domingo, 19 de abril de 2026

O Diogo.

 



É difícil falar da morte de uma pessoa como o Diogo Ramada Curto. Mesmo muito. Fala-se da morte, mas apenas se sabe o que essa palavra quer dizer quando morre alguém como o Diogo.

Falar do desaparecimento do Diogo é falar da minha dor. Falar da minha dor é falar do Diogo. Para que ele continue a falar comigo, e eu com ele. Por isso escrevo sobre o Diogo. Escrevo sobre o Diogo através da minha dor e sobre a minha dor através do Diogo. Escrevo para encher bem os olhos e o coração com a sua imagem. E, com ela, mitigar os momentos de penosa saudade que me aguardam longe dele.

Quando morre um amigo como o Diogo, sofre-se muito. Sente-se que uma parte de nós também morreu. Mas, ao mesmo tempo, o Diogo está ainda mais vivo naquilo que penso, sinto, escrevo.

Escrever sobre a dor é escrever contra a morte. A dor é o que dá forma à ausência da pessoa querida e o que impede o seu desaparecimento. Escrever sobre alguém que desapareceu e que se ama tanto é uma forma de continuarmos a levá-lo connosco, fazendo com que a sua presença continue a fazer-se sentir em nós.

Escrever sobre o Diogo não é falar de uma vida apagada para sempre. É fazer com que ele continue a renascer todos os dias, através de quem fica. É mantê-lo connosco, negando a impossibilidade do seu regresso.

Como fazer a dor entrar nas palavras? Como viver com os nossos mortos? Quando se é novo, dizem, o sofrimento ajuda a crescer. E quando deixamos de ser novos? Como descrever a experiência de sobreviver a um Amigo como o Diogo? O que é que nos acontece quando alguém que amamos tanto parte de repente? Alguém que nos marcou de maneira tão instantânea?

Não me atrevo a resumir o extraordinário ser humano que era o Diogo. Nem a dizer que o conheci e o compreendi completamente. Mas posso contar-vos o que ele fez em mim e o que a sua ausência me vai fazer, o resto da vida inteira.

O Diogo era mais do que um Amigo. Era o meu Irmão mais velho. Era o Amigo, o Irmão, o Professor, o Mestre.

Falar do Diogo é falar da minha vida e de como ela se viu radicalmente alterada quando o conheci. Vi-o pela primeira vez aos 20 anos. Foi em Setembro de 1992, no início do terceiro ano da licenciatura em Sociologia, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, como meu professor da disciplina de História do Pensamento Social.

Recordo-me da emoção intelectual que essas aulas produziam na minha cabeça ainda adolescente. Mesmo se não compreendia quase nada do que havia a compreender naquilo que o Diogo dizia. Mas foi justamente essa incompreensão que me levou a procurar uma maneira de a preencher. Por isso estudei. Estudei muito. Provoquei-o nas aulas. Discuti as ideias dele. Para o impressionar. Para que ele reparasse em mim.

Nas aulas, o Diogo empregava a fundo a sua inteligência e a sua invejável cultura, aquecia os nossos cérebros como uma chama viva. Punha-nos a pensar e a debater as questões nos seus diferentes prismas. Como professor, era equivalente à água que dão as fontes, ou às próprias fontes que dão água.

Às segundas-feiras, entre as 8h e as 11h, com um intervalo de vinte minutos, o Diogo ensinou-me mais do que qualquer biblioteca (dir-me-ão que exagero, talvez, mas pouco importa).

Ensinou-me a importância da crítica e da oposição, a pôr em causa a aparente transparência da realidade social. Ensinou-me a aproximar o discurso sociológico do histórico, a possibilidade de multiplicar as linhas narrativas com que se faz a História e a Sociologia, procurando as ligações entre as estruturas sociais e as estruturas mentais, nomeadamente recorrendo ao método biográfico, mas não só.

Ensinou-me o poder transformador do conhecimento, como ele nos pode modificar e como nós o podemos mudar, e que mais importante do que o conhecimento é o que se pode fazer com ele. Ensinou-me que não podemos manter as nossas impressões e opiniões quando os factos e os documentos as contradizem.

Em tudo isso, e muito mais, o Diogo levava à prática o hábito salutar de nos ensinar a duvidar daquilo que ele próprio ensinava. Por mais cortantes que fossem as nossas ideias, o Diogo acolhia-as com regozijo. Valorizava o espírito de contradição, a independência de juízo próprio, a nossa autorrealização intelectual. Procurava sempre dotar-nos de competências críticas, mais do que agradar ou ser um professor popular.

O Diogo amava a crítica e a crítica era a sua manifestação natural. Gostava de observar atitudes opostas, senão mesmo provocá-las. Sabia que é a crítica que destrói a tendência das nossas ideias para se reificarem, coisificarem, cristalizarem.

