domingo, 20 de setembro de 2026

É tudo culpa do trigémio.


 


Não tenho bom feitio, muitas coisas me irritam. Como ouvir que o picante tira o sabor da comida. Em primeiro lugar, estritamente falando, o picante não é um sabor. Os cinco sabores básicos são doce, salgado, ácido, amargo e umami. Não inclui o picante, ponto. O picante é uma sensação: calor, ardor, pungência. Já as malaguetas podem ter notas frutadas, vegetais, fumadas e outras. Das malaguetas frescas picadas a um molho picante, a receita ditará os outros sabores, ao gosto de cada um. Sendo que umas gotas ou uma pitada trazem sempre vida a qualquer prato.

Comecemos pelas confusões. Chili, piri-piri, pimenta e wasabi não cabem todos no mesmo saco. Nem sequer todos picam da mesma maneira. Da boca para baixo, pela garganta e trato digestivo fora, a sensação de calor e ardor é sobretudo capsaicina, a molécula responsável pelo picante das malaguetas. Do nariz para cima, a explosão imediata que sentimos e que rapidamente desaparece é outra coisa: pungência nasal. Chamemos-lhe balsâmico, já que é do trato nasal que se trata.

Na primeira categoria entram as malaguetas, com a dita capsaicina, e a pimenta, com a piperina, igualmente quente e ardente, mas de outra maneira. Até o alho, com a alicina, o gengibre, com os gingeróis, e o cravinho, com o eugenol, podem, com alguma largura de critério, entrar nesta categoria de calor, ardor e pungência.

Já os pungentes aromáticos são o wasabi, a mostarda, o rabanete e a raiz-forte. Todos produzem compostos que estimulam os nervos sensoriais e provocam aquela explosão que sentimos no nariz e que, literalmente, nos sobe à cabeça.

Está na altura de apresentar o trigémio. Não é nenhum irmão, mas sim o nervo responsável por grande parte de tudo isto. É ele que transmite ao cérebro sensações vindas da boca, nariz, olhos e pele: tacto, calor, frio, irritação, ardor e pungência. Quimioestesia pura, dizem-me. Em termos simples: a capsaicina engana o sistema nervoso, activando os receptores que normalmente detectam calor e nos avisam de situações potencialmente nocivas. Como faltar o picante à mesa.

Outra confusão comum é com a origem. Associada frequentemente à Índia, à Tailândia e ao Sudeste Asiático em geral, a malagueta fez uma longa viagem antes de lá chegar. O nome mais comum devia ajudar: chili. Não porque tenha alguma coisa a ver com o nome do Chile, mas porque vem do náuatle, a língua dos astecas da América Central, mais precisamente da região que hoje é o México. Foi domesticada por lá há mais de 6000 anos. Nada surpreendente, não fosse a cozinha mexicana a rainha do chili. Só depois de 1492 a trouxemos para a Europa, donde a levámos, sempre nós, para África, Índia, Sudeste Asiático, China e Japão!

Pena é que, depois de a termos levado para todo o lado, dela nos tenhamos desabituado.

Os portugueses são, regra geral, fraquitos para o picante. Nada tem a ver com mais ou menos valentia. Para além das diferenças biológicas individuais, que podem afectar a tolerância à capsaicina, a habituação e a cultura são mesmo factores decisivos. A exposição repetida à capsaicina pode produzir dessensibilização. É o contrário dos neurónios a fritar. Já uma gota de tabasco hoje vai levar-nos aos habaneros amanhã e, quem sabe, a um Carolina Reaper, o máximo da escala de Scoville.

Por cá, as malaguetas andaram muito ausentes da nossa gastronomia regional. Até ao regresso das colónias e, mais tarde, dos retornados. Com eles veio sobretudo o piri-piri, do suaíli pilipili (a sério), fortemente associado às pequenas malaguetas usadas em Angola, Moçambique e outras regiões.

Tão português hoje que dá nome ao prato mais português para a maioria dos turistas que nos visita.

O que não deixa de ser triste.

 

                                        José António Nogueira de Brito




quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O óleo da oliveira.

