sexta-feira, 3 de julho de 2026

Estamos em guerra mas não basta sobreviver.

 






Ecologia sem luta de classes é jardinagem, a formulação atribuída ao seringueiro e ativista brasileiro Chico Mendes, continua a resumir bem a tensão das lutas climáticas mais ou menos politizadas.

O livro do Climáximo, Quebrar em Caso de Emergência Climática, é uma resposta ao desafio da editora Tigre de Papel para contarem a história  dos seus dez anos de existência. Surge num momento histórico em que o colapso (climático e social) deixa de ser uma hipótese remota, um filme distópico alucinado, para se tornar condição material do presente - todos os dias na televisão e todos os dias na nossa vida. Aliás, já começa a deixar de ser considerada exceção e as situações anómalas tornam-se o «novo normal».

Enquanto digito estas palavrinhas, por toda a Europa os governos e os media alertam precisamente sobre recordes de subida de temperatura nos próximos dez dias, calor extremo, incêndios flagrantes, e de como ainda vamos achar este verão o menos quente dos últimos tempos.

Vamos ao livro, sobre o qual tive o prazer de moderar a primeira conversa na Feira do Livro, com dois elementos do Climáximo - ou duas, porque falam sempre no plural feminino -, o João e a Leonor, e a atriz Joana Seixas. Foi numa tarde abrasadora de junho, em que o próprio calor funcionava como um elemento silencioso enquanto falávamos da emergência climática e da força coletiva que exponencia qualquer coragem ou “heroísmo” individual. Elas partilharam leituras de testemunhos que constam no livro e isso deu logo o registo de contar histórias reais e não fazer formulações num elemento tão acima das nossas capacidades como o “clima”, seja lá o que isso for.

Primeiro o coletivo Climáximo apresenta-se, pelas suas palavras do siteSomos pessoas que trabalham, estudam e tentam sobreviver. Queremos que todas as pessoas tenham uma vida boa, com tranquilidade e acesso a comida, casa, educação e saúde. Porém, isto foi-nos roubado.

É a partir desse lugar implicado de pessoas normais que tentam sobreviver que as autoras do livro, do coletivo Climáximo, escrevem: não reivindicam uma posição de exterioridade nem de autoridade científica absoluta, mas oferecem-nos uma experiência política acumulada de ativistas que se atravessam pela causa do futuro, o que torna a descrições mais convincentes. Não há uma voz de autoria/dade a partir de uma confortável distância analítica, um tom frequentemente professoral que apresenta uma sucessão de dados destinados a convencer os já convencidos, mas uma voz coletiva de anos de organização, campanhas, manifestações, fracassos, aprendizagens e confrontos. 

Embora assente numa vasta bibliografia científica e dialogue constantemente com relatórios internacionais, o livro assume esse lugar de enunciação muito claro, e não se esconde atrás de uma falsa objetividade nem cultivar a distância confortável do especialista. É um livro militante, no melhor sentido da palavra. Escrito por um coletivo, recusa a figura do autor - ou do líder iluminado - e substitui-a por um nós que é um património de saberes construído na experiência da organização, nas campanhas, nos fracassos, nas vitórias parciais e na aprendizagem permanente. O “nós” não é apenas uma opção estilística, não pretende apagar diferenças entre elas nem falar em nome de toda a sociedade. É um convite permanente à participação: o leitor deixa de ser um espectador a esclarecer para ser constantemente convocado para dentro da narrativa. Ou seja, é um livro que procura transformar conhecimento em capacidade coletiva de agir. 

Uma das questões centrais é a desigualdade da produção e dos efeitos da crise climática nessa experiência quotidiana. Nem todos sofrem o mesmo calor, nem têm acesso aos mesmos mecanismos de proteção, nem pagarão o mesmo preço pela devastação em curso. Outra é a insistência em nunca desligar a emergência climática da questão social. Os incêndios, as secas, as ondas de calor, as cheias ou a subida do preço da energia não atingem uma humanidade indiferenciada. Incidem sobre sociedades já organizadas por classe, raça, género, nacionalidade e heranças coloniais e portanto há grupos humanos e territórios muito mais vulneráveis nesta equação.Os responsáveis históricos pela destruição ecológica não coincidem com aqueles que hoje suportam os seus custos mais violentos.  A recusa da ideia abstrata de uma «Humanidade» comum confere densidade política à luta da Climáximo. 

Quebrar em Caso de Emergência Climática também desmonta uma das ilusões persistentes no discurso comum: a de que será possível resolver a crise ecológica mantendo intactas as estruturas económicas que a produziram. A promessa de um capitalismo verde, limpo, eletrificado e digital é uma narrativa para adiar problemas - que, mais do que energéticos, são políticos como quase todos -  e prolongar as condições de acumulação que o tornam rentável. A sustentabilidade é, muitas vezes, uma falácia. Muda-se a tecnologia, mantêm-se as relações de exploração, substituem-se combustíveis, mas preserva-se a lógica infinita da acumulação e o capitalismo a canibalizar as crises para o lucro. Assim, uma das linhas do livro é recusar frontalmente a linguagem anestesiante e colaboracionista da «transição verde», da sustentabilidade corporativa ou da responsabilidade individual enquanto único horizonte de mudança. Crescemos com essas mezinhas e lembretes segundo os quais é o comportamento de cada um que faz a diferença, mas os nossos filhos continuam a ser educados para «salvar o planeta» fazendo o bem, limpando lixo nas praias e pondo coraçõezinhos na Terra.

