O Monte Gordo
Nenhum escritor excede JPM em talento
de narrar, em apanhar as expressões e os gestos humanos em flagrante.
A importância do corpo é marcada por
vários elementos que dominam a literatura de JPM. São várias as personagens,
aliás, que parecem dar demasiada importância à aparência pessoal. Procuram
muitas vezes localizar a sua imagem num espelho, para nele se estudarem.
Talvez
por isso, alguns romances começam com um dos protagonistas a acordar de manhã e
a ver-se ao espelho, para avaliar o físico. Em A Aluna Americana, o
protagonista José Duarte acorda com a neura e, depois de tomar banho, olha-se
ao espelho. Fumador empedernido e magro, com o cabelo a cair, repara que os
pêlos lhe nascem nos sítios mais improváveis: "talvez não fosse, ainda, a
senescência – tinha apenas 50 anos –, mas parecia-lhe óbvio que o seu corpo
perdera viço e abrandava" (p. 8).
Em Haiti, Honoré Gabriel Lazarus levanta-se do cadeirão e vê-se a um
espelho circular. Este devolve-lhe a imagem de um homem magro, com os olhos a
perder fulgor e o cabelo a "recuar", passando de ruivo a grisalho:
"talvez ainda não fosse velho, mas os 52 anos já lhe carregavam a
fisionomia" (p. 7).
E em Até ao Fim da Terra, é o marechal Massena que acorda, mas ao lado
da amante. O seu olhar perdeu brilho: "Sempre que se olhava ao espelho via
um idoso de sessenta e muitos anos, quando, na verdade, só tinha 52" (p.
8).
O espelho é uma imagem recorrente. Em O Estranho Caso de Sebastião Moncada,
Mateus olha-se ao espelho na página 198: "Na parede um espelho rachado e
levemente ovalado devolveu-lhe uma estranha imagem de si próprio"; em Uma
Fazenda em África é o governador Leal que, na página 388, "às vezes
mal se reconhecia quando se olhava ao espelho"; e em Haiti, na
página 230, Honoré de Beauregard "gostou de se ver sorridente, vagamente
reflectido na água do lago".
Os rios funcionam, não raro, como espelhos. As águas são tão cristalinas que se
podia fazer a barba por elas: "o arvoredo das margens reflectia-se nele
[rio Cávado] como num espelho", "O Tejo estava sereno, brilhava como
um espelho azulado" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs.
83, 314); Benedita "deixara-se ficar na amurada a estudar a imagem do
navio desenhada nas águas paradas, como num espelho", "O rio estava
lindo. A superfície quieta reflectia o escasso arvoredo das margens" (Uma
Fazenda em África, págs. 50, 426); "Passeavam no Terreiro do Paço,
junto ao rio, e já se viam reflectidas na superfície da água, as luzes
espaçadas e trémulas dos candeeiros" (Vento de Espanha, p. 92);
"Foi até à beira-rio, ficando largos minutos a contemplar o Tejo",
"Aproximava-se do rio viu que, à luz do sol poente, a água reflectia a
margem esquerda tal qual um espelho" (Do Outro Lado do Mar, págs.
19, 221); "o braseiro da ponte a reflectir-se nas águas do rio" (Até
ao Fim da Terra, p. 230).
Neste conspecto, a obesidade possui
uma dimensão simbólica e, ao mesmo tempo, é uma chamada de atenção para o
chamado Fat pride (movimento social e cultural de
"orgulho gordo", que promove a consciencialização contra a
"gordofobia" e nasceu na década de 1960, com um protesto em massa no
Central Park, em Nova Iorque, com os activistas queimando
milhares de livros de dieta).
As pessoas gostam dos carecas, como
também gostam dos gordos. Tal como Jesus Cristo escolheu os pobres, JPM é pelos
gordos. Convida-nos a ver um mundo social como um grande mar de gordos, como se
todos os gordos tivessem falado uns com os outros, precipitando-se ao encontro
uns dos outros nos romances de JPM.
Enumero os que encontrei (muitos mais
haverá), para governo do próprio JPM: Sátiro da Costa possui um
"corpo anafado", como um "bacorinho rosado",
"Eufrásia era uma figura volumosa", "Etelvino
de Vasconcelos era um homem anafado", "um
enfermeiro gordo", "uma mulher gorda",
"o vulto paquidérmico do
taberneiro", a criada de Poleciana é "trigueira
e avantajada", na Póvoa de Varzim, Mateus deparou-se com
um "homem jovem, gordo, de olhar risonho e estupidez
evidente na expressão", Juliana é uma "criada gorda",
"um indivíduo gordo que estava ao lado do
cocheiro", "um tenente de engenheiros procurava convencer um
jovem gordo reticente a trabalhar", "o
corpo gordo, fumando, deleitado, o seu grosso charuto" [de
Etelvino], "a senhora gordinha que se sentava ao
lado do tenente", "um padre gordo", "homem gordo muito
falador", "o homem gordo discordou" (o
passageiro de uma carruagem), "Mateus reconheceu-a [à criada
Quitéria], ainda que estivesse mais gorda", "uma
mulher gorda e imunda" (O Estranho Caso de Sebastião
Moncada, págs. 9, 19, 31, 50, 62, 88, 92, 99, 108, 117, 163, 166, 188, 271,
301, 312, 321, 330).
Às vezes parece que JPM só trabalha
com personagens gordas: o cônsul Joaquim Baptista Moreira
"bamboleando o seu corpo gordo", Benedita
"viu um homem gordo, de barriga espaçosa e
gestos demorados", "o caixeiro, um homem gorducho",
o cônsul "abanando o seu corpo gordo", "um
homem gordo", "o cozinheiro – que era um homem grande
e gordo", o Dr. Vilela com o seu traje de cerimónia,
"apertando o seu corpo gordo dentro de uma
espécie de fraque", "o embaixador era um homem gordo e
jovial", "um cavalheiro gordo", "um
transeunte gordo", "um sargento gordo",
"um homem gordo, de meia idade e pele afogueada", o
escrivão é "um homem pequenino e gordo como uma
almôndega", "um sargento gordo e corado, picado das
bexigas", "uma mulher volumosa", "um homem jovem
e gordo" (Uma Fazenda em África, págs. 12, 23, 31, 44, 63,
81, 119, 158, 238, 245, 292, 294, 314, 335, 368, 417).
Todos tão gordos, tantos
como uma chuva deles, como se tivessem vindo de todos os pontos do
país: "uma mulher gorda", "um homem gordo",
"uma mulher gorda e vermelhusca", "um
homem gordo e careca", "o dono do café, um
homem gordo e um pouco oleoso", no cinema "um
homem gordo soltava altas gargalhadas", Augusto Marçal
"o gordo", "uma mulher gorda, com um
excesso de pulseiras nos pulsos", "Sarita, enfermeira do
Tercio, uma baleia de gordura", um oficial de
artilharia, "grande mas algo balofo", "um homem gordo",
"O Dr. Péricles Fresco era um homem gordo", Jacquet
"um homem gordo e baixo", "um
homem grande e volumoso", uma "mulher gorda deu
um grito (...) como se tivesse acabado de ver o Diabo",
Artur Cisneros, "um homem gordo e baixinho" (Vento
de Espanha, págs. 19, 36, 41, 71, 105, 107, 116, 123, 127, 177, 183, 189,
235, 251, 276, 298).
Do Outro Lado do Mar é
outro livro à cunha de gordos: "um tipógrafo gordo"
(no Rossio), uma lavadeira "de formas generosas", "uma
mulher gordíssima", "um senhor gordo",
"uma mulher gorda, de ancas largas e braços fortes",
"um homem gordo" (um taberneiro), "um
padre gordo", "sobre uma espécie de otomana, estava uma
mulher muito gorda", "uma preta gorducha",
"Amália, a escrava gorda", um agente que
"era um homem gordo", Bento Garcez "e a
sua cara gorducha", Felicidade, "uma
escrava gorda", "a mulata gorda", Rainha
Lina "uma mulher gorda", "um
italiano gorducho" (págs. 15, 16, 21, 23, 60, 84, 99, 126, 160,
170, 177, 182, 212, 218, 297, 354).
A preferência de JPM pelos gordos é
manifesta: Melchior tem "excesso de peso", "uma gordíssima negra", um
padre "gordo e baixo, com cabelos ruivos em desalinho" e
"um homem gordo e baixo", o médico responsável pelo
hospital de sangue "era um homem gordo que operava
em tronco nu", Léger-Félicité possui um "corpo avantajado",
tia Fátima é "uma mulher escuríssima e volumosa", o
carroceiro é "um homem gordo", Monsieur Roland,
"um homem gordo, de cabelo branco"; (Haiti, págs.
34, 66, 94, 106, 139, 155, 209).
A relação individual e profunda entre
JPM e as personagens anafadas é uma das magias destes
romances, com a luta de gordos a surgir como motor da história: os Antunes, da casa de pneus, são "dois roliços irmãos gémeos
de Torres Vedras", o tio de Isabel "era um homem gordinho",
"um homossexual gordo", "um homem gordo",
"Etelvina era uma mulher de meia idade obesa",
"O editor da Moraes era um homem gordo" (A Aluna
Americana, págs. 20, 59, 216, 239, 240, 285); "uma
mulher gorda, corada, com grande papada", Don Alonso
Pascoal Mesquita, o notário, "era exageradamente gordo",
"um padre risonho e muito gordo" (Até ao Fim da
Terra, págs. 38, 146, 240); "Entregou o chapéu à
mulher gorda", "o subdelegado era um
homem gordo", "o gordo e sempre sorridente
Filipe Barbosa", "uma mulher gorda, enorme",
"Guiomar era uma mulher avantajada", um "homem gordo muito
irritante", "uma criada pequena e gordinha", "um
homem gordo e seboso", uma "enfermeira gorda"
(Os Dias da Febre, págs. 67, 70, 105, 118, 142, 178, 207, 262, 282); o
capitão Cruz é "um homem gordo, incompetente, pouco
zeloso", Evangelia Hannah é "uma
mulher volumosa – uma figura imponente. Devia ter bem à vontade
uns noventa quilos e mexia-se de forma lenta, paquidérmica", numa
sala de espera vê-se "uma mulher gorda, sessenta anos ou perto
disso" (O Prazer de Guiar, págs. 50, 85, 93); Zeferina, "uma
mulher de bata e avental. Era gordinha e arruivada",
"um locutor gordo", "um homem baixíssimo, gordo e
sem pescoço", "uma americana gorda", "um
polícia gordo", "um sargento gordo" (Um
de Nós Deve Lembrar-se, págs. 103, 116, 140, 203, 211, 257). (Estimativa do
total de gordos no repertório literário marquiano: 112.)
O Escritor e o Toureiro
Depois dos gordos, os toureiros e o
ambiente taurino são outro local de predilecção de JPM: Fontes
Pereira de Melo "perguntou, com dois polegares enfiados nos bolsos do
colete e o corpo levemente arqueado para trás, como se desafiasse um
touro", "como um toureiro numa praça de touros"
(Uma Fazenda em África, págs. 49, 373); "Ela sabia tourear o
seu lado animal en souplesse. E não se cansava. Toureá-lo-ia de
novo", "é preciso saber tourear o tempo. Se o
tourearmos bem ele nunca acaba" (A Aluna Americana, págs.
99, 276); "O torso e o pescoço eram largos como os de um touro"
(Até ao Fim da Terra, p. 49); "Custódio continuou a
marrar como um touro enraivecido" (Vento de Espanha, p.
