segunda-feira, 12 de abril de 2021

“NON SIBI SED PATRIAE” Príncipe Filipe, Duque de Edimburgo | 1921-2021





“That they may find true happiness together and be guided on the paths of duty and honour is the prayer of all.”

Sir Winston Churchill, Outubro de 1947




Na aldeia de Yaohnanen, situada na ilha de Tanna, em Vanuatu, a notícia da morte do Príncipe Filipe, Duque de Edimburgo, será sentida de forma especial. Ali, no mais remoto Pacífico, o Príncipe não era apenas o marido da Rainha de Inglaterra. Era, por direito próprio, venerado como um ser divino.

A tribo identificou Filipe de Edimburgo nos anos 50 como a figura de que falava uma antiga lenda, o filho de um espírito da montanha, que viajara pelos mares para casar com uma mulher poderosa. A criação deste pitoresco culto do Príncipe em Yaohnanen levou a uma relação simpática de Filipe de Edimburgo com os nativos, que perdurou no tempo.

Não é, contudo, apenas em Vanuatu que se lamenta a morte do ancião príncipe inglês, ou grego. Se ainda há poucos anos, o Príncipe Filipe era apresentado como a excepção a um suposto aforismo que nos dirá que toda a gente acaba por ser popular, se viver o tempo suficiente para isso, a sua morte no Castelo de Windsor a 9 de Abril de 2021, vem porventura provar que, mesmo inexistindo, o aforismo tem razão de ser.

Afastado dos holofotes desde há uns anos, a percepção pública do Duque de Edimburgo parece ter melhorado, porventura com a ajuda da dramatização televisiva, que permitiu conhecer outras facetas do marido da Rainha de Inglaterra, que não apenas as suas celebérrimas gaffes.

Filipe de Edimburgo morreu a dois meses do centenário do seu nascimento e exactamente 19 anos depois do funeral da sua sogra, a Rainha-Mãe Isabel. O contraste entre os dois consortes não podia ser maior. Isabel Bowes-Lyon (1900-2002), consorte de Jorge VI e mãe de Isabel II, era a guardiã da tradição, apreciava a popularidade que a acompanhara desde os anos da sua juventude, celebrou os seus aniversários com estrondo e até o seu funeral planeou com detalhe.

Filipe da Grécia e Dinamarca (1921-2021) – ou Mountbatten, como passou a ser desde 1947 –, pelo contrário, apresentou-se como o campeão da modernidade, aparentemente acomodado à discrição que o seu papel impunha e parece ter dado indicações estritas de que não queria demasiado barulho quando morresse. Terá chegado a dizer que não conseguia pensar em nada mais terrível do que fazer cem anos.

A relação entre genro e sogra foi, de resto, sempre especial e marcada pelas visões distintas da política e da Monarquia. A 3 de Dezembro de 1946, o então pretendente à mão da Princesa Isabel escrevia à futura sogra, pedindo-lhe desculpa pela “rather heated discussion” e que ela não o considerasse “violently argumentative and an exponent of socialism” (citado em Shawcross, William; Queen Elizabeth The Queen Mother – The Official Biography, p. 625).

Castiço e estóico, directo e não raro inconveniente, Filipe de Edimburgo bateu todos os recordes de longevidade como consorte de um soberano britânico, tal como o Primeiro-Ministro Boris Johnson fez questão de sublinhar na declaração ao País da passada sexta-feira. Num mundo mais atento aos recordes do que à substância dos mesmos, valerá a pena sublinhar a dedicação e o serviço aos britânicos e à Commonwealth nos seus 73 anos de casamento, 69 dos quais como consorte da Rainha.

Quando a sua urna for depositada na Capela de São Jorge, no Castelo de Windsor, estará coberta com o seu estandarte pessoal, testemunho da sua ilustre ascendência e da sua história como consorte.


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Em Outubro de 1947, na Câmara dos Comuns, foi debatida uma moção de congratulação ao jovem real que viria a casar na Abadia de Westminster no dia 20 de Novembro: Isabel, filha e herdeira do Rei Jorge VI, e Filipe, ex-Príncipe da Grécia e Dinamarca, então apenas Tenente Philip Mountbatten.

