terça-feira, 14 de julho de 2026

João Pedro Marques: Trabalhar Cansa (VI)

 



 

O Monte Gordo

 

Nenhum escritor excede JPM em talento de narrar, em apanhar as expressões e os gestos humanos em flagrante.

A importância do corpo é marcada por vários elementos que dominam a literatura de JPM. São várias as personagens, aliás, que parecem dar demasiada importância à aparência pessoal. Procuram muitas vezes localizar a sua imagem num espelho, para nele se estudarem.


Talvez por isso, alguns romances começam com um dos protagonistas a acordar de manhã e a ver-se ao espelho, para avaliar o físico. Em A Aluna Americana, o protagonista José Duarte acorda com a neura e, depois de tomar banho, olha-se ao espelho. Fumador empedernido e magro, com o cabelo a cair, repara que os pêlos lhe nascem nos sítios mais improváveis: "talvez não fosse, ainda, a senescência – tinha apenas 50 anos –, mas parecia-lhe óbvio que o seu corpo perdera viço e abrandava" (p. 8).

            Em Haiti, Honoré Gabriel Lazarus levanta-se do cadeirão e vê-se a um espelho circular. Este devolve-lhe a imagem de um homem magro, com os olhos a perder fulgor e o cabelo a "recuar", passando de ruivo a grisalho: "talvez ainda não fosse velho, mas os 52 anos já lhe carregavam a fisionomia" (p. 7).

            E em Até ao Fim da Terra, é o marechal Massena que acorda, mas ao lado da amante. O seu olhar perdeu brilho: "Sempre que se olhava ao espelho via um idoso de sessenta e muitos anos, quando, na verdade, só tinha 52" (p. 8).

            O espelho é uma imagem recorrente. Em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Mateus olha-se ao espelho na página 198: "Na parede um espelho rachado e levemente ovalado devolveu-lhe uma estranha imagem de si próprio"; em Uma Fazenda em África é o governador Leal que, na página 388, "às vezes mal se reconhecia quando se olhava ao espelho"; e em Haiti, na página 230, Honoré de Beauregard "gostou de se ver sorridente, vagamente reflectido na água do lago".

            Os rios funcionam, não raro, como espelhos. As águas são tão cristalinas que se podia fazer a barba por elas: "o arvoredo das margens reflectia-se nele [rio Cávado] como num espelho", "O Tejo estava sereno, brilhava como um espelho azulado" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 83, 314); Benedita "deixara-se ficar na amurada a estudar a imagem do navio desenhada nas águas paradas, como num espelho", "O rio estava lindo. A superfície quieta reflectia o escasso arvoredo das margens" (Uma Fazenda em África, págs. 50, 426); "Passeavam no Terreiro do Paço, junto ao rio, e já se viam reflectidas na superfície da água, as luzes espaçadas e trémulas dos candeeiros" (Vento de Espanha, p. 92); "Foi até à beira-rio, ficando largos minutos a contemplar o Tejo", "Aproximava-se do rio viu que, à luz do sol poente, a água reflectia a margem esquerda tal qual um espelho" (Do Outro Lado do Mar, págs. 19, 221); "o braseiro da ponte a reflectir-se nas águas do rio" (Até ao Fim da Terra, p. 230).

Neste conspecto, a obesidade possui uma dimensão simbólica e, ao mesmo tempo, é uma chamada de atenção para o chamado Fat pride (movimento social e cultural de "orgulho gordo", que promove a consciencialização contra a "gordofobia" e nasceu na década de 1960, com um protesto em massa no Central Park, em Nova Iorque, com os activistas queimando milhares de livros de dieta).

As pessoas gostam dos carecas, como também gostam dos gordos. Tal como Jesus Cristo escolheu os pobres, JPM é pelos gordos. Convida-nos a ver um mundo social como um grande mar de gordos, como se todos os gordos tivessem falado uns com os outros, precipitando-se ao encontro uns dos outros nos romances de JPM.

Enumero os que encontrei (muitos mais haverá), para governo do próprio JPM:  Sátiro da Costa possui um "corpo anafado", como um "bacorinho rosado", "Eufrásia era uma figura volumosa", "Etelvino de Vasconcelos era um homem anafado", "um enfermeiro gordo", "uma mulher gorda", "o vulto paquidérmico do taberneiro", a criada de Poleciana é "trigueira e avantajada", na Póvoa de Varzim, Mateus deparou-se com um "homem jovem, gordo, de olhar risonho e estupidez evidente na expressão", Juliana é uma "criada gorda", "um indivíduo gordo que estava ao lado do cocheiro", "um tenente de engenheiros procurava convencer um jovem gordo reticente a trabalhar", "o corpo gordo, fumando, deleitado, o seu grosso charuto" [de Etelvino], "a senhora gordinha que se sentava ao lado do tenente", "um padre gordo", "homem gordo muito falador", "o homem gordo discordou" (o passageiro de uma carruagem), "Mateus reconheceu-a [à criada Quitéria], ainda que estivesse mais gorda", "uma mulher gorda e imunda" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 9, 19, 31, 50, 62, 88, 92, 99, 108, 117, 163, 166, 188, 271, 301, 312, 321, 330).

Às vezes parece que JPM só trabalha com personagens gordas: o cônsul Joaquim Baptista Moreira "bamboleando o seu corpo gordo", Benedita "viu um homem gordo, de barriga espaçosa e gestos demorados", "o caixeiro, um homem gorducho", o cônsul "abanando o seu corpo gordo", "um homem gordo", "o cozinheiro – que era um homem grande e gordo", o Dr. Vilela com o seu traje de cerimónia, "apertando o seu corpo gordo dentro de uma espécie de fraque", "o embaixador era um homem gordo e jovial", "um cavalheiro gordo", "um transeunte gordo", "um sargento gordo", "um homem gordo, de meia idade e pele afogueada", o escrivão é "um homem pequenino e gordo como uma almôndega", "um sargento gordo e corado, picado das bexigas", "uma mulher volumosa", "um homem jovem e gordo" (Uma Fazenda em África, págs. 12, 23, 31, 44, 63, 81, 119, 158, 238, 245, 292, 294, 314, 335, 368, 417).

Todos tão gordos, tantos como uma chuva deles, como se tivessem vindo de todos os pontos do país: "uma mulher gorda", "um homem gordo", "uma mulher gorda e vermelhusca", "um homem gordo e careca", "o dono do café, um homem gordo e um pouco oleoso", no cinema "um homem gordo soltava altas gargalhadas", Augusto Marçal "o gordo", "uma mulher gorda, com um excesso de pulseiras nos pulsos", "Sarita, enfermeira do Tercio, uma baleia de gordura", um oficial de artilharia, "grande mas algo balofo", "um homem gordo", "O Dr. Péricles Fresco era um homem gordo", Jacquet "um homem gordo e baixo", "um homem grande e volumoso", uma "mulher gorda deu um grito (...) como se tivesse acabado de ver o Diabo", Artur Cisneros, "um homem gordo e baixinho" (Vento de Espanha, págs. 19, 36, 41, 71, 105, 107, 116, 123, 127, 177, 183, 189, 235, 251, 276, 298).

Do Outro Lado do Mar é outro livro à cunha de gordos: "um tipógrafo gordo" (no Rossio), uma lavadeira "de formas generosas", "uma mulher gordíssima", "um senhor gordo", "uma mulher gorda, de ancas largas e braços fortes", "um homem gordo" (um taberneiro), "um padre gordo", "sobre uma espécie de otomana, estava uma mulher muito gorda", "uma preta gorducha", "Amália, a escrava gorda", um agente que "era um homem gordo", Bento Garcez "e a sua cara gorducha", Felicidade, "uma escrava gorda", "a mulata gorda", Rainha Lina "uma mulher gorda", "um italiano gorducho" (págs. 15, 16, 21, 23, 60, 84, 99, 126, 160, 170, 177, 182, 212, 218, 297, 354).

A preferência de JPM pelos gordos é manifesta: Melchior tem "excesso de peso", "uma gordíssima negra", um padre "gordo e baixo, com cabelos ruivos em desalinho" e "um homem gordo e baixo", o médico responsável pelo hospital de sangue "era um homem gordo que operava em tronco nu", Léger-Félicité possui um "corpo avantajado", tia Fátima é "uma mulher escuríssima e volumosa", o carroceiro é "um homem gordo", Monsieur Roland, "um homem gordo, de cabelo branco"; (Haiti, págs. 34, 66, 94, 106, 139, 155, 209).

A relação individual e profunda entre JPM e as personagens anafadas é uma das magias destes romances, com a luta de gordos a surgir como motor da história: os Antunes, da casa de pneus, são "dois roliços irmãos gémeos de Torres Vedras", o tio de Isabel "era um homem gordinho", "um homossexual gordo", "um homem gordo", "Etelvina era uma mulher de meia idade obesa", "O editor da Moraes era um homem gordo" (A Aluna Americana, págs. 20, 59, 216, 239, 240, 285); "uma mulher gordacorada, com grande papada", Don Alonso Pascoal Mesquita, o notário, "era exageradamente gordo", "um padre risonho e muito gordo" (Até ao Fim da Terra, págs. 38, 146, 240); "Entregou o chapéu à mulher gorda", "o subdelegado era um homem gordo", "o gordo e sempre sorridente Filipe Barbosa", "uma mulher gorda, enorme", "Guiomar era uma mulher avantajada", um "homem gordo muito irritante", "uma criada pequena e gordinha", "um homem gordo e seboso", uma "enfermeira gorda" (Os Dias da Febre, págs. 67, 70, 105, 118, 142, 178, 207, 262, 282); o capitão Cruz é "um homem gordo, incompetente, pouco zeloso", Evangelia Hannah é "uma mulher volumosa – uma figura imponente. Devia ter bem à vontade uns noventa quilos e mexia-se de forma lenta, paquidérmica", numa sala de espera vê-se "uma mulher gorda, sessenta anos ou perto disso" (O Prazer de Guiar, págs. 50, 85, 93); Zeferina, "uma mulher de bata e avental. Era gordinha e arruivada", "um locutor gordo", "um homem baixíssimo, gordo e sem pescoço", "uma americana gorda", "um polícia gordo", "um sargento gordo" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 103, 116, 140, 203, 211, 257). (Estimativa do total de gordos no repertório literário marquiano: 112.)

