quinta-feira, 23 de maio de 2024

Argélia: o tempo da fraternidade? (24).


 

São inúmeros os monumentos notáveis da cidade de Tlemcen.

Destaco apenas o Palácio El Mechouar, a Mesquita Sidi Boumedienne e a Fortaleza de Mansourah.

O Palácio El Mechouar foi edificado originalmente em 1145, destinado à residência dos governadores almorávidas e depois almóadas. Os sultões zianidas transformaram-no em Palácio Real.

 





  

A mesquita Sidi Boumedienne homenageia um grande iniciado do sufismo nascido em Sevilha em 1126 e é objecto de numerosas peregrinações. Aí se encontra o seu túmulo.

 




Finalmente a fortaleza Mansourah do Século XIII, uma cidade posteriormente abandonada onde avulta a ruína do minarete da mesquita:

 





 

 

 


A finalizar duas reflexões ainda.

A primeira é o profundo impacto que a colonização francesa tem ainda em França e na própria Argélia.

Os retornados da Argélia são conhecidos em França como os pieds noirs (pés negros). Existem várias teorias para a origem desta expressão, mas nenhuma se impõe. Curiosamente, e ao contrário do que eu pensava, não se trata de um termo pejorativo. Existem mesmo associações de antigos residentes da Argélia que autodefinem como pieds noirs.

A segunda é sobre a evolução geoestratégica na África subsariana. Em vários países da CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África do Oeste) têm ocorrido golpes de Estado militares como uma consequência muito evidente: a substituição da presença de forças armadas dos antigos países colonizadores pela dos novos países colonizadores, em especial a Rússia.

A Argélia que ambiciona muito aceder ao Grupo dos BRICS, mantem uma política externa equívoca que lhe permita manter um equilíbrio entre a relação com a Europa e com aqueles países de África, nomeadamente o Níger.

Assunto a seguir com atenção.

Assim termino esta digressão pela realidade argelina. Espero que os leitores tenham encontrado motivos de interesse nestas crónicas.

 

                                        Fotografias de 23 de Outubro de 2023

                                                                            José Liberato


quinta-feira, 16 de maio de 2024

Argélia: tempo da fraternidade? (23).

 

 

 

Tlemcen fica a 60 quilómetros da fronteira com Marrocos e a mais de 500 de Argel.

Considerada a capital da arte andaluz da Argélia. Desempenhou um papel crucial na invasão islâmica da Península Ibérica. Tárique esteve por aqui, antes da invasão em 711. Foi a segunda cidade da dinastia Almorávida no Século XI. A dinastia Almóada construiu as muralhas da cidade no século seguinte.

No refluxo, na sequência da Reconquista, muitos dos foragidos da península concentraram-se em Tlemcen.

A vista do Promontório de Lalla Setiti é impressionante:

 


A praça emir Abdlekader e a Grande Mesquita Almoravida

 

 

No coração da cidade o mercado e as suas ruas. Um marabout ou marabuto (professor muçulmano e líder religioso) deixa-se fotografar com gosto:

 



 

As muralhas dos Almóadas:

 


E finalmente um contacto com a música e a poesia soufi ou sufista com o seu misticismo e esoterismo e os seus trajes tradicionais

 



 


                                        Fotografias de 22 de Outubro de 2023

                                                                              José  Liberato

 

No tempo em que se acreditava nas raças superiores e inferiores…







 


 

