificamente para matar, mutilar, anular. Kester deu uma explicação: “Não fui afetado diretamente pela guerra civil, mas tenho dois parentes que perderam as pernas. Um pisou uma mina e perdeu a perna, e o outro, um primo, perdeu uma perna a lutar pela FRELIMO”.

Kester fez deste trono uma mensagem de esperança. “Dois canos de espingarda formam as costas da cadeira. Se olharmos com atenção parecem ter caras, dois orifícios de parafusos para os olhos e uma ranhura para a boca. Até parecem estar a sorrir. Foi um acidente visual que Kester aproveitou e decidiu incorporar na peça, negando às armas o seu propósito primário e dando à obra de arte um forte sentido: “Não esculpi o sorriso, faz parte da coronha da espingarda. Aproveitei os orifícios de parafuso e a ranhura onde se fixava a bandoleira. Escolhi as armas mais expressivas. No cimo podemos ver uma cara sorridente. E há outra cara sorridente: a outra coronha. Parecem estar a sorrir uma para a outra felizes para paz e liberdade que chegou”.

No seu todo, este original livro que nos conduz da África de há dois milhões de anos para a aurora do século XXI, dotado de uma escrita admirável e estimulante, é verdadeiramente uma História do mundo. Uma leitura imperdível, onde um Trono de Armas põe um antigo combatente, como eu, a pensar como devemos contribuir para recordar os horrores da guerra ao serviço da reconciliação dos homens, naquelas parcelas africanas onde combatemos.

  

Mário Beja Santos

 





Imagens de cadeira feita com peças de armas, Maputo, Moçambique, peça no Museu Britânico





terça-feira, 9 de novembro de 2021

São Cristóvão pela Europa (165).

 

 

De tanto procurar longe, tanto na Itália como na Áustria, às vezes esquecemo-nos de prestar atenção a paragens mais próximas.

No Estoril, mais propriamente no Monte Estoril, em frente da Igreja de Santo António, ergue-se, junto à Estrada Marginal, o Casal de São Roque.

Em cima de uma das garagens, um magnífico painel de azulejos, representando o santo protector dos automobilistas e viajantes:

 




Fotografias de 19 de Outubro de 2021 

José Liberato



sábado, 30 de outubro de 2021

Hora de Inverno.


 

Perante a minha surpresa com a velocidade do pôr-do-sol em Salvador da Bahia, um verdadeiro ocaso em fast-forward, uma amiga nativa dizia-me que ali o sol não se punha. Suicidava-se.

Anda lá perto a sensação que dá o entardecer na passagem à hora de Inverno: o dia que se vai num repente, um tombo do astro a que falta, hélas, o mesmo astral.

Para consolar os espíritos, saia então Le Soir, de Mel Bonis.

Compositora formidável de fim de século, não só compôs a rodos como conseguiu que lhe publicassem as partituras -- feito propriamente extraordinário quando não eram assinadas por um homem. Quase tão extraordinário como o melodrama da história desta mulher, que bem podia ter inspirado Os Maias do Eça. Casada com um homem 50 anos mais velho, apaixona-se por alguém da sua idade, com quem terá um filho que manterá secreto durante 25 anos. É esse jovem que, convidado para uma soirée-concerto na casa da mãe, cuja identidade, porém, ele desconhecia, calha apaixonar-se pela filha “legítima” de Mel – sua meia-irmã. Outro amor recíproco, portentoso e agora catastrófico de impossível, que deixou toda a gente de rastos com o desgosto.

Mas ide em paz enquanto há castanhas, bom Inverno e boa sorte.



 

Manuela Ivone Cunha





terça-feira, 26 de outubro de 2021

ALCORA, a aliança “ímpia” entre o Portugal “multirracial” e o Apartheid.



 

 

Nos últimos anos a bibliografia sobre o Exercício ALCORA tem-se vindo a ampliar graças às investigações nos arquivos que conservam documentação sobre a guerra colonial. Avulta dentre a bibliografia o trabalho de Vicente de Paiva Brandão, ALCORA, a derradeira tentativa de manter o Ultramar Português, Casa das Letras, 2020. Tudo terá começado com a tese de doutoramento do autor a que se deu um alindamento posterior. Reconheça-se que há singularidades na pesquisa de Paiva Brandão, percorreu arquivos nacionais e estrangeiros, procedeu a História Oral e recolheu opiniões de intervenientes que acompanharam o desenvolvimento deste protocolo.

