quarta-feira, 3 de março de 2021

Conhecimento do Inferno.




 


Memória de Elefante, Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno aparecem como uma trilogia, a primeira grande viagem de um escritor à volta de amores perdidos, das recordações familiares, da vivência de um tenente-médico na guerra colonial e a experiência do psiquiatra no Hospital Miguel Bombarda, um antes, um durante e um depois rememorados em puzzle, em pungentes monólogos, em viagens aturdidas, numa duríssima crítica a certa prática psiquiátrica: mesmo no inferno dos loucos a África da guerra colonial é omnipresente, é termo de comparação, é sempre um grito de revolta.

O autor, neste ciclo da sua vida, aparece acampado em Angola. Logo uma descrição do país dos Luchazes, no arranque de Conhecimento do Inferno: “O país dos Luchazes é um planalto vermelho, mil e duzentos metros acima do mar, em que o pó cor de tijolo atravessa a roupa para nos aderir à pele, se nos enredar nos cabelos, nos obstruir as narinas do seu odor da terra, próximo do odor ácido e seco dos mortos. O país dos Luchazes, quase despovoado de árvores, é um país de leprosos e trevas, um país de vultos inquietos, de rumorosos fantasmas, de gigantescas borboletas emergindo dos seus casulos do escuro para cambalearem, em busca das lâmpadas. É o país onde os defuntos assistem sentados aos batuques. É um país magro de mandioca e de caça”. A guerra está ali bem próxima, é incontornável entre o presente e o futuro: “Em 1973, eu regressava da guerra e sabia de feridos, do latir de gemidos na picada, de explosões, de tiros, de minas, de ventres esquartejados pela explosão das armadilhas, sabia de prisioneiros e de bebés assassinados, sabia do sangue derramado e da saudade, mas fora-me poupado o conhecimento do inferno”.

Dentro da carpintaria do romance, tudo se passa ao volante numa viagem entre o Algarve e a Praia das Maçãs. É nesta longa e tortuosa deambulação que vamos enfrentar o local onde funciona o inferno dos loucos: “O Hospital Miguel Bombarda, ex-convento, ex-colégio militar, ex-Manicómio Rilhafoles do Marechal Saldanha, é um velho edifício decrépito perto do Campo Santana, das árvores escuras e dos cisnes de plástico do Campo Santana, perto do casarão húmido da Morgue, onde, em estudante, retalhara ventres em mesas de pedra num nojo imenso”.

A memória viaja em ziguezague, há um recuo até ao tempo em que num Alentejo de calor insuportável, o médico veio examinar os mancebos apresentados nas sortes, isto passava-se num ginásio, em que desfilavam os ditos mancebos “que o Exército convocara, arregimentara para defenderem em África os fazendeiros do café, as prostitutas e os negociantes de explosivos, os que mandavam no país em nome de ideais confusos de opressão, sentado à secretária, desfilarem diante de mim os rapazes de Elvas no ginásio fechado, que o fedor das virilhas, do excesso de pessoas e das roupas abandonadas no chão empestava como o de um curro trágico e triste”. Há como que um remorso permanente para este ofício de médico-psiquiatra obrigado, de acordo com o diagnóstico, enjaular certos pacientes: “Crescia em mim uma espécie de vergonha, ou de aflição, ou de remorso, sempre que preenchia um boletim de internamento e aferrolhava no manicómio as íris surpreendidas e tímidas que me fitavam. Ninguém tem culpa e eu preciso de comer, obtive este emprego do Estado, procedi a exames, concursos, testes de cruzinhas, provas públicas, pago renda de casa e justifico os vinte contos que ganho aprisionando pessoas no asilo, escutando desatento as suas inquietações e as suas queixas”. Em dado passo, ouvimos psicanalistas conversarem entre si, falam no seio materno, na pré-genitalidade, no desejo consciente de união com a mãe, mamilo ameaçador, a fúria do escritor não tem limites, não sei se alguma vez alguém desancou nestes profissionais de saúde como o faz Lobo Antunes: “De todos os médicos que conheci os psicanalistas, congregação de padres laicos com bíblia, ofícios e fiéis, formam a mais sinistra, a mais ridícula, a mais doentia das espécies. Enquanto os psiquiatras da pílula são pessoas simples, sem veredas, meros carrascos ingénuos reduzidos à guilhotina esquemática do eletrochoque, os outros surgem armados de uma religião complexa com divãs por altares, uma religião rigidamente hierarquizada, com os seus cardeais, os seus bispos, os seus cónegos, os seus seminaristas já precocemente graves e velhos, ensaiando nos conventos dos institutos um latim canhestro de aprendizes”.

