sábado, 13 de junho de 2026

Missiva de Elisabete Sousa.



 


Nota dos editores: recebemos esta longa missiva da conhecida Elisabete Sousa, do X (handle: elisabetaps). Dado reconhecermos a sua influência como força-viva da sociedade pátria, e alguém que não tem papas na língua, é nosso dever indeclinável publicar este texto. Além do mais, torna-se prova irrebatível, que podemos afiançar ser verdade, que Elisabete Sousa nada tem que ver com o Doutor Nuno Palma, cuja carreira invejável fala por si, e, perdoem-nos redundância, tanta inveja causa neste país pequenino, pequeno demais para o Doutor Nuno Palma, como se atesta. Publicamos tão eminente vulto da internet portuguesa, que defende a honra de tão eminente vulto da academia global, pois, com especial prazer e regozijo.

 

Queridos amigos,

Ainda mais queridos compinchas internautas,

 

Espero-vos bem. Desculpem se não conseguir ser enxuta e ir direto ao osso, estão demasiadas pessoas lá fora a divertir-se, e isso exaure-me. Talvez que seja também desta enxaqueca que não me larga. Sou uma mulher sofrida (mas não como as alternas, eu sofro de neura mesmo, neurastenia século XIX).

E o dia não foi fácil. Esta gente está toda na boa-vai-ela, a beber cerveja e em festas para o povaréu provavelmente pagas pelo Estado e pela mamadeira de Bruxelas – ISTO É, TODOS NÓS, OS CONTRIBUINTES (Sobretudo os contribuintes altos, loiros, aprimorados nos genes, ai meu deus, que até se me dá uma coisa)! E eu aqui, que já peguei no batente por volta do meio-dia de ontem (dia 12 de Junho de 2026, sou uma pessoa de factos e de ciência, por quem sois?). É verdade que não trabalhava desde dia 5 de Junho, mais concretamente quando me envolvi numa discussão no tweet do drogado do João Galamba sobre o Doutor Nuno Palma (de Manchester em trânsito para a Florida – ou Flórida, agora já não me recordo bem). Aleivosias, como bem sabeis. Coisas de carochos.




Mas como vos dizia, e esta dor que não passa e me esmaga as têmporas, o dia hoje foi pesado.

Pelo meio-dia comecei por insultar o jornalixo do Luís Ribeiro. Um perfeito imbecil. Escreveu sobre o Trump e sabe-se que é um absoluto ignorante em tudo que tenha a ver com economia. Eu, Elisabete, é quase como se tivesse um doutoramento e fosse professora catedrática. Mas, não imaginais vós, isto foi só o início de um dia estrénuo e extenuante. Logo a seguir foram três tweets a ter de explicar às pessoas que não percebem de economia (2 vezes só para o Luís Ribeiro, outra para alguém que falou mal do  Doutor Nuno Palma – de Manchester em trânsito para a Florida – ou Flórida, agora já não me recordo bem). Depois disto, foi uma azáfama que nem vos digo. Só no tweet do Luís Ribeiro, que se atreve a sugerir que o Doutor Nuno Palma (de Manchester em trânsito para a Florida – ou Flórida, agora já não me recordo bem) é hipócrita foram sete (7) tweets a dizer que recebe dinheiro dos filhos do Berlusconi.[1] Foi mesmo exigente. Se a malta que recebe RSI tivesse de escrever 7 tweets destes por mês, não que não iam começar a capinar de bom grado. Sabem eles o que custa. E faziam-no por um sumol e uma sandes de chourição. A exaustão moral que isto me provocou, a par com as enxaquecas (calma, Nuno, não são vozes. Desculpem, Elisabete), nem fazem ideia. Precisei de descomprimir um bocado, pensar nas coisas boas da vida. Ao “O Divertido” disse-lhe que “Burra” é a que o “pariu”. Ao Pedro AF, desculpem, já não aguentava mais, e foi como o Mises sobre o Estado social: 





“Tens de ir mamar no farelo”. “O Divertido”, não satisfeito, insistiu e eu não me aguentei e sugeri-lhe APENAS (da mesma forma que o Doutor Nuno Palma não recebeu fundos europeus, só pediu um empréstimo): “Chupa devagar que custa menos”. Até ouvi um cravo a retinir (o instrumento musical, não a flor, entenda-se).




Além de extenuada, estava esfaimada, e já marchava uma bucha. Lá foi, que isto não se alimenta do ar. Comecei o turno da tarde. Ainda lá nos fundilhos de um tweet infamante do Luís Ribeiro sobre o Doutor Nuno Palma (de Manchester em trânsito etc... que não quero estar aqui a perder tempo com os acentos da Florida) comecei o turno da tarde, só para aquecer. De “muda a erva que não cagas amarelo” para um “chupa então” para outro (podem imaginar-me a entrelaçar e distender os dedos neste momento que foi o que fiz, antes de apertar com força, mas desenvoltura o seio direito... hehehe, agora agarrei-te mesmo, Nuno, não penses nisso que te faz mal ao coração). Bem, aquecimento ligeirinho, como vos dizia, mais uma coisa de sapos com a Isabel Moreira e depois alguma discussão sobre os temas que me são caros (além do Doutor Nuno Palma, interesso-me por economia). Mas pronto, voltei ao trabalho que se fazia tarde. Voltei a dizer ao Luís Ribeiro que recebia dinheiro do Berlusconi num post sobre o Doutor Nuno Palma (se não ficou claro à primeira, era para dizer que contradição por contradição, acabamos todos cegos... e não é da punheta!). Um bocado mais de relax, encharcar o Luís Ribeiro com links dos meus amigos da Página UM, dizer ao Luís Braga para meter pomada que “dói menos”. Mais um bocado de Luís Ribeiro e tal, dá-lhe aí, esfrega (calma, Nuninho, digo, Beta). E voltámos a vaca fria. Continuavam a falar mal do Doutor Nuno Palma. E eu lá tive de dizer à “Viúva Assanhada” (sic) que se “ele [Doutor Nuno Palma, em trânsito de Manchester etc...] tem a lâmpada fundida então os outros têm que voltar para o zoológico”. Mais um bocado de Luís Ribeiro e a “porrada que está a apanhar” (que eu sou adulta, e o que um adulto bem sabe é que se é para levar é para contar), mais umas merdas. 








