domingo, 12 de abril de 2026

Diogo Ramada Curto, um amigo.

 


 

Durante anos, anos a fio, quem entrasse na sala de leitura da Biblioteca Nacional encontraria sempre, todos os dias – e sempre no mesmo lugar –, uma figura corpulenta e maciça, debruçada sobre um mar de livros. Foi isso, o estudo sério e uma formidável capacidade de trabalho, associados a uma espantosa curiosidade intelectual, que permitiu que Diogo Ramada Curto se tornasse um dos historiadores mais completos da sua geração, cujo leque de interesses ia do livro antigo à arte contemporânea, passando pela história política, social e cultural de todas as épocas e de vários lugares: Europa, Brasil, África.

Diogo Ramada Curto foi um dos últimos grandes eruditos, um homem dos livros e dos papéis, autor de muitas dezenas de livros e artigos científicos marcantes, mas também um intelectual público capaz de intervenções contundentes, sobretudo independentes.

Espírito livre e desalinhado de tribos e de côteries, tinha uma enorme exigência intelectual, sobretudo para consigo mesmo, e cultivava algumas devoções, com Vitorino Magalhães Godinho à cabeça, e outras tantas embirrações, cujos nomes me abstenho de enunciar nesta hora. Criticou sem piedade, às vezes com excesso no verbo, as misérias do nosso meio intelectual e académico e pensou o país sem ficar aprisionado nele, pois, além de uma cultura humanística vastíssima, possuía uma visão cosmopolita e aberta da realidade, já que teve uma carreira marcada por prolongadas estadias em Florença, em Paris ou na Universidade de Brown.

Na Universidade Nova de Lisboa, foi professor de gerações sobre gerações e muitos lhe devem muito nas suas carreiras académicas.

Por fim, mas não por último, revelou um dinamismo extraordinário na direcção da Biblioteca Nacional de Portugal, patente, entre outros feitos, nas dezenas de obras que lançou no seu breve mandato, muitas delas já concluídas, outras ainda em curso – e que para sempre ficarão como seu legado e testemunho. Destaca-se, neste plano, a conversão da Biblioteca em espaço de trabalho para estudantes universitários, na belíssima Sala Azul, que doravante bem mereceria ostentar o seu nome.

Quanto a mim, apenas uma gota de água num oceano imenso de amigos de todas as idades, classes e quadrantes, feitos no Colégio Militar e no râguebi, nas noites do Bairro Alto, nos corredores das universidades, nos jantarinhos da Lisboa-elite, recordarei para sempre as conversas maledicentes e bem-humoradas dos sábados de manhã, na esplanada do Clara Clara, após uma jornada de caça bibliófila, ou os cafés e os almoços às mesas daBN, servidos pelo senhor Paulo ou pela São, e na companhia do João Pedro George, que hoje estão destroçados. Como nós todos.       

 

                                                                                    António Araújo


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