Sir Winston Churchill, então líder da oposição depois da surpreendente derrota nas eleições do pós-Guerra, formulava aos noivos os votos de dever e honra, além de felicidade. O casamento celebrou-se com uma pompa limitada mas que poderia ter parecido ofensiva, tendo em conta a miséria que a Guerra deixara aos londrinos. O antigo (e futuro) Primeiro-Ministro preferiu antever o casamento como “a flash of colour on the hard road we have to travel” e foi essa a sensação que predominou do casamento: a esperança num tempo melhor.

O debate que se seguiu à intervenção de Churchill evidenciou as tensões políticas próprias de um mundo em tumulto e as pressões que a futura Guerra Fria já fazia despertar, em que a Grécia, terra natal do noivo da Princesa, tinha então um papel central, com uma guerra civil sangrenta que decorria há vários anos e que opunha os comunistas apoiados por Tito e (pouco convictamente) por Estaline ao governo apoiado pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos.

Willie Gallacher, líder sindical escocês, fundador do Partido Comunista da Grã-Bretanha e deputado por West Fife, não perdeu a ocasião para um remoque sobre o governo ‘monárquico’ da Grécia natal do então ex-Príncipe. Segundo Gallacher, no dia do anúncio do noivado, “milhares de cidadãos gregos – comunistas, socialistas e sindicalistas – foram enviados para campos de concentração”.

Apesar de o Speaker da Câmara ter procurado afastar o assunto grego, Gallacher voltou à carga aludindo à “untuosa hipocrisia” com que os jornais tinham proclamado que como Philip Glucksburg (nome da dinastia grega) Filipe seria visto com suspeição, mas que como Philip Mountbatten seria recebido de braços abertos. Gallacher, que votou contra a moção, perderia o lugar na eleição seguinte, em 1950.

Nem o facto de Filipe ter servido na Royal Navy durante a Guerra parecia, pois, atenuar as preocupações que eram certamente partilhadas por outras pessoas, bem mais próximas da Princesa do que o comunista Gallacher. De facto, naquela época teria porventura sido mais bem aceite a opção da Princesa por um aristocrata inglês do que por um príncipe estrangeiro.

Filipe nasceu príncipe. Da Grécia, mas também da Dinamarca, embora neste caso de forma apenas honorífica. O seu avô, Guilherme, nascido príncipe da Dinamarca, fora escolhido com 17 anos para Rei da Grécia, em substituição de outro príncipe, bávaro esse, que reinara mas não agradara por 30 anos, até 1862. Com o novo nome de Jorge I da Grécia – ou dos Helenos, que é a designação correcta dos reis gregos desta dinastia – manteve a ligação à sua Dinamarca natal, conservando para os seus descendentes o título de Príncipe da Dinamarca.

O pai de Filipe, o Príncipe André, foi um dos 8 filhos do Rei Jorge I e da Rainha Olga, nascida Grã-Duquesa da Rússia e neta do Czar. A Família Real Grega foi especialmente afectada pelas guerras, não apenas as mundiais mas também as dos Balcãs, numa turbulenta sucessão de regicídios, exílios e reinados. No ano a seguir ao nascimento de Filipe, o seu pai foi responsabilizado por uma derrota militar e exilado. Foi a este legado e ao nome desta família paterna que Filipe renunciou no início de 1947, antes do anúncio do seu noivado com a filha do Rei de Inglaterra.


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Mountbatten era o apelido da família da mãe de Filipe. Ou melhor, a versão anglicizada do apelido Battenberg com que Alice nascera.

Os Battenberg eram um ramo morganático da Casa de Hesse-Darmstadt – ou seja, um ramo que resultou de um casamento que não cumpria os requisitos de igualdade de nascimento das leis da Casa. Simplificando, o ramo era o resultado de uma bonita história de amor entre uma jovem condessa, dama de companhia de uma Grã-Duquesa e futura Imperatriz da Rússia, por quem o Príncipe Alexandre de Hesse, irmão desta (e do Grão-Duque de Hesse), se perdeu de amores.

A Casa de Battenberg haveria de ser pródiga em excelentes casamentos com casas reais europeias, dando consortes a monarcas de Espanha, da Suécia e da Inglaterra. O seu nome esteve, além disso, perto de vingar como nome de uma nova dinastia inglesa.





