segunda-feira, 28 de setembro de 2026

São Cristóvão pela Europa (371).

 

 

Este texto ocupa-se, apenas, do município de Umhausen, ainda no distrito de Imst, Estado austríaco do Tirol.

A igreja paroquial é dedicada a São Vito. A torre e a nave mantêm características góticas, mas as remodelações foram inúmeras ao longo dos tempos.

Em 1964, descobriu-se um fresco representando São Cristóvão, de meados do Século XIV, que se encontrava tapado.

 



 

Uma casa de habitação, no centro da cidade, ostenta um mural do nosso Santo. É da autoria do pintor austríaco Franz Pizzinini (1910-1974) e está datado de 1992.

 


 

Num gaveto de um hotel, uns frescos muito curiosos, datados de 1684, representam um serafim, um querubim e os anjos Miguel, Gabriel, Rafael e Uriel.

 


 Estamos aqui a cerca de 50 quilómetros do local onde, em 1991, foi descoberto o famoso Ötzi, uma múmia preservada no gelo, em condições excepcionais.

As perícias revelaram que Ötzi terá sido assassinado há cerca de 5300 anos durante a Idade do Cobre. Trazia aliás consigo um machado deste metal. Curiosamente, foi encontrado a apenas 92 metros da fronteira, mas do lado italiano.

A fotografia é de 1991.

Em Umhausen, existe em sua homenagem o Ötzi-dorf, um parque temático arqueológico

 


 

                    Fotografias de 2 de Agosto de 2026

                                                         José Liberato





domingo, 27 de setembro de 2026

O frade, o fradinho e o olho negro.

 




O feijão-frade é o parente pobre dos feijões em Portugal. Em regra mais pequeno e com um olho negro, o Vigna unguiculata, vulgo feijão-frade, é atirado para a categoria menor dos feijões para saladas, de consumo frio, muitas vezes tipo entrada. Talvez isso explique por que comemos tão pouco deste feijão: menos de meio quilo por pessoa… por ano. Não entendo: tem de haver pelo menos dez compatriotas a zero para compensar a minha alarvidade!

Nada que se compare com os consumos gigantescos de alguns países do Sahel, onde o feijão-frade é alimento de primeira necessidade. Níger, Nigéria, Burkina Faso e Gana estão entre os seus grandes consumidores, e não é de admirar. Foi na África subsaariana que começou a ser cultivado, há mais de 5.000 anos.

Não confundir com os restantes feijões que nos chegaram da América. Neste caso, o caminho fez-se ao contrário: o feijão-frade já andava por África, pelo Mediterrâneo e pela Península Ibérica muito antes dos europeus se fazerem ao mar. Fomos depois nós, portugueses e espanhóis, que o levámos para as Américas.

Perfeito para climas secos e pouco exigente em água, por lá se desenvolveu, a ponto de ser hoje do Brasil que importamos boa parte do nosso feijão-frade. Ou no caso, feijão-fradinho. Do Sahel africano para cá, de cá para a América e de lá outra vez para cá: é a prova de que, antes dos outros, já nós tínhamos inventado a globalização.

Está na altura de o trazer de volta ao prato e prestar homenagem aos dois grandes clássicos da nossa gastronomia com feijão-frade: com bacalhau e com atum.

O primeiro, servido quente ou morno, com alho, pede um bom lombo de bacalhau assado na brasa e desfeito em lascas, em abundante azeite de boa qualidade. O segundo, frio, faz-se com material da despensa: feijão e atum em lata, azeitonas de frasco e azeite. Ambos com muita cebola, salsa picada e pimenta.

Eu faço uma terceira derivação: salada de feijão-frade com camarão. Ao feijão bem escorrido junto tomate em cubos e sem grainhas, pimento e cebola bem picados e um alho triturado. Envolvo tudo com uns camarões sem casca e previamente cozidos, azeite, paprika e um golpe de vinagre. Coentros picados a gosto.

Com estas, mais as migas com feijão-frade e umas quantas sopas, o certo é que as nossas modestas quatrocentas gramas por bico chegam para nos tornar no maior importador europeu de feijão-frade, com cerca de 30% das importações europeias e muito à frente, por habitante, de espanhóis e italianos. Na Liga Europa ninguém nos bate, já bem sabemos.

