quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Atum, o rei do mar.

 



Para sobreviver só preciso de conservas em lata. E para ser feliz também. As conservas voltaram a estar na moda, há produtos novos, uns bons outros nem tanto, latas bonitas, vintage, retro, e outras vestidas de embalagens de circo. Na verdade, é todo um mundo a explorar, mas fica para outra vez.

Hoje falemos do rei das conservas, o atum, claro.

Claro não só porque é óbvio, mas também porque o melhor atum é mesmo o atum claro, nome comum do atum rabilho amarelo ou yellowfin. Outros rabilhos há, por exemplo o azul, que por acaso é de cor vermelho escuro, mas nem sequer vai à lata, segue todo para sushi. Voltando ao atum claro, pela cor mais clara e rosada, tem sabor mais suave e textura fina, também ligeiramente mais seca. Os Espanhóis sabem-na toda e do mar Cantábrico pescam só para eles o melhor de todos, o bonito del norte, da espécie Albacora, de um branco quase marfim. Nós também o temos, nos Açores, mas é raro encontrar no mercado, vai todo para exportação. Ambos são pescados à linha para não stressar o peixe, que se quer sem hemorragias na carne nem danos no músculo. Os preços são naturalmente a condizer.

Passemos pois, por isso, ao atum mais corrente em lata, o atum listado ou skipjack, de cor mais escura e sabor mais forte. Sendo também ótimo, não há como falhar. Comecemos pela ventresca. Da barriga do peixe, esta parte tem espessura menor que o lombo, concentrando mais o sabor numa carne mais sumptuosa, ideal para entrada, com um bom tomate ou a solo. Passemos aos filetes, em azeite e, se possível, com uma percentagem de azeite virgem. Por fim, a posta fica para sandwiches, pastas de atum e outras preparações menores. Ambos são do lombo do atum, mas enquanto os primeiros são filetados e colocados na lata à mão, depois de cozido o peixe, os segundos são prensados e enfiados na lata mecanicamente, sempre com uma percentagem de miga. E só depois cozidos já na lata.

Mas aqui chegamos ao ponto essencial, aquele que devia vir escrito em letras grandes na tampa de todas as latas: não se aquece atum. O atum, quando aquecido, escurece, entristece e perde o que tinha de melhor. Por isso, esqueçam massas de atum, pizzas de atum, omeletes de atum. O atum não nasceu para ser quente. Nasceu para ser comido como sai da lata. Com uma batata e um ovo, cebola roxa, azeitonas e bom azeite. Ah, e antes que me esqueça, o atum não tem prazo de validade! Nas latas vai uma data, mas é só obrigação legal. Quanto mais velha, melhor. O atum de conserva é um caso sério e merece respeito, não quer que o deitem fora.

 

                                        José António Nogueira de Brito




quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A Mimosa da Graça.

 




Fiquei admirado: gastaram-se (gastámos) quase dois milhões de euros em projetos de erradicação da mimosa e outras espécies invasoras. É muito dinheiro. Mas realmente tinha de ser. As mimosas e outras acácias ocupavam já cerca de 17 mil hectares de terrenos no continente, dois mil deles em áreas protegidas. No Parque Natural do Montesinho, no Gerês, na serra do Açor, em Viana, nas margens do Mondego, tudo se transformava num denso manto dourado ao chegar a primavera. Mal punha pé, ou antes mal lançava raízes num sítio qualquer logo começava a instalar-se, usando todas as armas de que dispõe: cresce rapidamente, produz quantidades enormes de sementes, que permanecem viáveis no solo durante vários anos, formando povoamentos extremamente densos, mesmo em solos muito pobres, mesmo sem intervenção humana. O pior é que o fazem à custa das espécies nativas que vêem o seu crescimento dificultado pela densidade e pelas substâncias segregadas pela mimosa. Que às tantas começaram a invadir os terrenos de cultivo. Foi aí que se começou a tomar a sério o problema. 
Porque até aí não era um problema. Pelo contrário, admiravam-lhe as lindas flores ornamentais, com os seus caraterísticos pompons amarelos que enfeitavam as encostas de Portugal inteiro e faziam a felicidade dos passeios e dos fotógrafos de domingo. Eram apreciadas e procuradas. A moda oitocentista das plantas exóticas abriu-lhe as portas: as primeiras mimosas australianas, importadas da Austrália através de viveiristas europeus, foram plantadas em meados do século dezanove em Lisboa, na Quinta do Lumiar, propriedade dos futuros duques de Palmela. A seguir, o interesse industrial abriu-lhes o caminho para a horticultura comercial: por ser de crescimento rápido, fornecer madeira e lenha, taninos para os curtumes, além de poder ser usada na fixação de solos e consolidação de taludes. Um empresário portuense plantou 600 hectares de acácias e eucaliptos nas suas propriedades orgulhosamente batizadas Nova Austrália e Nova Tasmânia, nos arredores de Abrantes.  E também o Estado via na mimosa um auspicioso factor de desenvolvimento, pelo seu interesse económico e florestal, e desatou a plantá-las no Gerês e em matas públicas do litoral centro. 

