segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Quando um navio abandonado nos faz viajar pelos fantasmas do império.

 

 

O que há de mais eletrizante no romance Angoche, Os fantasmas do Império, de Carlos Vale Ferraz, Porto Editora, 2021, é o aproveitamento de um enigma aparentemente irresolúvel para viajarmos aos derradeiros anos da vida imperial portuguesa. Um navio mercante partiu de Nacala em 23 de abril de 1971, com destino a Porto Amélia (hoje, Pemba). Ia com 24 almas e um importante carregamento de material de guerra. No dia seguinte, um petroleiro encontra o Angoche à deriva, incendiado e sem ninguém a bordo, parecia mais uma dessas histórias de navios-fantasmas. Abre-se inquérito, especula-se quanto ao facto de ter havido duas explosões, atribuiu-se tudo ao terrorismo. Depois do 25 de Abril, os relatórios da PIDE/DGS. O romance do autor da obra-prima Nó Cego questiona a moralidade e o egoísmo, mas o que ficará desta digressão e inquirição, onde se aparenta um trabalho de escrita de crime e mistério, muita conversa do autor com o tio de Dionísio na Ericeira, é irmos às entranhas da guerra em Moçambique, forjam-se amizades entre os homens da Marinha, o capitão-tenente Dionísio era então oficial de informações e as nótulas históricas que o autor introduz como de primordial importância, não exatamente para apurar o desempenho de temíveis serviços secretos sul-africanos que se teriam servido do Angoche para mandar um sério aviso – Moçambique não poderia ser independente. Dentro do círculo em que se move Dionísio há uma ou outra figura que recebe destaque, Saúl, sabia muito de missa sobre o Angoche, entram no terreno literário os homens do BOSS, os Serviços de Informação e Segurança da África do Sul. Era logo evidente na primeira fase de inquérito a contradição das mensagens, houvera manipulação ou distorção para que a mentira falasse mais forte.

É neste contexto que Carlos Vale Ferraz nos desvela uma panorâmica do que foi efetivamente a luta pela independência de Moçambique, dá-nos quadros de intensa vibração entre o que era o norte e o sul, o papel das potências racistas que subordinaram a política portuguesa a um quadro de maior vigilância de terrorismo através do Exercício Alcora, movem-se figuras exuberantes, por vezes completamente dissonantes, como Kaúlza de Arriaga e Jorge Jardim, é magistral o retrato do chefe de brigada da PIDE, Casimiro, há as mulheres de relações fáceis, algumas delas profundamente amadas, aparece um agente da secreta francesa, Dominique de Roux, que andará por Lisboa à volta o 25 de Abril. Tudo isto nos vai aparecendo em encontros entre o autor e o seu tio Dionísio, ele vai soltando a língua com muito vagar, o mistério em espiral deve permanecer até ao fim, Saúl aparece e reaparece, é um cafajeste, ainda por cima ligado a Margarida Palma Vidigal, detentora de muita informação, e há Van den Bergh, o chefe da BOSS, tratado como um porco ou um amoral. E o autor, inopinadamente, dá-nos frescos do melhor recorte literário:

“Os marinheiros de todo o mundo conhecem a Costa dos Esqueletos, no deserto do Namibe. Um local árido, no Atlântico Sul, onde a corrente fria de Benguela choca com o ar escaldante do continente, provocando temporais que atiram os navios contra os baixios de rochas cortantes. Pouco ou nada cresce nas areias do Namibe, e raros animais conseguem adaptar-se a um meio ambiente tão inóspito (…) As instalações discretas, de casernas pré-fabricadas, quase invisíveis nas areias da Costa dos Esqueletos, escondiam a prática de ações fora de qualquer limite e à margem de regras elementares de humanidade por parte dos dirigentes de Pretória, em particular dos polícias sul-africanos. Os barracões, semelhantes aos dos campos de concentração nazis, esconderam laboratórios para a realização de tenebrosas experiências de guerra química e biológica, desenvolvidas pelos Serviços Secretos Sul-Africanos”. Também o que se passa em Moçambique é alvo do impiedoso olhar clínico do autor: “No desconjuntado triângulo do poder em Moçambique, os vértices lutavam uns com os outros para ocuparem o topo. O governador-geral e o comandante-chefe apenas se relacionavam para indispensáveis assuntos de serviço, mas Kaúlza, como Dionísio tivera oportunidade de verificar, também se entendia mal com Jardim, um espinho permanentemente cravado na vaidade do cabo de guerra, através do domínio que o engenheiro exercia sobre as milícias de negros, a DGS, a comunicação social, o seu jornal e a sua rádio, a influência nos países vizinhos, as amizades e cumplicidades entre ele e os políticos e militares da África do Sul, da Rodésia, os dirigentes do Malawi e até da Zâmbia. Jardim ignorava o governador-geral, que por sua vez não lhe reconhecia outro estatuto do que um fura-vidas agente de negócios, e intrigava contra o jornal, espalhando a ideia da sua incapacidade política e militar”.