Dá-nos em primeiro lugar uma síntese da História da África do Sul, que nos poderá ajudar a compreender a essência do poder branco e a perceção que o país do Apartheid possuía sobre a importância crucial de ter o respaldo do Império Português. O autor dá-nos neste ponto uma evolução do pensamento sul-africano ao longo do período que se iniciou com a descolonização do continente africano e das iniciativas tomadas para a aproximação com o Estado Novo, impunha-se, na lógia de Pretória, uma defesa mútua dos valores da civilização ocidental.

A política de Salazar era, por um lado, recetiva à cooperação mas, por outro lado, reticente quanto às ambições hegemónicas da África do Sul e ao risco de aparecer na comunidade internacional como parceiro de uma política racista, como o autor observa: “No caso português, duas ordens de razões justificavam que se procurasse discrição: primeiro, tal colaboração existia e era uma mais-valia para as forças lusas que não convinha publicitar; por outro lado, a Lisboa não interessava a colagem a Pretória, pois esta revia-se no sistema do Apartheid, doutrina que colidia com o multirracialismo veiculado por Portugal. Também no que dizia respeito à Rodésia, o executivo luso pautava-se pela prudência, devido às desavenças entre Ian Smith e o governo de Londres, agravadas após a Declaração Unilateral de Independência daquele território em relação ao Reino Unido. Este hábil jogo diplomático prolongou-se durante o consulado de Salazar, mas com Marcello Caetano, com a agudização das incursões da Frelimo, sobretudo na província sul-africana de Tete, e a crescente atividade da SWAPO no Sudoeste Africano, em associação com movimentos de libertação angolanos, levou ao estabelecimento, em outubro de 1970, de um convénio ultrassecreto cujo título nos dossiês é de Exercício ALCORA. Vai-se formalizar o compromisso das autoridades dos três países em definirem estratégias e planos concertados para combater inimigos mortais”.

Em 1964, a Rodésia do Norte tornou-se na República da Zâmbia, avolumaram-se as críticas ao domínio branco, a Rodésia do Sul, em novembro de 1965, declara unilateralmente a independência face à Grã-Bretanha, surge um novo aliado para combater a subversão dos independentistas, haverá bloqueio por parte da Grã-Bretanha, graças ao porto da Beira, Salazar facilitará os abastecimentos essenciais do governo do domínio branco de Ian Smith.

Como se disse acima, Marcello Caetano foi convencido a uma nova abordagem militar, 1970 é o ano da Operação Mar Verde, dirigida contra a Guiné-Conacri e a Operação Nó Górdio no Norte de Moçambique, com a primeira agravou-se o isolamento diplomático de Portugal, com a segunda a FRELIMO que deixara as suas bases às moscas foi avançando para o Tete.

O autor dá-nos conta do que foi a política de aproximação da África do Sul a certos países africanos, tudo se agudizou em termos de política externa: falência no diálogo com os estados africanos, incluindo Madagáscar; esfriamento das relações com o Botswana; afastamento e hostilidade do Lesoto; manteve-se alguma cooperação com o Malawi, Maurícias e Suazilândia e algum relacionamento com a Zâmbia. É de utilidade o enunciado sobre a diplomacia bilateral, se bem que esta matéria apareça estranhamente repetida noutros pontos do livro. O entendimento entre a África do Sul e o Estado Novo fez parte da estratégia militar sul-africana logo na década de 1950 e o autor dá um bom quadro destas diligências; entretanto todo o cenário da subversão se alterara com os três teatros de guerra nas colónias portuguesas e assim chegamos a outubro de 1970 em que o Exercício ALCORA reuniu Portugal, a África do Sul e a Rodésia, todos os convites endereçados pela África do Sul às antigas potências coloniais não obtiveram resposta. Portugal tinha recursos limitados e aceitou apoio externo dentro da combinação trilateral, o apoio em meios aéreos foi muito bem-vindo.