 

O problema (agora já se dizia “ecológico”) que a mimosa trazia consigo só começou a tornar-se evidente nas décadas de 1970 e 1980: os grandes incêndios criavam grandes zonas disponíveis que a mimosa de crescimento rápido colonizava imediatamente. Um estudo feito na serra da Estrela apurou uma densidade de mais de 62 mil sementes por metro quadrado.
A invasão era imparável: o êxodo rural, o abandono dos campos, a redução da agricultura e do pastoreio tradicionais deixava-lhe o terreno livre. E o decreto-lei que finalmente classifica a – dourada, promissora, tão bonita que ela é – mimosa, Acacia dealbata de seu nome completo, só chegou em 1999. O que pode explicar que (apenas nos dois municípios estudados) a área ocupada pela Acacia dealbata tenha aumentado 417% entre 2004 e 2021.


De resto é como no resto: demoramos sempre um certo tempo até nos darmos conta dos problemas.
Que o diga a Mimosa da Graça, uma graciosa leitaria e pastelaria que durante muitos anos serviu a Rua da Graça, em Lisboa, e de que já só resta o singelo portal com suas letras de um gosto quase clássico, à espera do destino que lhe será dado pelo fundo de investimento que já a deve ter comprado e que a há de vender. Talvez os donos não se tenham apercebido que os moradores da rua e da freguesia tinham desandado e já não foram a tempo de responder à nova procura dos brunches, e smoothies e matchas, e sucos de açai e as outras novidades que a boa da leitaria não tinha visto aparecer e instalar-se como gosto dominante. Como as mimosas da história, tinha aparecido por cá uma gente diferente, de gostos diferentes e com dinheiro, que aos poucos foram colonizando as pastelarias que por aí havia, e que agora se chamavam Neighbourhood, Brunch and Bites ou Locals Nomads. As espécies nativas não aguentaram a concorrência, as rendas e os trespasses subiram para totais inalcançáveis pelas modestas leitarias apanhadas a molhar o bolo de arroz no galão (quentinho, se faz favor). Foram sendo corridas. Mas tinha de ser. Não se podia perder este bem-vindo contributo para equilibrar o défice nacional. São milhares e milhares destas mimosas que diariamente são despejadas pelos voos e os cruzeiros ao preço da chuva chegados de todas as partes do mundo. E temos de lhes dar o que eles querem: por eles, mudámos as comidas que comíamos, mudámos os hábitos e costumes que seguíamos e mudámos até a língua que falávamos. Um dia (talvez) virá aí um tardio decreto-lei a moderar a falta de modos da invasão e ocupação, mas entretanto as mimosas vão alastrando, a um ritmo superior aos 417% das suas congéneres vegetais. 


Será que valeu a pena? – hão de um dia perguntar-nos. Não sei. A Leitaria Mimosa da Rua da Graça, em Lisboa, talvez seja uma espécie de resposta.


                                                    Zé Lima 






segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Portugal Selvagem.

 





São Cristóvão pela Europa (367).

 



Continuando a viajar ao longo do rio Inn e ainda no distrito de Innsbruck-Land do Estado austríaco do Tirol, chegamos ao município de Pettnau.

Aqui se situa a Mellaunerhof, uma das mais antigas estalagens do Tirol, já mencionada em 1291. Toda a fachada está pintada. É a chamada arte do Lüftlmalerei. Uma das pinturas é São Cristóvão.

