domingo, 26 de junho de 2016

Fan Ho (1937-2016).

 
 


















 
Não percebo porquê, mas as notícias sobre o PhotoEspaña não dão o devido destaque à melhor exposição que por lá está, uma retrospectiva de Vivian Maier na Fundação Canal. Só por isso, já vale a pena ir a Madrid, pois em Lisboa dificilmente veremos a Maier e o seu génio discretíssimo. Julgo que também não foi dado o merecido  relevo à morte, ocorrida há pouco, de um mestre dos mestres, Fan Ho. Chamavam-lhe o «Cartier-Bresson de Hong-Kong», o que é uma forma muito disparatada de definir a sublime beleza das fotografias de Fan Ho, que fez o elogio da sombra naquela cidade assombrosa. No entanto, mais do que as sombras agrestes, o que mais me fascina a mim –pobre amador e ignorante completo – na obra de Fan Ho  é a delicadeza da luz coada, filtrada por vidros e panejamentos, caindo sobre ruas buliçosas ou águas ondulantes. Uma luz fina, subtil, que torna Fan Ho um caso muito sério e muito belo da street photography do Oriente Extremo. Como sempre o que vem de lá, esta foi trazida pelo Pedro, a quem agradeço muito. Site oficial do fotógrafo, aqui.

 

 

sábado, 25 de junho de 2016





impulso!

100 discos de jazz para cativar os leigos e vencer os cépticos !

 

 

# 68 - ART ENSEMBLE OF CHICAGO

 
 
Fotografia de Steven Cerra
 

Mais dado ao drama ou à tragédia o jazz nunca teve grande convívio com o humor. Mesmo quando dele se aproxima, algo de alarmante se desprende: o fácies arrepanhadamente risonho de Louis Armstrong com o seu quê de postiço, por parecer apenas servir a máxima “the show must go on”; o burlesco de Cab Calloway que deixa na dúvida se há nele o propósito de ter graça; o surrealismo de Dizzy Gillespie que mal esconde o sarcasmo; o Mumbles de Clark Terry que não passava de um breve e honesto número de comédia; o delírio de Sun Ra com apogeu em “Nuclear War”: 12 minutos a repetir, à maneira de um blues, inúmeras variações da frase: “If they push that button, your ass gotta go; it’s a muthafucker!” – e não haverá muitos mais exemplos além destes.
Daí que os desconcertos do Art Ensemble do Chicago, embora provoquem irrisão e se dêem bem com ela, não será isso exactamente o que pretendem. Mas para saber como chegou esta corrente à foz há que remontá-la até à bifurcação que a engrossou.
Depois da saída de Armstrong para Nova Iorque e da primazia do swing, o jazz em Chicago foi um fio mantido primeiro por Earl Hines e depois por Amad Jamal. A seguir a este dir-se-ia que tudo o vento levou da wind city. Nisto se chegou à década de 60 quando o pianista Muhal Richard Abrams formou uma banda de música experimental (1962) que foi ganhando tracção num meio sedento de integridade e autonomia. Em Nova Iorque tinha-se tornado impossível à vanguarda – uma espécie de apostasia contra quaisquer regras canónicas do jazz – respirar fora da atmosfera rarefeita de Ornette Coleman e de Cecil Taylor, ou esgazeada de Coltrane. Em contrapartida, o laboratório de Abrams louvava Chicago como um polo alterativo, tanto mais arejado quanto menos ortodoxo, onde encontraram asilo os inconformistas de várias inclinações. De modo que a partir de 1965 o colectivo inicial alargou-se e organizou-se na Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM). O futuro próximo iria demonstrar que a AACM foi o Almanaque de Gotha do free jazz congregando os profetas que mais notavelmente praticariam a arte e a disseminariam. Nesta parte da divulgação, porém, verificou-se que o impacte e a influência da AACM teve quase nenhuma repercussão fora do jazz – ele encasulava-se, o que se tornaria um facto histórico.
 

Certain Blacks
1970 (2005)
Verve - 0678482
Lester Bowie (trompete), Edward Mitchell Jr.(a.k.a. Roscoe Mitchel) (saxophone baixo), Malachi Favors Maghostut (contrabaixo, percussão), Chicago Beau (saxofone tenor, piano, harmónica, percussão), Joseph Jarman (saxofone alto, tenor, soprano, vibrafone, percussão), Julio Finn (harmónica), William A. Howell (bateria).
 
