segunda-feira, 11 de novembro de 2019

A Poesia dos 20 Anos, pelo Padre Eliseu.

 
 
 
 
Como vedes, não vos poupo, jovens. Depois dos esforços… os sacrifícios. Uma vez que chegámos até aqui, convém que avancemos até ao fundo.
 

domingo, 10 de novembro de 2019

Três mulheres.

 
 




          Pois lá acabei de ler o muito aclamado Três Mulheres, de Lisa Taddeo. Narrativa poderosa e arrebatadora, muito bem feita, três crónicas femininas: a rapariga que se envolve com o professor de liceu, casado e com filhos; a da mulher bonita e bem na vida cujo marido gosta de a ver a praticar sexo com outros homens; a dona de casa infeliz no casamento que se aventura extra-matrimónio. No prólogo, Lisa conta uma outra história, a de sua mãe, que durante anos a fio se resignou a ter um idoso a masturbar-se à sua frente, na rua, sempre que ia e vinha do trabalho. Um livro poderoso, mas perigoso. Desde logo, porque é um exercício sedutor e tocante mas que, como sucede muito em tempos de MeToo, tem um juízo implícito, generalizador: os homens, todos os homens, não apenas os homens que protagonizam aquelas histórias, são sempre uns predadores e uns devassos, uns porcos. O problema é que, para emitir tal sentença (Lisa Taddeo arvora-se nas entrelinhas em juíza moral e legal), seria no mínimo justo, honesto e até importante ouvir também os acusados. Sob a forma de uma «reportagem», este livro é um processo moral. Sendo-o, manda a mais elementar justiça – e a honestidade intelectual – que os réus tenham um módico de defesa, que se possa ouvir o que pensam e o que acham, qual a sua versão da história. Caso contrário, e violando as mais elementares regras do trabalho jornalístico ou o que for, o retrato final é manipulatório, enviesado, unilateral.
Dirão que nos livros que contam histórias de vítimas de violência também é assim, ouve-se as mulheres, não os agressores. Bem, desde logo as coisas são um bocado diferentes: não há «motivações», «explicações» ou «justificações» possíveis para bater numa mulher. Ainda assim, parece-me que um retrato completo do que é a violência doméstica ganhará muito se contar também com a perspectiva do agressor. Não para o desculpar ou sequer para «perceber», mas para compreender melhor o flagelo da violência doméstica no seu todo e pensar em meios de lhe pôr termo.
Dirão outros: calma, isto é só um livro, não é um processo de tribunal. Sem dúvida. Mas, como disse, o livro tem implícita, por vezes explícita, uma ideia de juízo, de julgamento, de avaliação moral generalizadora: «através dos tempos, os homens despedaçaram os corações das mulheres de uma forma específica. Amam-nas ou quase e depois cansam-se e passam semanas ou meses a desembaraçarem-se silenciosamente, retrocedendo para o seu aconchego, recompondo-se e nunca mais dando notícias. Entretanto, as mulheres esperam» (página 18). A complexidade e a variedade das relações homem/mulher pode ser descrita assim, de uma forma tão redutora, simplista, padronizada? Entre «os machos são todos uns porcos» e, nos antípodas, «a cabra da miúda era uma sabidona, sabia bem o que estava a fazer» há um mundo vastíssimo de motivações, sentimentos, estados de alma, cambiantes. O livro dá uma noção dessa complexidade, mas só uma pálida noção, sempre comprometida e enviesada pela perspectiva dominante, maniqueísta e linear: os homens de um lado, o lado negro da força; as mulheres do outro, carentes e indefesas.
Livros como este são importantes se os soubermos ler. Caso contrário, perigo, Quanto a mim, a história mais importante e ilustrativa, até porque se enquadra muito mais num triste padrão de normalidade e frequência, é a narrada em poucas linhas do Prólogo, a história da mãe da autora. Não é muito frequente um marido que tenha prazer em ver a mulher na cama com outros homens, a história de Sloane. Mas são muito frequentes, ainda são muito frequentes, os casos de raparigas e mulheres importunadas por tarados nos transportes públicos, nas ruas, nas lojas ou nos locais de trabalho. No Japão e no Brasil até criaram carruagens de metro só para mulheres, para evitar os apalpanços e os esfreganços, para evitar – pasme-se! – os tarados nipónicos que com os telemóveis fotografam por baixo das saias das colegiais, que retratam as suas cuecas e os seus rostos, e depois põem tudo na Internet, indexado, catalogado, para consulta de outros tantos tarados como eles.
Como é evidente, não é por fugirem a algum padrão ou serem algo exepcionais (e, no caso de Sloane, até bizarros),  que estes três casos devem deixar de ser contados e descritos. Não, nada disso, o livro vale a pena, é importante e interessante. O problema, insiste-se, é a generalização, e o perigo de nos deixarmos levar pela prosa arrepiante e começarmos a fazer deduções e sobretudo induções.
O livro tem sido também muito louvado por ser uma incursão extraordinária nos meandros do desejo e da sexualidade feminina. Aí, então, Três Mulheres falha completamente, é um perfeito fracasso. Mas basta de bater, o melhor é ler. E, depois de ler, opinar, pois certamente quem leia terá uma impressão muito diferente da minha, subjectiva e pessoalíssima, e também ela enviesada pelos meus preconceitos, fantasmas e alucinações.