Um dos filhos desse casamento morganático, o Príncipe Luís de Battenberg, naturalizado britânico e oficial da Royal Navy com uma carreira fulgurante, casaria com uma neta (e homónima) da Rainha Vitória. Com a eclosão da Grande Guerra em 1914, a família renunciou a todos os títulos alemães, o nome de família foi anglicizado e o Rei Jorge V conferiu títulos de nobreza britânicos para recompensar a lealdade. Berg, monte em alemão, passou a Mount, monte em inglês. E os Battenberg passaram a Mountbatten.

Luís e Vitória foram pais, nada menos, do que uma futura Princesa da Grécia (a mãe de Filipe), de uma futura Rainha da Suécia e de um futuro Vice-Rei da Índia, o célebre Lorde Mountbatten de Burma. A ligação de Lorde Mountbatten à Royal Navy terá sido providencial para assegurar não apenas a carreira naval do seu sobrinho Filipe, que cresceu em Inglaterra e na Escócia, longe da terra natal e da família paterna, mas também o seu futuro matrimonial.

William Shawcross, biógrafo oficial da Rainha-Mãe, sintetizou desta forma o papel de Mountbatten no romance: “A sua amizade foi promovida, por vezes de forma demasiado insistente, pelo tio de Filipe, Lorde Mountbatten, cujos entusiasmos sociais podiam interferir com o seu sentido de decoro” (op. cit., p. 624).

Quando, em Julho de 1947, o Rei Jorge VI anunciou o noivado da sua filha e herdeira, a Princesa Isabel, Lilibet na família, com o Tenente Filipe Mountbatten, já tinham ocorrido, por parte de Filipe, a renúncia aos títulos e direitos dinásticos gregos, a naturalização como cidadão britânico e ainda uma enorme operação de charme liderada por Lorde Mountbatten, ainda Vice-Rei da Índia em processo de independência em curso, para que a classe política não levantasse questões à sua escolha.

Na manhã do casamento e seguindo a tradição, o Rei Jorge VI conferiu ao (ainda futuro) genro os títulos de Duque de Edimburgo, Conde de Merioneth e Barão Greenwich. Na véspera tinha-lhe conferido o tratamento de Alteza Real, o mesmo a que Filipe renunciara meses antes, a exclusiva Ordem da Jarreteira. Consciente da sua generosidade pelos padrões britânicos, Jorge VI escreveu à sua mãe, a Rainha Maria (1867-1953), tentando justificar tamanha prodigalidade: “I know Philip understands his new responsibilities on his marriage to Lilibet” (citado em Shawcross, William, op. cit., p. 628).

Foi esse – Sua Alteza Real o Duque de Edimburgo – o tratamento e título que teve até 1957, quando regressou a Londres com a sua mulher, rainha há já 5 anos, da visita de Estado a Portugal.


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Com a subida da Princesa Isabel ao trono do Reino Unido, na sequência da morte do Rei a 6 de Fevereiro de 1952, voltou a haver uma rainha reinante, Isabel II, num reinado que se antevia longo por força da juventude da soberana.

O início do reinado ficou, contudo, marcado pela tensão a propósito do nome da dinastia. Ainda Isabel não reinava há um mês e em Londres circulava já que Lorde Mountbatten, ávido por ‘dourar’ o apelido da sua família, dizia já que desde 6 de Fevereiro a dinastia era a de Mountbatten.

A Rainha Maria, viúva de Jorge V (que dera o nome de Windsor à Casa Real em 1917), terá conspirado com a Rainha Mãe e o governo de Churchill em peso, para forçar a nova Rainha a manter o nome da Casa, preterindo a vontade e o nome do marido, ‘o único homem na Grã-Bretanha que não pode transmitir o apelido aos seus filhos’, como o próprio terá dito. A 11 de Abril de 1952, The London Gazette publicava a declaração feita pela Rainha de que a sua Casa e Família era a de Windsor e que esse seria o apelido dos seus descendentes.

Filipe nunca recebeu o título de Príncipe Consorte, usado antes pelo marido da Rainha Vitória, o Príncipe Alberto – embora conferido apenas em 1857, 17 anos depois do casamento. Agravando o contraste, a dinastia que sucedeu a Vitória recebeu o nome da família de Alberto, Saxe-Coburgo-Gotha, depois alterada para Windsor durante a Grande Guerra.