215); Melchior "forte como um touro",
Francisco Quiñones é "um homem elegante como um toureiro"
e (Haiti, págs. 34, 151); Auzenda "sentiu-se mais
sabida do que um touro corrido" (Os Dias da Febre, p.
264); "decidiu pegar o touro pelos cornos"; p. 344:
"gritou Vasco, da porta da sala, como um forcado que chama um
touro" (Do Outro Lado do Mar, págs. 216, 344); Luís é um
indivíduo com "estampa de toureiro" (O Prazer de Guiar,
p. 137). Em face disto, passam quase imperceptíveis os dois
boleeiros "que contemplavam em silêncio e com ar bovino uma
garrafa" e a "imobilidade bovina" daquela outra
personagem (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 213, 29); o
escrivão "com um sorriso bovino" (Uma Fazenda em
África, p. 315) ou o tipo "com ar parado e bovino" (Vento
de Espanha, p. 98).
Bestiário marquiano
É impossível entender as personagens
de JPM sem uma análise da ontologia das relações entre todos os seres vivos,
com o mundo não humano invadindo os humanos para formarem um organismo
único. Contrário àqueles que pretendem separar natureza e cultura, JPM
defende um mundo comum, uma aliança entre humanos e não humanos (animais,
plantas, micróbios, vírus, macacos, cães, veados, ovelhas, hienas, lobos,
raposas, leopardos, porcos, etc.). Nessa ordem de ideias, as personagens só
adquirem o seu verdadeiro sentido quando engastadas nas comparações com
animais, ou seja, quando adquirem simbolicamente determinadas propriedades físicas de
outros seres vivos.
Para JPM, como para Charles Darwin, a
diferença entre o ser humano e os outros animais não é grande nem fundamental,
porque, no fim de contas, uns e outros não foram criados separadamente. É
verdade que os animais sempre ocuparam um lugar importante na literatura
(desde Jonathan Swift a James Joyce ou Franz Kafka, passando por
poetas como William Wordsworth, Percy Bysshe Shelley,
Lord Byron ou John Keats), tal como é verdade
que Chesterton comparou S. Tomás de Aquino a um boi e que José
Cardoso Pires escreveu A República dos Corvos, juntando-lhe a
seguinte epígrafe: "Cada homem transporta dentro de si o seu bestiário
privado – disse o Juiz.”
Fosse recorrendo
às características menos desejáveis dos animais para criticar os traços
menos desejáveis dos seres humanos; fosse para enaltecer a beleza e a
liberdade dos animais no seu estado selvagem natural, para
instar os seres humanos a realizarem o seu potencial criativo, libertando-se da
domesticação social; fosse para criar alegorias, utilizando o estilo
tradicional das fábulas para contar histórias sobre, por exemplo, a angústia no
século XX (Kafka); fosse por que razão fosse, muitos têm sido os escritores que
pensaram a participação dos animais não humanos nas culturas humanas.
Diferentemente de toda essa tradição,
na obra de JPM a representação dos animais constitui um campo de estudo
próprio, que não depende nem da alegoria nem da fábula (em que os porcos tomam
o pequeno-almoço à mesa e as rãs se convertem em príncipes). A sua
grande fonte de inspiração é o inglês H.G. Wells, que no seu clássico de
ficção científica, A Ilha do Doutor Moreau, publicado em 1896,
cria uma espécie de "paródia perversa da história da Arca de Noé").
Perversa porque Wells defende aí que nem a virtude, nem discernimento
nem o entendimento nos distinguem do restante mundo
animal, excepto uma aptidão única nos seres humanos para a
desumanidade. O que torna difícil afirmar que os seres humanos são humanos
(pelo menos na sua acepção comum, associada a valores como empatia e
solidariedade, respeito, tolerância e dignidade, amor e compaixão, honestidade
e integridade). Porque, pensando bem, o ser humano é uma besta!
Tal como a crueldade para com os
outros animais reflecte a crueldade para com os seres humanos –
"Aquele que é cruel com os animais
também é cruel nas suas relações com os seres humanos.
Podemos julgar o coração de uma pessoa pela forma como ela trata os
animais" (Immanuel Kant) –, também a compaixão pelos animais
pode despertar compaixão pelos seres humanos.
Nos romances de JPM, os seres humanos
evocam-lhe constantemente representações de animais (sugiro ao editor de JPM que, futuramente, estes romances deveriam ser cuidadosamente anotadas por zoólogos). De
alguma maneira, JPM aprendeu coisas fundamentais sobre o seu próprio
comportamento a partir do estudo do comportamento dos outros animais, como se o
escritor não conseguisse identificar, por si próprio, os seus sentimentos e
interesses individuais, apenas através das representações sugeridas por animais
como o orangotango, a gata, o buldogue, o chimpanzé, a formiga, a gaivota,
o gafanhoto, a lula, a lapa, o leopardo, a leoa, o falcão, o pardal, o
papagaio, a cegonha, o morcego, o sapo, o elefante, o porco, o milhafre e um
longo etecetera, que vai daqui até ao Badoca Safari Park: "mãos
invulgarmente grandes, como as de um chimpanzé", "o sargento
Delfim abriu os seus longos braços de orangotango" (O Estranho
Caso de Sebastião Moncada, págs. 27, 109); "braços como um
orangotango" (Até ao Fim da Terra, p. 50); "as maçãs do rosto
salientes e os olhos encovados e baços davam-lhe um leve ar de símio
triste" (Uma Fazenda em África, p. 332); "cara de
macaco" (Do Outro Lado do Mar, p. 17).
Há evidentemente animais mais
evocadores do que outros: "Carmen ronronou como uma gata" (Vento
de Espanha, p. 292), uma mulher muito gorda, amante do soba, "ronronou
como uma gata" (Do Outro Lado do Mar, p. 126), "aquele
sorriso de gato compreensivo" (Os Dias da Febre, p. 117),
"reagiu como um gato encurralado" (A Aluna Americana, p. 100),
Sátiro "sorriu-lhe, semicerrando os olhos como um gato bem nutrido e
dengoso" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 16).
Tudo o que rodeia
JPM adopta as características de uma espécie de mente animal:
"amores em voo rasante, como o das gaivotas junto à superfície do
mar"; p. 134: "aqueles seus olhos tristes, perdidos atrás do nariz
curvo e tão afilado que fazia lembrar o bico de certas aves brasileiras" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 26, 134); p. 210: "um
carteiro saltava como um gafanhoto"; p. 269: "branca que
nem uma lula" (A Aluna Americana, págs. 210, 269);
"ligada àquele secretária como a lapa ao rochedo em que nascera" (Uma
Fazenda em África, p. 26); "Cairiam sobre ela como o astuto leopardo
caía sobre a gazela desatenta"; "com o desespero de
um búfalo cercado por leoas esfaimadas", "para se sentir
acolhida, como o falcão de volta ao ninho", "partir sem deixar rasto,
como o pardal perdido que vinha roubar milho e voava ao entardecer",
"repetindo as mesmas palavras, como os papagaios", "ergueu-se
num pulo, arqueou as pernas como o leopardo pronto a saltar", "nariz
pontiagudo e postura de cegonha", "A mão esquerda do escrivão
apoiava-se como um sapo no papel", "um ar de morcego
assustado"; (Uma Fazenda em África, págs. 155, 158, 172, 257,
314, 427).
Com JPM estamos perante uma autêntica
"viragem animal" (animal turn), que poderá servir de
modelo a seguir pelos "estudos animais" (animal studies):
"como se fosse um elefante" (Vento de Espanha, p. 219);
"apossava-se dele bruscamente com a voracidade de uma leoa" (Haiti,
p. 148); p. 53: "homens que corriam como gnus"; "soltou um
surdo rugido de leão saciado"; p. 58: "Sentindo-se mais sábio do que
a coruja que levanta voo ao entardecer"; p. 62: "Calulu era diligente
como a formiga e respeitador como o chacal"; p. 62: "como o milhafre
que não se contenta em caçar ratos"; p. 63: "deixar vaguear pelas
ideias, como uma manada sem rumo"; p. 64: Musumbi "não
conseguiu evitar um lento rosnar de fera saciada"; p. 83: "ressona
como um porco" (Do Outro Lado do Mar, págs. 53, 58, 61, 63,
64, 83); p. 207: "uma face de búfalo"; p. 211: "com
cara de pargo assustado"; p. 250: "o ar atentíssimo e perscrutante de
uma raposa" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 207, 211, 250).
Um dos animais que ocupa um lugar
preponderante nestes livros é a formiga, talvez porque ela sobreviveu aos
dinossauros e sobreviverá também aos seres humanos: "com a paciência
e a persistência de uma formiga diligente", "um trabalho
de formiga laboriosa e calculista", "num afã de
formigas" (Uma Fazenda em África, págs. 25, 188, 212);
"num afanoso vaivém de formigas" (O Estranho Caso de
Sebastião Moncada, p. 179).
Animal social por excelência, as
formigas não sobrevivem sozinhas, por isso vivem em colónias altamente
organizadas (os formigueiros), onde se acumulam milhares ou mesmo milhões
de insectos desta família: "numa azáfama de formigueiro",
Peter chegou a Abomé e ficou fascinado com "aquele formigueiro
humano", "Ela gostava de ver Abomé assim uniformizada e
completamente tomada pelo fetiche da guerra, como se fosse um grande
formigueiro" (Uma Fazenda em África, págs. 62, 103, 160);
"Aquilo [a Universidade de Harvard] é assim uma espécie de formigueiro
inteligente", mercados em Londres que se convertiam "num formigueiro
de pessoas", "Havia uma multidão na estação, uma espécie de formigueiro
de gente que chegava e partia" (A Aluna Americana, págs.
26, 159, 206); "a margem direita do Berezina formava uma grande
mancha negra sobre a alvura da neve, como se fosse um formigueiro
gigante" (Até ao Fim da Terra, p. 229); "o bulício que
formigava ao longe", uma grande caravana "depressa se
transformou num formigueiro humano", o cais da Baía, no
Brasil, era um "activo formigueiro humano" (Do Outro
Lado do Mar, págs. 64, 70, 80). Enfim, "parecem formigas"
(Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 263).
Sem tanto destaque, mas não menos
importante, os cães: "com olhos brilhantes de cão
cobiçoso" (Do Outro Lado do Mar, p. 59), Etelvino de
Vasconcelos tinha uma "expressão parecida com a de um buldogue
inglês" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 31). As
personagens de JPM, tal como os canídeos, são conhecidas por
reclamar, queixar-se ou mesmo, mais dramaticamente, rosnar: "rosnou o
homem", Etelvino "limitou-se a rosnar um 'deixa
aí'", Golias "rosnando como um bicho" (O Estranho
Caso de Sebastião Moncada, págs. 91, 169, 226); o nadador negro "rosnou qualquer
coisa", José Leite, sócio de Bernardino, "não parava
de rosnar o seu descontentamento entre dentes", "uma
cabeça que o fixou, rosnando", "ela rosnava de
dor e prazer", José Leite "ia rosnando entre
dentes", "rosnando ameaças" (Uma Fazenda em
África, págs. 94, 117, 133, 152, 293, 338); um grupo de populares "rosnando ameaças",
um homem pequeno que "rosnava insultos", "rosnando impropérios"
(Até ao Fim da Terra, págs. 38, 40, 53); "Ofendido, o outro rosnou,
ladrou, tentou mordê-lo" (O Prazer de Guiar, p. 9);
"Biassou rosnou de prazer e reclinou-se na cadeira"
(Haiti, p. 121); Carlos "rosnando ameaças" e
Robert "rosnou entre dentes" (Os Dias da Febre, págs.