E dá-se uma descrição do suporte, logo no Sudeste de Angola com os helicópteros Alouette III e a colocação de combustível no Sudeste angolano. O autor observa que esta cooperação iniciara-se já em 1968, agora intensificava-se, o protocolo tinha um objetivo muito elástico: “Investigar os processos e meios de conseguir um esforço coordenado tripartido entre Portugal, a República da África do Sul e a Rodésia, tendo em vista fazer face à ameaça mútua contra os seus territórios na África Austral”. Dava-se ênfase ao aspeto militar, estabeleceram-se modos organizacionais envolvendo também a contrainformação, telecomunicações, unidades de reserva e até reconhecimento e fotografia aérea. Este último aspeto era muito importante para Portugal que não dispunha de grandes meios ao nível fotográfico. Em 1971, reuniu-se a subcomissão ALCORA de defesa aérea, aí se constatou que os caças da Força Aérea Portuguesa F-84 e G-91 eram inferiores a uma hipotética ameaça de aparelhos Mig-19 e 21. E concluiu-se ser imperioso a criação de uma força de ataque com Mirage M-5 e F-1; a ajuda suplementar em helicópteros foi também considerada.

Os políticos sul-africanos estavam atentos à evolução da FRELIMO em direção ao distrito de Tete, podia pôr em perigo a construção da barragem de Cahora Bassa, que seria vantajosa tanto para a África do Sul como para a Rodésia. Os sul-africanos tinham ficado igualmente dececionados com as iniciativas espalhafatosas de Kaúlza de Arriaga. Quando, em setembro de 1971, Ken Flower, chefe dos Serviços Secretos rodesianos, se encontrou com Marcello Caetano, deu a saber ao político português que a guerra poderia estar comprometida em Moçambique, caso não se alterasse a respetiva orientação, havia infiltrações da FRELIMO provenientes da Zâmbia e dirigidas a Tete. Ian Smith irá nos próximos anos revelar a inquietação que lhe provoca a situação em Moçambique. Intensificou-se o apoio militar a Portugal.

O autor dá-nos seguidamente a apreciação do histórico da cooperação militar bilateral, desvela os múltiplos contatos entre os parceiros do protocolo trilateral, a África do Sul esteve sempre atenta à evolução dos acontecimentos em Angola e Moçambique, temia que ambas as colónias caíssem na esfera da influência colonista, e depois dos graves acontecimentos na Guiné de 1973 abriram os cordões à bolsa para que Portugal comprasse armamento e equipamento à altura dos novos desafios. Para o autor, a intervenção da África no Sul nas guerras que Portugal travou em África não terá sido decisiva. É da maior conveniência ler esta obra no contexto das diferentes investigações efetuadas desde a década de 2010.


                                                                                                       Mário Beja Santos




domingo, 24 de outubro de 2021

MI, Missão Impossível.

 


Disse quem compôs o tema “tum, tum, ta, ta tum-tum”, em cima das iniciais “MI” batidas em código Morse, que era música para pessoas com 5 pernas. Coisa impossível, parece, mas a que não falta ação e ainda mais resolução. Não admira que haja um sem fim de versões para despertador, com contagem decrescente de amplitude variável consoante a envergadura e dificuldade da missão, e versões épicas para missões que pedem mais fôlego e alguma pompa.  E o impossível acontece.

Não é só nos filmes, note-se. O amigo violinista para quem J. Brahms compôs este concerto para violino decretou, sem apelo nem agravo, que a partitura era intocável, inexequível, missão propriamente impossível. 

Ora. Desde então houve um ror de gente a tocá-la, inclusive o próprio dedicatário. Mas lá que é difícil… Ai. Ui. A ponto de se dizer que não é um concerto para violino, antes contra o dito. Contra o violino, contra a orquestra, contra o maestro ou maestra ou maestrina.

Só que toda a arte deste concerto quase sem conserto, entre a ameaça e a deflagração, é o arco físico, metafísico, patafísico que dá coerência à batalha que é para tirar o coelho daquela cartola. É ver aqui ao vivo, a partir do minuto 35, uma demonstração por A+B do músculo Allegro giocoso, ma non troppo vivace com que se casam aquelas três partes, para se perceber perfeitamente do que estou a falar.


Manuela Ivone Cunha.

 





terça-feira, 19 de outubro de 2021

A traição na espionagem num país à deriva: a obra póstuma de John le Carré.