Ao contrário das consortes dos soberanos, o consorte da rainha não tem um papel especial na coroação. Não é coroado ao seu lado e o Duque de Edimburgo sentou-se com os restantes duques reais. Coube-lhe ser o primeiro a jurar fidelidade e beijar a face da sua soberana e mulher, em momento registado não apenas pelas câmaras mas também no belíssimo óleo de Sir Terence Cuneo que está na Colecção Real.

Deve-se ao Duque de Edimburgo um grande desenvolvimento da televisão nos seus alvores. A sua insistência na transmissão integral e em directo da cerimónia em 1953, que vingou apesar da resistência dos cortesãos, levou à aquisição em massa de aparelhos televisivos. Permitiram, além disso, o registo integral daquela que foi porventura a mais esplêndida cerimónia do século XX, irrepetível em muitos dos seus pormenores porque o mundo da próxima coroação é irremediavelmente diferente daquele que assistiu aos “vivas” a Isabel II na Abadia de Westminster.





Ao lado da Rainha, o marido adaptou-se ao seu papel, por definição secundário, tentando dar à Monarquia os toques de modernidade que apreciava. Fez dos seus interesses pessoais – as Forças Armadas, a Conservação da Natureza, a modernização industrial – o foco da sua acção e parece ter transmitido aos seus filhos, em particular ao filho mais velho, algumas das suas prioridades.

A Visita de Estado a Portugal em Fevereiro de 1957, retribuindo a visita do Presidente Craveiro Lopes a Londres dois anos antes, ficou no imaginário nacional luso pela pompa inédita mas foi também um momento importante para Isabel II e o Duque de Edimburgo.

A ausência do Duque numa viagem de vários meses a bordo do Iate Real tinha feito disparar alarmes sobre o real estado do casamento. A reunião deu-se em Lisboa. Imediatamente após o regresso a Londres, Isabel II conferiu ao marido o título e a dignidade de Príncipe do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, fazendo saber que passava a ser conhecido por Sua Alteza Real o Príncipe Filipe, Duque de Edimburgo, designação que usou até à sua morte.

Três anos depois, em 1960, a Rainha emendou a mão relativamente à declaração de 1952 sobre o nome da família, decidindo que se chamariam Mountbatten-Windsor todos os descendentes que não tenham tratamento de Alteza Real ou título real, perpetuando assim o nome adoptado pelo marido em 1947.

Filipe de Edimburgo regressaria a Portugal em 1973, para participar na comemoração dos 600 anos do Tratado de Londres, assinado em 1373 entre o Rei D. Fernando I e o Rei Eduardo III de Inglaterra. Américo Tomás e Marcello Caetano não pouparam nas celebrações, entre banquetes e espectáculos equestres. O Duque recebeu o Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique, até então apenas conferido a Chefes de Estado.

Ao emproado discurso do Presidente Américo Tomás no Palácio da Ajuda, Filipe de Edimburgo respondeu com um discurso algo desconcertante, com toques de humor, que o Arquivo RTP permite recordar na íntegra. Recordando que a maioria dos tratados é esquecido antes de a tinta secar, destacou a singular circunstância de se celebrar os 600 anos de um tratado de amizade que certamente nenhum dos presentes tinha lido:

When the relationship between states is based on political, strategic or even industrial considerations, it is liable to sudden and complete change. When the relationship depends upon the attitude of the people of one country to the people of another, when ways of life, cultures, senses of humour are admired and enjoyed, and when there is a sense of mutual trust, then it will not change, even during periods of strain. It is these factors which are at the base of real friendship between nations. The sort of friendship in which it is possible to be frank without giving ofence, to criticize without malice and to be appreciative without cynicism.

Porventura o aviso de que Marcello Caetano podia esperar críticas em Londres durante a visita que teria lugar no mês seguinte, mas sempre com amizade.


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Nas armas do Príncipe Filipe, reproduzidas no estandarte que cobrirá a sua urna, estão os leões dinamarqueses, a cruz branca sobre o fundo azul da bandeira grega, duas listas negras em fundo branco das armas Battenberg (ou Mountbatten) e as armas da cidade de Edimburgo, o seu ducado.

Ao contrário das gerações seguintes, Isabel II e Filipe de Edimburgo nunca foram pródigos em declarações públicas sobre a sua relação. Biografias futuras, com acesso à correspondência trocada, permitirão relevar um pouco mais sobre a relação de 73 longos anos e sobre o papel efectivo que Filipe desempenhou no reinado da sua mulher.