É neste fundo dos fundos, a dar consultas ou a visitar enfermarias que o assaltam recordações devastadoras, as passadas em África: “Recebeu o estetoscópio do enfermeiro, introduziu as olivas nos ouvidos, experimentou o diafragma raspando-o com a unha do indicador, e ao aplicá-lo no peito do doente veio-lhe de súbito à memória o dia 13 de Outubro de 1972, em Marimba, na Baixa do Cassanje, Angola, quando os oficiais empurraram os três negros para o posto de socorros e os obrigaram a estender-se no chão. Eram os três negros que roubavam a roupa, o dinheiro, os objetos pessoais dos alferes ao longo desse comprido segundo ano de guerra. Os relâmpagos estalavam de contínuo num fedor acre de enxofre. Os três negros levavam porrada desde há horas por roubarem a roupa, o dinheiro, os objetos pessoais dos alferes, murros, chibatadas, insultos da companhia inteira, exausta por muitos meses de guerra, dos soldados a quem se haviam tirado as armas para que se não assassinassem uns aos outros na caserna, depois das últimas cervejas. Faltava dinheiro, faltavam calças, faltavam camisas, apodrecíamos de parasitas, de paludismo, de água choca, de medo, e os três negros, com as feições irreconhecíveis pelos inchaços das pauladas, eram os culpados dos tiros, da angústia, da estupidez da guerra, e como tal desatámos a deixar tombar sobre os seus peitos, sobre os ventres, sobre as coxas, pontas acesas de cigarro, fósforos a arder, morrões de cinza, que pregueavam a pele de bolhas translúcidas que se elevavam e estalavam”.

Quando a viagem caminha para o fim, outra memória traiçoeira o assalta, desta vez o quartel de Mangando:

“- Porque é que as pessoas se matam? – perguntou o alferes.

Estávamos no quartel de Mangando, junto à fronteira com o Congo: mais alguns quilómetros e via-se sobre o rio o acampamento do MPLA do outro lado. Mangando é uma pequena povoação sem importância, tão sem importância que nenhum mapa, nenhuma carta a refere, composta por uma sanzala miserável, um renque de palmeiras desdentadas e calvas, a casa onde o chefe de posto escondia a sua amante negra, e o círculo de arame-farpado em torno das barracas de madeira da tropa, onde um pelotão seminu, trémulo de sezões, apodrecia. Eram cinco horas da manhã e o suicida acabara de morrer depois de muito de desesperadas convulsões diante dos nossos olhos espantados. O suicida acabara de morrer e jazia, tapado com um lençol, num cubículo vizinho”. Mas havia mais lugares de desespero naquela latitude de Angola, como ele recorda: “Eu conhecia o Mussuma, a dez quilómetros da Zâmbia. Fora lá muitas vezes, de avioneta, levar comida fresca e medicamentos a um grupo de homens maltrapilhos, de espingarda, metidos num buraco como ratos. De longe, os telhados de zinco cintilavam ao sol: era uma cova de caixão do tamanho de um corpo inerte, de um corpo fatigado. Entrava-se no arame e a boca enchia-se de terra como a dos defuntos, que se mastigam a si próprios no silêncio de mogno dos caixões”. É uma das recordações mais dramáticas e mais pungentes, à volta de um suicídio de quem não se conhecem os porquês. É assim o espanto da vida, da profissão de médico, dos sulcos vincados que perduram no ex-combatente, que viajam até no conhecimento do inferno.

São estes os primeiros livros de António Lobo Antunes, um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos. Recordações inextinguíveis nalgumas das melhores páginas da literatura da guerra colonial.

 

Mário Beja Santos

 

 

 






terça-feira, 2 de março de 2021

Portalegre, as tapeçarias.



O dia 9 de Março de 2013 foi um Sábado, e como era normal comigo em Argel, levantava-me um pouco mais tarde  e escrevia. Guardei assim desse período “argelino” da minha vida uma quantidade de escritos que agora mostram o que fui e senti nesse tempo.

Nesse dia escrevi:

“…Os jornais portugueses acompanham-me durante mais tempo que em Portugal. Antes de os deitar fora leio e releio procuro coisas que me toquem.

No Expresso de há uma semana, 2 de Março, vinha um artigo sobre as Tapeçarias de Portalegre.

Esta arte foi talvez menos mitificada em Portugal que outras. Naquela fúria de complexo de inferioridade português que “aí somos os melhores do mundo”. Assim éramos o primeiro produtor mundial de cortiça, os doces de ovos eram únicos, as nossas praias inigualáveis, etc.etc..

Eu em novo ainda fui nessa cantiga, mas depressa percebi que, por exemplo, a Espanha que eu tinha sido ensinado a ver como inimigo e como canto ignorado, era um país soberbo, com um flamenco que me leva às lágrimas, com uma cidade – Barcelona – que não conheço outra igual, com uma alegria e um fogo de pasmar, com Plazas Mayores cheias de gente ao fim da tarde…

Há medida que ia ficando mais velho percebi que o que era mesmo bom era a diferença. Deixei de perceber aquela gente que diz que gosta da Primavera, ou do Outono. Eu gosto é do rolar das estações. Gosto da chuva e dias cinzentos pela força e nostalgia. Gosto dos dias cheios de sol pela vida que nos trazem. Gosto do nevoeiro pelo mistério. Gosto da tempestade pelo que me assusta.

Gosto da terra por que é firme. E do mar porque se move e é líquido. Gosto do meu País, porque é meu e nele fui formado. Mas gosto da França porque é bela. E da Inglaterra porque é confortável e teatral. E da Itália porque de lá vimos. E de tantos outros pelas razões que cada um tem.

Gosto de me encantar e que me embalem os sonhos com novos sonhos.

Tudo isto para voltar ao Expresso e às Tapeçarias de Portalegre.

