quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Ela.



 
Henri Cartier Bresson
 
 
Ela vai-se transformando numa imagem da erosão da vida. Vi-a pela última vez numa aparência saudável em 2008. Tinha passado os trinta anos de idade e mostrava-se confiante na companhia do namorado. Os anos seguintes tornaram dolorosamente impossível fugir às marcas da vertigem do tempo, como se a realidade me coagisse a assistir, com intervalos mais ou menos regulares, a uma película sobre as relações avessas entre a vida e a doença. Em 2010, no reencontro, Ela não me olhou. Tinha perdido a visão. Porém andava, passeava, era sociável, preservava alguma autonomia. Como podia, a sua família chegada enfrentava com sobriedade as primeiras angústias da exposição pública do seu estado, com visitas lá por casa frequentes. A empatia com a situação, mesmo que sofrida ou embaraçosa, deixava antever nos rostos que se entrecruzavam, certamente também no meu, a crença de uma vida pela frente que as limitações provocadas pela doença não impediriam que seguisse o seu rumo por muitos e bons anos. No ano seguinte, 2011, entretanto, Ela evidenciava sinais de fragilidades que se impunham numa cadência bem mais rápida do que eu esperava. Era talvez a minha fé na esperança a trabalhar por conta própria, fé que pode não servir para apaziguar a natureza. Ela, nesses dias, evidenciava maiores dificuldades de locomoção ou de gestão dos alimentos ingeridos e, no génio, vislumbrava-se uma agressividade crescente jogada contra os que d’Ela cuidavam. Foi altura em que o rosto da sua filha, Menina no início da segunda década de vida, começava a revelar sinais indisfarçáveis de tristezas sem-fim. A Menina sempre fora sociável, porém nesses dias eram maiores as ansiedades para sair de casa. Fazia-o sempre que podia, inconfessadamente em fuga. E não apenas para estar com amigas e amigos, que já não iam tanto ter consigo, mas simplesmente para estar longe de angústias que, na verdade, estarão sempre dentro da Menina. Esta, por milagres da medicina, felizmente escapou da contaminação à nascença. Por seu lado, às escondidas dos familiares que só deram pela doença quando, quase uma década depois, tentou forçar o destino, Ela foi vivendo os primeiros anos da revelação que nem heroína. Tudo fizera durante a gravidez para evitar danos à filha: alimentação cuidada, prescrições médicas seguidas à risca, visitas regulares ao médico. Contundo, os anos da maternidade foram sempre agravando o peso da sua cruz. Além da doença silenciosa, a rejeição da assumpção da paternidade da Menina pode bem ter sido uma causa maior. O pai da Menina era casado e viveu a situação como um caso acidental. Até quando acreditaram nele, foi prometendo que ao menos assumiria a paternidade. Fê-lo apenas no papel. Os anos foram passando e não se coibiu de cultivar, desde cedo, um maniqueísmo afectivo descompensador da dupla existência familiar em que estava implicado. Reforçou a aproximação à família legítima, se é que assim se pode designar, à custa do afastamento ostensivo desta outra filha, legítima, mas de fora. A Menina, por seu lado, foi crescendo com a ilusão de um dia se aproximar do pai, das meias-irmãs, quem sabe da madrasta. Também neste capítulo a crueza dos dias foi esfrangalhando ilusões. Sentia-as perdidas no mais recente reencontro, em 2013. Nada de convívios, presentes, férias com a outra sua família, a do progenitor. Apenas distanciamento e, nas atitudes da Menina, um receio avolumado da madrasta. Ela, a mãe da Menina, hoje sussurrando ainda que gostava muito do pai da Menina, foi tentando fazer pela vida nesses longos de anos. A doença relativamente controlada não dava sinais para fora nem para o corpo, mas soube-se depois que se cravava cada vez mais fundo na alma. Um ou outro namorado fizeram parte do esforço de existir. Eles até poderiam ser segundas escolhas, mas nestas coisas nunca se sabe. Contudo, não terá sido indiferente que também eles, os namorados, tivessem os seus passados, filha ou filho, e demais marcas de vidas anteriores. Nessas relações, Ela suportava o fardo cada vez mais pesado dos seus dilemas. Achava que não poderia contar e muito menos passar-lhes uma doença que sequestrara para todo o sempre a sua intimidade. Até que uma relação, mais estável, começou a gerar tensões por desconfianças, em muito dependentes da inexistência de filhos em comum. O namorado passou a estranhar de modo ostensivo as obsessivas exigências d’Ela na intimidade conjugal. Era também a altura em que Ela trabalhava num escritório de advogados, revelando, ao que se sabe, competência e reconhecimento profissional. Mas exigências e mais exigências assaltavam-lhe a alma com avolumada estridência: da filha e da indisfarçável rejeição pelo pai; do namorado e da relação