A excepção a essa discrição foi o agora glosado discurso por ocasião das Bodas de Ouro, no difícil ano de 1997, menos de três meses após a trágica morte de Diana de Gales. A Rainha falou dos incríveis 50 anos para o Reino Unido e, no seu característico humor, não deixou de sublinhar o difícil feitio do marido, antes de lhe fazer o elogio:

All too often, I fear, Prince Philip has had to listen to me speaking. Frequently we have discussed my intended speech beforehand and, as you will imagine, his views have been expressed in a forthright manner.

He is someone who doesn't take easily to compliments but he has, quite simply, been my strength and stay all these years, and I, and his whole family, and this and many other countries, owe him a debt greater than he would ever claim, or we shall ever know.

Vinte anos depois, em 2017, ano em que cumpriram 70 anos do seu casamento e de serviço público, a Rainha, sua mulher, mandou cunhar várias moedas com efígie do Duque de Edimburgo com a inscrição em latim “NON SIBI SED PATRIAE”: não para si, mas para o país.

É essa renúncia de si mesmo, do seu título, da sua família, do seu apelido, da sua liberdade e da sua privacidade, que se baseia o serviço que Filipe de Edimburgo prestou ao Reino Unido, estoicamente ao lado da mulher, em bons e maus momentos – uma longa vida inteira. Cumprindo, de alguma forma, aquilo que dias após o casamento, em 1947, Filipe escrevia numa carta:

Lilibet is the only ‘thing’ in this world which is absolutely real to me and my ambition is to weld the two of us into a new combined existence that will not only be able to withstand the shocks directed at us but will also have a positive existence for the good...

(Carta do Duque de Edimburgo à sua sogra, a Rainha Isabel, 3 Dezembro 1947, citada em Shawcross, William, op. cit., p. 631)

 

Ademar Vala Marques

Abril 2021




 






sábado, 10 de abril de 2021

Para inglês ver.

 





Agora é o Quarteirão Inglês, à Estrela. Esteve lá o British Hospital, nas traseiras é o Cemitério Inglês, houve em tempos uma histórica companhia teatral. Zona consolidada, aprazível. E, por isso, cobiçada. Para quê? Para lá plantarem um mono, um paquiderme amansardado com um impacto visual brutal. E, claro, varandas iguais às que agora se fazem em todos, mas todos, os condomínios. Passem na Rua de O Século, no Largo das Olarias, tudo descaracterizado, uniformizado por uma arquitectura Lego de plástico, sem pinga de rasgo ou criatividade, animada pelo exclusivo propósito de aumentar volumetrias e, com elas, os lucros dos promotores. Com a cumplicidade passiva de uma CML incompetente e inculta, economicista e bárbara, Lisboa anda há décadas a ser esventrada. Vejam o rico estado da Fontes Pereira de Melo, da Avenida da República, convertidas em artérias ao melhor estilo Bogotá. E vejam, agora, a invasão rápida, inexorável, dos bairros antigos, mordidos aqui, mordidos acolá, com o passar do tempo convertidos numa coisa que não se sabe o que é, uma Albufeira trendy, com condomínios fechados – fechados ao bom senso e ao bom gosto, ao pulsar das gentes, aos ritmos que tornaram esta Lisboa uma cidade apetecível para viver ao olhar dos estrangeiros (os quais, na sua sofreguidão, acabarão por sugar o sangue e o coração da cidade, com a Câmara a olhar, sedenta e gulosa, criminosa, na mira das mais-valias).

 


Diário do Rio de Janeiro, 12 de Julho de 1821.

 





sexta-feira, 9 de abril de 2021

As ditaduras estão de regresso, saiba como e porquê.