A jornalista que escreveu o artigo teve a sensibilidade e o bom senso de transcrever “ipsis verbis” as opiniões da responsável pela Manufactura, Fernanda Fortunato, que entrou na casa em 1957, a Escola Industrial feita, para o desenho de preparação das tapeçarias:

“…Encontrei lá colegas antigas da Escola Industrial, mais velhas que eu e uma do meu tempo. Diz-me ela: “Estou a ampliar é assim e assado” (…)  não percebia nada mas ia dizendo que sim com a cabeça.   Não houve aprendizagem nenhuma, nem preparação nenhuma. Mas lá fiquei a trabalhar sozinha no turno da noite, das 19 h à meia-noite. Estava projectado na parede um desenho do Almada, uma tapeçaria que está no Forte de Santa Luzia em Viana do Castelo, “A passagem do Rio Lethes”. Com toda a atenção ia desviando o original e desenhando quadrado a quadrado. Consegui que aquilo batesse certo, pensei. Passada a fase de correcção, porém, comecei a olhar e apercebi-me que não tinha dado ao desenho a alma necessária – na altura não lhe chamei isso – percebi que alguma coisa faltava na forma que eu lhe tinha dado. Foi então que comecei a desenhar como deve ser. (…) Dei-me conta tão tarde que me tinha apaixonada pelas tapeçarias que nem sequer sei quando foi. Terá sido pouco a pouco? Terá sido repentinamente? Não sei. Talvez tenha sido fruto de uma descoberta de um outro mundo, de uma sensibilidade que não conhecia e sobretudo da relação com os artistas. (…) Isso mexeu muito comigo. Aquele mundo que parece irreal,  aquelas sensibilidades todas que se calhar têm a ver comigo e que não estavam exploradas… Uma pessoa não se pode esquecer de onde vem e eu tenho isso muito presente. (…) O Almada e a mulher do Almada, casal exemplar, a sabedoria daquele homem, a capacidade de criar. A Maria Keil, uma senhora deliciosa, bonita, pequena, a caminhar na nossa sala de desenho tinha uma ondulação… O arquitecto Raul Lino, que veio cá com a esposa dele, já com 90 anos, que maravilha de casal… Eu fiz uma aprendizagem com essa gente toda e eles deixaram-me muito na passagem por aqui. O Renato Torres que tinha sido meu professor na Escola Industrial e que vim a encontrar aqui, tinha afinal razão. Todo aquele sofrimento de que ele falava nas aulas e que eu nunca percebi enquanto aluna, o sofrimento de quem cria, só o entendi a conviver com artistas. Uma pessoa não percebe essa dor enquanto não lida com eles. É por isso que é tão importante conhecê-los. Quando depois estamos a mexer nas coisas deles, intuitivamente somos capazes de perceber porque pintaram assim.(…) É preciso viver com os terrores da Paula Rego, como é que uma pessoa lhe pode chamar, é preciso conviver comos universos complexos de Armando Alves, de Júlio Resende, de Vieira da Silva e de Arpad, com o impacto da cor de José de Guimarães, com humor de Júlio Pomar, com a generosidade de Camarinha…Tenho medo de me esquecer de alguém… Mas nada disto se explica sem ser vivenciado, partilhado. (…) Eduardo Nery, Rigo (…) são pessoas extraordinárias, também. Mas agora olho para eles e sinto-os muito meninos. Está lá tudo, mas é de outra forma. Eles também são outros. Há uma forma de estar diferente. Por isso pintam de uma maneira diferente. As desilusões parece que não são tão fortes. Há outras esperanças… A Joana Vasconcelos, por exemplo, é muito engraçada porque tem uma exuberância que me fala de alegria, não me fala de sofrimento. Ela é cor, e a tapeçaria também. A tapeçaria é tudo o que eles quiserem. ”

Tudo isto é prodigioso e não há comentários possíveis…”

Eis senão quando, por afazeres profissionais de necessidade de restauro de um grande tapeçaria, me dirigi à Manufactura de Tapeçarias e tive o gosto de ter visita guiada pela mesma Senhora Dona Fernanda Fortunato que, mostrando-me, com simplicidade, o extraordinário acervo de milhares de cartões assinados por uma plêiade de artistas, o cuidado na guarda de novelos com dezenas de anos para eventuais restauros em cores originais, na explicação de que a lã utilizada é, pela necessidade de grande qualidade, não só da matéria prima como da tosquia, a proveniente de ovinos australianos e  só da zona da cabeça e, finalmente no trabalho artesanal que se desenvolve na transcrição dos cartões e na feitura de tapeçaria a que assisti, confesso que com comoção, ao entrelaçar manualmente fio a fio numa teia que se estendia num tear manual ao longo de metros e me era explicado a diferença entre Portalegre e Gobelins.

Depois, numa voz simultâneamente simples, triste e resignada, a Senhora Dona Fernanda Fortunato contou-me o fim anunciado da Manufactura, sem muito dinheiro para pagar a pessoal, sem qualquer acordo com um qualquer Ministério para formar pessoal na arte, sem encomendas do Estado que seria a ajuda que se pediria.

E já de saída, no pequeno museu, entre cartas de Régio e Almada, pasmei perante a beleza de Sintra plasmada em tapeçaria à espera de comprador.

 

 

Portalegre, Abrigada, 18 de Fevereiro de 2021

 

Miguel Geraldes Cardoso






domingo, 28 de fevereiro de 2021

Uma grande notícia.

 



https://amensagem.pt/





Vergonha na cara, ou falta dela.





 

Perante este massacre, o Sr. Presidente da Fencaça, mudando radicalmente a opinião avançada há dois meses, diz agora que não se tratou de uma «caçada», mas, pasme-se, de uma «correcção de densidade». (aqui)

A explicação é simples: como foram abatidos 600 hectares de floresta para construir um parque fotovoltaico, os animais ficaram sem abrigo. Logo, havia que matá-los ou, melhor dito, «corrigir a sua densidade».