Em face da desgostosa falta de eco, como resposta a uma actividade pouco menos do que frenética, uma fracção dos músicos da AACM veio ter à Europa onde poderiam desconstruir mais à vontade e com maior apreço das plateias. Na verdade “Europa” queria dizer “França”, que no ano de 1969 ressacava das agitações do Maio transacto, migrando para as artes e as humanidades o que intentara politicamente nas ruas. Perfeitamente integrado no ar dos tempos e no espírito do lugar, o comité formado por Roscoe Mitchell, Lester Bowie e Malachi Favors Maghostut popularizou-se nos círculos intelectuais, ao produzir a música que queria ouvir a juventude vanguardista e ao soltar alguns aforismos adequados à moda vigente: “You know, some day soon there won’t be any music.” E quando outra mão-cheia de “exilados” se juntou ao triunvirato ficou-lhes bem designarem-se como Art Ensemble of Chicago.
Sete discos em 1969 e outros tantos em 1970 esclarecem o fervor criativo em que viveu o Art Ensemble of Chicago. Num ambiente assanhado, que oscilava entre a frustração e a euforia política, muito marcado por polémicas acrimoniosas, pelo radicalismo tempestuoso e por um ethos de revolta permanente, estes músicos de Chicago intervieram de uma forma, provavelmente, só ao alcance de americanos em Paris. Uma descontracção anarquizante sem fumos de ortodoxia, um humor corrosivo e sarcástico sem espécie de autocomplacência e, acima de tudo, uma densidade musical destituída de qualquer sintoma de presunção ou afectação cultural (isto é: académica) fizeram do Art Ensemble of Chicago um fenómeno que a Europa seria incapaz de conceber mas que provavelmente, só a Europa conseguia acolher.
Da torrente de registos que o Art Ensemble debitou, “Certain Blacks” seria mais um deles, sem aspiração a cravar-se como um marco e só será exemplar na medida em que nele se cumulam todos os traços musicais do grupo. O suficiente para ficar como memória activa de um período.

 
 
José Navarro de Andrade

 
 
 
 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Do marxismo ao fascismo em sorites.

 
Trinity College, Dublin - Biblioteca
 
 
 