 



O ensaio intitulado O Regresso das Ditaduras? do académico António Costa Pinto, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2021, aborda o fluxo de movimentos ditatoriais de caraterísticas novas, isto num planeta em que as ditaduras dominam mais de um terço dos regimes vigentes. Não deixa, porém, de nos recordar as ditaduras do velho estilo. Não se pode dizer que haja homogeneidade nas atualmente existentes nem nas emergentes: o autoritarismo russo não se identifica com o comunismo chinês, as práticas ditatoriais da Arábia Saudita não são compagináveis com a Venezuela de Chávez e Maduro, a Frente Nacional de França não é propriamente gémea do regime autoritário polaco. Como recorda o autor, neste ensaio pretende-se uma introdução às ditaduras e aos seus modos de dominação política. “Ainda que as autocracias tenham mais variedade institucional do que as democracias, ambas têm muito em comum. Tal como aconteceu com o salazarismo em Portugal, têm partidos únicos ou dominantes, têm parlamentos e também organizam eleições. Às vezes reprimem selvaticamente, mas também cooptam e integram as massas e as elites; outras vezes podem mesmo ser, conjunturalmente, populares para certos segmentos da sociedade”.

E passam-se em revista os tipos e variedades de ditaduras (de partido único, militares e personalistas; civis, militares e monárquicas; ou monárquicas, militares, de partido único, multipartidárias e sem partido). Em todos estes tipos ditatoriais a militância política é fraca e a participação nas organizações do regime, nos casos de partido único ou das paramilitares, é limitada. A ditadura tem dois objetivos vitais: o controlo autoritário (como controlar a sociedade) e a partilha do poder (o modo como encontrar e cooptar aliados e neutralizar eventuais opositores). Igualmente o autor nos recorda outra questão chave que é a personalização do poder. Nem sempre é fácil descobrir quem é o ditador: “Acontece muitas vezes que aquele que detém o poder formal nas constituições autoritárias não é o ditador. Por vezes, o poder é formalmente bicéfalo, mas na prática é exercido apenas por um, e a personalização indica-nos onde ele está. Em vários outros tipos de ditaduras, a chefia encontra-se em cargos mais carismáticos ou tradicionais, como no rei ou emir, no líder da revolução, no líder espiritual, ou outras designações”. Pode igualmente analisar-se a ditadura como produto da tomada de poder por um partido e o autor dá-nos um espetro do funcionamento orgânico do regime ditatorial, desde o partido único, a escolha do líder, o funcionamento dos governos e dos parlamentos, como se processam as eleições em ditadura e depois oferece-nos um quadro bastante claro quanto aos modos de repressão e coerção da máquina ditatorial, as suas polícias, a máquina denunciante, os extermínios, as repressões, a construção do inimigo, a paranoia da vigilância, a censura da informação, o silenciamento dos intelectuais opositores.

E chegamos ao mosaico polifacetado do autoritarismo contemporâneo. É inegável que as ditaduras estão de volta, a par de preocupantes manifestações populistas baseadas na construção do ódio, da xenofobia e na permanente diabolização dos valores constitucionais a que se atribui falência e a inevitabilidade de uma nova ordem onde a corrupção não tenha lugar, todo o seu discurso é de erosão democrática. O autor analisa o caso da Turquia, da Rússia de Vladimir Putin, a China contemporânea e dá-nos umas conclusões de grande valor didático a propósito dos traços de continuidade nas ditaduras contemporâneas: a personalização do poder, a fragilidade ideológica, a mimética dos processos democráticos, a censura e o controlo da informação, a estreita ligação entre a ditadura e os populismos emergentes a apoiantes de negócios, tudo num claro apelo ao abandono do Estado Social e à completa liberdade dos mecanismos da economia do mercado.