Resta saber como foi possível, numa propriedade de 1200 hectares, autorizar a destruição de 600 hectares do seu arvoredo.

E, já agora, porque foram chamados caçadores espanhóis para «corrigir a densidade».

E, sendo obrigatório apor um selo por cada animal morto numa montaria, como é possível a proprietária do terreno dizer que emitiu apenas 40 selos, as autoridades terem encontrado 270 canhotos de selos na herdade e, no final, terem sido mortos 540 animais. De 40 para 540 há uma diferença, não? Como a explica o senhor Amaro?

Ao vir agora defender esta matança, Jacinto Amaro, presidente da Fencaça, além de se cobrir de ridículo, acaba por confessar o óbvio: foi a delegação de Évora da Fencaça (a organização de que ele é presidente há 29 anos) que emitiu as licenças para os 16 caçadores espanhóis poderem caçar em Portugal.

Não lhe ocorre que, perante este grotesco e pornográfico conflito de interesses, o melhor seria ter estado calado? Não lhe ocorre que, com isso, mancha de forma indelével a imagem da caça e dos caçadores portugueses, que é suposto representar?

Uma falta de vergonha completa.









quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Aaaaa… Michurin!




A valsinha nada tem de primaveril e a Primavera ainda está longe. Se lhe fosse acrescentado um ponto de exclamação ao nome, soaria até como um espirro: “Michurin”! Mesmo assim, quer-me parecer que só nasceu para sacudir a letargia de jardins de fim de Inverno, seja a invernia em sentido literal ou figurado -- e a letargia, a do corpo ou a do espírito.  

O que é certo é que Dimitri Chostakovitch a compôs para um filme com jardins em paragens frias. Mais exatamente, sobre alguém que fez nascer jardins -- muitos jardins -- em sítios frios: Michurin. Ivan Vladimirovich Michurin, jardineiro, hortelão, colecionador de plantas e grande agrónomo autodidata.

Tão grande que recebeu convites para ir vicejar na América, mas preferiu continuar plantado na Rússia dos Czares, tão hostil às suas ideias. Lá perseverou e hoje, pelo mundo fora, há jardins comunitários com o seu nome.

O jardinzinho que começou por criar na sua cidade natal, esse, foi crescendo até se transformar num portentoso horto público.

Há histórias assim. E música a condizer com elas.




Manuela Ivone Cunha

 

 


terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O Príncipe Maquiavélico?


 




“Todos vêem o que tu aparentas ser, poucos sabem realmente aquilo que tu és;

e esses poucos não se atrevem a contrariar a opinião dos muitos.”

Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Capítulo XVIII, 1532

 

No 40.º aniversário do noivado de Carlos de Inglaterra

e Diana Spencer, a 24 de Fevereiro de 1981.

 



Numa recente visita virtual à KPMG para assinalar os 150 anos da empresa, a Rainha Isabel II falou através de uma plataforma electrónica com sócios e funcionários. Entre eles estava John McCalla-Leacy, ex-atleta olímpico, sócio da KPMG e o primeiro negro a chegar ao Conselho de Administração da empresa.

 

Nascido em Londres, filho de pais jamaicanos, cresceu num típico bairro operário com um ambiente duro. Durante a conversa, John McCalla-Leacy pediu à Rainha para transmitir o seu agradecimento ao Príncipe de Gales pela oportunidade que, através da sua fundação The Prince’s Trust, recebeu enquanto jovem e que lhe permitiu encontrar novos horizontes e chegar onde chegou.

 



 

Isabel II realçou o orgulho que o Príncipe de Gales tem na The Prince’s Trust, uma organização que ao longo da sua história de quase 45 anos ajudou centenas de milhares de jovens de ambientes desfavorecidos a encontrar a sua oportunidade de mobilidade social, de fazer com que o elevador social funcione.

 

Já há dois anos, a longeva Rainha, sublinhando o privilégio de qualquer mãe fazer um brinde nos 70 anos do filho, lhe fez o rasgado elogio de o considerar capaz de ombrear com qualquer herdeiro do trono da história, “um campeão da conservação das artes, um grande líder da caridade (...), entusiasta e criativo”.

 

Contudo, poucas pessoas associarão o Príncipe de Gales com estas características ou com estes elogios ou, sobretudo, com o extraordinário serviço que vem prestando ao longo dos anos, tal é a força mediática que consistentemente o oblitera, em detrimento dos revezes da sua vida matrimonial ou das roupas usadas pela sua mulher ou pelas suas noras.

 

O Príncipe de Gales será uma vítima precoce da ‘cancel culture’, destinado a ver vilipendiado nos média e nas redes sociais, diga o que diga – ainda que diga o que está certo.

 

* * *

 

Quando Nicolau Maquiavel escreveu O Príncipe, a obra que perpetuou o seu nome enquanto autor mas sobretudo enquanto adjectivo para qualificar a perfídia e a falta de princípios, já Henrique VIII reinava em Inglaterra com Catarina de Aragão, a primeira das suas seis mulheres, a seu lado.

 

Notável pela brutalidade da sua análise e pela forma crua como subjuga princípios morais à concretização dos objectivos de poder, O Príncipe parece falhar na previsão da importância da vida matrimonial dos príncipes na manutenção desse poder. Tivesse Maquiavel vivido mais vinte anos e faria certamente uma adenda às edições subsequentes.