 

 





 
 
 

Túnel 29.

 
 
Nos 30 anos da queda do Muro, ainda há histórias absolutamente extraordinárias. Como esta, do Túnel 29, que me mandou o Rui Passos Rocha (obrigado!)


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Crónicas Ilustradas, por Vítor Higgs.

 
 

Diálogos climáticos.





Caríssimos António Araújo e Manuel S. Fonseca.

Não tinha lido ainda as colunas do meu caro Manuel, mas tinha ouvido (no Governo Sombra) e lido as declarações do João Miguel Tavares. Fiquei depois ao corrente, pelos posts no Malomil.

Num desses posts, o António pergunta se os seus leitores estão do lado dos 90% ou do dos 6%. Estou do lado dos 90%, sem sombra de dúvida. Mas o que é que isso quer dizer? Porventura, ao levantar tal questão não queria receber tamanha quantidade de palavras, mas aqui fica aqui a minha modesta contribuição.
 

Negacionista?


negacionista

que ou aquele que demonstra negativismo;

negativismo

disposição, espírito de negação sistemática; tendência a dizer não, a recusar ou refutar, sempre ou quase sempre, ideias, solicitações, propostas, orientações etc.[1]

Discutir o significado da designação negacionista é, de certa maneira, uma actividade infrutífera. A definição é a que transcrevi. A acepção, essa depende de quem a pronuncia e de quem a ouve. Se por um lado tem uma conotação ligada à negação de factos estabelecidos e à realidade empírica, tipicamente associada a acontecimentos como o holocausto, a vacinação ou a ida do homem à lua, por outro significa simplesmente a rejeição de uma interpretação da realidade que é consensual.

No caso das alterações climáticas, o caso complica-se logo no início, já que há mais do que uma forma de negacionismo: há os que rejeitam o aquecimento global; há os que aceitam o aquecimento global, mas que rejeitam que seja antropogénico; e finalmente há os que aceitam a existência de um aquecimento global antropogénico, mas que rejeitam as previsões dos seus efeitos. Todos serão negacionistas, mas logo aqui vemos que não há consenso: os últimos recusam ser chamados negacionistas, mas não contestam que os primeiros sejam rotulados como tal.

Adiante.

Ouvir outro lado


Nos idos de 2000, Paul Krugman escrevia o seguinte:

If a presidential candidate were to declare that the earth is flat, you would be sure to see a news analysis under the headline ''Shape of the Planet: Both Sides Have a Point.'' After all, the earth isn't perfectly spherical.

Ironicamente, a citação é mais actual que nunca, não só por vivermos numa altura em que a polarização das opiniões públicas obrigam os meios de comunicação tradicionais a entrarem por um relativismo quase absurdo, mas ainda mais, num momento em que o movimento da Terra plana ganha força, num exemplo do mais irracional e vácuo reaccionarismo anti-ciência.

A afirmação de Krugman é incisiva:  No final de contas, a Terra não é uma esfera perfeita. E no entanto, porque é que a maioria de nós descarta imediatamente a noção de que a Terra é plana? Porque é contra o consenso empírico. Noto que esta rejeição não é de agora. É anterior a haver fotografias do planeta redondo. É, de facto, algo que se considerava saber comum há 500 anos, pelo menos.

 
Gemma Frisius, "Les Principes d'astronomie et cosmographie, avec l'Usage du Globe", Tradução francesa, Paris 1582


As provas de que a Terra é redonda, não sendo difíceis, também não são obvias. Presumo que nenhum de vós tenha tentado usar o método de Erastótenes, ou que já tenha visto o desaparecimento de estruturas por detrás do horizonte (algo que requere esforço e boa visibilidade), e no entanto, o consenso empírico é suficiente para descartar as hipóteses alternativas. Claro que este caso é mais fácil, porque, agora, também existem fotografias do planeta e descartar todas estas provas implica a crença em conspirações por demais rocambolescas.