com a filha dele, com os desejos dele; das obrigações de uma vida profissional cada dia mais absorvente. De repente, um qualquer grão na frágil engrenagem espoletou uma aguda vontade angustiada de revelar, de uma vez por todas a todos, do que padecia. A vontade de não querer ficar refém solitária da doença. A inviabilidade de guardar o segredo num casal em rota de conflito. Os remorsos em relação à sua Mãe, a avó da Menina, em quem poderia ter confiado desde que o alarme tocou. Ela, em 2009, deixou-se dominar pela única porta de saída que julgava ao alcance das suas forças: explodir. Escolheu uma modalidade irreversível: explodir para dentro. Rompeu com o namorado. Mas não foi essa a decisão crucial. Foi outra: parou, em silêncio, com a medicação. Não foi um suicídio. Foi a resignada recusa de intermináveis fardos, ainda assim com réstias de esperança. A certeza que lhe sobrava era apenas a de precisar de ver, precisar de estar com a Menina e, como nunca, precisar de abusar do conforto materno. Ela foi perdendo o apetite, foi perdendo as forças. Alegava cansaço, stresse por causa do emprego, más disposições. Para os outros, a versão do arrufo de namorados servia de bálsamo. Tudo ir-se-ia recompor. Era questão de dar tempo ao tempo. Mas Ela foi perdendo peso, decaindo, decaindo, decaindo. De um dia para o outro, viu-se acamada. Ainda nesses momentos, fez com que os da casa especulassem sobre diversas maleitas: gripe, malária, pneumonia. Males comuns que podem matar, mas que talvez não matem socialmente. No limite, quando internada, deixou de ter como negar. Confessou que sabia o que o destino lhe havia reservado há mais de uma década, desde a gravidez. Por isso mesmo, e por muitas razões de fé na vida, nunca quis abrir mão da que seria a sua única criança. Tarde demais para Ela. O vírus, liberto da guarda farmacológica, em poucas semanas fez estragos irreparáveis: na vista, no corpo, e ainda mais na alma. A forte medicação salva-vidas produzia outras tantas desregulações: na digestão, na disposição, no sono, nos sonhos. Ainda assim, nos primeiros tempos de convalescença foi recuperando peso corporal, postura, algum ânimo. Era 2010. Logo, logo, a consciência vivida, em cada novo dia, da impossível reversão do cenário escuro em que a doença a encerrara, mais outras tantas impaciências, voltaram a dar trunfos à descrença. Ela liberou-se com maior convicção do esforço próprio para se agarrar à vida. Não via, não podia ver, a quê. Foram sobrando pouco mais do que réstias de obediência às vontades da Mãe, à voz e abraços e beijos da Menina, para que continuasse ligada. Por seu lado, uma Mãe transformada em mãe da sua filha e mãe da sua neta. Dois em um de dias dificílimos. Esta Mãe-Avó, também ela, passou a pagar o resgate das esperanças com a sua própria pele. O agravar do peso dos seus anos tornando-se visível dia-a-dia, mas mesmo assim sempre convictamente resignada aos trabalhos hercúleos que se impôs a si mesma: garantir que Ela, a sua única filha, permaneça neste mundo e que se cumpra o ciclo natural, os mais velhos primeiro; garantir que a Menina, a sua única neta, cresça feliz e crente num futuro melhor do que a vida de todos os seus poucos anos. Mas, infelizmente, repito: a fé pode não ser suficiente para recompor a erosão das forças físicas da Mãe-Avó. Ela, a filha, hoje já não anda, só de cadeira de rodas; pouco se mexe sozinha, sempre necessitada de amparo; a sua dependência dá sinais de caminhar para estádios absolutos. A doença atrofia sem piedade, picando a vítima por todo o corpo. Espasmos de dor ecoam cada vez mais pela casa. Nos intervalos, Ela fixa-se em repetições de frases, interrogações, pedidos, exigências, teimosias saturantes. Fazem parte do rol que agrava uma atmosfera já de si pesada. Redobram os esforços dos que podem, mas num braço-de-ferro de derrota antecipada. À Menina, a essa, pouco resta do que persistir na fuga. Para fora de casa e cada vez mais para dentro de si. A quebra dos resultados escolares é, ainda assim, o menor dos males neste entrelaçar de gerações de mulheres sofridas. Apesar dos pesares, a Mãe-Avó persiste em remar contra a vaga de infortúnios. Mas mesmo a Mãe-Avó, às vezes, lamenta-se: O problema é que Ela não ajuda. Resiste à medicação. Resiste à fisioterapia. Está sempre contrariada. Angústias de Mãe que sabe perfeitamente ser o motor da vida daquela que fez nascer uma primeira vez e renascer adulta uma segunda vez, desta feita arrancada das entranhas da doença. A Mãe talvez nunca venha a saber qual dos partos terá sido o mais doloroso. O pai da Menina, esse, mantém o culto da distância, tal qual personagem principal que ignora o enredo. Este filme, qualquer que seja o desfecho, não terá fim. Rogo por todas: por Ela, pela Menina, pela Mãe-Avó.
 