Depois de passarmos pelas suas aulas, nunca mais se olhava para as coisas da mesma maneira. Saía-se fascinado por perceber que o conhecimento pode afectar-nos tanto, conter tantas coisas, alterar tanto a nossa maneira de pensar.

Ainda que não o soubesse, o meu futuro começou ali, nas aulas do Diogo. Depois de ter sido seu aluno, procurei muitas vezes a sua companhia. Tentava encontrá-lo quando sabia que ele poderia andar por perto, queria estar nos sítios que ele frequentava, no Bar Artis (do Mário Pilar e da Paula, onde conheci a muito querida Né Parada Ramos, o Carlos Severo, o Orestes, o Luís Paulo, a Luísa Robot, o Nuno Antunes, e tantos outros) ou no Targus (do Hernâni Miguel), sobretudo estes, mas também no Frágil ou nos Três Pastorinhos. Quando o via no Bairro Alto, seguia-o à distância. Queria fazer parte da sua vida. Ser como ele. Crescer com ele.

Dez anos depois, tinha eu 28 anos, no final do meu mestrado em Economia e Sociologia História, orientado por ele, desafiou-me para o substituir na Faculdade, durante o período em que ele estaria nos Estados Unidos, na Universidade de Brown (em Providence), como professor convidado. Tornei-me seu assistente na mesma disciplina em que o conheci, História do Pensamento Social, continuando sempre a ensinar-me nas minhas primeiras investigações académicas. Os minutos, horas, dias, semanas, meses, anos que se seguiram foram tempos de enriquecimento intelectual e afectivo.

O Diogo era uma enorme massa de vida inteligente. Um agente de transmissão de conhecimentos e erudição ampla e firme. Era o intelectual na plena força do pensamento crítico. Era-o até aos ossos, até à essência do seu ser. Poucos o igualavam em estudo, ironia e sarcasmo (como ele, lembro-me apenas do António Araújo e do José Lima).

Durante 35 anos, desenvolvemos uma amizade estreita e consistente. Estabelecemos uma espécie de comunhão espiritual, feita de muitos e bons convívios. Convívios também, por vezes, instáveis e voláteis, altamente combustíveis.

Com o Diogo era possível salvaguardar a amizade quando as nossas opções e escolhas de trabalho não coincidiam com as dele. Se era capaz de ser um crítico implacável, também de se transformar, rapidamente, num amigo verdadeiro daqueles que criticava.

Dispunha de uma excepcional faculdade para inventar analogias e era um contador de histórias nato. Todos os fragmentos da experiência quotidiana estavam apenas à espera de que ele lhes desse forma e sentido, para depois os costurar numa narrativa significativa e divertida. Cruzando conhecimentos que vinham dos livros com conhecimentos que não tinham vindo dos livros.

Em muitas coisas éramos irreconciliáveis. Zangámo-nos algumas vezes. Gozámos um com o outro. Discordámos e provocámo-nos mutuamente, amuámos. Mas, no fim do dia, íamos sempre ter a uma mesa de café para preservarmos e renovarmos a nossa amizade. O Diogo conseguia ser imensamente terno, de uma ternura e inocência que me deixavam quase sem palavras.

Homem de intuições certas, mas também, por vezes, de acções erradas, o Diogo sofria as suas próprias ambivalências. Apanhado pelas convenções da sua geração, nem sempre conseguia livrar-se delas completamente.

Não escondia os seus defeitos, rugosidades, deficiências. Tão-pouco fugia à autocrítica, enunciando um discurso explícito de questionamento de si próprio.

O Diogo era disciplinado, mas nunca satisfeito. Era comunicativo e carismático. Adulto e infantil. Terno e rude. Duro e afável. Generoso e franco. Tudo isso ao mesmo tempo, conseguindo passar com grande rapidez de um estado a outro.

Da energia que espalhava à minha volta tirei eu a força que muitas vezes não conseguia ter. Passava-me roupa quando já não lhe servia, como um irmão mais velho (que de facto era e sempre foi). Fazia os possíveis e os impossíveis para me ajudar, arranjando-me pequenos trabalhos para conseguir encher o frigorífico e continuar a escrever como exercício de liberdade e de libertação. Junto do seu braço sólido, sentia menos medo.