 


 

Silverview é o grande adeus de John le Carré, Publicações D. Quixote, 2021. Conforme nos elucida o seu filho mais novo, o escritor Nick Cornwell, John le Carré, o gigante da literatura britânica injustamente conotado com sagas de espiões e traições, quando na verdade foi um genial cronista do nosso tempo onde primam guerra regionais, terrorismo islâmico, a engenharia fraudulenta das Bolsas, manteve no limbo um romance soberbo, enigmaticamente guardado nas gavetas da secretária, e atreve-se a dar a sua interpretação para o facto: “Silverview mostra um serviço fragmentado, repleto das suas próprias fações políticas, nem sempre muito eficaz e, em última instância, já não seguro de poder justificar-se a si mesmo. Em Silverview, os espiões da Grã-Bretanha perderam, como tantos nós, a certeza quanto ao significado do país e de quem somos para nós mesmos. Creio que, conscientemente ou não, relutava em transmitir estas verdades à – da – instituição que lhe ofereceu uma casa quando ele era um cão perdido sem coleira, em meados do século XX. Penso que escreveu um livro excelente, mas, quando olhou para ele, percebeu que se aproximava desconfortavelmente da verdade e que, quanto mais trabalhava nele, quanto mais o burilava, mais claro isso tornava”.

Não será por mera casualidade que é a sua obra a mais singela, menos movimentada, dando voz a seres humanos que se movem por profundos afetos. Temos um antigo corretor da Bolsa que se fartou das manigâncias da City e decidiu transferir-se para uma pequena vila costeira inglesa e criar de raiz uma livraria. Assoberbado por problemas para pôr de pé o negócio, tudo pintado de fresco, mas com falta de luz, água e com a cave cheia de humidade, recebe uma visita que inicia um quadro de peripécias em que ele vai ser envolvido sem entender patavina.

O que falta na mobilidade geográfica ganha na elasticidade de um processo intrigante em que os Serviços Secretos Britânicos, na pessoa de Proctor, recebem a denúncia de que no seio da organização move-se o mais improvável dos espiões, a máquina põe-se em movimento, vão ser inquiridas pessoas que nas últimas décadas acompanharam aquele agente que parecia ter vivido todos os riscos numa extrema lealdade. E entramos na vida de uma pequena vila onde um imigrante polaco dá sugestões avisadas para que aquela livraria seja um expoente cultural dinâmico, uma verdadeira república da literatura onde não faltem os clássicos obrigatórios e se debatam as grandes obras do nosso tempo. O livreiro, de nome Julian Lawndsley, sente-se arrastado nessa aventura por um homem desconhecido. A arquitetura literária é hipnotizante, correm em paralelo a saga da livraria, aquele pequeno mundo da pequena vila e as diligências de Proctor, a denúncia da traição veio de pessoa irrefutável.

Silverview é o nome de uma casa, ali vive um casal de espiões, ela está em fim de vida, é conhecedora da realidade. As diligências de Proctor levam-nos à Rússia pós-soviética, à Al-Qaeda, ao eterno conflito israelo-palestiniano, à guerra da Bósnia, local onde a existência do alegado traidor deu uma guinada afetiva.

Haverá mesmo um dia em que Julian Lawndsley aceita um pedido do seu amigo imigrante polaco para ir entregar uma missiva a Londres, aparentemente tudo banal, ele não se apercebe de diferentes códigos secretos que envolvem tal viagem. É nessa circunstância que Deborah Avon, a dona de Silverview, o convida para ir àquela casa onde também, dado o estado de saúde de Deborah, vive a filha de nome Lily e o seu rebento, de nome Sam. Os interrogatórios de Proctor são infatigáveis, o passado do alegado traidor é mirado e remirado, surge o nome de Ania, uma polaca por quem este se apaixona, e vêm à baila os massacres bósnios, como eles foram marcantes na vida do agente britânico. Aproxima-se a hora de ir interrogar o traidor, prepara-se a operação, que se revela defeituosa, um verdadeiro espião antecipa-se, sabe criar um cenário de dissimulação e escapa por uma nesga de oportunidade.

Insista-se nestes dois tópicos: a singeleza da escrita e a sua centralidade no que as pessoas dizem, e como as emoções se escancaram; e a simbólica de um desnorte de um país que se projeta nos serviços secretos reféns num bunker da democracia e da compartimentação das atividades. Morre Deborah Avon, nasce uma relação de confiança entre Julian e Lily, a operação que se pretende ultrassecreta para apanhar o triador com a boca na botija é toda ela delineada.