 




Há poucas coisas melhores do que um bom azeite. De acordo. Mas não é razão para tanto disparate à volta das gorduras vegetais. Desde logo, nos nomes.

A palavra azeite vem do árabe az-zayt, literalmente “o óleo”, enquanto óleo vem do latim oleum e, antes, do grego elaion, ou oliveira. Ambos têm o mesmo significado e a mesma origem: a oliveira. Ingleses, italianos, ou até espanhóis, escolheram uma delas, mas depois todos discriminaram a origem da gordura — seja olive oil, olio di oliva ou aceite de oliva. Os portugueses, sempre os mais espertos nestas anedotas, ficaram com as duas, a árabe e a latina: azeite para o óleo da oliveira e óleo para os restantes, como se não servissem para nada. A não ser para o motor do carro.

Mas servem. Melhor do que o azeite em muitos casos. O de girassol para fritar (neutro, crocância limpa), o de colza para a salada de batata (muito leve, toque amanteigado), e o de soja para a maionese (emulsiona melhor). Até para uma salada verde que se queira muito fresca e leve, um óleo vegetal pode ser melhor opção (de noz, avelã ou grainha de uva). Para não falar da cozinha asiática (sésamo, amendoim) ou de um verdadeiro fondue - por favor, nunca, nunca de vinho!

Voltemos ao azeite. Fundamental na base da nossa cozinha, o estrugido (ok, refugado) é-lhe território natural. E é o ideal para temperar. Seja uma salada de tomate, uma posta de bacalhau ou uma entrada de hummus. Até, como uma pitada de sal ou de pimenta moída, um fio sobre o prato — sopa ou principal — fica sempre bem. Ou só com pão. Certo. Mas evitemos alguns desmandos.

Por exemplo, a menos que seja com azeite virgem, mais caro, comprar conservas em azeite nem sequer faz muito sentido. Em toda a indústria alimentar, o azeite utilizado é refinado, sem sabor, praticamente o mesmo que um óleo vegetal neutro (e não é só pelo preço: o refinado oferece melhores condições de estabilidade na produção). Esclarecido o detalhe, pior mesmo são aqueles que excluem qualquer azeite que não seja virgem extra, por causa da acidez ou do amargor do sabor.

Sim, a acidez — maturação da azeitona em excesso — tem limites e é controlada em laboratório. Mas, para ser de qualidade superior, mais do que baixa acidez, interessa o sabor, razão pela qual é a prova que determina a classificação. Azeites de variedades com carácter (a cobrançosa, por excelência, também a cordovil, verdeal ou galega), extraídas cedo na colheita, maceradas a baixa temperatura, são garantia de qualidade.

Nada de novo. Pequena produção, lagar próximo das oliveiras, de preferência velhas, privilegiando variedades de bom sabor e menos a produtividade da árvore: é o básico dos bons alimentos. Ainda melhor se tiver um travo ligeiramente amargo, até picante!

Isso não faz destes azeites superiores o ingrediente indispensável do estrugido ou do polvo à lagareiro. Haja bom senso. Como na escolha do vinho para um coq au vin, um polvo assado vou eu cozinhá-lo se me derem um virgem extra primeiras azeitonas, já agora de colheita noturna! E o vinho.

 

                                  José António Nogueira de Brito





terça-feira, 15 de setembro de 2026

São Cristóvão pela Europa (368).

 

 

 

Innsbruck é indiscutivelmente uma das grandes cidades da Europa.

Entre muitos outros dos seus notáveis monumentos avulta o Castelo de Ambras (ad umbras, à sombra), situado nos arredores.

Existe desde o Século X, mas a sua forma actual data da época do Arquiduque Fernando II (1529-1595), bisneto da Imperatriz Leonor de que já aqui falámos várias vezes e que era filha do nosso rei D. Duarte e irmã do Rei D. Afonso V.

Fernando viveu aqui uma história de amor proibido com Philippa Welser, oriunda da baixa nobreza. Casou com ela e tiveram filhos para grande desagrado do pai, o Imperador Fernando, irmão de Carlos V.