Todos os dias, todas as tardes de todos os anos, partilhámos momentos inesquecíveis, situados numa outra parte do tempo. As festas de final de ano na sua propriedade de Vale da Pinta (Cartaxo), o amor que o Diogo tinha a essa casa, em tempos uma enorme adega, transformada num espaço para todos. As horas de Verão a caiar as paredes da quinta, ele com um lenço na cabeça com nós nas quatro pontas, por causa do sol, mas também para se rir de si próprio. Os momentos de repouso nos sofás do seu apartamento em Lisboa, no Campo de Santa Clara, a folhear livros antigos, depois dos almoços de sábado, com a boa comida que o Diogo sabia cozinhar e proporcionar aos amigos, juntando-os à sua volta. E como eram agradáveis os dias bem passados a deambular juntos pelos alfarrabistas…

O Diogo fazia parte de muitas vidas e, de certo modo, é consolador verificar que tanta gente foi tocada pelo Diogo. Ver tantas pessoas, entre amigos e conhecidos, colegas da Academia, do Colégio Militar, do Rugby, ex-alunos de muitas gerações diferentes, precipitando-se ao encontro uns dos outros, para se apoiarem mutuamente.

Não voltar a ver o Diogo, nunca mais, na Biblioteca Nacional ou na Feira da Ladra, não voltar a ouvir diariamente o toque do telefone e ver o nome dele no ecrã (ele telefonando-me ou eu telefonando-lhe), nunca mais reparar no velho carro dele no parque de estacionamento da Biblioteca Nacional (sinal de que já tinha chegado) e não voltar a esperar por ele na mesa do bar (para deitarmos conversa fora e saber novidades um do outro, antes de começarmos o trabalho de todos os dias). Nada disso, nunca mais, vai repetir-se durante o resto da minha vida.

Na Biblioteca Nacional, depois da nomeação da actual ministra da Cultura, o Diogo dizia-se ignorado e aviltado. As queixas que lhe ouvia na intimidade, a ansiedade que sentia pela forma como era destratado por uma personagem sinistra, que ele próprio escolhera, a quem não se encontram senão intrigas e pequenezes. Anões insuflados de um suposto poder, desprezando um gigante como o Diogo. Mas este é o nosso tempo, esta é a gente que manda no nosso país.

E, no entanto, ninguém corporizou a ideia de uma Biblioteca Nacional, democrática e aberta a todos, como o Diogo. A Biblioteca Nacional será sempre como se o Diogo continuasse ali, naqueles corredores e naquele lugar (o Q9) que era quase sempre o dele.

Custa-me muito. Custa-me muito imaginar a minha vida sem a presença do Diogo, e a vida em geral sem ele. Viver é assistir à morte a fazer círculos concêntricos à nossa volta, cada vez mais estreitos, até chegar a nós. Hoje, com 54 anos, isso tornou-se ainda mais claro.

O Diogo faz parte da minha geografia íntima. O meu mundo era mais feliz e divertido com o Diogo. Mas o Diogo deixou-nos. Desvaneceu-se precipitadamente. A sua morte súbita significa que a minha vida se alterou drasticamente. Que os meses que aí vêm serão tempos de um poderoso e profundo trabalho de reconstrução interior.

Mais realidade que a da morte é impossível. A rotação imperturbável da morte, a indiferença do universo e da natureza pela nossa dor, a insignificância da nossa escala, a miragem da duração para lá da qual se ergue o vazio.

Nunca mais serei o mesmo. Nunca mais me sentirei completo. Perdi o meu amigo e o meu irmão mais velho e nada nem ninguém vai substituí-lo. É preciso repetir isto muitas vezes. Agora, mais do que nunca.

 

João Pedro George




sexta-feira, 17 de abril de 2026

São Cristóvão pela Europa (352).

 

 

 

Entre 2 e 4 de Abril percorri as províncias espanholas de Salamanca e Zamora. Infelizmente, encontrei muitas igrejas fechadas mesmo em tempo de Semana Santa.

Ciudad Rodrigo, a 30 quilómetros da fronteira, sempre foi uma das praças fortes que defendiam a Espanha de incursões dos seus vizinhos ocidentais. Nas guerras peninsulares do início do Século XIX aqui se travaram importantes batalhas, algumas com incidência em Portugal como a que ocorreu no início da Terceira Invasão Francesa, atrasada em consequência da resistência da cidade.

A Igreja de São Cristóvão, muito antiga, mas reconstruída no Século XVIII, possui uma imagem barroca do nosso Santo em madeira policromada da época da reconstrução, integrada num altar-mor bem mais recente, já do Século XX. Tem uma originalidade: o Menino Jesus está ás cavalitas quando normalmente se apoia apena num dos ombros do Santo.

 





Nos arredores de Salamanca, a Igreja da Exaltação da Santa Cruz em Palencia de Negrilla é de origem românica e do Século XII. Foi reformada no Século XV sendo dessa época um belo portal de estilo gótico hispano-flamenco.

Notável é o retábulo do altar-mor, uma obra datada de 1599, que inclui uma imagem de São Cristóvão.