Depois veio a Câncio que também se lembrou de chatear o Doutor Nuno Palma (em trânsito de Manchester, etc...). E uma mulher não é de ferro, eu já não aguentava mais e disse-lhe logo o que havia para dizer “a gaja que fazia broches ao Sócrates” – toma que já almoçaste. Depois já estava a chegar o fim da tarde e as pessoas estavam mesmo felizes lá fora e achei que também temos de saber conhecer e respeitar os nossos limites. Então limitei-me a fazer mais um post a dizer a mesma coisa sobre chupar pilas (não se pense que é uma obsessão, acho nojento, pelo menos de forma consciente). Ainda veio mais um moço falar com aquela porca e eu pu-lo logo no sítio “E tu o que já escreveste para se saber”? Acham que falam assim sobre um homem com obra publicada e que, além do mais, não sei se vos disse, está em trânsito. Pensam que é assim, como falar do cu para a piça. Mas o dia já estava no fim. Já só ouvia o Aperta, Aperta com Ela (e voltei a sentir um frémito). Até recuei para um post da Câncio do dia anterior a deixar claro que eu não penso exatamente como o Doutor Nuno Palma (o que prova que eu não sou o Doutor Nuno Palma). Disse-lhe e passo a citar “Eu também sou contra muitos desses fundos, mas outros ajudam. Lê primeiro o livro e fala depois. Mas tu não és capaz de ler um livro de economia de certeza, ainda te baralha o cérebro.” Ainda fiz um esforço derradeiro, já em risco de exaustão e hiperventilação, mas a alegria na rua já era muita, avassaladora, insuportável. Tudo gente do RSI.



Podem vós julgar que estou a defender o Doutor Nuno Palma à outrance. Nada mais falso e calunioso. Eu sei que almas corrompidas há muitos anos sugerem que ele é useiro e vezeiro no recurso a contas falsas. E eu tenho a prova de que isso é mentira. Pelo menos no meu caso. Por exemplo, ainda noutro dia lhe escrevi sobre o livro dele mesmo: “Eu vou comprar logo um dos primeiros, assim é menos um disponível para se saber como acabar com a mama dos políticos em Portugal. Este livro é um perigo para a sobrevivência dos tachos políticos em Portugal.” Eu sei que podereis julgar que isto revela o sentido de humor de um bidé que foi usado para plantar cannabis, mas fosse esse o caso e logo se revelaria que eu não posso ser o Doutor Nuno Palma, que foi ungido com um sentido de humor finíssimo, tão fino que às vezes nem se nota.




Mas nem se trata desse caso. É evidente que eu discordo frontalmente do Doutor Nuno Palma. Só passo a vida a comentar tweets que falam mal do Doutor Nuno Palma e azucrinar pessoas que recentemente o criticaram porque eu acredito numa ordem espontânea, mas que precisa, vá, dum empurrão, tal como acredita, por exemplo, o "Preso Numa Jaula" (Deus o tenha), que também tem andado numa azáfama, coitado – e preso numa jaula, imaginem! Só uma pessoa muito mal formada diria que é suspeito que o segundo nome que aparece nas contas que eu sigo seja precisamente o Doutor Nuno Palma (já me esquecia, em trânsito, etc...), logo a seguir ao C.D. Victoria C.F., que joga no Complejo Deportivo Luis Minguela, conta óbvia para se seguir se somos uma personagem fictícia e paródica que faz piadas sobre política (e manda mamar). [2] 





E só muita mesquinhez permitiria ver intenções tenebrosas e ocultas no facto de entre os meus 16 seguidores, que me gostam de ver mandar as pessoas levar no farelo, contar-se um catedrático de Manchester (em trânsito para a Florida ou Flórida). Tudo isso só pode ser maquinação das máfias que querem evitar que o Doutor Nuno Palma denuncie a corrupção desbragada, que coloca em xeque o futuro dos nossos netos (e dinossauros), que representam os fundos europeus e que o doutor Nuno Palma estudou arduamente (e se recorreu a fundos europeus fez muito bem. Uma coisa é nós dizermos o que os outros devem fazer, outra é o que fazemos. E quem disser que isto é hipócrita, sugiro que vá conversar com o Mike Billions, que ele percebe da poda). Para pôr um ponto final no assunto, devo dizer que até vou a Oeiras muitas vezes, passeio na Marginal, e nunca vi o Doutor Nuno Palma. Vejam lá que até já fui duas vezes a Manchester para ele me assinar os 4 tijolos dele que comprei, e o malandro, nada. Só não vou à Florida (ou Flórida) porque aquela gente do ICE não é de confiança e aquilo é um quebra-cabeças perigoso de legislação no que toca a imigração e cidadania (os camarados claro que vão ver aqui hipocrisia, mas podem continuar a cagar amarelo).




A infâmia é tão abracadabrante que até o meu primo Galileu, coitado, que está a recuperar de um jeito nas costas, se viu obrigado a intervir. Há quem diga, gente soez, que o Galileu é um parente do doutor Palma, ou até o próprio do Doutor Palma. Nada mais incorreto. O meu primo Galileu não escrevia desde 25 de Julho de 2025 porque, como vos dizia, aquilo das ciática não está mesmo famoso. Mas perante esta infâmia, foi que nem Lázaro. Saltou da cama já meio entrevado, e foi lá, um ano depois de ter twitado pela última vez, e escreveu, sem espinhas (a quem? Ao Luís Ribeiro, pois claro, é preciso ser tenaz): “Pelo que já percebi, o Nuno Palma pediu apenas um empréstimo bancário a um banco português, enquanto o Estado sacou milhares de euros ao PRR para renovar o Palácio da Ajuda. Mas há para aí burros que não entendem a diferença.”. E mais nada. Já sei que vão dizer que a mãe do Doutor Nuno Palma se pode ter atrapalhado com as contas do Twitter e tungas, lá espeta o coitado do Galileu, que, como o Doutor Palma, estava certo quando todo o mundo estava errado – e que, como sabemos, no caso deste Galileu segundo, andava afastado destas lides, culpa da ciática e da heteronímia. Em ambos os casos, a História os absolverá. Entretanto, está aqui muito indostânico a cantar aquelas músicas brasileiras que consistem em onomatopeias e formas mais ou menos óbvias de falar de fornicação, e estas dores não param. Espero que vos possa ter ajudado, pois se há coisa que nos une a todos (a mim, ao Doutor Nuno e ao Galileu) é o amor inquebrantável pela verdade e autenticidade.

