sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

uma história pequenina...

 












A História do Mundo, ano a ano.


Europa: 2500 anos em 10 minutos.

 
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São Cristóvão pela Europa (75)

 



Igreja de São Pedro, Leiden, Holanda, 30 de Julho de 2018
 
          A igreja mais antiga de Leiden, na Holanda é a de São Pedro. Gótica, é uma das mais belas da cidade que viu nascer Rembrandt.
Os seus pilares são policromáticos, como eram os de muitas outras igrejas da época. Só que estes resistiram muito bem à erosão do tempo
Entre muitas figuras representadas está São Cristóvão.
 
José Liberato
 
 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Mais animais.

 
Desenho da elefanta Hansken, Trzebiatów, Polónia, 1693

 

Giovanni Battista Vaccarini, Fontanna dell'Elefante, Piazza del Duomo, Catânia

 
         Por via da amizade de José Liberato, Joanna Jarecka-Gomez falou-me de dois elefantes. Um, que não conhecia, é o símbolo da cidade de Trzebiatów, na Polónia, onde existe um grafito da elefanta Hansken, feito em 1693 (Hansken fez um famoso tour pela Europa, foi desenhada por Rembrandt e os seus restos mortais estão hoje em Florença, existindo até um livro sobre ela, Rembrandt's Elephant, por sinal caríssimo). Outro, mais próximo de nós, está no centro de Catânia, Sicília, na Fontana dell’Elefante, obra feita no século XVIII pelo arquitecto Giovanni Battista Vaccarini. Para o efeito, Vaccarini inspirou-se no Obelisco de Minerva, da autoria de Gian Lorenzo Bernini, que está em Roma, e que foi brutalmente vandalizado há dois anos. Horror. Tanto mais horror quanto, além de várias lendas e historietas romanas, o paquidérmico obelisco terá sido fonte de inspiração a Salvador Dalí para o seu quadro As Tentações de Santo António, pintado em 1946.
 
 

Bernini, Obelisco de Minerva, Roma, 667

 
 
Salvador Dalí, As Tentações de Santo António, 1946
 
 
Túmulos de D. Manuel e de D, Maria, Mosteiro dos Jerónimos
 
 
 
 
Túmulo de Fernão Telles de Menezes, Museu de História Natural e da Ciência,
Rua da Escola Politécnica, Lisboa
 
 
Desenho do túmulo por Gustavo Matos Sequeira
     
 
    E agora já íamos falar dos elefantes nos túmulos do Mosteiro dos Jerónimos e, também em Lisboa, no túmulo de Fernão Telles de Menezes, governador da Índia e do Algarve, recentemente desemparedado (aleluia!) ali à Escola Politécnica: Mandou esta Senhora fabricar hum magestozo mausoleo de mármores, assentado sobre dous elefantes em hu vão no lado do Evangelho da Capella mor, escreveu o Padre António Franco no anno 1719. E com isto, claro, isto lá nos desviávamos do rinoceronte, objectivo precípuo destas viagens, pelo que regressamos à Sicília, depressa e em força. Não longe de Catânia, a cerca de hora e picos de automóvel, a Villa del Casalle, de tempos romanos, famosa e patrimonializada devido aos seus mosaicos, com destaque para umas senhoras em bikini e para o corredor da «Grande Caçada». Na quinta cena dessa expedição venatória, um mosaico exibe a captura de rinocerontes numa paisagem do Nilo, ainda que não haja a certeza de que o rinoceronte figurado no dito mosaico seja africano ou indiano. Se o observarmos, vemos que só tem um corno e que a sua configuração é muito parecida com a de um rinoceronte indiano, bem diferente dos seus congéneres de África que vemos em França, no «Painel dos Rinocerontes» da francesa gruta de Chauvet (ou em Tassili n'Ajjer, no Saara, Argélia), ou na moeda do imperador Tito Flávio Domiciano que viveu entre 51 e 96 d.C.
 



Villa del Casale, Sicília
 


Gruta de Chauvet, França 


Tassili n'Ajjer, Sara, Argélia
 
Moeda do imperador Domiciano, 84-90 d.C.
 