Ao mesmo tempo, Fernando criou uma verdadeira Câmara de Curiosidades, que alguns consideram um dos primeiros museus do Mundo visto que, mesmo na altura, era frequentemente visitado.

No interior do palácio, um quadro celebra a bisavó portuguesa do arquiduque, da autoria do pintor alemão Hans Burgkmair o Velho (1473-1531) que copiou um quadro de 1468, hoje desaparecido. São patentes as armas portuguesas.

 



 

O altar de São Jorge é outra das peças importantes do Museu do Castelo de Ambras. Foi feito em madeira de pinho, data do primeiro quartel do Século XVI e foi encomendado pelo Imperador Maximiliano I.

São Jorge está ao centro. Dos lados, Santo Acácio à nossa esquerda e São Sebastião à nossa direita. As fisionomias dos Santos são curiosamente as dos netos imperadores, Carlos e Fernando.

Para encontrar São Cristóvão é necessário ver a parte posterior das portas (parte da frente quando se fecham).

 



Na cidade de Innsbruck, a Mundinghaus foi adquirida pela família Gumpp, uma família de artistas que, por volta de 1680 reuniram numa só, três antigas casas góticas. Em 1897, os Munding compraram a casa, instalaram o Café Munding e decoraram-no em 1932 com um mural representando São Cristóvão. O pintor foi o austríaco Toni Kirchmayr (1887-1965).

 


 

Na Leopoldstrasse 31, um baixo-relevo de 1932 da autoria do escultor austríaco Virgil Rainer (1871-1948).

 


 A Gasthof Koreth tem na sua fachada um mural representando São Cristóvão:

 


 Ainda em Innsbruck, na Daxgrasse, um antigo tribunal ostenta as imagens de São Cristóvão e São Florêncio.

 



                                Fotografias de 2 de Agosto de 2026,

                                                                 José Liberato



segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Carta de Bruxelas.

 









                                        Fotografias de João Tiago Proença



domingo, 13 de setembro de 2026

Em boa conserva.

 



Gordura não é formosura, infelizmente, mas, na comida, é a gordura que a torna voluptuosa! Essencial para cozinhar a mais de 100 graus — fritar, saltear, dourar —, dar textura e transportar aromas, tem, no entanto, um perigo: a mais pode tornar-se cansativa e, no limite, fazer tudo saber a gordura. E não queremos isso. Pelo contrário, tão importante como a gordura é saber dominar a gordura. Entra o ácido. E entram os picles.

No início, fizeram-nos por outra razão. Conservar vegetais, adicionando-lhes a acidez do vinagre ou o sal da salmoura, era uma forma de não desperdiçar comida. Estávamos na Mesopotâmia, cerca de 2400 anos A.C., muito longe da iniciativa sustentável do «Juntos contra o Desperdício»!

Mas foram os ingleses, muito mais tarde, que popularizaram os pepinos conservados em vinagre. E baptizaram-nos pickles, diz que a partir do neerlandês médio pekel, nada menos do que… salmoura. Agora estão na moda. Ou melhor: os alimentos fermentados em conserva são agora o último grito, mas não é a mesma coisa. Os fermentados — kimchi, chucrute, turşu — são óptimos e também muito antigos, mas é a moda da microbiota que explica a loucura de chefs e Tik-Tokers. Outra conversa. São resultado de fermentação láctica, provocada por sal e água.

Os picles não precisam de fermentar: está lá o ácido acético do vinagre para os conservar. E é precisamente esta acidez que vem domesticar a gordura.

Quem come um hambúrguer ou uma Reuben sandwich sem picles? Ou umas carnes frias e pâtés sem cornichons? Os exemplos são muitos por todo o mundo, do achar indiano para acompanhar um caril à giardiniera italiana com antipasti. Mas o melhor casamento é bem português!

O que seria de uma carne de porco à portuguesa sem picles em abundância? Admissível até na variante à alentejana, com amêijoas, ou nos rojões à minhota (desculpem-me os puristas de cada região) são essenciais na versão nacional, para cortar a gordura e a fritura do porco. E dar-lhe contraste, tensão e interesse.