A polémica em torno da afirmação de José Rodrigues dos Santos de que a imprensa fez eco – “as origens do fascismo estão no marxismo” (Público, 30-5-16) -, a propósito do seu mais recente romance, animou um pouco o debate público nacional. Manteve-se relativamente civilizado, o que não é muito comum na nossa tradição cultural. Alguma coisa boa resultou (serviu para esclarecimento de alguns conceitos políticos e uns quantos factos históricos), muito embora, no final de contas, o que a JRS parece ter importado terá sido apenas defender essa sua afirmação inicial. Ora ela é precisamente a razão da polémica, como procurarei explicar com a serenidade permitida pela distância geográfica. A minha pergunta é: depois dos dados apresentados por todos os intervenientes, será mesmo que a afirmação se pode manter?
Primeiro que tudo, nunca vi uma afirmação semelhante em nenhum livro de história ou teoria política, pelo menos dos autores que me habituei a respeitar. Então, a resposta parece-me clara: só mesmo se tomarmos esses termos em sentido nada rigoroso, tipo conversa de café, superficial e inconsequente, e, mesmo assim, só aplicada ao fascismo italiano. Por exemplo, a hermenêutica literária, que hoje escalpeliza muitos textos tradicionais apodando-os de machistas e racistas, teve origem na hermenêutica bíblica levada a cabo sobretudo pelos biblistas alemães do século XIX. Mas daí poderemos concluir o quê? Apenas que se trata de uma ligação histórica contingente totalmente alheia aos precursores da referida tradição hermenêutica. Numa sequência de eventos e influências díspares ao longo dos tempos, um evento ou conjunto deles acaba desencadeando uma série de outros em variadíssimas direcções por uma relação de sucessão, acabando o evento inicial por ter muito pouco a ver com o ponto de chegada.
         A questão da afirmação de José Rodrigues dos Santos emerge quando a leitura dela estabelece implicitamente uma mais estreita relação entre os dois termos: o fascismo faz parte da essência do marxismo. O problema, pois, está nesse possível sentido implícito na frase. O autor dela pode sempre reclamar não ter sido sua intenção estabelecer tão íntimo nexo, no entanto, muitos leitores poderão sempre responder: Mas foi nesse contexto que a entendi. E não sairemos daqui nunca mais. Seria preciso fazer-se uma sondagem aos leitores perguntando-lhes:  O que significou para si essa afirmação de JRS?
Por mim, entendi-a como querendo insinuar ser o fascismo uma consequência do marxismo, essa consequência implicando que o fascismo está lá no embrião teórico do próprio marxismo.
         Se essa leitura é legítima (eu honestamente, repito, li assim), então há que averiguar. Impõe-se, portanto, uma análise de conceitos e de movimentos políticos. Ela aliás foi feita – e muito bem - por alguns dos intervenientes cujos textos chegaram até mim (António Araújo e Francisco Louçã, Público, 30 e 31-5-16)
Mas queria acrescentar algo: identifico na frase de JRS uma falácia clássica (o termo tem o sentido técnico rigoroso de erro lógico) cujo nome ainda hoje circula pelo menos entre historiadores, cientistas sociais e até mesmo advogados (nos tribunais). Chama-se post hoc, propter hoc (depois disso, logo por causa disso). Uma sequência de eventos pode constituir apenas uma sucessão contingente sem o evento inicial ter qualquer relação de causa-efeito com a conclusão. O marxismo, ao passar por uma série de situações históricas, acabou nalgumas variantes que nada tinham a ver com as concepções do seu criador, Karl Marx. Isso aconteceu e acontece constantemente na história em todas as áreas. Um exemplo simples? A Inquisição. Não será necessário contar aqui as suas origens e desenvolvimento. E todavia, seguindo a lógica subjacente à afirmação de JRS, podemos criar uma situação paralela afirmando: a Inquisição tem origem no cristianismo.
Compreende-se que, se alguém tivesse feito tal afirmação, inúmeros cristãos e não-cristãos chamariam a contas o seu autor.  Ele viria defender-se explicando como historicamente as relações de sucessão ocorreram. Um pensante clássico, preocupado com o rigor lógico, porém, apontar-lhe-ia logo: falácia do post hoc propter hoc. A leitura benévola, porém, seria: Deixa andar, a frase é tão genérica que não vale a pena perder tempo com ela. Contudo, muita gente se incomodaria se ela fosse proferida por alguém com impacto entre os seus ouvintes.
(Um parênteses: a afirmação de JRS, lida no sentido rigoroso, incorre noutra falha lógica tradicionalmente apodada de sorites. De um termo passa-se para outro por qualquer relação semântica, terminando-se com uma conclusão estapafúrdia. O humor serve-se dessa técnica. Veja-se, por exemplo, aquela do filósofo acotovelando acidentalmente um transeúnte que reage: Tem Graça! O filósofo prossegue rua abaixo pensando consigo: Tem  graça? Graça do Senhor, Senhor dos Passos… Paços do Conselho… Concelho de Ministros… Ministro da Guerra… Guerra Junqueiro…. Junqueiro… Junqueira de Alcântara… Alcântara do Mar… Do mar à serra… Serra da Estrela… Estrelas tem o céu… O céu é azul… Azul, tinta de escrever… Escrever para França… De França vêm os bebés… Os bebés mamam… Mamas tem a vaca… A vaca tem cornos… Filho da mãe! Chamou-me corno!)
Regressemos, todavia, aos conceitos e à história. Muito embora JRS lembre que “nem os académicos se entendem sobre todas estas definições e catalogações” (Expresso, 4-6-16), isso não implica que não valerá a pena tentarmos fazer alguma luz conceptual sobre os termos em causa nesta polémica. Resumirei ao máximo procurando ser tão rigoroso quanto possível.
Socialismo não é sinónimo de marxismo. O socialismo precedeu Marx. Era fundamentalmente uma doutrina política com base numa ética que valorizava acima de tudo a justiça social. O marxismo incorporou o socialismo numa doutrina muitíssimo mais abrangente. O marxismo é uma metafísica materialista, com uma lógica (a dialéctica – daí o materialismo dialéctico), uma epistemologia (a ciência empírico-positivista), uma filosofia da história (a luta de classes), inspirada numa teoria económica anti-capitalista, com uma teoria política sobre a tomada do poder (a revolução e a ditadura do proletariado), para a instauração de uma nova ética: a socialista. Bastará lembrarmo-nos do socialista francês Proudhon, autor do famoso A Filosofia da Pobreza, e da resposta que Marx lhe deu no seu A Pobreza da Filosofia. Quer dizer, Marx achava que o socialismo formulado por Proudhon era de uma grande pobreza filosófica. A sua doutrina (Marx não se intitulava marxista) instaurava uma nova maneira de propor o socialismo, fazendo-o brotar de um complexo e genial sistema que tornava o advento do socialismo algo inevitável.
Portanto, na lógica de JRS, poderíamos perfeitamente dizer, e aliás com mais rigor: o fascismo tem origem no socialismo.
Só que é mais do que sabido que o socialismo francês anterior a Marx, por exemplo, tem um fundo profundamente cristão. Portanto, poderíamos ainda alterar a frase e irmos bem mais longe: o fascismo tem origem no cristianismo.
Ficaríamos mais elucidados? Claro que não. Quem conhece bem a história do pensamento político ocidental conhece também toda a sequência de contingências.
O que achei deveras curioso foi o facto de ter figurado neste debate uma figura como Georges Sorel, que caíra inteiramente (ou quase) no olvido. O nacionalismo de Sorel é que veio inspirar uma série de desenvolvimentos de teóricos a ponto de líderes políticos acabarem por desistir por completo do marxismo, fazendo casar apenas o socialismo com o nacionalismo. E tudo isso sem nenhuma causalidade directa, apenas porque as visões do mundo se foram, por inúmeras razões, alterando.
Vai para três décadas, venho chamando a atenção para a importância de Sorel (no Réflexions sur la Violence, 1908) a fim de se entender a obra Mensagem, de Fernando Pessoa. Não propriamente por causa do nacionalismo, pois não era essa a grande novidade da proposta de Sorel, mas por causa do seu conceito de mito. Os marxistas tinham deixado de acreditar na possibilidade da revolução e Sorel veio explicar-lhes o falhanço: os povos não se movem por ideias abstractas, mas sim por mitos. Todavia, têm de ser mitos que lhes toquem fundo, que tenham algo a ver com a sua ‘alma nacional’ (na altura um conceito muito em voga). Foi assim que o nacionalismo, conceito obviamente já existente há muito, se espalhou entre os marxistas (e não só), para acabar sendo removido e dele recuperando-se apenas a faceta do socialismo. Hitler, por sinal, nada tem de marxista; é simplesmente um nacional-socialista.
Expliquei também (passe a auto-publicidade, os interessados terão tudo isso num volume meu recente: Pessoa, Portugal e o Futuro, Gradiva, 2014) que Pessoa conhecia Sorel e agarrou-lhe a ideia: para os portugueses ressurgirem do marasmo em que estavam, precisavam de um mito nacional e, no nosso caso, não era sequer necessário inventar um, pois já tínhamos o sebastianismo. Era só fazê-lo renascer e integrá-lo numa nova proposta colectiva, um novo ideário para o país.
Voltando ao modelo de associação conceptual de JRS, também aqui poderíamos dizer: Mensagem, de Pessoa, tem origem no marxismo soreliano. E, no entanto, trata-se apenas de uma importação de elementos por via puramente contingente.
Assim, no meio das simplificações todas atrás elaboradas, mas que procurei fossem estabelecidas com rigor histórico e conceptual, pergunto-me:  se a frase de JRS fosse tomada à letra e, portanto, como simples resumo de uma associação contingente – o marxismo também desembocou no fascismo –, teria provocado toda esta polémica? Creio que não. Até porque nunca teria surgido em título nos jornais. Porque foi entendida como implicando muito mais do que de modo algo inocente afirma é que ela provocou tanta celeuma. E é exactamente por tal motivo que também, a esta distância, me senti impulsionado a vir tentar destrinçar alguns conceitos. Não para defender o marxismo. Nunca fui marxista, muito embora inclua Marx como leitura obrigatória no programa de uma disciplina que lecciono há 35 anos, por achar fundamental para se entender o debate teórico sobre valores éticos. Porque acho possível fazer alguma luz e, mais do que isso, por julgar deveras importante que se a busque. Daí atrever-me a entrar nesta liça. Fosse a afirmação de José Rodrigues dos Santos um mero truísmo, não valeria a pena debatê-la. Mas também não teria valido a pena ele afirmá-la em caixa alta nos jornais e vir depois defendê-la.
 