E não é de somenos. Nutricionalmente, o feijão-frade está muito bem colocado entre as leguminosas: boa dose de proteína, muita fibra, ferro, pouca gordura e, sobretudo, muito folato. Não é nenhum “superalimento” e ainda bem, mas traz saúde e, ao que parece, fortuna.

Pelo menos é nisso que acreditam os americanos, que mantêm a tradição de comer Hoppin’ John, feito com black-eyed peas, arroz e porco, no primeiro dia do ano para chamar a prosperidade.

Mas isso já é outra coisa, mais para o capítulo das feijoadas. E sobre essas havemos de falar um dia destes.

 

José António Nogueira de Brito


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

São Cristóvão pela Europa (370).

 

 

 

Roppen é um município situado no distrito de Imst, no Estado austríaco do Tirol.

Em 1962, foi aí construída uma capela muito simples em homenagem ao Irmão Klaus, também conhecido como São Nicolau de Flüe (1417-1487), um Santo eremita suíço.

Na torre da capela, o pintor austríaco Elamar Kopp (1929-2020) criou um mosaico representando São Cristóvão. Constatando que o mosaico se degradava com o tempo agreste, o motivo foi transformado num mural pintado pelo mesmo artista, em 1989.

A paisagem que se avista da capela é deslumbrante.

 



 

Oetz é o município que dá o nome ao Ötztal ou Vale do Öetz. Neste vale, foi encontrado o célebre Ötzi, de que falarei no próximo post.

Este município tornou-se, no Século XIX, um dos pontos importantes do turismo alpino. A Gasthaus zum Stern (ou Albergaria da Estrela) existe desde o Século XVI e ostenta uma magnífica fachada pintada em 1573, onde, entre outros motivos, figura uma imagem do nosso Santo.

Encontrei-a em obras, mas publico aqui o que é realmente sem andaimes.

 




Em Wenns, a Platzhaus foi construída em 1576 para residência oficial do juiz. O seu exterior foi todo pintado. São Cristóvão está representado. De notar, a sereia de duas caudas.




 

Finalmente, ainda no distrito de Imst, a Igreja Paroquial de Tarrenz (deriva do Latim torrens, torrente em Português) é dedicada a Santo Ulrich. Primitivamente gótica, sofreu inúmeras remodelações ao longo dos tempos.

No exterior, dois frescos gigantes de São Cristóvão. Lado a lado.




                             Fotografias de 2 de Agosto de 2026

                                                                 José Liberato












quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Cervejarias - fine dining português.

 




Na capital, do Ramiro ao Pinóquio e da Liberdade (no Tivoli) à Nunes Real (cuidado com os preços, condizentes com a pavorosa decoração), ou a norte, da Cufra à Capa Negra II, passando pela Galiza, com ou sem francesinhas, as cervejarias são uma instituição nacional.
Aqui não se pede silêncio, pedem-se tremoços.
Começa-se com percebes, depois o camarão de espinho, as gambas com sal, presunto cortado à navalha, croquete opcional e bruxas mandatórias, se as houver.
Termina-se, como manda a lei, com o prego do lombo — no pão, cheio de mostarda, ou no prato, com molho à café, batata frita e ovo a cavalo. O picapau do lombo não é opção, no Pinóquio é obrigação.

O serviço é rápido, o barulho é vida, e as imperiais geladas descem com os dedos ainda a cheirar a mar.

Não há melhor.

E só se encontra em Portugal.

 

                                                        José António Nogueira de Brito





Séculos e séculos de segregação, agora as lutas pela cidadania em Portugal.

 





          Portugueses ciganos, Cinco séculos de resistência, por Ana Cristina Pereira, FFMS/Ensaios da Fundação, 2026, é uma viagem empolgante acerca de uma etnia cuja proveniência continua a ser objeto de discussão; a sua presença está historicamente documentada em Portugal, uma conceituada jornalista vai bater-lhes à porta, ouvir os seus anseios, traça-nos numa narrativa de grande vivacidade a história antiga e recente do anticiganismo, segregações, exclusões, preconceitos arreigados, basta recordar expressões que vêm da noite dos tempos como “ciganices” ou “um olho no burro e o outro no cigano”. Ficaremos, no termo desta categorizada, até com a ideia de que as insinuações de um populismo fervente e ignaro estejam a contribuir para atitudes mais inclusivas no trabalho, na escola, na autarquia, nos locais de residência. Há casos em que o discurso do ódio leva o comportamento democrático a fazer mais para derrubar os muros da desumanização, e com sucesso.