Há mortes estranhas, como a de Margarida, fez-se constar que se suicidara. Chega o fim da comissão de Dionísio em Moçambique, nestas consecutivas conversas entre o autor e o seu tio Dionísio, apura-se que o Angoche o manchara na sua dignidade e o obrigara a envolver-se nos acontecimentos do 25 de Abril, entramos num universo patético, Jorge Jardim ameaça com uma solução de independência. Há um encontro em Madrid entre dois homens de informação, Dionísio e Peter W, oficial inglês. Este revela a Dionísio que a má sorte do Angoche e dos seus tripulantes caiu no meio do jogo em que as fações do governo da África do Sul travavam dentro da estratégia total. Destas conversas entram e saem dos bastidores outros oficiais da Marinha como Saúl e Cândido, fala-se das ligações de Saúl a Calvão, este ligado ao negócio de armas. Saúl confessou a Dionísio a operação dos Serviços Secretos sul-africanos sobre o Angoche. Calvão merece destaque, ele que ganhara nome na Operação Mar Verde, o assalto a Conacri, aparece ligado a várias insurreições, mas o império desmorona-se.

E nesse mundo em cinzas, o autor socorre-se de outra alegoria, a casa do tio Dionísio desaparece num incêndio criminoso. “As câmaras de vigilância e os sensores contra estranhos, que protegiam a vivenda, haviam sido desligados, os fios cortados. A central de controlo da empresa de segurança não recebera qualquer sinal de intrusão. O corpo do meu tio nunca foi encontrado, nem descoberta a causa do incêndio, nem os autores”. Novo silêncio, como no atentado ao Angoche, os grandes criminosos hão de sair impunes. E os mortos não falam.

De leitura obrigatória. 


Mário Beja Santos



 


domingo, 19 de setembro de 2021

São Cristóvão pela Europa (155).

 


Ao Sul da cidade de Klagenfurt, não longe da fronteira com a Eslovénia, num espaço inferior a 15 quilómetros, quatro igrejas exibem a imagem de São Cristóvão.

A primeira é a Igreja de São Jorge em Köttmannsdorf com um mural de seis metros de altura de meados do Século XV:




 

No mesmo município, mas na Igreja de São Gandolfo outro mural:



Na Igreja da Santa Cruz em Maria Rain, um mural de São Cristóvão do fim do Século XV já um pouco deteriorado:


 

Finalmente em Göltschach, na Igreja de São Daniel, outro mural:




Estas representações de São Cristóvão ao longo dos caminhos podiam significar uma autêntica rede de apoio espiritual ao viajante. Com efeito estes eram roteiros muito frequentados. Mas também inseguros.

 

Fotografias de 10 de Agosto de 2021.

José Liberato




No próximo dia 25, 16h, no Museu do Chiado.

 





quinta-feira, 16 de setembro de 2021

São Cristóvão pela Europa (154) .

 

O Wörthersee é o maior e um dos mais belos lagos da Caríntia.

 


Ao Sul do lago e com distâncias de cerca de 10 quilómetros entre si, três pequenas igrejas ostentam murais exteriores com a imagem de São Cristóvão.

A primeira é a Igreja do Kathreinkogel no município de Schiefling am See. O acesso é difícil. Dois quilómetros de subida a pé no meio da floresta.

A fotografia do mural não está boa. Aliás nos dias em que estive na Áustria, o Sol estava forte e as árvores projectavam frequentemente sombras incómodas sobre o que eu desejava fotografar .



Apesar de tudo, publico-as em homenagem ao esforço físico que elas representam…

 





Ainda no Município de Schiefling am See, na aldeia de Albersdorf, a Igreja de São Martinho e São Ulrich:

 



Finalmente, a Igreja de São Primo e São Feliciano em Maria Wörth:




 

Fotografias de 10 de Agosto de 2021.

 

José Liberato





Memórias de Adriano,




 

 Memórias de Adriano, por Marguerite Yourcenar:

                         Como se demonstra que as obras-primas são monumentos sem idade

 


 

Vai para cinquenta anos que adquiri um livro da Ulisseia, tinha uma capa de pano, cor torrada, um formato muito curioso que quase lembrava um livro de bolso, e pronto enveredei num romance dito histórico, em que o imperador Adriano se propõe contar a sua vida, já está muito doente, é um poderosíssimo César que veio de Hispânia, não esconde o fascínio pela cultura grega, tem a consciência que vive num mundo convulso dos politeísmos, é um admirador da filosofia, foi temível militar, incensado por ter conseguido travar os bárbaros a leste, é dotado de uma cultura esmerada, como ele escreve através da romancista que lhe dá vida: “Só disponho de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de nós próprios, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os têm; os livros, os erros particulares de perspetiva que nascem entre as suas linhas. A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos”. Quando procurei apurar o número de edições deste livro soberbo, fiquei surpreso pela quantidade e pela proximidade das edições, é sem dúvida um romance que supera a vaga das modas. Não tenho dificuldade em entender a promoção contínua desta leitura. Prima a serenidade da escrita, por detrás do que uma romancista culta plasma com ilusão de memórias estão décadas de estudo, aliás como no final da obra Yourcenar nos descreve nos seus apontamentos.