No entanto, isso não invalida o argumento central de Krugman: muitos dos não-cientistas que refutam o que o aquecimento global seja causado pelo Homem limitam-se a dizer “ouçam os dois lados”. Diz o Manuel:

as minhas leituras, dizia, levam-me a estar do lado dos cientistas que valorizam a incerteza e que, aceitando a hipótese antropogénica, contestam que, nos termos de conhecimento e observação existentes, se possa afirmar que ela é dominante ou até que se possa quantificar para o futuro ou que se possa avaliar com segurança a futura perigosidade.

Antes de mais, porquê “estar do lado” destes cientistas e não dos outros? O facto é que, se todas as opiniões têm direito a ser emitidas, nem todas têm o mesmo valor.

Depois, o que significa “valorizar a incerteza”? Todos os cientistas valorizam a incerteza. A ciência não é mais do que abraçar a incerteza e, de forma sistemática e rigorosa, procurar descrever sistemas e angariar provas que validem essas descrições, reduzindo assim essa incerteza. Nenhum cientista tem nenhuma verdade como absoluta, nem nenhum modelo do mundo físico pretende ser mais que uma aproximação.

Newton estava certo? Não. Mas também não estava errado: o seu modelo de descrição da mecânica funcionava dentro de determinados limites, mas Einstein provou que era uma aproximação incompleta. Einstein expandiu o modelo, dando-nos uma descrição mais fidedigna dos fenómenos que observamos, reduzindo a incerteza dos cálculos e das previsões dos modelos. Ainda assim, ninguém dirá que Einstein desvendou uma verdade absoluta, nem que Newton estava errado.

Se o Manuel nos der o critério que o leva a estar desse tal grupo de cientistas, talvez o possamos avaliar. Mas, se for meramente por achar mais interessante uma determinada premissa, nada mais é que escolher um clube pela cor da camisola.

Note-se ainda que o Manuel rejeita alguns negacionistas, uma vez que afirma aceitar o aquecimento global e aceita a hipótese antropogénica. Há os que não o aceitam. Esta última, no entanto, parcialmente, uma vez que, logo de seguida, reconhece o valor dos que “contestam que, nos termos de conhecimento e observação existentes, se possa afirmar que [a hipótese antropogénica] é dominante.

Ora, aqui começamos a entrar no domínio do tal consenso: o consenso actual diz que são por demais as evidências de que o aquecimento global que hoje observamos tem como origem, sobretudo, na acumulação de CO2 na atmosfera e que essa acumulação é causada por acção humana.

Em 2007, no relatório AR4, o IPCC dizia:

Very high confidence that the global average net effect of human activities since 1750 has been one of warming, with a radiative forcing of +1.6 [+0.6 to +2.4] W m–2.

Global atmospheric concentrations of carbon dioxide, methane and nitrous oxide have increased markedly as a result of human activities since 1750 and now far exceed pre-industrial values determined from ice cores spanning many thousands of years. The global increases in carbon dioxide concentration are due primarily to fossil fuel use and land use change, while those of methane and nitrous oxide are primarily due to agriculture.

E em 2013, no relatório AR5:

Human influence has been detected in warming of the atmosphere and the ocean, in changes in the global water cycle, in reductions in snow and ice, in global mean sea level rise, and in changes in some climate extremes. This evidence for human influence has grown since AR4. It is extremely likely that human influence has been the dominant cause of the observed warming since the mid-20th century.

Noto que em nenhum lado se diz “certeza absoluta”, mas fala-se de probabilidades, termos com definições científicas.

Políticos e politização


O António pergunta-me se os cientistas do IPCC não são cientistas. São, claro, mas o IPCC não é apenas, nem sei se maioritariamente, científico. O IPCC é fortemente político e os seus relatórios são escritos também por políticos que pediram, para não dizer que exigiram, respostas simples. Respostas simples a um problema complexo geram equívocos.

Não há nada neste mundo que não seja, de certa forma, político. No entanto, acusar o IPCC de ser meramente um instrumento político de enviesar os resultados científicos. é fechar os olhos ao trabalho feito. O IPCC descreve como prepara os relatórios e por quem são escritos. Não são escritos por políticos (i.e, no sentido politicians, não policy makers) (realce meu):

Member governments, Observer Organizations and the Bureau (Co-Chairs and Vice-Chairs) of the Working Group or Task Force producing the report then draw up lists of experts, from which the relevant Bureau or Bureaux select the authors of the report. The Bureau may consider other experts known through their publications and work. Scientists who are nominated but not selected as authors are invited to register as expert reviewers for the report.