132, 175); "Um padre? – rosnou" (Vento de Espanha,
p. 295); Francisco "rosnou, desdenhoso" (Um de Nós Deve
Lembrar-se, p. 22); Gaspar "a rosnar, de dentes à mostra, como
um animal selvagem", os escravos "rosnaram-lhe" (a
Gaspar), o capitão "rosnou uma resposta", Eugénia "rosnou-lhe,
entre dentes" (Do Outro Lado do Mar, págs. 122, 130, 147, 287).
E já que de dentes falamos, seja-me
permitido realçar que as personagens de JPM, sendo de carne e osso, exibem uns
dentes deslumbrantes, muito regulares e muito brancos, tão perfeitamente brancos como os de Paulo Portas, depois
de os ter branqueado. Sei pouco sobre odontologia, mas do pouco que
sei, o essencial é que não há nada como dentes muito brancos: "dentes
muito certos e de uma brancura imaculada", D. Matilde de Araújo
"sorriu, mostrando uma fileira de lindos dentes, muito brancos e
pequenos" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 64,
186); "os dentes, muito brancos, resplandeciam" (Uma
Fazenda em África, p. 134); Sara tem "dentes muito certos e brancos",
Vasco tem os "dentes muito certos e muito brancos" e Clarice
possui "dentes muito brancos" (Do Outro Lado do Mar,
págs. 139, 185, 213).
JPM nutre um enorme fascínio pelo
branco, provavelmente porque o branco é a abstracção pura, ou talvez
porque sugere higiene e pureza: "vestido imaculadamente branco"
(Haiti, p. 37), "O homem vestia umas calças imaculadamente
brancas" (nem as próprias calças verdadeiras jamais tiveram um branco
assim) (A Aluna Americana, p. 202); a "brancura imaculada"
das paredes das casas, "uma casinha fresca, imaculadamente caiada
de branco" (Vento de Espanha, págs. 144, 187).
Um branco tão intenso, tão
magnificamente belo, que custa descrevê-lo. Convencido de que não existe nada
de mais profundo que o vazio nem de mais belo que um lençol branco, JPM eleva
as pequenas coisas humildes com frases que despertam um entusiasmo quase
místico: "branco como um lençol" (Haiti, págs. 37,
106); "Celestino, branco como um lençol", Sátiro Costa
"estava branco como a cal da parede" (O Estranho Caso
de Sebastião Moncada, págs. 220, 229); "branco como a cal"
(Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 41).
Pequenas inclinações literárias
A exactidão anatómica de
certos gestos é outro ponto forte de JPM. De facto, o autor compila e passa em
revista os vários gestos, os movimentos e, em geral, todas as peças do corpo
humano. Graças a isso, JPM ultrapassa um Machado de Assis (especialista nos pequenos pormenores
físicos das suas personagens, como os movimentos dos olhos e outros
trejeitos) ou até mesmo o rigor e a expressividade de
um Eça de Queirós.
Para JPM, o corpo é um todo vivo e
misterioso que caminha, que se agacha, que se levanta e que se
inclina: "Mateus agradeceu com uma leve inclinação do
corpo", Mateus apoia "os cotovelos na mesa e inclina-se para
a frente para ouvir melhor", "A mulher inclinou a
cabeça", "Gonçalo Henriques inclinou-se para a
frente, surpreendido", "inclinando a cabeça para o lado
esquerdo e fechando os olhos em total concordância", Sátiro "inclinando-se para
a frente na cadeira" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 76,
213, 243, 246, 264, 289).
Um corpo que se inclina pode
dizer muitas coisas aos que o contemplam (submissão, respeito, cansaço,
segredo, cumplicidade, sedução): Libango, um negro grande, "levemente inclinado para
a frente", Bernardino: "inclinou-se um pouco para
a frente na cadeira, apoiou ambas as mãos no tampo da mesa", o
capitão Comminges de Marselly "com o corpo
levemente inclinado para ela [Benedita]",
"Benedita inclinou a cabeça para o lado
direito" (Uma Fazenda em África, págs. 86, 189, 221, 243),
"José Duarte fez um aceno e uma ligeira inclinação de
cabeça", Isabel "pondo a cabeça ligeiramente de lado",
"Quando ele se acercou de Isabel inclinou a cabeça
ligeiramente para o lado esquerdo", "inclinou-se ligeiramente
para a frente", "José Duarte inclinou-se sobre
a mesa", "A doutora Sarah Payne inclinou-se ligeiramente
para a frente" (A Aluna Americana, págs. 19, 22, 110, 150,
165).
Neste movimento de flexão, o corpo
(ou apenas a cabeça) mobiliza-se de maneira harmónica e coordenada, pondo a
funcionar a anca, o tronco, os músculos abdominais e a cabeça (com o pescoço e
a coluna vertebral controlando a descida contra a gravidade): "inclinando-se para
diante, como se precisasse de ver mais de perto", "disse Robert,
apoiando os cotovelos nas coxas e inclinando-se para a
frente na cadeira", "Elvira correspondia com uma
leve inclinação da cabeça", "respondeu Robert, com
uma pequena inclinação da cabeça", "garantiu
Roberto, inclinando-se para a frente" (Os Dias da
Febre, págs. 24, 89, 130, 198, 203); o capitão Calheiros "despediu-se
dos seus interlocutores com uma leve inclinação da cabeça",
"inclinando levemente a cabeça", "agradeceu
com uma inclinação na cabeça", "e inclinando-se um
pouco para a frente, resolveu confessar os seus afectos", "Bento
agradeceu com uma inclinação de cabeça",
"Bento inclinou-se ligeiramente para a frente, na
cadeira" (Até ao Fim da Terra, págs. 35, 107, 113, 120, 128, 141);
um homem grita "inclinando-se para diante na cadeira"
(Vento de Espanha, p. 252); "Fez uma leve inclinação de cabeça"
(Haiti, p. 238); "disse Caetana, acentuando o sorriso e inclinando levemente
a cabeça para a direita", "fez uma pequena pausa chegando-se
para a frente no grande cadeirão", Caetana "tinha a
cabeça um pouco inclinada para a esquerda",
"Vasco inclinou-se para a frente, apoiou as duas
mãos sobre a mesa", Vasco com a sua "leve inclinação do
corpo", Eugénia "semicerrou os olhos, inclinou a
cabeça e aplaudiu", Bento Garcez "chegou-se para a frente" (Do
Outro Lado do Mar, págs. 24, 27, 30, 136, 161, 205, 324).
Uma tarde na Moviflor
A precisão concreta de alguns
movimentos leva-nos a observar os móveis que decoram estes livros, nomeadamente
as cadeiras, os cadeirões, os canapés e as poltronas: Luísa "ajeitou-se
melhor na cadeira", Etelvino "recostou-se na cadeira",
"Mateus ajeitou-se na cadeira", "Mateus quase se
ergueu da cadeira onde se sentara", "Gonçalo Henriques recostou-se
melhor no canapé", "Sátiro continuou a remexer-se no
assento, sem posição" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada,
págs. 66, 199, 215, 246, 251, 263); cônsul "recostou-se melhor no
cadeirão", "O barão suspirou e ajeitou-se na cadeira",
velho Costa "remexeu-se na cadeira", "Bernardino empertigou-se
na cadeira", "Luz Soriano recostou-se na cadeira"
(Uma Fazenda em África, págs. 17, 45, 189, 190, 226); "Tolentino
sorriu com desdém e recostou-se na cadeira", "José
Duarte mudou de posição na cadeira" (A Aluna Americana,
págs. 142, 232); Bento "mudou de posição na cadeira";
"Ele suspirou e recostou-se na cadeira", Maria Constança
"mudou de posição na cadeira" (Até ao Fim da Terra,
págs. 106, 110, 120); Robert "remexeu-se no assento, para iludir o
sofrimento", "chegando-se mais à frente na cadeira",
"concordou Elvira, mudando de posição para tentar iludir a
incomodidade da cadeira", Conceição "recostando-se melhor no
canapé" (Os Dias da Febre, págs. 278, 280, 292, 293); Vasco
"recostou-se no assento", Tarquínio Torcato "mexeu-se
na cadeira, sem posição", Eugénia "recostou-se no canapé,
como se quisesse ganhar espaço", "Bento recostou-se no seu
cadeirão, para se acalmar", Vasco "recostou-se na cadeira"
(Do Outro Lado do Mar, págs. 41, 161, 285, 328, 363); "ajeitou-se
no assento" (Vento de Espanha, p. 14); "João recostou-se
melhor no assento" (O Prazer de Guiar, p. 14); "recostando-se
melhor na poltrona", "perguntou Robert, recostando-se no
canapé", disse Catarina "endireitando-se no canapé" (Os
Dias da Febre, págs. 34, 115, 155).
Tambourine Man
À parte as situações particulares e
as variações individuais, é possível identificar nos romances de JPM movimentos
típicos – o modo como tratam a madeira – que traduzem aspectos do
quadro emocional das personagens: Mateus "bateu seca e vigorosamente
com os nós dos dedos na madeira, como quem excomunga um demónio",
o major Arrobas "deu uma palmada apreciativa no tampo da mesa",
"Sátiro estacou, deu três pancadas com os nós dos dedos numa porta próxima
e esconjurou o azar", Mateus "bateu com o punho cerrado na mesa"
(O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 31, 150, 212, 292); o
ministro "tamborilando nervosamente com a ponta dos dedos no tampo da
secretária", "Pascoal cerrou os punhos e deu uma pancada
na mesa", "Bernardino deu um murro na mesa" (Uma
Fazenda em África, págs. 26, 137, 315); José Duarte, na casa de pneus, no
cubículo envidraçado que fazia de escritório da oficina, "bateu com os
nós dos dedos", Tolentino "apoiou os punhos cerrados no tampo
da secretária", "Bateu com os nós dos dedos na porta"
(A Aluna Americana, págs. 21, 142, 170); "Levantou-se da
mesa, apoiando-se nas palmas das mãos" (Até ao Fim da Terra,
p. 58); "Valentina deu um murro na mesa e sentou-se em
frente do colega" (O Prazer de Guiar, p. 48).
Quando damos murros nas mesas, ou
apoiamos as mãos abertas sobre o respectivo tampo, pretendemos
enfatizar as nossas palavras e, com isso, preencher a distância entre o
significante (o soco, um signo não verbal, segundo a semiótica) e o significado
(a ideia de raiva, a necessidade de dizer "basta" ou colocar um
"ponto final"). Quando damos pancadinhas com os nós dos dedos ou
pousamos as mãos sobre o tampo da secretária, a situação semiótica é a mesma,
embora com intensidades e intenções comunicativas diferentes: Gervásio "deu
um murro na mesa", "a tia poisou ambas as mãos sobre o
tampo da mesa", Custódio bateu à janela de Lurdes com "as
habituais pancadinhas com os nós dos dedos", "Deu um
fortíssimo murro no tampo da secretária", "Ele bateu com
os nós dos dedos num dos vidros" (Vento de Espanha, págs.