 

                                Um bem-haja a todos 

 

                                                    Da vossa

                                                 Elisabete Sousa (a verdadeira)





[1] Nota do revisor (paciente, muito paciente): o editor fartou-se de contar mas garante que sete fotos do Berlusconi com duas “gajas boas” (é o termo técnico) foram publicadas pela Beta. É possível que tenham sido mais, mas ao contrário da Beta eu não gosto do que faço.

[2] Nota do tradutor (com propriedades de transubstanciação): Além do Victoria, a Dra. Elisabete também segue o San Lorenzo (Argentina), o La Cisterniga (Espanha), o Valladollid (Espanha), Federácion Riojana de Futebol, 11contra11, a Real Federéracion de Castilla y Leon (espanha), ElFutbolModesto, Real Ávila, Atlético Astorga, Diocesávila, Palencia Club de Futbol e Palencia Cristo Atletico, Club Deportivo Guijuelo, Laguna, Baneza, Burgos International Futbol Academy, CD San Jose, La Factoria BCF, Burgos Club Visual, Atlético Tordesillas, Ribert, Villaralbo, Peñaranda, Santa Marta, Arandina, Cantera Unionistas, Atlético Bembimbre, Ciudada Rodrigo CF, e DAZN Portugal. Perdoarão ao tradutor se não enumerar todos os canais (Netflix Portugal e brasil) e outros media que a Beta segue, que inclui o Económico, o Observador, a Sic, + Liberdade, entre vários outros (incluindo todos os económicos). No que diz respeito a pessoas reais (até ver, às vezes não parece crível), além do Doutor Nuno Palma (em trânsito, sabem, pela consistência) só Nuno Rogeiro. Perguntais-nos, genuinamente, se é possível alguém ter uma obsessão por clubes de futebol de terceira categoria em Espanha e na Argentina (e contas de X avulsas que falam sobre futebol em espanhol), pelos canais noticiosos portugueses, com forte ênfase na economia, e nos doutores Nuno Rogeiro e Nuno Palma. Fazendo uma regressão linear, e recorrendo à teoria dos fractais, podemos dizer que não é teoricamente impossível. Mas é triste. Bastante triste.










Post-Scriptum (in memoriam): Os editores acabam de tomar conhecimento do súbito falecimento de Elisabete Sousa. O nosso coração balança. Por um lado, é sempre chato perder um vulto da cultura portuguesa deste quilate. Por outro temos a honra de ter publicado o último texto da Beta. Ademais, isto quer dizer que, à partida, não teremos de voltar a editar um lençol inane destes.


 





domingo, 7 de junho de 2026

Do as I say, not as I do.

 



Regarding economic historian Nuno Palma’s interview with Sábado magazine about his latest book — Europe's Poison Pill. The Unintend Consequnces of Cohesion Funds and Why They Must End — several questions immediately arise.

The Portuguese publisher (Publicações Dom Quixote) is marketing the book in the following terms:

"For decades, European funds have been presented as engines of convergence, modernization, and prosperity. Nuno Palma, an economic historian with international experience and a keen observer of the Portuguese case, argues the opposite: they have created dependency, distorted priorities, rewarded poor governance, and hindered crucial reforms. Portugal is the laboratory example of this addiction: billions invested in infrastructure, roads, and programs coexist with stagnation and divergence from the rest of Europe. Drawing on data, scientific studies, and concrete examples from various European Union member states, this book dismantles one of the greatest dogmas of European integration and poses an uncomfortable question: what if money from Brussels is part of the problem rather than the solution?"

When confronted by Sábado magazine with the question — "You have received European funds yourself, yet you advocate ending the Cohesion Fund. Do you see any contradiction?" — Palma denied ever having directly applied for European funds:

"Even though I would have had every right to do so. I received a bank loan under IFRRU [Financial Instrument for Urban Rehabilitation and Revitalization]. The loan was granted by a Portuguese bank. Strictly speaking, I did not need to know the composition of that loan. Therefore, in rigorous terms, I never applied for European funds. In this case, I was in the same position as the overwhelming majority of Portuguese people who 'benefit' from these funds without applying for them, in a country where, as we discussed, 90% of public investment in recent years has been paid for with such funds. It would be impossible to leave one's house without 'benefiting' from them! Whether one is for or against their existence is a separate issue... and it would be an absurd incentive toward censorship and clientelism to say that only those who do not 'benefit' may criticize them. Every Portuguese citizen has received European funds. All it takes is leaving home. All of us who pay taxes benefit from the choices the State makes, the investments it carries out, and the policies supporting them. Whether we agree with them or not. I also benefit from public investments, like any citizen."

Now, let us examine this point by point.

IFRRU 2020 did not provide non-repayable grants but rather loans on more favorable terms than those available on the market, with maturities of up to 20 years and reduced interest rates. It was intended for the comprehensive rehabilitation of buildings (residential or otherwise) and included energy-efficiency components — all through a single financing application.

It operated as a revolving financial instrument combining several sources:

1.    European structural funds;

2.    The European Investment Bank (EIB) and the Council of Europe Development Bank (CEB), which leveraged the European funds with additional capital.

These resources were then channeled through commercial banks selected through a competitive process (Santander Totta, BPI, and Millennium BCP), which made the financial products available to final beneficiaries (as happened in Nuno Palma’s case).

In total, the instrument achieved a financing capacity of €1.4 billion, generating an estimated investment of around €2 billion.

Conclusion: Nuno Palma, an economic historian, says that he did not directly apply for European funds, although he knew that IFRRU was financed by the European Union through subsidized interest rates. He also knew that this specific program depended on European funding.

Palma paid only a small fraction of the interest owed to the bank (perhaps a quarter or a fifth of what he would have paid without European support). Therefore, strictly speaking, he did not receive money directly, but he did realize a financial saving: instead of receiving a monetary transfer, he paid less than he otherwise would have paid had he not been covered by IFRRU. The portion of the interest that Palma did not pay was effectively guaranteed by the EU.

