domingo, 8 de novembro de 2026

O documentário Naza (o morticínio programado de Gaza) e o horror nazi no gueto de Varsóvia.

 

 



 

          O documentário Naza está a provocar alvoroço pelo mundo inteiro (o trailer do filme pode ser consultado em:  https://www.youtube.com/watch?v=tAZNX0xtJo0Caros). Vamos assistir a 24 entrevistas a intervenientes de primeira linha, a começar por agentes dos serviços secretos israelitas, onde se explica o significado de Naza, o mesmo que danos colaterais. É preciso matar um membro do Hamas, um agente de quinta linha, ele é seguido pelos meios tecnológicos mais aperfeiçoados, descobre-se que vive num oitavo andar com mulher e três filhos, a uma determinada hora faz-se explodir o andar, ouvem-se os gritos das vítimas, descobre-se mais tarde que o homem do Hamas afinal não estava em casa.

          São 24 entrevistas que ocorrem em terraços de um prédio em Telavive, enquanto ouvimos as intervenções destes executores tecnológicos de palestinianos vemos imagens da vida da cidade, trânsito opulento, vidas domésticas, enfim, o contraste mais brutal que se possa imaginar com os horrores que estamos a ouvir de depoentes  devidamente não identificados, temem-se represálias por contar a verdade, ninguém deveria saber que o Estado de Israel montou uma sofisticada máquina de matança, inclusive há a linha vermelha que população desconhecedora em Gaza atravessa e são imediatamente liquidados a tiro. Qualquer coisas como ratos que saem da toca e são liquidados.

          Enquanto ouvia estes mais do que impressionantes testemunhos de executantes do terror, uns arrependidos de colaborarem em morticínios de inocentes, outros não tanto, ocorreu-me uma não menos tenebrosa história contada por Curzio Malaparte no seu inesquecível livro Kaputt, escrito entre 1941 e 1943, quando este insigne escritor italiano percorreu frentes de batalha dos alemães ou com eles conviveu em territórios ocupados. Malaparte dirá que escreveu um livro cruel, antecedeu o que a escritora Hannah Arendt comentou quando acompanhou o julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, quando falou na banalização do mal. Malaparte assistiu à resistência finlandesa à invasão soviética, há execuções bárbaras dos alemães na Ucrânia, há os massacres de judeus na Roménia, em dado momento, na Polónia ocupada, janta em Varsóvia com o governador geral, Hans Frank, e membros da sua comitiva, findo um opíparo jantar o governador propõe um passeio pelo gueto local. Ali chegados, Frank, rindo, diz a Malaparte que embora haja a pena de morte para quem viole a proibição de sair do gueto, os judeus entram e saem à vontade.

          “– Escalando o muro?

- Oh, não! – respondeu Frank. – Saem por pequenas aberturas, semelhantes a buracos de ratos, que cavam durante a noite na base do muro e escondem de dia com terra e folhas. Enfiam-se por esses buracos e vão à cidade comprar víveres e roupas. O mercado negro do gueto pratica-se em grande parte através desses buracos. De vez em quando, alguns desses ratos caem na ratoeira: são crianças de oito a dez anos, não mais. Arriscam a vida com um verdadeiro espírito desportivo.

- Arriscam a vida? – exclamei.

- No fundo – respondeu Frank – mais nada arriscam.

- Ruhe, silêncio! – disse um soldado que, de espingarda apontada, estava ajoelhado a alguns passos de nós, escondido por um montão de neve.

O soldado visou um buraco cavado no muro à flor do chão. Um outro soldado, ajoelhado atrás dele, espiava por cima do ombro do seu camarada. De repente este disparou. A bala atingiu o muro precisamente no bordo do buraco.

- Falhou! – exclamou alegremente o soldado, carregando de novo a arma.

Frank aproximou-se dos dois soldados e perguntou contra quem disparavam.

- Contra um rato! – responderam eles, rindo alegremente.