51, 63, 110, 112, 192); "Jean-François deu um murro na mesa e
ergueu-se" (Haiti, p. 195); Mme Charpentier
"dava três eloquentes pancadas com os nós dos dedos no
tampo da mesa", "bateu com os nós dos dedos no tejadilho
da carruagem", "gritou Coelho do Amaral, batendo com o punho
cerrado na mesa" (Os Dias da Febre, págs. 119, 259, 308);
"Tarquínio Torcato deu um irado murro no tampo da mesa",
Torcato "espalmou ruidosamente as mãos abertas sobre o tampo da mesa,
apoiou-se nelas, ergueu-se e despediu-se de forma abrupta", Eugénia
"esconjurou a ideia, batendo com os nós dos dedos na madeira da
porta" (Do Outro Lado do Mar, págs. 137, 164, 204).
As cabeças de JPM
Na anatomia humana, a cabeça é uma
secção independente do corpo. A cabeça é como uma entidade à parte, um país por
si próprio, com fronteiras definidas, um organismo que vive sozinho, com poder
de decisão para assentir, confirmar ou anuir. As seguintes frases são JPM dos
pés à cabeça (sem esquecer a barba):
1. O Estranho Caso de
Sebastião Moncada: "Sátiro da Costa assentiu timidamente
com a cabeça", "Vilaverde assentiu com a
cabeça", "O rapazinho assentiu com a cabeça",
"Mateus assentiu com a cabeça", Romão
"confirmou com a cabeça", "Mateus nada disse mas assentiu com
a cabeça", "Ela [Poleciana] confirmou com a cabeça",
"Mateus anuiu com a cabeça", D. Pedro, "assentiu com
a cabeça", "Golias assentiu com a cabeça",
"Assentiu com um gesto de mão", Sátiro "voltou
a assentir com a cabeça", "Ele assentiu com
a cabeça e inclinou-se para a frente", "O ministro fez um
ligeiro assentimento com cabeça", "O
duque assentiu com a cabeça", "A mulher assentiu com
a cabeça" (12, 20, 33, 51, 80, 94, 95, 181, 204, 228, 240, 265, 278,
294, 304, 316).
2. Uma Fazenda em África:
"Peter anuiu com a cabeça, numa quase
dormência", Eva "assentiu com a cabeça",
"O homem assentiu com a cabeça", "assentiu com
a cabeça", "O homem assentiu com a cabeça",
"Ele assentiu com a cabeça", "Ele nada
disse, limitando-se a assentir com a cabeça",
"Ela assentiu energicamente com a cabeça",
"Bernardino assentiu com a cabeça", Peter
"assentiu com a cabeça", "Peter assentiu com
a cabeça" (págs. 97, 135, 136, 161, 295, 299, 321, 341, 355, 394,
423).
3. A Aluna Americana:
"Ele assentiu com a cabeça, compreensivo",
"José Duarte assentia com a cabeça", "O
empregado assentiu com a cabeça", "A
doutora Payne assentiu com a cabeça",
"Ele assentiu com a cabeça", "Ela assentiu com
a cabeça", "José Duarte assentiu com a cabeça",
"ficou em silêncio, assentindo com a cabeça",
"José Duarte assentiu com a cabeça",
"disse ele, a sorrir e assentindo com a cabeça” e
"Ele sorriu e assentiu com a cabeça",
"Isabel assentiu com a cabeça e
concordou", "José Duarte assentiu com a
cabeça", "Ela assentiu com a cabeça"
(págs. 35, 57, 110, 164, 169, 202, 205, 231, 232, 270, 276, 278, 282).
4. Até ao Fim da Terra:
"Bento assentiu com a cabeça", "Ela assentiu com
a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça",
"Maria Constança assentiu com a cabeça",
"O antigo Físico-mor assentiu com a cabeça",
"Nepomuceno assentiu com a cabeça", "O
general assentiu com a cabeça", "assentiu ela",
"A mulher assentiu com a cabeça", "O
marquês assentiu com a cabeça", "O
soldado assentiu com a cabeça", Maria Constança
"assentiu com a cabeça", Napoleão "assentiu com
a cabeça", "o tenente francês assentiu com
a cabeça e ficou em silêncio", "O oficial de lanceiros assentiu com
a cabeça", "Constança abriu muito os olhos e, com um sorriso
rasgado, de orelha a orelha, assentiu com a cabeça",
Bento "limitou-se a assentir com a cabeça";
p. 247: "Sá Nogueira assentiu com a cabeça"
(págs. 28, 32, 41, 62, 78, 106, 120, 121, 126, 139, 143, 173, 194, 199, 202,
237, 241, 247).
5. Vento de Espanha: "Ele assentiu com
a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça",
"o padre assentiu com a cabeça",
"Ele assentiu com a cabeça",
"Custódio assentiu com a cabeça",
"Lurdes sorriu e assentiu com a cabeça",
"Ela (Lurdes) assentiu com a cabeça",
Custódio "assentiu com a cabeça", Custódio "assentiu com
a cabeça", "Ele assentiu com a cabeça",
"Ela assentiu", "Custódio assentiu com
a cabeça", "Lurdes assentiu com a cabeça",
"Lurdes assentiu com a cabeça", "Lurdes recebeu
o papel e assentiu com a cabeça", o alferes "assentiu com
a cabeça", "Esteban assentiu com a cabeça",
"Zanelli sorriu e assentiu com a cabeça",
"Custódio assentiu com a cabeça",
"Custódio assentiu com a cabeça",
"Custódio assentiu com a cabeça", Lurdes
"assentiu com um leve inclinar da cabeça", o
coronel Vorobiov "assentiu com a cabeça",
"o general assentiu com a cabeça",
"Ele assentiu com a cabeça", "Ela assentiu com
a cabeça", "Lurdes assentiu com a cabeça"
e "Ele assentiu com a cabeça",
"Vorobiov assentiu com a cabeça",
Maria del Carmen "sorriu, assentiu com
a cabeça", "Esteban assentiu com a cabeça",
o general Kléber "assentiu com a cabeça" (págs. 8,
9, 22, 25, 38, 78, 81, 87, 88, 91, 105, 115, 122, 123, 124, 157, 170, 195, 206,
214, 218, 220, 222, 245, 247, 255, 269, 271, 295, 311).
6. Haiti: Honoré "assentiu em
silêncio com a cabeça", "até Antoine assentir com
a cabeça", "Bartolo assentiu com a cabeça",
"Antoine assentiu com a cabeça",
"Ele assentiu com a cabeça", Jolicoeur "estava
apavorado, as bochechas tremiam-lhe e assentia com a cabeça",
"O negro assentiu com a cabeça",
"Tanguy assentiu com a cabeça", "O
mulato assentiu com a cabeça",
"Beauregard assentira com a cabeça",
"Ela assentiu com a cabeça",
"Joséphine assentiu com a cabeça" (págs. 17,
51, 56, 60, 63, 72, 78, 116, 132, 218, 228).
7. Do Outro Lado do Mar:
"Gaspar assentiu com a cabeça",
"Vasco assentiu com a cabeça e respirou
fundo", "O homem assentiu com a cabeça",
Dona Inácia "assentia com a cabeça",
"Ele assentiu com a cabeça", "o
homem assentiu com a cabeça", "Vasco assentiu com
a cabeça", "Ela assentira com a cabeça",
"Ela assentira com a cabeça", Vasco
"limitou-se a assentir com a cabeça",
"Ele assentiu com a cabeça", "Joaquim
sorriu e assentiu com a cabeça", padre Inocêncio
"assentiu com a cabeça", "O outro assentiu com
a cabeça", "Gaspar assentiu com a cabeça",
"Ele assentiu com a cabeça", "A
mulata assentiu com a cabeça", "O preto assentiu com
a cabeça"; "O negro assentiu com a cabeça",
"Vasco assentiu com a cabeça", "O
médico assentiu com a cabeça" (págs. 75, 77, 98,
107, 123, 136, 147, 168, 184, 195, 220, 267, 240, 292, 293, 295, 337, 343, 346,
347, 348).
8. O Prazer de Guiar:
"a mulher assentiu com a cabeça",
"Raquel assentiu com a cabeça", "Raquel
sorriu e assentiu com a cabeça", "Ela assentia com
a cabeça, embevecida, maravilhada com as palavras dele, escutando-o como se
escuta um profeta" (págs. 29, 70, 89, 142).
9. Um de Nós Deve Lembrar-se:
"assentiu com uma inclinação da cabeça",
"Henrique assentiu com a cabeça, em
silêncio", "Luís assentiu com a cabeça",
Alzira de Jesus, a criada de servir, "assentiu com a cabeça",
"Alzira assentiu com a cabeça",
"Ele assentiu com cabeça", "Pedro assentiu com
a cabeça", "Ela assentiu com a cabeça",
"O amigo assentiu com a cabeça",
"Luís Ashley assentiu com a cabeça",
"O Doutor Alvim assentiu com a cabeça",
"O psiquiatra assentiu com a cabeça" e
"Alfredo Garcia assentiu com a cabeça",
"Papi assentiu com cabeça" (págs. 66, 77, 83,
99, 102, 122, 127, 146, 153, 159, 220, 221, 269).
Estampas & Bordados
Quando extrovertidas e comunicativas,
as personagens sublinham a sua vida interior com expressões incisivas do rosto,
como os estampados (cheios de flores e de pássaros) da Casa
dos Tecidos (gangas, sedas, viscose, bombazine, crepe algodão e muito mais):
dois homens "com a incompreensão estampada nos rostos",
"Via-se o orgulho estampado na cara dos
soldados", homens, mulheres e crianças a correrem, "com o
terror estampado nas caras", Golias "com a
aflição estampada no rosto" (O Estranho Caso de
Sebastião Moncada, págs. 117, 118, 211, 226); a mãe de Benedita "com a
aflição estampada no rosto", "um dos tais
homens (...) que tinham estampada na cara a sua
honradez", "viu-lhe a admiração estampada na cara",
"com o pavor estampado no rosto",
"vinham com a perplexidade e a consternação estampadas no
rosto" (Uma Fazenda em África, págs. 10, 180, 198, 210, 318);
"tinha estampada na cara a convicção",
uma felicidade que "Isabel tinha estampada no brilho do
seu olhar" (A Aluna Americana, págs. 18, 278); "com a honestidade estampada
no rosto" (Até ao Fim da Terra, p.
159); Carmen "com a felicidade estampada na
cara" (Vento de Espanha, p. 328); "com a ansiedade estampada no
rosto", "a felicidade estampa-se no rosto da
maioria dos convidados" (Os Dias da Febre, págs. 68, 240); "a
aflição estampou-se-lhe na cara" (Do Outro Lado
do Mar, p. 311).
Esgar Allan Poe
Expressões pesadamente carregadas de
significados quando associadas a determinadas marcas físicas no rosto, as
quais, ao remeterem para uma dor ou recordação permanente do passado, lhes
conferem uma maior carga emocional ou psicológica: o granadeiro
"tinha uma cicatriz que lhe repuxava o olho esquerdo para
cima" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p.
219); Tanguy Jolicoeur com uma "feia cicatriz que
lhe marcava a face direita", Bartolo, o cocheiro de Honoré, tem
"uma cicatriz na testa" (Haiti, págs. 14, 223);
Vasco tem "fina cicatriz, arranjada numa escaramuça de viela, que
lhe sulcava a face direita e lhe endurecia a expressão", Tarquínio
Torcato (nome inspirado no madeirense Arsénio Pompílio Pompeu de
Carpo, considerado o maior negreiro de Angola) "tinha uma
feia cicatriz" (Do Outro Lado do Mar, págs. 19,
86); Kutúzov tem uma "grande cicatriz na testa"
(Até ao Fim da Terra, p. 192).