In practical terms, this amounts to the same thing: Palma benefited from European funds, just as 90% of Portuguese people have. The difference is that 89.9999% of Portuguese citizens have not written a book opposing European funds and criticizing them harshly. And the vast majority did not actually apply for European funding. Nuno Palma applied to an Urban Revitalization Fund that he knew was financed largely through European funds.

Thus, when he states in the interview, "Therefore, strictly speaking, I never applied for European funds," he is merely playing with words.

At this point, some questions become unavoidable.

Does Nuno Palma, in The Addiction to European Funds: The Consequences of Cohesion Policy and Why It Should End, analyze the "consequences" of IFRRU?

Or the potential negative impact of IFRRU and other equivalent subsidies ("creating dependency, distorting priorities, rewarding poor governance, and blocking decisive reforms")?

Does he develop the same type of argument presented to Sábado magazine in order to justify the "banal inevitability" of his own inconsistency?

In fact, only yesterday, on the social media platform X, Palma invoked his book in response to a news report noting that the Recovery and Resilience Plan (PRR) had been used to finance housing for several families in Penafiel. Apparently, others — even when facing genuine need — do not benefit from the same moral leniency that Nuno Palma generously extends to himself.

It should also be noted that a few years ago Palma criticized, on the same platform, the use of PRR funds to build housing in Oeiras, arguing that the municipality governed by Isaltino Morais is one of the wealthiest areas in the country. This is the classic "potato logic": if Oeiras is one of the richest municipalities in Portugal, then everyone who lives there must be rich, therefore PRR funds should not be used there.

(BY THE WAY: do you know where Nuno Palma’s European-fund-supported house happens to be located? Anyone who answered OEIRAS got it right.)

Let us be clear. What is at stake here is not legality but ethics, morality, and intellectual consistency. An academic and economic historian whose central thesis is that European funds are the main cause of Portugal’s backwardness and poverty objectively benefited from those very funds in order to renovate a house he owns in Portugal and in which, apparently, he does not reside.

Unless the property is being used for economic purposes, it is difficult to understand how this use of European funds contributes to the country's development — especially when Palma criticizes investments such as social housing or roads.

That Palma does not reside in Portugal can be inferred, at least, from information available on the Ciência Vitae platform (Portugal’s national scientific curriculum management system).

Since August 1, 2017, Nuno Palma has held a permanent academic position at the University of Manchester (United Kingdom):

1.    Assistant Professor (University Teacher), from August 1, 2017, to July 2020;

2.    Associate Professor (University Teacher), from August 2020 to May 31, 2023;

3.    Full Professor (University Teacher), from June 1, 2023, to the present.

Nuno Palma therefore resides in England/the United Kingdom.

This brings us to another issue: Nuno Palma did not benefit from European funds only once.

Again, let us proceed step by step.

Several years ago, Palma applied to a public funding program known as the Scientific Employment Stimulus Program (CEEC), created by Decree-Law No. 57/2016 to combat precarity and promote the hiring of PhD researchers by Portuguese scientific and technological institutions.

The objective was to address the severe precariousness affecting Portugal’s scientific system — widely regarded as crucial to national development — and the thousands of researchers who spent decades in unstable positions without access to benefits such as holiday and Christmas bonuses, unemployment insurance, and other protections associated with employment contracts.

Like other programs managed by Portugal’s Foundation for Science and Technology (FCT), CEEC is co-financed by the European Union through European funds.

Although administered nationally by the FCT, European funding covers a significant portion of the costs associated with researchers’ employment contracts.

In practice, the FCT signs program contracts with host institutions, and costs are paid through a combination of state budget funds and European financial resources.

Currently, European co-financing rates for contracts in Greater Lisbon range between 40% and 50% of the total amount allocated to each researcher (€2,134.32 per month), and even more in other regions of the country.

Palma’s contract began on May 2, 2019, and ended on May 1, 2022 (at least; it should be noted that in 2025 he still maintained dual affiliation with ICS and Manchester and continued acknowledging support from the FCT).

According to the 2022 Activity Report of the Institute of Social Sciences (ICS), page 47:

"Four researchers affiliated with this research group through FCT Individual Stimulus Competitions continued their individual projects: Duncan Simpson, Renato Pistola, Valerio Torreggiani, and Nuno Palma (the latter on a part-time basis)."

Part-time?

Can a tenured university professor benefit from CEEC? Yes, but only under two circumstances:

1.    Leave without pay (suspension): If the researcher has accepted a permanent academic position at a British university, they must normally suspend the CEEC contract because such contracts generally require exclusivity in Portugal and dedication to the project.

2.    Secondment or mobility arrangement: Temporary modifications may be negotiated with the host institution and the FCT, provided that the stay abroad strengthens the approved research plan.

For the sake of transparency — given Palma’s readiness to criticize others for alleged misuse of public funds — it would be important for him to clarify this matter: did he take unpaid leave from Manchester, or did he obtain authorization for CEEC participation on a part-time basis?

As far as I know, very few people in Portugal can simultaneously benefit from CEEC and hold a permanent academic position elsewhere.

I am also unaware of cases in which CEEC beneficiaries hold permanent positions abroad.

Consider, hypothetically, that if this were generally possible, internationally established academics could easily come to Portugal and obtain a salary supplement. Anyone can apply to CEEC as long as they conduct their activity in Portugal. The purpose of stimulating scientific employment in Portugal would then be undermined.

In summary, I have serious doubts that CEEC was intended to finance researchers or professors who already hold permanent positions. If it is possible, it appears contrary to the spirit of the law, which is clearly to stimulate scientific employment, not to provide additional income to those already employed.

Everything therefore suggests that Nuno Palma may have accumulated two sources of income over several years: his salary from Manchester (presumably the main source) and CEEC remuneration (supported, it bears repeating, by European funds, which Palma himself describes as a cause of Portugal’s "backwardness").

To benefit from this kind of "salary supplement," the economic historian and fierce critic of European funds not only fed once again from the generous European funding system but also took a position that might otherwise have gone to a precarious researcher, thereby pushing that researcher into unemployment or keeping them there.

In other words, someone living in Portugal and conducting research in the country may have been denied employment and income so that Dr. Nuno Palma could receive an additional source of remuneration.