 
      Diz-se aqui que a moeda comemorava a primeira entrada de um rinoceronte africano no Coliseu, mas o certo é que, antes dela, já muitos rinocerontes tinham estado em Roma. No fascinante livro The Day Commodus Killed a Rhino, o historiador Jerry Toner, da Universidade de Cambridge, refere que Pompeu Magno, o grande rival de Júlio César, importou rinocerontes para os seus jogos, em 55 a.C., e em 29 a.C. o imperador Augusto também teve rinocerontes nos jogos que promoveu para celebrar a abertura do templo a Júlio César, seu amado e endeusado pai. Segundo Jerry Toner, o rinoceronte que vemos a caminho de Roma, no mosaico da Villa del Casale, Piazza Armerina, na Sicília, é um exemplar indiano, opinião que acompanhamos, e o historiador de Cambridge conta a história absolutamente extraordinária de Cómodo, o filho de Marco Aurélio que, em conflito aberto com o Senado, usou os jogos como esplendorosa manifestação do seu poder. Ele próprio entrou na arena e, do alto de paliçada de madeira especialmente construída para o efeito, matou centenas e centenas de animais, em dias sucessivos, uma orgia de sangue. No primeiro dia dos jogos, assevera um senador romano, Dio Cassius, Cómodo matou mais de cem ursos, a golpes de lança. Os animais era colocados diante de si, enjaulados ou presos em redes, e o imperador Cómodo só tinha de os matar, comodamente. Até uma pequena girafa foi trespassada pelo seu furor, que não poupou o rinoceronte, a piéce de résistance devido à ferocidade do seu espírito e à espessa couraça da sua pele. Os jogos duravam vários dias, muitos e muitos dias, e eram, acima de tudo, um instrumento político de vital importância nos surdos conflitos entre o imperador e o Senado. No ano de 354, 176 dias foram dedicados aos jogos. Do ponto de vista animal, uma carnificina. Nos jogos de Trajano, por exemplo, foram massacrados 11.000 animais. Nos jogos de Tito, realizados para celebrar a abertura do Coliseu, dizimaram 5.000 animais num só dia. Jerry Toner calcula que, só para alimentar tantos bichos, eram necessárias 45 toneladas de alimentos por dia. E, no final da matança, o amontoado de carne era montanhoso, obviamente. E variado. Nos jogos promovidos pelo imperador Filipe, o Árabe, realizados em 248 d.C. fora, mortos 32 elefantes, 10 veados, 10 tigres, 60 leões, 32 leopardos, 10 hienas, um hipopótamo e, claro, um rinoceronte, entre muitas e muitas outras alimárias. Anos depois, em 281 d.C., o imperador Marco Aurélio Probo presidiu à chacina de mil avestruzes, mil javalis, mil veados, cem leões, duzentos leopardos, trezentos ursos, não havendo notícia de rinocerontes.

 


         Ao promover uma justa entre um elefante e um rinoceronte em Lisboa, no ano de 1515, Dom Manuel I, o Venturoso, estava porventura a convocar para si a glória pretérita dos imperadores de Roma. Na Lisboa da época – e muito provavelmente na sua corte – era conhecido o escrito de Plínio, o Velho, sobre a inimizade lendária entre o rinoceronte e o elefante, dizendo Plínio que o primeiro, antes de investir sobre o segundo, afiava o corno numas pedras e procurava trespassar o adversário na barriga, onde a pele era mais fina e sensível. Opinião diversa teve Marco Polo, que na ilha de Java recolheu a impressão que era a língua do rinoceronte e não o seu corno a parte mais letal do animal. Assim, sobre o reino de Basman, na ilha de Java, escreveu Marco Polo nas suas Viagens:
         «Têm muitos elefantes e unicórnios, que não são nada inferiores aos elefantes; têm pêlo de búfalo, as patas como os elefantes e no meio da cabeça têm um corno grosso e negro. Digo-vos que não fazem mal com aquele corno mas sim com a língua, porque é espinhosa, cheia de espinhas muito grandes; têm focinho parecido com o do javali, e levam-no inclinado para baixo: sentem-se muito bem entre o lodo e a lama. É um animal muito feio à vista e não é um animal que se deixe apanhar facilmente, muito pelo contrário». (Marco Polo, Viagens, trad. de Ana Osório de Castro, Assírio & Alvim, 2006, p. 159).
 
         É possível que tenha sido este relato de Marco Polo que motivou a existência de um estranho mosaico na Basílica de São Marcos em Veneza, de que já falámos, e sobre o qual há grandes discrepâncias quanto à respectiva datação, havendo mesmo quem diga que a obra é do século XX, dos anos 1960!
 
Basílica de São Marcos, Veneza
 
         Mas que a lenda da inimizade entre rinocerontes e elefantes tem raízes em várias partes do mundo, e projecção artística rica e opulenta, disso não se duvida, como veremos em próximo fascículo desta desvairada série.
 



 

Revisitando Brideshead Revisited.