Noutros pratos, fica à imaginação do cozinheiro. Uma carne gorda — idealmente um chambão de vaca — guisada lentamente em vinho tinto, em baixa temperatura, e acrescida de umas cebolinhas em picle na altura de servir ganha outra vida.

E o melhor dos picles é que até os podemos fazer em casa. Uma couve-roxa bem segada, duas partes de vinagre para uma de água a ferver, grãos de mostarda e de pimenta preta, uma colher de açúcar e outra de sal, num frasco bem cheio — idealmente em vácuo — transforma-se noutra coisa numa semana no frigorífico.

Só precisa de arejar bem a cozinha, caso contrário fica num sarilho. Ou, como dizem os ingleses, “in a pickle”.

 

                                            José António Nogueira de Brito




quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Atum, o rei do mar.

 



Para sobreviver só preciso de conservas em lata. E para ser feliz também. As conservas voltaram a estar na moda, há produtos novos, uns bons outros nem tanto, latas bonitas, vintage, retro, e outras vestidas de embalagens de circo. Na verdade, é todo um mundo a explorar, mas fica para outra vez.

Hoje falemos do rei das conservas, o atum, claro.

Claro não só porque é óbvio, mas também porque o melhor atum é mesmo o atum claro, nome comum do atum rabilho amarelo ou yellowfin. Outros rabilhos há, por exemplo o azul, que por acaso é de cor vermelho escuro, mas nem sequer vai à lata, segue todo para sushi. Voltando ao atum claro, pela cor mais clara e rosada, tem sabor mais suave e textura fina, também ligeiramente mais seca. Os Espanhóis sabem-na toda e do mar Cantábrico pescam só para eles o melhor de todos, o bonito del norte, da espécie Albacora, de um branco quase marfim. Nós também o temos, nos Açores, mas é raro encontrar no mercado, vai todo para exportação. Ambos são pescados à linha para não stressar o peixe, que se quer sem hemorragias na carne nem danos no músculo. Os preços são naturalmente a condizer.

Passemos pois, por isso, ao atum mais corrente em lata, o atum listado ou skipjack, de cor mais escura e sabor mais forte. Sendo também ótimo, não há como falhar. Comecemos pela ventresca. Da barriga do peixe, esta parte tem espessura menor que o lombo, concentrando mais o sabor numa carne mais sumptuosa, ideal para entrada, com um bom tomate ou a solo. Passemos aos filetes, em azeite e, se possível, com uma percentagem de azeite virgem. Por fim, a posta fica para sandwiches, pastas de atum e outras preparações menores. Ambos são do lombo do atum, mas enquanto os primeiros são filetados e colocados na lata à mão, depois de cozido o peixe, os segundos são prensados e enfiados na lata mecanicamente, sempre com uma percentagem de miga. E só depois cozidos já na lata.

Mas aqui chegamos ao ponto essencial, aquele que devia vir escrito em letras grandes na tampa de todas as latas: não se aquece atum. O atum, quando aquecido, escurece, entristece e perde o que tinha de melhor. Por isso, esqueçam massas de atum, pizzas de atum, omeletes de atum. O atum não nasceu para ser quente. Nasceu para ser comido como sai da lata. Com uma batata e um ovo, cebola roxa, azeitonas e bom azeite. Ah, e antes que me esqueça, o atum não tem prazo de validade! Nas latas vai uma data, mas é só obrigação legal. Quanto mais velha, melhor. O atum de conserva é um caso sério e merece respeito, não quer que o deitem fora.

 

                                        José António Nogueira de Brito




quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A Mimosa da Graça.