Other questions could also be raised:

How did Portugal’s investment in Nuno Palma, rather than another researcher, benefit the national scientific system?

Did his scientific output benefit Portugal, or the University of Manchester and the United Kingdom?

Did he actually conduct his research in Portugal, as required by CEEC regulations?

If events unfolded as described, is that fair and moral?

At the limit, is it even legal?

These are merely doubts — only doubts. Now, let him answer them.


    In memory of Diogo Ramada Curto (1959–2026), whom Nuno Palma called "dishonest."


                                                                            João Pedro George








Carta de Bruxelas.

 




                                                                                                                         Ranço


É uma experiência generalizada da infância, uma experiência de alegria: passa-se com um lápis num papel sobre uma moeda e aparece a face da moeda. O processo e a imagem dele resultante fascinam as crianças, mas elas sabem muito bem, ainda assim, que o valor real está por detrás do papel. A recente nota do gabinete de imprensa do Partido Comunista Português a propósito da morte de Carlos Brito inverte o processo: é o papel que revela o desvalor que se quer ocultar. O comunicado é emitido «a pedido de vários órgãos de comunicação social». Ao abdicar da iniciativa e externalizar o factor desencadeante, o PCP elimina o militante e, mais importante, a pessoa. Política e publicamente, a morte sela um destino individual de relevância colectiva. Ao contrário do que pensam os partidários de uma autenticidade mal compreendida, o elogio fúnebre de um adversário político não é um exercício de hipocrisia. É o reconhecimento do valor da participação na vida pública, um valor que precede as diferenças ideológicas – sem nunca as anular. Nesse sentido, está nele contido a admissão da radical da falibilidade humana, sem que isso implique a renúncia à acção. Esse conflito de dois pontos de vista é constitutivo da acção política e um dos seus elementos trágicos. O PCP suprime, pois, a pessoa na medida em que, na sua morte e não no combate político, onde as diferenças podem e devem afirmar-se, desvaloriza a liberdade política absoluta, que contém por definição a liberdade de mudar de opinião – a condição de possibilidade de um consenso a alcançar reside no horizonte do dissenso. Ao pronunciar-se por palavras que lhe foram extorquidas, o PCP diz que Carlos Brito não é dos seus. Foi, quando as opiniões coincidiam; deixou de ser, quando aquelas divergiram. Se pudesse, o partido com paredes de vidro teria guardado um silêncio sepulcral na sua morte, no momento em que já não está em causa a diferença de opiniões mas sim a igualdade de uma humanidade comum. Precisamente aquilo que o PCP não reconhece: nele a ideologia fagocita a humanidade. Não é nada de novo e já foi pior. La Rochefoucauld diz algures que os velhos gostam de dar bons conselhos para se consolarem de já não estarem em idade de dar maus exemplos. O PCP leva a máxima ao paroxismo. Apesar do alcantilado rigor nos princípios, a história do comunismo mostra as suas práticas abomináveis. Bem pode pregar hoje em sentido oposto, mas os testemunhos são inequívocos. Margarete Buber-Neumann, militante comunista de destaque antes da segunda guerra mundial, é taxativa. Descreve as vias sinuosas do dirigente do Partido Comunista Alemão, Walter Ulbricht, da seguinte forma: «Para eliminar das suas próprias fileiras os opositores ou muito simplesmente camaradas que o estorvavam, servia-se de um meio simples mas eficaz. Se esses opositores se encontravam na Alemanha, mandava redigir as chamadas listas negras em que os denunciava publicamente como trotskistas. Essas listas eram feitas para caírem nas mãos da Gestapo que prontamente os prendia» (Der kommunistische UntergrundEin Beitrag zur Geschichte der kommunistischen Geheimarbeit, p.53,  1968). Ursula Hirschmann descreve exactamente o mesmo processo nos seus apontamentos autobiográficos, Noi, senza Patria (1975), publicados postumamente. Todos os meios são válidos e os nacional-socialistas prestam bons serviços – talvez seja isto a «superioridade moral dos comunistas» a que Álvaro Cunhal se referia. Rançoso, o PCP vê-se agora obrigado a redigir comunicados a pedido de vários órgãos de comunicação social para se consolar de já não estar em idade de entregar os dissidentes aos nazis.

 

                                                            João Tiago Proença


sexta-feira, 5 de junho de 2026

9 de maio de 1940, um adolescente suspira pela guerra, ela chegou.

 


 


          O que há verdadeiramente singular nesta novela? Temos um adolescente à janela, o pensamento desliza à solta, atropelam-se desejos, a par de uma grande sensação de tédio, depois vemo-lo inserido no ambiente familiar, há uma atmosfera de tensão que percorre o país, a Alemanha fizera capitular a Polónia numa guerra-relâmpago, partilhara os despojos do país com a URSS, iria inevitavelmente virar-se para oeste, a França e a Grã-Bretanha tinham declarado guerra. A cabeça do adolescente gira em todas as direções, reflete sobre a guerra e a distribuição que a acompanha: “Tenho mil pensamentos. Talvez eu não seja normal. Imagine-se que havia um bombardeamento, que neste momento apareciam aviões alemães a sobrevoar a cidade. Uma bomba, nesta enfadonha rua de merda, seria mesmo fantástica. Prédios a arder, uma boa dúzia deles todos em renque. Imagine-se que esta rua estava em chamas, incluindo a nossa casa, que perdíamos tudo.” E continua radical, a falar em abrigos subterrâneos, em valas comuns, em profundação de cadáveres, que as bombas caiam por toda a parte. Assim se começa a desenhar uma potente água-forte, uma notável peça literária sobre a arrogância da juventude, o desejo de aventura, a perda da inocência, o chocante a assustador encontro com os bombardeamentos, a tal guerra chegara àquele país de bonomia e do gosto do bom viver, naquele exato momento ia mudar, por vezes de modo radical, a sociedade, a civilização e a cultura, mas nada se sabia ainda naquele início da invasão alemã. Cai, Bomba! por Gerrit Kouwenaar, Publicações Dom Quixote 2026.