O brasão do município é, desde 1973, totalmente preenchido pela imagem do nosso Santo.

 




 

No mesmo município, na aldeia de Oberpettnau (Pettnau de Cima), a igreja de são José distingue-se pela sua bela torre com um topo em forma de cebola.

No exterior, um fresco de São Cristóvão. No interior, no altar-mor e á nossa esquerda, uma imagem.

 




Em Telfs, num cenário maravilhoso, a Igreja de São Vito, gótica. No seu interior, um original fresco de São Cristóvão.

 



 

Finalmente em Wildermieming, visitei a Igreja de São Nicolau onde parte da antiga igreja gótica resistiu a um incêndio no Século XIX. No exterior, um belo fresco de São Cristóvão.

Na torre, três datas: 1368-1878-1966. Construção inicial-remodelação depois do incêndio-restauro.

 



                                Fotografias de 2 de Agosto de 2026

                                                                   José Liberato




domingo, 6 de setembro de 2026

E dos influencers, quem nos protege?

 



Com tanta transformação digital, há uma área em que a IA nunca vai substituir os humanos. Pelo menos enquanto os computadores não tiverem papilas gustativas, nem trato digestivo, a crítica gastronómica está-nos reservada.

Mas em cada salto tecnológico há sobressaltos cívicos e, na crítica gastronómica, também.

Poder-se-ia dizer que, antes da imprensa, não havia coluna gastronómica. Mas simplifiquemos e vamos directos ao século XIX.

Em 1803 nasceu o Almanach des Gourmands, de Grimod de La Reynière. E nele, a par de receitas, restaurantes, lojas alimentares e especialidades, surgiram os primeiros comentários e julgamentos sobre a matéria. Com júri reunido à mesa e degustação. Foi uma revolução.

Depois veio Brillat-Savarin, o mesmo do melhor queijo de pasta mole do mundo, e juntou-lhe a “Fisiologia do Gosto”. Nunca mais nada foi o mesmo. Apurou-se a técnica, o gosto e o paladar e surgiram os verdadeiros aristocratas da gastronomia, autoridades quase inquestionáveis na restauração.

Anton Ego não fez mais do que os imortalizar: magro, vestido de negro, solene, cruel e com imenso poder. O verdadeiro árbitro supremo do gosto.

De França, o métier migrou para os Estados Unidos, com uma legião de críticos independentes e endeusados. Mas o anonimato passou a ser uma regra primordial. Ruth Reichl aperfeiçoou-a com perucas, maquilhagem, unhas postiças e óculos. O crítico tinha de comer como toda a gente, e não como o restaurante gostaria que ele comesse.

Também por cá tivemos a nossa escola. Luís Sttau Monteiro deu o mote, com o famoso Inspetor Gourmet. Mas José Quitério subiu a parada. O primeiro grande e verdadeiro jornalista de gastronomia deixou-nos uma obra magistral, em colunas regulares e em livros publicados. Mais importante ainda: criou o seu próprio código de ética, fundador de uma forma de fazer jornalismo gastronómico e exemplo a seguir.

Hoje é difícil encontrar-lhe sucessor. Talvez Ricardo Felner, sem dúvida conhecedor e, sobretudo, com os pés bem assentes no chão.

Depois veio a internet e, a partir de 2000, os bloggers. No início, não eram muito diferentes: partilha de receitas, críticas de restaurantes e fotografias de refeições. Mas começavam a distanciar-se dos jornalistas ditos sérios. E começaram as perguntas. Quem pagava a refeição? E a deslocação?

Entra o Instagram. E as fotografias de comida meticulosamente encenadas. Daí até cunharem termos como food porn foi um ápice. Agora, com milhares de seguidores, brilhavam os influencers. Mas os seguidores não pagavam nada. Passámos ao caos.

Com custos muito baixos, a indústria da restauração instituiu o mercado de troca de refeições por posts. Dos restaurantes desejosos de conhecer os críticos passámos aos influencers mortinhos por serem convidados. E agora tudo era óptimo. Nem crítica havia.

Crunchy, jucy, tasty. Delicious… hum… so yummy!

Faltava o toque final. E veio o TikTok.

Das fotografias passámos à hegemonia dos vídeos curtos. E dos pratos chegámos à personalidade do influencer, aquilo que verdadeiramente conquista seguidores. Já não interessa tanto o que está no prato. Interessa quem está a comê-lo.