Além dessa serenidade há o destemor da sinceridade, a descrição de um mundo antigo com os seus valores imperiais, o traço contínuo do mundo greco-romano, o génio militar que emana de Roma e o primado dos seus valores. E também o envolvimento que provoca ao leitor o tempo histórico, o seu antecessor é Trajano, é no seu tempo que o império ganha maior amplitude, ele conquistará a Dácia, conhecerá insucesso com os persas, Adriano é tratado como um filho do imperador, numa corte de invejas e de permanentes ciladas. Adriano não gosta daquela corte, aprecia exclusivamente a mulher de Trajano, Plotina. Confessa os seus deslizes, conta-nos as suas primeiras campanhas, a hostilidade permanente dos sármatas, o seu governo na Síria. Trajano envelhece e começam os conciliábulos sobre quem será o herdeiro. Para mostrar iniciativa, Adriano prepara negociações de paz para evitar o inferno das guerras permanentes nas fronteiras orientais. E chega a notícia de que fora designado imperador. “O mundo que eu havia herdado parecia-me como um homem na força da vida, ainda robusto, embora revelando já, aos olhos de um médico, sinais impercetíveis de desgaste, mas que acabava de sofrer as convulsões de uma doença grave. Risquei com um traço as conquistas perigosas: não somente a Mesopotâmia, onde não teríamos podido manter-nos, mas a Arménia, demasiado excêntrica e demasiado distante, que só conservei na categoria de Estado vassalo”. Negoceia e é bem-sucedido a paz com os indómitos persas, já tomou nota das questões graves que separam gregos e judeus e até judeus e árabes. Desembaraça-se de quem o procura aniquilar, o Exército segue-o obedientemente. Recusa os títulos do Senado, dá sinais de moralização: “A moral é uma convenção privada; a decência é uma questão pública; todo o desregramento excessivamente visível deu-me sempre a impressão de uma exibição de má qualidade. Proibi os bens mistos, motivo de rixas quase constantes; mandei fundir e entrar de novo nos cofres do Estado a colossal baixela de ouro maciço encomendada pela intemperança de Vitélio. Os nossos primeiros césares deixaram uma detestável reputação de caçadores de heranças: adotei como sistema não aceitar para o Estado nem para mim próprio legado algum ao qual herdeiros diretos se julgassem com direito. Procurei diminuir a exorbitante quantidade de escravos da casa imperial, e sobretudo a audácia destes, que os leva a igualarem-se aos melhores cidadãos e, por vezes, a aterrorizá-los”.

Estamos já inseridos no pensamento imperial, Adriano dá-nos o seu olhar sobre essa Roma que já não cabe em Roma, disserta sobre a condição humana, as leis, a filosofia, a condição das mulheres, há nas suas considerações uma nota moderna sobre os caminhos para a igualdade ou os travões que se devem usar para não agravar as crescentes desigualdades: “Uma parte dos nossos males provém de haver demasiados homens excessivamente ricos ou desesperadamente pobres. Por felicidade, no nosso tempo, tende-se a estabelecer um equilíbrio entre estes dois extremos: as fortunas colossais dos imperadores e dos libertos pertencem ao passado: Trimalcião e Nero morreram. Mas pelo que respeita a um inteligente reajustamento económico do mundo, tudo está por fazer. Ao chegar ao poder renunciei às contribuições voluntárias das cidades para o imperador, que não são mais do que um roubo disfarçado. As nossas terras são apenas cultivadas ao acaso: só distritos privilegiados, o Egito, a África, a Toscana e alguns outros, souberam criar comunidades camponesas sabiamente exercitadas na cultura do trigo ou da vinha. Pus termo ao escândalo das terras deixadas em alqueive por grandes proprietários pouco cuidadosos do bem público: todo o campo não cultivado há cinco anos passou a pertencer desde então ao cultivador que se encarrega de o fazer produzir. Sucedeu pouco mais ou menos o mesmo com as explorações mineiras”.

