Durante
anos, anos a fio, quem entrasse na sala de leitura da Biblioteca Nacional
encontraria sempre, todos os dias – e sempre no mesmo lugar –, uma figura
corpulenta e maciça, debruçada sobre um mar de livros. Foi isso, o estudo sério
e uma formidável capacidade de trabalho, associados a uma espantosa curiosidade
intelectual, que permitiu que Diogo Ramada Curto se tornasse um dos
historiadores mais completos da sua geração, cujo leque de interesses ia do
livro antigo à arte contemporânea, passando pela história política, social e
cultural de todas as épocas e de vários lugares: Europa, Brasil, África.
Diogo
Ramada Curto foi um dos últimos grandes eruditos, um homem dos livros e dos
papéis, autor de muitas dezenas de livros e artigos científicos marcantes, mas
também um intelectual público capaz de intervenções contundentes, sobretudo
independentes.
Espírito
livre e desalinhado de tribos e de côteries, tinha uma enorme exigência
intelectual, sobretudo para consigo mesmo, e cultivava algumas devoções, com
Vitorino Magalhães Godinho à cabeça, e outras tantas embirrações, cujos nomes
me abstenho de enunciar nesta hora. Criticou sem piedade, às vezes com excesso
no verbo, as misérias do nosso meio intelectual e académico e pensou o país sem
ficar aprisionado nele, pois, além de uma cultura humanística vastíssima,
possuía uma visão cosmopolita e aberta da realidade, já que teve uma carreira
marcada por prolongadas estadias em Florença, em Paris ou na Universidade de
Brown.
Na
Universidade Nova de Lisboa, foi professor de gerações sobre gerações e muitos
lhe devem muito nas suas carreiras académicas.
Por
fim, mas não por último, revelou um dinamismo extraordinário na direcção da
Biblioteca Nacional de Portugal, patente, entre outros feitos, nas dezenas de
obras que lançou no seu breve mandato, muitas delas já concluídas, outras ainda
em curso – e que para sempre ficarão como seu legado e testemunho. Destaca-se,
neste plano, a conversão da Biblioteca em espaço de trabalho para estudantes
universitários, na belíssima Sala Azul, que doravante bem mereceria ostentar o
seu nome.
Quanto
a mim, apenas uma gota de água num oceano imenso de amigos de todas as idades,
classes e quadrantes, feitos no Colégio Militar e no râguebi, nas noites do
Bairro Alto, nos corredores das universidades, nos jantarinhos da Lisboa-elite,
recordarei para sempre as conversas maledicentes e bem-humoradas dos sábados de
manhã, na esplanada do Clara Clara, após uma jornada de caça bibliófila, ou os
cafés e os almoços às mesas daBN, servidos pelo senhor Paulo ou pela São, e na
companhia do João Pedro George, que hoje estão destroçados. Como nós
todos.
António
Araújo

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