          Por esta leitura estimulante vamos conhecer, através de três gerações, o que tem vindo a mudar na cultura cigana, os ganhos em dignidade, os casamentos por amor, o reconhecimento pelas gerações mais antigas do valor da educação, as barracas que deram lugar a casas, o gosto pela sedentarização sem prejuízo da manutenção dos pilares da entreajuda familiar – é inequívoco que o cigano ama os valores da família.

          Vamos conhecer estudos, depoimentos, inclusive os itinerários desta minoria étnica transnacional, teve a sua placa giratória nos Balcãs, conheceu toda a casta de perseguições, foram gazeados nos campos nazis e o seu historial de marginalização em Portugal entronca o obscurantismo aos preconceitos mais alarves. Começaram a ter direitos de cidade na Constituição de 1986 e outros documentos subsequentes como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção Europeia dos Direitos Humanos. Como observa uma socióloga, esta abertura para a cidadania e para o reconhecimento da dignidade cigana foi sempre feita com bastantes vagares. E mostra-se como tem vindo a ser alargado o fosso entre ciganos e não ciganos.

          Com a democracia, os ciganos ganharam ativismo e a própria justiça passou a punir o discurso do ódio. E temos uma incursão por esse movimento associativo e as suas características: Os Viquingues do Bairro de São João de Deus; o Governo criou o Alto Comissariado para a Imigração e as Minorias Étnicas, surgiram os rendimentos de inserção com exigências no campo da saúde, na empregabilidade e na formação; veio depois a Associação Cigana de Coimbra, relevou-se o papel da mediação; apareceu um projeto com vários parceiros com renome fruto da Iniciativa Comunitária EQUAL, onde a educação é prioritária. Enfim, há o trabalho nas redes sociais, as associações que surgiram lutam contra a discriminação externa (que dificulta o acesso à educação, ao emprego, à participação na vida pública) e contra a discriminação interna (procurando sensibilizar as velhas gerações que se abriram novas oportunidades para as meninas e para as mulheres).

          Temos uma súmula das políticas públicas, de um novo ativismo contra os ódios e preconceito, desmontam-se mentiras, não é esquecida aa ligação entre alguns ciganos e o tráfico de droga. Por vezes há desalento com a previsão de refluxos, basta recordar que a última Estratégia Nacional de Integração das Comunidades Ciganas acabou no final de 2023. Portugueses ciganos têm ganho projeção na sua participação política, é o caso de Carlos Miguel ligado à Câmara Municipal de Torres Vedras, a despeito da infamante campanha de oposição, dizendo “Querem um cigano na presidência da Câmara? Querem a Câmara cheia de ciganos?”. Hoje há ciganos a trabalhar em várias autarquias e como diz Carlos Miguel, “Nós só vamos conseguir ultrapassar o preconceito se as pessoas nos conhecerem melhor. onde é que as pessoas nos podem conhecer melhor? No dia a dia, na escola, no trabalho”. A reportagem desvela as atribulações para ter acesso ao emprego, há histórias de sucesso de portugueses ciganos que enfrentam no porto de trabalho as ideias feitas, o racismo mais desalmado, e aprendem a dar a volta a quem afina pela exclusão e a discriminação.

          Era inevitável, Ricardo Quaresma, uma das lendas do futebol nacional e internacional, aprendeu desde muito novo a ouvir alarvices nos estádios, do título “Ó cigano, passa a bola!” já teve as suas questiúnculas com o chefe da extrema-direita portuguesa e está pronto para mais. Confessa que fica feliz vendo pessoas da sua etnia a estudar cada vez mais, deixa uma observação: “É muito bonito dizer que o cigano tem que trabalhar. Eu concordo que o cigano tem que trabalhar. E oportunidades para o cigano trabalhar?”