Uma vez, já há uns bons tempos, escrevi aqui um desastrado texto sobre Brideshead Revisited, a obra intemporal de Evelyn Waugh. Mas para quem quiser saber a valer sobre o livro, há uma Arcádia imperdível, o Brideshead Companion aqui: https://bridesheadcompanion.blogspot.com/2017/05/contents.html
 

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

O presépio do Sr. Prior.

 
 




         Não se sabe ao certo quando começou, mas já em Dezembro de 1915 A Estrella Oriental dava notícia do Presépio do Senhor Prior. Armada todos os natais na Ribeira Grande, a criação do padre Evaristo Carreiro Gouveia tem mais de um século. Em 1985, por iniciativa do Sr. Gualberto Faria, levaram-na para o Museu Municipal, actual Casa da Cultura. E é lá que hoje está, para quem a veja. 

O senhor padre Evaristo morreu em 1957, mais de metade da vida passada ali, na Matriz da Nossa Senhora da Estrela. Era o mais novo de seis filhos, seu pai secretário das Finanças, gente do Sul da Ilha. Nesse ano de 57, em sinal de luto, o presépio não abriu portas. A tradição seria retomada pelo novo prior, padre Manuel de Medeiros Sousa, que era natural das Calhetas, o quinto de oito filhos. Anos depois, por motivos de saúde, o padre Manuel pediria dispensa ao bispo, que relutantemente lhe a concedeu, e foi então confortar a fé aos velhinhos do Lar Jacinto Ferreira Cabido.

         Os primeiros bonecos foram obra de Luís Gouveia, sobrinho e afilhado do prior Evaristo, mas muitas mãos e de muitas gerações moldaram aquele encanto. Em barro e madeira, até em plástico, fizeram-no o Manuel Pacheco, o Manuel “Caixinha de Lustre”, o Silvério Faria, o Artur Gaspar e outra rapaziada da Juventude Católica, cujo contínuo, o Manuel Saudade, morava na rua Moinho do Vale e era, sem tirar nem pôr, um sósia perfeito do venerando marechal Carmona. Por alturas de Outubro, passadas as festas de Verão, começavam os trabalhos de montagem. Em cada Natal, refrescavam-se os conjuntos, concebiam-se quadros com novas cenas, mudavam-se os musgos e as leivas, tiravam-se os fetos, as folhas mortas. Estão lá – é óbvio – o Menino e a Mãe Virgem, os três magos de Oriente, a Adoração dos Pastores. Mas também há sapateiros de poucas letras, pedreiros e lavradores, a matança do porco, a procissão do Coração de Jesus, festas do Espírito Santo. Apresenta-se assim ao público toda a Ribeira Grande, em ingénua miniatura: o edifício da Câmara, o Jardim Municipal, a Fábrica de Lacticínios, as Cavalhadas de São Pedro, os moinhos de água. De toda a ilha vinha gente admirá-lo: aos milhares, chegavam de camioneta, enchiam as lojas junto à praça em busca da fava guisada e do vinho de cheiro, compravam batata-doce assada perto da Ponte do Paraíso. Organizava-se um bazar no Passal, o Manuel Manco trazia a música, e todos pagavam bilhete para visitar o presépio do senhor prior, excepto os idosos do asilo e as crianças da catequese, que iam devidamente separadas por sexos. No final, padre Evaristo dava-lhes figos, alfarrobas, nozes – e, às catequistas, santinhos com os mistérios do Rosário.

         O presépio da Ribeira Grande, classificado em 2008 como bem de interesse municipal, prolonga a tradição local do Arcano Místico de Madre Margarida do Apocalipse e tem sido estudado com enternecedor afinco por Mário Moura. Desgraçadamente, foram queimados os papéis de padre Evaristo Gouveia, entre os quais uma preciosa história da Ribeira Grande, que em livros próprios registava semanalmente as funções eclesiais mas também os acontecimentos mais importantes da terra. Da memória oral pode saber-se, entre outros factos de histórico relevo, que eram os rapazes do Recreatório que davam à manivela que fazia mexer as figurinhas do presépio, estando o Sr. Domingos Oliveira encarregue de puxar a linha que fazia andar o Menino Jesus. Queimava-se muito incenso por alturas do Natal, quadra que na Ribeira Grande se prolongava por Fevereiro adentro. Nas vésperas da Noite Santa, andavam os homens pelas ruas a Cantar às Estrelas, que as havia muitas naquele céu puríssimo.