Regressamos à novela quando Karel chega das compras que fizera a pedido da mãe, instala-se no quarto. O adolescente está dominado por pensamentos fulminantes, um tanto caóticos, sabe, entretanto, que os tios vêm jantar, chamam-se Robert e Lies, os pais chamam-se Cora e Philip, parece estarmos numa atmosfera de bonomia, o tio Robert só fala em felicidade, no fim do jantar o tio pede-lhe para ir no dia seguinte transmitir uma mensagem a alguém, o tio deu-lhe um papelinho enrolado e uma nota de dez florins.

Karel sente que há problemas graves entre o pai e a mãe, um conflito que ele não entende, mas que o constrange. É neste ambiente que o irmão lhe vem anunciar que começou a guerra, o ataque alemão. Cá fora ainda tudo parece normal. Aquele rapaz de 17 anos questiona-se como vai ser a guerra, há pessoas que estão descansadas, acreditam que daqui a pouco vão aparecer os ingleses. O pai de Karel dá a saber que os alemães estão a cem quilómetros da cidade, há que contê-los; nas ruas, os automóveis continuam a circular como sempre, as lojas estão abertas, correm notícias que tanques e tropas motorizadas francesas e inglesas atravessaram a fronteira belga. Karel sai de casa e vai olhar a água da ponte, sempre com o seu espírito renitente e contraditório pensa que devia chover, que o tempo devia estar frio e sombrio. Nisto, dois aviões voavam por cima da cidade, Karel viu dois pontinhos a cair. Seguir-se-ão estrondos, casas esventradas, a guerra dava sinal de vida.

Então Karel foi cumprir o pedido do tio Robert, levou uma mensagem à amante dele, é recebido pela filha, acolhimento amistoso, elas perguntam-lhe se os ingleses já chegaram, ele não sabe, mas decerto hão de vir. Karel é confrontado com uma atmosfera de uma inquestionável normalidade, elas revelam serem judias, põem a hipótese de terem de fugir, ainda confiam com a chegada das tropas britânicas para suster as alemãs. A filha sentou-se ao piano e tocou uma melodia lenta e sincopada. A mãe não tem resposta para a carta do tio Robert.

No dia seguinte Karel sai de bicicleta, pedala a uma velocidade moderada pelas ruas sem automóveis, onde as pessoas passeavam em família, entediadas, aquele ataque alemão trouxera um contratempo nos lazeres habituais. Volta a bater à porta da casa onde estivera na véspera, a filha, de nome Ria, convida Karel a passear, pede-lhe um beijo, a serenidade continua a reinar naquela casa, mas a mãe comunica que vão apanhar o barco das quatro horas. Ria mostra-se apaixonada por ele. Karel parte confuso, é o despertar sensual.

O ambiente da cidade modificou-se, os cinemas estavam todos fechados. Nisto aparece o pai, vem assustado por nada saber do filho, regressam a casa. Chegou a hora da roda do destino inserir a tragédia, houve bombardeamento, morreu o tio Robert, a tia está hospitalizada, Karel vai visitá-la. Assalta-o uma grande vontade de partir. Lança-se à estrada, há áreas inundadas, faz parte do plano holandês de travar os alemães. Alguém informa Karel que a Holanda se rendeu e dá-lhe boleia na bicicleta. E dá-se um encontro com os alemães. Ria e a mãe tinham fugido, ele está transido por ter desejado que caíssem bombas, tem 17 anos, não sabe para onde ir, a vida parece ter perdido sentido, é este estado de espírito, com as lágrimas a rebentarem-lhe dos olhos que um dos soldados alemães lhe pergunta: “Meu caro, então o que é que aconteceu?”

 No posfácio, o escritor Wiel Kusters comenta a novela de Kouwenaar, encontra características comuns entre Kouwenaar e Karel, apesar da guerra não ter sido completamente inesperada significou uma rutura total, toda aquela atmosfera que vemos antes da invasão alemã ficará completamente alterada, aquele jovem de 17 anos é submetido a um quadro afetivo com Ria que o desperta para uma vida sentimental que ele desconhecia. Houve base histórica para os acontecimentos que ele descreve na novela, em 11 de maio as bombas alemãs arrasaram catorze prédios num ponto de Amesterdão, um bombardeiro alemão que fora atingido por artilharia antiaérea continua a voar e largou mais duas bombas. Cai, Bomba! Contém reminescências nítidas deste episódio fatal. O que há de devastador nesta descrição de um destino impiedoso é vermos um adolescente a sentir que tomou o comboio da História e que nos conquistou o coração.

Saudemos uma obra-prima, veio tarde, mas ainda bem que veio.



Mário Beja Santos


 



quinta-feira, 4 de junho de 2026

Bem prega Frei Tomás.

 

    




            A propósito da entrevista do historiador económico Nuno Palma à revista Sábado, em torno do seu último livro – O Vício dos Fundos Europeus. As consequências da política de coesão e por que razão deve terminar –, algumas questões saltam à vista.

 

         A editora (Publicações Dom Quixote) está a vender a obra nos seguintes termos:

 

          "Durante décadas, os fundos europeus foram apresentados como motor de convergência, modernização e prosperidade. Nuno Palma, historiador económico com experiência internacional e atento observador do caso português, defende o contrário: criaram dependência, distorceram prioridades, premiaram a má governação e travaram reformas decisivas. Portugal é o exemplo-laboratório deste vício: milhares de milhões em investimento, estradas e programas, que coexistem com estagnação e divergência face à Europa. Com dados, estudos científicos e exemplos concretos colhidos em vários Estados-membros da União Europeia, este livro desmonta um dos maiores dogmas da integração europeia e lança uma pergunta incómoda: e se o dinheiro de Bruxelas for parte do problema, e não da solução?"

 

          Confrontado pela revista Sábado – "Já recebeu fundos europeus, mas defende o fim do Fundo de Coesão. Vê alguma contradição?" –, o entrevistado Palma nega ter-se candidatado directamente a quaisquer fundos europeus:

 

          "Ainda que tivesse esse direito. Recebi um empréstimo bancário no âmbito do IFRRU [Instrumento Financeiro para a Reabilitação e Revitalização Urbanas]. Quem me concedeu o empréstimo foi um banco português. À partida, nem precisava de saber qual a composição desse empréstimo. Logo, em rigor, nunca me candidatei a fundos europeus. Neste caso, estive na mesma posição da esmagadora maioria dos portugueses que 'beneficiam' dos fundos sem se candidatarem a eles, num país em que, como falámos, 90% do investimento público em anos recentes foi pago com esses fundos. Não seria possível sair de casa sem 'beneficiar'! É uma questão à parte de ser contra ou a favor da existência deles... e seria um incentivo absurdo à censura e ao clientelismo dizer que só pode criticar quem não 'beneficia'. Qualquer cidadão português recebeu fundos europeus. Basta sair de casa. Todos os que pagamos impostos, beneficiamos das escolhas que o Estado faz, dos investimentos que faz, das políticas que apoiam tudo isso. Concorde ou não com elas. Também beneficio dos investimentos públicos, como qualquer cidadão".