- Contra um rato? Ach so! – disse Frank, ajoelhando-se para olhar por cima do ombro do soldado.

Tínhamo-nos aproximado também, e as mulheres riam e meneavam-se, erguendo as saias até meio da perna como fazem habitualmente as mulheres quando se fala de ratos.

- Achtung! – disse o soldado, fazendo pontaria. Pelo buraco cavado a base do muro vimos aparecer um tufo de cabelos negros desgrenhados: depois duas mãos emergiram do buraco e apoiaram-se na neve. Era uma criança.

O tiro partiu. Desta vez ainda, falhou o objetivo por pouco. A cabeça da criança desapareceu.

- Dá cá isso – disse Frank com impaciência. – Nem sequer sabes servi-te de uma espingarda! – Apoderou-se da arma e fez pontaria.

A neve caía sobre o silêncio. (páginas 207 e 208 de Kaputt, por Curzio Malaparte, edição Cavalo de Ferro, 2020)

Há uma angustiante analogia entre dois ideários que se supunha ser radicalmente opostos. O nazismo falava em raças superiores e inferiores, admitia sem qualquer rebuço que precisava de espaço vital, Hitler escreveu que era imperativo uma solução final para a questão judaica, no gueto de Varsóvia havia mesmo o propósito de uma solução final. Malaparte visita o gueto de Varsóvia e há descrições que se aproximam daquelas que organizações humanitárias que reportam a Gaza, viver numa jaula como miseráveis feras indefesas, rostos com fome e com febre, ele dirá que uma vez por outra tinha que passar por cima de um cadáver. “Judeus mortos de Chagall. O silêncio das ruas da cidade proibida, esse silêncio glacial, percorrido, como por um arrepio por um ligeiro ranger de dentes, esmagava de tal maneira que a certa altura comecei a falar sozinho, em voz alta.”

É doloroso contatar que quer o filme quer o livro de referência de Malaparte são tentativas impossíveis de amena e objetivamente, tão simplesmente relatar o que se vê e o que se ouve, não há neutralidade possível, tudo descamba para aquela interrogação um tanto mortífera: a História repete-se, os radicalmente opostos acabam por obra do insondável acaso, por convergir, e justificar aos seus fanáticos que estão a lutar pela sua sobrevivência, a banalização do mal é uma necessidade vital? O espectador e o leitor que se acautelem.

 Mário Beja Santos


 

Tascas - as de sempre e as reconvertidas

 



As tascas portuguesas estão na moda. Não as de sempre. As reconvertidas. Com uma nova geração de donos, chefs à espreita, muita presença digital, reservas obrigatórias e cheias de turistas e nómadas de todo o tipo. Ainda bem. Antes isso que desaparecerem no meio dos smash burgers, frango frito, kebabs, tacos, ramen, poke bowls e, pasme-se, healthy fast food! Nada contra fast food, gosto de todos os exemplos anteriores. Aliás, é sabido que «em porta aberta, o justo peca».

Mas a tasca portuguesa de sempre é outra coisa. Por regra, até é mais barata, e o serviço é muitas vezes tão ou mais rápido. No resto, tudo é diferente. Variada sem exageros (viva o prato do dia!), respeitando o receituário tradicional, de carácter marcadamente regional, sempre adaptada aos produtos da época e de coinfecção caseira, por cozinheiros que não querem ser chefs. E uma certeza: nunca se transformará numa cadeia de restaurantes. Só não percebo como ninguém ainda se lembrou de a candidatar a património cultural da humanidade. Enfim.

Na Rua dos Caminhos de Ferro, em Santa Apolónia, Lisboa, encontram-se dois exemplos sintomáticos, praticamente lado a lado. No número 98, a Taberna Albricoque; no 82, a Maçã Verde. Em comum, o nome de frutas. Mais nada.