 




O Escritor e o Toureiro

 

Depois dos gordos, os toureiros e o ambiente taurino são outro local de predilecção de JPM: Fontes Pereira de Melo "perguntou, com dois polegares enfiados nos bolsos do colete e o corpo levemente arqueado para trás, como se desafiasse um touro", "como um toureiro numa praça de touros" (Uma Fazenda em África, págs. 49, 373); "Ela sabia tourear o seu lado animal en souplesse. E não se cansava. Toureá-lo-ia de novo", "é preciso saber tourear o tempo. Se o tourearmos bem ele nunca acaba" (A Aluna Americana, págs. 99, 276); "O torso e o pescoço eram largos como os de um touro" (Até ao Fim da Terra, p. 49); "Custódio continuou a marrar como um touro enraivecido" (Vento de Espanha, p. 215); Melchior "forte como um touro", Francisco Quiñones é "um homem elegante como um toureiro" e (Haiti, págs. 34, 151); Auzenda "sentiu-se mais sabida do que um touro corrido" (Os Dias da Febre, p. 264); "decidiu pegar o touro pelos cornos"; p. 344: "gritou Vasco, da porta da sala, como um forcado que chama um touro" (Do Outro Lado do Mar, págs. 216, 344); Luís é um indivíduo com "estampa de toureiro" (O Prazer de Guiar, p. 137). Em face disto, passam quase imperceptíveis os dois boleeiros "que contemplavam em silêncio e com ar bovino uma garrafa" e a "imobilidade bovina" daquela outra personagem (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 213, 29); o escrivão "com um sorriso bovino" (Uma Fazenda em África, p. 315) ou o tipo "com ar parado e bovino" (Vento de Espanha, p. 98).

 

Bestiário marquiano

 

É impossível entender as personagens de JPM sem uma análise da ontologia das relações entre todos os seres vivos, com o mundo não humano invadindo os humanos para formarem um organismo único. Contrário àqueles que pretendem separar natureza e cultura, JPM defende um mundo comum, uma aliança entre humanos e não humanos (animais, plantas, micróbios, vírus, macacos, cães, veados, ovelhas, hienas, lobos, raposas, leopardos, porcos, etc.). Nessa ordem de ideias, as personagens só adquirem o seu verdadeiro sentido quando engastadas nas comparações com animais, ou seja, quando adquirem simbolicamente determinadas propriedades físicas de outros seres vivos.

Para JPM, como para Charles Darwin, a diferença entre o ser humano e os outros animais não é grande nem fundamental, porque, no fim de contas, uns e outros não foram criados separadamente. É verdade que os animais sempre ocuparam um lugar importante na literatura (desde Jonathan Swift a James Joyce ou Franz Kafka, passando por poetas como William Wordsworth, Percy Bysshe Shelley, Lord Byron ou John Keats), tal como é verdade que Chesterton comparou S. Tomás de Aquino a um boi e que José Cardoso Pires escreveu A República dos Corvos, juntando-lhe a seguinte epígrafe: "Cada homem transporta dentro de si o seu bestiário privado – disse o Juiz.”

Fosse recorrendo às características menos desejáveis dos animais para criticar os traços menos desejáveis dos seres humanos; fosse para enaltecer a beleza e a liberdade dos animais no seu estado selvagem natural, para instar os seres humanos a realizarem o seu potencial criativo, libertando-se da domesticação social; fosse para criar alegorias, utilizando o estilo tradicional das fábulas para contar histórias sobre, por exemplo, a angústia no século XX (Kafka); fosse por que razão fosse, muitos têm sido os escritores que pensaram a participação dos animais não humanos nas culturas humanas.

Diferentemente de toda essa tradição, na obra de JPM a representação dos animais constitui um campo de estudo próprio, que não depende nem da alegoria nem da fábula (em que os porcos tomam o pequeno-almoço à mesa e as rãs se convertem em príncipes). A sua grande fonte de inspiração é o inglês H.G. Wells, que no seu clássico de ficção científica, A Ilha do Doutor Moreau, publicado em 1896, cria uma espécie de "paródia perversa da história da Arca de Noé"). Perversa porque Wells defende aí que nem a virtude, nem discernimento nem o entendimento nos distinguem do restante mundo animal, excepto uma aptidão única nos seres humanos para a desumanidade. O que torna difícil afirmar que os seres humanos são humanos (pelo menos na sua acepção comum, associada a valores como empatia e solidariedade, respeito, tolerância e dignidade, amor e compaixão, honestidade e integridade). Porque, pensando bem, o ser humano é uma besta!

Tal como a crueldade para com os outros animais reflecte a crueldade para com os seres humanos – "Aquele que é cruel com os animais também é cruel nas suas relações com os seres humanos. Podemos julgar o coração de uma pessoa pela forma como ela trata os animais" (Immanuel Kant) –, também a compaixão pelos animais pode despertar compaixão pelos seres humanos.

Nos romances de JPM, os seres humanos evocam-lhe constantemente representações de animais (sugiro ao editor de JPM que, futuramente, estes romances deveriam ser cuidadosamente anotadas por zoólogos). De alguma maneira, JPM aprendeu coisas fundamentais sobre o seu próprio comportamento a partir do estudo do comportamento dos outros animais, como se o escritor não conseguisse identificar, por si próprio, os seus sentimentos e interesses individuais, apenas através das representações sugeridas por animais como o orangotango, a gata, o buldogue, o chimpanzé, a formiga, a gaivota, o gafanhoto, a lula, a lapa, o leopardo, a leoa, o falcão, o pardal, o papagaio, a cegonha, o morcego, o sapo, o elefante, o porco, o milhafre e um longo etecetera, que vai daqui até ao Badoca Safari Park: "mãos invulgarmente grandes, como as de um chimpanzé", "o sargento Delfim abriu os seus longos braços de orangotango" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 27, 109); "braços como um orangotango" (Até ao Fim da Terra, p. 50); "as maçãs do rosto salientes e os olhos encovados e baços davam-lhe um leve ar de símio triste" (Uma Fazenda em África, p. 332); "cara de macaco" (Do Outro Lado do Mar, p. 17).

Há evidentemente animais mais evocadores do que outros: "Carmen ronronou como uma gata" (Vento de Espanha, p. 292), uma mulher muito gorda, amante do soba, "ronronou como uma gata" (Do Outro Lado do Mar, p. 126), "aquele sorriso de gato compreensivo" (Os Dias da Febre, p. 117), "reagiu como um gato encurralado" (A Aluna Americana, p. 100), Sátiro "sorriu-lhe, semicerrando os olhos como um gato bem nutrido e dengoso" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 16).

Tudo o que rodeia JPM adopta as características de uma espécie de mente animal: "amores em voo rasante, como o das gaivotas junto à superfície do mar"; p. 134: "aqueles seus olhos tristes, perdidos atrás do nariz curvo e tão afilado que fazia lembrar o bico de certas aves brasileiras" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 26, 134); p. 210: "um carteiro saltava como um gafanhoto"; p. 269: "branca que nem uma lula" (A Aluna Americana, págs. 210, 269); "ligada àquele secretária como a lapa ao rochedo em que nascera" (Uma Fazenda em África, p. 26); "Cairiam sobre ela como o astuto leopardo caía sobre a gazela desatenta"; "com o desespero de um búfalo cercado por leoas esfaimadas", "para se sentir acolhida, como o falcão de volta ao ninho", "partir sem deixar rasto, como o pardal perdido que vinha roubar milho e voava ao entardecer", "repetindo as mesmas palavras, como os papagaios", "ergueu-se num pulo, arqueou as pernas como o leopardo pronto a saltar", "nariz pontiagudo e postura de cegonha", "A mão esquerda do escrivão apoiava-se como um sapo no papel", "um ar de morcego assustado";  (Uma Fazenda em África, págs. 155, 158, 172, 257, 314, 427).

Com JPM estamos perante uma autêntica "viragem animal" (animal turn), que poderá servir de modelo a seguir pelos "estudos animais" (animal studies): "como se fosse um elefante" (Vento de Espanha, p. 219); "apossava-se dele bruscamente com a voracidade de uma leoa" (Haiti, p. 148); p. 53: "homens que corriam como gnus"; "soltou um surdo rugido de leão saciado"; p. 58: "Sentindo-se mais sábio do que a coruja que levanta voo ao entardecer"; p. 62: "Calulu era diligente como a formiga e respeitador como o chacal"; p. 62: "como o milhafre que não se contenta em caçar ratos"; p. 63: "deixar vaguear pelas ideias, como uma manada sem rumo"; p. 64: Musumbi "não conseguiu evitar um lento rosnar de fera saciada"; p. 83: "ressona como um porco" (Do Outro Lado do Mar, págs. 53, 58, 61, 63, 64, 83); p. 207: "uma face de búfalo"; p. 211: "com cara de pargo assustado"; p. 250: "o ar atentíssimo e perscrutante de uma raposa" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 207, 211, 250).







Um dos animais que ocupa um lugar preponderante nestes livros é a formiga, talvez porque ela sobreviveu aos dinossauros e sobreviverá também aos seres humanos: "com a paciência e a persistência de uma formiga diligente", "um trabalho de formiga laboriosa e calculista", "num afã de formigas" (Uma Fazenda em África, págs. 25, 188, 212); "num afanoso vaivém de formigas" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 179).

Animal social por excelência, as formigas não sobrevivem sozinhas, por isso vivem em colónias altamente organizadas (os formigueiros), onde se acumulam milhares ou mesmo milhões de insectos desta família: "numa azáfama de formigueiro", Peter chegou a Abomé e ficou fascinado com "aquele formigueiro humano", "Ela gostava de ver Abomé assim uniformizada e completamente tomada pelo fetiche da guerra, como se fosse um grande formigueiro" (Uma Fazenda em África, págs. 62, 103, 160); "Aquilo [a Universidade de Harvard] é assim uma espécie de formigueiro inteligente", mercados em Londres que se convertiam "num formigueiro de pessoas", "Havia uma multidão na estação, uma espécie de formigueiro de gente que chegava e partia" (A Aluna Americana, págs. 26, 159, 206); "a margem direita do Berezina formava uma grande mancha negra sobre a alvura da neve, como se fosse um formigueiro gigante" (Até ao Fim da Terra, p. 229); "o bulício que formigava ao longe", uma grande caravana "depressa se transformou num formigueiro humano", o cais da Baía, no Brasil, era um "activo formigueiro humano" (Do Outro Lado do Mar, págs. 64, 70, 80). Enfim, "parecem formigas" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 263).

Sem tanto destaque, mas não menos importante, os cães: "com olhos brilhantes de cão cobiçoso" (Do Outro Lado do Mar, p. 59), Etelvino de Vasconcelos tinha uma "expressão parecida com a de um buldogue inglês" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 31). As personagens de JPM, tal como os canídeos, são conhecidas por reclamar, queixar-se ou mesmo, mais dramaticamente, rosnar: "rosnou o homem", Etelvino "limitou-se a rosnar um 'deixa aí'", Golias "rosnando como um bicho" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 91, 169, 226); o nadador negro "rosnou qualquer coisa", José Leite, sócio de Bernardino, "não parava de rosnar o seu descontentamento entre dentes", "uma cabeça que o fixou, rosnando", "ela rosnava de dor e prazer", José Leite "ia rosnando entre dentes", "rosnando ameaças" (Uma Fazenda em África, págs. 94, 117, 133, 152, 293, 338); um grupo de populares "rosnando ameaças", um homem pequeno que "rosnava insultos", "rosnando impropérios" (Até ao Fim da Terra, págs. 38, 40, 53); "Ofendido, o outro rosnou, ladrou, tentou mordê-lo" (O Prazer de Guiar, p. 9); "Biassou rosnou de prazer e reclinou-se na cadeira" (Haiti, p. 121); Carlos "rosnando ameaças" e Robert "rosnou entre dentes" (Os Dias da Febre, págs. 132, 175); "Um padre? – rosnou" (Vento de Espanha, p. 295); Francisco "rosnou, desdenhoso" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 22); Gaspar "a rosnar, de dentes à mostra, como um animal selvagem", os escravos "rosnaram-lhe" (a Gaspar), o capitão "rosnou uma resposta", Eugénia "rosnou-lhe, entre dentes" (Do Outro Lado do Mar, págs. 122, 130, 147, 287).