 
 
Onésimo Teotónio Almeida
 
 
 
(publicado originalmente no JL - Jornal de Letras Artes e Ideias, de 22-VI-2016, aqui reproduzido com permissão do autor. Obrigado, Onésimo, um abraço!)

 

 

 

 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Amália no Clube Português de Hartford.



         No decorrer da longa convalesça, após a terceira operação feita pela Amália nos Estados Unidos, em 1998, realizou-se no Clube Português de Hartford, estado de Connecticut, a Noite do Imigrante, na última semana de Novembro, logo a seguir à festa de Thanksgiving, portanto, com a participação de alguns dos melhores fadistas e guitarristas da Nova Inglaterra e dos estados de Nova Iorque e de Nova Jersey, e do conjunto musical Mil e Quatro de Beto de Oliveira, de Hartford.
         Sabendo que a Amália se encontrava hospedada em casa do Dr. Seabra Veiga, em Waterbury, e sabendo não só da amizade que me ligava à Amália e da minha influência junto do Dr. Veiga, Cônsul Honorário de Portugal no Estado de Connecticut, alguns membros da direcção do Clube pediram-me que usasse dos meus bons ofícios, no sentido de conseguir que a Amália Rodrigues participasse nessa festa, em companhia, naturalmente, do Dr. Veiga e da sua esposa, Dona Rita, como era da tradição, e também da Dona Lili, a dedicadíssima e fidelíssima secretária da Amália, que a acompanhava por toda a parte.
         De que a Amália aceitasse, justamente lisonjeada, o amável convite, apesar de estar ainda a convalescer de uma operação grave, não tinha eu a mínima dúvida, sabendo como ela amava os portugueses da diáspora, era apaixonada por eventos desta natureza e era quase doentiamente carente de aplausos, de mimos e de banhos de multidão. Porém igualmente sabia que o mesmo já não podia eu dizer do Dr. Veiga, não só em virtude da sua qualidade de primo da Amália por afinidade, mas sobretudo em virtude da sua qualidade de médico dela, directamente responsável pelas suas melhoras rápidas. Entretanto, lá fui dizendo aos meus amigos da direcção do Clube que faria oportunamente essas diligências, na esperança de poder vir a satisfazer os desejos deles (e os da Amália também, disse eu para comigo). Que se lembrassem, porém, de uma coisa fundamental: que, na eventualidade de isso vir a realizar-se, por nada deste mundo permitiria que alguém se atrevesse a pedir à Amália que cantasse durante essa festa. É que ela, na sua louca paixão pelo fado, não só não recusaria esse convite, mas aceitá-lo-ia de braços abertos...e de pulmões doentes.
         Levado esse pedido ao conhecimento dos meus amigos Dr. Veiga e D. Rita, logo no próprio dia em que me foi feito, e devidamente informado das estipulações que eu tinha imposto aos membros da direcção do Clube Português de Hartford, obtive deles uma resposta afirmativa, com duas condições: primeiro, que o Presidente do Clube Português de Hartford, Mário de Sousa, formulasse por escrito o pedido referente à presença da Amália; segundo, que, se esse pedido viesse a ser aceite, ele, Presidente do Clube, não diria isso a ninguém, pois achava bem que a presença da Amália fosse uma surpresa para todos.   
         E surpresa agradabilíssima, ao som da “Canção do Mar”, tocada pelo conjunto musical Mil e Quatro, aclamada e ovacionada pela multidão delirante que enchia totalmente a sala de banquetes e salão de actos do Clube, ao mesmo tempo, foi a entrada triunfal da Diva do Fado, com brincos longos cor de vinho e com vestido preto, roçagante, salpicado de lentejoulas douradas, a fazer lembrar, pelo corte, aqueloutro vestido, vermelho-escuro, se bem me recordo, que ela usou por ocasião da homenagem nacional que lhe foi feita no salão de espectáculos da Expo de Lisboa de 1998.
         Graças à presença da Amália, tudo foi memorável nessa inesquecível “Noite do Imigrante”, e noite de fados e guitarradas, realizada no Clube Português de Hartford. Terminado o jantar, que, como sempre, constou de uma vasta variedade de aperitivos, desde os bolos de bacalhau aos rissóis de carne e camarão, de sopa (o tradicional, portuguesíssimo e saborosíssimo caldo verde, generoso em linguiça e azeite portugueses), de prato de peixe e prato de carne e de sobremesa, acompanhados de vinhos de mesa portugueses, e de bebidas generosas, em que não faltou o Porto, naturalmente, os guitarristas e os fadistas convidados encheram-se de brio e, como diria o meu saudoso amigo Manuel Gaspar, mestre-de-cerimónias (esta expressão soa-me melhor que a palavra apresentador), não deixaram os seus méritos por mãos alheias. E, como não podia deixar de ser, quando menos se esperava, lá aparecia alguém, à antiga moda portuguesa, numa autêntica casa de fados, a pedir que lhe concedessem a honra de dedicar um fado à grande Amália. De posse do microfone, o fadista ou a fadista de ocasião aproximava-se dos guitarristas, sussurrava-lhes as primeiras notas do fado que se propunha cantar, a sala mergulhava em silêncio religioso (“silêncio, que se vai cantar o fado” – pontificava em voz sonora e pomposa o Manuel Gaspar), e o fado inesperado fazia delirar a Amália, visivelmente transfigurada por mais um gesto espontâneo de sentida homenagem, e fazia-nos estremecer a todos os presentes de comovidas saudades da velha Pátria.
         Faziam-se intervalos e, durante eles, os que, por casualidade, haviam tido a lembrança de vir munidos de máquinas fotográficas, aproximavam-se da mesa da Amália e dos convidados especiais, mesa montada quase em forma de trono, e perguntavam-lhe, em tom extremamente respeitoso, se se dignava posar com eles para uma fotografia de família. E a Amália, encantada e sorridente, dizia sempre que sim.
          Neste contexto, nunca me sairá da lembrança o que aconteceu em determinada altura, quase ao cair do pano, dessa noite inolvidável. Aproxima-se da mesa da Amália o falecido e saudoso Mário de Sousa, presidente do Clube Português de Hartford, bem-falante, sempre bem disposto e sorridente, alfacinha de gema, extrai da carteira uma fotografia velhinha de muitos anos e põe-na diante dos olhos deslumbrados e emocionados da Amália. Ela não podia acreditar naquilo que estava a ver: era uma fografia dela, Amália, em maillot, tirada na praia de Santa Cruz, perto de Caldas da Rainha – fotografia do tempo em que a Amália era “menina e moça.”
Revelado, candidamente, pela voz altissonante do Manuel Gaspar, esse milagroso achado à multidão que enchia de lés-a-lés o salão de actos do Clube Português de Hartford, a ovação foi tão retumbante, que se pode falar, sem exagero, de uma autêntica apoteose à Santa Rainha do Fado, apoteose que a Amália, que nunca permitia ser vencida em generosidade, agradeceu, feliz e emocionada, como era seu costume, com os braços abertos, vénias profundas e uma litania infinda de “obrigada”, “obrigada”, “obrigada”...