 





                                                            Fotografias de 2 de Abril de 2026

                                                                                            José Liberato




domingo, 12 de abril de 2026

Diogo Ramada Curto, um amigo.

 


 

Durante anos, anos a fio, quem entrasse na sala de leitura da Biblioteca Nacional encontraria sempre, todos os dias – e sempre no mesmo lugar –, uma figura corpulenta e maciça, debruçada sobre um mar de livros. Foi isso, o estudo sério e uma formidável capacidade de trabalho, associados a uma espantosa curiosidade intelectual, que permitiu que Diogo Ramada Curto se tornasse um dos historiadores mais completos da sua geração, cujo leque de interesses ia do livro antigo à arte contemporânea, passando pela história política, social e cultural de todas as épocas e de vários lugares: Europa, Brasil, África.

Diogo Ramada Curto foi um dos últimos grandes eruditos, um homem dos livros e dos papéis, autor de muitas dezenas de livros e artigos científicos marcantes, mas também um intelectual público capaz de intervenções contundentes, sobretudo independentes.

Espírito livre e desalinhado de tribos e de côteries, tinha uma enorme exigência intelectual, sobretudo para consigo mesmo, e cultivava algumas devoções, com Vitorino Magalhães Godinho à cabeça, e outras tantas embirrações, cujos nomes me abstenho de enunciar nesta hora. Criticou sem piedade, às vezes com excesso no verbo, as misérias do nosso meio intelectual e académico e pensou o país sem ficar aprisionado nele, pois, além de uma cultura humanística vastíssima, possuía uma visão cosmopolita e aberta da realidade, já que teve uma carreira marcada por prolongadas estadias em Florença, em Paris ou na Universidade de Brown.

Na Universidade Nova de Lisboa, foi professor de gerações sobre gerações e muitos lhe devem muito nas suas carreiras académicas.

Por fim, mas não por último, revelou um dinamismo extraordinário na direcção da Biblioteca Nacional de Portugal, patente, entre outros feitos, nas dezenas de obras que lançou no seu breve mandato, muitas delas já concluídas, outras ainda em curso – e que para sempre ficarão como seu legado e testemunho. Destaca-se, neste plano, a conversão da Biblioteca em espaço de trabalho para estudantes universitários, na belíssima Sala Azul, que doravante bem mereceria ostentar o seu nome.

Quanto a mim, apenas uma gota de água num oceano imenso de amigos de todas as idades, classes e quadrantes, feitos no Colégio Militar e no râguebi, nas noites do Bairro Alto, nos corredores das universidades, nos jantarinhos da Lisboa-elite, recordarei para sempre as conversas maledicentes e bem-humoradas dos sábados de manhã, na esplanada do Clara Clara, após uma jornada de caça bibliófila, ou os cafés e os almoços às mesas daBN, servidos pelo senhor Paulo ou pela São, e na companhia do João Pedro George, que hoje estão destroçados. Como nós todos.       

 

                                                                                    António Araújo


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Quando o areal de Monte Gordo é história regional com tracejado universal.

 





          Os Filhos de Monte Gordo, por José Carlos Barros, edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2025, é uma monografia de um território e daas suas gentes, iremos acompanhar a sua transformação de povoado piscatório em estância balnear, demarcar-se-ão zonas de habitação, veremos evoluir a zona central destinada a turistas de várias posses, e os pescadores empurrados para uma periferia de casas de adobe e cabanas de colmo – enfim, uma marginalização económica e social que não se confinou a toda a orla algarvia, foi sentença que modelou o Portugal assimétrico em que vivemos.

          É uma monografia de leitura absorvente, uma escrita quase encantatória, um bom desenho histórico da região e momentos há em que o escritor não esconde o seu talento ao sabor da descrição de valor manográfico, assim:

          “Fernando Leonardo sabe o que é pescar nesses tempos de miséria em que as crianças fugiam da escola para esperarem os barcos e comerem os restos do que os pescadores cozinhavam no mar, uma sopa, um guisado, o peixe acabado de escamar. Cozinhavam num tacho de alumínio, num fogareiro à popa do barco, onde não chegava água, aí se guardava também o pão, o sal, o azeite. As lanchas eram de vela latina, pescava-se das cinco da manhã às três da tarde. Não é como agora, dois homens é o suficiente, às vezes um, nesse tempo eram companhas de cinco ou seis homens, quatro ou cinco no mínimo, quatro aos remos, um ao leme, tudo à força dos braços, sem avisos meteorológicos, sem GPS nem sombras, sem guinchos de alar, vinha um temporal e perdiam-se as redes, em havendo nortada não se rompiam avante, içava-se a vela, metia-se um ou dois riços e ia-se bordejando, bordo de mar, bordo de terra, a direito, ia-se à Praia Verde ou Cacela, bordo da terra para lá, bordo de mar para cá, tudo à força de braços, eram outros tempos.”