E já que de dentes falamos, seja-me permitido realçar que as personagens de JPM, sendo de carne e osso, exibem uns dentes deslumbrantes, muito regulares e muito brancos, tão perfeitamente brancos como os de Paulo Portas, depois de os ter branqueado. Sei pouco sobre odontologia, mas do pouco que sei, o essencial é que não há nada como dentes muito brancos: "dentes muito certos e de uma brancura imaculada", D. Matilde de Araújo "sorriu, mostrando uma fileira de lindos dentes, muito brancos e pequenos" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 64, 186); "os dentes, muito brancos, resplandeciam" (Uma Fazenda em África, p. 134); Sara tem "dentes muito certos e brancos", Vasco tem os "dentes muito certos e muito brancos" e Clarice possui "dentes muito brancos" (Do Outro Lado do Mar, págs. 139, 185, 213).

JPM nutre um enorme fascínio pelo branco, provavelmente porque o branco é a abstracção pura, ou talvez porque sugere higiene e pureza: "vestido imaculadamente branco" (Haiti, p. 37), "O homem vestia umas calças imaculadamente brancas" (nem as próprias calças verdadeiras jamais tiveram um branco assim) (A Aluna Americana, p. 202); a "brancura imaculada" das paredes das casas, "uma casinha fresca, imaculadamente caiada de branco" (Vento de Espanha, págs. 144, 187).

Um branco tão intenso, tão magnificamente belo, que custa descrevê-lo. Convencido de que não existe nada de mais profundo que o vazio nem de mais belo que um lençol branco, JPM eleva as pequenas coisas humildes com frases que despertam um entusiasmo quase místico: "branco como um lençol" (Haiti, págs. 37, 106); "Celestino, branco como um lençol", Sátiro Costa "estava branco como a cal da parede" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 220, 229); "branco como a cal" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 41).

 






Pequenas inclinações literárias

 

A exactidão anatómica de certos gestos é outro ponto forte de JPM. De facto, o autor compila e passa em revista os vários gestos, os movimentos e, em geral, todas as peças do corpo humano. Graças a isso, JPM ultrapassa um Machado de Assis (especialista nos pequenos pormenores físicos das suas personagens, como os movimentos dos olhos e outros trejeitos) ou até mesmo o rigor e a expressividade de um Eça de Queirós.

Para JPM, o corpo é um todo vivo e misterioso que caminha, que se agacha, que se levanta e que se inclina: "Mateus agradeceu com uma leve inclinação do corpo", Mateus apoia "os cotovelos na mesa e inclina-se para a frente para ouvir melhor", "A mulher inclinou a cabeça", "Gonçalo Henriques inclinou-se para a frente, surpreendido", "inclinando a cabeça para o lado esquerdo e fechando os olhos em total concordância", Sátiro "inclinando-se para a frente na cadeira" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 76, 213, 243, 246, 264, 289).

Um corpo que se inclina pode dizer muitas coisas aos que o contemplam (submissão, respeito, cansaço, segredo, cumplicidade, sedução): Libango, um negro grande, "levemente inclinado para a frente", Bernardino: "inclinou-se um pouco para a frente na cadeira, apoiou ambas as mãos no tampo da mesa", o capitão Comminges de Marselly "com o corpo levemente inclinado para ela [Benedita]", "Benedita inclinou a cabeça para o lado direito" (Uma Fazenda em África, págs. 86, 189, 221, 243), "José Duarte fez um aceno e uma ligeira inclinação de cabeça", Isabel "pondo a cabeça ligeiramente de lado", "Quando ele se acercou de Isabel inclinou a cabeça ligeiramente para o lado esquerdo", "inclinou-se ligeiramente para a frente", "José Duarte inclinou-se sobre a mesa", "A doutora Sarah Payne inclinou-se ligeiramente para a frente" (A Aluna Americana, págs. 19, 22, 110, 150, 165).

Neste movimento de flexão, o corpo (ou apenas a cabeça) mobiliza-se de maneira harmónica e coordenada, pondo a funcionar a anca, o tronco, os músculos abdominais e a cabeça (com o pescoço e a coluna vertebral controlando a descida contra a gravidade): "inclinando-se para diante, como se precisasse de ver mais de perto", "disse Robert, apoiando os cotovelos nas coxas e inclinando-se para a frente na cadeira", "Elvira correspondia com uma leve inclinação da cabeça", "respondeu Robert, com uma pequena inclinação da cabeça", "garantiu Roberto, inclinando-se para a frente" (Os Dias da Febre, págs. 24, 89, 130, 198, 203); o capitão Calheiros "despediu-se dos seus interlocutores com uma leve inclinação da cabeça", "inclinando levemente a cabeça", "agradeceu com uma inclinação na cabeça", "e inclinando-se um pouco para a frente, resolveu confessar os seus afectos", "Bento agradeceu com uma inclinação de cabeça", "Bento inclinou-se ligeiramente para a frente, na cadeira" (Até ao Fim da Terra, págs. 35, 107, 113, 120, 128, 141); um homem grita "inclinando-se para diante na cadeira" (Vento de Espanha, p. 252); "Fez uma leve inclinação de cabeça" (Haiti, p. 238); "disse Caetana, acentuando o sorriso e inclinando levemente a cabeça para a direita", "fez uma pequena pausa chegando-se para a frente no grande cadeirão", Caetana "tinha a cabeça um pouco inclinada para a esquerda", "Vasco inclinou-se para a frente, apoiou as duas mãos sobre a mesa", Vasco com a sua "leve inclinação do corpo", Eugénia "semicerrou os olhos, inclinou a cabeça e aplaudiu", Bento Garcez "chegou-se para a frente" (Do Outro Lado do Mar, págs. 24, 27, 30, 136, 161, 205, 324).

 

Uma tarde na Moviflor

 

A precisão concreta de alguns movimentos leva-nos a observar os móveis que decoram estes livros, nomeadamente as cadeiras, os cadeirões, os canapés e as poltronas: Luísa "ajeitou-se melhor na cadeira", Etelvino "recostou-se na cadeira", "Mateus ajeitou-se na cadeira", "Mateus quase se ergueu da cadeira onde se sentara", "Gonçalo Henriques recostou-se melhor no canapé", "Sátiro continuou a remexer-se no assento, sem posição" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 66, 199, 215, 246, 251, 263); cônsul "recostou-se melhor no cadeirão", "O barão suspirou e ajeitou-se na cadeira", velho Costa "remexeu-se na cadeira", "Bernardino empertigou-se na cadeira", "Luz Soriano recostou-se na cadeira" (Uma Fazenda em África, págs. 17, 45, 189, 190, 226); "Tolentino sorriu com desdém e recostou-se na cadeira", "José Duarte mudou de posição na cadeira" (A Aluna Americana, págs. 142, 232); Bento "mudou de posição na cadeira"; "Ele suspirou e recostou-se na cadeira", Maria Constança "mudou de posição na cadeira" (Até ao Fim da Terra, págs. 106, 110, 120); Robert "remexeu-se no assento, para iludir o sofrimento", "chegando-se mais à frente na cadeira", "concordou Elvira, mudando de posição para tentar iludir a incomodidade da cadeira", Conceição "recostando-se melhor no canapé" (Os Dias da Febre, págs. 278, 280, 292, 293); Vasco "recostou-se no assento", Tarquínio Torcato "mexeu-se na cadeira, sem posição", Eugénia "recostou-se no canapé, como se quisesse ganhar espaço", "Bento recostou-se no seu cadeirão, para se acalmar", Vasco "recostou-se na cadeira" (Do Outro Lado do Mar, págs. 41, 161, 285, 328, 363); "ajeitou-se no assento" (Vento de Espanha, p. 14); "João recostou-se melhor no assento" (O Prazer de Guiar, p. 14); "recostando-se melhor na poltrona", "perguntou Robert, recostando-se no canapé", disse Catarina "endireitando-se no canapé" (Os Dias da Febre, págs. 34, 115, 155).

 




Tambourine Man

 

À parte as situações particulares e as variações individuais, é possível identificar nos romances de JPM movimentos típicos – o modo como tratam a madeira – que traduzem aspectos do quadro emocional das personagens: Mateus "bateu seca e vigorosamente com os nós dos dedos na madeira, como quem excomunga um demónio", o major Arrobas "deu uma palmada apreciativa no tampo da mesa", "Sátiro estacou, deu três pancadas com os nós dos dedos numa porta próxima e esconjurou o azar", Mateus "bateu com o punho cerrado na mesa" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 31, 150, 212, 292); o ministro "tamborilando nervosamente com a ponta dos dedos no tampo da secretária", "Pascoal cerrou os punhos e deu uma pancada na mesa", "Bernardino deu um murro na mesa" (Uma Fazenda em África, págs. 26, 137, 315); José Duarte, na casa de pneus, no cubículo envidraçado que fazia de escritório da oficina, "bateu com os nós dos dedos", Tolentino "apoiou os punhos cerrados no tampo da secretária", "Bateu com os nós dos dedos na porta" (A Aluna Americana, págs. 21, 142, 170); "Levantou-se da mesa, apoiando-se nas palmas das mãos" (Até ao Fim da Terra, p. 58); "Valentina deu um murro na mesa e sentou-se em frente do colega" (O Prazer de Guiar, p. 48).