The selection of authors is a careful process that aims to reflect the range of scientific, technical and socio-economic expertise and to strike a good balance in terms of gender, geographical representation, and representation of experts from developing countries, developed countries and those with economies in transition. It is also important to have a mixture of authors with and without previous experience in the IPCC.

De facto, basta abrir um relatório para ver quem são os autores - aqui fica um exemplo de um dos últimos relatórios do grupo de trabalho 3, demonstrando a preponderância de investigadores e académicos. Aliás, nesse grupo de trabalho participa a portuguesa Joana Portugal Pereira, a qual certamente poderá endereçar questões concretas.

Contínua o Manuel:

Respostas simples a um problema complexo geram equívocos. E, sobretudo, carregam de enviesamento cognitivo a prática científica, concentrando-a, de modo arbitrário, numa hipótese exclusiva. Exclusiva ao ponto de gerar situações tão vergonhosas, para não voltar ao velho Climategate, como a que neste último Agosto todos pudemos ler na reputada revista Nature, a saber, o pedido para banir ou de alguma forma silenciar, negando-lhes acesso à imprensa, científica ou não, 400 cientistas, divulgadores e comentadores acusados de não respeitar o chamado «consenso científico».

Aqui há uma confusão entre clarificação simples e respostas simples. Clareza na argumentação e na apresentação dos dados não são respostas simples a problemas complexos. Os relatórios são bem escritos e a clareza na exposição dos dados e das conclusões é de grande qualidade; veja-se, por exemplo o sumário para decisores das bases científicas. Mas nada do que é exposto é simples. Aliás, os relatórios contêm análises das questões em aberto, da do grau de qualidade e validade dos próprios resultados e das incertezas associados, além de visões retrospectivas da evolução do conhecimento e dos dados. O grupo de trabalho de mitigação não propõe soluções, simples ou complexas, apenas avalia o impacto de potenciais estratégias de redução dos factores que levam ao aquecimento global antropogénico. O senhor vai ter menor risco de enfarte se comer melhor e se fizer desporto. Cabe a si decidir qual a solução de dieta e de como melhorar a forma física.

E porquê um enviesamento da prática científica quando os relatórios compilam e resumem o status quo do conhecimento científico? Além disso, ao longo das décadas, actualizam os dados existentes, fruto das inegáveis melhorias nos sistemas e instrumentos de aquisição de dados, bem como nas capacidades computacionais de modelação, e ainda na constante revisão do conhecimento por parte da comunidade científica.

Há ainda outra questão: ao criticar a comunidade científica que cria o consenso, o Manuel invoca, novamente o Climategate. Já com uma década passada, o Climategate foi uma reacção quase histérica a um simples acto que todos fazemos nas nossas actividades do dia-a-dia, quando não estamos a produzir discursos públicos: usar linguagem pouco rigorosa. Múltiplas investigações ao processo revelaram que não era mais que isso, e que não havia qualquer conspiração de cientistas para tornar opacos os dados científicos ou para falsificar resultados e que, muito menos, nada do que foi revelado invalida o conhecimento que temos das alterações climáticas.

Mais, na citação acima, o Manuel fala de uma situação vergonhosa num artigo na revista Nature que pede “ para banir ou de alguma forma silenciar, negando-lhes acesso à imprensa, científica ou não, 400 cientistas, divulgadores e comentadores acusados de não respeitar o chamado «consenso científico»”. Presumo que esteja a falar deste artigo: Discrepancy in scientific authority and media visibility of climate change scientists and contrarians. O artigo em questão analisa o impacto mediático de cerca de 400 cientistas climáticos, com autoridade no tema das alterações climáticas, quando comparado com o impacto mediático de 400 negacionistas (tradução livre de contrarian). Não vou analisar a validade científica do método, mas a conclusão dos autores é que os negacionistas têm uma exposição mediática maior que os especialistas, em parte como sintoma do “síndroma Krugman” que acima descrevi. Perante os resultados, os autores opinam o seguinte:

These results demonstrate why climate scientists should increasingly exert their authority in scientific and public discourse, and why professional journalists and editors should adjust the disproportionate attention given to contrarians

Em nenhum lugar e nenhuma frase – repito, nenhuma – dizem os autores para “banir ou de alguma forma silenciar, negando-lhes acesso à imprensa” , muito menos destes 386 indivíduos em particular. Mais a mais, mesmo que isso fosse dito, isso seria meramente a opinião de três académicos, que vale o que vale, ao contrário de, por exemplo, governos impedirem os seus próprios cientistas de falar, como faz a actual administração americana. Andrew Wakefield não tem o direito à mesma visibilidade que o consenso científico quando fala de vacinas – não tem. Caro Manuel, não, isto não é ciência soviética.