Na Albricoque, o ambiente é cativante. Uma bonita sala de uma antiga casa de pasto, chão de ladrilho hidráulico com padrão geométrico, tampos de mármore e estantes antigas, muito bonitas e bem iluminadas. É trendy e está lá tudo. Pratos que recuperam a tradição algarvia, da canja de lingueirão aos rissóis de berbigão, passando pelo xerém e pela alhada de raia. Tudo com apresentação cuidada, onde não faltam pequenas panelinhas e caçarolas muito fotogénicas. E até tem um chef de renome, ou pelo menos um consultor. Mas o que não tem é grande sabor. Fica tudo aquém das expectativas, com pouca alma. Os preços estão à altura do cenário: por menos de 40 euros não será fácil. Serviço impessoal e sem grande conhecimento do menu. Vale a pena lá ir? Sim, para conhecer. Depois, até se pode seguir a página no Instagram. Deve dar pontos…

A Maçã Verde, ali mesmo ao lado, está nos antípodas. Casa simples e familiar, com uma sala atulhada de mesas, porque os clientes são muitos, e decoração ao estilo snack-bar dos anos 80. Não falta sequer o frigorífico na sala, com bebidas, sobremesas e uma farta seleção de fruta fresca. O serviço é eficiente, profissional e conhecedor, sob a batuta do Sr. José Alves, há mais de 40 anos.

O menu brilha pela simplicidade. Grelhados de carne e peixe, iscas com elas, bacalhau à Brás e as especialidades da casa: chocos fritos à Setúbal e lagaradas de chocos ou de bacalhau (assado, lascado, com batatas cozidas desfeitas, azeite de alho e coentros frescos — um pitéu!). Não falta a alheira e até há umas simples salsichas frescas com ovo! Tudo cheio de sabor, servido em travessas de inox, muito antes de estas voltarem a ser tendência, e em doses generosas. Como não podia deixar de ser, quase tudo vem acompanhado de batatas fritas caseiras, que até podiam servir de teste do algodão num concurso de tascas. Com azeitonas e queijinhos, fruta, café e um copo de vinho, 17 euros, já com gorjeta.

Talvez a diferença esteja mesmo nos próprios nomes. Ao vulgar alperce, deram o antigo nome algarvio de albricoque, muito mais interessante. Já a simples maçã verde ficou como estava. Ainda assim, neste caso, com a vantagem de ser um fruto bem maduro.

 

                                                        José António Nogueira de Brito

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

É feijão, não me lixem!

 





Adoro feijão. Manteiga, encarnado, frade, preto e, sobretudo, branco. E grande. A feijoca é, pois, o melhor de todos. Desculpem-me os nacionalistas, mas o melhor prato de feijão do mundo é mesmo a fabada das Astúrias. Nada que ver com favas: é feijoca e leva apenas chouriço, barriga fumada e morcela. Talvez umas rodelas de cenoura. E pronto. Mais nada.

Como se não bastasse, heresia maior, no meu ranking vem logo a seguir o cassoulet do Languedoc. Uma vez mais, feijão branco. E pato, e enchidos de porco. Em Toulouse, uma das cinco capitais do mundo, vem com a sua lendária salsicha.

Qual o segredo de ambos? O feijão. Branco, pois claro. A gordura animal dos bichos de criação. E poucas invenções.

Em qualquer parte destas regiões o prato é servido com orgulho e respeito absoluto pelas receitas locais. Em todo o lado: de restaurantes de nome a cafés de estrada e bombas de gasolina. E para que não falte, abundam as ofertas de enlatados e frascos com cassoulet de qualidade. Por cá não é assim. Seja por complexo de inferioridade ou por simples parolice, queremos sempre inventar. É o mantra da inovação, chave de sucesso para qualquer strategy do business.

Feijoada de marisco? Porquê? Que mal fizeram os crustáceos e os pequenos bivalves? Estragam os feijões e quem se lixa não é o mexilhão, somos mesmo nós, os comensais.

É necessário um ponto de ordem. Isso não existe.