A cicatriz provoca uma alteração da
expressão facial, sobretudo quando a rigidez do tecido fibroso se confronta com
certas contrações musculares do rosto que deformam, ainda mais, as feições,
como nos esgares. Como quem está a brincar com um dente molar, Mateus
Vilaverde ergue-se "com um esgar de repulsa na
cara", "um esgar de medo ou dor", "esgar de
irritação", ou Mateus "não conseguiu evitar um esgar de
dor" e o corcunda caiu agarrado à barriga "com um esgar de
dor", o voluntário liberal "tentou sorrir, mas fez apenas um esgar"
(O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 18, 54, 85, 148, 235, 283);
"a boca estava paralisada num esgar", "esgar desdentado
do marinheiro", "concluiu, com um esgar de
sofrimento", Bernardino "fez um esgar e
espirrou", Joaquim Baptista Moreira "fez um esgar",
"A sua boca sem dentes contorcia-se em esgares" (Uma
Fazenda em África, págs. 9, 93, 175, 228, 248, 279); "esgar de
desagrado", "esgar de raiva", "um
inesperado esgar", "fazendo esgares com
a cara" (Até ao Fim da Terra, págs. 44, 51, 217, 221); Valentina
"fez um esgar de desconsolo" (O Prazer de Guiar,
p. 84); "um esgar de recusa e de irritação",
"um esgarzinho de superioridade e desprezo",
"fez um esgar de desagrado", "um
involuntário esgar", "fez um esgar de
descontentamento" (Vento de Espanha, págs. 11, 105, 164, 207, 248);
"Honoré fez um esgar de desagrado e de irritação",
"um involuntário esgar", "um esgar de
desânimo", "com um esgar", "fazendo um esgar à
laia de sorriso", "o sorriso inicialmente irónico converteu-se
num esgar amargo", "um esgar de
ódio", "fez um esgar, à laia de sorriso" (Haiti,
p. 16, 22, 67, 95, 106, 121, 223, 225); "franzindo a cara num esgar amargurado",
"fazendo um esgar de horror", "os esgares de
inveja a todas as mulheres presentes", Catarina fez "um esgar à
laia de sorriso", "um esgar de dor", "com
um esgar de lamento", "com um esgar de
nojo", "um esgar de dor" (Os Dias da Febre,
págs. 18, 110, 127, 152, 183, 188, 219, 282); "um esgar de
contentamento", "esgar de aprovação", "fez
um esgar que parecia um sorriso", "O capitão fez
um esgar de concordância que valia por um vago sorriso",
Tarquínio "fez um esgar desdenhoso", "o capataz
fez um esgar de repulsa", "faziam esgares de
fúria" (Do Outro Lado do Mar, págs. 55, 59, 74, 120, 199, 310,
320).
Olhos muito abertos e ainda mais
esbugalhados
Os olhos das personagens viajam em
todas as direcções procurando um ponto determinado no qual deter-se.
Trata-se de olhares penetrantes, muito abertos, que abarcam todo o campo visual
e que, como predadores, não tiram a vista de cima dos outros. No ar contido do
espaço quadrado que os livros de JPM delimitam, o olhar (com as órbitas ora
contraindo-se, ora dilatando-se) é mais importante que os objectos e
os próprios seres vivos: "garantiu, de olhos muito abertos",
"perguntou Luísa, abrindo os olhos", "olhos
vítreos, muito abertos", "O padre Guilherme fitou-o com
os olhos muito abertos", "estranhou a irmã Machadinho, abrindo
muito os olhos", "Mateus abriu os olhos e
esclareceu", "com os olhos muito abertos e ainda
mais esbugalhados do que o habitual", "o padre fitava-o
com os seus grandes olhos esbugalhados, vítreos", "Abriu
muito os olhos como se tivesse visto o demónio", "com os
olhos a saltar das órbitas" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada,
págs. 81, 82, 144, 148, 188, 198, 250, 321, 336); "com os grandes
olhos muito abertos", "Enquanto dançavam, fixavam o
infinito, com os olhos esbugalhados"; p. 128:
"Bernardino arregalou muito os olhos", "abrindo
muito os olhos", "olhos vítreos e muito abertos", "abrindo
muito os olhos assustados", "Olhava todos com os
olhos muito abertos, esbugalhados", "abrindo muito os olhos"
(Uma Fazenda em África, págs. 60, 99, 128, 259, 339, 345, 353, 377);
"José Duarte abriu muito os olhos, como se estivesse
espantado"; (A Aluna Americana, p. 19); Lecour "tinha
os olhos esbugalhados", Gros, magistrado, preso pelos revoltosos,
com Melchior, é "homem alto e magro, de cabeça calva, mãos ossudas
e olhos esbugalhados", "os seus olhos
agitaram-se como se fossem sair das órbitas", "olhos
esbugalhados" (Haiti, págs. 90, 95, 163, 224);
"esclareceu Lambertine, arregalando muito os olhos",
"garantiu ela, abrindo muito os olhos para melhor
sublinhar a afirmação", Maria "com os olhos bem abertos a
transbordar de entusiasmo" (Os Dias da Febre, págs. 138, 227,
265); "de olhos muito abertos, espavoridos e implorantes"; p.
122: "de olhos muito abertos, narinas dilatadas" (Do Outro
Lado do Mar, págs. 50, 122).
A Arte de Semicerrar Presunto
Quando as
personagens fecham as pálpebras, fazem-no parcialmente, deixando os olhos
entreabertos. Isso tanto pode significar um meio de expressão artística de
JPM, como muitas outras coisas: que as personagens têm problemas de visão
(miopia ou fadiga ocular), procuram proteger a visão contra luzes intensas (ou
fumo do cigarro), ou tentam avaliar cuidadosamente um objecto, alguém ou
um informação: o Dr. Souto "semicerrou os olhos",
"A astúcia e a expectativa fizeram-lhe semicerrar os
olhos", Henriques "fitou-o com os olhos semicerrados"
(O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 30, 59, 76); "de
olhos semicerrados", "olhos semicerrados,
lúbricos", Bernardo "semicerrou os olhos para proteger do
sol", "obrigou-a a semicerrar os
olhos", Kpengla: "endireitou-se lentamente, semicerrando os
olhos", "com os olhos semicerrados", "com os
olhos semicerrados", Joaquim Baptista Moreira mantinha os
olhos semicerrados", "com os olhos semicerrados",
"ele semicerrava os olhos", governador tinha
"os olhos semicerrados" (Uma Fazenda em África,
págs. 12, 35, 36, 133, 148, 164, 148, 164, 243, 248, 279, 331, 401); "José
Duarte semicerrou as pálpebras" (A Aluna Americana,
p. 283); Maria Constança "semicerrava os olhos" (Até
ao Fim da Terra, p. 74); "Raquel pôs a cabeça de lado, desconfiada,
e semicerrou os olhos", "de olhos semicerrados";
"um homem gordo com chapéu de coco azul-escuro" (O Prazer de Guiar,
págs. 27, 123); "pelas frestas dos olhos semicerrados",
"Lurdes semicerrou os olhos" (Vento de Espanha,
págs. 118, 257); "os seus olhos [de Joséphine] se semicerraram e
a boca distendia num sorriso satisfeito" (Haiti, p. 9); "os
olhos semicerrados", "com os olhos semicerrados",
"respondeu Carlos, semicerrando os olhos", Robert
fez uma pausa para pensar, "semicerrando os olhos",
Carlos ficou em silêncio, "mexendo nas suíças, de olhos semicerrados",
Robert franze a cara, "semicerrando os olhos", "Alda
tinha os olhos semicerrados" (Os Dias da Febre, págs.
25, 56, 61, 87, 148, 174, 197); "semicerrando os olhos",
"com os olhos semicerrados", a mulher do soba "de
olhos semicerrados", "os olhos, que estavam semicerrados",
Eugénia "semicerrou os olhos, inclinou a cabeça e
aplaudiu", Gaspar "semicerrou os olhos", Gaspar
"sorriu, ainda deitado, e semicerrou os olhos de
satisfação" (Do Outro Lado do Mar, págs. 17, 32, 126, 139, 205,
274, 309); "sentou-se e semicerrou os olhos" (Um
de Nós Deve Lembrar-se, p. 238).
Por vezes, como de resto todos os
leitores, direccionam os olhos para o lado sem virarem a cabeça. Tal
movimento ocular, pela sua rapidez e discrição, mostra que estas personagens
possuem uma visão periférica bastante apurada, permitindo-lhes detectar movimentos
suspeitos ou perigosos nas laterais do seu campo visual, ou então, quando
acompanhado de um leve sorriso, indicam interesse romântico pela pessoa por
quem se sentem atraídos. Olhar de lado dá-lhes o ensejo de conceberem ângulos
em cima de outros ângulos: "Mateus viu, pelo canto do olho,
uma mulher vestida em tons claros", o estalajadeiro "às vezes olhava
pelo canto do olho para a tropa", padre Guilherme
observava o morgado Gonçalo Henriques "pelo canto do olho",
Mateus "seguia a cena pelo canto do olho", Barbeiro
"olhando pelo canto do olho Mateus" (O Estranho
Caso de Sebastião Moncada, págs. 91, 118, 147, 188, 199); Joaquim Moreira
"olhou pelo canto do olho", "O cônsul olhou de
soslaio", "Bernardino viu pelo canto do olho que a
praia se esvaziava", Benedita "via pelo canto do olho o
ar agradecido e embevecido de Bernardino", "olhou pelo canto
do olho", "Pelo canto do olho percebeu que tinha
sido o alemão a disparar", "enquanto pesquisava, pelo canto
do olho, o paradeiro de Benedita", "Eva viu pelo canto do
olho", "olhando pelo canto do olho" (Uma
Fazenda em África, págs. 14, 17, 142, 144, 159, 169, 263, 279, 374);
"Pelo canto do olho ia observando", José Duarte para
Isabel: "olhando-a de soslaio", Isabel "atravessou o lobby em direcção à
saída vendo de soslaio o olhar do recepcionista", "Olhando, de
esguelha, sobre o ombro" (A Aluna Americana, págs. 18, 20, 50,
178); "O homem tossiu, olhou de soslaio", "pelo canto do
olho, ela via-o fazer sorrisos", "Pelo canto do olho,
viu as freguesas", "olhou pelo canto do olho",
"viu pelo canto do olho", "Pelo canto do
olho viu", "vigiava pelo canto do olho" (Vento
de Espanha, págs. 21, 50, 105, 157, 196, 214, 250); "percebendo,
pelo canto do olho, que Arsénio o encorajava",
"pelo canto do olho ia avaliando a expressão corporal de
Conceição", "o médico foi-a observando de soslaio",
"vigiando a porta pelo canto do olho"; "Elvira viu,
pelo canto do olho", Robert: "pelo canto do olho percebeu
que outros vultos saíam de uma porta escura", Elvira "percebeu
pelo canto do olho", Elvira "disse, pensativa" (Os
Dias da Febre, págs. 45, 135, 195, 201, 241, 282, 313, 315); "olhando
de soslaio", "pelo canto do olho via Caetana
lançar-lhe olhares fundos", "vendo pelo canto do olho",
"Enquanto rezava percebia pelo canto do olho que ele a
observava", "arriscando olhar de soslaio para o crucifixo",
"Vasco ia empurrando o cano da pistola contra as costelas de Prudêncio e
vigiando os outros negros pelo canto do olho" (Do Outro
Lado do Mar, págs. 15, 29, 126, 204, 247, 345); "João olhou de soslaio
para a ex-mulher" (O Prazer de Guiar, p. 106); "pelo canto
do olho viu que ela sorriu", Rita, "pelo canto do
olho, foi-se deliciando com o que via", "Vasco espreitava
pelo canto do olho e via os pais e as tias" (Um de Nós
Deve Lembrar-se, págs. 60, 143, 152).
