Peixe é
coisa nossa. Incontornável e obrigatório à beira-mar, sobretudo no verão. Os
vegetais, grelhados, salteados ou simplesmente em saladas, também não podem
faltar. E, uma vez por ano, até podem ser a refeição. Mas há dias em que o meu
negócio é carne!
E se a
carne da Argentina e do Uruguai é excelente, e uma picanha ou um cupim
brasileiro ficam sempre bem, não há carne como a dos EUA. Quem nunca comeu um ribeye
numa steakhouse de Nova Iorque ou Chicago não tem referências. Gibsons,
em Chicago, Abe & Louie’s, em Boston, e Smith & Wollensky, em Nova
Iorque: aqui ficam três antenas para o GPS não falhar.
Com
certificação USDA Prime, a carne é grelhada ou selada a temperaturas elevadas,
durante breves minutos. O objetivo é preservar a identidade do corte, criar uma
crosta intensa e deixar que a gordura intramuscular contribua para a suculência
e o sabor. Aqui, os protagonistas são o marmoreado da carne, a crosta da grelha
e o equilíbrio entre gordura e músculo, sem que o fumo prolongado se imponha ao
sabor.
Nada que
ver com o barbecue texano, o outro grande universo da carne americana. A
diferença é profunda. A steakhouse e o barbecue texano são duas grandes
expressões da cultura da carne nos Estados Unidos, mas representam quase
filosofias opostas de cozinhar bovino. No barbecue texano, o objetivo é
transformar cortes grandes, menos nobres e frequentemente duros, mas ricos em
colagénio, em carne extraordinariamente tenra e saborosa, através de muitas
horas de fumo e calor moderado.
Um é a
arte do bife. O outro, a arte do fogo lento.
Vem tudo
isto a propósito da visita ao Kau, na Malveira, o primeiro e único barbecue
texano em Portugal. Os mais atentos já conheciam a marca Kau de festivais e
outros carnavais, incluindo os corners de pastrami em Lisboa. Mas foi sempre na
Malveira, e no barbecue texano, que o dono apostou. Dizem que fez estágio no
Texas. Eu posso afirmar, com convicção, que tem mestrado.
Tudo começa nos cortes, de grande relevo, essencialmente dois: o brisket (peito) e a costela. O resto são distrações, do frango ao pulled pork, passando por opções vegetarianas, que os tempos obrigam a estas bizarrias. Os acompanhamentos estão bem, sem deslumbrar. Falta o nosso arroz; de forno, não ficava nada mal. Mas a carne é mesmo superlativa e a verdadeira estrela da casa.
A crosta
forma-se à superfície durante horas de cozedura, graças à combinação de
especiarias, fumo, desidratação e reações químicas provocadas pelo calor. É uma
concentração extraordinária de sabor, não simplesmente carne queimada. O fumo
acrescenta aromas que não se conseguem reproduzir exatamente numa frigideira ou
numa grelha convencional. Com tempo e temperatura adequados, parte do colagénio
transforma-se em gelatina, dando à carne uma textura macia, húmida e quase
cremosa.
Não é
coisa pouca, é preciso ter-se estudos. A Texas A&M University dita a
técnica tradicional: calor indireto relativamente baixo, entre os 93 e os 121
°C, para grandes peças sem secar demais o exterior antes de o interior estar
pronto.
À
entrada, em exposição, está o Godzilla, o fumador responsável pelo segredo. A
sala é ampla e luminosa, ideal para almoços. Até porque a dimensão do espaço, o
barulho e a presença de grupos e famílias inteiras, de todas as idades, não
criam propriamente um ambiente convidativo para certos programas de jantar. O
serviço é eficiente e simpático, num tom descontraído que se agradece.
Não é fine dining, não é para vegetarianos nem flexitarianos, não é para quem procura bifes do lombo ou da vazia, nem tem nada a ver com aqueles molhos doces e espessos, servidos à parte. Mas quem ainda não lá foi não sabe o que perde.
José
António Nogueira de Brito






















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