          Estamos no preciso local que é palco monográfico, antes de haver o Hotel Vasco da Gama, já houvera balbucio de vilegiaturas, a Ourela e o Sertão, tempos de famílias numerosas, aquela aldeia de pescadores sem história antes e depois do terramoto, em que o senhor Marquês de Pombal sonhou com uma povoação que não teve futuro, assim chegamos à confluência entre a pesca e os bens de mar. Iremos saber quem a partir dos finais do século XIX ali vem para as práticas balneares, aparece casario, ali perto em Vila Real de Santo António, há pesca industrial e fábricas de conservas de peixe, a paisagem urbana vai mudando. O autor lembra-nos os efeitos da crise de 1929, devastadores na economia do Algarve, crise de pesca e das conservas, situação crítica da exportação de amêndoa e figo, o desemprego atingiu níveis assustadores, há fome nos lares operários e de pescadores. E dá-nos também o retrato do desenvolvimento do extremo Sotavento.

          E assim chegamos à vocação turística de Monte Gordo, às grandes mudanças da década de 1960, os jovens sonham em fugir ao destino dos bisavós, dos avós, do pai. Em 1956 contruíra-se o parque de campismo, em 1960 o Hotel Vasco da Gama e o Hotel dos Navegadores no ano seguinte, seguem-se outros empreendimentos. Temos aqui mais um texto em que o escritor desafia o investigador:

          “Franzino, temeroso do mar, sem vocação para a pesca, seduzido por este mundo de turistas que chegam e partem, por uma espécie de música de fundo que se ouve em permanência e que chega de espaços indefinidos, pela luz dos lóbis entrevistos à distância por detrás de vidros amplos, João desafia um primo e rumam ao Hotel dos Navegadores, ele com doze anos acabados de fazer, o primo ainda mais novo, parecem adultos a desafiar o destino, a assobiar ao futuro. Conheciam as regras: não se dirigiram à receção, e aí ninguém do Sertão teria serventia, foram diretos às traseiras, à porta de serviço, João à frente do primo, corajoso e trinca-espinhas, criança a mexer nas cartas de rumos, a dirigir-se ao porteiro de turno, a perguntar se não havia trabalho.”

          Mergulhamos depois do Sertão, aqui a vida mexe, multiplicam-se as edificações clandestinas, Monte Gordo tem duas modestas pensões e parque de campismo, isto nas décadas de 1940 e 1950, depois vem a grande viragem e José Carlos Barros faz um enquadramento histórico desta região, um rincão do Sotavento que vem desde a Idade Média, que tem um ponto alto na Restauração, segue-se um período de declínio, tudo nos é explicado em linguagem luminosa, esclarecedora, tão esclarecedora que se percebe à légua a história das pilhagens das nossas águas os nossos irmãos espanhóis.

          É inevitável, tem de se abordar a indústria conserveira e o seu operariado, e depois o relato histórico volta a ser sobrepujado pelo gosto da boa literatura, veja-se um exemplo:

          “As xávegas, ou a arte da Barca, fizeram a fortuna de Monte Gordo na segunda metade do século XVIII, havia então mais de 3 mil homens diretamente envolvidos na pesca com xávegas, e foram responsáveis pelo aumento populacional do aglomerado ao longo do século XIX. O seu declínio, no entanto, começaria ainda nas décadas de 1880 e 1890, com a concorrência de artes mais modernas e produtivas, como os cercos americanos e os galeões a vapor e, mais tarde, as traineiras. Ainda que se tivessem mantido ao longo do tempo, e em determinados períodos com algum significado, na década de 1960 já só ocasionalmente faziam os seus lanços.” E, mais adiante: “A partir de finais da década de 1960, com o turismo a valorizar o pescado, com a motorização e a mecanização das embarcações a possibilitarem um maior raio de ação, maior regularidade das saídas e companhas menos numerosas, os marítimos de Monte Gordo regressam aos tresmalhos.”