No presépio do senhor prior houve arte de vários mestres, entre os quais o Canudo, segeiro, e o Caixinha de Lustre, que tinha uma lojeca por baixo de sua casa, na esquina da rua das Espigas, hoje rua East Providence. E também o Manuel Botelho “Pimpão”, carpinteiro que estivera na América e trabalhava no cinema e na Rádio Iluminante. Até se mudar para a Terceira no ano de 1945, Manuel Pimpão, como todos sabem, morava na rua de Jácome Correia, à esquerda de quem vai para Santo André, pelo lado esquerdo. O próprio do prior ajudava nas figuras, na pintura dos cenários, na ornamentação do presépio, entre outros deveres sacerdotais: padre Evaristo dava doutrina às quintas e bênção do Santíssimo aos domingos (os barbeiros fechavam às segundas). No final dos trabalhos ficava tudo uma tal lindeza que outros quiseram fazer parecido. Em sua casa, na rua das Freiras, mestre António Almeida, alfaiate de profissão, de alcunha “Caga Fogo”, armou um presépio de trapos e, por bandas de 1947 ou 1948, os da fábrica do Álcool e do Açúcar vieram à Ribeira Grande copiar à descarada o presépio do senhor prior. Todos os anos havia espionagem da grossa para saber que novidades traria o Natal na Ribeira Grande. O segredo mais guardado era o do maquinismo que fazia andar as figuras. Para enganar os da fábrica do Álcool, o prior Evaristo chegou a ordenar que se pusesse a correr a fake news de que o presépio era movido a electricidade. Já o da fábrica era movido a vapor, tinha um vulcão e tudo, que os da Ribeira Grande tentaram imitar, mas não deu certo. Noutro ano, houve quem quisesse meter cenas da Paixão pelo meio da Natividade, e só uma intervenção teológica mais avisada evitou tamanho desastre bíblico. O prior tinha uma garrafinha de abafado para ir confortando os que montavam o presépio e lhe davam movimento, e todos os anos se renovavam as cenas, mantendo-se apenas as peças ou figuras que mereciam maior aplauso do público. Público que era muito e vinha de longe, sobretudo da cidade. Era tanta e tanta gente que se chegavam a formar ajuntamentos, e houve anos em que até tiveram que pôr vigilantes para impedir os apalpanços às senhoras da vila e suas filhas casadoiras.

Passava-se isto no tempo da luz velha, trazida pela Hidroeléctrica do Salto do Cabrito, numa época em que ainda não havia luz de dia e em que o pai do Sr. Humberto Peixoto tinha de pedir ao Sr. Pavão, da empresa de Electricidade e Gás, que lhe fornecesse a energia necessária para as matinés do cinema. Nem gás havia, os fogões de casa eram aquecidos a petróleo, e aparelhos de rádio só existiam nas casas das pessoas ricas e no Café Central, sendo ligados apenas à noite. Nos anos 1930, houve por ali uma loja maçónica, intitulada “Acção Renovadora”, mas para desportos profanos os moços da Ribeira Grande preferiam o futebol, disputado entre dois clubes com nome de pássaro, o Águia e o Açor, a que depois se juntou o Ideal, nascido em 1933 (depois da guerra, surgiria uma outra agremiação, Os Rambóias, de reunião episódica e duração muito efémera). Os jovens seminaristas destacavam-se na modalidade, brilhando o Luís Cabral à baliza e o Moreira Candelária a avançado-centro. Em 1933 foi inaugurado o Teatro Ribeiragrandense, que competia nas récitas com o salão paroquial, onde, além de Mozart e Wagner, se exibiram fitas de antologia sobre tempos antiquíssimos: Artur Paiva, futuro sacerdote, ficou aí extasiado com as catacumbas romanas da Fabíola, passada à tela pelo João Clímaco, que era irmão do padre Evaristo e funcionário dos correios em Ponta Delgada.   

         A guerra trouxe os ingleses ao aeroporto de Santana, vulgo “aerovacas”, com acrobacias aéreas e voos rasantes. O povo, assustado, colou tiras de papel de jornal nas vidraças das janelas. Animou muito o cinema, e nos anos cinquenta estrearam dramalhões italianos com títulos como Os Filhos de Ninguém e O Anjo Branco, a mais o Ben-Hur passado às matinés a $50, para frequência de elite: juízes e advogados, secretários das Finanças, o Ezequiel e a família, o Coelho e a família, o Dr. Leão, o sr. Cabido e esposa, as filhas do Dr. Franco. Tudo se processava no maior respeito, não fosse a Ribeira Grande uma vila em que mesmo na igreja ficavam homens para um lado e mulheres para outro, e em que às seis da tarde os rapazes tinham de sair das Poças para que as moças também fizessem banhos de mar. No Central e no Café Peixoto não entravam mulheres, e os homens passavam os serões a jogar póquer de dados e dominó, e algum xadrez. Quando estava o Magalhães, piloto-aviador vindo de Lisboa, faziam-se serenatas nocturnas, que duravam até altas horas, por vezes quase raiando a meia-noite. Antes da guerra, havia a Sociedade de Instrução e Recreio, com bilhares e bailes. Consta que o Dr. Agnelo Casimiro foi lá certa noite proclamar uma conferência.

