Num tempo em que a literatura da
guerra colonial se foca em memórias, em quadros de expiação de filhos de
antigos combatentes que visitam os locais por onde andaram os pais, não deixa
de surpreender O Elogio da Dureza, volume I de uma trilogia intitulada A Vida
Aventureira de um Homem de Letras, por Rui de Azevedo Teixeira, Guerra e Paz
Editores, 2024. Não vale a pena iludir a chamada ficção da literatura de
guerra, romance, novela, conto, tem sempre fumos autobiográficos. O autor é
doutor em letras, tem obra de académico e de ensaísta e procura neste seu
primeiro volume da trilogia descrever a preparação de um alferes dos Comandos,
expõe com crueza um drama familiar, era dado como perfilhado, sentia a ferida
da discriminação, ainda por cima a relação com o padrasto era quase nula;
fala-nos da sua mocidade e das muitas leituras, com relevo para Camões,
Hemingway, Simenon, à testa de muitos outros nomes. Andou por Coimbra,
frequentava certamente um curso de Filologia Germânica, citações a jeito de
tais línguas aparecerão no romance. Impelido pelo fascínio da força,
encaminhou-se para a guerra, vai descrever como nunca ninguém descreveu a
preparação de um Comando, entremeia também como páginas de um diário que ele
apresenta como diário incerto.
Sobrepõe-se os tempos no romance,
antes de conhecermos o que foi a sua preparação para a guerra, vemo-lo de
regresso, um tanto à deriva, é convidado a entrar no PREC, o alvo são os
esquerdistas e os comunistas. E entramos brutalmente no universo infernal da
preparação, feito em Angola, no Centro de Instrução de Comandos. O teste da
sede, o arranque do curso estava dado – brutalidade com o máximo de disciplina,
formandos quase enlouquecidos a beber a própria urina, as humilhações, as
eliminações de quem não suportava a dureza de tais provas, os crosses e as
marchas forçadas, as flexões, numa barra fixa, até à exaustão, os tratamentos
degradantes, a leitura em voz alta do correio enviado aos formandos, aquilo que
hoje podemos chamar de violação de correspondência.
E virá um momento de dúvida neste jovem que se
ofereceu para os Comandos, ele vai passar uns dias a Luanda e segue-se um
episódio marcante assim descrito:
“De um golpe, numa única lição
prática, percebeu a essência do colonialismo. Uma parte dessa essência.
Paulo descia e o homem preto subia. Ambos
pelo mesmo passeio estreito. O preto tinha cerca de cinquenta anos, cabelo
grisalho, fato coçado. Um ar sério, digno, de pequeno funcionário. Três ou
quatro metros antes de se cruzarem, o homem olhou para Paulo, baixou os olhos,
encurvou as costas e, automaticamente desceu do passeio para Paulo poder passar
à vontade. Baralhou-se a cabeça ao cadete. Caiu-lhe muito mal que um homem
preto de meia-idade se tivesse curvado, diminuindo-se perante um jovem branco,
perante si. Pela idade, podia ser seu pai. Nenhum dos textos que tinha lido
sobre o colonialismo teve em Paulo o mesmo impacto que esta cena muda numa rua
de Luanda.”
Vamos conhecer a vida daquele grupo de
cadetes, os sofrimentos a que eles serão sujeitos nas últimas semanas da sua
formação, segue-se o juramento dos Comandos. Voltamos ao PREC e passamos para a
guerra do Leste de Angola, Paulo está no Luso, seguem-se operações, caso da
Empurra Tudo, na zona do Luma Cassai, no lusco-fusco o grupo da tropa especial
entra num acampamento, vamos ter o horror da guerra, uma faca de mato na
barriga de um velho, girando lá dentro como o corno de um touro numa corrida,
não faltam tiros de misericórdia para os guerrilheiros agonizantes. Entre
operações, Paulo refastela-se, companhias femininas não lhe faltam, e depois
temos as operações, os mortos e os feridos, não faltam interrogatórios com
sofrimento descomunal. Há também as perdas de camaradas. E depois Paulo é
afastado do Leste, vem preparar novas gentes, vai guardar grandes saudades das
Terras do Fim do Mundo.
Neste entremeado do durante-antes-depois,
Paulo já está a acabar o seu bacharelado, vemo-lo agora no centro de instrução
dos Comandos, faz um curso de milhas e armadilhas, é convidado para participar
na operação pantufada, no Mayombe, deixa-nos uma bela descrição:
“Sob intensa chuva e trovoada agressiva,
os Comandos entraram ao fim da manhã na opulência vegetal de Mayombe. Os
estouros metálicos dos trovões davam-se mesmo por cima das copas das árvores
majestosas, o que tornava os comandos momentaneamente surdos. A espessa massa
vegetal, de cheiro intenso e meio adocicado, e o sobe e desce dos morros da
floresta tornavam a progressão muito mais difícil do que avançar pelas planuras
do Leste. Mayombe, o verde vibrante e ubíquo. Verde no chão, verde a meia
altura e, no alto, um céu de folhas verdes. Só o acinzentado das árvores muito
direitas, altas e elegantes escapava ao verde.”
E assim chegamos ao 25 de abril. Paulo é professor em Vila Figueira, cria amizades, gosta da estúrdia com um aristocrata real. Vai depois ensinar na ilha da Madeira, está a acabar a licenciatura, conhece Iza Maria Possolo d’Ornellas, haverá um casamento, ele dirá ser “sublime, sólido, sagrado”. A expiação em que vivera como filho de pai incógnito e perfilhado pelo padrasto irá ser cabalmente esclarecida por Iza, afinal Paulo era filho do padrasto, ele não esconde a sua revolta, aqueles pais nunca tiveram em conta o sofrimento do filho, decidiu nunca mais voltar a falar com os pais. Assim termina o volume primeiro desta aventura de um homem de letras. António Cândido Franco diz tratar-se de “Curioso e comovente percurso do lobo solitário, personagem viva e única que evolui diante do leitor de forma memorável… Um milagre que transforma a dureza em pureza.” Esperamos vir a seguir as outras obras da trilogia.
Mário Beja Santos

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