Nenhum tratado clássico de cozinha portuguesa, a começar pelo grande Mestre João Ribeiro, menciona tal coisa. O que encontramos são os velhos cozidos de feijão com carne de porco e enchidos. Ou seja, feijada, ainda que muitas vezes sem esse nome. O termo surge mais tarde e, mais uma vez, desculpem-me os nacionalistas, aparece primeiro documentado no Brasil. E de lá vem outra feijoada que merece todo o respeito, mas são contas de outro rosário.

Primeiro há que dizê-lo: nem a famosa feijoada de chocos de Setúbal nem a de búzios do Algarve figuram nos grandes receituários clássicos da cozinha portuguesa. Tudo indica que a sua consagração gastronómica é fenómeno relativamente recente, da segunda metade do século XX. Em contrapartida, caldeiradas, arrozes, açordas e até o maravilhoso xerém têm tradição forte e raízes profundas nas regiões piscatórias e pobres do litoral.

Em Setúbal o choco sempre imperou. Mas até o choco frito, hoje elevado a símbolo da cidade, é relativamente recente. E ainda bem.

Em resumo, em Portugal a feijoada é de carne de porco. E admitem-se três variedades principais. A transmontana, com feijão encarnado, couve, carne de porco e enchidos regionais. A portuguesa, variante da anterior, normalmente com feijão manteiga ou catarino, com ou sem couve, conforme as devoções da casa. E a minhota, ou mais precisamente poveira, feita com feijão branco — tinha de ser —, os enchidos do porco e sem couve. Nem vê-la.

Parece que existia ainda, hoje quase desaparecida, uma curiosa feijoada de sames, isto é, caras e bochechas de bacalhau. Mas com bacalhau todas as excepções são permitidas.

No resto, não brinquem com a feijoada. E não me lixem!

 

                                            José António Nogueira de Brito


São Cristóvão pela Europa (378).

 


 

 

Prosseguindo na Província da Alta Baviera, cheguei a Hanfeld onde a igreja paroquial de São Miguel tem como elemento fundamental um notável altar-mor renascentista. Foi oferecido à Igreja pela diocese de Augsburgo e parece ser de origem suíça.

Data de 1536. Na parte central, vemos Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo, ou seja, a Santíssima Trindade. Mas também Maria e São Cristóvão. Nos painéis laterais, podemos ver um anjo, São João Baptista, São Filipe e São Tiago Menor. Na predela, em baixo, uma curiosa cena de difícil interpretação.

 





 

Em Eichenau, inserida na quinta de Roggenstein, propriedade até 1803 da Abadia de Fürstenfeld, uma capela foi dedicada São Jorge.

Está localizada no meio da floresta e existe pelo menos desde 1524. Contém uma série de frescos góticos de grande interesse, descobertos em 1911. Um deles representa o nosso Santo.

Como curiosidade, podemos notar que o Menino Jesus parece agarrar-se aos cabelos do Santo para não cair…

 




                                             Fotografias de 4 e 5 de Agosto de 2026.


                                                                                      José Liberato



Carta de Bruxelas.

 









                                           Fotografias de João Tiago Proença






quarta-feira, 28 de outubro de 2026

São Cristóvão pela Europa (377).

 

 

 

Continuando no Estado alemão da Baviera e na Província da Alta Baviera, estive na localidade de Farchant, num local um tanto insólito.

Num armazém da estação de caminhos de ferro, existe um pequeno nicho dedicado a São Cristóvão.

 


Tal como Farchant, Garmisch pertence ao distrito de Garmisch-Partenkirsch, sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1936.

A Igreja de São Martinho de Garmisch começou a ser construída em 1282 no estilo românico. As suas paredes internas estão revestidas de frescos medievais, muitos deles descobertos por ocasião de restauros. Um dos frescos representa São Cristóvão. Tem 8 metros de altura, data de 1330 e está mutilado por uma construção de 1522. Vemos um Santo sem barba, com uma vestimenta de cor ocre. A cor azul, muito rara na época, é apenas usada na figura do Menino Jesus.