O João Miguel Tavares, na sua crónica afirma que “No debate sobre as alterações climáticas, a ciência está a ser esmagada pela política”. Em certa medida está, mas a verdade é que o resultado actual das políticas actuais energéticas não espelham necessariamente um ou outro lado da questão. Por exemplo, nos EUA, Trump remove as imposições de eficiência energética nos automóveis, e na Alemanha, compra-se mais gás natural à Rússia e mina-se mais lenhite para compensar o – na minha opinião, absurdo – fecho das centrais nucleares. Uma coisa é haver discussões de política acirradas, outra é dizer que a prática da ciência está a ser instrumentalizada.

O discurso público está, no entanto, polarizado – sim, é inegável. Como é inegável que algumas posições sejam, por ventura, alarmistas.

Diz o João Miguel Tavares no Público:

E se eu não tenho muito a dizer sobre alterações climáticas, esperando que os cientistas façam o seu trabalho e testem em liberdade as suas teorias e modelos, já tenho alguma coisa a dizer sobre a palavra “negacionista” aplicada a este tema, e o fanatismo crescente que insiste em transformar hipóteses científicas, por mais sólidas que sejam, em verdades absolutas – cometendo assim um duplo erro: atacar de forma desmiolada o nosso modo de vida e a economia de mercado; e adoptar um antropocentrismo velho como o mundo, que coloca a Terra a girar à volta do Homem, como se nós dominássemos tudo aquilo que nos rodeia, e como se um modelo climático pudesse ser confundido com a Palavra de Deus.

Nenhum cientista torna hipóteses em verdades absolutas. Mas neste caso, segundo os melhores dados que temos, trata-se verdadeiramente de uma questão de antropocentrismo. Nem o Universo, nem a Terra giram à volta do Homem, é certo, mas é muitíssimo provável que a nossa existência esteja a influenciar o clima da Terra. Trata-se de uma questão de probabilidades.

Probabilidades


O ser humano é relativamente mau a julgar probabilidades, i.e. temos dificuldade em lidar com acontecimentos que não consideramos como garantidos e percepcionamos ameaças de forma mais emocional do que racional. É por isso que continuamos a jogar à lotaria, ou se uma lançarmos uma moeda cinco vezes e sair sempre caras, temos tendência a apostar que à sexta vai sair cara novamente.

Nenhum consenso científico é puramente racional, até porque a ciência lida com incerteza. Mas qualquer consenso científico é, de facto, uma questão sobretudo probabilística. A natureza da escala temporal do fenómeno das alterações climáticas é completamente incompatível com a vida humana do dia-a-dia: não é algo tão urgente como uma epidemia de VIH, ou Ébola, mas não ocorre a tão longo termo como a tectónica de placas. Ainda assim, o que fizermos hoje pode ter efeitos a longo prazo, e somos maus a avaliar a inércia inerente a um sistema.

Em qualquer notícia sobre eventos climáticos em que um cientista é citado a afirmar que é provável que qualquer coisa aconteça, há logo comentários exclamando: mas ele nem tem a certeza! A verdade é que o público em geral lida mal com incerteza, e num problema com uma potencial envergadura destas, queremos certezas, não estimativas. Mas a ciência não funciona desse modo. E além disso, não estamos imunes ao contexto e ao viés ideológico, na maneira com que lidamos com essa incerteza:

Landrum and her colleagues demonstrated the effect experimentally and reported the results in a 2017 paper in the Journal of Risk Research entitled “Culturally Antagonistic Memes and the Zika Virus: An Experimental Test,” in which participants read a news story on Zika public health risks that was linked to either climate change or immigration. Predictably, when Zika was connected to climate change, there was an increase in concern among Democrats and a decrease in concern among Republicans, but when Zika was associated with immigration, the effects were reversed. Skepticism, it would seem, is context-dependent. “We are good at being skeptical when information conflicts with our preexisting beliefs and values,” Landrum noted. “We are bad at being skeptical when information is compatible with our preexisting beliefs and values.”