 




Fiquei admirado: gastaram-se (gastámos) quase dois milhões de euros em projetos de erradicação da mimosa e outras espécies invasoras. É muito dinheiro. Mas realmente tinha de ser. As mimosas e outras acácias ocupavam já cerca de 17 mil hectares de terrenos no continente, dois mil deles em áreas protegidas. No Parque Natural do Montesinho, no Gerês, na serra do Açor, em Viana, nas margens do Mondego, tudo se transformava num denso manto dourado ao chegar a primavera. Mal punha pé, ou antes mal lançava raízes num sítio qualquer logo começava a instalar-se, usando todas as armas de que dispõe: cresce rapidamente, produz quantidades enormes de sementes, que permanecem viáveis no solo durante vários anos, formando povoamentos extremamente densos, mesmo em solos muito pobres, mesmo sem intervenção humana. O pior é que o fazem à custa das espécies nativas que vêem o seu crescimento dificultado pela densidade e pelas substâncias segregadas pela mimosa. Que às tantas começaram a invadir os terrenos de cultivo. Foi aí que se começou a tomar a sério o problema. 
Porque até aí não era um problema. Pelo contrário, admiravam-lhe as lindas flores ornamentais, com os seus caraterísticos pompons amarelos que enfeitavam as encostas de Portugal inteiro e faziam a felicidade dos passeios e dos fotógrafos de domingo. Eram apreciadas e procuradas. A moda oitocentista das plantas exóticas abriu-lhe as portas: as primeiras mimosas australianas, importadas da Austrália através de viveiristas europeus, foram plantadas em meados do século dezanove em Lisboa, na Quinta do Lumiar, propriedade dos futuros duques de Palmela. A seguir, o interesse industrial abriu-lhes o caminho para a horticultura comercial: por ser de crescimento rápido, fornecer madeira e lenha, taninos para os curtumes, além de poder ser usada na fixação de solos e consolidação de taludes. Um empresário portuense plantou 600 hectares de acácias e eucaliptos nas suas propriedades orgulhosamente batizadas Nova Austrália e Nova Tasmânia, nos arredores de Abrantes.  E também o Estado via na mimosa um auspicioso factor de desenvolvimento, pelo seu interesse económico e florestal, e desatou a plantá-las no Gerês e em matas públicas do litoral centro. 

 

O problema (agora já se dizia “ecológico”) que a mimosa trazia consigo só começou a tornar-se evidente nas décadas de 1970 e 1980: os grandes incêndios criavam grandes zonas disponíveis que a mimosa de crescimento rápido colonizava imediatamente. Um estudo feito na serra da Estrela apurou uma densidade de mais de 62 mil sementes por metro quadrado.
A invasão era imparável: o êxodo rural, o abandono dos campos, a redução da agricultura e do pastoreio tradicionais deixava-lhe o terreno livre. E o decreto-lei que finalmente classifica a – dourada, promissora, tão bonita que ela é – mimosa, Acacia dealbata de seu nome completo, só chegou em 1999. O que pode explicar que (apenas nos dois municípios estudados) a área ocupada pela Acacia dealbata tenha aumentado 417% entre 2004 e 2021.


De resto é como no resto: demoramos sempre um certo tempo até nos darmos conta dos problemas.
Que o diga a Mimosa da Graça, uma graciosa leitaria e pastelaria que durante muitos anos serviu a Rua da Graça, em Lisboa, e de que já só resta o singelo portal com suas letras de um gosto quase clássico, à espera do destino que lhe será dado pelo fundo de investimento que já a deve ter comprado e que a há de vender. Talvez os donos não se tenham apercebido que os moradores da rua e da freguesia tinham desandado e já não foram a tempo de responder à nova procura dos brunches, e smoothies e matchas, e sucos de açai e as outras novidades que a boa da leitaria não tinha visto aparecer e instalar-se como gosto dominante. Como as mimosas da história, tinha aparecido por cá uma gente diferente, de gostos diferentes e com dinheiro, que aos poucos foram colonizando as pastelarias que por aí havia, e que agora se chamavam Neighbourhood, Brunch and Bites ou Locals Nomads. As espécies nativas não aguentaram a concorrência, as rendas e os trespasses subiram para totais inalcançáveis pelas modestas leitarias apanhadas a molhar o bolo de arroz no galão (quentinho, se faz favor). Foram sendo corridas. Mas tinha de ser. Não se podia perder este bem-vindo contributo para equilibrar o défice nacional. São milhares e milhares destas mimosas que diariamente são despejadas pelos voos e os cruzeiros ao preço da chuva chegados de todas as partes do mundo. E temos de lhes dar o que eles querem: por eles, mudámos as comidas que comíamos, mudámos os hábitos e costumes que seguíamos e mudámos até a língua que falávamos. Um dia (talvez) virá aí um tardio decreto-lei a moderar a falta de modos da invasão e ocupação, mas entretanto as mimosas vão alastrando, a um ritmo superior aos 417% das suas congéneres vegetais. 