Quando o livro As Raças Humanas, de Louis Figuier, foi editado em Lisboa, em 1881, já tinha conhecido quatro edições em França. É obra profusamente ilustrada, com elevada qualidade gráfica, o tema das raças estava no auge, as doutrinas evolucionistas, o pensamento filosófico positivista, os ideais republicanos laicos tinham entrado em colisão, daí a pergunta o que é o homem, de onde vem, se tinha ou não o papel de centro único da criação, como se tinham processado ao longo da História as migrações dos povos, etc. Figuier concluirá que a ciência não pode explicar a diferença existente entre os principais tipos da espécie humana, dirá mesmo que os homens são todos irmãos pelo sangue, que as diferentes raças eram derivadas de uma espécie única pelas modificações que o clima imprimiu no tipo positivo, competia à antropologia classificar as raças e Figuier acha que tal classificação se baseia na cor da pele, é uma apreciação de um valor secundário mas com ele pode formar-se um quadro exato e metódico dos povos habitantes da Terra. E dá um sentido à sua análise com apreciações que são hoje completamente dadas como erróneas: as medidas antropométricas constituíam a chave esclarecedora para distinguir o que essencialmente diferencia a raça branca da raça amarela, a raça amarela da raça parda, a raça parda da raça vermelha e a raça vermelha da raça negra.

E vamos viajar a partir da raça branca, um tal ramo europeu onde destacam as famílias teutónica, latina, eslava (do Norte do Sul), fino-húngara, grega; passa-se para o ramo aramaico e o leitor permitir-me-á que avance para a raça negra. Escreve Figuier: “A raça negra distingue-se pelos seus cabelos pouco compridos e lanosos, pelo nariz achatado, pela maxila saliente, pelos lábios grossos, pelas pernas arqueadas, pela cor preta ou cinzenta carregada. Estes povos vivem nas regiões centrais e meridionais da África, nas partes meridionais da Ásia e da Oceânia.

Os habitantes da Guiné e do Congo são muito pretos, mas os Cafres são apenas cinzentos-escuros e parecem-se com os Abissínios. Os Hotentotes e os Bosquímanos são amarelados comos os chineses, posto que tenham as feições e a fisionomia dos negros.” Figuier enuncia os Cafres e os Hotentotes e assim chegamos aos negros:

“Os negros ocupam uma grande parte da África Central e Meridional, a Senegâmbia, a Guiné, uma parte do Sudão Ocidental, a Costa do Congo, assim como a extensa região que ainda há pouco quase completamente desconhecida entre a Costa do Congo a Oeste e a Este da Costa de Moçambique e do Zanzibar, são os lugares habitados pelos negros propriamente ditos.

A Guiné e o Congo são as terras clássicas dos negros. É ali que vivem os representantes desta raça com as feições mais características e repelentes. Julga-se que a invasão na África dos povos asiáticos e europeus, tendo-se sempre feitos pelo istmo do Suez e pelo Mar Vermelho, os negros foram empurrados para o Oeste do continente africano. Os habitantes da Guiné e do Congo serão, pois, os descendentes e os representantes contemporâneos dos negros primitivos.

(…) A fisionomia do negro é de tal modo característica que é impossível o não reconhecer à primeira vista, mesmo quando o indivíduo tivesse a pele branca. Os seus lábios proeminentes, a fronte curta, os dedos salientes, os cabelos lanosos, a pouca barba, o nariz largo e achatado, o queixo retraído, os olhos redondos dão-lhe um aspeto particular entre todas as demais raças humanas. Muitos têm as pernas arqueadas, quase todos pouca barriga de perna, os joelhos flexionados, o corpo inclinado e o andar preguiçoso. Podemos acrescentar que nesta raça o tronco tem menos largura que nas outras raças, que os braços são proporcionalmente um pouco mais compridos, que as pernas têm uma curvatura assaz sensível e que a barriga das pernas é um pouco achatada. A cavidade óssea da bacia é muito mais estreita no negro do que no europeu, mas é mais larga no sentido do osso sacro, o que torna para as negras fáceis os partos. Segundo medidas exatas, a bacia superior é 1/4 mais larga no europeu do que no negro. Também as coxas dos negros diferem das dos brancos: no primeiro são sensivelmente achatadas. O pé participa desta fieldade das formas. O vício de conformação que entre nós isenta do serviço militar, o pé chato, não só para o negro não é uma deformação, mas é também um caráter constante.