 



Oberau pertence ao mesmo distrito.

Aqui viveu, durante várias temporadas, o pintor Wassily Kandinsky (1866-1944), autor de Estudo de Outono junto a Oberau (1908).

A igreja paroquial é dedicada a São Luís e foi concluída em 1873. Possui, no seu exterior, uma monumental representação de São Cristóvão.

 




Tutzing fica nas margens do Starnberger See. A capela de São Pedro e São Paulo foi construída em 1739, em estilo barroco.

No exterior, um mural do nosso Santo, datado de 1932, da autoria do artista alemão Karl Gries (1897-1975).

 


                                             Fotografias de 4 de Agosto de 2026.

                                                                                 José Liberato




domingo, 25 de outubro de 2026

São Cristóvão pela Europa (376).

 

 

 

Em 31 de Julho e entre 4 e 9 de Agosto, estive no Estado alemão da Baviera.

A Baviera divide-se em sete províncias ou regiões (Bezirke): Unterfranken (Baixa Francónia); Oberfranken (Alta Francónia); Mittelfranken (Média Francónia); Oberpfalz (Alto Palatinado); Suábia (Schwaben); Niederbayern (Baixa Baviera); Oberbayern (Alta Baviera).


 


  

Comecei justamente pela província de Oberbayern (Alta Baviera).

A Igreja de São Tiago em Aufham, pequena aldeia do município de Anger, é de estilo gótico. Em 2012, celebraram-se os seus 700 anos. Faz parte dos caminhos de São Tiago.

Elemento notável da igreja é o seu altar-mor barroco, criado por Johann Schwaiger, em 1724. São Tiago Maior encontra-se ao centro, envergando vestes de peregrino, São Cristóvão à nossa esquerda e São Sebastião à nossa direita. Em cima, São João Nepomuceno.

 




Em Altenstadt, a Basílica de São Miguel foi construída entre 1180 e 1220 e mantém-se na sua forma original em estilo românico tardio.

Foi o Papa Paulo VI que assinou, em 1965, o documento que elevou a igreja ao nível de Basílica Papal.

O material de construção é uma rocha vulcânica.

A importância da localidade fica a dever-se ao seu papel militar e, mais uma vez, à sua situação estratégica para os viajantes entre Augsburgo e a Itália.

Um fresco de grande dimensão (mais de 8 metros) de cerca de 1200 representa São Cristóvão. Estava escondido até 1994 e foi descoberto num restauro.

A imagem, uma das mais antigas da Baviera, é de grande qualidade. A mão direita do Santo apoia-se numa palmeira, enquanto a sua mão esquerda ampara Jesus Cristo, sentado no seu ombro. A curiosidade é que Cristo não aparece, como habitualmente, na figura do Menino Jesus, mas como o Juiz do Mundo, de barbas!

 



O Hotel Christophorus, em Echelsbach, tem muito naturalmente um mural de São Cristóvão.

 



 Oberammergau é o município onde se produz, de 10 em 10 anos (a última em 2022), uma célebre representação teatral da Paixão de Cristo.

Mas é também a capital das Lüftlmalerei, as casas pintadas, tão típicas na Baviera. O nosso Santo também está presente, na Haus Wagner.

 


                                     Fotografias de 31 de Julho e 4 de Agosto de 2026.

                                                                                              José Liberato




Kau boys.

 





Peixe é coisa nossa. Incontornável e obrigatório à beira-mar, sobretudo no verão. Os vegetais, grelhados, salteados ou simplesmente em saladas, também não podem faltar. E, uma vez por ano, até podem ser a refeição. Mas há dias em que o meu negócio é carne!

E se a carne da Argentina e do Uruguai é excelente, e uma picanha ou um cupim brasileiro ficam sempre bem, não há carne como a dos EUA. Quem nunca comeu um ribeye numa steakhouse de Nova Iorque ou Chicago não tem referências. Gibsons, em Chicago, Abe & Louie’s, em Boston, e Smith & Wollensky, em Nova Iorque: aqui ficam três antenas para o GPS não falhar.