Nestas ditaduras e nas correntes populistas é notório que já não há uma grande preocupação com modelos ideológicos muito fortes, o que sobressai é a exaltação nacionalista, os apelos à ordem e ao bem-estar da sociedade propalados de uma forma vaga e genérica. “Muitas vezes o discurso associado ao crescimento económico e à melhoria das condições de vida da população é quase exclusivo, aproximando-o dos regimes democráticos. No entanto, a construção de inimigos externos associados à comunidade internacional e suas organizações, bem como ao soberanismo são acionados com regularidade”. Outra chamada de atenção do autor tem a ver com o simulacro democrático: “Em 2015, mais de dois terços das ditaduras tinham parlamentos com representação de oposição, ainda que, muitas vezes, sem qualquer capacidade para condicionar o poder. Da Bielorrússia de Lukashenko à Venezuela de Maduro, as batalhas eleitorais são conjunturas de saliência negativa para os regimes, e às vezes fatores de crise”. Nestes regimes ditatoriais a autocensura é dominante e procura-se a todo o transe o controlo das redes sociais. Se verificarmos o funcionamento dos partidos populistas atuais, todos eles mostram abertura ao capitalismo, e tornou-se um clássico verificar que quando ascendem ao poder depois de terem recriminado a corrupção dos outros metem a família e os amigos nos negócios, nas nacionalizações ou privatizações erráticas, onde tudo em benefício particular. Temos exemplos flagrantes do que se passa dentro da União Europeia com a Polónia e a Hungria. Referindo as caraterísticas destes novos partidos, movimentos e líderes populistas, o autor sublinha que há três traços distintivos: a oposição entre o povo e a elite corrupta; o discurso em nome do povo e da sua vontade; o facto de terem uma ideologia fina, isto é, sem coerência, eclética e por vezes contraditória e mutante. “O populismo repete enfaticamente o seu caráter democrático, ainda que aponte difusamente para regimes pessoalizados e plebiscitários, que ultrapassam as instituições políticas, sobretudo os parlamentos. As poucas experiências de governo populista nas democracias apontam para a sua tentativa (por vezes conseguida, como na Hungria) de limitar a independência do judicial, dos meios de comunicação social, e dos direitos individuais e de minorias”. Também questiona o conceito de democracia iliberal se há regime político, é matéria duvidosa, responde, talvez exprima apenas uma dinâmica incerta e não uma forma política consolidada.

De leitura obrigatória. 


Mário Beja Santos







quinta-feira, 8 de abril de 2021

A Primavera do nosso desconfinamento (VIII).


 















 

Santa Maria dell'Ammiraglio (La Martorana), Palermo, Sicília.

Fotografias de Ademar Vala Marques (Agosto 2018).






sábado, 3 de abril de 2021

Agregado Familiar.

 


 

AGREGADO FAMILIAR

 



Oito gatos, quatro cães, amores vários,

papagaios de papel, gralhas que cantam

nas estantes e imitam, sem emenda,

a triste voz humana, peixinhos-de-prata

e um velho coelacanto não sei onde.

 

Nenhuma senha de razão e todas as línguas

na gamela: tudo flui e o amor permanece

no centro desta mesa, tábua redonda e de salvação.

Amigos que entram sem lei, ordem ou decreto

pela nossa casa adentro: Embaixada dos Únicos.

 

Anunciam-se os obscuros intentos de S. Bento

à Porta Fechada: a treva, o ranço e a barbárie

a rondar os ninhos da Criação. Os ministérios

abriram as agendas negras e a Arca da Peste:

tentam limitar e extinguir o agregado familiar.

 

Podre vai o vosso reino. Aviso: nenhum verme,

besta de cargo, bicho de contas, animal de rácio

ou outro baixo indignitário nos há-de fiscalizar

os bens e males das empresas falidas do coração,

as belas propriedades trespassadas do interior,

o mel do sangue, o puríssimo ouro da União.

 

 

Ricardo Álvaro in Revista CÃO CELESTE # 7, AAVV (Lisboa, Cão Celeste, Julho de 2015)




sexta-feira, 2 de abril de 2021

Sexta-Feira Santa.

 

Antes de o sabermos de saber-ensinado, já o sabemos de saber-sentido, intuído na voz de Dietrich Fischer-Dieskau a cantar “Mache dich, mein Herze, rein", da Paixão Segundo S. Mateus, de J. S. Bach.  

Não é num sepulcro de pedra que Jesus vai dormir para sempre nesta ária do enterro. É no coração de um ser humano. É num coração humano que vai descansar e encontrar repouso. É cantada, por isso, como uma canção de embalar. Não sei se mais alguém a terá cantado assim, com tanta serenidade e doçura.

Aqui numa gravação de 1959 com a Munich Bach Orchestra, dirigida por Karl Richter






Manuela Ivone Cunha




 




Consolação #6


 

 


Allegretto sempre cantabile, com Sviatoslav Richter impávido, sem tosse de plateia que o perturbe.



Manuela Ivone Cunha




 

quarta-feira, 31 de março de 2021

A Primavera do nosso desconfinamento (VI).















 

Wat Phra Kaew (Templo do Buda de Esmeralda), Banguecoque, Tailândia.

Fotografias de Ademar Vala Marques (Outubro de 2017).