          Há portugueses ciganos que são astros musicais e Ana Cristina Pereira faz deles um relato. Há também portugueses ciganos nas artes do palco e noutras esferas do universo artístico.

          No termo daa sua reportagem, a autora deixa as suas interrogações quanto à falta de meios para a fixação dos ciganos, o arrendamento local era lhes hostil e não só pelo preço da habitação. E deixa um comentário para a reflexão do leitor:

          “Poucas pessoas reconhecem o anticiganismo, como se fosse uma norma assente há pessoas que pensam que os ciganos não trabalham porque não querem trabalhar, são pobres porque são preguiçosos, vivem isolados porque não gostam de interagir com outras culturas.” Os ataques de que são alvos os ciganos não geram condenação moral. Enquanto o anticiganismo não for reconhecido, esta reação será vista como um alimento para maais ódio, mais discriminação, mais desigualdade.

          Nesse processo, importa o modo como contamos histórias uns aos outros – nos meus de comunicação social, nas redes sociais, no contacto direto com familiares, amigos, vizinhos. A inclusão de uma população tão marginalizada exige políticas públicas fortes, mas joga-se também na profundidade das relações interpessoais, na escola, no trabalho. Em suma, envolve a sociedade no seu conjunto”.

          De leitura obrigatória.

         

                                                                Mário Beja Santos




terça-feira, 22 de setembro de 2026

São Cristóvão pela Europa (369).

 

 

 

E entramos no distrito de Imst, sempre no Estado austríaco do Tirol.

Comecei pela aldeia de Barwies no município de Mieming. A Igreja paroquial, consagrada em 1698, tem como patrono a Santíssima Trindade.

No seu interior, um altar lateral dedicado aos 14 santos auxiliares e à imagem milagrosa de Maria. Ao cimo, uma pintura de São Miguel Arcanjo. As duas imagens laterais estão identificadas como sendo de São Lourenço (a mim parece-me Santo André) e Santo Isidoro lavrador.

O altar é da primeira metade do Século XVIII. Já o quadro representando os Santos Auxiliares (incluindo São Cristóvão) é do fim do Século XVII.

No exterior, um mural datado de 1955 da autoria do pintor austríaco Raimund Wörle (1896-1979).

 





 Em Obsteig, 3 quilómetros adiante, ainda no planalto de Mieming, encontra-se um fontanário, datado de 1909, com uma imagem do nosso Santo.

 



                                                         Fotografias de 2 de Agosto de 2026

                                                                                            José Liberato







domingo, 20 de setembro de 2026

É tudo culpa do trigémio.


 


Não tenho bom feitio, muitas coisas me irritam. Como ouvir que o picante tira o sabor da comida. Em primeiro lugar, estritamente falando, o picante não é um sabor. Os cinco sabores básicos são doce, salgado, ácido, amargo e umami. Não inclui o picante, ponto. O picante é uma sensação: calor, ardor, pungência. Já as malaguetas podem ter notas frutadas, vegetais, fumadas e outras. Das malaguetas frescas picadas a um molho picante, a receita ditará os outros sabores, ao gosto de cada um. Sendo que umas gotas ou uma pitada trazem sempre vida a qualquer prato.

Comecemos pelas confusões. Chili, piri-piri, pimenta e wasabi não cabem todos no mesmo saco. Nem sequer todos picam da mesma maneira. Da boca para baixo, pela garganta e trato digestivo fora, a sensação de calor e ardor é sobretudo capsaicina, a molécula responsável pelo picante das malaguetas. Do nariz para cima, a explosão imediata que sentimos e que rapidamente desaparece é outra coisa: pungência nasal. Chamemos-lhe balsâmico, já que é do trato nasal que se trata.

Na primeira categoria entram as malaguetas, com a dita capsaicina, e a pimenta, com a piperina, igualmente quente e ardente, mas de outra maneira. Até o alho, com a alicina, o gengibre, com os gingeróis, e o cravinho, com o eugenol, podem, com alguma largura de critério, entrar nesta categoria de calor, ardor e pungência.

Já os pungentes aromáticos são o wasabi, a mostarda, o rabanete e a raiz-forte. Todos produzem compostos que estimulam os nervos sensoriais e provocam aquela explosão que sentimos no nariz e que, literalmente, nos sobe à cabeça.

