domingo, 22 de maio de 2022

A Europa, entre o Congresso de Viena e a Ata de Helsínquia.

 



 

Dei comigo a pensar em que época na História da Europa ocorrera um fenómeno como este que presentemente vivemos de uma aparente coesão devido a uma agressão de um país a outro, parece que o continente, sem exceção, se quer precatar de novas conquistas, ninguém deseja que se mexa nas fronteiras. Digo aparente coesão porque não há na atualidade nenhum bloco ideológico constituído (nem se prevê tal hipótese) que atravesse todo o continente europeu até às fronteiras da Bielorrússia e da Rússia, não houve qualquer convenção internacional em que a generalidade dos povos europeus tivessem acordado em reagir drasticamente face à invasão da Ucrânia. E dei-me a questionar que turbulências parecidas houve na Europa nos dois últimos séculos. Assim cheguei a uma obra inesquecível na minha formação, saída da pena de um historiador de primeiríssima água, Jean-Baptiste Duroselle, ao tempo imbatível no estudo das relações internacionais e de uma profundidade exemplar no seu conhecimento da História da Europa; terei lido o chamado guia de Duroselle e pela primeira vez em 1976 e sempre o vasculho quando há uma questiúncula entre gregos e macedónios, servos e bósnios, húngaros e romenos, ou pretendo saber um pouco mais quanto ao processo de formação da Alemanha no II Reich, operação prodigiosa de Bismarck. Afinal, embora fora dos acontecimentos tão atuais, o que há de inextinguível neste livro de Duroselle? Quem sabe muito não esconde os seus instrumentos de trabalho nem as fontes consultadas, desvela a bibliografia que lhe pareceu a mais significativa. É impressionante o que ele oferece ao estudioso quanto à pesquisa das fontes, os instrumentos de trabalho, os livros que ele reputa por indispensáveis.

Tudo começa na Europa de 1815, Napoleão foi derrotado, houve que reconstruir a vida política do continente, encontrou-se consenso sobre o que se chamava a legitimidade e o equilíbrio europeu. Formaram-se alianças, Duroselle dá-nos conta da estrutura interna dos Estados e lembra-nos que a Europa de 1815 era legitimista, clerical, reacionária, aristocrática, fundada em desigualdades, mas estava a amadurecer-se para uma longa sucessão de revoluções. E daí, o historiador dá-nos o itinerário de ações e revoluções até 1871, vamos ter insurreições, os pobres agitam-se, desenvolvem-se sociedades republicanas, pululam as crises económicas, o recém-criado Reino Unido (1800), a França e a Prússia preparam-se para os grandes desafios da industrialização, da ascensão burguesa e da conquista imperial. É tempo de nacionalismos também, logo a Bélgica, a Itália, as nações emergentes da desagregação do Império Otomano.

Tema referencial é a diplomacia de Bismarck, ele vai jogar em todos os tabuleiros, da Rússia, passando pela Áustria até à Grã-Bretanha sucedem-se as alianças e as crises, assim chegaremos a uma era de crises entre 1904 e 1914. Em 1871 até aos inícios da I Guerra Mundial, contrariando todos os projetos conservadores, assistimos a um nível de democratização dos Estados, a uma melhor repartição da riqueza, os ministros deixam de ser recrutados na aristocracia, os partidos radicais ou socialistas exigem a educação universal gratuita, é um tempo de reformas, o que nós hoje chamamos Direita e Esquerda é obra deste tempo.

A I Guerra Mundial gera um novo quadro europeu, entramos numa era de democracias e totalitarismos, crescem gradualmente os perigos que irão desembocar na II Guerra Mundial e quando esta finda entramos num sistema bipolar, no equilíbrio do terror, numa alteração radical no sistema de alianças e na descolonização. Duroselle parte noutra direção, quais os novos problemas e como eles aparecem debatidos, a importância que vão ter a opinião pública, o nacionalismo, os grupos de expressão, a personalidade do homem de Estado. E temos as revoluções, os seus diferentes tipos, como se distinguem, quais as suas causas, as que não tiveram seguimento, as que se apresentaram como tal e em que as elites as dinamitaram ou jugularam, sem reação das massas populares. Trilhando caminhos indiscutivelmente ásperos, ele fala-nos da guerra e da paz, causas e falhanços dos vitoriosos, como ao longo deste período se procuraram evitar as guerras. E chegamos à colonização e à descolonização. Os países coloniais eram essencialmente os do Atlântico, mais tardiamente apareceram a Alemanha, a Itália, a Bélgica, os Estados Unidos e o Japão. São passados em revista os problemas do imperialismo colonial e como emergiu, através de elites ditas indígenas formadas nas metrópoles coloniais, a contestação e como se processou o antigo colonialismo na Europa, e como tudo desaguou na descolonização. E depois desta viagem galopante, e de uma síntese que só é possível a um historiador de grande visão e conhecimentos chegou o momento da conclusão: “A História é só uma e é total. Em qualquer processo político nós devemos procurar todas as explicações possíveis, superficiais e profundas. Iremos descobrir rapidamente que não há História Política, nem História Social, nem História Económica, nem História Militar, nem História Religiosa com autonomia. Há factos políticos, sociais, económicos, militares, religiosos, etc. Mas o encadeamento destes factos explica-se pelo todo. Toda uma parte da nossa vida passa à margem das decisões políticas, da intervenção do Estado, da hierarquia das autoridades legítimas. Mas toda uma outra parte da nossa vida é a de um homo políticus, passivo (forças irresistíveis que nos obrigam a pagar impostos, a ser soldados, a obedecer às leis) ou ativo: nós acreditamos que é preciso mudar a situação e nós atuamos, até ao extremo limite, pela via revolucionária. Se, por conseguinte, uma larga parte da nossa existência humana está metida nestas ligações políticas é porque a História Política existe, importante e interessante”.

O historiador tem como missão explicar o desenrolar da História, deve evitar toda a qualquer forma de dogmatismo, deve procurar explicações pluralistas, mesmo que chegue a conclusões diferentes do que foi o alinhamento das suas análises iniciais. Para progredirmos no estudo da História só se pode interpretar depois de fazer a análise dos factos.

Devo a Jean-Baptiste Duroselle este gosto pelo estudo da Europa, a recusa do dogmatismo, o mergulho no caleidoscópio, no pegar nas peças soltas e encontrar uma interpretação que me conduza a uma análise segura, mas nunca definitiva.

 

                                                                                                          Mário Beja Santos









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