Jamais saberemos a escala da traição, nem a natureza da causa em que incorre o alegado traidor. Dá-se a fuga estrondosa, só remotamente se percebe que houve para ali um carro que apareceu sabe Deus de onde, Lily revela a Julian que ninguém irá encontrar aquele homem singular, por portas e travessas ele irá viver agora a sua causa, liberto de dissimulações e das falsas convicções que manteve ao longo de décadas, com tal discrição que só muito tarde a mulher descobriu a natureza da traição.

E voltemos a uma outra observação do filho mais novo de John le Carré, a quem fora dada a incumbência de ver se o romance precisava de remate ou de outra revisão, ele leu a escrita do pai e descobriu que era excelente. “Havia os habituais lapsos da fase do manuscrito – palavras repetidas, deslizes técnicos, um muito ocasional parágrafo menos claro. Mas, para um documento que ainda não se encontrava em provas, estava mais do que habitualmente burilado e, era uma espécie de reflexão perfeita do seu trabalho anterior – um cântico de experiência – e, ainda assim, uma narrativa inteiramente original, com a sua própria força emocional e as suas próprias questões. A versão que o leitor tem em mãos resultou de um processo editorial mais parecido com uma passagem clandestina de informações. Para todos os efeitos, é John le Carré genuíno”.

Uma última palavra sobre a atmosfera que se vive naquela ponto da East Anglia, completamente extensível ao país: dentro daquele dilúvio da chuva, naqueles estabelecimentos com empregos da treta, sente-se a nostalgia de um país de que se guarda a memória que foi uma grande potência e que hoje não sabe definida a identidade nem o seu papel no tablado internacional… E esse código de desvario é talentosamente mostrado nos Serviços Secretos, que de uma forma imprevista descobrem que aquele casal de espiões não era o que parecia ser.

De leitura obrigatória.


                                                                                                      Mário Beja Santos





segunda-feira, 18 de outubro de 2021

São Cristóvão pela Europa (164).

 


Regressemos à Pátria.

Ao Distrito do Porto.

Já aqui falei da extraordinária Igreja românica de Rio Mau no concelho de Vila do Conde.

Sendo de muito pequena dimensão, houve necessidade de construir uma nova igreja. Nela existe uma imagem proveniente da igreja antiga embora certamente mais moderna:

 


 

Ainda em Rio Mau, um azulejo numa casa particular:

 



Em Lousada, freguesia de Sousela, um lindíssimo e desconhecido conjunto de duas capelas, uma dedicada a São Cristóvão dos Milagres outra a Santa Águeda:





A construção das capelas remonta à segunda metade do Século XVII e relaciona-se com o rebentamento de uma fonte de água no local que de imediato suscitou devoção popular.

É muito curiosa a escolha de São Cristóvão como invocação desta capela em época em que a sua popularidade já estava em declínio. Talvez se relacione com a água.

Dentro da capela, um belo retábulo com a imagem do Santo:

 



Fotografias de 15 de Setembro de 2021

 

José Liberato





domingo, 17 de outubro de 2021

O tema de Lara, semente de melancolia.



 

O tema de Lara, semente de melancolia 

 

Sonolento, preguiçando,

No meu sofá recostado,

Estava eu procurando

Matar o tempo evocando

Lembranças do meu passado,

 

Quando musical momento

Fez a sua aparição.

De ouvido um pouco atento,

Quis descobrir o intento

Dessa mágica visão.

 

Por que a canção de Lara

Veio inopinadamente?

É que ela me é tão cara

Por sua beleza rara,

Que me invade inteiramente.

 

No serão anterior,

Após uma frugal ceia,

Em ambiente sonhador,

Vi o filme encantador

À luz ténue da candeia.

 

De tal modo se apossou

Do meu subconsciente,

Que a defesa lhe anulou

E no seio me plantou

A sua letal semente.

 

Como posso esconjurar

Este sestro malfadado?

Nisso tenho que apostar

E nos Fados confiar

Que serei exorcizado.

 

Manchester, 3 de Outubro de 2021

António Cirurgião