 

De facto, de Henrique VIII e memória colectiva retém pouco mais que a mnemónica “divorced, beheaded, died, divorced, beheaded, survived” para memorizar a sequência prodigiosa de mulheres com que tentou, sem sucesso a longo prazo, perpetuar nos seus descendentes a linhagem dos Tudor.

 

Pouco importam os seus grandes feitos políticos e as suas notáveis vitórias diplomáticas. Foi, para memória futura, o rei obeso que, para se divorciar, originou uma cisão na Igreja que dura até aos nossos dias e que tratou cruelmente seis rainhas, sempre em busca de um herdeiro.

 

O actual Príncipe de Gales parece estar há mais de 30 anos enredado em problema semelhante: tudo o que faz de bem parece evaporar-se da memória colectiva. A menção do seu nome desperta nas pessoas apenas a reacção às suas desventuras matrimoniais. A quarta temporada da série The Crown, da Netflix, abusa dessa imagem, inventando e distorcendo factos sem pudor, nem piedade. De tão bem feita que está, os espectadores facilmente esquecem que estão a ver uma ficção, ainda por cima muito parcial.

 

Ao longo dos episódios é-nos mostrado um príncipe que apenas se incomoda com a sua mulher, sem que se lhe veja qualquer acção positiva – num contraste com o Carlos da temporada anterior, preocupado em sublinhar a sua identidade e em vincar diferenças com uma instituição que é mostrada com algum do seu arcaísmo. Sobretudo, num contraste absurdo com a realidade.

 

É inequívoco que as questões matrimoniais foram, ao longo dos séculos, fundamentais para a realeza – e para as nações. O Padre António Vieira sintetizou-o de forma crua ao dizer que “reino sem sucessor é despojo”, no sermão que pregou pelo nascimento da Infanta D. Isabel Luísa Josefa, futura Princesa da Beira, filha de D. Pedro II, então Príncipe Regente, e da sua primeira mulher.  

 

A escolha de uma futura rainha (ou de um sogro poderoso) foi uma arma política importantíssima desde os alvores das monarquias como as conhecemos. Até meados do século XX, a escolha de uma consorte foi condicionada por factores políticos ou dinásticos, e eram, nas dinastias reinantes, verdadeiras decisões de Estado.

 

Muito embora tenha perdido a importância para a sobrevivência das nações a que o Pe. António Vieira aludia no seu sermão, a vida matrimonial do príncipe, do rei, terá sempre relevância constitucional e dinástica, seja pela posição que  tributo  de Inglaterra  assiste nas rr, preocupado em sublinhar a sua identidader a sua oportunidade de fazerr o à consorte estará destinada, seja pelo objectivo habitualmente subjacente ao casamento de um herdeiro, que é o de garantir a sucessão e a continuidade da Casa.

 

Não deixa de ser uma ironia que, quando perdeu boa parte a relevância para a sobrevivência do Estado, seja uma questão matrimonial a pairar de forma tão persistente como avassaladora sobre um reinado por começar.

 

Manifestamente prejudicado pela preponderância que a percepção da sua vida pessoal assumiu na opinião pública, o desempenho de Carlos enquanto herdeiro do trono – uma posição difícil, de esperar, pacientemente e certamente sem nunca o desejar, que a mãe morra, para se cumprir o destino que lhe estava reservado quando veio ao mundo – é totalmente ignorado. E, no entanto, destaca-se pelo acerto das causas que abraçou.

 

* * *

 

Mobilidade Social, Ambiente e Arquitectura serão os temas mais marcantes da acção desenvolvida pelo Príncipe de Gales desde que, tendo completado a sua educação universitária e militar, se estabeleceu como herdeiro do trono a tempo inteiro, há bem mais de 40 anos.

 

Com cerca de 7.400 libras esterlinas da indemnização que recebeu ao sair da Marinha, fundou a The Prince’s Trust, ou Fundação do Príncipe, porventura a sua mais notável criação. Através de uma rede de micro projectos e de ligações a empresas, constituiu uma rede para apoiar a formação e a empregabilidade de jovens oriundos de ambientes desfavorecidos.

 

Quase um milhão de jovens terão sido ajudados ao longo de quatro décadas, com um impacto económico enorme mas sobretudo com uma relevância social incalculável, através de apoio financeiro de talentos e de start-ups, de formação, de estágios.

 

São muitos os testemunhos de pessoas que, ao longo destes 40 anos, foram ajudados pela Fundação do Príncipe. De actores a músicos, passando por empresários que começaram com um apoio de 1000 libras da Fundação e acabaram a facturar 30 milhões anuais e a chegar à direcção de design da Coca-Cola.

 



Consciente do impacto da pandemia nos mais jovens, nos mais desfavorecidos e também nas instituições que vivem da angariação de fundos para os ajudarem, o Príncipe de Gales tem-se empenhado em encontrar novas formas de angariar fundos para o que o trabalho notável da sua organização não seja travado pelo Covid-19 e “a crise não defina as oportunidades de uma geração”.

 

Num vídeo publicado em Junho de 2020 refere o desafio de vencer em tempos do caos e da desordem económica, mas que “foi por isso que a minha Fundação foi fundada, para ajudar pessoas para um futuro melhor”. Mais do que boas intenções, a Fundação tem resultados concretos para apresentar.