          Sim, tudo mudou, o turismo reina impante, o Sertão acabou e há uma simbólica da devoção que marca o termo desta magnífica monografia, tem a ver com a imagem de Nossa Senhora das Dores, estava prantada numa Igreja que sofreu calamidades, quando se procedeu à reconstrução a imagem foi trasladada para Vila de Santo António. Afinal, o património imaterial pesa que se farta, os pescadores que nasceram e viveram no Sertão não serão conhecidos por um particular apego à frequência da Igreja. Contudo:

          “É ver a devoção com que, uma vez por ano, todos os anos, fazendo o próprio rol dos homens a quem é concedida a honra maior de levar o andor, seguem em procissão, todos marítimos, tudo gente do mar, o mais velho ao comando, com a vara das ordens, metálica, a orientar as pausas, os recomeços, o baixar, o erguer de novo, o virar ao mar, aos barcos de buzinas ruidosas, enfeitados com bandeirinhas e papéis crepe, é ver a devoção e o dramatismo triunfal com que se aproximam de novo da Igreja, no regresso, mais de vinte homens com as suas varas de apoio, a passada ensaiada ao ritmo da filarmónica, os movimentos em forma de pendulo a fazerem oscilar o andor, a Santa virada de costas para a entrada do templo, o adro cheio dos fiéis, dos peregrinos, e então a bênção, um lençol de lágrimas, três vivas à Senhora das Dores.” São assim os filhos de Monte Gordo.

          Se um bom romance é uma história bem contada, que dizer da virtuosidade de uma monografia que nos cativa do princípio ao fim? 


                                                                                      Mário Beja Santos



segunda-feira, 30 de março de 2026

São Cristóvão pela Europa (351).

 

 

 

Surpreendentemente, e graças aos amigos do Malomil que felizmente me dão muitas sugestões encontrei mais dois São Cristóvãos nada mais nada menos do que em Lisboa.

O primeiro encontra-se no Museu da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva.

Trata-se de uma pequena (21 centímetros) aguarela representando o nosso Santo com a inscrição S. Christophorus, M, ou seja, São Cristóvão, Mártir. Decora o chamado Quarto D, Maria I. Desconhece-se quase tudo sobre o pequeno quadro a não ser uma inscrição feita na parte de trás:

Este quadro servia (?) à Exma. e Rema. Sra. Madre Antónia Margarida Peres, Religiosa da Visitação de Santa Maria de Lisboa em 12 Novembro de 1873.

O recheio do Convento de Nossa Senhora da Visitação em Lisboa foi objecto de um leilão em 1914 devendo esta peça ser dele proveniente.

 




No centro do Paço do Lumiar em Lisboa, uma pequena igreja é dedicada a São Sebastião. Construída no início do Século XVI, sofreu diversas remodelações ao longo da História. Ostenta um portal manuelino.

Ainda há pouco tempo, a igreja encontrava-se rodeada por todos os lados por faixas de rodagem.

No interior, um magnífico painel seiscentista de azulejos polícromos representa São Cristóvão. As cores são o azul, o manganês, o ocre e o verde. O painel é rico em paisagens.

 



                                            Fotografias de 20 de Fevereiro e 29 de Março de 2026

                                                                                                             José Liberato





quinta-feira, 26 de março de 2026

Carta de Bruxelas







                                                                                        Os relógios do tempo




Margarete Buber-Neumann (1901-1989) foi uma testemunha com o destino do século marcado a ferro na carne, deportada nos campos de Estaline e depois nos de Hitler. Cruelmente, passa directamente de uns para os outros. Depois da execução do marido, o dirigente do Partido Comunista Alemão Heinz Neumann, em 1937, na URSS, Margarete é condenada em 1938 a cinco anos de detenção num campo. Em 1940 é entregue pelas autoridades soviéticas às autoridades nacional-socialistas. Mais cinco anos em Ravensbrück. A dupla experiência concentracionária foi passada a escrito num livro justamente célebre, Als Gefangene bei Stalin und Hitler. Eine Welt im Dunkel (1949).  Sem a ambição histórica dessa obra, Margarete Buber-Neumann conta em Die erloschene Flamme: Schicksale meiner Zeit (1976) alguns episódios em que se cruzou com esses destinos de um século. Não se trata das grandes personagens, embora também lá estejam, por exemplo Panait Istrati ou Milena ( a quem tinha já dedicado um livro, o único traduzido para português).

Um dos casos incluídos nesse texto é o de Karl Brunnengraber. A conversa narrada por Margarete Buber-Neumann é fruto de um acaso. Passageiros do mesmo voo de Berlim para Frankfurt, calharam-lhes lugares contíguos, o que levou à conversa – e ao destino comum. Ambos judeus alemães. Ambos antigos concentraccionários. Ambos a viverem na Alemanha. Brunnengraber, relojoeiro, conta como sobreviveu no campo pai, mãe e irmãos já assassinados.  Um S.S. deu-lhe um relógio de pulso para reparar o mais depressa possível. De imediato, o prisioneiro percebeu que seria poupado aos transportes, enquanto fosse necessário. Explica que não terminava o arranjo antes de receber outro relógio para consertar. E assim «vivi por dois anos de um relógio para outro». Pelo meio narrou outras peripécias. No fim da conversa relatada pela autora, Karl Brunnengraber, reconciliado com a Alemanha, mostra-lhe uma bracelete de relógio que patenteara e explica-lhe longamente de que se trata; explicação, diz Margarete, «de que não comprendi uma só palavra». E, acrescenta o relojoeiro, a última frase do capítulo, «na minha cabeça tenho mais cinco invenções. Talvez ainda tenha tempo de as realizar todas....».