Em resumo: Grimod criou um almanaque para proteger o público da falta de conhecimento sobre os restaurantes. Reichl desenvolveu o anonimato para proteger a crítica dos restaurantes.

E dos influencers, quem nos protege? 


                                        José António Nogueira de Brito




quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Batatas Fritas, Irresistíveis.





Chamam-lhes French fries, mas a origem é disputada. Os belgas reclamam a invenção, os franceses o nome, mas a verdade é que tudo começou aqui ao lado, no século XVII, com nuestros hermanos — afinal, foram eles que trouxeram a batata da América do Sul para a Europa. Seja como for, se é na Bélgica que as batatas fritas são prato nacional, não há nenhumas como as portuguesas.

Cortadas à mão, em palitos, rodelas ou cubos, demolhadas em água e fritas em óleo de girassol ou azeite, devidamente salgadas — são iguaria de tascas e restaurantes respeitáveis, mas espécie em vias de extinção. A eficiência e a produtividade empurraram-nos para as congeladas e pré-fritas. Não é a mesma coisa, os cristais de gelo rompem as fibras no interior, pelo que se aconselha a dupla fritura. Mas, em abono da verdade, também não se lhes resiste: finas, longas, crocantes.

E nada de cascas, orégãos ou outras invenções. Apenas sal. Muito sal. Porque a perfeição, como sempre, está na simplicidade.

 

                            José António Nogueira de Brito


São Cristóvão pela Europa (366).

 

 

 

A Europabrücke (a ponte da Europa) é uma notável obra de engenharia que liga o Norte e o Sul dos Alpes. Inaugurada em 1963, era então a ponte mais alta da Europa. Ainda é hoje a ponte mais alta da Áustria. Um dos seus pilares tem a altura de 147 metros!

Onde antigamente os viajantes utilizavam autênticos caminhos de cabras hoje existe uma autoestrada moderna que permite uma viagem pelo desfiladeiro de Brenner com toda a comodidade.

Na área de serviço junto à ponte foi construída no mesmo ano a Europakapelle, a Capela da Europa, dedicada a São João Nepomuceno e a São Cristóvão e decorada no seu exterior por frescos de do pintor italiano Karl Plattner (1919-1986).

Uma janela no fundo da capela permite-nos descortinar um belo panorama sobre a ponte.

 




 Em Axams também nos arredores de Innsbruck, encontrámos uma estátua numa fonte, datada de 2007, e um mural numa agência bancária, de 1971, ambos representando o nosso Santo.






 

                                                        Fotografias de 2 de Agosto de 2026

                                                                                         José Liberato




quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Livre.

 





Nascida na Albânia de Estaline e espetadora de um regime em ruínas:

Um relato épico sobre o custo da liberdade, uma peça para a História

  

 

          Confesso que beneficiei de ter lido previamente outra obra maravilhosa de Lea Ypi, Indignidade, Uma Vida Reimaginada, Casa das Letras 2026, esta em volta de uma investigação no Arquivo dos Serviços Secretos Albaneses, uma busca para compreender a avó, e então a Albânia surge como o lugar que envolve o leitor num tempo feroz. Livre, Como Me Tornei Adulta No Fim Da História, também Casa das Letras 2024, é marcado por uma narrativa quer mágica quer comovente de uma menina de onze anos educada no socialismo albanês, tudo se inicia quando ela se agarra a uma estátua de pedra de Estaline, decapitada pelos protestos dos estudantes, naquele momento em que a utopia prometida entra em convulsão, e depois em estilhas, um povo em fuga, um sistema financeiro em colapso, tudo cabe nestas memórias prodigiosas em que a autora se questiona vezes sem conta sobre o custo da liberdade.