Com certificação USDA Prime, a carne é grelhada ou selada a temperaturas elevadas, durante breves minutos. O objetivo é preservar a identidade do corte, criar uma crosta intensa e deixar que a gordura intramuscular contribua para a suculência e o sabor. Aqui, os protagonistas são o marmoreado da carne, a crosta da grelha e o equilíbrio entre gordura e músculo, sem que o fumo prolongado se imponha ao sabor.

Nada que ver com o barbecue texano, o outro grande universo da carne americana. A diferença é profunda. A steakhouse e o barbecue texano são duas grandes expressões da cultura da carne nos Estados Unidos, mas representam quase filosofias opostas de cozinhar bovino. No barbecue texano, o objetivo é transformar cortes grandes, menos nobres e frequentemente duros, mas ricos em colagénio, em carne extraordinariamente tenra e saborosa, através de muitas horas de fumo e calor moderado.

Um é a arte do bife. O outro, a arte do fogo lento.

Vem tudo isto a propósito da visita ao Kau, na Malveira, o primeiro e único barbecue texano em Portugal. Os mais atentos já conheciam a marca Kau de festivais e outros carnavais, incluindo os corners de pastrami em Lisboa. Mas foi sempre na Malveira, e no barbecue texano, que o dono apostou. Dizem que fez estágio no Texas. Eu posso afirmar, com convicção, que tem mestrado.

 

Tudo começa nos cortes, de grande relevo, essencialmente dois: o brisket (peito) e a costela. O resto são distrações, do frango ao pulled pork, passando por opções vegetarianas, que os tempos obrigam a estas bizarrias. Os acompanhamentos estão bem, sem deslumbrar. Falta o nosso arroz; de forno, não ficava nada mal. Mas a carne é mesmo superlativa e a verdadeira estrela da casa.

A crosta forma-se à superfície durante horas de cozedura, graças à combinação de especiarias, fumo, desidratação e reações químicas provocadas pelo calor. É uma concentração extraordinária de sabor, não simplesmente carne queimada. O fumo acrescenta aromas que não se conseguem reproduzir exatamente numa frigideira ou numa grelha convencional. Com tempo e temperatura adequados, parte do colagénio transforma-se em gelatina, dando à carne uma textura macia, húmida e quase cremosa.

Não é coisa pouca, é preciso ter-se estudos. A Texas A&M University dita a técnica tradicional: calor indireto relativamente baixo, entre os 93 e os 121 °C, para grandes peças sem secar demais o exterior antes de o interior estar pronto.

À entrada, em exposição, está o Godzilla, o fumador responsável pelo segredo. A sala é ampla e luminosa, ideal para almoços. Até porque a dimensão do espaço, o barulho e a presença de grupos e famílias inteiras, de todas as idades, não criam propriamente um ambiente convidativo para certos programas de jantar. O serviço é eficiente e simpático, num tom descontraído que se agradece.

Não é fine dining, não é para vegetarianos nem flexitarianos, não é para quem procura bifes do lombo ou da vazia, nem tem nada a ver com aqueles molhos doces e espessos, servidos à parte. Mas quem ainda não lá foi não sabe o que perde.


                                        José António Nogueira de Brito

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A Amadora é muito mais do que o dormitório de Lisboa, fique sabendo.

 





          Falava-se (e ainda se fala) da Amadora em tom galhofeiro, preconceituoso, vem à conversa que se chamava Porcalhota, que não passa de um dormitório, enxameado de bairros clandestinos. A jornalista Cátia Bruno dá-nos um relato luminoso, clarividente, em que a Amadora, esse concelho pequeno, mas com a maior densidade populacional de Portugal não cabe no retrato depreciativo de um lugar formado de blocos de cimento rudemente desenhados, um antro de problemas gerado por todas as formas de pobreza e pela dura vivência dos imigrantes – a Amadora é bem mais do que isso.