Quando damos murros nas mesas, ou apoiamos as mãos abertas sobre o respectivo tampo, pretendemos enfatizar as nossas palavras e, com isso, preencher a distância entre o significante (o soco, um signo não verbal, segundo a semiótica) e o significado (a ideia de raiva, a necessidade de dizer "basta" ou colocar um "ponto final"). Quando damos pancadinhas com os nós dos dedos ou pousamos as mãos sobre o tampo da secretária, a situação semiótica é a mesma, embora com intensidades e intenções comunicativas diferentes: Gervásio "deu um murro na mesa", "a tia poisou ambas as mãos sobre o tampo da mesa", Custódio bateu à janela de Lurdes com "as habituais pancadinhas com os nós dos dedos", "Deu um fortíssimo murro no tampo da secretária", "Ele bateu com os nós dos dedos num dos vidros" (Vento de Espanha, págs. 51, 63, 110, 112, 192); "Jean-François deu um murro na mesa e ergueu-se" (Haiti, p. 195); Mme Charpentier "dava três eloquentes pancadas com os nós dos dedos no tampo da mesa", "bateu com os nós dos dedos no tejadilho da carruagem", "gritou Coelho do Amaral, batendo com o punho cerrado na mesa" (Os Dias da Febre, págs. 119, 259, 308); "Tarquínio Torcato deu um irado murro no tampo da mesa", Torcato "espalmou ruidosamente as mãos abertas sobre o tampo da mesa, apoiou-se nelas, ergueu-se e despediu-se de forma abrupta", Eugénia "esconjurou a ideia, batendo com os nós dos dedos na madeira da porta" (Do Outro Lado do Mar, págs. 137, 164, 204).

 




As cabeças de JPM

 

Na anatomia humana, a cabeça é uma secção independente do corpo. A cabeça é como uma entidade à parte, um país por si próprio, com fronteiras definidas, um organismo que vive sozinho, com poder de decisão para assentir, confirmar ou anuir. As seguintes frases são JPM dos pés à cabeça (sem esquecer a barba):

 

1. O Estranho Caso de Sebastião Moncada: "Sátiro da Costa assentiu timidamente com a cabeça", "Vilaverde assentiu com a cabeça", "O rapazinho assentiu com a cabeça", "Mateus assentiu com a cabeça", Romão "confirmou com a cabeça", "Mateus nada disse mas assentiu com a cabeça", "Ela [Poleciana] confirmou com a cabeça", "Mateus anuiu com a cabeça", D. Pedro, "assentiu com a cabeça", "Golias assentiu com a cabeça", "Assentiu com um gesto de mão", Sátiro "voltou a assentir com a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça e inclinou-se para a frente", "O ministro fez um ligeiro assentimento com cabeça", "O duque assentiu com a cabeça", "A mulher assentiu com a cabeça" (12, 20, 33, 51, 80, 94, 95, 181, 204, 228, 240, 265, 278, 294, 304, 316).

 

2. Uma Fazenda em África: "Peter anuiu com a cabeça, numa quase dormência", Eva "assentiu com a cabeça", "O homem assentiu com a cabeça", "assentiu com a cabeça", "O homem assentiu com a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça", "Ele nada disse, limitando-se a assentir com a cabeça", "Ela assentiu energicamente com a cabeça", "Bernardino assentiu com a cabeça", Peter "assentiu com a cabeça", "Peter assentiu com a cabeça" (págs. 97, 135, 136, 161, 295, 299, 321, 341, 355, 394, 423).

 

3. A Aluna Americana: "Ele assentiu com a cabeça, compreensivo", "José Duarte assentia com a cabeça", "O empregado assentiu com a cabeça", "A doutora Payne assentiu com a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça", "Ela assentiu com a cabeça", "José Duarte assentiu com a cabeça", "ficou em silêncio, assentindo com a cabeça", "José Duarte assentiu com a cabeça", "disse ele, a sorrir e assentindo com a cabeça” e "Ele sorriu e assentiu com a cabeça", "Isabel assentiu com a cabeça e concordou", "José Duarte assentiu com a cabeça", "Ela assentiu com a cabeça" (págs. 35, 57, 110, 164, 169, 202, 205, 231, 232, 270, 276, 278, 282).

 

4. Até ao Fim da Terra: "Bento assentiu com a cabeça", "Ela assentiu com a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça", "Maria Constança assentiu com a cabeça", "O antigo Físico-mor assentiu com a cabeça", "Nepomuceno assentiu com a cabeça", "O general assentiu com a cabeça", "assentiu ela", "A mulher assentiu com a cabeça", "O marquês assentiu com a cabeça", "O soldado assentiu com a cabeça", Maria Constança "assentiu com a cabeça", Napoleão "assentiu com a cabeça", "o tenente francês assentiu com a cabeça e ficou em silêncio", "O oficial de lanceiros assentiu com a cabeça", "Constança abriu muito os olhos e, com um sorriso rasgado, de orelha a orelha, assentiu com a cabeça", Bento "limitou-se a assentir com a cabeça"; p. 247: "Sá Nogueira assentiu com a cabeça" (págs. 28, 32, 41, 62, 78, 106, 120, 121, 126, 139, 143, 173, 194, 199, 202, 237, 241, 247).

 

5. Vento de Espanha: "Ele assentiu com a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça", "o padre assentiu com a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça", "Custódio assentiu com a cabeça", "Lurdes sorriu e assentiu com a cabeça", "Ela (Lurdes) assentiu com a cabeça", Custódio "assentiu com a cabeça", Custódio "assentiu com a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça", "Ela assentiu", "Custódio assentiu com a cabeça", "Lurdes assentiu com a cabeça", "Lurdes assentiu com a cabeça", "Lurdes recebeu o papel e assentiu com a cabeça", o alferes "assentiu com a cabeça", "Esteban assentiu com a cabeça", "Zanelli sorriu e assentiu com a cabeça", "Custódio assentiu com a cabeça", "Custódio assentiu com a cabeça", "Custódio assentiu com a cabeça", Lurdes "assentiu com um leve inclinar da cabeça", o coronel Vorobiov "assentiu com a cabeça", "o general assentiu com a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça", "Ela assentiu com a cabeça", "Lurdes assentiu com a cabeça" e "Ele assentiu com a cabeça", "Vorobiov assentiu com a cabeça", Maria del Carmen "sorriu, assentiu com a cabeça", "Esteban assentiu com a cabeça", o general Kléber "assentiu com a cabeça" (págs. 8, 9, 22, 25, 38, 78, 81, 87, 88, 91, 105, 115, 122, 123, 124, 157, 170, 195, 206, 214, 218, 220, 222, 245, 247, 255, 269, 271, 295, 311).

 

6. Haiti: Honoré "assentiu em silêncio com a cabeça", "até Antoine assentir com a cabeça", "Bartolo assentiu com a cabeça", "Antoine assentiu com a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça", Jolicoeur "estava apavorado, as bochechas tremiam-lhe e assentia com a cabeça", "O negro assentiu com a cabeça", "Tanguy assentiu com a cabeça", "O mulato assentiu com a cabeça", "Beauregard assentira com a cabeça", "Ela assentiu com a cabeça", "Joséphine assentiu com a cabeça" (págs. 17, 51, 56, 60, 63, 72, 78, 116, 132, 218, 228).

 

7. Do Outro Lado do Mar: "Gaspar assentiu com a cabeça", "Vasco assentiu com a cabeça e respirou fundo", "O homem assentiu com a cabeça", Dona Inácia "assentia com a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça", "o homem assentiu com a cabeça", "Vasco assentiu com a cabeça", "Ela assentira com a cabeça", "Ela assentira com a cabeça", Vasco "limitou-se a assentir com a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça", "Joaquim sorriu e assentiu com a cabeça", padre Inocêncio "assentiu com a cabeça", "O outro assentiu com a cabeça", "Gaspar assentiu com a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça", "A mulata assentiu com a cabeça", "O preto assentiu com a cabeça"; "O negro assentiu com a cabeça", "Vasco assentiu com a cabeça", "O médico assentiu com a cabeça" (págs. 75, 77, 98, 107, 123, 136, 147, 168, 184, 195, 220, 267, 240, 292, 293, 295, 337, 343, 346, 347, 348).

 

8. O Prazer de Guiar: "a mulher assentiu com a cabeça", "Raquel assentiu com a cabeça", "Raquel sorriu e assentiu com a cabeça", "Ela assentia com a cabeça, embevecida, maravilhada com as palavras dele, escutando-o como se escuta um profeta" (págs. 29, 70, 89, 142).

 

9. Um de Nós Deve Lembrar-se: "assentiu com uma inclinação da cabeça", "Henrique assentiu com a cabeça, em silêncio", "Luís assentiu com a cabeça", Alzira de Jesus, a criada de servir, "assentiu com a cabeça", "Alzira assentiu com a cabeça", "Ele assentiu com cabeça", "Pedro assentiu com a cabeça", "Ela assentiu com a cabeça", "O amigo assentiu com a cabeça", "Luís Ashley assentiu com a cabeça", "O Doutor Alvim assentiu com a cabeça", "O psiquiatra assentiu com a cabeça" e "Alfredo Garcia assentiu com a cabeça", "Papi assentiu com cabeça" (págs. 66, 77, 83, 99, 102, 122, 127, 146, 153, 159, 220, 221, 269).

 





Estampas & Bordados

 

Quando extrovertidas e comunicativas, as personagens sublinham a sua vida interior com expressões incisivas do rosto, como os estampados (cheios de flores e de pássaros) da Casa dos Tecidos (gangas, sedas, viscose, bombazine, crepe algodão e muito mais): dois homens "com a incompreensão estampada nos rostos", "Via-se o orgulho estampado na cara dos soldados", homens, mulheres e crianças a correrem, "com o terror estampado nas caras", Golias "com a aflição estampada no rosto" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 117, 118, 211, 226); a mãe de Benedita "com a aflição estampada no rosto", "um dos tais homens (...) que tinham estampada na cara a sua honradez", "viu-lhe a admiração estampada na cara", "com o pavor estampado no rosto", "vinham com a perplexidade e a consternação estampadas no rosto" (Uma Fazenda em África, págs. 10, 180, 198, 210, 318); "tinha estampada na cara a convicção", uma felicidade que "Isabel tinha estampada no brilho do seu olhar" (A Aluna Americana, págs. 18, 278); "com a honestidade estampada no rosto" (Até ao Fim da Terra, p. 159); Carmen "com a felicidade estampada na cara" (Vento de Espanha, p. 328); "com a ansiedade estampada no rosto", "a felicidade estampa-se no rosto da maioria dos convidados" (Os Dias da Febre, págs. 68, 240); "a aflição estampou-se-lhe na cara" (Do Outro Lado do Mar, p. 311).


 




Esgar Allan Poe

 

Expressões pesadamente carregadas de significados quando associadas a determinadas marcas físicas no rosto, as quais, ao remeterem para uma dor ou recordação permanente do passado, lhes conferem uma maior carga emocional ou psicológica: o granadeiro "tinha uma cicatriz que lhe repuxava o olho esquerdo para cima" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 219); Tanguy Jolicoeur com uma "feia cicatriz que lhe marcava a face direita", Bartolo, o cocheiro de Honoré, tem "uma cicatriz na testa" (Haiti, págs. 14, 223); Vasco tem "fina cicatriz, arranjada numa escaramuça de viela, que lhe sulcava a face direita e lhe endurecia a expressão", Tarquínio Torcato (nome inspirado no madeirense Arsénio Pompílio Pompeu de Carpo, considerado o maior negreiro de Angola) "tinha uma feia cicatriz" (Do Outro Lado do Mar, págs. 19, 86); Kutúzov tem uma "grande cicatriz na testa" (Até ao Fim da Terra, p. 192).