Marguerite Yourcenar gera um envolvimento tal que todo um projeto político de um homem do século II d.C. ganha uma estranha proximidade, ele é íntimo, é um poderoso governante que conhece as questões do Exército a fundo, volta a renovar a paz, começa a sentir-se Deus, percorre todos os promontórios da religião. E nasce o seu afeto por um favorito que não só vai fazer História como criará um cânone artístico: Antínoo. O jovem passa a acompanhá-lo por todas as suas deambulações, Roma é cada vez mais desinteressante para o imperador, mas ele não pode em nenhuma circunstância deixar de cultivar uma presença que represente poder e magnificência, o sinal indiscutível da ordem. Continua a viajar, empolgado pelos mistérios religiosos, e é nessas itinerâncias que Antínoo morre, aqui se inicia uma mágoa e um luto que se irão traduzir na multiplicidade de manifestações artísticas. Tudo irá mudar na vida do César, desgostoso vai envelhecendo, continuará a punir traições, e é a partir da velhice, torna-se mais paciente, ganha asco à presunção e ao pedantismo, o futuro do mundo já não o inquieta. O seu sucessor será Antonino, seguir-se-á Marco Aurélio, é um período de ouro do império. Aproxima-se a morte, e assim termina este espantoso livro que descobri há cinquenta anos e que nunca me larga: “Almazinha, alma terna e flutuante, companheira do meu corpo, de que foste hóspede, vais descer àqueles lugares pálidos, duros e nus onde terás de renunciar aos jogos de outrora. Contemplemos juntos, um instante ainda, as praias familiares, os objetos que certamente nunca mais veremos… Procuremos entrar na morte de olhos abertos…”.

Indispensável, esta leitura de um mundo antigo um tanto vizinho do mundo moderno, na escrita sublime de Marguerite Yourcenar. 


Mário Beja Santos







 


terça-feira, 14 de setembro de 2021

São Cristóvão pela Europa (153).


 

Com vários estilos, com diversas formas, os Bildstöcke povoam as estradas do Sul da Áustria.

Aqui publico 12 ao todo, mas seguramente poderia apresentar uma boa centena:









 

Fotografias de 10, 12 e 13 de Agosto de 2021.

 

José Liberato






segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Que o vento seja suave.

 

Que o vento seja suave.



Uma brisa basta. No último dia de máscaras na rua, uma toada de despedida. Sem saudades, só esperança numa aterragem tão auspiciosa como a que parece aguardar os bonequinhos parapentistas da foto em baixo. O que virá depois não há de ser um furacão.

Nunca ouvi o vento desta maneira em “Soave sia il vento”, em Così Fan Tutte, de Mozart. Nesta interpretação, datada de 2020, ano de pandemia e de sufoco alucinado, o que se ouve no primeiro ato já nem parece um trio de vozes. Antes um quarteto -- e a brisa, o sopro das cordas, o elemento central.

É comparar: quem ansiar menos por uma vibração do ar assim, tamanha, a insuflar-nos por dentro até nos criar asas próprias, e preferir algo mais estelar, pode ficar com proveito a cintilar com este trio de estrelas.




Manuela Ivone Cunha 

 

 




domingo, 12 de setembro de 2021

São Cristóvão pela Europa (152).

 

 

Em meados de Agosto peregrinei palas regiões austríacas da Caríntia e do Tirol.

Tempo esplendoroso, paisagens lindas.

Elementos muito frequentes na paisagem são os Bildstöcke. Difícil de traduzir. Na realidade, são pequenos monumentos que consistem em imagens de carácter religioso assentes num pilar.

São colocados em cruzamentos de estradas ou na entrada das povoações.

Destinando-se à protecção das pessoas durante a viagem, invariavelmente São Cristóvão está presente:








 

Fotografias de 10 de Agosto de 2021

 

José Liberato


sexta-feira, 10 de setembro de 2021

DINFO: Os Serviços Secretos militares depois do 25 de Abril.

 

 



 

DINFO, A Queda do Último Serviço Secreto Militar, por Fernando Cavaleiro Ângelo, Casa das Letras, 2020, é uma longa viagem sobre informações militares, a que não falta didatismo sobre conceitos de contrassubversão ou contraespionagem, o papel do agente duplo, a espionagem em Portugal, o fenómeno do terrorismo (da extrema direita à extrema esquerda), o nascimento e a queda da DINFO, e pelo caminho acompanharemos a narrativa de detenção de espiões em Portugal. A ter em conta o que diz o autor: “As informações militares nem sempre se cingiram a uma atuação dentro da esfera das operações militares. Imediatamente após o 25 de abril de 1974, com o final das guerras de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, o conceito de ameaça existente até então desapareceu subitamente. A ameaça que até então era personificada em grupos insurgentes independentistas residentes nas antigas colónias portuguesas deslocou-se para dentro de fronteiras nacionais. O único serviço de informações com capacidade de intervir no pós-25 de Abril para mitigar ameaças foi a Divisão de Informação do Estado-Maior General das Forças Armadas, apelidada de DINFO. A Polícia Judiciária não estava preparada para lidar com este tipo de atividade terrorista, acabando, numa fase posterior, por absorver as perícias e técnicas que a DINFO adquirira, entretanto, junto dos Serviços Secretos israelitas e britânicos. Constituindo-se o combate ao terrorismo como uma competência da Polícia Judiciária criada durante a primeira grande reestruturação de 1977, a DINFO acabou por, naturalmente, passar de uma postura de liderança para uma posição de entidade apoiante. Os Serviços Secretos Soviéticos, mormente o KGB e o GRU, estavam muito ativos no território nacional. A Polícia Judiciária não tinha capacidade nem recursos humanos habilitados em matéria de contraespionagem. E foi também neste campo que a DINFO se destacou sobremaneira, através de um conjunto de operações que desarticularam e negaram a livre atuação dos Serviços Secretos hostis em Portugal”. A DINFO irá definhar com a criação do Serviço de Informações Estratégico de Defesa Militares (SIEDM), criado em 1997.