          Para aquela menina de onze anos, Estaline sorria com os olhos, aparece despretensioso aquela estátua mutilada que a menina observa no pequeno jardim perto do Palácio da Cultura, ela se sentia tão segura, tão abrigada por aquele regime que profetizava o fim do socialismo e o princípio do comunismo. “O socialismo dava-nos liberdade. Os manifestantes estavam enganados. Ninguém estava à procura de liberdade. Já eram todos livres, assim como eu, simplesmente ao exercerem essa liberdade, ou defendendo-a.” Em estado de choque, corre para casa, vamos ser inseridos numa atmosfera familiar, dela guardo reminiscências quando li o magnífico livro Indignidade, uma comovente elegia à sua avó. Esta vai reaparecer novamente, e sempre em termos luminescentes:

          “Ela nasceu em 1918, sobrinha de um paxá, segunda filha de uma família de destacados governadores provinciais do Império Otomano. Quando tinha 13 anos era a única rapariga do Liceu Francês de Salónica. Quando tinha 15, saboreou o primeiro whisky e fumou o primeiro charuto. Quando tinha 18, recebeu uma medalha de ouro por ser a melhor da escola. Quando tinha 19, visitou a Albânia pela primeira vez. Quando tinha 20, tornou-se conselheira do Primeiro-Ministro, sendo a primeira mulher a trabalhar na Administração Pública. Quando tinha 21, conheceu o meu avô, no casamento do rei Zog. Quando tinha 23, casou-se com o meu avô. Ele era socialista, mas não revolucionário. Ela era vagamente progressista. Ambos provinham de famílias conservadoras de renome, e que se haviam espalhado pelo Império Otomano ao longo de gerações (…) Quando tinha 28, o meu avô foi preso, acusado de promover agitação e de fazer propaganda, e condenado, primeiro à forca e depois à prisão perpétua, mais tarde comutava para 15 anos na cadeia. Quando fez 40 anos muitos dos seus parentes tinham sido executados ou haviam cometido suicídio, e os que sobreviveram dividiam-se entre o manicómio, o exílio e a prisão.”

          São fundamentalmente os pais e a avó que ocupam o espaço primordial da narrativa, Lea será educada sobre a gesta heroica da luta contra as forças italianas e alemãs, a defesa da liberdade, a intransigência da independência, a luta permanente contra os revisionistas jugoslavos e soviéticos e, mais tarde, os vira-casacas chineses. A partir de 1990, no rescaldo dos acontecimentos do Muro de Berlim e das mudanças que se estavam a operar em toda a Europa do Leste, o sopro da mudança chegava à Albânia, havia discussões acesas em casa de Lea, no ambiente dos amigos.

          A autora evoca o que lia e o que se era inculcado no meio escolar e familiar, como as crianças viam os turistas e os seus estranhos costumes. É uma narrativa que nos deslumbra no quadro mental em que vivia aquele país, as conversas encriptadas para nunca mencionar o nome das prisões, e assim chegamos ao fim da História, depois do 1º de maio de 1990, a Albânia foi declarada oficialmente um Estado multipartidário, já tinham passado quase 12 meses desde que Ceausescu fora fuzilado na Roménia, tinha começado a guerra do Golfo, aparecia o maior partido de oposição; foi então que a avó lhe contou toda a sua vida, isto enquanto ia desaparecendo o socialismo e o ideal comunista, agora só sobrava a palavra liberdade.

          Estamos na autora dos novos tempos, atos eleitorais, governos instáveis e impotentes, tiros nas ruas, greves, era como se estivesse a viver em terapia de choque. “A nossa economia planificada era vista como sendo equivalente à loucura. A cura consistia numa política monetária transformadora: equilibrar orçamentos, liberalizar preços, eliminar subsídios governamentais, privatizar o setor público e abrir economia ao comércio externo.”

          Virá, entretanto, uma carta de Atenas a anunciar que havia bens que pertenciam à família da avó, irão à Grécia, onde Lea não se sentirá feliz, anseia rapidamente voltar a casa. Há multidões em fuga na Albânia, os barcos atravessam o Adriático, as autoridades italianas recambiam praticamente todos. Sucedem-se as falências em cadeia, aparecem sociedades financeiras com os chamados empréstimos piramidais, muita gente perdoará tudo. O pai encontrará emprego, irá mesmo ter uma malograda experiência política, a mãe será ativista na oposição, a relação dos pais conhecerá uma gradual deterioração, a mãe partirá para Itália, o pai será finalmente um quadro com valor reconhecido.