Mudando de parágrafo, tratemos de
outro aspecto das personagens marquianas: o sorriso (como vimos
antes, podem sorrir e rir à vontade, pois os dentes que mostram são
magníficos). Ao contrário do que afirmam o neurologista Duchenne de Boulougne e
o psicólogo Paul Ekman, segundo os quais existem apenas 19 tipos de
sorrisos, JPM revela que a capacidade humana para produzir sorrisos é infinita,
dada a plasticidade da boca e do cérebro humanos.
JPM é um mestre exímio
na arte do sorriso: um "sorriso vago", um
"sorriso cínico", um "sorriso hesitante",
"um sorriso vago", "um sorriso reconhecido",
"um pálido sorriso", um "sorriso desajeitado",
um "sorriso condescendente", "um sorriso melancólico
e desamparado", um "sorriso desdenhoso",
"um riso cansado e trocista", um "sorriso matreiro"
(O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 14, 148, 190, 213, 245,
247, 251, 259, 290); "um grande sorriso", "largos sorrisos",
"largo sorriso", "um vago sorriso",
"com um sorriso imbecil e indecifrável nos lábios",
"um sorriso satisfeito", "com um sorriso que
lhe iluminava a cara", "com um sorriso cândido",
um "sorrisinho cínico", "sorriu de
alívio e de satisfação", um "sorriso insinuante",
"prolongados sorrisos", um "sorriso agradecido",
"um largo sorriso", um "sorriso beatífico
nos lábios", um "sorriso acolhedor", "um sorriso rasgado",
um "sorriso surpreendido", "um sorriso cortês
e agradecido", "um sorriso doce", um "sorriso amolecido",
"um sorriso aliviado", um "sorriso dorido",
um "sorriso trocista", um "sorriso inquieto",
um "sorriso forçado" (Uma Fazenda em África, págs.
29, 37, 44, 80, 105, 120, 126, 134, 141, 153, 164, 205, 212, 236, 248, 252,
253, 259, 261, 263, 270, 290, 299, 338, 385, 418); um "sorriso desconsolado",
um "sorriso encantador", "um sorriso triste"
(A Aluna Americana, págs. 105, 165, 212); um "sorriso triste",
"um sorriso triste e um gesto vago com a mão
direita" (Até ao Fim da Terra, págs. 102, 188); um "sorriso encantador",
um "sorriso doce e comercial", "um sorriso cúmplice",
"um riso límpido e cúmplice", "um sorriso amarelo";
um "sorriso desdenhoso" (Vento de Espanha,
págs. 79, 83, 86, 102, 112, 218); um "sorriso desdenhoso"
(O Prazer de Guiar, p. 11); "um sorriso artificial",
"um amargo sorriso", um "sorriso desdenhoso",
"um vago sorriso desdenhoso", um "sorriso desdenhoso"
(Haiti, págs. 15, 109, 120, 184, 223); um "discreto sorriso",
"um sorriso enigmático", um "sorriso rasgado",
"um sorriso discreto", um "sorriso trocista",
um "sorriso largo", um "sorriso inseguro",
"um tímido sorriso", "um enorme sorriso",
um "sorriso matreiro", um "sorriso compreensivo,
quase cúmplice", um "sorriso enigmático",
"um sorriso matreiro e talvez vagamente perverso",
um "sorriso rasgado", "um sorriso enigmático",
"um sorriso tranquilizador" (Os Dias da Febre,
págs. 61, 73, 114, 116, 149, 191, 194, 196, 203, 209, 229, 260, 293, 294, 317);
"um sorriso divertido e desafiante", um
"sorriso, desafiante e divertido", um "sorriso divertido",
um "sorriso deslaçado", um "sorriso encantador",
"um sorriso cândido e delicioso estampado na cara",
um "sorriso encantador"; um "sorriso humilde"
(Do Outro Lado do Mar, págs. 11, 24, 80, 82, 106, 196, 214, 219);
"um vago sorriso", um "sorriso amarelo",
um "riso simpático e contagiante" (Um de Nós Deve
Lembrar-se, p. 90, 154, 196). (Ganham o "sorriso desdenhoso"
e o "sorriso encantador".)
Com um sorriso pode-se controlar o
mundo social, obter a adesão, a simpatia e a cumplicidade dos outros. Em
particular quando o sorriso é rasgado ou vai de orelha a orelha: "vinha
de sorriso rasgado na cara" (O Estranho Caso de
Sebastião Moncada, p. 314); "sorriso rasgado", "disse o
homem com um sorriso rasgado" (Uma Fazenda em África,
págs. 37, 353); "ele trouxe uma mão-cheia de mapas e folhetos turísticos,
juntamente com um sorriso rasgado" (A Aluna Americana,
p. 99); Custódio Moreira "saiu da igreja com um sorriso rasgado",
"a sua boca rasgou-se num sorriso de orelha a orelha"
(Vento de Espanha, págs. 23, 192); "abrindo o rosto num sorriso
rasgado", "sorriso rasgado" (Os Dias da Febre,
págs. 114, 293); "Constança abriu muito os olhos e, com um sorriso
rasgado, de orelha a orelha, assentiu com a cabeça" (Até ao
Fim da Terra, p. 237); um negro que "abriu um sorriso de
orelha a orelha" (Haiti, p. 44); "a sua boca rasgou-se
num sorriso de orelha a orelha" (Vento de Espanha, p. 192);
"com um incontrolável sorriso de orelha a orelha" (Os
Dias da Febre, p. 112).
Outros há que não deixam escapar os
sorrisos, limitando-se a esboçá-los. Como respondeu Leonardo da Vinci, quando
lhe perguntaram porque é que deixava os contornos vagos (como no sorriso e no
olhar da Mona Lisa): mais vale esboçar que revelar. Porquê? Porque isso obriga
a mente a trabalhar, levando-a a tentar encontrar significados ocultos nas
posturas humanas, nomeadamente as microexpressões, os pequenos movimentos
faciais, quase imperceptíveis para outrem. O pintor
romântico Eugène Delacroix retomou esta ideia nos seus Diários,
ao dizer que os seus esboços têm mais vida, mais poesia e mais emoção que os
quadros excessivamente trabalhados.
O mesmo se poderia afirmar sobre os
sorrisos: Sátiro "esboçou um sorriso cúmplice", "o
esboço de um sorriso", Mateus "esboçou uma despedida",
Etelvino "esboçou um gesto de desdém e de irritação",
"A velha limitava-se a esboçar um ligeiro sorriso",
Etelvino "esboçou, então, um inesperado sorriso", "esboçou
um sorriso triste" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada,
págs. 16, 44, 53, 106, 167, 169, 286); "acrescentou o rei, esboçando o
que parecia ser um sorriso", "disse Bernardino, esboçando um sorriso",
"esclareceu o governador, esboçando um sorriso",
"Luz Soriano esboçou um ligeiro sorriso", Coitadinho
Amigo "esboçou um sorriso", Bernardino "esboçou
um sorriso", "esboçando um beicinho" (e,
meia dúzia de linhas abaixo, "conseguiu esboçar um gesto
de anuência"), o governador "tentou esboçar um sorriso",
"Peter conseguiu esboçar um sorriso" (Uma Fazenda
em África, págs. 107, 140, 188, 229, 299, 310, 369, 401, 418); "esboçando sorrisos
na sua direcção" [uma prostituta com José Duarte] e "José
Duarte esboçou um sorriso reconhecido, mas triste" (A
Aluna Americana, págs. 123, 276); "O rapaz esboçou um sorriso",
"não esboçou qualquer gesto para o impedir",
"ela esboçou um meio sorriso", "Bento esboçou
um meio sorriso", "Napoleão esboçou um raro
sorriso", "o soldado esboçou um sorriso oco" (Até
ao Fim da Terra, págs. 57, 85, 111, 119, 179, 184); o septuagenário
João Blundell Sequeira "esboçou um sorriso",
"A ex-mulher esboçou um sorriso", Valentina
"tentou esboçar um sorriso", Valentina "esboçava
um sorriso ante o insólito de tudo aquilo", "balbuciou
Valentina, esboçando um sorriso" (O Prazer de Guiar,
págs. 7, 28, 131, 139); "Tudo aquilo a fez esboçar um leve
sorriso" (Vento de Espanha, p. 240); "Robert esboçou
um sorriso", Elvira pergunta algo a Robert "esboçando um sorriso",
"disse Robert, esboçando um sorriso" (Os Dias da
Febre, págs. 175, 187, 276); "O homem esboçou um sorriso",
Sara "esboçando um sorriso", "Romão esboçou
um sorriso" (Do Outro Lado do Mar, págs. 170, 236, 293);
"Alzira esboçou, a medo, um sorriso", "Ele esboçou
um sorriso" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 101, 122).
Os sorrisos ajudam a iluminar os
rostos, fazendo-os brilhar por instantes. JPM descreve esse momento com
brilhantismo: "com um sorriso que lhe iluminava a cara",
"a cara iluminou-se-lhe num sorriso entusiasmado"
(Uma Fazenda em África, págs. 134, 267); "o rosto iluminado por
um sorriso entusiasmado e entusiasmante" (Vento de
Espanha, p. 87); cara de Sara "iluminada por um vago
sorriso" (Do Outro Lado do Mar, p. 185).
Ainda no âmbito das expressões
faciais, assume particular relevância a contracção da região nasal e
do lábio inferior, de modo a empurrar a ponta do nariz ligeiramente para cima.
Este gesto de comunicação não verbal serve para indicar rejeição, repulsa
física, nojo, desagrado, desconfiança, desdém ou arrogância: "O
outro torcera o nariz", "torcia o nariz com
desconfiança", "O padre torceu o nariz" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 112, 151, 247); os portugueses
"torcem o nariz à ideia" (de se fundar uma colónia em
Angola), Peter "torceu o nariz", "José Leite torcera
o nariz", Bernardino "principiou também a torcer o nariz",
Bernardino "torceu o nariz" (Uma Fazenda em África,
págs. 19, 109, 143, 226, 321); "o seu estado-maior torcia o nariz",
"Alorna pigarreou e torceu o nariz" (Até ao Fim da
Terra, págs. 8, 141); "O tenente abanou a cabeça e torceu o
nariz" (Vento de Espanha, p.
163); Joséphine "fez um ar apreensivo e torceu o nariz",
"Tobias torceu o nariz", "Melchior torceu o
nariz" (Haiti, págs. 53, 145, 212); Robert disse, "torcendo
levemente o nariz", "objectou Carlos, torcendo o
nariz", disse o médico, "torcendo o nariz" (Os
Dias da Febre, págs. 109, 147, 311); "Porém, ele torceu o
nariz" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 159).