          Toda esta narrativa, que gera uma leitura empolgada, assenta em seis lugares que ilustram seis dimensões, a saber: economia, desporto, transportes e mobilidade, imigração, habitação e cultura – a jornalista recolhe depoimentos que ajudam a compreender que aquele espaço urbano tem identidade, a despeito de todos os zunzuns que se prestam a desvalorizar o viver e trabalhar na Amadora. “Das antigas fábricas da Sorefame à Cova da Moura, do Estádio José Gomes aos corredores do Babilónia, eis uma outra cidade, onde a herança operária, o peso da imigração e a reinvenção do espaço urbano criaram um quotidiano e uma identidade dinâmicos e irreplicáveis.” É esta a viagem que nos propõe Cátia Bruno em O subúrbio Amadora, a cidade-fronteira, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2026.

          Sim, na Amadora há um acumular de gente em altura. A autora consultou as estatísticas camarárias: a proporção de pessoas que vivem numa casa com uma área útil inferior a 15m2 por pessoa é de 11,8%, bem superior aos 5,7% da média nacional, não subsistem dúvidas, a Amadora é o município com maior densidade populacional. É claro que há alguma insegurança, os níveis de criminalidade estão em linha com a média nacional, e são mais baixos do que os de muitos outros concelhos da Área Metropolitana de Lisboa. Sim, a Amadora foi sempre um entreposto, crescer na Amadora é sonhar com a vida em Lisboa. Cátia Bruno vai procurar dar a conhecer a Amadora para lá das imagens feitas. “Entrevistei pessoas que nasceram, vivem ou frequentam o concelho. São de diferentes idades, raças e profissões. Queria encontrar um mosaico que retratasse a vida da Amadora – porque sim, a Amadora tem vida. Todos os entrevistados deste livro, sem exceção, nutrem um carinho particular pela cidade, que não veem apenas como dormitório.” Dirá que a Amadora já não é a cidade suburbana de décadas passadas, tem mais parques e outros lugares de lazer.

          Começa a viagem pelos seis lugares. Logo a Sorefame, mas havia outras indústrias na envolvente, fábricas de borracha, metalúrgicas, de cabos elétricos. A Sorefame catapultou-se com a construção dos pilares e das vigas de estrutura da ponte sobre o Tejo, depois produziu locomotivas e vagões para a CP e o Metro de Lisboa, com as alterações tecnológicas; o capítulo fabril atingiu duramente a Amadora, ainda sobrevivem duas fábricas de relevo. Estádio José Gomes significa o Estrela da Amadora, dá-nos ao pormenor os altos e baixos do clube, acabando por dizer que o Estrela continua a ser um clube da periferia com quem todos simpatizam, numa identificação que há muito não se sentia na Reboleira. E daqui rumamos para a estação de comboio, vamos acompanhar a vida de quem parte cedo para o trabalho, caso das mulheres da limpeza, temos aqui a evolução dada pela história do comboio e, por simpatia, a história do transporte dentro do concelho. “Apesar de a Amadora ser frequentemente apontada como um eficaz nó de mobilidade que liga Lisboa a Sintra, a verdade é que há zonas do concelho que continuam a estar muito afastadas da linha ferroviária. A situação era particularmente grave em vários bairros de habitação social onde foram realojados moradores de antigos bairros clandestinos.

          O centro comercial por excelência da Amadora chama-se Babilónia, com uma superfície de 4.600m2 e quase 100 lojas, teve o seu esplendor até ao final do século, os hipermercados deram uma volta ao texto, o Babilónia sobrevive com a chegada das lojas geridas por imigrantes e os clientes estrangeiros. “Há muito que a Amadora é terra de imigrantes e o Babilónia é o espelho vivo”.