António Cirurgião





segunda-feira, 20 de junho de 2016

Portugal, 1963.

        

Hugh Trevor-Roper (1914-2003)

     

        Por muitos livros e artigos que o historiador Hugh Trevor-Roper (1914-2003) haja escrito, o seu nome ficará para sempre ligado a um título, redigido quando jovem, The Last Days of Hitler (de que existe tradução portuguesa). O clássico dos clássicos sobre os momentos derradeiros no bunker de Berlim, muito anterior ao livro de Fest sobre o mesmo tema. Anos depois, em 1983, a sua reputação ficou manchada ao ter avalizado a autenticidade do «diários» do Führer, uma história rocambolesca que é narrada por Robert Harris num livro trepidante, Selling Hitler, anterior a outros seus trabalhos menos conseguidos, como os romances Fatherland e, pior ainda, Archangel. A dada altura, quando Trevor-Roper (nobilitado em 1979 pela rainha com o título de barão de Dacre of Glanton) começou a expressar dúvidas e a hesitar na publicação dos «diários», o magnata da imprensa Rupert Murdoch vociferou um célebre «Fuck Dacre!» e mandou avançar as máquinas. Os resultados foram desastrosos.
      A sua vida foi pautada por diversas polémicas: Evelyn Waugh criticou as suas constantes diatribes contra o catolicismo; outros apontaram-lhe o seu tremendo snobismo e indisfarçável fascínio pela aristocracia; Trevor-Roper não se tornou propriamente popular ao defender que África não tinha história antes da chegada dos europeus, enfim, uma vida cheia, como académico e colaborador da imprensa. Foi nesta qualidade que passou por Lisboa em 1963, ao serviço do Sunday Times. De cá escreveu uma carta, em 5-7 de Abril, ao seu amigo e colega James Howard-Johnson. Foi publicada há pouco numa colectânea da sua correspondência organizada pelo seu principal biógrafo, Adam Sisman (One Hundred Letters From Hugh Trevor-Roper, Oxford University Press, 2014). A tradução aqui publicada é algo «livre» e não particularmente rigorosa, pretendendo-se tão-só divulgar a visão (de resto, com erros e imprecisões) que Hugh Trevor-Roper teve do Portugal nos alvores da década de 1960. Há alusões veladas no texto a Christine Garnier, Humberto Delgado, Henrique Galvão, etc., que, por serem demasiado óbvias, se entendeu não ser necessário explicitar em nota.