Involuntariamente, o texto de Margarete Buber-Neumann expõe uma ambiguidade, que lhe inverte o título: Die Kraft zu Überleben. O que estraçalha o destino de morte não é a força para sobreviver, é a força para viver. A ambiguidade dos relógios é a ambiguidade do tempo. Os primeiros, avariados, corporizam o tempo da morte iminente, em que cada minuto ganho é uma fuga, que se pode malograr no minuto seguinte. É o tempo do terror. Os segundos encarnam a invenção, a interrupção do novo, são o tempo pleno, o tempo da promessa – da promessa de uma vida livre.

 

                                                                                João Tiago Proença


domingo, 8 de março de 2026

São Cristóvão pela Europa (350).

 

 

 

Terminadas as digressões pelo Centro da Europa, voltemos ao nosso querido Portugal. E ao Norte.

 

Em Gondomar, a Igreja Paroquial é dedicada a São Cosme e São Damião, os dois santos gémeos e médicos. A igreja é barroca, construída na primeira metade do Século XVIII. A torre sineira permite uma passagem.

Numa remodelação infeliz no início do Século XX desapareceram paredes inteiras de azulejaria. Subsiste um belo painel representando São Cristóvão.

 




 Na freguesia de Antas, concelho de Esposende, existe uma pequena ermida de São Cristóvão. Originalmente dedicada a Nossa Senhora da Portela, não se conhece como passou a ser de São Cristóvão. Se hoje está longe dos olhares dos passantes, anteriormente podia ser facilmente avistada de quem se dirigia da Póvoa de Varzim para Viana do Castelo.

Segundo o historiador Penteado Neiva, que teve a gentileza de me acompanhar na visita (juntamente com os Presidentes da Câmara e da Assembleia Municipais), esta deve ser a mesma capela da Senhora da Portela fundada em 1553 pelo proprietário da quinta da Portela, o abade de Santa Leocádia de Geraz do Lima.

Ao longo dos anos, discutiu-se a manutenção do edifício, a falta de recursos para a realizar, a conveniência de a deslocar para outro lugar. Mas sempre resistiu. Está na posse da mesma família desde 1887.

No interior, uma imagem de São Cristóvão de madeira policromada de autor desconhecido e do Século XIX. Tem duas características diferenciadoras. Em primeiro lugar, a sua dimensão de 68 centímetros não corresponde ao padrão gigantesco habitual. Por outro lado, o Menino Jesus assenta no braço direito do Santo e não no ombro.

 



No concelho de Vizela situa-se o santuário de São Bento das Pêras, local de peregrinação e de belas vistas.

No interior da Igreja principal, já do Século XX, uma imagem do nosso Santo.

 




                                                                Fotografias de 31 de Janeiro de 2026,

                                                                                                     José Liberato


Frederick Brennan (1994-2026): um estranho numa terra estranha.

 




                                                                    No Público

https://www.publico.pt/2026/03/08/mundo/cronica/fredrick-brennan-19942026-estranho-terra-estranha-2166870

 



quinta-feira, 5 de março de 2026

Autópsia da formação e dos tormentos de guerra de um oficial dos Comandos, em Angola.

 





          Num tempo em que a literatura da guerra colonial se foca em memórias, em quadros de expiação de filhos de antigos combatentes que visitam os locais por onde andaram os pais, não deixa de surpreender O Elogio da Dureza, volume I de uma trilogia intitulada A Vida Aventureira de um Homem de Letras, por Rui de Azevedo Teixeira, Guerra e Paz Editores, 2024. Não vale a pena iludir a chamada ficção da literatura de guerra, romance, novela, conto, tem sempre fumos autobiográficos. O autor é doutor em letras, tem obra de académico e de ensaísta e procura neste seu primeiro volume da trilogia descrever a preparação de um alferes dos Comandos, expõe com crueza um drama familiar, era dado como perfilhado, sentia a ferida da discriminação, ainda por cima a relação com o padrasto era quase nula; fala-nos da sua mocidade e das muitas leituras, com relevo para Camões, Hemingway, Simenon, à testa de muitos outros nomes. Andou por Coimbra, frequentava certamente um curso de Filologia Germânica, citações a jeito de tais línguas aparecerão no romance. Impelido pelo fascínio da força, encaminhou-se para a guerra, vai descrever como nunca ninguém descreveu a preparação de um Comando, entremeia também como páginas de um diário que ele apresenta como diário incerto.