Em termos claramente acessíveis, o autor dá-nos o nascimento da DINFO e os respetivos serviços e contextualiza o funcionamento de outras entidades intervenientes na erradicação de ameaças em Portugal. Observa como se procede em termos de pesquisa para obter informações e também nesse ponto é bastante didático, como se exemplifica: “A pesquisa coberta utiliza um conjunto de técnicas especiais que pode envolver policiamento e recrutamento de pessoas, a obtenção de documentação classificada, a utilização de meios técnicos sofisticados ou o controlo de atividades de determinados indivíduos. A pesquisa coberta divide-se em pesquisa operacional e pesquisa técnica. Na operacional, integra-se a vigilância e controlo de agentes”. Detalha formas de vigilância e depois apresenta-nos a Repartição E como a força-motriz da DINFO: tinha permissão a pesquisa coberta de informações, através de atividades envolvendo agentes secretos adequados à recolha de informação de forma discreta. Considero que o timoneiro desta principal repartição da DINFO era o capitão de fragata Pedro Serradas Duarte, dá-nos o currículo do oficial da Armada e faz um comentário completamente descabelado sobre a preparação moral do dito: “Ainda em tenra idade, entrou para Colégio Militar, tomando contato desde cedo com um conjunto de valores que não estão ao alcance dos alunos do primeiro e segundo ciclos nas escolas públicas. Valores essenciais à condição humana, como integridade, lealdade, coragem, responsabilidade, camaradagem, abnegação, sentido humano e devoção, são assimilados no código genético de alunos que cedo entram para este tipo de estabelecimentos de ensino”. É totalmente incompreensível este disparatado documentário só para incensar alguém que muito se considera, chegando-se ao cúmulo de rebaixar o ensino nas escolas públicas, paciência, às vezes quem louvaminha perde as estribeiras e a noção do ridículo. Dissecados os serviços da Repartição E, Cavaleiro Ângelo dá-nos o perfil do agente secreto, refere as ameaças possíveis em Portugal, caso da Organização da Libertação da Palestina, a organização terrorista Abu Nidhal e possíveis ligações com os serviços secretos iraquianos, outros movimentos radicais árabes, a DINFO foi apoiada pelo MOSSAD, mas também se faz uma apreciação de outros movimentos de extrema-direita e extrema-esquerda, caso do ELP e do MDLP, PRP/BR, FP 25 e JAR. Os Seviços Secretos Soviéticos têm a fatia de leão, mas também se fala da vigilância envolvendo a RENAMO, a UNITA, a existência de infiltrados na UDP.

Continuando a narrativa de valor didático, o autor analisa o fenómeno do terrorismo em Portugal e no mundo, escalpeliza o que se passou em Portugal nas atividades de extrema-direita, qual foi a organização das informações do MFA, que estiveram à responsabilidade do Almirante Rosa Coutinho e a evolução das informações militares em todo o processo revolucionário – matéria que o autor aprecia com dados relevantes. Segue-se o terrorismo de extrema-esquerda, e o acervo de informações apresentadas por Cavaleiro Ângelo pode ser visto com o mesmo relevo, dando-nos uma panorâmica da atividade subversiva e terrorista das Brigadas Revolucionárias e das Forças Populares 25 de Abril, fica-se a saber que a DINFO conseguiu infiltrações e por vezes a deteção de atos radicais.

