Adoro feijão. Manteiga,
encarnado, frade, preto e, sobretudo, branco. E grande. A feijoca é, pois, o
melhor de todos. Desculpem-me os nacionalistas, mas o melhor prato de feijão do
mundo é mesmo a fabada das Astúrias. Nada que ver com favas: é feijoca e leva
apenas chouriço, barriga fumada e morcela. Talvez umas rodelas de cenoura. E
pronto. Mais nada.
Como se não bastasse,
heresia maior, no meu ranking vem logo a seguir o cassoulet do Languedoc. Uma
vez mais, feijão branco. E pato, e enchidos de porco. Em Toulouse, uma das
cinco capitais do mundo, vem com a sua lendária salsicha.
Qual o segredo de ambos?
O feijão. Branco, pois claro. A gordura animal dos bichos de criação. E poucas
invenções.
Em qualquer parte destas
regiões o prato é servido com orgulho e respeito absoluto pelas receitas
locais. Em todo o lado: de restaurantes de nome a cafés de estrada e bombas de
gasolina. E para que não falte, abundam as ofertas de enlatados e frascos com cassoulet
de qualidade. Por cá não é assim. Seja por complexo de inferioridade ou por
simples parolice, queremos sempre inventar. É o mantra da inovação, chave de
sucesso para qualquer strategy do business.
Feijoada de marisco?
Porquê? Que mal fizeram os crustáceos e os pequenos bivalves? Estragam os
feijões e quem se lixa não é o mexilhão, somos mesmo nós, os comensais.
É necessário um ponto de
ordem. Isso não existe.
Nenhum tratado clássico
de cozinha portuguesa, a começar pelo grande Mestre João Ribeiro, menciona tal
coisa. O que encontramos são os velhos cozidos de feijão com carne de porco e
enchidos. Ou seja, feijada, ainda que muitas vezes sem esse nome. O termo surge
mais tarde e, mais uma vez, desculpem-me os nacionalistas, aparece primeiro
documentado no Brasil. E de lá vem outra feijoada que merece todo o respeito,
mas são contas de outro rosário.
Primeiro há que dizê-lo:
nem a famosa feijoada de chocos de Setúbal nem a de búzios do Algarve figuram
nos grandes receituários clássicos da cozinha portuguesa. Tudo indica que a sua
consagração gastronómica é fenómeno relativamente recente, da segunda metade do
século XX. Em contrapartida, caldeiradas, arrozes, açordas e até o maravilhoso
xerém têm tradição forte e raízes profundas nas regiões piscatórias e pobres do
litoral.
Em Setúbal o choco sempre
imperou. Mas até o choco frito, hoje elevado a símbolo da cidade, é
relativamente recente. E ainda bem.
Em resumo, em Portugal a
feijoada é de carne de porco. E admitem-se três variedades principais. A
transmontana, com feijão encarnado, couve, carne de porco e enchidos regionais.
A portuguesa, variante da anterior, normalmente com feijão manteiga ou
catarino, com ou sem couve, conforme as devoções da casa. E a minhota, ou mais
precisamente poveira, feita com feijão branco — tinha de ser —, os enchidos do
porco e sem couve. Nem vê-la.
Parece que existia ainda,
hoje quase desaparecida, uma curiosa feijoada de sames, isto é, caras e
bochechas de bacalhau. Mas com bacalhau todas as excepções são permitidas.
No resto, não brinquem
com a feijoada. E não me lixem!
José António Nogueira de
Brito
















































