Malomil
segunda-feira, 25 de maio de 2026
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Os demónios da interioridade, as assimetrias que matam os sonhos dos homens.
Não há discurso político-partidário
que não proclame a predisposição para pôr termo às nossas interioridades, que
não são poucas, estão prantadas na raia, até mesmo nas regiões
ultraperiféricas, explicitam-se por fuga das gentes, falta de serviços, ausência
de industrialização, esquecimento dos planificadores ou mesmo dos investidores,
há interioridades nas Beiras, na zona transmontana, em vastidões como aquela
que vamos falar, pontos da serra algarvia, por ali se passa com um certo
desfastio, às vezes com curiosidade, são itinerários obrigatórios para alcançar
as paragens turísticas. No caso vertente do Barrocal Algarvio multiplicam-se os
estudos, adivinham-se as potencialidades, sonha-se com desenvolvimento,
espera-se pelo Encoberto. A Fundação Francisco Manuel dos Santos encomendou a
um jornalista de alto coturno, Rui Araújo, que andasse por esses montes
escalvados, o produto final que ele nos deu é uma reportagem assombrosa,
chama-se Um tesouro no deserto, Retratos da Fundação, 2025. O autor
começa por nos dizer ao que vem:
“A intenção é emprestar voz a esta
gente esquecida dos montes do Nordeste do Algarve. Escutar as suas memórias. Os
testemunhos. Os silêncios. Pintar nestas páginas a terra e as gentes.” Rui
Araújo é um andarilho com muitas provas dadas, sabe perguntar, sabe
contextualizar, ora vejam:
“DESERTO. Foi ontem! As placas indicam
Alcoutim, IC27 e Deserto. Opto por Deserto, o nome atrai-me. Deve ser um lugar
diferente. Dou com dois idosos sentados diante de uma casa sem janelas, o que
dá para imaginar o que a vida custa. Primeiro encontro. E, irremediavelmente,
as primeiras descrenças.
- Ah, tenho saudades, que a gente saía e
via gente por aí todos, o mesmo que a gente. E, agora, uma pessoa sai e não vê
ninguém… - diz-me dona Adelina.
A solidão imposta é sentida como um
calvário. Diz-se, diz-se. E é capaz de ser mesmo assim. Ela veste blusa e
avental azuis. Ele está de chapéu negro sobre os olhos e de camisa cor de burro
quando foge. Daqueles pares de olhos, apesar dos óculos graduados, irradia
tristeza, apenas tristeza.”
A conversa mete muito desalento, quase que
se ouvem os espetros, há memórias dos tempos com trabalho, a apanha da amêndoa
e do figo. O jornalista volta ao local, veio de moto, contempla um furjal, nome
que alguns algarvios dão aso terrenos vedados por árvores de sequeiro. Ainda na
década de 1990 as terras eram todas cultivadas, havia trigo, aveia, centeio,
azinheiras e muito mais. Agora as ruelas estão desertas. O jornalista segue
para Balurco de Baixo, mete conversa com Francisco José Cavaco Gonçalves, foi
lavrador e trabalhou na Câmara de Alcoutim, a população é de velhos, mesmo os
estrangeiros que por ali habitam. É tudo uma questão dos censos, em cerca de
sessenta anos há quase dez vezes menos pessoas a trabalhar no campo e nem a
pesca escapou à desgraça. Em Alcoutim já só resta um pescador. Nova localidade,
o nome é Soudes, conversa com Agostinho Mestre Pereira, conta a sua vida, até a
vida sentimental lhe foi madrasta. Mas não se esquece de dizer que antigamente
se vivia pior. Pobre é uma palavra recorrente, não foram esquecidas as
lembranças da vida frugal, “os brinquedos que eu tive eram uma roda de cortiça
redonda metida numa câmara-de-ar e correndo atrás daquilo.”
Estamos agora no Torneiro. “Ao cabo de uma
eternidade, aparece diante da moradia branca uma idosa que me mede de alto a
baixo. Digo-lhe, só para me dar ares de erudito, que estou a escrever um livro
sobre a memória dos montes do Algarve. Dona Maria Dias Gomes Afonso manda-me
entrar com um sorriso largo e bonacheirão.” Vai recordar a sua infância, lembra
as festas, a vida difícil, comia-se o que a gente colhia, agora nada se semeia
e não há pessoas, diz que é uma mulher feliz.
Rui Araújo preparou-se a sério para esta
digressão. Estamos agora na Bemposta, invoca-se a documentação atinente, temos
mais conversa, desta vez com o senhor Domingos, nova expressão do desalento.
“Se este monte tinha trinta e tal pessoas e hoje só há um. E vocês vão a esses
montes que há por aí, passa igual. Em todo o concelho. As pessoas que viviam
nesta serra todas viviam do campo. Estes campos que a gente vê aí cheios de
mato não se via um pé de mato nem erva daninha (…) E quando eu abalar daqui isto
é capaz de acabar. As pessoas todas abalaram daqui. Toda a minha família. Nós
éramos dez. só temos já cinco. Já morreram outros cinco. Éramos só dois machos.