A cicatriz provoca uma alteração da expressão facial, sobretudo quando a rigidez do tecido fibroso se confronta com certas contrações musculares do rosto que deformam, ainda mais, as feições, como nos esgares. Como quem está a brincar com um dente molar, Mateus Vilaverde ergue-se "com um esgar de repulsa na cara", "um esgar de medo ou dor", "esgar de irritação", ou Mateus "não conseguiu evitar um esgar de dor" e o corcunda caiu agarrado à barriga "com um esgar de dor", o voluntário liberal "tentou sorrir, mas fez apenas um esgar" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 18, 54, 85, 148, 235, 283); "a boca estava paralisada num esgar", "esgar desdentado do marinheiro", "concluiu, com um esgar de sofrimento", Bernardino "fez um esgar e espirrou", Joaquim Baptista Moreira "fez um esgar", "A sua boca sem dentes contorcia-se em esgares" (Uma Fazenda em África, págs. 9, 93, 175, 228, 248, 279); "esgar de desagrado", "esgar de raiva", "um inesperado esgar", "fazendo esgares com a cara" (Até ao Fim da Terra, págs. 44, 51, 217, 221); Valentina "fez um esgar de desconsolo" (O Prazer de Guiar, p. 84); "um esgar de recusa e de irritação", "um esgarzinho de superioridade e desprezo", "fez um esgar de desagrado", "um involuntário esgar", "fez um esgar de descontentamento" (Vento de Espanha, págs. 11, 105, 164, 207, 248); "Honoré fez um esgar de desagrado e de irritação", "um involuntário esgar", "um esgar de desânimo", "com um esgar", "fazendo um esgar à laia de sorriso", "o sorriso inicialmente irónico converteu-se num esgar amargo", "um esgar de ódio", "fez um esgar, à laia de sorriso" (Haiti, p. 16, 22, 67, 95, 106, 121, 223, 225); "franzindo a cara num esgar amargurado", "fazendo um esgar de horror", "os esgares de inveja a todas as mulheres presentes", Catarina fez "um esgar à laia de sorriso", "um esgar de dor", "com um esgar de lamento", "com um esgar de nojo", "um esgar de dor" (Os Dias da Febre, págs. 18, 110, 127, 152, 183, 188, 219, 282); "um esgar de contentamento", "esgar de aprovação", "fez um esgar que parecia um sorriso", "O capitão fez um esgar de concordância que valia por um vago sorriso", Tarquínio "fez um esgar desdenhoso", "o capataz fez um esgar de repulsa", "faziam esgares de fúria" (Do Outro Lado do Mar, págs. 55, 59, 74, 120, 199, 310, 320).





 

Olhos muito abertos e ainda mais esbugalhados

 

Os olhos das personagens viajam em todas as direcções procurando um ponto determinado no qual deter-se. Trata-se de olhares penetrantes, muito abertos, que abarcam todo o campo visual e que, como predadores, não tiram a vista de cima dos outros. No ar contido do espaço quadrado que os livros de JPM delimitam, o olhar (com as órbitas ora contraindo-se, ora dilatando-se) é mais importante que os objectos e os próprios seres vivos: "garantiu, de olhos muito abertos", "perguntou Luísa, abrindo os olhos", "olhos vítreos, muito abertos", "O padre Guilherme fitou-o com os olhos muito abertos", "estranhou a irmã Machadinho, abrindo muito os olhos", "Mateus abriu os olhos e esclareceu", "com os olhos muito abertos e ainda mais esbugalhados do que o habitual", "o padre fitava-o com os seus grandes olhos esbugalhados, vítreos", "Abriu muito os olhos como se tivesse visto o demónio", "com os olhos a saltar das órbitas" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 81, 82, 144, 148, 188, 198, 250, 321, 336); "com os grandes olhos muito abertos", "Enquanto dançavam, fixavam o infinito, com os olhos esbugalhados"; p. 128: "Bernardino arregalou muito os olhos", "abrindo muito os olhos", "olhos vítreos e muito abertos", "abrindo muito os olhos assustados", "Olhava todos com os olhos muito abertos, esbugalhados", "abrindo muito os olhos" (Uma Fazenda em África, págs. 60, 99, 128, 259, 339, 345, 353, 377); "José Duarte abriu muito os olhos, como se estivesse espantado"; (A Aluna Americana, p. 19); Lecour "tinha os olhos esbugalhados", Gros, magistrado, preso pelos revoltosos, com Melchior, é "homem alto e magro, de cabeça calva, mãos ossudas e olhos esbugalhados", "os seus olhos agitaram-se como se fossem sair das órbitas", "olhos esbugalhados" (Haiti, págs. 90, 95, 163, 224); "esclareceu Lambertine, arregalando muito os olhos", "garantiu ela, abrindo muito os olhos para melhor sublinhar a afirmação", Maria "com os olhos bem abertos a transbordar de entusiasmo" (Os Dias da Febre, págs. 138, 227, 265); "de olhos muito abertos, espavoridos e implorantes"; p. 122: "de olhos muito abertos, narinas dilatadas" (Do Outro Lado do Mar, págs. 50, 122). 

 

A Arte de Semicerrar Presunto

 

Quando as personagens fecham as pálpebras, fazem-no parcialmente, deixando os olhos entreabertos. Isso tanto pode significar um meio de expressão artística de JPM, como muitas outras coisas: que as personagens têm problemas de visão (miopia ou fadiga ocular), procuram proteger a visão contra luzes intensas (ou fumo do cigarro), ou tentam avaliar cuidadosamente um objecto, alguém ou um informação: o Dr. Souto "semicerrou os olhos", "A astúcia e a expectativa fizeram-lhe semicerrar os olhos", Henriques "fitou-o com os olhos semicerrados" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 30, 59, 76); "de olhos semicerrados", "olhos semicerrados, lúbricos", Bernardo "semicerrou os olhos para proteger do sol", "obrigou-a a semicerrar os olhos", Kpengla: "endireitou-se lentamente, semicerrando os olhos", "com os olhos semicerrados", "com os olhos semicerrados", Joaquim Baptista Moreira mantinha os olhos semicerrados", "com os olhos semicerrados", "ele semicerrava os olhos", governador tinha "os olhos semicerrados" (Uma Fazenda em África, págs. 12, 35, 36, 133, 148, 164, 148, 164, 243, 248, 279, 331, 401); "José Duarte semicerrou as pálpebras" (A Aluna Americana, p. 283); Maria Constança "semicerrava os olhos" (Até ao Fim da Terra, p. 74); "Raquel pôs a cabeça de lado, desconfiada, e semicerrou os olhos", "de olhos semicerrados"; "um homem gordo com chapéu de coco azul-escuro" (O Prazer de Guiar, págs. 27, 123); "pelas frestas dos olhos semicerrados", "Lurdes semicerrou os olhos" (Vento de Espanha, págs. 118, 257); "os seus olhos [de Joséphine] se semicerraram e a boca distendia num sorriso satisfeito" (Haiti, p. 9); "os olhos semicerrados", "com os olhos semicerrados", "respondeu Carlos, semicerrando os olhos", Robert fez uma pausa para pensar, "semicerrando os olhos", Carlos ficou em silêncio, "mexendo nas suíças, de olhos semicerrados", Robert franze a cara, "semicerrando os olhos", "Alda tinha os olhos semicerrados" (Os Dias da Febre, págs. 25, 56, 61, 87, 148, 174, 197); "semicerrando os olhos", "com os olhos semicerrados", a mulher do soba "de olhos semicerrados", "os olhos, que estavam semicerrados", Eugénia "semicerrou os olhos, inclinou a cabeça e aplaudiu", Gaspar "semicerrou os olhos", Gaspar "sorriu, ainda deitado, e semicerrou os olhos de satisfação" (Do Outro Lado do Mar, págs. 17, 32, 126, 139, 205, 274, 309); "sentou-se e semicerrou os olhos" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 238). 






Por vezes, como de resto todos os leitores, direccionam os olhos para o lado sem virarem a cabeça. Tal movimento ocular, pela sua rapidez e discrição, mostra que estas personagens possuem uma visão periférica bastante apurada, permitindo-lhes detectar movimentos suspeitos ou perigosos nas laterais do seu campo visual, ou então, quando acompanhado de um leve sorriso, indicam interesse romântico pela pessoa por quem se sentem atraídos. Olhar de lado dá-lhes o ensejo de conceberem ângulos em cima de outros ângulos: "Mateus viu, pelo canto do olho, uma mulher vestida em tons claros", o estalajadeiro "às vezes olhava pelo canto do olho para a tropa", padre Guilherme observava o morgado Gonçalo Henriques "pelo canto do olho", Mateus "seguia a cena pelo canto do olho", Barbeiro "olhando pelo canto do olho Mateus" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 91, 118, 147, 188, 199); Joaquim Moreira "olhou pelo canto do olho", "O cônsul olhou de soslaio", "Bernardino viu pelo canto do olho que a praia se esvaziava", Benedita "via pelo canto do olho o ar agradecido e embevecido de Bernardino", "olhou pelo canto do olho", "Pelo canto do olho percebeu que tinha sido o alemão a disparar", "enquanto pesquisava, pelo canto do olho, o paradeiro de Benedita", "Eva viu pelo canto do olho", "olhando pelo canto do olho" (Uma Fazenda em África, págs. 14, 17, 142, 144, 159, 169, 263, 279, 374); "Pelo canto do olho ia observando", José Duarte para Isabel: "olhando-a de soslaio", Isabel "atravessou o lobby em direcção à saída vendo de soslaio o olhar do recepcionista", "Olhando, de esguelha, sobre o ombro" (A Aluna Americana, págs. 18, 20, 50, 178); "O homem tossiu, olhou de soslaio", "pelo canto do olho, ela via-o fazer sorrisos", "Pelo canto do olho, viu as freguesas", "olhou pelo canto do olho", "viu pelo canto do olho", "Pelo canto do olho viu", "vigiava pelo canto do olho" (Vento de Espanha, págs. 21, 50, 105, 157, 196, 214, 250); "percebendo, pelo canto do olho, que Arsénio o encorajava", "pelo canto do olho ia avaliando a expressão corporal de Conceição", "o médico foi-a observando de soslaio", "vigiando a porta pelo canto do olho"; "Elvira viu, pelo canto do olho", Robert: "pelo canto do olho percebeu que outros vultos saíam de uma porta escura", Elvira "percebeu pelo canto do olho", Elvira "disse, pensativa" (Os Dias da Febre, págs. 45, 135, 195, 201, 241, 282, 313, 315); "olhando de soslaio", "pelo canto do olho via Caetana lançar-lhe olhares fundos", "vendo pelo canto do olho", "Enquanto rezava percebia pelo canto do olho que ele a observava", "arriscando olhar de soslaio para o crucifixo", "Vasco ia empurrando o cano da pistola contra as costelas de Prudêncio e vigiando os outros negros pelo canto do olho" (Do Outro Lado do Mar, págs. 15, 29, 126, 204, 247, 345); "João olhou de soslaio para a ex-mulher" (O Prazer de Guiar, p. 106); "pelo canto do olho viu que ela sorriu", Rita, "pelo canto do olho, foi-se deliciando com o que via", "Vasco espreitava pelo canto do olho e via os pais e as tias" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 60, 143, 152). 