Lisboa, 1963


    Lis Hotel, Avenida da Liberdade 180, Lisboa 2

Meu querido James,
   
        Tenho pensado muitas vezes em ti, interrogando-me sobre como decorreu a tua expedição à Dordonha. Onde foste, o que achaste? Imaginei um trio bizarro: tu, McCreery e o filipino, dois homens brancos e altos, o outro negro e atarracado, discutindo ao acaso, sem chegar a conclusão alguma, sobre filosofia, literatura e a vida, no cimo das colinas ou nas grutas pré-históricas daquela região antiga. Deixa-me confessar que aquela carta que te pressionei a escreveres era uma espécie de chantagem. E, como chantagem que era, mereceu ser mal sucedida.  
      Não estou a gostar de Portugal, lamento. Em teoria, até podia gostar: há aqui coisas que aprecio. O peixe, por exemplo. Que deliciosas lampreias têm, que ricas sopas de peixe, que variedade de moluscos! E quando voltarei a saborear uma magnífica tarte de lulas [squid-pie] como a que comi no passado domingo, quando fui a Sintra almoçar com um velho amigo que adorei reencontrar, aos 83 anos, bem-disposto e extravagante como sempre? O Dr. José d’Almada, antigo consultor financeiro do Ministro português do Ultramar [Desenvolvimento], um homem que quase conheceu Cecil Rhodes e que certamente conhece toda a gente, inglesa ou portuguesa, que esteve envolvida na grande política imperialista em África depois de Rhodes. É uma das minhas melhores fontes, e a mais agradável. Receei que tivesse morrido ou estivesse gagá, mas longe disso. Vou regularmente almoçar com ele – os almoços são sempre deliciosos – quer na sua casa em Lisboa, quer na sua maravilhosa quinta em Sintra, onde construiu um soberbo jardim de plantas africanas. Tem também uma casa na Madeira, que pretende vender, de preferência a um inglês, porque – diz ele – os ingleses sabem cuidar dos jardins e aquele jardim é o seu grande orgulho. Será que a Universidade de Oxford não gostaria de ter um lugar assim, onde os seus professores pudessem escrever livros? Oh, tive de lhe explicar que os professores universitários ingleses não têm posses para comprar casas na Madeira nem sequer para viajar até lá.      
      Mas, apesar disto tudo, apesar de todas as belezas de Portugal, que tenho de admitir serem muitas, sinto-me um prisioneiro. Tenho de escrever o meu artigo e, para fazê-lo, devo permanecer em Lisboa, falar com pessoas, ler papéis e documentos, pelo que não posso visitar as belezas desta terra. Desejava ser menos consciencioso, limitando-me a publicar um artigo divertido inteiramente com base nos riquíssimos mexericos do Dr. d’Almada; depois passaria o resto do tempo a comer lampreias e lagostas numa pousada romântica à beira-mar, no Algarve, a região tropical mais a sul de Portugal. Mas, por qualquer razão, sou incapaz de fazê-lo. E, tenho de admiti-lo, a política portuguesa – ou, melhor, a estrutura política de Portugal (já que a política não é permitida) – fascina-me. Este ditador estranho, meio contabilista, meio padre, que vive como um eremita (mas gosta do perfume dos milionários em seu redor) e que ostenta uma pose de filósofo (quando julgo que não passa de um impostor), é algo de único neste século, só concebível em Espanha ou em Portugal. Penso que Filipe II seria como ele. Mas, ao menos, quando Filipe II defrontou o Papa, fê-lo sendo o mais poderoso monarca da cristandade, ao passo que Salazar parece não compreender que Portugal, este Tibete minúsculo, que há 35 anos está isolado do progresso, é na realidade um país muito pequeno e muito pobre. Ainda assim, este governante católico muito devoto acaba de prender os padres negros de Angola, trazendo-os para Lisboa, de onde não os deixará sair; e acaba de expulsar de Portugal o bispo do Porto, impedindo-o de regressar durante cinco anos: se aparecer na fronteira, a polícia impedir-lhe-á a entrada. Tudo isto é muito doloroso para o Papa…   
      Hoje, sentindo-me deprimido pela vida de Lisboa, e sabendo que no fim-de-semana não estaria cá ninguém, decidi fugir. Necessitava de ar fresco, ansiava por me encontrar na solidão do campo, cercado pela floresta (Portugal tem belas florestas) e pelo som da água a correr. Consultei um amigo de confiança, que me aconselhou a ir a Abrantes, cerca de 100 milhas acima do Tejo. Mas, pobre de mim, um português «de confiança» é coisa que não existe. Os portugueses, à semelhança dos persas, acreditam que é sempre melhor dizerem-te o que julgam que gostarás de ouvir, seja ou não verdade. É uma coisa que está sempre a acontecer-me. Ainda esta manhã, nada menos do que quatro portugueses garantiram-me que estava no comboio certo; felizmente, não foram capazes de me convencer, porque a carruagem ia na direcção oposta à que eu queria. É algo que está sempre a acontecer. Quanto a Abrantes, quando lá cheguei, após uma jornada de um tédio infinito (os comboios portugueses são inacreditavelmente lentos), tendo esperado encontrar uma pousada maravilhosa, situada nalgum castelo antigo, ensombrada por eucaliptos e na frescura de uma ribeira próxima, deparei com uma pavorosa casa à beira da estrada, situada na curva de uma rotunda constantemente atravessada por camiões, sem jardim algum, a comida horrível, um serviço péssimo, e música enlatada a troar pelo edifício inteiro. É claro que fiquei furioso, o que de nada me valeu. Enganado sucessivamente, e por duas vezes, sobre (a) o horário (b) o percurso dos autocarros, passei a tarde inteira sentado, a deitar fumo, no átrio, à espera de uma salvação que nunca chegou. Agora estou condenado a passar aqui a noite. O meu estado de espírito, como imaginas, está muito em baixo, e a minha confiança nas pessoas profundamente abalada. O mesmo amigo de confiança que me recomendou este passeio ofereceu-se para me levar à sua casa no norte, na próxima semana. Mas, claro, pergunto-me que tipo de casa será a sua. Devo fugir? Mas, se o fizer, com quem passarei o tempo, com quem enfrentarei o horror da Semana Santa? É certo que, por aqui, as coisas não são tão horríveis como em Espanha. Salazar sabe-o bem; no fundo, a sua atitude mental é a de um sacerdote protestante. Estaria bem na Igreja da Escócia. Vejo-o a pregar na igreja de Mertoun se, por acaso, o Dr. Sawyer estivesse fora. Seria capaz de ler o seu sermão, numa voz monocórdica […] A propósito, ele foi educado num seminário para se tornar padre (como Estaline), mas compreendo que não goste que se fale muito disso. Obriga todos os padres católicos daqui a vestirem-se como pastores protestantes: nada de hábitos ou mitras. É também muito estrito quanto às procissões. Não há frades nem freiras: todos os conventos foram transformados em quartéis.