Um morreu na Guiné, em 1967.”
É reportagem radioscópica e radiográfica,
vai-se por Ourique, depois Pereiro, Tremelgo de Cima, na Serra do Caldeirão,
mais adiante pinhal, à frente Marim, passa-se para Silgado, que é o primeiro
nome do planalto do Pereirão, inflete-se para Pescueza, convém aqui uma
detença. Estamos na província de Cáceres, é uma vila rústica do século XV que
tem uma particularidade de os velhos não estarem em lares, vivem nas casas onde
ergueram telhados, mas não se façam juízos muito coloridos, pode correr o risco
de desaparecer se não for invertida a dinâmica populacional. O jornalista foi
ver o projeto onde se pretende quebrar a solidão e dar a gente na idade maior
um astro de dignidade.
E temos agora o regresso a Alcoutim,
lembra-se o contrabando e os contrabandistas, de lá para cá levava-se o café. A
conversa de Rui Araújo com Paulo Paulino, o Presidente da Autarquia é de ler
com maior atenção: “Somos o concelho do país com menor densidade populacional.
O tamanho médio da propriedade é muito pequeno. Não existe dimensão para que as
explorações sejam autossuficientes.” Solução que propõe: o emparcelamento.
Refere ao entrevistador que há potencial na região, logo o rio Guadiana, faltam
marinas onde pudessem chegar veleiros, ao potencial turístico, as florestas e a
área pastoril.
Se se começou no Deserto estamos agora no
Tesouro, em fim de viagem, serra do Caldeirão, uma conversa luminosa com a
professora Babi, octogenária, a não perder. De modo que tem todo o sentido a
despedida que Rui Araújo nos faz: “Parti à procura do Deserto e descobri um
inestimável Tesouro nos confins de Portugal. É das pessoas de carne e osso que
gosto. O resto é paisagem. Só paisagem.”
Uma belíssima incursão por um desses dolorosos recantos das nossas interioridades.
Mário Beja Santos
segunda-feira, 11 de maio de 2026
São Cristóvão pela Europa (354).
De
volta a Espanha e à Província de Salamanca, agora com o apoio ao Malomil de uma
forte equipa composta pelos curas D. Rafael, D. Carlos e D. Juan Carlos e as
suas acólitas D. Maria José e D. Puri. A todos agradeço muito. Só assim foi
possível visitar duas igrejas habitualmente inacessíveis.
Comecei
pela aldeia de Retortillo que tem cerca de 170 habitantes. A igreja românica é
dedicada a São Cristóvão e define a silhueta da aldeia.
No
seu interior, um retábulo com uma imagem do nosso Santo. Curiosamente, o Menino
Jesus não está sentado no ombro. Parece saltar.
Castillejo de Dos Casas é uma aldeia com cerca de 50 habitantes a um quilómetro da fronteira com Portugal. A igreja, também de São Cristóvão, ergue-se num ponto cimeiro e tem uma bela porta gótica. Terá sido construída no final do Século XV. No seu interior, uma imagem e um bastão usado em procissão, ambos com representações de São Cristóvão.
Fotografias de 3 de Maio de 2026
José Liberato
quinta-feira, 23 de abril de 2026
São Cristóvão pela Europa (353).
Continuando
na província de Salamanca, agora na sua parte Sul, Beleña é um pequeno
município situado em planalto. Sendo plano, atinge altitudes entre 800 e 900
metros.
Uma
estátua de São Cristóvão foi criada por um artista local usando betão e cimento
branco. Localiza-se junto à estrada com a intenção de proteger os condutores
que passam.
A
igreja, muito simples, é dedicada também ao nosso Santo. No interior, uma
imagem que mal se consegue descortinar na fotografia.
Nesta
região passava a Via da Prata, caminho que ia de Astorga até Mérida. Segundo a
tradição por aqui andaram Viriato, Sertório, até Aníbal Barca, o general Cartaginês.
O
Castelo medieval de São Vicente, também chamado Castelo do Paraíso, do final do
Século XIII, avulta na paisagem. Foi edificado certamente sobre fortificações
anteriores
A
Igreja de Nossa Senhora da Assunção é uma igreja construída em granito no
Século XIII na transição do românico para o gótico. Possui um fresco
representando São Cristóvão um pouco deteriorado.
Zamora
é uma cidade importante na História de Portugal, em especial nos seus
primórdios.
D.
Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, foi Senhora de Astorga e Zamora a partir de
1111. Passou aliás a usar o título de rainha desde essa altura.
Provavelmente
em 1125, fez recentemente 900 anos, o jovem Infante D. Afonso Henriques
investiu-se como cavaleiro. Dizem os Anais de D. Afonso, rei dos portugueses,
transcritos por José Mattoso na sua biografia de D. Afonso Henriques:
Era
de 1163 (ou seja 1125). O ínclito Infante D. Afonso, filho
do Conde D. Henrique e da rainha D. Teresa, neto de D. Afonso, tendo cerca de
14 anos de idade (teria 16), estando na Sé de Zamora, no dia Santo de
Pentecostes, tomou de cima do altar as armas militares e vestiu-se e cingiu-se
a si próprio diante do altar, como é costume fazerem os reis. Vestiu-se com a
armadura como o Gigante, pois era grande de corpo, e cingindo-se a si próprio
com as armas para as batalhas, tornou-se nos seus actos, como um leão e como a
cria do leão que ruge na caça.
Foi
um primeiro momento de afirmação real de D. Afonso Henriques, três anos antes
da batalha de São Mamede. Aconteceu em Zamora porque estava em território de
sua mãe. Evidentemente que há que ter em conta que os Anais, escritos em 1185,
são um panegírico do nosso primeiro rei.
Em
4 e 5 de Outubro de 1143, o Cardeal Guido de Vico (natural de Pisa, cardeal
desde 1130, participante em na eleição de pelo menos três papas) encontrou-se
em Zamora com Afonso VII de Castela e Leão e Afonso Henriques. Foi a chamada
Conferência de Zamora.
Nessa
conferência, de que não existem registos escritos, D. Afonso Henriques
estabelece uma relação directa com a Igreja de Roma, ao mesmo tempo que vê
Afonso VII reconhecê-lo como rei e afirmar-se como Imperador, dignidade
superior à de Rei.
É
indiscutivelmente um momento fundador da nacionalidade portuguesa.
A
construção da Catedral de Zamora, tal como a conhecemos hoje, iniciou-se por
volta de 1139, o que significa que a mencionada investidura de D. Afonso
Henriques como cavaleiro ocorreu provavelmente na sua anterior configuração.
No seu interior, uma magnífica pintura mural de São Cristóvão, da autoria de Blas de Oña, pintor documentado entre 1531 e 1543.
Fotografias de 3 e 4 de Abril de 2026
domingo, 19 de abril de 2026
O Diogo.
É
difícil falar da morte de uma pessoa como o Diogo Ramada Curto. Mesmo muito.
Fala-se da morte, mas apenas se sabe o que essa palavra quer dizer quando morre
alguém como o Diogo.
Falar
do desaparecimento do Diogo é falar da minha dor. Falar da minha dor é falar do
Diogo. Para que ele continue a falar comigo, e eu com ele. Por isso
escrevo sobre o Diogo. Escrevo sobre o Diogo através da minha dor e sobre a
minha dor através do Diogo. Escrevo para encher bem os olhos e o coração com a
sua imagem. E, com ela, mitigar os momentos de penosa saudade que me aguardam
longe dele.
Quando
morre um amigo como o Diogo, sofre-se muito. Sente-se que uma parte de nós
também morreu. Mas, ao mesmo tempo, o Diogo está ainda mais vivo naquilo que
penso, sinto, escrevo.
Escrever
sobre a dor é escrever contra a morte. A dor é o que dá forma à ausência da
pessoa querida e o que impede o seu desaparecimento. Escrever sobre alguém que
desapareceu e que se ama tanto é uma forma de continuarmos a levá-lo connosco,
fazendo com que a sua presença continue a fazer-se sentir em nós.
Escrever
sobre o Diogo não é falar de uma vida apagada para sempre. É fazer com que ele
continue a renascer todos os dias, através de quem fica. É mantê-lo connosco,
negando a impossibilidade do seu regresso.
Como
fazer a dor entrar nas palavras? Como viver com os nossos mortos? Quando se é
novo, dizem, o sofrimento ajuda a crescer. E quando deixamos de ser novos? Como
descrever a experiência de sobreviver a um Amigo como o Diogo? O que é que nos
acontece quando alguém que amamos tanto parte de repente? Alguém que nos marcou
de maneira tão instantânea?
Não
me atrevo a resumir o extraordinário ser humano que era o Diogo. Nem a dizer
que o conheci e o compreendi completamente. Mas posso contar-vos o que ele fez
em mim e o que a sua ausência me vai fazer, o resto da vida inteira.
O
Diogo era mais do que um Amigo. Era o meu Irmão mais velho. Era o Amigo, o
Irmão, o Professor, o Mestre.
Falar
do Diogo é falar da minha vida e de como ela se viu radicalmente alterada
quando o conheci. Vi-o pela primeira vez aos 20 anos. Foi em
Setembro de 1992, no início do terceiro ano da licenciatura em Sociologia, na
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, como meu professor da disciplina de
História do Pensamento Social.