Mudando de parágrafo, tratemos de outro aspecto das personagens marquianas: o sorriso (como vimos antes, podem sorrir e rir à vontade, pois os dentes que mostram são magníficos). Ao contrário do que afirmam o neurologista Duchenne de Boulougne e o psicólogo Paul Ekman, segundo os quais existem apenas 19 tipos de sorrisos, JPM revela que a capacidade humana para produzir sorrisos é infinita, dada a plasticidade da boca e do cérebro humanos.

JPM é um mestre exímio na arte do sorriso: um "sorriso vago", um "sorriso cínico", um "sorriso hesitante", "um sorriso vago", "um sorriso reconhecido", "um pálido sorriso", um "sorriso desajeitado", um "sorriso condescendente", "um sorriso melancólico e desamparado", um "sorriso desdenhoso", "um riso cansado e trocista", um "sorriso matreiro" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 14, 148, 190, 213, 245, 247, 251, 259, 290); "um grande sorriso", "largos sorrisos", "largo sorriso", "um vago sorriso", "com um sorriso imbecil e indecifrável nos lábios", "um sorriso satisfeito", "com um sorriso que lhe iluminava a cara", "com um sorriso cândido", um "sorrisinho cínico", "sorriu de alívio e de satisfação", um "sorriso insinuante", "prolongados sorrisos", um "sorriso agradecido", "um largo sorriso", um "sorriso beatífico nos lábios", um "sorriso acolhedor", "um sorriso rasgado", um "sorriso surpreendido", "um sorriso cortês e agradecido", "um sorriso doce", um "sorriso amolecido", "um sorriso aliviado", um "sorriso dorido", um "sorriso trocista", um "sorriso inquieto", um "sorriso forçado" (Uma Fazenda em África, págs. 29, 37, 44, 80, 105, 120, 126, 134, 141, 153, 164, 205, 212, 236, 248, 252, 253, 259, 261, 263, 270, 290, 299, 338, 385, 418); um "sorriso desconsolado", um "sorriso encantador", "um sorriso triste" (A Aluna Americana, págs. 105, 165, 212); um "sorriso triste", "um sorriso triste e um gesto vago com a mão direita" (Até ao Fim da Terra, págs. 102, 188); um "sorriso encantador", um "sorriso doce e comercial", "um sorriso cúmplice", "um riso límpido e cúmplice", "um sorriso amarelo"; um "sorriso desdenhoso" (Vento de Espanha, págs. 79, 83, 86, 102, 112, 218); um "sorriso desdenhoso" (O Prazer de Guiar, p. 11); "um sorriso artificial", "um amargo sorriso", um "sorriso desdenhoso", "um vago sorriso desdenhoso", um "sorriso desdenhoso" (Haiti, págs. 15, 109, 120, 184, 223); um "discreto sorriso", "um sorriso enigmático", um "sorriso rasgado", "um sorriso discreto", um "sorriso trocista", um "sorriso largo", um "sorriso inseguro", "um tímido sorriso", "um enorme sorriso", um "sorriso matreiro", um "sorriso compreensivo, quase cúmplice", um "sorriso enigmático", "um sorriso matreiro e talvez vagamente perverso", um "sorriso rasgado", "um sorriso enigmático", "um sorriso tranquilizador" (Os Dias da Febre, págs. 61, 73, 114, 116, 149, 191, 194, 196, 203, 209, 229, 260, 293, 294, 317); "um sorriso divertido e desafiante", um "sorriso, desafiante e divertido", um "sorriso divertido", um "sorriso deslaçado", um "sorriso encantador", "um sorriso cândido e delicioso estampado na cara", um "sorriso encantador"; um "sorriso humilde" (Do Outro Lado do Mar, págs. 11, 24, 80, 82, 106, 196, 214, 219); "um vago sorriso", um "sorriso amarelo", um "riso simpático e contagiante" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 90, 154, 196). (Ganham o "sorriso desdenhoso" e o "sorriso encantador".)





Com um sorriso pode-se controlar o mundo social, obter a adesão, a simpatia e a cumplicidade dos outros. Em particular quando o sorriso é rasgado ou vai de orelha a orelha: "vinha de sorriso rasgado na cara" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 314); "sorriso rasgado", "disse o homem com um sorriso rasgado" (Uma Fazenda em África, págs. 37, 353); "ele trouxe uma mão-cheia de mapas e folhetos turísticos, juntamente com um sorriso rasgado" (A Aluna Americana, p. 99); Custódio Moreira "saiu da igreja com um sorriso rasgado", "a sua boca rasgou-se num sorriso de orelha a orelha" (Vento de Espanha, págs. 23, 192); "abrindo o rosto num sorriso rasgado", "sorriso rasgado" (Os Dias da Febre, págs. 114, 293); "Constança abriu muito os olhos e, com um sorriso rasgado, de orelha a orelha, assentiu com a cabeça" (Até ao Fim da Terra, p. 237); um negro que "abriu um sorriso de orelha a orelha" (Haiti, p. 44); "a sua boca rasgou-se num sorriso de orelha a orelha" (Vento de Espanha, p. 192); "com um incontrolável sorriso de orelha a orelha" (Os Dias da Febre, p. 112).

Outros há que não deixam escapar os sorrisos, limitando-se a esboçá-los. Como respondeu Leonardo da Vinci, quando lhe perguntaram porque é que deixava os contornos vagos (como no sorriso e no olhar da Mona Lisa): mais vale esboçar que revelar. Porquê? Porque isso obriga a mente a trabalhar, levando-a a tentar encontrar significados ocultos nas posturas humanas, nomeadamente as microexpressões, os pequenos movimentos faciais, quase imperceptíveis para outrem. O pintor romântico Eugène Delacroix retomou esta ideia nos seus Diários, ao dizer que os seus esboços têm mais vida, mais poesia e mais emoção que os quadros excessivamente trabalhados.

O mesmo se poderia afirmar sobre os sorrisos: Sátiro "esboçou um sorriso cúmplice", "o esboço de um sorriso", Mateus "esboçou uma despedida", Etelvino "esboçou um gesto de desdém e de irritação", "A velha limitava-se a esboçar um ligeiro sorriso", Etelvino "esboçou, então, um inesperado sorriso", "esboçou um sorriso triste" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 16, 44, 53, 106, 167, 169, 286); "acrescentou o rei, esboçando o que parecia ser um sorriso", "disse Bernardino, esboçando um sorriso", "esclareceu o governador, esboçando um sorriso", "Luz Soriano esboçou um ligeiro sorriso", Coitadinho Amigo "esboçou um sorriso", Bernardino "esboçou um sorriso", "esboçando um beicinho" (e, meia dúzia de linhas abaixo, "conseguiu esboçar um gesto de anuência"), o governador "tentou esboçar um sorriso", "Peter conseguiu esboçar um sorriso" (Uma Fazenda em África, págs. 107, 140, 188, 229, 299, 310, 369, 401, 418); "esboçando sorrisos na sua direcção" [uma prostituta com José Duarte] e "José Duarte esboçou um sorriso reconhecido, mas triste" (A Aluna Americana, págs. 123, 276); "O rapaz esboçou um sorriso", "não esboçou qualquer gesto para o impedir", "ela esboçou um meio sorriso", "Bento esboçou um meio sorriso", "Napoleão esboçou um raro sorriso", "o soldado esboçou um sorriso oco" (Até ao Fim da Terra, págs. 57, 85, 111, 119, 179, 184); o septuagenário João Blundell Sequeira "esboçou um sorriso", "A ex-mulher esboçou um sorriso", Valentina "tentou esboçar um sorriso", Valentina "esboçava um sorriso ante o insólito de tudo aquilo", "balbuciou Valentina, esboçando um sorriso" (O Prazer de Guiar, págs. 7, 28, 131, 139); "Tudo aquilo a fez esboçar um leve sorriso" (Vento de Espanha, p. 240); "Robert esboçou um sorriso", Elvira pergunta algo a Robert "esboçando um sorriso", "disse Robert, esboçando um sorriso" (Os Dias da Febre, págs. 175, 187, 276); "O homem esboçou um sorriso", Sara "esboçando um sorriso", "Romão esboçou um sorriso" (Do Outro Lado do Mar, págs. 170, 236, 293); "Alzira esboçou, a medo, um sorriso", "Ele esboçou um sorriso" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 101, 122).

Os sorrisos ajudam a iluminar os rostos, fazendo-os brilhar por instantes. JPM descreve esse momento com brilhantismo: "com um sorriso que lhe iluminava a cara", "a cara iluminou-se-lhe num sorriso entusiasmado" (Uma Fazenda em África, págs. 134, 267); "o rosto iluminado por um sorriso entusiasmado e entusiasmante" (Vento de Espanha, p. 87); cara de Sara "iluminada por um vago sorriso" (Do Outro Lado do Mar, p. 185).

Ainda no âmbito das expressões faciais, assume particular relevância a contracção da região nasal e do lábio inferior, de modo a empurrar a ponta do nariz ligeiramente para cima. Este gesto de comunicação não verbal serve para indicar rejeição, repulsa física, nojo, desagrado, desconfiança, desdém ou arrogância: "O outro torcera o nariz", "torcia o nariz com desconfiança", "O padre torceu o nariz" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 112, 151, 247); os portugueses "torcem o nariz à ideia" (de se fundar uma colónia em Angola), Peter "torceu o nariz", "José Leite torcera o nariz", Bernardino "principiou também a torcer o nariz", Bernardino "torceu o nariz" (Uma Fazenda em África, págs. 19, 109, 143, 226, 321); "o seu estado-maior torcia o nariz", "Alorna pigarreou e torceu o nariz" (Até ao Fim da Terra, págs. 8, 141); "O tenente abanou a cabeça e torceu o nariz" (Vento de Espanha, p. 163); Joséphine "fez um ar apreensivo e torceu o nariz", "Tobias torceu o nariz", "Melchior torceu o nariz" (Haiti, págs. 53, 145, 212); Robert disse, "torcendo levemente o nariz", "objectou Carlos, torcendo o nariz", disse o médico, "torcendo o nariz" (Os Dias da Febre, págs. 109, 147, 311); "Porém, ele torceu o nariz" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 159).