          Sobrepõe-se os tempos no romance, antes de conhecermos o que foi a sua preparação para a guerra, vemo-lo de regresso, um tanto à deriva, é convidado a entrar no PREC, o alvo são os esquerdistas e os comunistas. E entramos brutalmente no universo infernal da preparação, feito em Angola, no Centro de Instrução de Comandos. O teste da sede, o arranque do curso estava dado – brutalidade com o máximo de disciplina, formandos quase enlouquecidos a beber a própria urina, as humilhações, as eliminações de quem não suportava a dureza de tais provas, os crosses e as marchas forçadas, as flexões, numa barra fixa, até à exaustão, os tratamentos degradantes, a leitura em voz alta do correio enviado aos formandos, aquilo que hoje podemos chamar de violação de correspondência.

           E virá um momento de dúvida neste jovem que se ofereceu para os Comandos, ele vai passar uns dias a Luanda e segue-se um episódio marcante assim descrito:

          “De um golpe, numa única lição prática, percebeu a essência do colonialismo. Uma parte dessa essência.

Paulo descia e o homem preto subia. Ambos pelo mesmo passeio estreito. O preto tinha cerca de cinquenta anos, cabelo grisalho, fato coçado. Um ar sério, digno, de pequeno funcionário. Três ou quatro metros antes de se cruzarem, o homem olhou para Paulo, baixou os olhos, encurvou as costas e, automaticamente desceu do passeio para Paulo poder passar à vontade. Baralhou-se a cabeça ao cadete. Caiu-lhe muito mal que um homem preto de meia-idade se tivesse curvado, diminuindo-se perante um jovem branco, perante si. Pela idade, podia ser seu pai. Nenhum dos textos que tinha lido sobre o colonialismo teve em Paulo o mesmo impacto que esta cena muda numa rua de Luanda.”

Vamos conhecer a vida daquele grupo de cadetes, os sofrimentos a que eles serão sujeitos nas últimas semanas da sua formação, segue-se o juramento dos Comandos. Voltamos ao PREC e passamos para a guerra do Leste de Angola, Paulo está no Luso, seguem-se operações, caso da Empurra Tudo, na zona do Luma Cassai, no lusco-fusco o grupo da tropa especial entra num acampamento, vamos ter o horror da guerra, uma faca de mato na barriga de um velho, girando lá dentro como o corno de um touro numa corrida, não faltam tiros de misericórdia para os guerrilheiros agonizantes. Entre operações, Paulo refastela-se, companhias femininas não lhe faltam, e depois temos as operações, os mortos e os feridos, não faltam interrogatórios com sofrimento descomunal. Há também as perdas de camaradas. E depois Paulo é afastado do Leste, vem preparar novas gentes, vai guardar grandes saudades das Terras do Fim do Mundo.

Neste entremeado do durante-antes-depois, Paulo já está a acabar o seu bacharelado, vemo-lo agora no centro de instrução dos Comandos, faz um curso de milhas e armadilhas, é convidado para participar na operação pantufada, no Mayombe, deixa-nos uma bela descrição:

“Sob intensa chuva e trovoada agressiva, os Comandos entraram ao fim da manhã na opulência vegetal de Mayombe. Os estouros metálicos dos trovões davam-se mesmo por cima das copas das árvores majestosas, o que tornava os comandos momentaneamente surdos. A espessa massa vegetal, de cheiro intenso e meio adocicado, e o sobe e desce dos morros da floresta tornavam a progressão muito mais difícil do que avançar pelas planuras do Leste. Mayombe, o verde vibrante e ubíquo. Verde no chão, verde a meia altura e, no alto, um céu de folhas verdes. Só o acinzentado das árvores muito direitas, altas e elegantes escapava ao verde.”

    E assim chegamos ao 25 de abril. Paulo é professor em Vila Figueira, cria amizades, gosta da estúrdia com um aristocrata real. Vai depois ensinar na ilha da Madeira, está a acabar a licenciatura, conhece Iza Maria Possolo d’Ornellas, haverá um casamento, ele dirá ser “sublime, sólido, sagrado”. A expiação em que vivera como filho de pai incógnito e perfilhado pelo padrasto irá ser cabalmente esclarecida por Iza, afinal Paulo era filho do padrasto, ele não esconde a sua revolta, aqueles pais nunca tiveram em conta o sofrimento do filho, decidiu nunca mais voltar a falar com os pais. Assim termina o volume primeiro desta aventura de um homem de letras. António Cândido Franco diz tratar-se de “Curioso e comovente percurso do lobo solitário, personagem viva e única que evolui diante do leitor de forma memorável… Um milagre que transforma a dureza em pureza.” Esperamos vir a seguir as outras obras da trilogia. 


                                                                                                        Mário Beja Santos