O livro também se desmarca da tentação, hoje bastante difundida, de transformar o colapso climático numa espécie de religião secular do fim do mundo, com adeptos de um apocalipse paralisante. A catástrofe é descrita com toda a gravidade que merece, mas nunca como um destino inevitável que só nos faria dizer: nada vale a pena, os nossos filhos e netos estão condenados. Sabemos como o discurso catastrofista, quando desligado da possibilidade de intervenção, produz conformismo. O Climáximo tenta gritar a urgência disto tudo mas  transformar o medo em organização, a consciência em conflito político.

Andamos saturados de discursos impotentes que nos imobilizam e retiram vitalidade, tolhidos pelo fatalismo do discurso apocalíptico, que bom  perceber este tom propositivo, apesar da crítica e da denúncia. É um livro-participação, um livro-apelo, escrito a partir da urgência do momento histórico e da consciência de que o futuro está a ser disputado e condenado. Recusam instalar-se na posição de observador indignado e escolhe aceitar o desconforto de entrar no conflito político, em que a indignação se torna estratégia e reinvenção. 

Por exemplo, neste último apelo:

A crise climática piora a olhos vistos. Os verões estão a transformar-se em estações infernais que nos sufocam, ora com ondas de calor no campo e na cidade, ora com as chamas e os fumos dos incêndios que arrasam o interior do país.

Enquanto os governos, as empresas e os ultra-ricos culpados pela crise climática se põem ao fresco nas suas piscinas, casas de luxo aclimatizadas e lugares longe desta fornalha, o povo fica a arder com as consequências mortais de uma crise que não criou.

Ao povo resta-nos organizar uma resposta popular e solidária para fazer frente aos ataques da guerra climática, ao mesmo tempo que construímos poder popular para acabar rapidamente com os combustíveis fósseis e este sistema de morte.

Ao contrário de tantas narrativas tecnocráticas que reduzem o problema a metas de carbono ou inovação energética, confirmamos por este livro que a Climáximo recoloca a política no centro da discussão: quem decide, quem lucra com este sistema de morte, quem morre primeiro e quem se torna descartável no novo regime climático global. Então, é essencial ligar a devastação e o colapso em curso às estratégias de exploração, à greve geral, às lutas dos trabalhadores, formas de exploração tão antigas que encontram sempre maneira de se renovar. O Climáximo identifica claramente o nexo estrutural entre capitalismo fóssil, colonialismo, militarização, exploração do trabalho e destruição ecológica, mostrando como a crise climática não é um acidente do sistema, mas a consequência lógica de um modelo económico fundado na acumulação infinita, na extração e no sacrifício permanente de territórios e populações. 

Nesse sentido, a abordagem do Climáximo aproxima-se de uma tradição ecossocialista internacional que compreende que não haverá saída ecológica sem transformação radical das relações de produção, redistribuição da riqueza, desmercantilização da vida e construção de formas coletivas de sobrevivência.

Outra estratégia igualmente interessante destes textos é evitar o jargão abstrato. Cruzam análise histórica, ciência do clima, militâncias e experiência concreta de organização, insistindo sempre na necessidade de construir força popular e imaginação coletiva. 

Gostei particularmente da abertura do livro. Em vez de começar pelo colapso, começa por imaginar retrospectivamente um futuro em que a humanidade conseguiu atravessar esta época e olhar para trás como quem recorda uma guerra vencida. Essa escolha narrativa suspende, por momentos, o tal fatalismo dominante dos discursos ambientais. A esperança não surge como uma disposição sentimental nem confiança ingénua e cega no progresso tecnológico, mas como exercício político de imaginação que foge à «servidão» de obedecer só porque sim. Antes de explicar como chegámos até aqui, as autoras perguntam como seria um mundo que tivesse conseguido quebrar o curso aparentemente inevitável da destruição. É uma inversão simples: primeiro imagina-se a possibilidade de vencer, só depois se descreve a dimensão da derrota em curso.

O diagnóstico rigoroso do desastre em curso é sempre acompanhado por uma insistência obstinada em que ainda existe a possibilidade de travar o pior - desde que se rompa com a lógica sacrificial do capitalismo e se reorganize a sociedade em torno da vida, do cuidado e do comum. Um comum que não tem de ser necessariamente gerido nem pelo privado nem pelo Estado, mas por comunidades de outra natureza.

O livro dá densidade política à ideia de justiça climática, que não pode ser um nicho ambiental, mas uma luta transversal contra todas as formas de exploração, racismo ambiental, violência de classe e destruição colonial que sustentam o mundo atual. Contribui para pensar a ecologia como campo central de conflito político do século XXI.

A honestidade do discurso do Climáximo, ao admitir que também falhou, que os prazos científicos foram sendo ultrapassados apesar de uma década de ativismo e que o próprio movimento teve de rever estratégias e abandonar ilusões, é uma das dimensões mais interessantes do livro. Estamos saturados de certezas instantâneas; esta vulnerabilidade política torna o movimento mais credível precisamente porque expõe dúvidas, revisões e aprendizagem, em vez de construir uma imagem de infalibilidade.