          É neste país estilhaçado que se ouve em permanência a necessidade de reformas estruturais, as assimetrias na Albânia agudizam-se. Lea conhecerá a sua paixoneta, não haverá reciprocidade. Haverá um momento em que ela decidirá estudar noutros pontos da Europa. Dá-nos conta de notas do seu diário em 1997, a Albânia está em perfeito transe. Lea pondera no início da sua adultez quanto custa a liberdade, as escolas fechadas, tinham chegado forças de manutenção da paz, havia ajudas internacionais, ela decidiu ir estudar Filosofia, mais discussões acesas em casa, irá licenciar-se em Roma, aqui vai começar a sua carreira académica que a vai levar à London School of Economics. Rememora o que viveu e as mudanças que sonha: “A minha família equiparava o socialismo à negação: a negação do que quiseram ser, do direito a cometer erros e a aprender com eles. Eu equiparava o liberalismo às promessas deixadas por cumprir, à destruição da solidariedade, ao direito de herdar privilégios e de olhar para outro lado perante a injustiça. Voltei à casa de partida. Lutar contra o cinismo e a apatia face à política transforma-se naquilo a que se poderá chamar um dever moral; para mim, é mais uma dívida que tenho para com todos os que sacrificaram tudo o que tinham. O meu mundo está tão distante da liberdade quanto aquele de que os meus pais tentaram escapar. Escrevi a minha história para explicar, para reconciliar, e para continuar a luta.” Uma obra-prima.

 

 

Mário Beja Santos


Amnesia y Otras Bestias.

 



 

Amnesiay Otras Bestias é um livro de poemas da autora polaca Joanna Jarecka-Gomez publicado em castelhano neste ano de 2026 na Edizioni We.

 

O livro coloca-nos entre a memória e a amnésia, entre a violência e a ternura.

 

No poema "Ternura", Joanna Jarecka-Gomez descreve o encanto de uma vida partilhada entre duas pessoas, para depois nos confrontar com o terror dos conflitos actuais em "Kyiv em Chamas" e com o drama da Faixa de Gaza no poema dostoievskiano "Culpa y Castigo".

 

EM “Sócrates del siglo XXI” fala-nos do Sócrates do século XXI (temos um em Portugal!), que inventa a fórmula concisa "Miento, logo existo", mas também nos fala da contemplação ao descrever as maravilhas da Natureza em uma "Tarde de Verano".

 

No poema “Acelerado” denuncia a vida que vivemos em contínua aceleração. Quando queremos parar, falta-nos a vida. Como em “Drama digital” denuncia quem só vive para o mundo digital, muito competente, mas curvado. Falta a electricidade, perde-se a competência, mas mantém-se curvado.

 

Em suma, Joanna aborda as fragilidades e contradições do mundo moderno sem esquecer alguns fios de esperança. Um deles é a Europa.

 

                                                                            José Liberato




terça-feira, 1 de setembro de 2026

São Cristóvão pela Europa (365).

 

 

 

Rum, muito perto de Innsbruck, no sopé de altas montanhas, é um município que sofreu por diversas vezes um cataclismo hoje de grande actualidade: o deslizamento de terras e a avalanche de lama. O último foi em 1909 com muitas vítimas: existe mesmo uma igreja que constitui um memorial dessas tragédias. E o tema do brasão do município é a protecção contra avalanches…

A igreja paroquial é dedicada a São Jorge. Hoje essencialmente barroca, possui no exterior um fresco representando São Cristóvão.

 





 

Acima dos 1300 metros de altitude, o município de Navis, no meio de profundos vales alpinos, tem na sede do município a Bauernhaus Vögele, a casa rural Vögele, construída em 1720, com fachada muito decorada com pinturas, entre as quais uma com o nosso Santo.

Na aldeia de Unterweg, a capela do cemitério tem, na parede exterior exposta ao vale, um grande mural.

 



 


Finalmente em Telfes, a Mansão Moarhof, ao pé da Igreja Paroquial de São Pancrácio, é uma casa rural do Século XVI, decorada com frescos datados de 1597, entre os quais, São Cristóvão, neste caso acompanhado por São Floriano.

Revistas de arquitectura destacam esta casa como um invulgar exemplo de uma construção civil do final da Idade Média.

 



 

                                Fotografias de 1 de Agosto de 2026

                                                                    José Liberato





A procissão de botes baleeiros nas Lajes do Pico.

 









        Fotografias de Onésimo Teotónio de Almeida