sexta-feira, 21 de março de 2014

O último filme de Hayao Miyazaki.








Estreou em Portugal a última obra de Hayao Miyazaki. A última por ser a mais recente. A última por, assim o promete o cineasta, ser a derradeira. Não a quero ver. Sei que acabarei por vê-la, mas não a quero ver enquanto não souber mais sobre o seu conteúdo.
No dia em que, perambulando por um supermercado, comprei um DVD de filme de animação em promoção, de um autor desconhecido para mim, em cuja capa se afirmava ter sido nomeado para o Óscar – um euro por um quase-Óscar, deve valer a pena, pensei –, descobri o universo fantástico de Hayao Miyazaki. Soube depois que fora o criador dos anime dos filmes da Heidi da minha infância. Mas as suas longas metragens pertencem a outra dimensão.
 
 
O Castelo Andante
 
 
As mais conhecidas são “O Castelo Andante”, o quase-Óscar de 2005, e “A Viagem de Chihiro”, que venceu o Óscar de melhor filme de animação, em 2002. Por uma vez a Academia esteve certa, porque são ambos fabulosos. As protagonistas são duas jovens corajosas e ingénuas, que talvez comecem sendo corajosas por serem ingénuas mas a quem o sofrimento, desgastando a ingenuidade, reforça a coragem.
As jovens e as meninas de Miyazaki são, aliás, notáveis e surgem em todos os seus filmes. Desde a princesa Nausicaä que tem uma empatia especial pela natureza e fala com os monstros Ohm, persuadindo-os e apaziguando-os, à Sophie de “O Castelo Andante” que, amaldiçoada, nunca perde a esperança e vence pela persistência. Depois, as meninas Satsuki e a irmã de quatro anos cuja mãe está doente no hospital e, muitas vezes sozinhas, encontram esse gatarrão mágico, Totoro, que só os olhos lavados das crianças conseguem ver. E Kiki, a aprendiz de feiticeira, na sua aventura para aprender essa arte ancestral, empreendedora quando lança um serviço de entregas aéreo, voando na sua vassoura acolitada pelo gatinho Jiji e salvando o seu amigo quando aprende a vencer os seus medos.
Num filme diferente, “O Porquinho Voador”, cujo título português engana por evocar os três porquinhos, o que temos é um cínico aviador da Grande Guerra, tornado mercenário, vendendo os seus serviços para proteger os navios de recreio do Adriático ameaçados pela pirataria hidroaérea, que sentiu de perto o hálito tentador da morte mas resistiu, perdendo o direito a amar. Como que para se proteger dos sentimentos humanos, transformou-se num porco antropomórfico: cabeça de porco, corpo de homem. Mesmo aí surge a jovem engenheira Fio, capaz de resolver todos os problemas, enfrentar todos os perigos e despertar o amor.
O filme anterior de Miyazaki, “Ponyo”, era uma deliciosa aventura sobre um peixinho encantador que, depois de experimentar o sabor do sangue humano, se transforma na menina Ponyo. Num mundo aquático ameaçado pela mão do homem, Ponyo e o seu amigo Sosuke tudo vão fazer para salvar os homens e a natureza.
 
A Princesa Mononoke
 
 
 