 
Gabriel Mithá Ribeiro

 
 
 

9 comentários:

  1. Ainda li um bom bocado... começar a ler quem assina primeiro. Isso, e capas de livros. De resto, por cá, boas histórias.

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  2. Que prosa mais pobrezinha. Lugares comuns, advérbios de modo, literatura de cordel. O que é que isto faz no Malomil?!?!?!?!

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    1. Medita anónimo,analisa-te bem; nunca é tarde para fazeres a tua revolução da psique. Desejo-te saúde e sorte.

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  3. Rosquilha: o que se enrosca em si

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    1. Saber ler é uma bênção. Felicito os que o conseguem fazer. No entanto, como é sabido, o número de "iletrados" funcionais ainda é vasto. Há comentários que revelam o vazio que ainda circula por aí. É certo que a liberdade de expressão é um valor inalienável. Creio que por essa mesma razão se deva refletir antes de opinar. Henrique de Sousa

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  4. Dura realidade que tiveste a capacidade e sensibilidade suficientes para nos transmitir.
    A nós, que, de uma forma ou de outra, vamos seguindo estas tristes vidas, toca-nos fundo, principalmente porque, impotentes, assistimos ao desmoronar de entes queridos.
    Bem hajas.
    J.G.Jafar

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    1. Abraço, Jafar. A vida continua,
      Gabriel

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  5. A inevitabilidade da vida...e da morte.Difíl explicar e compreender esse estigma social tão grande, enraizado de tal forma, que acrescenta tanto mais dor, (sofrimento e solidão )que a física. Esse fenómeno que impede que se cuide com dignidade e tranquilidade possivel, dividindo o fardo da iminência da perda de quem mais gostamos.Isto num pais que esta causa de morte só é ultrapassada pela malária e acidentes de viação.Bem hajam as mulheres,as mães,as esposas,as filhas.Um abraço da prima de sempre.

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  6. As vidas entrelaçam-se umas nas outras. As de dentro, as de fora, as que vivemos e as que queremos. Nas mulheres, e perdoe-me a franqueza, tudo isto acontece num plano ainda superior. Mulheres juntas em sofrimento são uma rocha forte. Fraca o suficiente para que a vida, madrasta, a arrume de uma vez.

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