Será que valeu a pena? – hão de um dia perguntar-nos. Não sei. A Leitaria Mimosa da Rua da Graça, em Lisboa, talvez seja uma espécie de resposta.


                                                    Zé Lima 






segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Portugal Selvagem.

 





São Cristóvão pela Europa (367).

 



Continuando a viajar ao longo do rio Inn e ainda no distrito de Innsbruck-Land do Estado austríaco do Tirol, chegamos ao município de Pettnau.

Aqui se situa a Mellaunerhof, uma das mais antigas estalagens do Tirol, já mencionada em 1291. Toda a fachada está pintada. É a chamada arte do Lüftlmalerei. Uma das pinturas é São Cristóvão.

O brasão do município é, desde 1973, totalmente preenchido pela imagem do nosso Santo.

 




 

No mesmo município, na aldeia de Oberpettnau (Pettnau de Cima), a igreja de são José distingue-se pela sua bela torre com um topo em forma de cebola.

No exterior, um fresco de São Cristóvão. No interior, no altar-mor e á nossa esquerda, uma imagem.

 




Em Telfs, num cenário maravilhoso, a Igreja de São Vito, gótica. No seu interior, um original fresco de São Cristóvão.

 



 

Finalmente em Wildermieming, visitei a Igreja de São Nicolau onde parte da antiga igreja gótica resistiu a um incêndio no Século XIX. No exterior, um belo fresco de São Cristóvão.

Na torre, três datas: 1368-1878-1966. Construção inicial-remodelação depois do incêndio-restauro.

 



                                Fotografias de 2 de Agosto de 2026

                                                                   José Liberato




domingo, 6 de setembro de 2026

E dos influencers, quem nos protege?

 



Com tanta transformação digital, há uma área em que a IA nunca vai substituir os humanos. Pelo menos enquanto os computadores não tiverem papilas gustativas, nem trato digestivo, a crítica gastronómica está-nos reservada.

Mas em cada salto tecnológico há sobressaltos cívicos e, na crítica gastronómica, também.

Poder-se-ia dizer que, antes da imprensa, não havia coluna gastronómica. Mas simplifiquemos e vamos directos ao século XIX.

Em 1803 nasceu o Almanach des Gourmands, de Grimod de La Reynière. E nele, a par de receitas, restaurantes, lojas alimentares e especialidades, surgiram os primeiros comentários e julgamentos sobre a matéria. Com júri reunido à mesa e degustação. Foi uma revolução.

Depois veio Brillat-Savarin, o mesmo do melhor queijo de pasta mole do mundo, e juntou-lhe a “Fisiologia do Gosto”. Nunca mais nada foi o mesmo. Apurou-se a técnica, o gosto e o paladar e surgiram os verdadeiros aristocratas da gastronomia, autoridades quase inquestionáveis na restauração.

Anton Ego não fez mais do que os imortalizar: magro, vestido de negro, solene, cruel e com imenso poder. O verdadeiro árbitro supremo do gosto.

De França, o métier migrou para os Estados Unidos, com uma legião de críticos independentes e endeusados. Mas o anonimato passou a ser uma regra primordial. Ruth Reichl aperfeiçoou-a com perucas, maquilhagem, unhas postiças e óculos. O crítico tinha de comer como toda a gente, e não como o restaurante gostaria que ele comesse.

Também por cá tivemos a nossa escola. Luís Sttau Monteiro deu o mote, com o famoso Inspetor Gourmet. Mas José Quitério subiu a parada. O primeiro grande e verdadeiro jornalista de gastronomia deixou-nos uma obra magistral, em colunas regulares e em livros publicados. Mais importante ainda: criou o seu próprio código de ética, fundador de uma forma de fazer jornalismo gastronómico e exemplo a seguir.