Recordo-me
da emoção intelectual que essas aulas produziam na minha cabeça ainda
adolescente. Mesmo se não compreendia quase nada do que havia a compreender
naquilo que o Diogo dizia. Mas foi justamente essa incompreensão que me
levou a procurar uma maneira de a preencher. Por isso estudei. Estudei muito.
Provoquei-o nas aulas. Discuti as ideias dele. Para o impressionar. Para que
ele reparasse em mim.
Nas
aulas, o Diogo empregava a fundo a sua inteligência e a sua invejável cultura,
aquecia os nossos cérebros como uma chama viva. Punha-nos a pensar e a debater
as questões nos seus diferentes prismas. Como professor, era equivalente à água
que dão as fontes, ou às próprias fontes que dão água.
Às
segundas-feiras, entre as 8h e as 11h, com um intervalo de vinte minutos, o
Diogo ensinou-me mais do que qualquer biblioteca (dir-me-ão que exagero,
talvez, mas pouco importa).
Ensinou-me
a importância da crítica e da oposição, a pôr em causa a aparente transparência
da realidade social. Ensinou-me a aproximar o discurso sociológico do
histórico, a possibilidade de multiplicar as linhas narrativas com que se faz a
História e a Sociologia, procurando as ligações entre as estruturas sociais e
as estruturas mentais, nomeadamente recorrendo ao método biográfico, mas
não só.
Ensinou-me
o poder transformador do conhecimento, como ele nos pode modificar e como nós o
podemos mudar, e que mais importante do que o conhecimento é o que se pode
fazer com ele. Ensinou-me que não podemos manter as nossas impressões e
opiniões quando os factos e os documentos as contradizem.
Em
tudo isso, e muito mais, o Diogo levava à prática o hábito salutar de nos
ensinar a duvidar daquilo que ele próprio ensinava. Por mais cortantes que
fossem as nossas ideias, o Diogo acolhia-as com regozijo. Valorizava o espírito
de contradição, a independência de juízo próprio, a nossa autorrealização
intelectual. Procurava sempre dotar-nos de competências críticas, mais do que
agradar ou ser um professor popular.
O
Diogo amava a crítica e a crítica era a sua manifestação natural. Gostava de
observar atitudes opostas, senão mesmo provocá-las. Sabia que é a crítica que
destrói a tendência das nossas ideias para se reificarem,
coisificarem, cristalizarem.
Depois
de passarmos pelas suas aulas, nunca mais se olhava para as coisas da mesma
maneira. Saía-se fascinado por perceber que o conhecimento pode afectar-nos
tanto, conter tantas coisas, alterar tanto a nossa maneira de pensar.
Ainda
que não o soubesse, o meu futuro começou ali, nas aulas do Diogo. Depois de ter
sido seu aluno, procurei muitas vezes a sua companhia. Tentava encontrá-lo
quando sabia que ele poderia andar por perto, queria estar nos sítios que ele
frequentava, no Bar Artis (do Mário Pilar e da Paula, onde conheci a muito
querida Né Parada Ramos, o Carlos Severo, o Orestes, o Luís Paulo, a Luísa
Robot, o Nuno Antunes, e tantos outros) ou no Targus (do Hernâni Miguel),
sobretudo estes, mas também no Frágil ou nos Três Pastorinhos. Quando o via no
Bairro Alto, seguia-o à distância. Queria fazer parte da sua vida. Ser como
ele. Crescer com ele.
Dez
anos depois, tinha eu 28 anos, no final do meu mestrado em Economia e
Sociologia História, orientado por ele, desafiou-me para o substituir na
Faculdade, durante o período em que ele estaria nos Estados Unidos, na
Universidade de Brown (em Providence), como professor convidado. Tornei-me seu
assistente na mesma disciplina em que o conheci, História do Pensamento Social,
continuando sempre a ensinar-me nas minhas primeiras investigações académicas.
Os minutos, horas, dias, semanas, meses, anos que se seguiram foram tempos de
enriquecimento intelectual e afectivo.
O
Diogo era uma enorme massa de vida inteligente. Um agente de transmissão de
conhecimentos e erudição ampla e firme. Era o intelectual na plena força do
pensamento crítico. Era-o até aos ossos, até à essência do seu ser. Poucos o
igualavam em estudo, ironia e sarcasmo (como ele, lembro-me apenas do António
Araújo e do José Lima).
Durante
35 anos, desenvolvemos uma amizade estreita e consistente. Estabelecemos uma
espécie de comunhão espiritual, feita de muitos e bons convívios. Convívios
também, por vezes, instáveis e voláteis, altamente combustíveis.
Com
o Diogo era possível salvaguardar a amizade quando as nossas opções e escolhas
de trabalho não coincidiam com as dele. Se era capaz de ser um crítico
implacável, também de se transformar, rapidamente, num amigo verdadeiro
daqueles que criticava.