Está na altura de apresentar o trigémio. Não é nenhum irmão, mas sim o nervo responsável por grande parte de tudo isto. É ele que transmite ao cérebro sensações vindas da boca, nariz, olhos e pele: tacto, calor, frio, irritação, ardor e pungência. Quimioestesia pura, dizem-me. Em termos simples: a capsaicina engana o sistema nervoso, activando os receptores que normalmente detectam calor e nos avisam de situações potencialmente nocivas. Como faltar o picante à mesa.

Outra confusão comum é com a origem. Associada frequentemente à Índia, à Tailândia e ao Sudeste Asiático em geral, a malagueta fez uma longa viagem antes de lá chegar. O nome mais comum devia ajudar: chili. Não porque tenha alguma coisa a ver com o nome do Chile, mas porque vem do náuatle, a língua dos astecas da América Central, mais precisamente da região que hoje é o México. Foi domesticada por lá há mais de 6000 anos. Nada surpreendente, não fosse a cozinha mexicana a rainha do chili. Só depois de 1492 a trouxemos para a Europa, donde a levámos, sempre nós, para África, Índia, Sudeste Asiático, China e Japão!

Pena é que, depois de a termos levado para todo o lado, dela nos tenhamos desabituado.

Os portugueses são, regra geral, fraquitos para o picante. Nada tem a ver com mais ou menos valentia. Para além das diferenças biológicas individuais, que podem afectar a tolerância à capsaicina, a habituação e a cultura são mesmo factores decisivos. A exposição repetida à capsaicina pode produzir dessensibilização. É o contrário dos neurónios a fritar. Já uma gota de tabasco hoje vai levar-nos aos habaneros amanhã e, quem sabe, a um Carolina Reaper, o máximo da escala de Scoville.

Por cá, as malaguetas andaram muito ausentes da nossa gastronomia regional. Até ao regresso das colónias e, mais tarde, dos retornados. Com eles veio sobretudo o piri-piri, do suaíli pilipili (a sério), fortemente associado às pequenas malaguetas usadas em Angola, Moçambique e outras regiões.

Tão português hoje que dá nome ao prato mais português para a maioria dos turistas que nos visita.

O que não deixa de ser triste.

 

                                        José António Nogueira de Brito




quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O óleo da oliveira.

 




Há poucas coisas melhores do que um bom azeite. De acordo. Mas não é razão para tanto disparate à volta das gorduras vegetais. Desde logo, nos nomes.

A palavra azeite vem do árabe az-zayt, literalmente “o óleo”, enquanto óleo vem do latim oleum e, antes, do grego elaion, ou oliveira. Ambos têm o mesmo significado e a mesma origem: a oliveira. Ingleses, italianos, ou até espanhóis, escolheram uma delas, mas depois todos discriminaram a origem da gordura — seja olive oil, olio di oliva ou aceite de oliva. Os portugueses, sempre os mais espertos nestas anedotas, ficaram com as duas, a árabe e a latina: azeite para o óleo da oliveira e óleo para os restantes, como se não servissem para nada. A não ser para o motor do carro.

Mas servem. Melhor do que o azeite em muitos casos. O de girassol para fritar (neutro, crocância limpa), o de colza para a salada de batata (muito leve, toque amanteigado), e o de soja para a maionese (emulsiona melhor). Até para uma salada verde que se queira muito fresca e leve, um óleo vegetal pode ser melhor opção (de noz, avelã ou grainha de uva). Para não falar da cozinha asiática (sésamo, amendoim) ou de um verdadeiro fondue - por favor, nunca, nunca de vinho!

Voltemos ao azeite. Fundamental na base da nossa cozinha, o estrugido (ok, refugado) é-lhe território natural. E é o ideal para temperar. Seja uma salada de tomate, uma posta de bacalhau ou uma entrada de hummus. Até, como uma pitada de sal ou de pimenta moída, um fio sobre o prato — sopa ou principal — fica sempre bem. Ou só com pão. Certo. Mas evitemos alguns desmandos.