 

Será porventura no Ambiente que a intervenção de Carlos de Inglaterra é mais constante ao longo do tempo. As primeiras intervenções sobre o assunto remontam ao início dos anos 70, quando o plástico ainda parecia a última maravilha e ninguém conseguiria convencer o mundo ‘moderno e promissor’ dos riscos que a poluição representava.

 

Ainda recentemente, falando com evidente paixão e conhecimento de causa, o Príncipe de Gales lançou mais uma iniciativa para sensibilizar o mundo para necessidade de para a destruição da natureza com efeitos permanentes, pondo em causa o futuro dos nossos filhos e netos. Mais do que alertar, a iniciativa pretende, sector a sector, analisar de forma concreta a forma como se pode descarbonizar a indústria e torná-la mais sustentável e amiga do ambiente.

 


 

Durante a polémica visita do polémico Presidente Trump a Londres em 2019, confrontou-o com o seu negacionismo das alterações climáticas, apelando à mudança de posição, mesmo sabendo de antemão a parede que tinha diante dele. Já este ano, representou o Reino Unido na cimeira virtual pelo ambiente que o Presidente Macron organizou e quase todos os meses incentiva os ingleses a fazerem algo positivo a pensar no Mundo em que vivemos.

 

A intervenção de Carlos de Inglaterra nos diferentes domínios e não apenas nos enumerados, mereceria uma análise mais exaustiva, que desiludiria porventura os que procuram o brilho de diamantes e de lantejoulas, mas que elucidaria sobre a utilidade, no século XXI, da Monarquia britânica.

 

* * *

 

Maquiavel sublimou a imoralidade ao subjugar os princípios para privilegiar os fins, que tudo justificavam. O autor de O Príncipe defende a dissimulação, a mentira, a aparência, até evitar as boas obras – tudo como forma de manter o poder. Carlos de Inglaterra parece ter feito o contrário.

 

Escolheu admitir os seus erros privados em público. Quando podia ter esperado numa quietude cómoda, decidiu intervir. Fê-lo em nome dos princípios que considera relevantes para a sociedade – mesmo quando (ou sobretudo quando) a maioria, a opinião pública e a opinião publicada, vão em sentido contrário. O que é meio caminho andado para a impopularidade e para se tornar alvo do que se veio a designar a ‘cancel culture’.

 

Passou por defensor lunático do ambiente, quando ninguém via o ambiente em perigo. E, no entanto, há registos do Príncipe, há 50 anos!, a alertar para o perigo que os plásticos representavam para os oceanos.

 

Passou por retrógrado quando ainda nos anos 70 se insurgiu contra a destruição da construção tradicional e a devastação do campo britânico para construir bairros descaracterizados, sem alma e insustentáveis. E, no entanto, a realidade tem vindo a dar-lhe razão, com o abandono sistemático de prédios e bairros construídos nessa época ou com a constatação de que se transformaram em locais nada aconselháveis.

 

Escreveu a ministros e a Primeiros-Ministros, procurando usar a sua influência para mudar decisões que considerava erradas. Sucessivos governantes, especialmente trabalhistas, queixaram-se desse método de agir na margem (ou no vazio) da constitucionalidade – chegando a questionar no Parlamento o direito de o Príncipe fazer essa ‘pressão’.

 

O The Guardian, sempre muito pouco monárquico, procurou ter acesso aos memorandos que acabaram conhecidos por “Black Spider memos” e que, na opinião de alguns, mostravam um Príncipe a ultrapassar as barreiras constitucionais de intervenção nos assuntos de governação.

 

Os documentos acabaram por ser divulgados por ordem judicial e mostravam uma enorme latitude de intervenção política, mas sobretudo o entusiasmo que Carlos de Inglaterra colocava na defesa dos assuntos que abordava. A questão tornou-se de tal forma relevante que há dois anos o Príncipe teve de esclarecer que, enquanto rei, não actuaria da mesma forma.

 

* * *

 

A longuíssima era isabelina que a Inglaterra vive desde 1952 é inédita por muitos motivos. Não é apenas o reinado mais longo de sempre, assistindo sob o peso de uma mesma coroa à passagem solene de primeiros-ministros, papas e presidentes. É também aquele que é sujeito a um escrutínio mais exigente, não apenas da soberana, mas de toda a sua família, de cada gesto privado e público.

 

Se é verdade que o poder de Isabel I de Inglaterra (r. 1558-1603) era bastante maior do que o da sua homónima, não é menos verdade que as mudanças sociais, políticas, religiosas e tecnológicas nunca foram tão profundas como no actual reinado. O reinado que se segue começará num mundo radicalmente diferente daquele, ainda reverencial, que viu uma jovem de 26 anos tornar-se Rainha de Inglaterra.

 

Em  1992, para comemorar os seus 40 anos de reinado e num momento de enorme fragilidade pessoal, Isabel II pronunciou aquele que é certamente um dos mais relevantes discursos da sua vida. Para a história ficou conhecido como o discurso do “annus horribilis”, mas é na reflexão da Rainha sobre a importância do decurso do tempo e da retrospectiva no julgamento dos acontecimentos, que está a parte fundamental.

 

Usando palavras que pareciam ecoar as de Cristo – «Quem de vós estiver sem pecado, atire-lhe a primeira pedra!» (Jo 8, 7) – Isabel II pediu compaixão, tolerância e gentileza, ainda que reconhecendo a necessidade de mudança e de adaptação de todas as instituições, incluindo o Monarca.