Dispunha
de uma excepcional faculdade para inventar analogias e era um contador de
histórias nato. Todos os fragmentos da experiência quotidiana estavam apenas à
espera de que ele lhes desse forma e sentido, para depois os costurar numa
narrativa significativa e divertida. Cruzando conhecimentos que vinham dos
livros com conhecimentos que não tinham vindo dos livros.
Em
muitas coisas éramos irreconciliáveis. Zangámo-nos algumas vezes. Gozámos um
com o outro. Discordámos e provocámo-nos mutuamente, amuámos. Mas, no fim do
dia, íamos sempre ter a uma mesa de café para preservarmos e renovarmos a nossa
amizade. O Diogo conseguia ser imensamente terno, de uma ternura e inocência
que me deixavam quase sem palavras.
Homem
de intuições certas, mas também, por vezes, de acções erradas, o Diogo sofria
as suas próprias ambivalências. Apanhado pelas convenções da sua geração, nem
sempre conseguia livrar-se delas completamente.
Não
escondia os seus defeitos, rugosidades, deficiências. Tão-pouco fugia à
autocrítica, enunciando um discurso explícito de questionamento de
si próprio.
O
Diogo era disciplinado, mas nunca satisfeito. Era comunicativo e carismático.
Adulto e infantil. Terno e rude. Duro e afável. Generoso e franco. Tudo isso ao
mesmo tempo, conseguindo passar com grande rapidez de um estado a outro.
Da
energia que espalhava à minha volta tirei eu a força que muitas vezes não
conseguia ter. Passava-me roupa quando já não lhe servia, como um irmão mais
velho (que de facto era e sempre foi). Fazia os possíveis e os impossíveis para
me ajudar, arranjando-me pequenos trabalhos para conseguir encher o frigorífico
e continuar a escrever como exercício de liberdade e de libertação. Junto do
seu braço sólido, sentia menos medo.
Todos
os dias, todas as tardes de todos os anos, partilhámos momentos inesquecíveis,
situados numa outra parte do tempo. As festas de final de ano na sua
propriedade de Vale da Pinta (Cartaxo), o amor que o Diogo tinha a essa casa,
em tempos uma enorme adega, transformada num espaço para todos. As horas de
Verão a caiar as paredes da quinta, ele com um lenço na cabeça com nós nas
quatro pontas, por causa do sol, mas também para se rir de si próprio. Os
momentos de repouso nos sofás do seu apartamento em Lisboa, no Campo de Santa
Clara, a folhear livros antigos, depois dos almoços de sábado, com a boa comida
que o Diogo sabia cozinhar e proporcionar aos amigos, juntando-os à sua volta.
E como eram agradáveis os dias bem passados a deambular juntos
pelos alfarrabistas…
O
Diogo fazia parte de muitas vidas e, de certo modo, é consolador verificar que
tanta gente foi tocada pelo Diogo. Ver tantas pessoas, entre amigos e
conhecidos, colegas da Academia, do Colégio Militar, do Rugby, ex-alunos de
muitas gerações diferentes, precipitando-se ao encontro uns dos outros, para se
apoiarem mutuamente.
Não
voltar a ver o Diogo, nunca mais, na Biblioteca Nacional ou na Feira da Ladra,
não voltar a ouvir diariamente o toque do telefone e ver o nome dele no ecrã
(ele telefonando-me ou eu telefonando-lhe), nunca mais reparar no velho carro
dele no parque de estacionamento da Biblioteca Nacional (sinal de que já tinha
chegado) e não voltar a esperar por ele na mesa do bar (para deitarmos conversa
fora e saber novidades um do outro, antes de começarmos o trabalho de todos os
dias). Nada disso, nunca mais, vai repetir-se durante o resto da
minha vida.
Na
Biblioteca Nacional, depois da nomeação da actual ministra da Cultura, o Diogo
dizia-se ignorado e aviltado. As queixas que lhe ouvia na intimidade, a
ansiedade que sentia pela forma como era destratado por uma personagem
sinistra, que ele próprio escolhera, a quem não se encontram senão intrigas e
pequenezes. Anões insuflados de um suposto poder, desprezando um gigante como o
Diogo. Mas este é o nosso tempo, esta é a gente que manda no nosso país.
E,
no entanto, ninguém corporizou a ideia de uma Biblioteca Nacional, democrática
e aberta a todos, como o Diogo. A Biblioteca Nacional será sempre como se o
Diogo continuasse ali, naqueles corredores e naquele lugar (o Q9) que era quase
sempre o dele.
Custa-me
muito. Custa-me muito imaginar a minha vida sem a presença do Diogo, e a vida
em geral sem ele. Viver é assistir à morte a fazer círculos concêntricos à
nossa volta, cada vez mais estreitos, até chegar a nós. Hoje, com 54 anos, isso
tornou-se ainda mais claro.