 

          Ora então vamos por partes.

 

          O IFRRU 2020 não concedia subsídios a fundo perdido, mas sim empréstimos em condições mais favoráveis do que as do mercado, com maturidades até 20 anos e taxas de juro reduzidas, e destinava-se à reabilitação integral de edifícios (habitação ou outras actividades) e incluía componentes de eficiência energética – tudo num único pedido de financiamento. Funcionava como um instrumento financeiro rotativo, combinando várias fontes: 1) Fundos europeus estruturais; 2) Banco Europeu de Investimento (BEI) e Banco de Desenvolvimento do Conselho da Europa (CEB), que alavancaram os fundos europeus com capital adicional.

 

          Estes recursos eram depois canalizados através de bancos comerciais seleccionados por concurso (Santander, Totta, BPI e Millennium BCP), que disponibilizavam os produtos financeiros aos beneficiários finais (como aconteceu com Nuno Palma). No total, o instrumento atingiu uma capacidade de financiamento de 1.400 milhões de euros, gerando um investimento estimado de cerca de 2.000 milhões de euros.

 

          Conclusão: Nuno Palma, historiador económico, diz que não concorreu directamente a nenhum fundo europeu, embora soubesse que o IFRRU era financiado pela União Europeia, por via dos juros bonificados. E sabia que este programa, em particular, dependia de fundos europeus.

 

                                                       IFRRU2020



          Palma pagou uma reduzida parte dos juros ao banco (talvez um quarto ou um quinto do que pagaria se não houvesse este apoio europeu). E portanto, em bom rigor, não recebeu dinheiro, embora tenha realizado uma poupança: em vez de uma transferência monetária, pagou menos do que teria de pagar caso não tivesse ficado ao abrigo do IFRRU (a parte dos juros que Palma não pagou ao banco foram garantidos pela UE).

 

          O que, na prática, vai dar no mesmo: Palma beneficiou de fundos europeus, tal como 90% por portugueses. A diferença é que 89,9999% dos portugueses não escreveu um livro opondo-se aos fundos europeus, criticando-os duramente. E a grande maioria não se candidatou de facto a fundos europeus. Nuno Palma candidatou-se a um Fundo de Revitalização Urbana que sabia ser financiado, em grande medida, por fundos europeus. Assim, quando afirma na entrevista "Logo, em rigor, nunca me candidatei a fundos europeus” o que ele está a fazer é brincar com as palavras.

 

          Aqui chegados, as perguntas são inevitáveis.

 

          Será que Nuno Palma, em O Vício dos Fundos Europeus. As consequências da política de coesão e por que razão deve terminar, analisa as "consequências" do IFRRU?

 

          Ou o eventual impacto negativo do IFRRU e de outros subsídios equivalentes ("criação de dependências, distorção de prioridades, prémio à má governação e travão das reformas decisivas")?

 

          Desenvolve ele o mesmo tipo de argumentação que apresentou à revista Sábado, para justificar a "fatalidade banal" da sua própria incoerência?

 



          De facto, ainda ontem, na rede social X, Palma evocava o seu livro a propósito de uma notícia assinalando que o PRR tinha sido usado para financiar habitação a diversas famílias em Penafiel. Pelos vistos, os outros, mesmo que em situação de aparente necessidade, não beneficiam da complacência moral que Nuno Palma generosamente dispensa a si próprio.


        



          Acrescente-se que, há coisa de uns anos, Nuno Palma criticou, na mesma rede social X, o uso do PRR para construir casas em Oeiras, com o argumento falacioso de que o município presidido por Isaltino Morais é uma das zonas mais ricas do país. É a chamada lógica da batata: se Oeiras é uma das zonas mais ricas do país, todos aqueles que habitam em Oeiras são ricos, logo, o PRR não deve ser aplicado em Oeiras...

 

          (JÁ AGORA: sabem onde fica, por uma espantosa coincidência, a casa de Nuno Palma apoiada pelos fundos europeus? Quem disser OEIRAS, acertou.) 



                 Casa de Nuno Palma, no concelho de Oeiras, apoiada por fundos europeus







          Entendamo-nos. O que está aqui em causa não é uma questão de legalidade, mas sim de ética, de moralidade e de coerência intelectual: um académico e historiador económico que apresenta como tese principal da sua última obra a ideia de que os fundos europeus são a principal causa do atraso e da pobreza em Portugal, afinal, beneficiou objectivamente desses mesmos fundos para reabilitar uma casa em Portugal, de que é proprietário, quando nela, aparentemente, não reside.

 

          A não ser que a casa esteja a ser utilizada com fins económicos, não se consegue perceber como poderá este uso de fundos europeus de alguma forma contribuir para o desenvolvimento do país. Sobretudo quando Nuno Palma, por exemplo, critica o investimento em habitação social ou estradas...

         

          Que Palma não reside em Portugal é o que se depreende, pelo menos, da informação constante na página do Ciência Vitae (sistema nacional de gestão curricular de ciência e tecnologia em Portugal, que funciona como uma plataforma única onde estudantes, investigadores e docentes podem criar, gerir e promover o seu currículo científico). Podem consultá-la aqui.

        

          Desde 1 de Agosto de 2017, Nuno Palma é professor de carreira (ou do quadro) na University of Manchester (Reino Unido), mais concretamente:

 

          1) Assistant Professor (University Teacher), entre 1 de Agosto de 2017 e Julho de 2020;

          2) Associate Professor (University Teacher), entre 1 de Agosto de 2020 e 31 de Maio de 2023;

          3) Full Professor (University Teacher), entre 1 de Junho de 2023 e a actualidade.