É também interessante a forma como o discurso científico vai aparecendo, não como um argumento de autoridade destinado a fechar o debate, mas como um instrumento para compreender relações de poder. O primeiro terço do livro explica, com uma clareza notável, aquilo que sabemos sobre o aquecimento global, os gases com efeito de estufa, os mecanismos de retroalimentação ou os chamados tipping points. Mas a intenção não é produzir divulgação científica despolitizada. Pelo contrário: compreender a física do clima serve para demonstrar que não estamos perante uma fatalidade natural, mas perante uma sequência de decisões económicas e políticas tomadas ao longo de décadas. Não há aqui uma dicotomia entre natureza, de um lado, e sociedade, do outro, mas uma economia que reorganiza a própria biosfera em função da acumulação de capital.

O livro rejeita, aliás, a expressão «crise climática» quando esta é utilizada como se estivéssemos perante uma catástrofe sem responsáveis. Uma das suas teses mais provocadoras é caracterizar o presente como uma verdadeira guerra, não como uma metáfora particularmente expressiva, mas como uma descrição política. É uma guerra porque existem interesses perfeitamente identificáveis que continuam a acelerar a exploração de combustíveis fósseis apesar do conhecimento científico acumulado; guerra porque os impactos recaem de forma profundamente desigual sobre determinadas populações; estamos em guerra porque a militarização das fronteiras, a ascensão da extrema-direita e a disputa por recursos fazem já parte do novo regime climático. A formulação pode ser discutível, mas tem a vantagem de retirar a crise climática do campo da abstração moral e das campanhas de bom comportamento para recolocá-la no terreno do conflito e da responsabilidade política.

Elas — as Climáximas — fazem esse esclarecimento quase didático, sem perder o gosto da provocação, de incomodar e de formular perguntas que precisávamos tão urgentemente de voltar a fazer.

A passagem entre diagnóstico e organização é provavelmente o seu contributo mais interessante. Vivemos rodeados de informação sobre a crise climática. Relatórios sucedem-se, gráficos tornam-se cada vez mais alarmantes, recordes de temperatura batem recordes anteriores. No entanto, essa abundância de conhecimento produziu frequentemente um efeito paradoxal: mais ansiedade do que mobilização, mais sensação de impotência do que ação política. O livro identifica esse bloqueio contemporâneo e insiste que, para o ultrapassar, é necessário construir sujeitos políticos capazes de alterar relações de força.

No contexto português, são particularmente corajosas ao assumirem que a neutralidade perante o colapso é cumplicidade. Aliás, «ficar em cima do muro», em praticamente tudo, hoje em dia, é quase criminoso. O livro denuncia a captura das democracias pelos interesses fósseis, a normalização da extrema-direita enquanto mecanismo de gestão da crise e o modo como o capitalismo contemporâneo já governa através da administração da catástrofe.

Não interessa apenas o que pensamos sobre a crise climática, mas onde estamos colocados dentro dela. O livro obriga-nos a reconhecer que também a neutralidade é uma posição política e que, perante processos de destruição em larga escala, a distância crítica pode facilmente transformar-se numa forma elegante de passividade. As Climáximas não querem apenas informar ou tranquilizar consciências. Quebrar em Caso de Emergência Climática escolhe interpelar o leitor enquanto potencial participante de um conflito que já começou.

Aprecio o modo como o livro trata a questão do tempo. Quase toda a literatura climática trabalha entre dois tempos: a urgência e o longo prazo. Vivemos permanentemente divididos entre a aceleração da catástrofe e a lentidão das instituições. As Climáximas falam do tempo necessário para construir organização coletiva, com a consciência de que nenhuma transformação profunda acontece sem paciência estratégica, sem aprender com derrotas, sem criar laços de confiança. Assim, apesar da “emergência” encontramos aqui a defesa implícita da persistência e do trabalho político paciente. 

Voltando à jardinagem, é preciso perguntar quem destruiu o jardim, quem lucrou com essa destruição e quem continua impedido de entrar. É no terreno da desigualdade, do conflito e da imaginação política que elas intervêm.


                                                                                                    Marta Lança




São Cristóvão pela Europa (356).

 

 

 

Prosseguindo no Estado Alemão de Hesse, cheguei à cidade de Limburg an der Lahn. Junto às margens do rio Lahn, na parte ocidental do Estado, situa-se numa encruzilhada de vias fluviais, rodoviárias e ferroviárias.

O Castelo de Limburg, pairando sobre a cidade e o rio e com origens merovíngias, adquiriu a sua forma actual no Século XIII, nomeadamente na sua parte residencial e na sua igreja. A igreja contem um notável fresco medieval datando de cerca de 1300 representando São Cristóvão.

 




 A majestosa Catedral possui sete torres é dedicada a São Jorge.

Foi consagrada em 1235 e sofreu inúmeras remodelações. De notar que Limburg an der Lahn conservou-se predominante católica durante a Reforma talvez devido à influência da Diocese de Trier. Desde 1821 é sede de Bispado.

No seu interior, um mural do Século XVII representa o nosso Santo.

