O documentário Naza está a provocar
alvoroço pelo mundo inteiro (o trailer do filme pode ser consultado em: https://www.youtube.com/watch?v=tAZNX0xtJo0Caros). Vamos
assistir a 24 entrevistas a intervenientes de primeira linha, a começar por
agentes dos serviços secretos israelitas, onde se explica o significado de Naza,
o mesmo que danos colaterais. É preciso matar um membro do Hamas, um agente de
quinta linha, ele é seguido pelos meios tecnológicos mais aperfeiçoados,
descobre-se que vive num oitavo andar com mulher e três filhos, a uma
determinada hora faz-se explodir o andar, ouvem-se os gritos das vítimas,
descobre-se mais tarde que o homem do Hamas afinal não estava em casa.
São 24 entrevistas que ocorrem em
terraços de um prédio em Telavive, enquanto ouvimos as intervenções destes
executores tecnológicos de palestinianos vemos imagens da vida da cidade,
trânsito opulento, vidas domésticas, enfim, o contraste mais brutal que se
possa imaginar com os horrores que estamos a ouvir de depoentes devidamente não identificados, temem-se
represálias por contar a verdade, ninguém deveria saber que o Estado de Israel
montou uma sofisticada máquina de matança, inclusive há a linha vermelha que
população desconhecedora em Gaza atravessa e são imediatamente liquidados a
tiro. Qualquer coisas como ratos que saem da toca e são liquidados.
Enquanto ouvia estes mais do que
impressionantes testemunhos de executantes do terror, uns arrependidos de
colaborarem em morticínios de inocentes, outros não tanto, ocorreu-me uma não
menos tenebrosa história contada por Curzio Malaparte no seu inesquecível livro
Kaputt, escrito entre 1941 e 1943, quando este insigne escritor italiano
percorreu frentes de batalha dos alemães ou com eles conviveu em territórios
ocupados. Malaparte dirá que escreveu um livro cruel, antecedeu o que a
escritora Hannah Arendt comentou quando acompanhou o julgamento de Adolf
Eichmann, em Jerusalém, quando falou na banalização do mal. Malaparte assistiu
à resistência finlandesa à invasão soviética, há execuções bárbaras dos alemães
na Ucrânia, há os massacres de judeus na Roménia, em dado momento, na Polónia
ocupada, janta em Varsóvia com o governador geral, Hans Frank, e membros da sua
comitiva, findo um opíparo jantar o governador propõe um passeio pelo gueto
local. Ali chegados, Frank, rindo, diz a Malaparte que embora haja a pena de
morte para quem viole a proibição de sair do gueto, os judeus entram e saem à
vontade.
“– Escalando o muro?
- Oh, não! – respondeu Frank. – Saem por
pequenas aberturas, semelhantes a buracos de ratos, que cavam durante a noite
na base do muro e escondem de dia com terra e folhas. Enfiam-se por esses
buracos e vão à cidade comprar víveres e roupas. O mercado negro do gueto
pratica-se em grande parte através desses buracos. De vez em quando, alguns
desses ratos caem na ratoeira: são crianças de oito a dez anos, não mais.
Arriscam a vida com um verdadeiro espírito desportivo.
- Arriscam a vida? – exclamei.
- No fundo – respondeu Frank – mais nada
arriscam.
- Ruhe, silêncio! – disse um soldado que,
de espingarda apontada, estava ajoelhado a alguns passos de nós, escondido por
um montão de neve.
O soldado visou um buraco cavado no muro à
flor do chão. Um outro soldado, ajoelhado atrás dele, espiava por cima do ombro
do seu camarada. De repente este disparou. A bala atingiu o muro precisamente
no bordo do buraco.
- Falhou! – exclamou alegremente o
soldado, carregando de novo a arma.
Frank aproximou-se dos dois soldados e
perguntou contra quem disparavam.
- Contra um rato! – responderam eles,
rindo alegremente.
- Contra um rato? Ach so! – disse
Frank, ajoelhando-se para olhar por cima do ombro do soldado.
Tínhamo-nos aproximado também, e as
mulheres riam e meneavam-se, erguendo as saias até meio da perna como fazem
habitualmente as mulheres quando se fala de ratos.
- Achtung! – disse o soldado,
fazendo pontaria. Pelo buraco cavado a base do muro vimos aparecer um tufo de
cabelos negros desgrenhados: depois duas mãos emergiram do buraco e apoiaram-se
na neve. Era uma criança.
O tiro partiu. Desta vez ainda, falhou o
objetivo por pouco. A cabeça da criança desapareceu.
- Dá cá isso – disse Frank com
impaciência. – Nem sequer sabes servi-te de uma espingarda! – Apoderou-se da
arma e fez pontaria.
A neve caía sobre o silêncio. (páginas 207
e 208 de Kaputt, por Curzio Malaparte, edição Cavalo de Ferro, 2020)
Há uma angustiante analogia entre dois
ideários que se supunha ser radicalmente opostos. O nazismo falava em raças
superiores e inferiores, admitia sem qualquer rebuço que precisava de espaço
vital, Hitler escreveu que era imperativo uma solução final para a questão
judaica, no gueto de Varsóvia havia mesmo o propósito de uma solução final.
Malaparte visita o gueto de Varsóvia e há descrições que se aproximam daquelas
que organizações humanitárias que reportam a Gaza, viver numa jaula como
miseráveis feras indefesas, rostos com fome e com febre, ele dirá que uma vez
por outra tinha que passar por cima de um cadáver. “Judeus mortos de Chagall. O
silêncio das ruas da cidade proibida, esse silêncio glacial, percorrido, como
por um arrepio por um ligeiro ranger de dentes, esmagava de tal maneira que a
certa altura comecei a falar sozinho, em voz alta.”
É doloroso contatar que quer o filme quer
o livro de referência de Malaparte são tentativas impossíveis de amena e
objetivamente, tão simplesmente relatar o que se vê e o que se ouve, não há
neutralidade possível, tudo descamba para aquela interrogação um tanto
mortífera: a História repete-se, os radicalmente opostos acabam por obra do
insondável acaso, por convergir, e justificar aos seus fanáticos que estão a
lutar pela sua sobrevivência, a banalização do mal é uma necessidade vital? O
espectador e o leitor que se acautelem.











