O
Diogo faz parte da minha geografia íntima. O meu mundo era mais feliz e
divertido com o Diogo. Mas o Diogo deixou-nos. Desvaneceu-se precipitadamente.
A sua morte súbita significa que a minha vida se alterou drasticamente. Que os
meses que aí vêm serão tempos de um poderoso e profundo trabalho de
reconstrução interior.
Mais
realidade que a da morte é impossível. A rotação imperturbável da morte, a
indiferença do universo e da natureza pela nossa dor, a insignificância da
nossa escala, a miragem da duração para lá da qual se ergue o vazio.
Nunca
mais serei o mesmo. Nunca mais me sentirei completo. Perdi o meu amigo e o meu
irmão mais velho e nada nem ninguém vai substituí-lo. É preciso repetir isto
muitas vezes. Agora, mais do que nunca.
João
Pedro George
sexta-feira, 17 de abril de 2026
São Cristóvão pela Europa (352).
Entre
2 e 4 de Abril percorri as províncias espanholas de Salamanca e Zamora.
Infelizmente, encontrei muitas igrejas fechadas mesmo em tempo de Semana Santa.
Ciudad
Rodrigo, a 30 quilómetros da fronteira, sempre foi uma das praças fortes que
defendiam a Espanha de incursões dos seus vizinhos ocidentais. Nas guerras
peninsulares do início do Século XIX aqui se travaram importantes batalhas,
algumas com incidência em Portugal como a que ocorreu no início da Terceira
Invasão Francesa, atrasada em consequência da resistência da cidade.
A
Igreja de São Cristóvão, muito antiga, mas reconstruída no Século XVIII, possui
uma imagem barroca do nosso Santo em madeira policromada da época da
reconstrução, integrada num altar-mor bem mais recente, já do Século XX. Tem
uma originalidade: o Menino Jesus está ás cavalitas quando normalmente se apoia
apena num dos ombros do Santo.
Nos arredores de Salamanca, a Igreja da Exaltação da Santa Cruz em Palencia de Negrilla é de origem românica e do Século XII. Foi reformada no Século XV sendo dessa época um belo portal de estilo gótico hispano-flamenco.
Notável é o retábulo do altar-mor, uma obra datada de 1599, que inclui uma imagem de São Cristóvão.
Fotografias de 2 de Abril de 2026
José Liberato
domingo, 12 de abril de 2026
Diogo Ramada Curto, um amigo.
Durante
anos, anos a fio, quem entrasse na sala de leitura da Biblioteca Nacional
encontraria sempre, todos os dias – e sempre no mesmo lugar –, uma figura
corpulenta e maciça, debruçada sobre um mar de livros. Foi isso, o estudo sério
e uma formidável capacidade de trabalho, associados a uma espantosa curiosidade
intelectual, que permitiu que Diogo Ramada Curto se tornasse um dos
historiadores mais completos da sua geração, cujo leque de interesses ia do
livro antigo à arte contemporânea, passando pela história política, social e
cultural de todas as épocas e de vários lugares: Europa, Brasil, África.
Diogo
Ramada Curto foi um dos últimos grandes eruditos, um homem dos livros e dos
papéis, autor de muitas dezenas de livros e artigos científicos marcantes, mas
também um intelectual público capaz de intervenções contundentes, sobretudo
independentes.
Espírito
livre e desalinhado de tribos e de côteries, tinha uma enorme exigência
intelectual, sobretudo para consigo mesmo, e cultivava algumas devoções, com
Vitorino Magalhães Godinho à cabeça, e outras tantas embirrações, cujos nomes
me abstenho de enunciar nesta hora. Criticou sem piedade, às vezes com excesso
no verbo, as misérias do nosso meio intelectual e académico e pensou o país sem
ficar aprisionado nele, pois, além de uma cultura humanística vastíssima,
possuía uma visão cosmopolita e aberta da realidade, já que teve uma carreira
marcada por prolongadas estadias em Florença, em Paris ou na Universidade de
Brown.
Na
Universidade Nova de Lisboa, foi professor de gerações sobre gerações e muitos
lhe devem muito nas suas carreiras académicas.
Por
fim, mas não por último, revelou um dinamismo extraordinário na direcção da
Biblioteca Nacional de Portugal, patente, entre outros feitos, nas dezenas de
obras que lançou no seu breve mandato, muitas delas já concluídas, outras ainda
em curso – e que para sempre ficarão como seu legado e testemunho. Destaca-se,
neste plano, a conversão da Biblioteca em espaço de trabalho para estudantes
universitários, na belíssima Sala Azul, que doravante bem mereceria ostentar o
seu nome.