Sim, os dados e os modelos têm incertezas, mas à medida que vamos melhorando os nossos métodos, a incerteza vai diminuindo.

Dar a palavra


Quando um criacionista se aproxima de nós e diz que a terra não pode ter 4.54 mil milhões de anos, como o consenso científico afirma, mas 6000 anos, porque o decaimento radioactivo de um qualquer isótopo de um certo tipo de substrato geológico não bate certo com os modelos, a reacção da maioria de nós é ignorar. Eu não sou geólogo e não sei sequer como abordar o problema que ele coloca. Terá ele razão? Partindo do princípio que não, serão os dados que ele reporta que estão errados? E assumindo que os dados estão certos, será que a interpretação dos dados é que está errada? E se tudo está certo, será que há, de facto, um erro num modelo científico? Não sei. E é muito difícil para qualquer não especialista contradizer, ponto por ponto, as alegações feitas por este indivíduo, sobretudo quando são feitas usando linguagem técnica, verdadeira ou aparente.

E no entanto, não tenho problemas em considerar que, com grande probabilidade, este indivíduo está errado. É meramente baseado numa análise de risco, risco de que haja uma falha enorme no raciocínio, uma vez que o consenso científico tem um considerável nível de certeza que a terra tem 4.5 mil milhões de anos. Esse consenso não vem de um número de especialistas se sentar numa sala e afirmar que acreditam numa ou noutra hipótese – não, o consenso vem de um processo longo de produção e revisão de hipóteses, modelos, dados e experiências baseadas no método científico. E como sociedade, nós escolhemos confiar em estruturas de produção de conhecimento e técnica. Não se trata de fé, mas sim de confiança. Da mesma forma que implicitamente confiamos em técnicos de manutenção de aviões sempre que entramos numa aeronave, ou nos informáticos que garantem que as notas que enfiamos num buraco numa parede vão ser contadas e adicionadas à base-de-dados que chamamos conta bancária.

Ouvir as vozes contrárias é, em princípio, muito bonito, mas qualquer pessoa que esteja no mundo da ciência – ou tenha conhecidos – que é constantemente contactado por indivíduos com ideias “revolucionárias”. Esqueçamos o clima, basta olhar para a física, e o que não falta são pessoas com teorias que a segunda lei da termodinâmica está errada, ou que finalmente desenharam uma máquina de movimento perpétuo.

Ser contrário, ou não-conformista na academia não é fácil, mas também o é difícil em qualquer outra actividade humana. De facto, na academia, há tenure que, em certa medida, protege a independência dos indivíduos, garantindo-lhes que não ficarão sem posto de trabalho por dizerem o que pensam. Recordo que, quando estudava no MIT, em Boston, havia um professor caricato e um tanto ou quanto eremita, em parte porque tinha visões pouco ortodoxas das causas do cancro (na Nature, também!), defendendo que, com excepção da radiação solar, não são os factores ambientais externos (incluindo o fumo do tabaco) que levam ao aumento da incidência de cancro. Não tem um grande peso na comunidade científica e no entanto, ainda hoje lá está, não perdeu o emprego e publica.

É tudo malucos?


Não conheço em profundidade Judith Curry. Não sendo climatologista, não consigo analisar os seus argumentos técnicos. Correndo o blogue dela, certamente que tem razão em algumas que afirma, nomeadamente no tema da relação dos cientistas com o público e as implicações políticas disso. Mas Curry vocifera, entre outras coisas, contra o sistema de peer review, i.e. a forma de publicar artigo científicos, baseada na decisão editorial de revistas científicas e na revisão técnica por parte de pares. Tendo feito parte da comunidade científica, não conheço um único cientista ou investigador que não proteste e mencione as inúmeras falhas. E no entanto, tal como a democracia, é o pior sistema com excepção de todos os outros.

Curry decidiu retirar-se do circuito académico tradicional – ora, por muitas razões de queixa que tenha, isto é tão alarmista como alguns dos “alarmistas verdes”. É que ao retirar-se da academia, Curry rejeita o sistema que temos para produzir ciência nas nossas sociedades modernas. Ela rejeita o establishment, e infelizmente isso pode soar como qualquer outra teoria da conspiração.

Em 2010, quando já se falava da sua atitude contra o establishment:

So it is important to emphasize that nothing she encountered led her to question the science; she still has no doubt that the planet is warming, that human-generated greenhouse gases, including carbon dioxide, are in large part to blame, or that the plausible worst-case scenario could be catastrophic. She does not believe that the Climategate e-mails are evidence of fraud or that the IPCC is some kind of grand international conspiracy. What she does believe is that the mainstream climate science community has moved beyond the ivory tower into a type of fortress mentality, in which insiders can do no wrong and outsiders are forbidden entry.