Acresce a isto o faro apurado de
todos eles. É o que vou provar, penetrantemente, com as passagens seguintes,
onde as fossas nasais (e não só) protagonizam situações muito diversas. Na
verdade, elas não se limitam a cheirar, como o pasteleiro os seus pastéis:
Luísa "gostava daquele amontoado de cheiros, cores e
sons", Mateus "deambulou pela cidade para se reapossar dos
seus cheiros e das suas cores", "pintava a vida do Porto, os
sons, os cheiros, as cores" (O Estranho Caso de Sebastião
Moncada, págs. 39, 179, 269); Peter passou pelo mercado "e serpenteou
entre os cheiros intensos" (Uma Fazenda em África,
p. 99); em África "os cheiros eram diferentes de tudo o que
conhecia" (Do Outro Lado do Mar, p. 123); "um cheirinho açucarado
que perfumava a rua" (Vento de Espanha, p. 24);
"Auzenda fazia muitos recados e aproveitava para ver as lojas e
apreciar as cores e os sons das ruas. (...) por detrás dos cheiros
intensos dos queijos, do bacalhau, dos curtumes, se escondiam os
aromas doces do café, os odores discretos das flores e
das frutas, e havia sempre coisas novas para observar" (Os Dias da
Febre, p. 190); "Às vezes ainda lhe chegava a memória dos
cheiros e dos sons dessa casa", "as cores, os sabores
e cheiros eram intensos e inesquecíveis", José Duarte
"deliciou-se com os cheiros, as cores e os brilhos
natalícios" (A Aluna Americana, págs. 14, 192, 219).
Descendo pelo pescoço, nas laterais,
temos a região que une os braços ao tronco: os ombros. É frequente as
personagens de JPM subirem-nos em direcção às orelhas, em sinal de
ignorância, de indiferença ou de impotência. Assim, o ambiente retratado
por JPM através do encolher de ombros é o que ele melhor conhece, de com ele privar
todos os dias. Trata-se não apenas de um movimento físico – como quem não sabe
ou não quer saber –, mas também de um gesto que vem das profundidades que o
constituem. A ele e às suas personagens,
sem excepção: "Adélia limitou-se a encolher os ombros",
"O homem encolheu os ombros e oscilou a cabeça de um lado
para o outro, como se negasse", o cocheiro "encolheu os ombros",
Sátiro da Costa "encolhendo os ombros numa perplexidade
filosófica", Luísa: "encolhendo os ombros ela acabou por
aceder e sorriu", "O homem [Romão] encolheu os ombros", Poleciana "encolheu
os ombros, conformada", Etelvino "acrescentou, encolhendo
os ombros, com indiferença", Mateus "limitou-se a encolher os
ombros", "explicou o rapaz, com um encolher de ombros",
"o sargento encolheu os ombros", "o padre encolheu
os ombros", "o anspeçada encolheu os ombros" e
"um sargento de engenheiros "encolheu os ombros", Poleciana "encolheu
os ombros, sorrindo" e "Poleciana encolheu os ombros"
(O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 10, 19, 29, 34, 46, 80, 94,
106, 124, 181, 202, 250, 272, 278); "previu o capitão, enquanto encolhia
os ombros", "José Leite encolheu os ombros",
"Pascoal Pluma não respondeu e limitou-se a encolher os ombros",
"Bernardino encolheu os ombros", "Ela encolhera
os ombros", "limitou-se a encolher os ombros",
Bernardino: "respondeu, encolhendo os ombros", Coitadinho
Amigo "disse, encolhendo os ombros", "encolheu os
ombros, com resignação", "disse o preto, encolhendo
timidamente os ombros", Peter "encolhera os ombros",
"Costa encolheu os ombros", "Peter encolheu
os ombros" (Uma Fazenda em África, págs. 93, 113, 124, 127,
186, 200, 289, 298, 322, 345, 378, 398, 420); Isabel "encolheu os
ombros, respirou fundo e concordou", "Ela encolheu
os ombros e explicou", Isabel "encolheu os ombros",
"encolheu os ombros, com resignação", "Doug encolheu
os ombros", "Ela encolheu os ombros",
"Ele encolheu os ombros", "encolhendo novamente
os ombros", "encolheu os ombros", "Ele encolheu
os ombros" (A Aluna Americana, págs. 54, 55, 60, 77, 86, 97,
176, 193, 194, 232); "encolheu os ombros e duvidou",
"encolheu os ombros e foi numa corridinha", "disse
ela, encolhendo os ombros", "Laforêt encolheu os
ombros e fez um esgar de dúvida", "Ele encolheu os
ombros", os sargentos e oficiais "encolhiam os ombros e
nada faziam", "disse, encolhendo os ombros" (Até
ao Fim da Terra, págs. 96, 103, 143, 151, 205, 208, 237); João "encolheu
os ombros" no Largo Mário Soares, "João encolheu os
ombros", Alcídio "encolheu displicentemente os ombros",
"Alcídio suspirou e encolheu os ombros", Xavier "fez
um sorriso compreensivo e encolheu os ombros" (O Prazer de
Guiar, págs. 12, 27, 48, 83, 125); "Ele encolhia os ombros",
"encolhiam os ombros perante tão flagrantes injustiças",
Custódio sentiu-se autorizado "a pôr-lhe o braço sobre os ombros",
"Ele encolheu os ombros, de desânimo",
"Zanelli encolheu os ombros", "desabafou, encolhendo
os ombros, resignada", "ele passou-lhe um braço pelos
ombros" (Vento de Espanha, págs. 55, 59, 88, 161, 174, 188, 194);
"ela encolheu os ombros, como quem não sabe precisar",
"Polverel encolheu os ombros", "O homem encolheu
os ombros numa manifestação de incerteza" (Haiti, págs.
53, 166, 209); "referiu Richard, com um encolher de ombros",
"confessou Elvira, encolhendo os ombros", Elvira
"mentiu, encolhendo os ombros" (Os Dias da Febre,
págs. 92, 219, 313); "O homem encolheu os ombros, com
indiferença", "Tarquínio Torcato encolheu os ombros",
"O homem encolheu os ombros, resignado", o padre "encolheu
os ombros", Damião Costa "encolheu os ombros",
"Joaquim Navarro encolheu os ombros", "A
escrava encolheu os ombros", "encolhiam
despreocupadamente os ombros" (Do Outro Lado do Mar, págs. 85,
90, 93, 110, 113, 267, 281, 351); Bebé Mexia "retorquiu, encolhendo
os ombros", "Bebé voltou a encolher os ombros",
"Ele encolheu os ombros, desalentado",
"Henrique encolheu os ombros" (Um de Nós Deve
Lembrar-se, págs. 41, 42, 158, 223).
Mas há mais. Diria mesmo, há muito
mais: "O homem pôs-lhe uma mão suave no ombro" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 287); Bernardino passou-lhe "um
braço comovido sobre os ombros", Peter "disse por fim, passando-lhe
o braço em redor dos ombros" (Uma Fazenda em África, págs. 43,
272); "pondo o braço direito sobre os ombros de Isabel",
Isabel "pôs-lhe uma mão no ombro" (A Aluna Americana,
págs. 103, 173); "passou um dos braços sobre os ombros do seu
Joselito" (Até ao Fim da Terra, p. 154); "Antoine pôs-lhe
suavemente a mão esquerda num ombro" (Haiti, p. 103); "pondo-lhe
amistosamente a mão no ombro", "passara o braço esquerdo em
redor dos seus ombros", "prometeu Elvira, passando-lhe o
braço em redor dos ombros" (Os Dias da Febre, págs. 36, 123,
207); Vasco "levantou-se do sofá e pôs uma mão no ombro da
escrava, como que a consolá-la", "Gaspar assentiu com a cabeça
e pôs-lhe ambas as mãos sobre os ombros, como que a
tranquilizá-la" (Do Outro Lado do Mar, págs. 318, 335); enfermeira
"pôs-lhe uma empática mão no ombro esquerdo" (O Prazer de
Guiar, p. 69).
Muito há a dizer sobre os braços e as
mãos (ambos acompanham-nos toda a vida, crescem connosco, e estão
intimamente relacionados com a nossa maneira de ser). Porém, limito-me a
transcrever um arsenal de exemplos (são tantos que é difícil escolher) retirados
das mais diversas situações e comportamentos. O gesto de colocar a mão em pala
ou em concha é um dos mais elegantes e autênticos do vasto e variado
catálogo marquiano: Mateus pôs "a mão em pala sobre os
olhos" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 123);
"Pondo a mão direita em pala sobre os olhos" (Haiti,
p. 122); "Pôs a mão em pala sobre os olhos e observou a
altura do sol", "pondo a mão em pala sobre os
olhos" (Uma Fazenda em África, págs. 143, 350); "com as
mãos em concha", "com a mão em concha", "O
homem pôs as mãos em concha" (Do Outro Lado do Mar,
págs. 50, 78, 350); Joaquim Moreira "pondo a mão em concha",
"pondo as mãos em concha" (Uma Fazenda em África,
págs. 14, 44); Tó protege a labareda do fósforo "com as mãos em
concha para acender uma cigarrilha" (Um de Nós Deve Lembrar-se,
p. 40).
JPM socorre-se das mãos para
descrever o momento em que as palavras falham às personagens, porque aquilo que
tentam expressar é demasiado grande para ser traduzido pela linguagem oral ou
escrita (ou para ser captar através de uma gestualidade precisa). O indizível e
o invisível admitem somente gestos vagos e informes: "gesto
hesitante com a mão", "fazendo um gesto vago com
a mão", "Poleciana fez um gesto vago com a mão
direita", "gestos largos, veementes", "balançando a
mão direita num gesto incerto", "Mateus agradeceu com um
assentimento no olhar e um gesto vago da mão", Freire fez
um gesto vago", "afirmou Rebocho, fazendo um gesto
vago com a mão" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada,
págs. 51, 57, 95, 117, 139, 181, 200, 207, 286); o entusiasmo de Bernardino
"fê-lo erguer-se do cadeirão para expor a sua ideia em gestos
largos", o ministro "fez um gesto de anuência e
satisfação", "abarcando com um gesto largo o terreno
à sua direita", "Benedita fez um vago gesto"; p. 327:
"fazendo um gesto vago" (Uma Fazenda em África,
págs. 16, 26, 63, 289, 327); Isabel "fez um gesto vago com
a mão direita" (A Aluna Americana, p. 25); "O tenente fez
um gesto vago com as mãos", "um vago gesto
de mão" (Até ao Fim da Terra, págs. 128, 180); "um
vago aceno de agradecimento", "ele fez um gesto vago"
(Vento de Espanha, págs. 9, 111); "O senhor
de Beauregard fez um gesto vago", "o negro fez
um gesto vago" e, de novo, "o negro fez um gesto
vago", Beauregard "fez um gesto vago"
(Haiti, págs. 15, 59, 85, 185); Gastão "fez um gesto vago,
entre o resignado e o displicente", "um vago sentimento de estranheza
e de injustiça", "fez um gesto vago, indefinível" (Do
Outro Lado do Mar, págs. 13, 81, 208); "parou de falar
para fazer um gesto vago" (Um de Nós Deve Lembrar-se,
p. 223).