Quanto
a mim, apenas uma gota de água num oceano imenso de amigos de todas as idades,
classes e quadrantes, feitos no Colégio Militar e no râguebi, nas noites do
Bairro Alto, nos corredores das universidades, nos jantarinhos da Lisboa-elite,
recordarei para sempre as conversas maledicentes e bem-humoradas dos sábados de
manhã, na esplanada do Clara Clara, após uma jornada de caça bibliófila, ou os
cafés e os almoços às mesas daBN, servidos pelo senhor Paulo ou pela São, e na
companhia do João Pedro George, que hoje estão destroçados. Como nós
todos.
António
Araújo
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Quando o areal de Monte Gordo é história regional com tracejado universal.
Os Filhos de Monte Gordo, por José
Carlos Barros, edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2025, é uma
monografia de um território e daas suas gentes, iremos acompanhar a sua
transformação de povoado piscatório em estância balnear, demarcar-se-ão zonas
de habitação, veremos evoluir a zona central destinada a turistas de várias
posses, e os pescadores empurrados para uma periferia de casas de adobe e
cabanas de colmo – enfim, uma marginalização económica e social que não se
confinou a toda a orla algarvia, foi sentença que modelou o Portugal
assimétrico em que vivemos.
É uma monografia de leitura
absorvente, uma escrita quase encantatória, um bom desenho histórico da região
e momentos há em que o escritor não esconde o seu talento ao sabor da descrição
de valor manográfico, assim:
“Fernando Leonardo sabe o que é pescar
nesses tempos de miséria em que as crianças fugiam da escola para esperarem os
barcos e comerem os restos do que os pescadores cozinhavam no mar, uma sopa, um
guisado, o peixe acabado de escamar. Cozinhavam num tacho de alumínio, num
fogareiro à popa do barco, onde não chegava água, aí se guardava também o pão,
o sal, o azeite. As lanchas eram de vela latina, pescava-se das cinco da manhã
às três da tarde. Não é como agora, dois homens é o suficiente, às vezes um, nesse
tempo eram companhas de cinco ou seis homens, quatro ou cinco no mínimo, quatro
aos remos, um ao leme, tudo à força dos braços, sem avisos meteorológicos, sem
GPS nem sombras, sem guinchos de alar, vinha um temporal e perdiam-se as redes,
em havendo nortada não se rompiam avante, içava-se a vela, metia-se um ou dois
riços e ia-se bordejando, bordo de mar, bordo de terra, a direito, ia-se à
Praia Verde ou Cacela, bordo da terra para lá, bordo de mar para cá, tudo à
força de braços, eram outros tempos.”
Estamos no preciso local que é palco
monográfico, antes de haver o Hotel Vasco da Gama, já houvera balbucio de
vilegiaturas, a Ourela e o Sertão, tempos de famílias numerosas, aquela aldeia
de pescadores sem história antes e depois do terramoto, em que o senhor Marquês
de Pombal sonhou com uma povoação que não teve futuro, assim chegamos à
confluência entre a pesca e os bens de mar. Iremos saber quem a partir dos
finais do século XIX ali vem para as práticas balneares, aparece casario, ali
perto em Vila Real de Santo António, há pesca industrial e fábricas de
conservas de peixe, a paisagem urbana vai mudando. O autor lembra-nos os
efeitos da crise de 1929, devastadores na economia do Algarve, crise de pesca e
das conservas, situação crítica da exportação de amêndoa e figo, o desemprego
atingiu níveis assustadores, há fome nos lares operários e de pescadores. E
dá-nos também o retrato do desenvolvimento do extremo Sotavento.
E assim chegamos à vocação turística
de Monte Gordo, às grandes mudanças da década de 1960, os jovens sonham em
fugir ao destino dos bisavós, dos avós, do pai. Em 1956 contruíra-se o parque
de campismo, em 1960 o Hotel Vasco da Gama e o Hotel dos Navegadores no ano
seguinte, seguem-se outros empreendimentos. Temos aqui mais um texto em que o
escritor desafia o investigador:
“Franzino, temeroso do mar, sem
vocação para a pesca, seduzido por este mundo de turistas que chegam e partem,
por uma espécie de música de fundo que se ouve em permanência e que chega de
espaços indefinidos, pela luz dos lóbis entrevistos à distância por detrás de
vidros amplos, João desafia um primo e rumam ao Hotel dos Navegadores, ele com
doze anos acabados de fazer, o primo ainda mais novo, parecem adultos a
desafiar o destino, a assobiar ao futuro. Conheciam as regras: não se dirigiram
à receção, e aí ninguém do Sertão teria serventia, foram diretos às traseiras,
à porta de serviço, João à frente do primo, corajoso e trinca-espinhas, criança
a mexer nas cartas de rumos, a dirigir-se ao porteiro de turno, a perguntar se
não havia trabalho.”