 

          Nuno Palma reside, portanto, em Inglaterra/Reino Unido.

 

          Isto conduz-nos a outra questão: Nuno Palma não beneficiou apenas uma vez de fundos europeus.

          De novo, vamos por partes.

                   

          Há alguns anos, Nuno Palma candidatou-se a um fundo público, o Programa de Estímulo ao Emprego Científico (CEEC), criado pelo Decreto-Lei n.º 57/2016 com o objectivo de combater a precariedade e promover a contratação de investigadores doutorados em instituições científicas e tecnológicas em Portugal.

 

          O objectivo era fazer face à situação de extraordinária precariedade que afecta o sistema científico nacional, entendido, quase unanimemente, como crucial para o desenvolvimento do país, e milhares de investigadores que viveram décadas em situações precárias e sem acesso ao 13º ou ao 14º meses, ao subsídio de desemprego e a tudo o que um contrato de trabalho oferece.

         

          Como outros programas geridos pela FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia), também este é apoiado pela União Europeia, através de cofinanciamento por fundos comunitários. Embora o programa seja administrado, a nível nacional, pela FCT, as verbas europeias suportam uma parcela muito significativa dos custos com os contratos dos investigadores doutorados.

 

          Na prática, a FCT celebra contratos-programa com as instituições de acolhimento e os custos são pagos combinando verbas do Orçamento do Estado (fundos nacionais) e recursos financeiros europeus.

 

          Actualmente, as taxas de cofinanciamento europeu para contratos na região da Grande Lisboa (Região Mais Desenvolvida) oscilam entre os 40% e os 50% do total dos valores a atribuir a cada investigador (2.134,32 euros mensais). Bem mais no resto do país.

         

          O contrato de Nuno Palma teve início a 2 de Maio de 2019 e terminou a 1 de Maio de 2022 (pelo menos; mas note-se que em 2025 mantém a dupla afiliação ICS/Manchester como continua a agradecer o contributo da... FCT).

 

          Segundo o Relatório de Actividades 2022 do Instituto de Ciências Sociais (ICS), na página 47:

         

          "Prosseguiram também projetos individuais, no âmbito da sua afiliação ao ICS através dos 'Concursos Estímulo Individual' da FCT, quatro investigadores que integram este GI – Duncan Simpson, Renato Pistola, Valerio Torreggiani e Nuno Palma (este último em regime parcial)". Consultar aqui.

  

          Em regime parcial? Pode um professor universitário do quadro beneficiar do Programa de Estímulo ao Emprego Científico (CEEC)? Sim, mas apenas em duas situações:

 

          1) Em regime de suspensão (licença sem vencimento): Se tiver assinado um contrato definitivo (de carreira ou do quadro) numa universidade inglesa, terá de solicitar a suspensão do seu contrato do programa ou da sua bolsa junto da FCT, uma vez que estes contratos normalmente exigem exclusividade em Portugal e dedicação ao projecto.

 

          2) Através de comissão de serviço ou mobilidade: Pode negociar com a instituição de acolhimento em Portugal e com a FCT uma alteração temporária das condições do projecto, desde que essa estadia em Inglaterra reforce o plano de trabalhos aprovado.

 

          Seria importante, por uma questão de rigor (ele que é tão lesto a apontar o dedo e a falar do abuso dos dinheiros públicos) que Nuno Palma esclarecesse isto: solicitou licença sem vencimento em Manchester ou pediu ao ICS para o CEEC ser em tempo parcial (sempre, porém e apenas, temporariamente) ?

 

          Tanto quanto sei, raros são aqueles que, em Portugal, podem beneficiar do CEEC (mesmo sem dedicação exclusiva) e, simultaneamente, ocupar um lugar de professor do quadro (docente com vínculo permanente/contrato de trabalho por tempo indeterminado com a universidade, garantindo estabilidade de emprego).

 

          Desconheço também situações em que os beneficiários do CEEC têm um cargo permanente no estrangeiro. Repare-se, e por hipótese: se isto fosse possível, os grandes académicos internacionais podiam, sem qualquer dificuldade, vir a Portugal obter um reforço do salário (qualquer pessoa pode candidatar-se ao CEEC, só tem de desenvolver a sua actividade no país). Bastava, para isso, ter dupla residência fiscal (o que é ilegal). E, assim sendo, o propósito de ESTIMULAR o emprego científico em Portugal ver-se-ia defraudado.

 

          Resumindo: tenho muitas dúvidas de que o CEEC sirva para financiar investigadores ou professores que têm posições no quadro. A ser possível, isso contraria o espírito e o propósito da lei, que é, evidentemente, fomentar o emprego científico (e não dar dinheiro a quem já tem emprego).

 

          Tudo indica, pois, que Nuno Palma terá acumulado, durante anos, duas fontes de rendimento: o salário de Manchester (o salário principal, presume-se) e o do CEEC (este último, nunca é demais sublinhar, apoiado por fundos europeus, segundo o próprio Palma causadores do nosso "atraso").

         

          Para beneficiar dessa espécie de "reforço salarial", o historiador económico Nuno Palma, crítico feroz e implacável dos fundos europeus, não apenas voltou a "mamar" na generosa teta dos fundos de Bruxelas, como ainda "roubou" uma vaga a um investigador precário, atirando-o para o desemprego (ou mantendo-o nele).

 

          Ou seja, e em direitas contas: alguém que vive em Portugal e aqui desenvolve a sua investigação científica não teve direito a um emprego e a um salário para que o doutor Nuno Palma pudesse receber um complemento do seu vencimento.


                                      "Pura hipocrisia"

          Outras questões poderiam ser levantadas: de que forma o investimento de Portugal em Nuno Palma, em detrimento de outro investigador, reverteu para o sistema científico nacional?

 

          A sua produção científica reverteu para o país ou para a Universidade de Manchester e o Reino Unido?

 

          E Nuno Palma desenvolveu a investigação no país, como estabelece o regulamento do CEEC?

 

          Se foi mesmo assim que as coisas se passaram, é isso justo e moral? No limite, será isso legal?

 

          Ficam as dúvidas, somente dúvidas. Agora, ele que responda.

 

 

À memória de Diogo Ramada Curto (1959-2026), 

a quem Nuno Palma chamou “desonesto”



                                                                        João Pedro George