Por exemplo, a menos que seja com azeite virgem, mais caro, comprar conservas em azeite nem sequer faz muito sentido. Em toda a indústria alimentar, o azeite utilizado é refinado, sem sabor, praticamente o mesmo que um óleo vegetal neutro (e não é só pelo preço: o refinado oferece melhores condições de estabilidade na produção). Esclarecido o detalhe, pior mesmo são aqueles que excluem qualquer azeite que não seja virgem extra, por causa da acidez ou do amargor do sabor.

Sim, a acidez — maturação da azeitona em excesso — tem limites e é controlada em laboratório. Mas, para ser de qualidade superior, mais do que baixa acidez, interessa o sabor, razão pela qual é a prova que determina a classificação. Azeites de variedades com carácter (a cobrançosa, por excelência, também a cordovil, verdeal ou galega), extraídas cedo na colheita, maceradas a baixa temperatura, são garantia de qualidade.

Nada de novo. Pequena produção, lagar próximo das oliveiras, de preferência velhas, privilegiando variedades de bom sabor e menos a produtividade da árvore: é o básico dos bons alimentos. Ainda melhor se tiver um travo ligeiramente amargo, até picante!

Isso não faz destes azeites superiores o ingrediente indispensável do estrugido ou do polvo à lagareiro. Haja bom senso. Como na escolha do vinho para um coq au vin, um polvo assado vou eu cozinhá-lo se me derem um virgem extra primeiras azeitonas, já agora de colheita noturna! E o vinho.

 

                                  José António Nogueira de Brito





terça-feira, 15 de setembro de 2026

São Cristóvão pela Europa (368).

 

 

 

Innsbruck é indiscutivelmente uma das grandes cidades da Europa.

Entre muitos outros dos seus notáveis monumentos avulta o Castelo de Ambras (ad umbras, à sombra), situado nos arredores.

Existe desde o Século X, mas a sua forma actual data da época do Arquiduque Fernando II (1529-1595), bisneto da Imperatriz Leonor de que já aqui falámos várias vezes e que era filha do nosso rei D. Duarte e irmã do Rei D. Afonso V.

Fernando viveu aqui uma história de amor proibido com Philippa Welser, oriunda da baixa nobreza. Casou com ela e tiveram filhos para grande desagrado do pai, o Imperador Fernando, irmão de Carlos V.

Ao mesmo tempo, Fernando criou uma verdadeira Câmara de Curiosidades, que alguns consideram um dos primeiros museus do Mundo visto que, mesmo na altura, era frequentemente visitado.

No interior do palácio, um quadro celebra a bisavó portuguesa do arquiduque, da autoria do pintor alemão Hans Burgkmair o Velho (1473-1531) que copiou um quadro de 1468, hoje desaparecido. São patentes as armas portuguesas.

 



 

O altar de São Jorge é outra das peças importantes do Museu do Castelo de Ambras. Foi feito em madeira de pinho, data do primeiro quartel do Século XVI e foi encomendado pelo Imperador Maximiliano I.

São Jorge está ao centro. Dos lados, Santo Acácio à nossa esquerda e São Sebastião à nossa direita. As fisionomias dos Santos são curiosamente as dos netos imperadores, Carlos e Fernando.

Para encontrar São Cristóvão é necessário ver a parte posterior das portas (parte da frente quando se fecham).

 



Na cidade de Innsbruck, a Mundinghaus foi adquirida pela família Gumpp, uma família de artistas que, por volta de 1680 reuniram numa só, três antigas casas góticas. Em 1897, os Munding compraram a casa, instalaram o Café Munding e decoraram-no em 1932 com um mural representando São Cristóvão. O pintor foi o austríaco Toni Kirchmayr (1887-1965).

 


 

Na Leopoldstrasse 31, um baixo-relevo de 1932 da autoria do escultor austríaco Virgil Rainer (1871-1948).

 


 A Gasthof Koreth tem na sua fachada um mural representando São Cristóvão:

 


 Ainda em Innsbruck, na Daxgrasse, um antigo tribunal ostenta as imagens de São Cristóvão e São Florêncio.

 



                                Fotografias de 2 de Agosto de 2026,

                                                                 José Liberato



segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Carta de Bruxelas.

 









                                        Fotografias de João Tiago Proença