quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Radiografia do país tal qual hoje o vivemos: Ensaios incisivos, todos a dar que pensar.

 



 

Para comemorar os 15 anos da coleção Ensaios da Fundação reúnem-se textos de dezassete autores sobre temas da atualidade nacional. A obra chama-se Livros leves. Opinião de peso. Fundação Francisco Manuel dos Santos. No prefácio, o diretor de publicações António Araújo faz uma breve viagem pelas bibliotecas de difusão de conhecimento que fazem parte da história da cultura portuguesa dos séculos XIX e XX, até chegarmos a estes ensaios que somam 152 títulos, dois milhões de livros nas mãos dos portugueses.

Abre as hostilidades José Manuel Sobral falando da identidade nacional, discorre sobre as muitas metamorfoses por que vivemos concluindo “No mundo cada vez mais globalizado, e onde as migrações assumiram um carácter massivo, a identificação oficial continua a ser feita em termos nacionais, de que decorrem processos de inclusão ou exclusão em termos de direitos de cidadania, o que mostra a sua importância decisiva para os destinos individuais. E se a inserção dos Estados nacionais em organizações internacionais ou mesmo supranacionais, como, no caso português, a União Europeia, lhes retirou soberania, não parece ter afetado a preeminência dada pela população à pertença nacional.”

Tiago Fernandes responde pelo ensaio O regime democrático em Portugal (1974-2025). Mostra as suas reservas aos que agitam que está próxima uma crise demográfica em Portugal, lembrando que o sistema democrático conta com partidos liberais-democráticos robustos capazes de competir com a direita radical. “Embora enfraquecidos, o centro-direita e o centro-esquerda tradicionais não desapareceram, como em muitas outras democracias contemporâneas. E persiste a natureza interclassista do PS e do PSD. Embora o voto nos partidos de direita continue associado a maiores níveis de rendimento e prática religiosa, as bases sociais e apoio dos principais partidos portugueses são ainda socialmente diversas e plurais. Um último recurso para resistir a uma eventual crise democrática e derrotar a extrema-direita, caso esta chegue ao poder máximo do Estado, é a sociedade civil portuguesa, cujas raízes remontam à revolução de 1974-1975. Em Portugal, os símbolos, as canções e os temas expressos em eventos de protesto refletem uma forte memória do momento fundador da democracia, o 25 de abril.”

Luciano Amaral vem abordar a economia portuguesa no século XXI. Dirá que o grande problema social português, ao fim de 50 anos de democracia, é fundamentalmente económico. “O grande escolho no caminho do maior crescimento continua a ser o baixo nível de produtividade da economia. Não é fácil perceber como resolvê-lo. Já se tentou muito, especialmente com as reformas estruturais propostas pela Troika. Mas o impacto no crescimento foi limitado. Talvez porque o principal problema da economia portuguesa se mantém: a baixa intensidade de capital (isto é, a baixa relação entre os instrumentos de produção existentes, como máquinas, infraestruturas ou veículos de transporte e a mão-de-obra) e a fraca produtividade desse mesmo capital.” E convém não esquecer que estamos a enfrentar novas e grandes incertezas e se regressou em força ao protecionismo da economia mundial.

Nuno Garoupa é autor de um dos mais polémicos textos deste livro, sobre O Inconseguimento crónico da Justiça portuguesa. Não esquecendo que os ganhos conjunturais não ocultam a persistência de problemas estruturais e o agravamento de bloqueios, é profundamente crítico com os governos PS e PSD/CDS, diz terem uma visão míope da justiça. “Continuam a apresentar medidas avulsas para descongestionamento ou simplificação processual, como se o problema fosse de gestão corrente e não de bloqueio institucional. Após 30 anos de reformas pontuais, o que se impõe é uma mudança de paradigma. É necessário um programa coerente, sustentado numa visão estratégica de 20 anos, capaz de reestruturar o sistema judicial de forma integrada. Tal mudança exige mecanismos estáveis e institucionais para planear, debater, propor e avaliar reformas estruturais. A proposta de criação de uma comissão permanente e independente para a reforma da justiça permanece ignorada. Curiosamente, a AD recuperou essa proposta no seu programa eleitoral de 2024, mas abandonou-a assim que chegou ao poder. Esta recorrente ausência de continuidade revela um padrão de governação que privilegia promessas eleitorais vazia em detrimento de compromissos institucionais duradouros.” E elenca as diferentes dimensões que vemos abarcadas por uma reforma paradigmática.