 



A 14 quilómetros a Sudeste de Limburg, situa-se o município de Selters, importante cidade termal, na origem do muito publicitado medicamento Alka-Seltzer.

Em Niederselters, a igreja Paroquial é mesmo dedicada a São Cristóvão. Consagrada em 1909, a nova igreja foi edificada em cima de anteriores no estilo neorromânico.

No seu interior uma bela imagem em madeira e um vitral.

 




                                                         Fotografias de 13 de Junho de 2026

                                                                                             José Liberato



sábado, 27 de junho de 2026

São Cristóvão pela Europa (355) .

 


 

Entre 12 e 14 de Junho deambulei pelo Estado alemão de Hesse que tem Frankfurt como cidade principal.

100 quilómetros ao Norte de Frankfurt situa-se a cidade de Alsfeld. Como muitas das cidades da Região juntou-se à Reforma Protestante por acção de Lutero que aqui esteve várias vezes.

A Igreja de Santa Walpurgis, cuja parte mais antiga data de meados do Século XIII, é uma igreja protestante que conserva vários elementos anteriores ao Século XVI tal como um belo fresco representando São Cristóvão.

 



A igreja de Cristo Rei também em Alsfeld é uma igreja moderna consagrada em 1963. 

A paróquia agregou várias paróquias antigas uma delas de São Cristóvão. Daí provavelmente a razão de conter no seu interior uma imagem do nosso Santo.



Marburg localiza-se nas margens do rio Lahn, afluente do Reno.

É uma cidade universitária. Aqui se reuniram em 1529 o Príncipe Filipe de Hesse, Martinho Lutero e Ulrich Zwingli no chamado Colóquio de Marburg com o objectivo de resolver uma controvérsia teológica que separava as tendências alemã e suíça do movimento da Reforma. Girava à volta da Última Ceia e da Eucaristia. Lutero considerava a Última Ceia como a mais profunda manifestação da Graça de Deus, Zwingli achava a Última Ceia um mero símbolo. A controvérsia não foi resolvida e as tendências ficaram separadas para sempre.

A Universidade é o ponto fulcral da cidade. Foi criada em 1527 como uma universidade protestante. Foi a primeira do mundo ocidental a ser criada sem permissão eclesiástica, privilégio papal ou autorização imperial.

A sua igreja, de 1291, é hoje protestante e anterior à criação da própria universidade, e hoje faz parte do complexo. É de estilo gótico.

Podemos imaginar a presença nos bancos da igreja de personalidades como Denis Papin (1647-1712), Professor de Matemática e Física entre 1688 e 1695, e grande percursor das máquinas a vapor da revolução Industrial, ou dos estudantes irmãos Grimm, Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859), autores de contos infantis famosos, como A bela adormecida, Cinderela ou Branca de Neve

A igreja contem um fresco de 1947 muito curioso representando São Cristóvão. É da autoria de Franz Frank (1897-1986) a partir de uma ideia de Carl Bantzer (1857-1941), este de alguma forma ligado ao nazismo.

São Cristóvão é representado como soldado de uniforme rasgado, transportando o Menino Jesus num pântano. As cores escuras predominam.

 




 

                 Fotografias de 12 de Junho de 2026.

                                                     José Liberato

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Um grande e belo livro.

 



A colecção Arte & Ciência tem-nos dado prodígios. Este é um deles. Escrito na melhor tradição da divulgação científica de qualidade, com exemplos surpreendentes e até desconcertantes (ex. “O Senhor do Adeus”), um livro extraordinário para nos compreendermos como humanos, demasiado humanos.

 

António Araújo


quinta-feira, 18 de junho de 2026

 




Uma comovente viagem pela Albânia otomana, republicana, monárquica, italiana, nazi, comunista:

A reposição da verdade (?) num prodigioso feito literário

 


          Tudo começa no arquivo da Autoridade para a Informação sobre a Documentação do Antigo Serviço de Segurança do Estado, em Tirana, a capital da Albânia; a autora obteve autorização para consultar o processo da sua avó, Leman Ypi, nascida em Salónica, perseguida pelo regime de Enver Hoxha, que enclausurou o marido, Asllan Ypi, e o restituiu à liberdade quase um destroço humano. Vamos mergulhar nos últimos tempos do Império Otomano, numa Salónica que será anexada à Grécia; acompanharemos os acontecimentos da independência da Albânia, a vida tumultuosa deste país que terá um Ministro da Administração Interna republicano que se autoproclamará rei, Zog I; estamos na fervilhante década de 1930 que culminará com a invasão italiana da Albânia, a ocupação de Salónica pelos alemães, no início da década seguinte é criado o Partido Comunista Albanês, o país é libertado dos nazis em 1944, dois anos depois, proclamada a Republica Popular da Albânia; começará a purga no país de adversários políticos, o casal Ypi será submetido a processos infames. Estamos a falar de Indignidade, por Lea Ypi, Casa das Letras, 2026.