Rua Augusta, Lisboa, 1963
Fotografia de Armando Serôdio
  

      Como vês, os meus pensamentos regressam sempre ao Dr. Salazar. É impossível evitá-lo. Tudo o que acontece na vida portuguesa trá-lo de volta, de cada vez sob uma forma ligeiramente diferente da anterior; umas vezes sob a forma de um antigo advogado da família, outras nas vestes de uma ama dominadora, outras como um padre puritano. De qualquer modo, há características constantes: o puritanismo, o estilo antiquado, o culto do rigor. Anda a tentar adocicar a sua imagem, mas não creio que vá ter sucesso. Há alguns anos, os milionários que rodeiam o trono acharam que deveriam fazer algo para melhorar as coisas e contrataram uma romancista francesa para vir passar as férias com ele, dizendo depois como ele era simpático e agradável. Ela fê-lo, mas ninguém a levou a sério. Ultimamente, abandonou estas tácticas amadoras e adoptou um método mais eficaz, contratando os serviços de uma grande empresa americana de relações públicas, a Selvage and Lee Inc., de Nova Iorque, para que o apresentem ao mundo como um líder imaginativo, progressista, liberal, etc. Mas receio que também isto não surta qualquer efeito. Interrogo-me se a Selvage and Lee foi fundada por Ivy Lee, que fez fortuna a melhorar a imagem de John D. Rockfeller, tirando-lhe os seus aspectos mais sombrios e apresentando-o como um velho amador de golfe cujo único interesse na vida consistia em dar doces às crianças e milhões para obras de caridade. Poderá pensar-se que quem é capaz de adoçar a imagem de Rockfeller também será capaz de o fazer com Salazar, mas não é o caso. Para mais, todo o trabalho que fizessem seria destruído por uma conspiração maléfica de afro-asiáticos, liberais, comunistas, ateus, protestantes, etc. (aos quais deveremos agora juntar almirantes, generais, cardeais e capitães-piratas de alto mar).   
      Comecei há uns dias a levar a sério a aprendizagem da língua portuguesa. Dado que a leio com facilidade, achei frustrante ser incapaz de a falar ou de a entender além de um nível rudimentar. Tomei uma decisão firme; uma vez que o grande problema é a pronúncia, que não se capta através da soletração, pedi emprestados ao Instituto Britânico um gira-discos e uma série de discos de linguafone. Estava a ir muito bem, falando pelo nariz e, com destreza, silenciando metade das vogais e metade das consoantes na forma apropriada, até jantar ontem com Virgínia Rau, uma historiadora portuguesa. Ergueu as mãos em sinal de horror e mandou-me parar de imediato com aquela aprendizagem, argumentado que (a) nenhum estrangeiro será capaz, algum dia, de falar correctamente português; (b) o único efeito disto será arruinar o meu espanhol. Ordenou-me que devolvesse o aparelho e os discos ao Instituto Britânico e que renunciasse para sempre a este projecto louco, ou vaidoso, de tentar falar português. Podes ver até que ponto a minha vida é frustrante.
    Gostava de estar em Chiefswood. Enquanto me debato com estes desaires sucessivos, enquanto subo, ou cuidadosamente desço, as ruas de Lisboa (que têm uma inclinação de 1 em 3 e são pavimentadas com pedras polidas, garantindo que qualquer estrangeiro se estatele no chão), recordo a música daquele regato e vejo diante mim, como um milagre que se ergue num deserto ardente, a imagem das árvores que nesta altura florescem – não de uma forma abrupta, como aqui, mas gentilmente, suavemente, amorosamente. Estás a admirá-las? Como estão as tuas novas árvores? Alguma delas sobreviveu ao Inverno? Como vai o rapaz francês? Receio que tenha uma influência desastrosa no Peter. Recebeste alguma daquelas indiscretas cartas de Xenia, de França? Desligaste o aquecimento no nº 8 de St. Aldates? Chiefswood está tão belo como eu imagino?