Confesso que o texto que mais me impressionou pela sua originalidade é o de Sofia Guedes Vaz intitulado Um alfabeto do ambiente. Pôs-se em viagem, foi percorrer a Estrada Nacional 2 em bicicleta. “Queria construir uma cartografia pessoal do território a partir da perspetiva desse meio de transporte, uma visão lenta, silenciosa, sensorial e próxima do chão. Queria reencontrar a sustentabilidade do país em mim, percorrer um atlas vivo da geografia portuguesa e transformar os 738 Km de Chaves a Faro num percurso de dúvidas e incertezas, mas acima de tudo esperança.” E construiu um alfabeto suscetível de inspirar alguém. A: Amor, dá esperança quando tudo parece falhar. B: Bicicleta, não só pela paz que dá naquele caminhar, mas também porque tem sido o grande responsável por uma revolução suave na mobilidade. C: e se o Consumo fosse um ato de cidadania, porque consumir é um ato político e ético, por inerência um ato de cidadania. D: Descarbonizemos, porque descarbonizar está ligado às florestas, somos um país florestal, no qual mais de 30% do território contém árvores. E: Ecosofia, uma filosofia pessoal vivida em harmonia ecológica. A autora caminha para a letra I: Incêndios e diz-nos que foi de Castro Daire até Viseu poucos dias depois de um grande incêndio. “Foi doloroso ver, sentir e cheirar as paisagens desoladoras e escuras, carbonizadas”, irá depois falar em lixeiras, em plásticos, nos oceanos, na qualidade do ar, nas energias renováveis, não esquecerá as utopias. E despede-se do leitor com amenidade e um olhar num futuro melhor: “T de Tempo, a liberdade de não olhar para o relógio. Tempo para o Outro, Tempo para nos reconectarmos com a comunidade. G de Gratidão, por tudo, pela natureza e por quem me apoiou ao longo desta aventura. E S de Silêncio, claro. Apesar de ter encontrado gente gira, as horas de silêncio foram as mais especiais. Silêncio é para sonharmos com um mundo melhor.” Passei ao crivo algumas citações de ensaios de grande qualidade que abrem pistas para refletirmos sobre o país que somos e como ele poderá vir a ser mais livre, mais justo e mais desenvolvido.

De leitura obrigatória. 


                                                                    Mário Beja Santos

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

São Cristóvão pela Europa (340).

 

 

 

A última povoação visitada no Estado austríaco da Caríntia foi a de Xaveriberg cuja denominação existe desde 1737 quando foi construída uma capela dedicada a São Francisco Xavier.

Muito perto, existe a pequena igreja de Santa Radegunda. Situada num local isolado à entrada de um desfiladeiro, aqui passava, desde o tempo dos romanos, um trilho de mulas muito perigoso. Daí, o grande fresco de São Cristóvão atribuído a Urban Görtschacher de que já aqui falámos. É de 1510.

A igreja comemorou recentemente os seus 950 anos de existência.

 



 E entramos no Estado do Tirol. Este é separado em duas partes por um corredor cuja largura mínima é de cerca de uma dezena de quilómetros de largura. A parte leste é constituída por um único distrito: o de Lienz.

A cidade de Lienz é a capital do distrito. Está situada na confluência de vários vales

Já a tinha visitado antes. Mas havia ainda outras imagens a descobrir.

Um dos rios que atravessa a cidade é o rio Iser, afluente do citado Drau. Numa ponte sobre este rio existe uma estátua de pedra, muito estilizada, inaugurada em 1974, da autoria do escultor austríaco Gottfried Fuetsch (1909-1989).