Tanto Curry como Viminitz vociferam, entre outras coisas, contra a reacção do establishment aos contrários, e contra o que eles proclamam ser o “pensamento único”. Curry, no entanto, em 2013 Curry já dizia que o IPCC falhava em oferecer “argumentação convincente de quanto do aquecimento global foi causado por acção humana”, embora o corpo de conhecimento sumariado pelo IPCC atribui com grande probabilidade que os humanos são responsáveis por mais de metade do aumento de temperatura da terra desde 1951:
 



Viminitz (num exercício que considero pouco interessante), por exemplo, indaga sobre o tal número de cientistas que suportam o consenso:

Terceira pergunta: 97% de que cientistas? E quarta: eles confirmaram o AGW pelos seus próprios meios e de forma independente ou acreditam nessa noção pelos mesmos meios que todos nós? Afinal de contas, um cientista informático é um cientista, mas o que é que ele sabe de climatologia?

As respostas a estas perguntas estão documentadas e acessíveis. E no entanto, Viminitz apenas as deixa no ar, como que a gerar uma suspeição que esconde uma falácia. (Já agora Manuel, neste caso “Patch” não é um programa de computador, mas a indústria das areias petrolíferas do Alberta ).

A questão do “pensamento único” não deixa de ser uma discussão interessante, mas, a nível fundamental, resta saber se a ciência está substancialmente correcta ou não. Aí, Curry, como cientista, concorda com muita coisa e descorda de algumas, e, por extensão, é contra um alarmismo, que assegura ser injustificado. Recorde-se que, no lado oposto do espectro, também há cientistas que afirmam que as conclusões do IPCC são demasiado conservadoras e quem preveja, que o impacto económico previsto está longe do que se vai passar na realidade. De facto, a acusação de “pensamento único” só é sequer considerada neste caso pelo facto de que há uma discussão pública em curso, altamente polarizada e que depende da interpretação dos resultados científicos.

Será que a ciência está certa? Estará errada? Até mesmo esta resposta é, para um não-especialista, difícil de dar, porque a pergunta resvala para: qual ciência? Além do mais, porque aquilo que cada vez mais se debate – o impacto das alterações climáticas – é baseado num amontoar e num encadeamento de inúmeros resultados e análises com variados níveis de (in)certeza.

Curry, num testemunho ao Congresso norte-americano, no início deste ano dizia:

Climate scientists have made a forceful argument for a future threat from manmade climate change. Based upon our current assessment of the science, the threat does not seem to be an existential one on the time scale of the 21st century, even in its most alarming incarnation. However, the perception of manmade climate change as a near-term apocalypse and alignment with range of other social objectives has narrowed the policy options that we’re willing to consider.

Effectively responding to the possible threats from a warmer climate is challenging because of the deep uncertainties surrounding the risks both from the problem and the proposed solutions. The wickedness of the climate change problem provides much scope for disagreement among reasonable and intelligent people.

Mesmo que se o que afirma esteja correcto, podemos discutir se precisamos de esperar por uma ameaça existencial ou não. E se o problema é complexo, levando “disagreement among reasonable and intelligent people”, a verdade é que também já conduziu a muita concordância, concordância que leva à tal conclusão de que “ Climate scientists have made a forceful argument for a future threat from manmade climate change. ”.

E a discordância é difícil de avaliar: tal como no caso do creacionista acima, é praticamente impossível, sem um grande esforço e elevadas competências técnicas, distinguir, sequer, a validade do objecto da discórdia. Rapidamente se entra numa discussão altamente técnica. Veja-se por exemplo o gráfico abaixo, retirado de um site de uma agência governamental americana:



Atmospheric carbon dioxide concentrations in parts per million (ppm) for the past 800,000 years, based on EPICA (ice core) data

Conclusão: o dióxido de carbono na atmosfera está a níveis nunca antes vistos nos últimos 800 mil anos. E no entanto, os detractores dizem que o gráfico é inválido, ou porque os dados não são comparáveis (os dados antigos são obtidos através de bolhas de ar presas em gelo antártico, enquanto os modernos são medidos directamente), ou porque o local não é representativo do planeta inteiro, ou porque a resolução dos dados antigos filtra eventos pontuais e logo o que estamos a ver pode ser um mero evento pontual. Quem é que está certo?