Tem bastante interesse o enquadramento que o autor estabelece para a espionagem em Portugal, vamos conhecer o modo como a DINFO atuou com os Serviços Secretos Soviéticos, graças à descrição de três operações: Búfalo, Albatroz e Tentilhão, há episódios dignos da ficção, muitos deles rocambolescos, mas fica-nos a dúvida se a DINFO explorava com intensidade outras formas de obtenção de informações por parte dos soviéticos, caso dos agentes colocados nas agências noticiosas (TASS e Novosti), a Associação de Amizade Portugal-URSS, livrarias, o Conselho Mundial da Paz e a sua ramificação portuguesa, etc. Igualmente a importância, o Cavaleiro Ângelo vem referir quanto ao apoio aos grupos guerrilheiros em Angola, Moçambique e Timor-Leste. Por último, o autor debruça-se sobre o balanço possível das atividades da DINFO, questiona para que servem as informações militares no século XXI, enfatizando que continuam a ser uma ferramenta fulcral para o decisor político, não ilude a questão delicada das escutas telefónicas e da colocação de microfones e diz mesmo: “Sem o recurso a técnicas de escuta telefónica e de colocação de microfones dissimulados em locais de interesse, a DINFO não teria conseguido ajudar a erradicar o terrorismo de extrema-direita e de extrema-esquerda, tal como a controlar a espionagem soviética, através da utilização de técnicas de escuta telefónica e de colocação de microfones dissimulados em locais de interesse”. E deixa um aviso no termo do seu trabalho: “As informações militares só poderão evoluir no dia em que as estruturas e os órgãos dedicados a esta atividade foram povoados por recursos humanos com formação e perícia na área. Enquanto isso não ocorrer, vamos continuar a deambular em torno da metamorfose das informações militares à procura de uma solução miraculosa que dificilmente conseguirá definir qual será a essência da coisa”.

De leitura obrigatória para quem pretenda conhecer as informações militares portuguesas ou o que tem sido a espionagem e contraespionagem em Portugal depois do 25 de Abril. 


Mário Beja Santos






 


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Sonatina Burocrática.

 

 


Ao contrário do que se imagina, há burocratas com sentido de humor. Talvez por ter sido alimentado com um sentido de auto-derrisão tão comum entre belgas como a batata frita e o mexilhão, certo membro de uma estrutura administrativa gestora da qualidade, interpelado ao telefone por uma académica bruxelense minha conhecida, indignada com a enésima massacrante exigência burocrática que emanava dali, reagiu com desarmante franqueza à sugestão desta para que lesse o já famoso Bullshit Jobs (trabalhos da treta), do antropólogo David Harvey: “Bem… Aqui já todos o lemos…”.

E citou, por seu turno, mais duas ou três obras na mesma linha, em que afinal ele e colegas admitiam reconhecer-se, tim-tim por tim-tim -- ou Tintin, sendo ele belga. Após um breve silêncio, desataram ambos a rir ao telefone, unidos no reconhecimento cúmplice de tanto absurdo burocrático, da tácita comédia de enganos que todos sabem desprovida de sentido, ou de real propósito útil.  

É certo que o sentido de humor pode ser involuntário, como o de uma estrutura congénere de uma respeitável instituição de ensino superior, desta feita portuguesa, que de tão embalada na volúpia burocrática, de tão alheada na sua bolha, nem percebeu o gáudio generalizado aí gerado pela circular que divulgou, intitulada: “Documento de Procedimentos para Obtenção de Feedback Sobre o Feedback nos Processos de Avaliação do Ensino”. Porventura melindrada pelo efeito cómico, que continuou sem compreender, acabaria por não chegar a produzir o documento que já toda a gente antevia seguir-se, destinado a obter o Feedback Sobre o Feedback Sobre o Feedback, em loop perpétuo.

Agora que a rentrée se aproxima em condições de alguma normalidade no rescaldo da pandemia, que o apetite burocrático desperta e, quiçá, as Mãos Doem já em tanto formigueiro, é de ficar com a Sonatine Bureaucratique, de Eric Satie, a quem voto um respeito terno. Mais ainda depois de saber que o seu apartamento continha um sem-número de guarda-chuvas e dois pianos de cauda, um sobre o outro, e que usava o de cima para guardar cartas e encomendas. Não é de admirar que deixasse partituras em sítios estranhos e variados, para além de extraviá-las em bolsos de fatos de veludo.

O absurdo de Satie é um deleite não vampírico, que não suga o tempo, a energia, a força anímica de ninguém. O que não significa que não soubesse moer quem merece ser moído, como no prefácio a Sports & Divertissements: o Coral Desagradável, que Satie disse ter escrito “para criaturas ressequidas e estupidificadas, uma espécie de preâmbulo azedo, uma introdução austera e não frívola. Pus nele – diz Satie -- tudo o que conheço sobre Aborrecimento. Dedico este Coral a quem não gosta de mim. Retiro-me”.

 



Manuela Ivone Cunha






São Cristóvão pela Europa (151).

 

 

Em Pádua, junto à Igreja dos Eremitas, ergue-se o chamado Museu Cívico, mais outro dos grandes museus de Itália.