 

É inequívoco que a Monarquia tem procurado adaptar-se às novas circunstâncias – para permanecer relevante e útil a uma sociedade em que muitos procuram mostrá-la como desajustada.

 

O Príncipe de Gales tem sido o líder desse objectivo de modernização e de adaptação à nova realidade, como qualquer análise séria e descomprometida permitirá verificar. Tem-no feito, contudo, sem evitar os temas difíceis.

 

A utilidade que procurou dar ao lugar que ocupa foi a resposta a um certo vazio funcional da sua posição. Sem fazer sombra à Soberana, procurar servir o povo britânico e cumprir a divisa que acompanha o seu título: Ich dien (Eu sirvo). Maquiavel ficaria desiludido.

 

Ademar Vala Marques







segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Chalet Froebel, Jardim da Estrela: demolido.






Imagens do Fórum Cidadania Lx





O pianista Sequeira Costa (1929-2019) e reminiscências musicais.

 




Pela segunda semana do meu primeiro ano de seminário, fui um dos quatro ou cinco seleccionados, entre uns oitenta e tal alunos, aproximadamente, todos primeiranistas, para aprender a tocar piano, a fim de a Congregação Salesiana poder contar sempre com um número razoável de clérigos, padres e coadjutores devidamente habilitados para desempenharem o importante e nobre papel de futuros mestres de canto coral, de mestres de banda, de pianistas, de organistas e de professores de música nos seminários menores e maiores e nos colégios.

Como a frequência de qualquer conservatório estava fora de questão, para evitar, a todo o custo, por princípio e tradição, expor os futuros mestres e professores aos meios mundanos, supostamente perniciosos à sagrada vocação religiosa, não é preciso dizer que, salvo raríssimas excepções, a competência dos mestres e professores de música era de uma mediocridade gritante e confrangedora.

A referência às “raríssimas excepções” baseia-se no facto de, por um feliz acaso, aparecer, lá muito de longe em longe, uma rara avis, quer dizer, um seminarista com dotes tão extraordinários para a música e por ela tão apaixonado, que, por si só, num golpe de auto-didactismo exemplar e quase miraculoso, conseguia aprender a tocar plausivelmente bem os instrumentos musicais, tais como o piano e o órgão, e aprender os princípios fundamentais da composição, a ponto de vir a ser capaz, não só de fazer arranjos musicais, tais como transformar um canto a uma voz num canto a duas, três ou quatro vozes, ou transformar um acompanhamento difícil num acompanhamento fácil, mas até de ser capaz de compor uma peça de música original.

Perante essa vocação para a mediocridade, por parte da instituição religiosa, chegou o momento em que dois dos cinco seminaristas, já estudantes do primeiro ano de Filosofia (1952-53), literalmente envergonhados da triste figura que faziam quando eram obrigados a acompanhar ao órgão as missas destinadas a um público em que certamente havia fiéis com elevada formação musical e habituados a assistir à ópera, a recitais ou a concertos dados por grandes músicos profissionais, dois dos cinco seminaristas (os outros três tinham voltado para a ... mais apetitosa vida do século), repito, encheram-se de coragem e fizeram ver ao padre superior do seminário maior – Instituto Filosófico Salesiano do Estoril - que, uma vez que não os deixavam frequentar o conservatório, pelo menos lhes contratassem um competente professor de piano que lhes desse uma ou duas lições semanais. Advogaram tão vigorosamente a sua causa, que o padre superior, embora com certa relutância, decidiu contratar um professor de piano, digno de tal nome.

Chamava-se Doria Meunier; era de origem francesa; e era um estupendo pianista, de cujo currículo constava que tinha sido, durante vários anos, pianista do transatlântico português Santa Maria e que muitos dos seus concertos eram transmitidos pela Emissora Nacional, a que nós, seminaristas, raramente tínhamos acesso, e, sempre que isso acontecia, era com o beneplácito expresso dos superiores e sob a sua superior supervisão. Porém, manda a verdade que se diga que, como professor de piano, Doria Meunier era a incompetência em pessoa.

A ver se me explico por meio de exemplos. Chega a primeira aula de piano e que faz o professor Meunier? Senta-se ao piano e diz-nos que reparemos como ele executa a célebre Marcha Fúnebre de Chopin. Quase transfigurado, como muitos dos artistas possuídos do daimon de Sócrates, de que fala o divino Platão, toca essa sublime sonata, totalmente de cor, e no fim, a suar por todos os poros, enquanto limpa o rosto a um lenço vermelho, pede-nos os aplausos que nós ambos, como qualquer apreciador normal, não lhe podíamos regatear.

Feito um breve intervalo, para repouso do artista, pede-nos que reparemos se a peça que ele vai executar não é obra de outro génio da música. E, proferidas estas palavras, executa, com o mesmo furor daimónico, a Appassionata de Beethoven, sem sequer abrir a partitura. Entusiasticamente aplaudido por nós, que fez ele, após uns minutos de descanso? Quando imaginávamos que nos ia mandar sentar ao piano, um após outro, e nos fazia tocar um ou dois exercícios de Czerny e um ou dois andamentos das Sonatinas de Clementi ou de Kuhlau, para verificar a posição dos dedos, por exemplo, e para avaliar o nosso nível musical, como aprendizes de piano, que é que fez o nosso indigitado mestre de piano? A propósito da famosa sonata de Beethoven que ele acabara de tocar magistralmente, falou-nos, em bastante pormenor, com visível entusiasmo, de um jovem músico português, menino-prodígio, chamado Sequeira Costa, o qual, em plena adolescência, cometera a proeza de dar um recital de piano em que executou de cor todas as sonatas de Beethoven, o que lhe valera a recepção de um prémio muito especial e a fama imediata.