 
Todos estes filmes são alegorias mágicas, onde se afirmam valores mas também se desenvolvem frequentemente personagens ambíguas e complexas. O mais extraordinário de todos os filmes é, na minha opinião, “A Princesa Mononoke”. Não é dos mais elaborados tecnicamente. Nessa vertente, “A Viagem de Chihiro” e “O Castelo Andante” têm cenas em que nos recusamos a acreditar, tal a perfeição da imagem, multiplicando-se os pormenores assombrosos e luxuriantes que julgaríamos impossíveis de atingir na animação.
Ao nível da narrativa, no entanto, “A Princesa Mononoke” é uma alegoria excepcional sobre a história do Japão. Desde que o jovem nobre Ashitaka se vê forçado a abandonar o povo Emishi, a quem salvou do ataque de um monstro que o amaldiçoou, sabe que nunca mais voltará ao que era e que terá para sempre de buscar a fonte do mal. Ultrapassando mil perigos, usando de extrema violência, descobre a Cidade do Ferro, Tataraba, governada por Eboshi, uma daquelas mulheres ambíguas e complexas, que explora as suas trabalhadoras e que parece fazer o mal por gosto para depois se perceber que é capaz de todas as ignomínias para salvar os seus e um modo de vida ameaçado. E que as suas trabalhadoras especializadas foram atingidas por uma mal – a lepra – que faria com que fossem mortas sem a sua protecção.
Nessa cidade fabricam-se armas de fogo, o que de imediato nos remete para a sua introdução pelos portugueses, em 1543, na cidade costeira de Tanegashima. Eboshi é a única que fabrica armas de fogo, pelo que tem de negociar com os samurais do Senhor Aasano e com um agente do Imperador, o falso Jiku. A destruição e a morte que as armas provocam são assustadoras, mas a Princesa Mononoke, que luta com as armas tradicionais e a magia, ajudada por Ashitaka, acaba por vencer depois de muito sofrimento. E a história como que retoma o seu curso. Mas nunca é permitido voltar atrás.
Hayao Miyazaki cobre com o manto da magia e da imaginação tudo o que o assombra. Nascido em 1941, o seu pai tinha uma empresa de produção de componentes para a aviação, usados, nomeadamente, nos famosos Mitsubishi Zero da força aérea imperial. Daí vem o fascínio de Miyazaki pela aviação, presente em quase todos os seus filmes. Contou, mais do que uma vez, o que o marcou na juventude: a tranquilidade com que a sua família atravessou aqueles anos tenebrosos porque o pai desempenhava uma função essencial para o esforço de guerra; depois, o tempos do fim, quando assistiu ao bombardeamento de Utsunomiya, em Julho de 1945; ao que se seguiu a evacuação da cidade incendiada, em que a sua família se acomodou em bons automóveis e o pequeno Hayao viu os pobres compatriotas que ficavam para trás e a quem foi recusado um lugar nas viaturas para escapar à tragédia.
Esta é uma memória que marca Hayao Miyazaki e que marca ainda hoje o Japão. Uma memória que criou o imperativo categórico do nunca mais. Nunca mais sofrer o indizível.
 
 
 
 
 
 
É interessante notar que o “anime” japonês é muito mais do que Miyazaki. Ele fundou, com um companheiro, os famosos Estúdios Ghibli (cujo símbolo é o gatarrão mágico Totoro). Aí surgiram muitos autores destacados e alguns filmes extraordinários. Chamo a atenção para dois. Em primeiro lugar um filme que nos toca fundo no coração, o terrivelmente belo “O Túmulo dos Pirilampos”, de Isao Takahata. Parece que em 1988 já se podia fazer um filme sobre aquilo que o jovem Hayao, e dezenas de milhões de japoneses, passaram no fim do conflito.
Deve recordar-se que a guerra só chegou ao território do Japão muito tarde e apenas pela via aérea. A excepção foi o primeiro ataque anfíbio a território japonês mas que, simultaneamente, foi a última batalha da guerra. A ilha de Okinawa pertence ao arquipélago de Ryukyu e foi tomada no decurso da maior batalha marítimo-terrestre-aérea da história. Mas tal ocorreu apenas em Abril de 1945. A invasão aérea começou com o “raid Doolitlle”, de 18 de Abril de 1942, mas este teve efeitos apenas propagandísticos – dizia-se assim aos americanos que a vingança chegava ao coração do Japão  –, e pouquíssimos japoneses se aperceberam do ataque. Na verdade, de início a ofensiva aérea aliada tinha dificuldades em chegar ao território japonês. Só mais tarde, com o lento avanço pelo Pacífico, sacrificado à opção estratégico-política de dar prioridade à derrota da Alemanha, foi possível conquistar bases que permitissem bombardeamentos em massa. Quando estes chegaram, a destruição foi terrível, sobretudo com bombas incendiárias que aproveitavam o facto de as habitações típicas dos japoneses serem sobretudo em madeira e papel. De facto, morreram muito mais civis japoneses em consequência de ataques com bombas incendiárias do que em Hiroshima e Nagasaki.
“O Túmulo dos Pirilampos” conta a história de dois irmãos, um rapaz e uma menina, que sobrevivem a um bombardeamento incendiário mas ficam órfãos de mãe. Entregues a si próprios, ignorados pelos compatriotas que só pensavam na sua própria sobrevivência, perseveram e fazem o seu caminho. Um estória extraordinária a que assistimos  com um nó no coração, do princípio ao fim, amaldiçoando todas as guerras e todos os egoísmos. Um tema caro a Hayao Miyazaki.
 