          A autora dera com uma fotografia dos avós numa instância de ski, em Cortina d’Ampezzo, 1941, surgira nas redes sociais, houvera os comentários mais díspares, a autora escreve: “Um casal jovem e glamoroso olha para a câmara, os dois estendidos em espreguiçadeiras à frente de um hotel de luxo. A mulher está embrulhada num longo casaco de peles branco. Tem um grande sorriso e uma expressão vagamente distraída, que contrasta com a expressão mais séria, quase inquisitiva, do homem que está deitado na espreguiçadeira ao lado”. São os avós, a fotografia foi tirada em pleno tempo de convulsões com a invasão germânica da União Soviética, o ataque japonês a Pearl Harbor, o combate armado na Jugoslávia. Fotografia tirada durante a sua lua de mel.

          Começa a operação de rememoração dos acontecimentos, vamos conhecer os ascendentes de Leman Ypi, avós e tios, a sua vinda para Tirana, o encontro de Leman com Asllan, não faltam oficiais das Forças Armadas britânicas na Albânia antes da libertação; a investigação leva a uma incursão em vários pontos da península balcânica, ao tempo em que havia grão-vizir e paxás, em que a classe média superior se expressava em francês, em que se estudava tanto em Constantinopla como em Paris ou Genebra; entraremos na vida familiar da família Leskoviku, de onde provinha Leman, Lea Ypi esquiça primorosamente a atmosfera desse período de mudanças radicais em que caíram impérios e apareceram repúblicas pelos Balcãs, em que ainda se combinavam casamentos e haverá uma noiva um tanto forçada que porá termo à vida no dia da boda.

          É uma leitura um tanto compulsiva, comovente, o leitor é levado à velocidade da mudança de regimes, de invasões, de países devastados, de execuções; tempo em que os judeus gregos fogem pelas montanhas e são recolhidos pelos muçulmanos, isto numa Albânia onde os alemães vasculham tudo à procura de novas vítimas para Auschwitz. No vórtice da investigação, a autora interroga-se: “Às vezes sinto-me como uma historiadora dos princípios da Idade Moderna, a estudar os julgamentos de bruxas colhendo provas pelos registos da Inquisição. Nos raros momentos de lucidez que tenho a propósito do método que estou a seguir na minha investigação, ocorre-me que estou a alinhar com quem espiou a minha avó.  Posso andar à procura dos mesmos factos que as pessoas que vigiavam Leman; até posso estar a fazer as mesmas perguntas. Porém, tenho algo que essas pessoas não tinham: a capacidade de interpretar a realidade, de julgar a partir de uma perspetiva moral diferente. Afinal, o poder que é conferido ao arquivo é precisamente o poder que estou a tentar desmantelar.”

O informador determinante de Leman era conhecido nos serviços secretos por A Tribuna, no arquivo perguntam à autora se ela quer saber quem era o denuciante, o que na prática se irá demonstrar ser inviável, afinal de contas descobriu-se que havia uma outra Leman, quase uma duplicação, assim se descobrirá depois de tão aturada investigação que se fica a conhecer e a não conhecer Leman Ypi. E voltamos à fotografia dos Ypi em plena lua de mel, ao peso memorial que ela comporta: “A fotografia em si nunca importou; a memória sim. O passado nunca é passado, é como um parente afastado que continua a envelhecer algures, enquanto estamos ocupados a tratar do presente. A memória, diria a minha avó, e diria Santo Agostinho, é o estômago da mente, guarda as coisas sem as consumir.”

          Há factos comprovados na investigação: a avó nasceu em Salónica, nas vésperas do colapso do Império Otomano, tem etnia albanesa e cidadania grega, vem de uma família rica e com terra, de uma classe social privilegiada; as fronteiras mudam à volta dela, os limites do mundo passam a ser os da língua que fala; muda-se para Tirana, com o regime comunista nasce a suspeita que ela conspire contra o recém-criado Estado, é posta sob vigilância.” Só que as histórias agora baralham-se, há duas mulheres vigiada com o nome de Leman Ypi, descobrir-se-á que A Tribuna será executada por traição. Uma investigação que leva a autora a ler os relatórios dos serviços secretos, a conhecer a documentação britânica, a ler os apontamentos diplomáticos das autoridades fascistas, e muito mais.

          É uma investigação que conduz a autora a uma sala de espelhos um tanto estilhaçados, a analisar a culpa e a responsabilidade, a questionar o que é uma reparação para quem foi sujeito à indignidade. E como se falasse em voz alta, a autora responde-nos: “A minha avó já morreu e eu sou produto do sistema que lhe arruinou a vida. Porém, nunca me vi a mim como vítima desse sistema. Afirmar o contrário seria fazer pouco do sofrimento dela.” Porque no meio de toda esta investigação há a avó Leman e há a outra Leman que provoca um autêntico rodopio de perguntas sem resposta.

          É nessa sala de espelhos que a autora questiona o que é a dignidade, para que serve, sente-se pronta a desistir, de vasculhar mais sobre aquele passado, mas reconsidera, afinal não está pronta para desistir, e assim termina esta luminescente viagem, redigida com filtro mágico:

          “Talvez as duas Lemans sempre devessem ter estado juntas, como versões diferentes da mesma humanidade. Perdidas para o passado, mostram como a dignidade está em tentar agir com um propósito moral, mas ao mesmo tempo são idealizações dessa mesma postura. Talvez a harmonia não tenha tanto a ver como chegar ao fim de um processo, mas antes como encontrar um caminho entre os conflitos do presente.”