A função atribuída por JPM às
"costas da mão" é uma das maiores originalidades da sua arte. A
partir de hoje, ao seu simples nome, surge-me logo na memória a imagem de JPM a
limpar "os beiços com as costas da mão" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 61); "enquanto apagava a espuma
branca do bigode com as costas da mão", a limpar "o
queixo molhado com as costas da mão" (Uma Fazenda em África,
págs. 79, 305); a limpar "os olhos com as costas da mão direita"
(Até ao Fim da Terra, p. 28); a limpar "os olhos com as costas
das mãos" (Vento de Espanha, p. 131); a limpar "a boca com
as costas da mão", a limpar "as lágrimas com as costas
das mãos", a "limpar os olhos molhados com as costas das
mãos" (Do Outro Lado do Mar, págs. 86, 198, 319); a
"limpar a boca com as costas da mão direita" (Haiti,
p. 17).
Quando as mãos e os braços se unem
para fazer boa literatura, tudo é tão natural, tão verdadeiro, tão límpido, tão
divertido. O ritmo do frasear de JPM não é forçado, corre a par com
a subjectividade das personagens e abre caminho para outras sugestões
ou analogias: Sátiro "de mãos bem abertas e braços esticados à
frente do corpo, como que a repelir essa ideia", "abriu os braços num
gesto magnânimo", "moveu o braço num gesto abrangente e
circular", "abriu muito os grandes braços e disse",
"abrindo os braços, num gesto de resignação", "abrindo
os braços como que a desculpar-se do atraso" (O Estranho Caso
de Sebastião Moncada, págs. 17, 29, 53, 148, 162, 246); "abrindo os
braços de desalento", "erguendo os braços ao céu
para sublinhar a promessa", "abrindo muito os braços, como um
profeta", "fez gestos enérgicos disparando o braço direito
em direcção ao céu" (Uma Fazenda em África, págs. 19,
43, 67, 142); "sintetizou Carlos, abrindo as mãos num gesto largo e
conclusivo", "abrindo os braços de admiração e desolação"
(Os Dias da Febre, págs. 148, 224); "alargando os braços num
gesto circular" (Do Outro Lado do Mar, p. 28).
As mãos e os braços são os
verdadeiros intérpretes do envolvimento total no acto de enlaçar
outro ser humano. Mais do que um simples abraço físico, enlaçar é um gesto de
união, entrega, protecção, segurança, ancoragem, posse: "enlaçando-se nas
palavras e nos gestos dele", "A sua língua enlaçou-se na
dele" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 41, 191);
"e, assim enlaçados, abriam-se em confidências e iam avançando
afoitamente na descoberta recíproca que parecia não ter fim e que não parava de
o encantar", Lapa e Faro a "enlaçar a cintura fina de
Benedita" (Uma Fazenda em África, págs. 242, 369); Caetana
"elevou-se nos bicos dos pés, enlaçou-o pelo
pescoço", "Ficaram assim longos minutos, enlaçados"
(Do Outro Lado do Mar, págs. 11, 238-239); "Custódio enlaçou-a pela
cintura", "enlaçou a loura pela cintura",
"O homem enlaçou-a pela cintura" (Vento de
Espanha, págs. 87, 227, 300); "Quando foram para o quarto fazer amor e
dormir ela disse que havia qualquer coisa cósmica, transcendente, na forma como
ele a enlaçava", "enlaçou-a por trás,
moldou-lhe os seios com as mãos, pressionando-lhe com o pénis já duro" (A
Aluna Americana, págs. 95, 204); Arnaldo "enlaçando Auzenda pela
cintura", "Ficaram assim enlaçados, tempos perdidos em
festas meigas, numa exultação dos corpos" (Os Dias da Febre, págs.
193, 231).
Os dedos são outro território a que
JPM lança mão para explorar e testar os limites estruturais da forma literária,
produzindo diferentes registos de consciência e sensibilidade, como se fossem
extensões da alma e do estilo de vidas personagens. De certo modo, os dedos
nunca abandonam JPM, são uma obsessão temática: "acrescentou com
o dedo indicador bem espetado no ar", "disse,
martelando com o indicador, exigente, no tampo de madeira",
"tamborilando irritantemente com os dedos no peito",
"batendo na testa com os dedos indicadores",
"sublinhou, de indicador espetado, no ar" e "O
padre calou-se, "ficando a tamborilar com os dedos expectantes
nos braços da cadeira" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs.
13, 33, 36, 55, 247); Costa "tamborilou nervosamente com as pontas
dos dedos na mesa", o governador Leal "espetando o dedo
indicador" (Uma Fazenda em África, p. 389); "disse,
batendo com o indicador no peito", "apontando-lhe
o indicador espetado ao peito, como se fosse o cano de uma
arma", "de dedo ameaçadoramente espetado" (A
Aluna Americana, págs. 75, 143, 144); "martelando com o indicador no
peito", "batendo com o indicador no tampo da
secretária" (Vento de Espanha, págs. 222, 253); "batendo com a
ponta dos dedos na própria testa",
"afirmou Radich, (...) de indicador, professoral,
espetado", "avisou Filipe, sublinhando a negação com o dedo
indicador", "de dedo em riste",
"advertiu Robert, com o dedo em riste e ar de exigente
mestre-escola" (Os Dias da Febre, págs. 36, 62, 172, 180, 209);
"espetando um indicador no ar", "disse, batendo
com o indicador no peito", "tocou com a ponta
do dedo indicador no olho direito" (Do Outro Lado do
Mar, págs. 79, 89, 296); "batendo com a ponta dos dedos
indicadores abaixo das órbitas" (Haiti, p. 80).
Colocar o dedo em frente dos lábios
fechados é um dos gestos mais antigos, universais e instintivos do ser
humano (e como não havia de ser assim?) de JPM, o esteta: "com
o indicador da mão esquerda encostado à ponta do nariz, impondo-lhe
silêncio", "Chiu! – fez a criada com um dedo em frente dos
lábios", uma mulher "fez um sinal com o dedo em frente do
nariz, recomendando silêncio", "Ele assentiu com a cabeça e pôs
um dedo em frente dos lábios, para lhe recomendar silêncio", "Chiu
– fez ela pondo-lhe a mão sobre a boca" (O Estranho Caso de
Sebastião Moncada, págs. 97, 115, 166, 321, 323); "Chiiiiiu –
fez Eva, baixinho, pondo o indicador em frente do nariz", "Chiu
– fez ele, pondo um dedo indicador em frente do nariz" (Uma Fazenda
em África, págs. 279, 340); Bento "levou um dedo ao nariz fazendo
sinal para que fossem silenciosos", Florencia "levou um dedo
indicador à ponta do nariz, para recomendar silêncio" (Até ao Fim
da Terra, págs. 63, 218); Adelaide para Honoré: "pôs o indicador da
mão direita bem esticado em frente dos lábios, recomendando silêncio",
"Numa mesa com a forma de altar havia uma cruz e uma figurinha em
alabastro com um dedinho indicador nos lábios, recomendando silêncio"
(Haiti, págs. 133, 238); um indivíduo, no cinema, virou-se para trás
"recomendando silêncio... – Shhhh", "Vasco
apareceu-lhe muito circunspecto, e a aconselhar silêncio.
– Shhh – pedia, com o indicador da mão direita em frente dos lábios"
(Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 140, 156).
Entre os membros inferiores,
destacam-se os calcanhares, essa grande obra de engenharia: "Com o
coração em sobressalto, o estalajadeiro rodou sobre si próprio", Sátiro
saiu do gabinete "rodando sobre os calcanhares", Golias
"rodou sem jeito sobre os calcanhares e afastou-se
dali" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 10, 265, 268);
Benedita "rolou sobre si própria", Luz Soriano, nas Cortes,
"continuou, rodando sobre si próprio", Guêzu: "rodou
sobre si próprio", Bernardino "rodou sobre os calcanhares",
Peter "fê-la rodar sobre si própria", Peter "rodou
sobre os calcanhares" (Uma Fazenda em África, págs.
35, 47, 173, 192, 243, 382); "rodou sobre os calcanhares e
saiu" (A Aluna Americana, p. 121); "rodou sobre os calcanhares e
saiu" (Vento de Espanha, p. 219); Francisca: "abrindo os
braços e rodando lentamente sobre si própria" (Os Dias da
Febre, p. 24); Joséphine "rodou sobre si própria,
como uma bailarina" (Haiti, p. 157).
O osso do calcanhar é a alavanca que
nos permite ficar em bicos de pés, outra posição frequente no xadrez romanesco
de JPM. Não há visão mais bela, para JPM, do que o corpo de uma mulher quando
se põe em bicos de pés: Maria "arrumava, em bicos dos pés,
umas loiças", "elevando-se nos bicos dos pés" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 15, 141); "Algumas mulheres
e crianças punham-se em bicos dos pés para espreitar
melhor", "ela, em choros e pondo-se em bicos de pés,
beijou-o na boca", "Benedita esticava-se, em bicos de pés"
(Uma Fazenda em África, págs. 59, 138, 267); Caetana
"elevou-se nos bicos dos pés" (Do Outro Lado do Mar,
p. 11); "empertigou-se nos bicos dos pés, apoiou a mão no
coldre da pistola" (Vento de Espanha, p. 97).
Permanecer demasiado tempo em bicos
de pés causa formigueiro, devido à compressão temporária de alguns nervos ou de
alguns vasos sanguíneos. Não raro, as personagens de JPM sofrem de má
circulação. O sangue acumula-se nas pernas e provoca dormência. Nestas alturas,
os pés parecem pertencer a outro tipo de organismo, movendo-se segundo outro
tipo de mecanismo: Golias Bronco batia com os pés no chão "para activar a
circulação", Mateus "massajou-se para activar a
circulação", D. Pedro "ergueu-se e deu uns passos no gabinete,
para desentorpecer as pernas (O Estranho Caso de Sebastião
Moncada, págs. 216, 257, 274); Mirbeck "levantou-se da
cadeira e saiu da sombra do toldo de pano cru para desentorpecer as
pernas e ajudar a digestão", pararam no caminho para que Nicolas
"desentorpecesse as pernas" (Haiti, págs. 122, 233); os
soldados, "apoiados nos fuzis, batiam com os pés no chão para os
aquecer", "Napoleão saiu para desentorpecer as pernas"
(Até ao Fim da Terra, págs. 131, 181); "Filipe saiu para o
corredor para desentorpecer as pernas" (Os Dias da Febre,
p. 163).
Uma forma de aliviar a dormência – o
acúmulo de sangue nas pernas – é subir os degraus das escadas de dois em dois:
Mateus Vilaverde "subia para o quarto em passada elástica, galgando
os degraus dois a dois", o padre Guilherme "galgou a
escada", Mateus "galgou os degraus em relação à saída" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 31, 248, 303); Bernardino
"desceu a escada galgando os degraus dois a dois", Bernardino
"saudou o porteiro e galgou os degraus da escada dois a dois,
no gozo antecipado de a ir abraçar", Peter, "depois de saudar o
porteiro do Progresso, galgou os degraus da escada dois a dois, no
gozo antecipado de a ir abraçar", "Uma escrava que subia
apressadamente, galgando os degraus dois a dois" (Uma
Fazenda em África, págs. 192, 236, 243, 430); "Desceram a escada a
dois e dois", Isabel "desceu a escada dois a dois" (A
Aluna Americana, págs. 151, 195); Januário Moderno "desceu os
degraus da escada a dois e dois" (Até ao Fim da Terra, p.
58); "subiu as escadas a dois e dois" (Do Outro Lado do Mar,
p. 186); "desceu a escada a dois e dois" (Vento de Espanha,
p. 318).
Este texto é a
pré-publicação de um estudo sobre a obra de João Pedro Marques que será editado
em breve.
João Pedro George











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