Mergulhamos depois do Sertão, aqui a
vida mexe, multiplicam-se as edificações clandestinas, Monte Gordo tem duas
modestas pensões e parque de campismo, isto nas décadas de 1940 e 1950, depois
vem a grande viragem e José Carlos Barros faz um enquadramento histórico desta
região, um rincão do Sotavento que vem desde a Idade Média, que tem um ponto
alto na Restauração, segue-se um período de declínio, tudo nos é explicado em
linguagem luminosa, esclarecedora, tão esclarecedora que se percebe à légua a
história das pilhagens das nossas águas os nossos irmãos espanhóis.
É inevitável, tem de se abordar a
indústria conserveira e o seu operariado, e depois o relato histórico volta a
ser sobrepujado pelo gosto da boa literatura, veja-se um exemplo:
“As xávegas, ou a arte da Barca,
fizeram a fortuna de Monte Gordo na segunda metade do século XVIII, havia então
mais de 3 mil homens diretamente envolvidos na pesca com xávegas, e foram
responsáveis pelo aumento populacional do aglomerado ao longo do século XIX. O
seu declínio, no entanto, começaria ainda nas décadas de 1880 e 1890, com a
concorrência de artes mais modernas e produtivas, como os cercos americanos e
os galeões a vapor e, mais tarde, as traineiras. Ainda que se tivessem mantido
ao longo do tempo, e em determinados períodos com algum significado, na década
de 1960 já só ocasionalmente faziam os seus lanços.” E, mais adiante: “A partir
de finais da década de 1960, com o turismo a valorizar o pescado, com a
motorização e a mecanização das embarcações a possibilitarem um maior raio de
ação, maior regularidade das saídas e companhas menos numerosas, os marítimos
de Monte Gordo regressam aos tresmalhos.”
Sim, tudo mudou, o turismo reina
impante, o Sertão acabou e há uma simbólica da devoção que marca o termo desta
magnífica monografia, tem a ver com a imagem de Nossa Senhora das Dores, estava
prantada numa Igreja que sofreu calamidades, quando se procedeu à reconstrução
a imagem foi trasladada para Vila de Santo António. Afinal, o património
imaterial pesa que se farta, os pescadores que nasceram e viveram no Sertão não
serão conhecidos por um particular apego à frequência da Igreja. Contudo:
“É ver a devoção com que, uma vez por
ano, todos os anos, fazendo o próprio rol dos homens a quem é concedida a honra
maior de levar o andor, seguem em procissão, todos marítimos, tudo gente do
mar, o mais velho ao comando, com a vara das ordens, metálica, a orientar as
pausas, os recomeços, o baixar, o erguer de novo, o virar ao mar, aos barcos de
buzinas ruidosas, enfeitados com bandeirinhas e papéis crepe, é ver a devoção e
o dramatismo triunfal com que se aproximam de novo da Igreja, no regresso, mais
de vinte homens com as suas varas de apoio, a passada ensaiada ao ritmo da
filarmónica, os movimentos em forma de pendulo a fazerem oscilar o andor, a
Santa virada de costas para a entrada do templo, o adro cheio dos fiéis, dos
peregrinos, e então a bênção, um lençol de lágrimas, três vivas à Senhora das
Dores.” São assim os filhos de Monte Gordo.
Se um bom romance é uma história bem contada, que dizer da virtuosidade de uma monografia que nos cativa do princípio ao fim?
Mário Beja Santos
segunda-feira, 30 de março de 2026
São Cristóvão pela Europa (351).
Surpreendentemente,
e graças aos amigos do Malomil que felizmente me dão muitas sugestões encontrei
mais dois São Cristóvãos nada mais nada menos do que em Lisboa.
O
primeiro encontra-se no Museu da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva.
Trata-se
de uma pequena (21 centímetros) aguarela representando o nosso Santo com a
inscrição S. Christophorus, M, ou seja, São Cristóvão, Mártir. Decora o
chamado Quarto D, Maria I. Desconhece-se quase tudo sobre o pequeno quadro a
não ser uma inscrição feita na parte de trás:
Este
quadro servia (?) à Exma. e Rema. Sra. Madre Antónia Margarida Peres, Religiosa
da Visitação de Santa Maria de Lisboa em 12 Novembro de 1873.
O recheio do Convento de Nossa Senhora da Visitação em Lisboa foi objecto de um leilão em 1914 devendo esta peça ser dele proveniente.
No
centro do Paço do Lumiar em Lisboa, uma pequena igreja é dedicada a São
Sebastião. Construída no início do Século XVI, sofreu diversas remodelações ao
longo da História. Ostenta um portal manuelino.
Ainda
há pouco tempo, a igreja encontrava-se rodeada por todos os lados por faixas de
rodagem.
No
interior, um magnífico painel seiscentista de azulejos polícromos representa
São Cristóvão. As cores são o azul, o manganês, o ocre e o verde. O painel é
rico em paisagens.
Fotografias de 20 de Fevereiro e 29 de Março de 2026
José Liberato








