          Uma investigação que nos agarra do princípio ao fim, porque no fim ficamos a pensar se não desfrutámos de um belíssimo, inquietante, inesperado, romance.


                                                                Mário Beja Santos

 

sábado, 13 de junho de 2026

Missiva de Elisabete Sousa.



 


Nota dos editores: recebemos esta longa missiva da conhecida Elisabete Sousa, do X (handle: elisabetaps). Dado reconhecermos a sua influência como força-viva da sociedade pátria, e alguém que não tem papas na língua, é nosso dever indeclinável publicar este texto. Além do mais, torna-se prova irrebatível, que podemos afiançar ser verdade, que Elisabete Sousa nada tem que ver com o Doutor Nuno Palma, cuja carreira invejável fala por si, e, perdoem-nos redundância, tanta inveja causa neste país pequenino, pequeno demais para o Doutor Nuno Palma, como se atesta. Publicamos tão eminente vulto da internet portuguesa, que defende a honra de tão eminente vulto da academia global, pois, com especial prazer e regozijo.

 

Queridos amigos,

Ainda mais queridos compinchas internautas,

 

Espero-vos bem. Desculpem se não conseguir ser enxuta e ir direto ao osso, estão demasiadas pessoas lá fora a divertir-se, e isso exaure-me. Talvez que seja também desta enxaqueca que não me larga. Sou uma mulher sofrida (mas não como as alternas, eu sofro de neura mesmo, neurastenia século XIX).

E o dia não foi fácil. Esta gente está toda na boa-vai-ela, a beber cerveja e em festas para o povaréu provavelmente pagas pelo Estado e pela mamadeira de Bruxelas – ISTO É, TODOS NÓS, OS CONTRIBUINTES (Sobretudo os contribuintes altos, loiros, aprimorados nos genes, ai meu deus, que até se me dá uma coisa)! E eu aqui, que já peguei no batente por volta do meio-dia de ontem (dia 12 de Junho de 2026, sou uma pessoa de factos e de ciência, por quem sois?). É verdade que não trabalhava desde dia 5 de Junho, mais concretamente quando me envolvi numa discussão no tweet do drogado do João Galamba sobre o Doutor Nuno Palma (de Manchester em trânsito para a Florida – ou Flórida, agora já não me recordo bem). Aleivosias, como bem sabeis. Coisas de carochos.




Mas como vos dizia, e esta dor que não passa e me esmaga as têmporas, o dia hoje foi pesado.

Pelo meio-dia comecei por insultar o jornalixo do Luís Ribeiro. Um perfeito imbecil. Escreveu sobre o Trump e sabe-se que é um absoluto ignorante em tudo que tenha a ver com economia. Eu, Elisabete, é quase como se tivesse um doutoramento e fosse professora catedrática. Mas, não imaginais vós, isto foi só o início de um dia estrénuo e extenuante. Logo a seguir foram três tweets a ter de explicar às pessoas que não percebem de economia (2 vezes só para o Luís Ribeiro, outra para alguém que falou mal do  Doutor Nuno Palma – de Manchester em trânsito para a Florida – ou Flórida, agora já não me recordo bem). Depois disto, foi uma azáfama que nem vos digo. Só no tweet do Luís Ribeiro, que se atreve a sugerir que o Doutor Nuno Palma (de Manchester em trânsito para a Florida – ou Flórida, agora já não me recordo bem) é hipócrita foram sete (7) tweets a dizer que recebe dinheiro dos filhos do Berlusconi.[1] Foi mesmo exigente. Se a malta que recebe RSI tivesse de escrever 7 tweets destes por mês, não que não iam começar a capinar de bom grado. Sabem eles o que custa. E faziam-no por um sumol e uma sandes de chourição. A exaustão moral que isto me provocou, a par com as enxaquecas (calma, Nuno, não são vozes. Desculpem, Elisabete), nem fazem ideia. Precisei de descomprimir um bocado, pensar nas coisas boas da vida. Ao “O Divertido” disse-lhe que “Burra” é a que o “pariu”. Ao Pedro AF, desculpem, já não aguentava mais, e foi como o Mises sobre o Estado social: 





“Tens de ir mamar no farelo”. “O Divertido”, não satisfeito, insistiu e eu não me aguentei e sugeri-lhe APENAS (da mesma forma que o Doutor Nuno Palma não recebeu fundos europeus, só pediu um empréstimo): “Chupa devagar que custa menos”. Até ouvi um cravo a retinir (o instrumento musical, não a flor, entenda-se).