          Agora o foco é a Cova da Moura. “É um labirinto: seis mil pessoas distribuídas por um território de 0,2Km2, preenchido por casas construídas de forma desordenada, estradas apertadas e escadas íngremes. É um dos bairros clandestinos mais conhecidos no país em que as casas são quase todas feitas de pedra e tijolo.” Vem à baila J. Pimenta, um antigo pedreiro que fez fortuna construindo pequenos apartamentos a baixo custo, modelo de negócio que se tornou especulativo. E conta-se também a história do Programa Especial de Realojamento, isto em 1993, é um dos elementos mais cativantes desta reportagem que aqui nos é contado, iremos só ouvir falar, além da Cova da Moura, da Quinta do Laje, Quinta do Pomar, Estrada Militar da Mina e Estrada Militar do Alto da Damaia.

          Não se pode falar do rap nem do Hip-Hop sem incluir a Amadora, das suas vedetas, caso dos Buraka Som Sistema, a autora dá-nos uma belíssima descrição.

          A modos de epílogo, ficamos a saber que o encenador Tiago Rodrigues, atualmente diretor artístico do Festival d’Avignon, nasceu na Amadora, tal como o futebolista Rui Costa, o apresentador João Baião e o ator Nuno Lopes. Cátia Bruno recorda-nos que esta Amadora está em transformação acelerada, o processo de gentrificação de Lisboa também se faz sentir na Amadora, os lugares populares de comer também conhecem essa transformação, mas o risco maior é precisamente na área da habitação, os prédios de luxo fazem a sua aparição, e daí a pergunta inquietante: quando o subúrbio ficar demasiado caro, para onde serão empurrados os amadorenses?

          Cátia tem muita esperança no futuro da sua cidade, nos jovens dinâmicos, nos trabalhadores, no comércio vivo, no ativismo social, na criatividade como a dos Buraka. “De uma forma ou outra, a cidade conseguirá enfrentar o que aí vier e sobreviverá. O subúrbio não vai desaparecer – e ainda bem.”

          Cátia Bruno pertence aos revitalizadores da reportagem jornalística, já andou pela Ucrânia e Síria, assistiu ao Brexit, e contou agora, de forma admirável, como a Amadora se tornou uma cidade-fronteira, onde se desenha o seu futuro também em função de tudo o que se passa nos poderosos concelhos vizinhos. 


                                                                Mário Beja Santos

 


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

São Cristóvão pela Europa (375).

 

 

 

Termino a minha digressão pela Áustria, Distrito de Reutte, no Estado austríaco do Tirol.

O Zugspitzeblick é um miradouro extraordinário de onde se avista a montanha mais alta da Alemanha, o Zugspitze. Eleva-se a 2962 metros de altitude.

Junto, existe um restaurante com um mural representando São Cristóvão, datado de 1966, da autoria do pintor austríaco Wolfgang Schenmach (1934-2004).

 



Visitei de novo Lermoos por onde tinha deambulado, há uns anos, em busca de uma fonte, sem sucesso. Só as buscas do meu amigo Vítor me permitiram encontrá-la, bem como a outras imagens de São Cristóvão nesta Região da fronteira austro-alemã.

Lermoos foi mais um ponto importante de passagem entre a Alemanha e a Itália desde tempos muito antigos. Por aqui passava a estrada romana Claudia Augusta.

 




 

Em Ehenbichl, numa casa rural da primeira metade do Século XV, podemos encontrar um fresco gótico representando São Cristóvão e São Sebastião.

O rio Lechl está próximo e as imagens do nosso Santo significavam uma protecção quanto às perigosas travessias que os habitantes locais faziam frequentemente.

 


 

Em Breitenwang, no cemitério da Igreja de São Pedro e São Paulo, um epitáfio de madeira recorda Christoph e Barbara Zeiler. Data de 1638 e homenageia o nosso Santo e também Santa Bárbara.

 




Finalmente, em Oberletzen, a três quilómetros da fronteira com a Alemanha, pode observar-se um mural numa casa particular, da autoria do pintor Herbert Blaas e datado de 2000.

 


 

                                        Fotografias de 3 e 4 de Agosto de 2026

                                                                                 José Liberato