Acresce a isto o faro apurado de todos eles. É o que vou provar, penetrantemente, com as passagens seguintes, onde as fossas nasais (e não só) protagonizam situações muito diversas. Na verdade, elas não se limitam a cheirar, como o pasteleiro os seus pastéis: Luísa "gostava daquele amontoado de cheiros, cores e sons", Mateus "deambulou pela cidade para se reapossar dos seus cheiros e das suas cores", "pintava a vida do Porto, os sons, os cheiros, as cores" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 39, 179, 269); Peter passou pelo mercado "e serpenteou entre os cheiros intensos" (Uma Fazenda em África, p. 99); em África "os cheiros eram diferentes de tudo o que conhecia" (Do Outro Lado do Mar, p. 123); "um cheirinho açucarado que perfumava a rua" (Vento de Espanha, p. 24); "Auzenda fazia muitos recados e aproveitava para ver as lojas e apreciar as cores e os sons das ruas. (...) por detrás dos cheiros intensos dos queijos, do bacalhau, dos curtumes, se escondiam os aromas doces do café, os odores discretos das flores e das frutas, e havia sempre coisas novas para observar" (Os Dias da Febre, p. 190); "Às vezes ainda lhe chegava a memória dos cheiros e dos sons dessa casa", "as cores, os sabores e cheiros eram intensos e inesquecíveis", José Duarte "deliciou-se com os cheiros, as cores e os brilhos natalícios" (A Aluna Americana, págs. 14, 192, 219).






Descendo pelo pescoço, nas laterais, temos a região que une os braços ao tronco: os ombros. É frequente as personagens de JPM subirem-nos em direcção às orelhas, em sinal de ignorância, de indiferença ou de impotência. Assim, o ambiente retratado por JPM através do encolher de ombros é o que ele melhor conhece, de com ele privar todos os dias. Trata-se não apenas de um movimento físico – como quem não sabe ou não quer saber –, mas também de um gesto que vem das profundidades que o constituem. A ele e às suas personagens, sem excepção: "Adélia limitou-se a encolher os ombros", "O homem encolheu os ombros e oscilou a cabeça de um lado para o outro, como se negasse", o cocheiro "encolheu os ombros", Sátiro da Costa "encolhendo os ombros numa perplexidade filosófica", Luísa: "encolhendo os ombros ela acabou por aceder e sorriu", "O homem [Romão] encolheu os ombros", Poleciana "encolheu os ombros, conformada", Etelvino "acrescentou, encolhendo os ombros, com indiferença", Mateus "limitou-se a encolher os ombros", "explicou o rapaz, com um encolher de ombros", "o sargento encolheu os ombros", "o padre encolheu os ombros", "o anspeçada encolheu os ombros" e "um sargento de engenheiros "encolheu os ombros", Poleciana "encolheu os ombros, sorrindo" e "Poleciana encolheu os ombros" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 10, 19, 29, 34, 46, 80, 94, 106, 124, 181, 202, 250, 272, 278); "previu o capitão, enquanto encolhia os ombros", "José Leite encolheu os ombros", "Pascoal Pluma não respondeu e limitou-se a encolher os ombros", "Bernardino encolheu os ombros", "Ela encolhera os ombros", "limitou-se a encolher os ombros", Bernardino: "respondeu, encolhendo os ombros", Coitadinho Amigo "disse, encolhendo os ombros", "encolheu os ombros, com resignação", "disse o preto, encolhendo timidamente os ombros", Peter "encolhera os ombros", "Costa encolheu os ombros", "Peter encolheu os ombros" (Uma Fazenda em África, págs. 93, 113, 124, 127, 186, 200, 289, 298, 322, 345, 378, 398, 420); Isabel "encolheu os ombros, respirou fundo e concordou", "Ela encolheu os ombros e explicou", Isabel "encolheu os ombros", "encolheu os ombros, com resignação", "Doug encolheu os ombros", "Ela encolheu os ombros", "Ele encolheu os ombros", "encolhendo novamente os ombros", "encolheu os ombros", "Ele encolheu os ombros" (A Aluna Americana, págs. 54, 55, 60, 77, 86, 97, 176, 193, 194, 232); "encolheu os ombros e duvidou", "encolheu os ombros e foi numa corridinha", "disse ela, encolhendo os ombros", "Laforêt encolheu os ombros e fez um esgar de dúvida", "Ele encolheu os ombros", os sargentos e oficiais "encolhiam os ombros e nada faziam", "disse, encolhendo os ombros" (Até ao Fim da Terra, págs. 96, 103, 143, 151, 205, 208, 237); João "encolheu os ombros" no Largo Mário Soares, "João encolheu os ombros", Alcídio "encolheu displicentemente os ombros", "Alcídio suspirou e encolheu os ombros", Xavier "fez um sorriso compreensivo e encolheu os ombros" (O Prazer de Guiar, págs. 12, 27, 48, 83, 125); "Ele encolhia os ombros", "encolhiam os ombros perante tão flagrantes injustiças", Custódio sentiu-se autorizado "a pôr-lhe o braço sobre os ombros", "Ele encolheu os ombros, de desânimo", "Zanelli encolheu os ombros", "desabafou, encolhendo os ombros, resignada", "ele passou-lhe um braço pelos ombros" (Vento de Espanha, págs. 55, 59, 88, 161, 174, 188, 194); "ela encolheu os ombros, como quem não sabe precisar", "Polverel encolheu os ombros", "O homem encolheu os ombros numa manifestação de incerteza" (Haiti, págs. 53, 166, 209); "referiu Richard, com um encolher de ombros", "confessou Elvira, encolhendo os ombros", Elvira "mentiu, encolhendo os ombros" (Os Dias da Febre, págs. 92, 219, 313); "O homem encolheu os ombros, com indiferença", "Tarquínio Torcato encolheu os ombros", "O homem encolheu os ombros, resignado", o padre "encolheu os ombros", Damião Costa "encolheu os ombros", "Joaquim Navarro encolheu os ombros", "A escrava encolheu os ombros", "encolhiam despreocupadamente os ombros" (Do Outro Lado do Mar, págs. 85, 90, 93, 110, 113, 267, 281, 351); Bebé Mexia "retorquiu, encolhendo os ombros", "Bebé voltou a encolher os ombros", "Ele encolheu os ombros, desalentado", "Henrique encolheu os ombros" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 41, 42, 158, 223).

Mas há mais. Diria mesmo, há muito mais: "O homem pôs-lhe uma mão suave no ombro" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 287); Bernardino passou-lhe "um braço comovido sobre os ombros", Peter "disse por fim, passando-lhe o braço em redor dos ombros" (Uma Fazenda em África, págs. 43, 272); "pondo o braço direito sobre os ombros de Isabel", Isabel "pôs-lhe uma mão no ombro" (A Aluna Americana, págs. 103, 173); "passou um dos braços sobre os ombros do seu Joselito" (Até ao Fim da Terra, p. 154); "Antoine pôs-lhe suavemente a mão esquerda num ombro" (Haiti, p. 103); "pondo-lhe amistosamente a mão no ombro", "passara o braço esquerdo em redor dos seus ombros", "prometeu Elvira, passando-lhe o braço em redor dos ombros" (Os Dias da Febre, págs. 36, 123, 207); Vasco "levantou-se do sofá e pôs uma mão no ombro da escrava, como que a consolá-la", "Gaspar assentiu com a cabeça e pôs-lhe ambas as mãos sobre os ombros, como que a tranquilizá-la" (Do Outro Lado do Mar, págs. 318, 335); enfermeira "pôs-lhe uma empática mão no ombro esquerdo" (O Prazer de Guiar, p. 69).

Muito há a dizer sobre os braços e as mãos (ambos acompanham-nos toda a vida, crescem connosco, e estão intimamente relacionados com a nossa maneira de ser). Porém, limito-me a transcrever um arsenal de exemplos (são tantos que é difícil escolher) retirados das mais diversas situações e comportamentos. O gesto de colocar a mão em pala ou em concha é um dos mais elegantes e autênticos do vasto e variado catálogo marquiano: Mateus pôs "a mão em pala sobre os olhos" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 123); "Pondo a mão direita em pala sobre os olhos" (Haiti, p. 122); "Pôs a mão em pala sobre os olhos e observou a altura do sol", "pondo a mão em pala sobre os olhos" (Uma Fazenda em África, págs. 143, 350); "com as mãos em concha", "com a mão em concha", "O homem pôs as mãos em concha" (Do Outro Lado do Mar, págs. 50, 78, 350); Joaquim Moreira "pondo a mão em concha", "pondo as mãos em concha" (Uma Fazenda em África, págs. 14, 44); Tó protege a labareda do fósforo "com as mãos em concha para acender uma cigarrilha" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 40).

JPM socorre-se das mãos para descrever o momento em que as palavras falham às personagens, porque aquilo que tentam expressar é demasiado grande para ser traduzido pela linguagem oral ou escrita (ou para ser captar através de uma gestualidade precisa). O indizível e o invisível admitem somente gestos vagos e informes: "gesto hesitante com a mão", "fazendo um gesto vago com a mão", "Poleciana fez um gesto vago com a mão direita", "gestos largos, veementes", "balançando a mão direita num gesto incerto", "Mateus agradeceu com um assentimento no olhar e um gesto vago da mão", Freire fez um gesto vago", "afirmou Rebocho, fazendo um gesto vago com a mão" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 51, 57, 95, 117, 139, 181, 200, 207, 286); o entusiasmo de Bernardino "fê-lo erguer-se do cadeirão para expor a sua ideia em gestos largos", o ministro "fez um gesto de anuência e satisfação", "abarcando com um gesto largo o terreno à sua direita", "Benedita fez um vago gesto"; p. 327: "fazendo um gesto vago" (Uma Fazenda em África, págs. 16, 26, 63, 289, 327); Isabel "fez um gesto vago com a mão direita" (A Aluna Americana, p. 25); "O tenente fez um gesto vago com as mãos", "um vago gesto de mão" (Até ao Fim da Terra, págs. 128, 180); "um vago aceno de agradecimento", "ele fez um gesto vago" (Vento de Espanha, págs. 9, 111); "O senhor de Beauregard fez um gesto vago", "o negro fez um gesto vago" e, de novo, "o negro fez um gesto vago", Beauregard "fez um gesto vago" (Haiti, págs. 15, 59, 85, 185); Gastão "fez um gesto vago, entre o resignado e o displicente", "um vago sentimento de estranheza e de injustiça", "fez um gesto vago, indefinível" (Do Outro Lado do Mar, págs. 13, 81, 208); "parou de falar para fazer um gesto vago" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 223).