 
Yoshifumi Kondo, O Sussurro do Coração, 1995
 
 
O mesmo se pode dizer de outro filme lindo, lindo: “O Sussurro do Coração”, de Yoshifumi Kondo, de 1995. É a obra perfeita para presentear uma adolescente que procure o verdadeiro amor e julgue só o poder encontrar num rapaz que tenha uma alma semelhante à sua: inteligente, sonhadora, corajosa e muito, muito amante de livros. Shizuke, a adolescente que tem paixão por ler, descobre que todos os livros que levanta na biblioteca já foram requisitados por alguém chamado Seiji Amasawa. Quem será aquele que lê os mesmos livros? Só pode ser uma alma gémea, pensa Shizuke. Mas não será um velhinho desdentado? Ray Bradbury escreveu um conto, também ele lindo, lindo, sobre um jovem que encontra a sua alma gémea prisioneira do corpo muito velhinho de uma senhora da cidade onde vivia; o mínimo que se pode dizer é que a leitura desse conto é pungente. Mas aqui não, Yoshifumi Kondo não tem esse sentido tragicómico da vida. Seiji Amasawa é um jovem encantador que tem um sonho – ser construtor de violinos – e que incentiva Shizuku a seguir o seu sonho – ser escritora. Depois de muitas peripécias emocionantes, ficam juntos para sempre seguindo os seus sonhos.
Estes filmes têm estórias muito bem contadas, animação de primeira água e muito bons sentimentos. Mas falta-lhes o golpe de asa genial de Hayao Miyazaki. Aquela magia que assoma a cada passo e que tudo transforma. Que, de súbito, nos cria engulhos porque deixamos de perceber o sentido. Temos tendência a exigir da arte um sentido. Com se tudo na vida tivesse sentido pleno tal qual os filmes de Takahata e de Kondo, como se toda a arte devesse ser demonstrativa e prenhe de ensinamentos facilmente legíveis.
Miyazaki é mais estranho, mais impenetrável e sempre inesperado. Nada substitui a primeira visão de um dos seus filmes. Quando, nas últimas cenas de “O Castelo Andante”, o Cabeça de Nabo se liberta da sua maldição e se transforma num príncipe que ama Sophie e nós sabemos que Sophie ama e é amada pelo mágico Howl, percebemos que o amor do Cabeça de Nabo nunca será correspondido. Não estávamos à espera, nunca estaríamos à espera. Porque essa impossibilidade é trágica. Esse é, aliás, o verdadeiro significado da tragédia: algo que é sentido como necessário e, simultaneamente, compreendido como impossível.
A vida é feita de pequenas ou grandes tragédias dessas. Os filmes demasiado perfeitos não. Por isso, Miyazaki não sendo perfeito, atinge a perfeição da imaginação. Em todos os seus filmes até agora. Receio que o seu derradeiro filme, aquele em que evoca o pai, seja diferente e, por isso, temo correr o risco de nele não encontrar a perfeição da imaginação do pequenino Hayao, assombrado pela sua memória, exorcizando-a com as suas alegorias fantásticas.
Quando os meus filhos perguntam se o Lobinho que lhes garanto que está ao fundo a cama ou os Pocós Azuis que se escondem debaixo da mesa e comem as migalhas que eles deixam cair existem mesmo, nunca lhes digo que existem nem que não existem. Digo sempre que existem… na sua imaginação.
É nos sentidos obscuros que florescem na nossa imaginação que encontramos o melhor amparo para sobrepassar as pequenas e as grandes tragédias da nossa vida. Aí e no abraço de quem nos ama. Mas o que é o amor senão a partilha da nossa imaginação?
 
José Luís Moura Jacinto
 
 
 
 

1 comentário:

  1. Caro José, sem querer estragar nada, queria apenas deixar aqui algumas ideias.
    Vi o filme no S.Jorge e garanto que vale a pena ver, embora, aparentemente, seja o menos alegórico dos seus filmes.

    Aparentemente, por que ao servir-se de uma biografia, HM reflecte sempre sobre a cultura do Japão, embora sem recorrer ao fantástico. Talvez por isso haja algumas cenas muito próximas de um certo cinismo,ao menos foi o que senti.

    Pareceu-me também o mais desencantado dos seus filmes e mais melancólico.

    ResponderEliminar