Da oficina de Pierpolo e Jacobello Dalle e dos primeiros anos do Século XV, um belíssimo tabernáculo tardo-gótico com altos-relevos  representando São Cristóvão e São Paulo:

 


 


 

De Giovanni da Bologna, pintor da segunda metade do Século XIV, uma representação do Santo que se tornou muito conhecida:

 


O chamado Políptico de São Pedro, da autoria de Francesco dei Franceschi, pintor de meados do Século XV, é proveniente do Convento dos monges beneditinos de São Pedro:

 




Finalmente, de um pintor de Pádua do terceiro quartel do Século XVI, uma Nossa Senhora da Misericórdia com o Menino, rodeada de anjos e devotos, e acompanhada por São Tiago Maior, São Cristóvão, São Filippo Benizzi e São Jerónimo. Proveniente da Igreja de Santa Maria dos Servos em Pádua:

 




Num antiquário da Via del Santo (António, evidentemente), uma imagem de São Cristóvão:

 


Fotografias de 14 de Agosto de 2021

 

José Liberato





domingo, 5 de setembro de 2021

São Cristóvão pela Europa (150).

 


Se há santo venerado em Pádua não é certamente São Cristóvão.

A Basílica dedicada a Santo António é a Basílica do Santo. Nem existe a necessidade de explicitar qual, tanto é óbvio.



E no entanto, encontra-se em Pádua uma das mais importantes representações de São Cristóvão.



Na Igreja de São Filipe e São Tiago, conhecida pela Igreja dos Eremitas (agli Eremitani), na Capela dos Ovetari existe um fresco da autoria de vários pintores incluindo Andrea Mantegna (1431-1506), ocupando uma parede inteira e descrevendo várias fases da vida do Santo, incluindo o seu martírio.

 


Infelizmente, a capela foi quase totalmente destruída por uma bomba em Março de 1944. Daí o estado de conservação do fresco. 

É visível o Santo, já supliciado, deitado no chão no painel em baixo, pintado por Mantegna. Nos painéis do centro representações mais comuns.

Hoje é possível através de métodos digitais reconstituir o que teria sido esta obra de arte:

 






Fotografias de 13 e 14 de Agosto de 2021.


José Liberato 






quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Joaninha dos Olhos Verdes ou a aurora da moderna literatura portuguesa.

 


Ainda hoje a nata dos investigadores não obteve consenso quanto à essência dessa obra-prima que dá pelo nome Viagens na Minha Terra, que Almeida Garrett publicou em 1846. Sabe-se que é uma obra de rutura, anuncia o romantismo num processo literário híbrido, um romance (?) publicado em folhetim, cheio de considerações pessoais, de citações, relatos de visitas, uma viagem ao Ribatejo que logo arranca com uma reflexão estuporada, completamente inusitada, que José Saramago aproveitou para epígrafo do seu romance Levantado do Chão, de 1980: “E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”. Isto a caminho da Azambuja, daqui irá até ao Cartaxo, não deixa de registar observações, se dúvidas houvesse quanto à formidável cultura de Garrett era viajar aqui com ele, vê-lo sabedor de línguas e das respetivas literaturas, homem de salão, e sempre pronto a classificar ou criticar. Basta vê-lo a escrever sobre o Cartaxo: “É uma das povoações mais bonitas de Portugal, asseada, alegre; parece o bairro suburbano de uma cidade”. É profuso em dar explicações e fazer comentários, antes de chegar ao Vale de Santarém, parece estar a perguntar ao leitor: “De onde veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver sítio, lugar ou coisa que o valha, com o nome de Meca; e daí talvez o admirável rifão português que ainda não foi bem examinado como devia ser, e que decerto encerra algum grande ditame de moral primitiva: ‘andou por Seca (Asseca?) e Meca e olivais de Santarém’. A ponte da Asseca corta uma várzea imensa que há de ser um vasto paul de Inverno: ainda agora está a dessangrar-se em água por toda a parte”. Enfim, depois de muita cogitação chega-se ao Vale de Santarém, “pátria dos rouxinóis e das madressilvas, cinta de faias belas e de loureiros viçosos”. Até aqui, nada de romanesco, mas já chegámos ao Vale de Santarém, avista-se a janela da Joaninha, começa uma história, ou quase, vem interpolada por mais citações de alta cultura, mas sim aparece a Joaninha, a sua avó cega, e prefigura-se uma apresentação da protagonista: “Joaninha não era bela, talvez nem galante sequer no sentido popular e expressivo que a palavra tem em português, mas era o tipo de gentileza, o ideal da espiritualidade. Naquele rosto, naquele corpo de dezasseis anos, havia, por dom natural e por uma admirável simetria de proporções, toda a elegância nobre, todo o desembaraço modesto, toda a flexibilidade graciosa que a arte, o uso e a conversação da Corte e da mais escolhida companhia vêm a dar a algumas raras e privilegiadas criaturas no mundo”. Apresentada e comentada, no fim do capítulo insinua-se a apresentação de novo ator, Frei Dinis, o austero guardião de São Francisco de Santarém. Logo Garrett sente-se no dever de falar dos frades e paira no ar a crítica aos barões trazidos pela causa liberal. A avó chama-se Francisca, sente-se faísca elétrica no ar, o frade postula considerações graves sobre a Guerra Civil, fala-se do neto Carlos que Frei Dinis diz ser rapaz maldito, entre dois está o abismo todo do Inferno. E vem a descrição de Frei Dinis, amostra ténue, só no final da trama iremos entender o enredo pecaminoso, por ora descreve-se Dinis de Ataíde e como chegou à Ordem de São Francisco depois de algumas peripécias, as visitas de sexta-feira de Frei Dinis à Avó Francisca e a Joaninha são bem aciduladas. E chega a hora dos segredos, o frade traz uma carta para Joaninha, esta, percebe-se claramente, tem embevecimento pelo primo Carlos e eis como num quadro de ópera que Carlos entra em cena, é militar liberal, é um encontro muito terno, irão suceder-se os bilhetes de primo para prima, ainda não sabemos nada da sua vida amorosa por outras bandas, e se pretendemos saber logo tudo Garrett troca-nos as voltas, por ora o enredo é idílico, assim: “Carlos tinha a mão de Joaninha apertada na sua; e os olhos húmidos de lágrimas cravados nos olhos dela, de cujo verde transparente e diáfano saíam raios de inefável ternura. Dizer tudo o que ele sentia era impossível: tão encontrados lhe andavam os pensamentos, em tão confuso tumulto se lhe alvorotavam todos os sentidos”. Haverá encontros românticos, em plena Guerra Civil, a horas escusas, e com o apoio das sentinelas. E Garrett revela-nos o seu feitiço por Santarém, mas também o seu completo desapontamento: “Santarém é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poética parte das nossas crónicas está escrita. Rico de iluminuras, de recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados primorosos, o livro era o mais belo e o mais precioso de Portugal. Encadernado em esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras, fechado a broches de bronze por suas fortes muralhas góticas, o magnífico livro devia durar sempre enquanto a mão do Criador se não estendesse para apagar as memórias da criatura. Mas esta Nínive não foi destruída, esta Pompeia não foi submergida por nenhuma catástrofe grandiosa. O povo de cuja história ela é o livro, ainda existe; mas esse povo caiu à infância, deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha…”.