(…) A cor da pele tira à fisionomia do negro toda a beleza. O que dá graça à cara do europeu é cada parte do rosto ter o seu colorido próprio. As maçãs do rosto, o nariz, a fronte, o queixo, têm, no branco, tons particulares. Na fisionomia do negro tudo é negro. As sobrancelhas, negras como o rosto, perdem-se na cor geral. Apenas há um tom diferente na linha de contacto dos lábios. A pele dos negros é muito porosa e tanto que os poros se apresentam de modo visível. Nem todos os negros têm a pele dura, pelo contrário, pelo contrário, alguns têm-na macia e acetinada. O que há de desagradável na pele do negro é o cheiro nauseabundo que exala suando. Estas emanações são tão difíceis de suportar como as que são exaladas de certos animais.

A natureza apropria o negro às regiões em que vive. Em geral, o seu temperamento é linfático. O seu andar vagaroso, a sua preguiça invencível, impacientam o europeu, que não pode compreender tanta indolência. Os negros são menos sensíveis que os europeus à influência de excitantes. A aguardente, a mais forte, o rum, a pimenta, os mais irritantes condimentos francamente excitam a inércia do seu palato.”

Chegámos agora à contundente questão da inteligência e da inferioridade racial. Socorrendo-se de argumentos antropomórficos hoje dados como anacrónicos, Figuier refere o ângulo facial, a fronte muito inclinada para trás, as maxilas muito proeminentes e classifica: “Aproximava-se do macaco, cujo ângulo facial, nos macacos antropomorfos, tais como o orangotango e o gorila, é de 50º. Esta fraqueza relativa de inteligência que nos é revelada pela pequenez do ângulo facial dos negros vai ser confirmada por nós, examinando-lhe o cérebro. (…) A inferioridade intelectual do negro é evidente na sua fisionomia sem expressão nem mobilidade. O negro é uma criança e como uma criança é impressionável, inquieto, sensível ao bom tratamento suscetível de dedicações, mas, em certos casos, sabendo também odiar e vingar-se. Os povos da raça negra que existem no interior de África, os estados de liberdade mostram-nos pelos seus hábitos e pelo estado do seu espírito que não podem passar de além da vida de tribo. Além disso, em muitas colónias custa tanto tirar bom resultado da educação dos negros, a tutela dos europeus é-lhe de tal modo indispensável para lhe manter os benefícios da civilização, que a inferioridade da sua inteligência, comparada com a do resto da humanidade, é um facto incontestável.”

Instituiu-se assim a inferioridade do negro, a plena dependência do civilizado, a fatalidade da sua anatomia, a sua indolência masculina pondo a mulher a trabalhar como escrava, as suas crendices em divindade secundárias, a crença no poder do acaso. E, de repente, Figuier descobre que os negros possuem muitas vezes uma extraordinária memória, uma extrema facilidade para aprender as línguas, o seu enorme talento nas imitações. Os negros, enfatiza Figuier, são rebeldes às artes plásticas, mas são muito sensíveis à música e à poesia. E conclui dizendo que a família negra tem menos inteligência que qualquer outra família humana e que é preciso dar muito tempo aos negros libertos para viverem numa igualdade com outras raças.

Era esta a doutrina que alimentava o pensamento colonialista e que efetivamente só se começou a desmoronar no fim da Segunda Guerra Mundial. O racismo mudou de figura, está associado a uma religião eleita, a certos fundamentalismos monoteístas, à emergência do nacionalismo de base racial e ao terror das migrações que assolam a Europa e a América do Norte; mas não sejamos ingénuos, os chineses não querem contaminações com outros grupos populacionais… O racismo diminuiu, tem uma face muito obscura, mas está muito longe de se ter extinguido.

 

                                                                    Mário Beja Santos

 


segunda-feira, 13 de maio de 2024

Carta de Bruxelas - 13.