Além de extenuada, estava esfaimada, e já marchava uma bucha. Lá foi, que isto não se alimenta do ar. Comecei o turno da tarde. Ainda lá nos fundilhos de um tweet infamante do Luís Ribeiro sobre o Doutor Nuno Palma (de Manchester em trânsito etc... que não quero estar aqui a perder tempo com os acentos da Florida) comecei o turno da tarde, só para aquecer. De “muda a erva que não cagas amarelo” para um “chupa então” para outro (podem imaginar-me a entrelaçar e distender os dedos neste momento que foi o que fiz, antes de apertar com força, mas desenvoltura o seio direito... hehehe, agora agarrei-te mesmo, Nuno, não penses nisso que te faz mal ao coração). Bem, aquecimento ligeirinho, como vos dizia, mais uma coisa de sapos com a Isabel Moreira e depois alguma discussão sobre os temas que me são caros (além do Doutor Nuno Palma, interesso-me por economia). Mas pronto, voltei ao trabalho que se fazia tarde. Voltei a dizer ao Luís Ribeiro que recebia dinheiro do Berlusconi num post sobre o Doutor Nuno Palma (se não ficou claro à primeira, era para dizer que contradição por contradição, acabamos todos cegos... e não é da punheta!). Um bocado mais de relax, encharcar o Luís Ribeiro com links dos meus amigos da Página UM, dizer ao Luís Braga para meter pomada que “dói menos”. Mais um bocado de Luís Ribeiro e tal, dá-lhe aí, esfrega (calma, Nuninho, digo, Beta). E voltámos a vaca fria. Continuavam a falar mal do Doutor Nuno Palma. E eu lá tive de dizer à “Viúva Assanhada” (sic) que se “ele [Doutor Nuno Palma, em trânsito de Manchester etc...] tem a lâmpada fundida então os outros têm que voltar para o zoológico”. Mais um bocado de Luís Ribeiro e a “porrada que está a apanhar” (que eu sou adulta, e o que um adulto bem sabe é que se é para levar é para contar), mais umas merdas. 








Depois veio a Câncio que também se lembrou de chatear o Doutor Nuno Palma (em trânsito de Manchester, etc...). E uma mulher não é de ferro, eu já não aguentava mais e disse-lhe logo o que havia para dizer “a gaja que fazia broches ao Sócrates” – toma que já almoçaste. Depois já estava a chegar o fim da tarde e as pessoas estavam mesmo felizes lá fora e achei que também temos de saber conhecer e respeitar os nossos limites. Então limitei-me a fazer mais um post a dizer a mesma coisa sobre chupar pilas (não se pense que é uma obsessão, acho nojento, pelo menos de forma consciente). Ainda veio mais um moço falar com aquela porca e eu pu-lo logo no sítio “E tu o que já escreveste para se saber”? Acham que falam assim sobre um homem com obra publicada e que, além do mais, não sei se vos disse, está em trânsito. Pensam que é assim, como falar do cu para a piça. Mas o dia já estava no fim. Já só ouvia o Aperta, Aperta com Ela (e voltei a sentir um frémito). Até recuei para um post da Câncio do dia anterior a deixar claro que eu não penso exatamente como o Doutor Nuno Palma (o que prova que eu não sou o Doutor Nuno Palma). Disse-lhe e passo a citar “Eu também sou contra muitos desses fundos, mas outros ajudam. Lê primeiro o livro e fala depois. Mas tu não és capaz de ler um livro de economia de certeza, ainda te baralha o cérebro.” Ainda fiz um esforço derradeiro, já em risco de exaustão e hiperventilação, mas a alegria na rua já era muita, avassaladora, insuportável. Tudo gente do RSI.



Podem vós julgar que estou a defender o Doutor Nuno Palma à outrance. Nada mais falso e calunioso. Eu sei que almas corrompidas há muitos anos sugerem que ele é useiro e vezeiro no recurso a contas falsas. E eu tenho a prova de que isso é mentira. Pelo menos no meu caso. Por exemplo, ainda noutro dia lhe escrevi sobre o livro dele mesmo: “Eu vou comprar logo um dos primeiros, assim é menos um disponível para se saber como acabar com a mama dos políticos em Portugal. Este livro é um perigo para a sobrevivência dos tachos políticos em Portugal.” Eu sei que podereis julgar que isto revela o sentido de humor de um bidé que foi usado para plantar cannabis, mas fosse esse o caso e logo se revelaria que eu não posso ser o Doutor Nuno Palma, que foi ungido com um sentido de humor finíssimo, tão fino que às vezes nem se nota.




Mas nem se trata desse caso. É evidente que eu discordo frontalmente do Doutor Nuno Palma. Só passo a vida a comentar tweets que falam mal do Doutor Nuno Palma e azucrinar pessoas que recentemente o criticaram porque eu acredito numa ordem espontânea, mas que precisa, vá, dum empurrão, tal como acredita, por exemplo, o "Preso Numa Jaula" (Deus o tenha), que também tem andado numa azáfama, coitado – e preso numa jaula, imaginem! Só uma pessoa muito mal formada diria que é suspeito que o segundo nome que aparece nas contas que eu sigo seja precisamente o Doutor Nuno Palma (já me esquecia, em trânsito, etc...), logo a seguir ao C.D. Victoria C.F., que joga no Complejo Deportivo Luis Minguela, conta óbvia para se seguir se somos uma personagem fictícia e paródica que faz piadas sobre política (e manda mamar). [2] 