A tensão do drama sobe de tom, torna-se à história de Joaninha, Carlos é ferido, chegou a hora de aparecer a outra, de nome Georgina, é inglesa de gema, aparece o Frade, vamos saber qual a ligação deste com Carlos, por que crimes espia o guardião do Convento de São Francisco, a história de Joaninha ainda não chegou ao fim, Garrett aproveita o interlúdio para nos descrever o património da cidade, vai mesmo jantar nos Reais Paços de Afonso Henriques, atravessa Santarém muito arruinada, é muitíssimo bem acolhido em casa fidalga, lá do alto a vista é magnificente, mas há que regressar ao miolo da história, vamos agora ouvir falar de muita desgraça até Garrett desancar em Carlos que vai ser barão, isto já de partida de Santarém, em jeito de conclusão o autor desce até ao Vale e faz algumas perguntas, segue-se a extensa carta de Carlos a Joaninha, tudo se vai esclarecer sobre o passado de Carlos, ele bem pede perdão à prima, mas não resistiu a ser barão e poderá mesmo vir a ser deputado qualquer dia, oportunismo é coisa que não falta a estas classes ascendentes, e assim termina o livro:

“Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De todas quantas viagens, porém, fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra.

Se assim o pensares, leitor benévolo, quem sabe? Pode ser que eu tome outra vez o bordão de romeiro, e vá peregrinando por esse Portugal fora, em busca de histórias para te contar.

Nos caminhos de ferro dos barões é que eu juro não andar. Escusada é a jura, porém. Se as estradas fossem de papel, fá-las-iam, não digo que não. Mas de metal!

Que tenha o Governo juízo, que as faça de pedra, que pode, e viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra”.

Lemos nos bancos de escola comentários à obra, à semelhança do que o sistema educativo procede com Bernardim Ribeiro, Camões, Vieira e outros dominadores da língua portuguesa. O que não aprendemos na nossa adolescência é que este livro de Garrett rompe com o estilo velho literário, arranca com um hibridismo de notas de viagem, de considerações culturais, e chegados ao Vale de Santarém floresce uma apoteose romântica, sem igual. É certo que Garrett teve continuadores, mas ele foi o pioneiro, e relê-lo é um deslumbramento, é como se estivéssemos a atravessar a porta de uma mentalidade fechada para a alvorada do livre pensamento. Só pelo gigantismo desta prosódia Garrett garantiu o seu lugar no Panteão. 


Mário Beja Santos