Depois de nos maravilhar e de nos deixar embasbacados e deslumbrados com a narração dos êxitos fulgurantes e retumbantes desse pianista prodigioso que, desde criança, demonstrara um talento tão extraordinário para o piano, que, aos oito anos de idade, deixou Luanda, onde nascera, em 1929, para ir para Lisboa estudar com o famoso pianista e mestre Vianna da Motta, o nosso novo professor de piano, executou, com o maior vigor e brilhantismo, a Polonaise Heróica de Chopin e deu por finda a lição.

Daí a dias, Doria Meunier voltou para nos dar uma segunda lição de piano, sensivelmente nos moldes em que nos dera a primeira. Tocou ele e nós não tivemos outro remédio senão ouvi-lo e aplaudi-lo. A partir desse momento, o nosso famoso e putativo professor de piano passou a mandar-nos um filho dele, o qual pouco mais sabia que nós e, quanto a competência didáctica, era mais ou menos o retrato do pai, fazendo jus ao velho adágio: tal pai, tal filho.

Quando o Padre Director nos perguntou, passado algum tempo, se gostávamos do professor de piano, tivemos que lhe confessar, com toda a sinceridade, que sim e que não. Convidados a explicar-lhe esse aparente paradoxo, não tivemos outro remédio senão fazê-lo. Perante esse facto, o Padre Director apenas nos disse que a Ordem era pobre e que não dispunha de dinheiro para gastar com professores desses: que nos contentássemos com a prata da casa, isto é, com o professor que tínhamos, o qual não passava de um pobre amador, mas que tinha competência suficiente para nos ensinar o indispensável, garantia ele a pés juntos, a fim de podermos acompanhar, atabalhoadamente, ao órgão as missas cantadas e acompanhar ao piano os cantos e as operetas, por ocasião das muitas festas em que a Congregação Salesiana era pródiga.

Conclusão. Para nossa frustração e tristeza, a nossa modesta e legítima aspiração a uma formação pianística elementar não encontrou quem podia e devia remediá-la.

Voltando ao grande pianista português Sequeira Costa, vou contar brevemente o que aconteceu em 1981. Ocupando, desde 1976, o prestigioso cargo de Cordelia Browm Murphy Distinguesd Professor of Piano na Universidade de Kansas, em Lawrence, tendo renome internacional e tendo dado concertos de piano a solo e concertos com grandes orquestras através do mundo e nas salas de música mais célebres, em Fevereiro de 1981 pôde finalmente realizar um dos seus sonhos, que é o de todos os grandes pianistas do mundo inteiro. Com o patrocínio do Consulado-Geral de Portugal de Nova Iorque, da Câmara do Comércio Luso-Americana da mesma cidade e da Fundação Calouste Gulbenkian, Sequeira Costa deu um concerto de piano a solo na lendária Carnegie Hall de Nova Iorque.

           Não é necessário dizer que, tal como outros carolas de outros estados próximos de Nova Iorque, com a velha Pátria sempre na mente e no coração, o Cônsul Honorário de Portugal em Connecticut e o abaixo-assinado fizeram o máximo de publicidade entre a vasta comunidade luso-americana para levar um bom contingente de espectadores a esse auspicioso concerto. Além da publicidade feita, eu, por exemplo, por minha parte, orgulhoso por poder mostrar à América que em Portugal também havia grandes pianistas e se fazia, embora em tom menor, alta cultura musical, convidei quatro casais amigos, da minha universidade, sabendo de antemão, por experiência própria, que todos tinham considerável formação musical e apreciavam a grande música romântica, especialidade de Sequeira Costa.  

          Para minha desagradável surpresa, eterno optimista, a celebérrima Carnegie Hall estava muito longe da enchente esperada.

         Como é natural, o pianista esteve à altura do prestígio de que gozava através do mundo, ou, como diria o meu amigo Manuel Gaspar, não deixou os seus pergaminhos por mãos alheias. Entretanto, quando, na manhã do dia seguinte, abro o New York Times para ler a recensão da praxe, venho a encontrá-la, escondida e envergonhada, no fundo de uma página, na secção das Artes, reduzida a umas magras linhas em que apenas era posta em destaque a curiosa peça que o célebre pianista português tocara como brinde, ou “encore”: uma sonata do compositor português João Domingos Bomtempo (1775-1842), lamentavelmente desconhecido do público americano e, muito provavelmente, do crítico musical do New York Times.

            Ao chamar a atenção da Jane e George Reinhardt, dois dos meus oito convidados e ambos competentes musicólogos, para essa modestíssima recensão, apressaram-se a dizer, em uníssono, que outra coisa não era de esperar, dado o reportório que o pianista português escolhera, abrindo o concerto com a Appassionata de Beethoven e prosseguindo com as peças mais frequentemente executadas pelos mais célebres intérpretes da música romântica para piano. Que essas icónicas peças as tinham visto os novaiorquinos executar aos maiores pianistas do mundo inteiro. Que o que esperavam de Sequeira Costa era um reportório diferente, só dele, e que ele desperdiçara estultamente essa oportunidade única. 



                              António Cirurgião