E só muita mesquinhez permitiria ver intenções tenebrosas e ocultas no facto de entre os meus 16 seguidores, que me gostam de ver mandar as pessoas levar no farelo, contar-se um catedrático de Manchester (em trânsito para a Florida ou Flórida). Tudo isso só pode ser maquinação das máfias que querem evitar que o Doutor Nuno Palma denuncie a corrupção desbragada, que coloca em xeque o futuro dos nossos netos (e dinossauros), que representam os fundos europeus e que o doutor Nuno Palma estudou arduamente (e se recorreu a fundos europeus fez muito bem. Uma coisa é nós dizermos o que os outros devem fazer, outra é o que fazemos. E quem disser que isto é hipócrita, sugiro que vá conversar com o Mike Billions, que ele percebe da poda). Para pôr um ponto final no assunto, devo dizer que até vou a Oeiras muitas vezes, passeio na Marginal, e nunca vi o Doutor Nuno Palma. Vejam lá que até já fui duas vezes a Manchester para ele me assinar os 4 tijolos dele que comprei, e o malandro, nada. Só não vou à Florida (ou Flórida) porque aquela gente do ICE não é de confiança e aquilo é um quebra-cabeças perigoso de legislação no que toca a imigração e cidadania (os camarados claro que vão ver aqui hipocrisia, mas podem continuar a cagar amarelo).




A infâmia é tão abracadabrante que até o meu primo Galileu, coitado, que está a recuperar de um jeito nas costas, se viu obrigado a intervir. Há quem diga, gente soez, que o Galileu é um parente do doutor Palma, ou até o próprio do Doutor Palma. Nada mais incorreto. O meu primo Galileu não escrevia desde 25 de Julho de 2025 porque, como vos dizia, aquilo das ciática não está mesmo famoso. Mas perante esta infâmia, foi que nem Lázaro. Saltou da cama já meio entrevado, e foi lá, um ano depois de ter twitado pela última vez, e escreveu, sem espinhas (a quem? Ao Luís Ribeiro, pois claro, é preciso ser tenaz): “Pelo que já percebi, o Nuno Palma pediu apenas um empréstimo bancário a um banco português, enquanto o Estado sacou milhares de euros ao PRR para renovar o Palácio da Ajuda. Mas há para aí burros que não entendem a diferença.”. E mais nada. Já sei que vão dizer que a mãe do Doutor Nuno Palma se pode ter atrapalhado com as contas do Twitter e tungas, lá espeta o coitado do Galileu, que, como o Doutor Palma, estava certo quando todo o mundo estava errado – e que, como sabemos, no caso deste Galileu segundo, andava afastado destas lides, culpa da ciática e da heteronímia. Em ambos os casos, a História os absolverá. Entretanto, está aqui muito indostânico a cantar aquelas músicas brasileiras que consistem em onomatopeias e formas mais ou menos óbvias de falar de fornicação, e estas dores não param. Espero que vos possa ter ajudado, pois se há coisa que nos une a todos (a mim, ao Doutor Nuno e ao Galileu) é o amor inquebrantável pela verdade e autenticidade.

 

                                Um bem-haja a todos 

 

                                                    Da vossa

                                                 Elisabete Sousa (a verdadeira)





[1] Nota do revisor (paciente, muito paciente): o editor fartou-se de contar mas garante que sete fotos do Berlusconi com duas “gajas boas” (é o termo técnico) foram publicadas pela Beta. É possível que tenham sido mais, mas ao contrário da Beta eu não gosto do que faço.

[2] Nota do tradutor (com propriedades de transubstanciação): Além do Victoria, a Dra. Elisabete também segue o San Lorenzo (Argentina), o La Cisterniga (Espanha), o Valladollid (Espanha), Federácion Riojana de Futebol, 11contra11, a Real Federéracion de Castilla y Leon (espanha), ElFutbolModesto, Real Ávila, Atlético Astorga, Diocesávila, Palencia Club de Futbol e Palencia Cristo Atletico, Club Deportivo Guijuelo, Laguna, Baneza, Burgos International Futbol Academy, CD San Jose, La Factoria BCF, Burgos Club Visual, Atlético Tordesillas, Ribert, Villaralbo, Peñaranda, Santa Marta, Arandina, Cantera Unionistas, Atlético Bembimbre, Ciudada Rodrigo CF, e DAZN Portugal. Perdoarão ao tradutor se não enumerar todos os canais (Netflix Portugal e brasil) e outros media que a Beta segue, que inclui o Económico, o Observador, a Sic, + Liberdade, entre vários outros (incluindo todos os económicos). No que diz respeito a pessoas reais (até ver, às vezes não parece crível), além do Doutor Nuno Palma (em trânsito, sabem, pela consistência) só Nuno Rogeiro. Perguntais-nos, genuinamente, se é possível alguém ter uma obsessão por clubes de futebol de terceira categoria em Espanha e na Argentina (e contas de X avulsas que falam sobre futebol em espanhol), pelos canais noticiosos portugueses, com forte ênfase na economia, e nos doutores Nuno Rogeiro e Nuno Palma. Fazendo uma regressão linear, e recorrendo à teoria dos fractais, podemos dizer que não é teoricamente impossível. Mas é triste. Bastante triste.










Post-Scriptum (in memoriam): Os editores acabam de tomar conhecimento do súbito falecimento de Elisabete Sousa. O nosso coração balança. Por um lado, é sempre chato perder um vulto da cultura portuguesa deste quilate. Por outro temos a honra de ter publicado o último texto da Beta. Ademais, isto quer dizer que, à partida, não teremos de voltar a editar um lençol inane destes.