Esta é uma discussão muito técnica, sobre um fenómeno muito fundamental na análise climática. E no entanto, podemos facilmente passar para o lado oposto do espectro: mesmo se a ciência fundamental estivesse resolvida, passaríamos a debater as projecções e da estimativa dos impactos. Poderíamos ainda continuar a seguir o curso que os resultados científicos levam à medida que amadurecem na consciência colectiva humana: como é que a ciência chega ao público e aos decisores públicos, e como é que fazem uso dessa ciência?

Este texto já vai longo, mas aqui entramos por questões eminentemente políticas: qual a acção que tomamos perante dados incertos, e qual é o custo-benefício dessa acção.

Conclusão


É provável que de vários lados da discussão haja alarmismo e incorrecções, mas o consenso científico é a amálgama do corpo de conhecimento que temos. Chegamos lá através dum caminho tortuoso e, com certeza, com muitas imperfeições. As implicações da ciência são depois trazidas para a praça pública num “parto” ainda mais difícil.

O consenso científico não é mais que o julgamento da pequena (ou grande maioria) da comunidade científica acerca de um determinado fenómeno. Compilar e resumir tamanho corpo de conhecimento, que permanece em constante crescimento e que abrange inúmeros domínios da ciência é uma tarefa extremamente complicada. No entanto, a ideia de que o consenso da comunidade científica global consegue ser manipulado, consciente ou inconscientemente, é, no melhor dos casos, algo muito pouco provável. E no pior dos casos, uma teoria de conspiração. Há ainda que considerar que a maioria do “negacionismo”, não tem origem em elementos da comunidade científica.

O consenso também não é, nem nunca será sinónimo de unanimidade, mas a ciência nunca precisou que fosse. E o actual consenso acerca do aquecimento global pode ser resumido da seguinte forma:

-      O aquecimento da Terra nas últimas décadas é inequívoco;

-      O nível de dióxido de carbono na atmosfera está a níveis nunca vistos nos últimos 3 milhões de anos (e a subir);

-      A última vez que os níveis de CO2 estiveram tão elevados, a Terra estava cerca 2.8ºC mais quente e o nível do mar entre 10m a 20m mais alto;

-      O aumento de CO2 de atmosfera é, com 95%–100% de probabilidade, causado por actividades humanas;

-      O aumento continuado de CO2 na atmosfera aumentará a probabilidade de ocorrência de impactos climatéricos mais severos;

-      Nunca os humanos viveram de forma contínua em situação climática idêntica.

Sim, a temperatura da terra já esteve mais alta e a concentração de CO2 já foi tão ou mais elevada. Mas alterações tão bruscas da concentração de CO2 são tipicamente causadas por eventos catastróficos como erupções vulcânicas massivas. E esses eventos de aumento de temperatura rápidos estão geralmente associados a acontecimentos altamente destrutivos como o aumento do nível do mar, acidificação dos oceanos ou largas zonas oceânicas pobres em oxigénio, como já estamos a observar agora.

Vivo na Suíça. Há tempos fui visitar o Aletsch, um dos maiores glaciares na Europa. O derretimento do gelo pode ser observado sem grande dificuldade e sem ter que se esperar muito. Mas na altura fiquei impressionado com a seguinte fotografia de 1865 a que sobrepus uma fotografia recente. As linhas vermelhas mostram a superfície do gelo há século e meio atrás e o estado do local nos dias de hoje:



O glaciar Aletsch, na Suíça, em 2010 (direita) e 145 anos antes (esquerda).




 
Desde há 150 anos que o glaciar perdeu cerca de 20% da sua massa de gelo, consideravelmente menos que outros glaciares nos Alpes que já perderam 50%.
E no entanto, é difícil ter uma noção da escala. Por isso coloquei uma pequena seta, em baixo a indicar um local que há 150 anos estava sob cerva 200 metros de gelo, e que agora tem uma ponte suspensa, a 150 m do leito do rio Massa:





Parte do problema com que nos deparamos é precisamente esse: ter uma noção da escala. A magnitude daquilo com que nos deparamos é extraordinária, tanto pela potencial escala dos impactos como pela inércia (no sentido da Física) inerente ao fenómeno.

Custa ainda mais acreditar na crítica aos que propõem que se faça qualquer coisa, como se o investimento na reorientação das nossas economias para não mais estarem baseadas nos combustíveis fósseis fosse algo nefasto. Como já vários afirmaram, a idade da Pedra não acabou por termos ficado sem pedras.
 
Francisco Feijó Delgado

 
 

[1]                   Dicionário Houaiss © 2012 Editora Objetiva