 


Mas o monumento principal de Lienz é seguramente o Castelo Bruck. Foi construído na segunda metade do Século XIII pelos Condes de Gorizia. Quando o Conde Leonardo morreu sem descendência em 1550, foi ocupado pelo Imperador Maximiliano I. Foi primeiro residência para senhoras nobres e depois sucessivamente hospital de campanha, quartel, hospedaria: Pertence à cidade desde 1943.

A Capela do Santíssimo Sacramento é um dos pontos mais importantes do castelo. Revestida de frescos pintados pelo mestre austríaco Simon von Taisten, nela avulta uma abside semicircular representando os catorze Santos Auxiliares entre os quais o nosso Santo.

 





 

                                        Fotografias de 2 e 3 de Agosto de 2025

                                                                                José Liberato



quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

São Cristóvão pela Europa (339).

 

 

 

Sempre ao longo do belo Vale de Gail no distrito de Hermagor, Estado austríaco da Caríntia, chegamos a Kirchbach que na I Guerra Mundial foi uma frente de batalha entre a Áustria e a Itália. Aqui se pode ver na fachada de um edifício um relógio de Sol decorado com uma figura de São Cristóvão.

 



O município de Kötschach-Mauthen tem três localidades com imagens dos nosso Santo: Mauthen, Laas e St. Jakob in Lesachtal.

Em Mauthen, a igreja paroquial é dedicada a São Marcos Um belíssimo fresco de São Cristóvão ornamenta a fachada Sul. É do Século XVI e foi descoberto em 1932.

 



Em Laas, a igreja paroquial é dedicada a Santo André e foi construída na primeira metade do Século XVI. O fresco do nosso Santo, no exterior, é da mesma época. Os portais da igreja, em pedra da região, um grés vermelho, são notáveis.






A igreja matriz em St. Jakob in Lesachtal é naturalmente dedicada a São Tiago, é do Século XVI e de estilo gótico tardio. Insere-se também numa paisagem de grande beleza.

O fresco de São Cristóvão no exterior é contemporâneo da igreja e encontra-se um pouco desvanecido

 




 

                                            Fotografias de 3 de Agosto de 2025

                                                                                José Liberato




terça-feira, 30 de dezembro de 2025

São Cristóvão pela Europa (338).

 

 

 

Entramos no distrito de Hermagor, ainda no Estado austríaco da Caríntia. Agora peregrinando ao longo do vale do rio Gail, afluente do Drau.

Primeira paragem em Radnig na Igreja de Santa Catarina onde existe uma inscrição datando a construção de 1040.  Em 1473 esteve na rota de uma invasão turca. A igreja foi vandalizada e todos os que se tinham refugiado no seu interior foram massacrados.

No exterior, uma imagem do nosso Santo.

Não deixa de merecer reflexão, ao ver uma paisagem tão tranquila, como a História encerra acontecimentos tão terríveis.

 



Em Förolach, a igreja paroquial é dedicada a São Tiago Maior. De estilo gótico, foi mencionada pela primeira vez em meados do Século XIV. Os frescos, ente os quais um de São Cristóvão, são de 1518. Como noutros casos, estavam ocultos e só foram descobertos em 1977.

 



Em Tratten, a igreja é de estilo gótico tardio e é dedicada a Santa Luzia e São Jodukus. Foi construída no final do Século XV. No exterior, um fresco do nosso Santo.

 


 


 

Sempre ao longo do Rio Gail, chega-se à aldeia de Vorderberg. A igreja é de estilo gótico tardio e é do Século XV. O fresco de São Cristóvão, deteriorado, foi também tapado e posteriormente descoberto.

 



 

                                        Fotografias de 3 de Agosto de 2025

                                                                           José Liberato




domingo, 21 de dezembro de 2025

São Cristóvão pela Europa (337).

 

 

Este post trata das últimas imagens de São Cristóvão no distrito austríaco de Spittal na der Drau no Estado da Caríntia, todas ao longo do rio Drau. O rio Drau desagua no Danúbio já na Sérbia.