A função atribuída por JPM às "costas da mão" é uma das maiores originalidades da sua arte. A partir de hoje, ao seu simples nome, surge-me logo na memória a imagem de JPM a limpar "os beiços com as costas da mão" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 61); "enquanto apagava a espuma branca do bigode com as costas da mão", a limpar "o queixo molhado com as costas da mão" (Uma Fazenda em África, págs. 79, 305); a limpar "os olhos com as costas da mão direita" (Até ao Fim da Terra, p. 28); a limpar "os olhos com as costas das mãos" (Vento de Espanha, p. 131); a limpar "a boca com as costas da mão", a limpar "as lágrimas com as costas das mãos", a "limpar os olhos molhados com as costas das mãos" (Do Outro Lado do Mar, págs. 86, 198, 319); a "limpar a boca com as costas da mão direita" (Haiti, p. 17).

Quando as mãos e os braços se unem para fazer boa literatura, tudo é tão natural, tão verdadeiro, tão límpido, tão divertido. O ritmo do frasear de JPM não é forçado, corre a par com a subjectividade das personagens e abre caminho para outras sugestões ou analogias: Sátiro "de mãos bem abertas e braços esticados à frente do corpo, como que a repelir essa ideia", "abriu os braços num gesto magnânimo", "moveu o braço num gesto abrangente e circular", "abriu muito os grandes braços e disse", "abrindo os braços, num gesto de resignação", "abrindo os braços como que a desculpar-se do atraso" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 17, 29, 53, 148, 162, 246); "abrindo os braços de desalento", "erguendo os braços ao céu para sublinhar a promessa", "abrindo muito os braços, como um profeta", "fez gestos enérgicos disparando o braço direito em direcção ao céu" (Uma Fazenda em África, págs. 19, 43, 67, 142); "sintetizou Carlos, abrindo as mãos num gesto largo e conclusivo", "abrindo os braços de admiração e desolação" (Os Dias da Febre, págs. 148, 224); "alargando os braços num gesto circular" (Do Outro Lado do Mar, p. 28).

As mãos e os braços são os verdadeiros intérpretes do envolvimento total no acto de enlaçar outro ser humano. Mais do que um simples abraço físico, enlaçar é um gesto de união, entrega, protecção, segurança, ancoragem, posse: "enlaçando-se nas palavras e nos gestos dele", "A sua língua enlaçou-se na dele" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 41, 191); "e, assim enlaçados, abriam-se em confidências e iam avançando afoitamente na descoberta recíproca que parecia não ter fim e que não parava de o encantar", Lapa e Faro a "enlaçar a cintura fina de Benedita" (Uma Fazenda em África, págs. 242, 369); Caetana "elevou-se nos bicos dos pés, enlaçou-o pelo pescoço", "Ficaram assim longos minutos, enlaçados" (Do Outro Lado do Mar, págs. 11, 238-239); "Custódio enlaçou-a pela cintura", "enlaçou a loura pela cintura", "O homem enlaçou-a pela cintura" (Vento de Espanha, págs. 87, 227, 300); "Quando foram para o quarto fazer amor e dormir ela disse que havia qualquer coisa cósmica, transcendente, na forma como ele a enlaçava", "enlaçou-a por trás, moldou-lhe os seios com as mãos, pressionando-lhe com o pénis já duro" (A Aluna Americana, págs. 95, 204); Arnaldo "enlaçando Auzenda pela cintura", "Ficaram assim enlaçados, tempos perdidos em festas meigas, numa exultação dos corpos" (Os Dias da Febre, págs. 193, 231).






Os dedos são outro território a que JPM lança mão para explorar e testar os limites estruturais da forma literária, produzindo diferentes registos de consciência e sensibilidade, como se fossem extensões da alma e do estilo de vidas personagens. De certo modo, os dedos nunca abandonam JPM, são uma obsessão temática: "acrescentou com o dedo indicador bem espetado no ar", "disse, martelando com o indicador, exigente, no tampo de madeira", "tamborilando irritantemente com os dedos no peito", "batendo na testa com os dedos indicadores", "sublinhou, de indicador espetado, no ar" e "O padre calou-se, "ficando a tamborilar com os dedos expectantes nos braços da cadeira" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 13, 33, 36, 55, 247); Costa "tamborilou nervosamente com as pontas dos dedos na mesa", o governador Leal "espetando o dedo indicador" (Uma Fazenda em África, p. 389); "disse, batendo com o indicador no peito", "apontando-lhe o indicador espetado ao peito, como se fosse o cano de uma arma", "de dedo ameaçadoramente espetado" (A Aluna Americana, págs. 75, 143, 144); "martelando com o indicador no peito", "batendo com o indicador no tampo da secretária" (Vento de Espanha, págs. 222, 253); "batendo com a ponta dos dedos na própria testa", "afirmou Radich, (...) de indicador, professoral, espetado", "avisou Filipe, sublinhando a negação com o dedo indicador", "de dedo em riste", "advertiu Robert, com o dedo em riste e ar de exigente mestre-escola" (Os Dias da Febre, págs. 36, 62, 172, 180, 209); "espetando um indicador no ar", "disse, batendo com o indicador no peito", "tocou com a ponta do dedo indicador no olho direito" (Do Outro Lado do Mar, págs. 79, 89, 296); "batendo com a ponta dos dedos indicadores abaixo das órbitas" (Haiti, p. 80).





Colocar o dedo em frente dos lábios fechados é um dos gestos mais antigos, universais e instintivos do ser humano (e como não havia de ser assim?) de JPM, o esteta: "com o indicador da mão esquerda encostado à ponta do nariz, impondo-lhe silêncio", "Chiu! – fez a criada com um dedo em frente dos lábios", uma mulher "fez um sinal com o dedo em frente do nariz, recomendando silêncio", "Ele assentiu com a cabeça e pôs um dedo em frente dos lábios, para lhe recomendar silêncio", "Chiu – fez ela pondo-lhe a mão sobre a boca" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 97, 115, 166, 321, 323); "Chiiiiiu – fez Eva, baixinho, pondo o indicador em frente do nariz", "Chiu – fez ele, pondo um dedo indicador em frente do nariz" (Uma Fazenda em África, págs. 279, 340); Bento "levou um dedo ao nariz fazendo sinal para que fossem silenciosos", Florencia "levou um dedo indicador à ponta do nariz, para recomendar silêncio" (Até ao Fim da Terra, págs. 63, 218); Adelaide para Honoré: "pôs o indicador da mão direita bem esticado em frente dos lábios, recomendando silêncio", "Numa mesa com a forma de altar havia uma cruz e uma figurinha em alabastro com um dedinho indicador nos lábios, recomendando silêncio" (Haiti, págs. 133, 238); um indivíduo, no cinema, virou-se para trás "recomendando silêncio... – Shhhh", "Vasco apareceu-lhe muito circunspecto, e a aconselhar silêncio. – Shhh – pedia, com o indicador da mão direita em frente dos lábios" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 140, 156).

Entre os membros inferiores, destacam-se os calcanhares, essa grande obra de engenharia: "Com o coração em sobressalto, o estalajadeiro rodou sobre si próprio", Sátiro saiu do gabinete "rodando sobre os calcanhares", Golias "rodou sem jeito sobre os calcanhares e afastou-se dali" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 10, 265, 268); Benedita "rolou sobre si própria", Luz Soriano, nas Cortes, "continuou, rodando sobre si próprio", Guêzu: "rodou sobre si próprio", Bernardino "rodou sobre os calcanhares", Peter "fê-la rodar sobre si própria", Peter "rodou sobre os calcanhares" (Uma Fazenda em África, págs. 35, 47, 173, 192, 243, 382); "rodou sobre os calcanhares e saiu" (A Aluna Americana, p. 121); "rodou sobre os calcanhares e saiu" (Vento de Espanha, p. 219); Francisca: "abrindo os braços e rodando lentamente sobre si própria" (Os Dias da Febre, p. 24); Joséphine "rodou sobre si própria, como uma bailarina" (Haiti, p. 157).





O osso do calcanhar é a alavanca que nos permite ficar em bicos de pés, outra posição frequente no xadrez romanesco de JPM. Não há visão mais bela, para JPM, do que o corpo de uma mulher quando se põe em bicos de pés: Maria "arrumava, em bicos dos pés, umas loiças", "elevando-se nos bicos dos pés" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 15, 141); "Algumas mulheres e crianças punham-se em bicos dos pés para espreitar melhor", "ela, em choros e pondo-se em bicos de pés, beijou-o na boca", "Benedita esticava-se, em bicos de pés" (Uma Fazenda em África, págs. 59, 138, 267); Caetana "elevou-se nos bicos dos pés" (Do Outro Lado do Mar, p. 11); "empertigou-se nos bicos dos pés, apoiou a mão no coldre da pistola" (Vento de Espanha, p. 97).

Permanecer demasiado tempo em bicos de pés causa formigueiro, devido à compressão temporária de alguns nervos ou de alguns vasos sanguíneos. Não raro, as personagens de JPM sofrem de má circulação. O sangue acumula-se nas pernas e provoca dormência. Nestas alturas, os pés parecem pertencer a outro tipo de organismo, movendo-se segundo outro tipo de mecanismo: Golias Bronco batia com os pés no chão "para activar a circulação", Mateus "massajou-se para activar a circulação", D. Pedro "ergueu-se e deu uns passos no gabinete, para desentorpecer as pernas (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 216, 257, 274); Mirbeck "levantou-se da cadeira e saiu da sombra do toldo de pano cru para desentorpecer as pernas e ajudar a digestão", pararam no caminho para que Nicolas "desentorpecesse as pernas" (Haiti, págs. 122, 233); os soldados, "apoiados nos fuzis, batiam com os pés no chão para os aquecer", "Napoleão saiu para desentorpecer as pernas" (Até ao Fim da Terra, págs. 131, 181); "Filipe saiu para o corredor para desentorpecer as pernas" (Os Dias da Febre, p. 163).

Uma forma de aliviar a dormência – o acúmulo de sangue nas pernas – é subir os degraus das escadas de dois em dois: Mateus Vilaverde "subia para o quarto em passada elástica, galgando os degraus dois a dois", o padre Guilherme "galgou a escada", Mateus "galgou os degraus em relação à saída" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 31, 248, 303); Bernardino "desceu a escada galgando os degraus dois a dois", Bernardino "saudou o porteiro e galgou os degraus da escada dois a dois, no gozo antecipado de a ir abraçar", Peter, "depois de saudar o porteiro do Progresso, galgou os degraus da escada dois a dois, no gozo antecipado de a ir abraçar", "Uma escrava que subia apressadamente, galgando os degraus dois a dois" (Uma Fazenda em África, págs. 192, 236, 243, 430); "Desceram a escada a dois e dois", Isabel "desceu a escada dois a dois" (A Aluna Americana, págs. 151, 195); Januário Moderno "desceu os degraus da escada a dois e dois" (Até ao Fim da Terra, p. 58); "subiu as escadas a dois e dois" (Do Outro Lado do Mar, p. 186); "desceu a escada a dois e dois" (Vento de Espanha, p. 318).

 

                                                                    (Continua)


Este texto é a pré-publicação de um estudo sobre a obra de João Pedro Marques que será editado em breve.



                                                        João Pedro George