Ille terrarum mihi praeter omnes
Angulus ridet, ubi non Hymetto
Mella decedunt, viridique certat
baca Venfaro…
 (baca, neste caso, é a sorveira-brava, claro)
Afectuosamente,
Hugh
6 de Abril de 1963

PS – esta carta esteve 24 horas à espera de ser colocada no correio, pelo que posso escrever mais um pouco e actualizá-la, para que termine de uma forma mais agradável. Esta manhã fugi da horrível casa à beira-estrada: mas para onde devia fugir? Sem ter quem me aconselhasse, e não acreditando em ninguém a não ser em mim próprio, decidi-me por Lisboa. Ao princípio julguei que deveria parar em Santarém, pelo que apanhei um autocarro para Santarém (em Portugal, os autocarros são ainda mais lentos do que os comboios, mas muito mais simpáticos. Prefiro usá-los, ainda que haja o problema de nunca conseguirmos saber para onde vão ao certo. As agências de turismo recusam-se a admitir que eles existem, dado que têm os seus próprios autocarros turísticos para levar grupos de estrangeiros a caminho de Fátima, onde em 1917 três crianças tiveram uma visão da Virgem Maria e que agora surge pujante como a Lourdes portuguesa. Em Portugal, nenhuma informação verbal é fiável e até agora não consegui encontrar um horário impresso). Ao chegar, pensei que Santarém não seria uma boa opção, e decidi seguir até Lisboa, mantendo-me sentado no meu lugar. Então, após cinco horas dentro de um autocarro (durante as quais fizemos 50 milhas, para teres uma ideia da velocidade média), vi de repente que estávamos em Vila Franca de Xira, uma terra que captara a minha atenção da última vez que por lá passara. Situa-se nas planícies húmidas das margens do Tejo, povoadas por touros, que ali deambulam em grande manadas, esperando irem para o seu destino final, a praça de touros ou o matadouro. Num ápice, fiz sinal de paragem e saí do autocarro, encontrando um táxi. Disse ao motorista para me levar a uma estalagem de que tinha ouvido falar, mesmo no meio das pastagens dos touros. Felizmente, havia um quarto vago. É um lugar encantador, com o charme que tanto me faltou naquela horrível casa na beira da estrada. Quando cheguei já era tarde para almoçar: às quatro tarde, perdera a refeição do meio do dia. Mas que problema tem isso? De imediato, meti-me pelas lezírias do Tejo. Durante três horas, caminhei por uma vereda estreita, com touros à minha direita e à minha esquerda (e, devo confessá-lo, arame farpado a separar-nos). Ali estavam, cheios de energia, os jovens touros; ou os mais velhos, senatoriais, com os seus rostos inexpressivos mas gentis, adormecendo deitados na erva alta. Nada mais vi, excepto um ou outro carro de bois e uma manada (se é este o termo certo) de cavalos e de mulas, todos com badalos ao pescoço, sendo levados por dois cavaleiros e um cão. O ar do entardecer estava límpido, os campos amareleciam enquanto o sol se punha. Que maravilhosa mudança face à noite anterior! Este longo passeio, a serenidade do universo, foi remédio santo para o meu espírito atormentado e perplexo. E, quando regressei à estalagem, uma refeição deliciosa estava à minha espera para o jantar! Não direi que ia bem com o vinho do Porto que me serviram, mas qual o problema? Gostei de ambos em diferentes zonas do meu palato. Esta noite irei dormir bem, pensei; e de manhã partirei para Lisboa e recomeçarei a minha árdua rotina.
      Deverei fazê-lo? Estou cansado da pequena-grande Lisboa. Na pequenez das sua mentes, todos falam comigo como se eu nada soubesse para além do que me irão contar. Na verdade, sou sempre capaz de prever exactamente o que me vão dizer, pelo que escutá-los é uma perda de tempo. Acho que já tenho material suficiente para escrever o meu artigo. Talvez o escreva já amanhã Na terça volto a almoçar com o Dr. d’Almada: ele ajudar-me-á muito melhor do que esses professores de Direito de Coimbra de meia tijela, que se substituem uns aos outros, em vazia e monótona sucessão, como ministros do Dr. Salazar!

H

PPS 7 de Abril 1963
Cheguei agora a Lisboa. Estou molhado até aos ossos. É um grande erro ir a qualquer lado antes que a Primavera verdadeiramente chegue. Dou graças a Deus por um banho e um tecto!  
Tradução de António Araújo