Em Berg im Drautal, duas igrejas têm imagens do nosso Santo. A igreja paroquial é dedicada à Natividade de Maria. Românica no início, foi fortificada no Século XV. No exterior, um fresco da primeira metade do Século XV representa São Cristóvão.

 



A outra igreja é dedicada a Santo Atanásio. Junto ao rio Drau, foi consagrada em 1485. Segundo a tradição, a primitiva igreja teria sido fundada pelo próprio Santo que foi Bispo de Alexandria. Na sequência do Concílio de Niceia, de que recentemente foram celebrados os 1700 anos com a presença do Papa, o Bispo foi exilado para Trier na actual Alemanha. No caminho instalou-se nesta região e terias fundado a igreja.

No exterior, dois frescos de São Cristóvão. Datam de cerca de 1400.

 




A pequena Igreja de são Jorge em Gerlamoos, originalmente românica, ostenta um fresco exterior de São Cristóvão.

 



Finalmente, em Gajach, a Igreja de Santo André, em estilo gótico tardio, tem no seu interior, um fresco com uma imagem de São Cristóvão.

 

 




                                                                    Fotografias de 2 de Agosto de 2025

                                                                                                     José Liberato


domingo, 14 de dezembro de 2025

São Cristóvão pela Europa (336).

 

 

 

Ao longo do rio Möll, afluente do Drava, são várias as aldeias onde podemos encontrar imagens do nosso Santo.

Em Lainach, a igreja paroquial, mistura de elementos góticos tardios e barrocos, é dedicada a Santa Margarida. Foi consagrada em 1521. No exterior, um mural representando São Cristóvão.

 



 

Heiligenblut (que quer dizer sangue sagrado) é um município a cerca de 1300 metros de altitude no sopé da montanha Grossglockner que se ergue a 3800 metros de altura. A Igreja paroquial é dedicada a São Vicente. A pintura de São Cristóvão na fachada norte da igreja será do final do Século XV.



 


A igreja de Maria Dornach em Miitteldorf foi consagrada em 1491. É importante ponto de peregrinação. No exterior, um mural do nosso Santo.

 



Finalmente em Zwickenberg, a igreja paroquial é dedicada a São Leonardo. Ostenta não um mas dois frescos representando o nosso Santo. Um do Século XIII que estava tapado e foi descoberto em 1942. Outro, que sempre esteve visível, data de cerca de 1500.

 




                                                Fotografias de 2 de Agosto de 2025

                                                                                 José Liberato




sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

São Cristóvão pela Europa (335).

 

 

 

O Millstättersee, ou lago de Millstatt, é o segundo maior lago da Áustria. Situa-se a mais de 500 metros de altitude e tem uma profundidade que ultrapassa os 140 metros. Há quem diga que o seu nome tem origem nas mil imagens pagãs que São Domiciano teria deitado ao lago aquando da sua conversão ao cristianismo na época de Carlos Magno. Trata-se provavelmente de uma fábula, mas o que é certo é que se insere numa paisagem de grande beleza.

 


Na sua proximidade, várias igrejas contêm imagens de São Cristóvão.

Em Obermillsttat, que se pode traduzir como Millstatt de Cima, a Igreja de São João Baptista contem um curioso quadro de meados do Século XVIII representando sete santos auxiliares (Santa Bárbara, Santa Margarida, Santa Catarina, São Vito, São Pantaleão, Santo Acácio e São Cristóvão). Ora os santos auxiliares são catorze, o que leva a pensar que terá existido outro quadro com os restantes sete.






Nos arredores de Gmund in Kärnten, a Igreja de Santa Maria Madalena, originalmente românica, mencionada desde 1455, foi atribuída ao culto protestante em 1988. No exterior, uma pintura de São Cristóvão.

 



Em Malta, a Igreja paroquial, construída no Século XI, é dedicada à Assunção de Maria. No exterior, um fresco do Século XIV representa um enorme São Cristóvão. Com uma curiosidade. Aos pés do Santo um autêntico rato Mickey. O conjunto foi descoberto em 2002.

 




                                                               Fotografias de 1 de Agosto de 2025

                                                                                                   José Liberato