 


 

 

                                                                              Chapéus há muitos

 


Já eram bastantes. Havia o idiota desinformado, que aprecia lenços, cerveja, convívio e um protestozinho contra qualquer coisa que imagina vagamente ser o sistema. Julga-se de esquerda. Havia o engagé, que milita e milita e continuará a militar. Por isso já foi militante, hoje é activista. Sempre de esquerda, sempre de boa consciência moral, sempre atrás do progresso. E lá vai ele pela arreata da História. Na versão sonsa, emite uns sim, mas; por um lado, por outro lado; compreende as duas partes, mas dá razão sempre à mesma. Uma espécie de quod erat demonstrandum, envergonhadito -- na melhor das hipóteses. Havia o repugnante, costuma ser comunista, que toma partido assolapadamente, justifica todas as violências contra Israel e os israelitas com grande fausto de palavras e indignação -- depois janta bem e ceia melhor. Para compor o ramalhete anti-semita, faltava o maluquinho, de obediência neo-fascistóide. Agora já não falta.

 

                                                                        João Tiago Proença





Argélia: o tempo da fraternidade? (22).

 

 

 

A cidade antiga de Oran mostra-nos como a História deixou as suas marcas.

Ruas estreitas, velhos monumentos, um certo charme de decadência. E os gatos, como em todas as cidades argelinas…

 



A Porte du Santon, construida pelos espanhóis em 1754, a fim de controlar a entrada do porto:


A Catedral de São Luís de França, que já foi mesquita:

 



 

A mesquita Iman el-Houari foi mandada construir pelos otomanos. Na paisagem, impõe-se o seu minarete:

 

 

O velho Hospital Baudens. No romance A Peste de Albert Camus, o seu principal personagem, o médico Dr. Rieux, trabalhava aqui:

 


 

Um antigo cinema e um marco de correio:

 




                                            Fotografias de 22 de Outubro de 2023

                                                                             José Liberato

terça-feira, 7 de maio de 2024

São Cristóvão pela Europa (263).


 

 

Ao terminar a minha digressão de Março pela Alemanha passei por “pontos extremos” dos Estados da Baviera e de Hessen nas cercanias de Frankfurt.

Na Baviera, em Amorsbrunn existe uma capela construída junto a uma fonte cujas águas são consideradas miraculosas. Para a gota, para o s olhos, para a dor de dentes, mas sobretudo para a infertilidade.

A imperatriz Maria Teresa da Áustria não terá bebido a água, mas tendo feito um generoso donativo foi mãe de 16 filhos…

O culto existe neste local desde o Século VIII. Aqui se fizeram peregrinações, chamadas as feiras imperiais, até à extinção da monarquia em 1918.

No exterior um grande mural representando São Cristóvão pintado em 1535.

 


  

Belíssimo o altar gótico representando a Árvore de Jessé.

 


Finalmente em Gravenbruch (Estado de Hessen), a Igreja de São Cristóvão da autoria do arquitecto checo Helmut Bilek é considerada um exemplo da arquitectura alemã do pós-guerra.

Foi consagrada em 1967.

Na fachada, um mosaico de 1978 da autoria do padre católico polaco Claus Kilian (1928-2022). No interior uma estátua de madeira.

O logotipo da comunidade tem naturalmente a imagem do nosso Santo.

 




 

                                    Fotografias de 31 de Março de 2024

                                                                        José Liberato

 


Argélia: o tempo da fraternidade? (21)

 

 

A Basílica de Nossa Senhora da Salvação nas alturas da cidade de Oran, construída no período francês. Monsenhor Roncalli, Núncio em Paris e futuro Papa João XXIII colocou a primeira pedra em 1950.

A paisagem é deslumbrante.

 





Mais acima, o Forte de Santa Cruz.

O nome deriva de um dos governadores espanhóis, o Marquês de Santa Cruz. Foi construído a partir de 1577. É um grande exemplo da arquitectura militar espanhola.

Em 1505, os espanhóis tinham ocupado a cidade. Os portugueses também andaram por lá, mas não tiveram sucesso. D. João de Menezes, Conde de Tarouca investiu a cidade em 1501, mas foi repelido. Damião de Góis menciona os eventos na sua crónica de D. Manuel.

Para portugueses e espanhóis estava em causa o controlo dos piratas argelinos.

 




                             Fotografias de 22 de Outubro de 2023 

                                                            José Liberato