Hoje é difícil encontrar-lhe sucessor. Talvez Ricardo Felner, sem dúvida conhecedor e, sobretudo, com os pés bem assentes no chão.

Depois veio a internet e, a partir de 2000, os bloggers. No início, não eram muito diferentes: partilha de receitas, críticas de restaurantes e fotografias de refeições. Mas começavam a distanciar-se dos jornalistas ditos sérios. E começaram as perguntas. Quem pagava a refeição? E a deslocação?

Entra o Instagram. E as fotografias de comida meticulosamente encenadas. Daí até cunharem termos como food porn foi um ápice. Agora, com milhares de seguidores, brilhavam os influencers. Mas os seguidores não pagavam nada. Passámos ao caos.

Com custos muito baixos, a indústria da restauração instituiu o mercado de troca de refeições por posts. Dos restaurantes desejosos de conhecer os críticos passámos aos influencers mortinhos por serem convidados. E agora tudo era óptimo. Nem crítica havia.

Crunchy, jucy, tasty. Delicious… hum… so yummy!

Faltava o toque final. E veio o TikTok.

Das fotografias passámos à hegemonia dos vídeos curtos. E dos pratos chegámos à personalidade do influencer, aquilo que verdadeiramente conquista seguidores. Já não interessa tanto o que está no prato. Interessa quem está a comê-lo.

Em resumo: Grimod criou um almanaque para proteger o público da falta de conhecimento sobre os restaurantes. Reichl desenvolveu o anonimato para proteger a crítica dos restaurantes.

E dos influencers, quem nos protege? 


                                        José António Nogueira de Brito




quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Batatas Fritas, Irresistíveis.





Chamam-lhes French fries, mas a origem é disputada. Os belgas reclamam a invenção, os franceses o nome, mas a verdade é que tudo começou aqui ao lado, no século XVII, com nuestros hermanos — afinal, foram eles que trouxeram a batata da América do Sul para a Europa. Seja como for, se é na Bélgica que as batatas fritas são prato nacional, não há nenhumas como as portuguesas.

Cortadas à mão, em palitos, rodelas ou cubos, demolhadas em água e fritas em óleo de girassol ou azeite, devidamente salgadas — são iguaria de tascas e restaurantes respeitáveis, mas espécie em vias de extinção. A eficiência e a produtividade empurraram-nos para as congeladas e pré-fritas. Não é a mesma coisa, os cristais de gelo rompem as fibras no interior, pelo que se aconselha a dupla fritura. Mas, em abono da verdade, também não se lhes resiste: finas, longas, crocantes.

E nada de cascas, orégãos ou outras invenções. Apenas sal. Muito sal. Porque a perfeição, como sempre, está na simplicidade.

 

                            José António Nogueira de Brito


São Cristóvão pela Europa (366).

 

 

 

A Europabrücke (a ponte da Europa) é uma notável obra de engenharia que liga o Norte e o Sul dos Alpes. Inaugurada em 1963, era então a ponte mais alta da Europa. Ainda é hoje a ponte mais alta da Áustria. Um dos seus pilares tem a altura de 147 metros!

Onde antigamente os viajantes utilizavam autênticos caminhos de cabras hoje existe uma autoestrada moderna que permite uma viagem pelo desfiladeiro de Brenner com toda a comodidade.

Na área de serviço junto à ponte foi construída no mesmo ano a Europakapelle, a Capela da Europa, dedicada a São João Nepomuceno e a São Cristóvão e decorada no seu exterior por frescos de do pintor italiano Karl Plattner (1919-1986).

Uma janela no fundo da capela permite-nos descortinar um belo panorama sobre a ponte.

 




 Em Axams também nos arredores de Innsbruck, encontrámos uma estátua numa fonte, datada de 2007, e um mural numa agência bancária, de 1971, ambos representando o nosso Santo.






 

                                                        Fotografias de 2 de Agosto de 2026

                                                                                         José Liberato