         Passaram-se os anos, veio a emigração e a guerra colonial. Muita da rapaziada que voltava do Ultramar só pensava em partir para longe. “Se eu tivesse a sorte de arranjar uma americana…”, diziam. Os pais, de seu lado, queriam agora dar aos filhos “um curso e um emprego de gravata”. Rareava portanto quem quisesse trabalhar no presépio do senhor prior. Nos anos sessenta, surgiram Os Rebeldes do Ritmo, que começaram a ensaiar numa casa da rua do Correio. Música dos Beatles era só tocada, que o vocalista não sabia inglês. Os adolescentes fundaram a associação Os Ghosts e os mais velhos a cooperativa Sextante, ligada ao MDP/CDE, e logo encerrada pela PIDE. A alma da Sextante foi o Dr. Manuel Barbosa, líder da incipiente oposição política, director do Externato desde os anos quarenta. Aos poucos, a juventude começou a arredar do presépio ou a emigrar para a América ou para o Canadá. Criticava-se agora a criação do padre Evaristo, a distorção pueril das suas figuras, os clamorosos erros de perspectiva, os excessos de musgo e verduras, nada que se parecesse com a sóbria contenção do presépio da fábrica do Álcool, famoso em toda a ilha pelos seus relâmpagos e trovões. Começaram a fazer presépios “ao ar livre” e “presépios vivos”, uns trazidos pelos franciscanos, outros patrocinados pelas autoridades civis. Entre os mais novos, houve até quem decorasse os quartos com pósteres do Che Guevara. E, para cúmulo, as raparigas deram em aparecer nos cafés e a frequentar as cervejarias, inclusive de noite.   

         O Concílio Vaticano II e a televisão deram o golpe final. O primeiro trouxe a “catequese moderna”, pouco inclinada a presépios com figurinhas de barro. A TV, surgida nos tempos quentes de Agosto de 1975, tirou os rapazes das ruas, matou os convívios castos do salão paroquial. No Natal de 74, passada a revolução, alguns rapazes montaram um presépio polémico, em que a Natividade foi rodeada de fotografias bárbaras da guerra colonial, tudo animado a música de Zeca Afonso. Em 1975, não houve presépio na Ribeira Grande. O presépio do Sr. Prior deixou de ser armado por volta de 1977 e a partir daí teve existência intermitente até meados dos anos 1980, quando foi transferido para o Museu Municipal. Está hoje ali, conservado em esquife laico ou, como agora se diz, “musealizado”. Quando era novo e pujante, o presépio do Sr. Prior viu muito e muita coisa: passou a República e a Grande Guerra, sobreviveu a Auschwitz e a Hiroshima, fez o Salazar e a Revolução dos Cravos. Dele hoje resta não mais que uma memória, suave lembrança das mãos que o fizeram.

         Bom Natal.
 
 
António Araújo
 
(publicado originalmente no Diário de Notícias)



segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Feliz Natal.

 
A Adoração de Cristo-Menino, c. 1515
 
 

Pintado circa 1515, este quadro pertence à colecção do Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque. Intitula-se A Adoração de Cristo-Menino e é um óleo da escola flamenga, desconhecendo-se o seu autor, que se pensa ser um discípulo de Jan Joest of Kalkar.
 
Segundo diversos investigadores, o quadro constitui a mais antiga representação artística da síndrome de Down conhecida em todo o mundo. No rosto e nas mãos, o anjo ajoelhado à esquerda da Virgem Maria apresenta traços característicos de Trissomia 21, de acordo com artigos publicados em prestigiadas revistas académicas, como o Journal of Medical Genetics ou o British Medical Journal.
 
A síndrome de Down, como é sabido, foi descrita cientificamente por John Langdon-Down em 1866. Contudo, o facto de a sua primeira representação em todo o mundo ter sido feita através da arte, num quadro da Natividade, é algo tão intrigante quanto fascinante, para crentes ou não-crentes.
 
Feliz Natal.
 
António Araújo
 
 
(texto originalmente publicado no blogue
da Fundação Francisco Manuel dos Santos)