domingo, 19 de abril de 2026

O Diogo.

 



É difícil falar da morte de uma pessoa como o Diogo Ramada Curto. Mesmo muito. Fala-se da morte, mas apenas se sabe o que essa palavra quer dizer quando morre alguém como o Diogo.

Falar do desaparecimento do Diogo é falar da minha dor. Falar da minha dor é falar do Diogo. Para que ele continue a falar comigo, e eu com ele. Por isso escrevo sobre o Diogo. Escrevo sobre o Diogo através da minha dor e sobre a minha dor através do Diogo. Escrevo para encher bem os olhos e o coração com a sua imagem. E, com ela, mitigar os momentos de penosa saudade que me aguardam longe dele.

Quando morre um amigo como o Diogo, sofre-se muito. Sente-se que uma parte de nós também morreu. Mas, ao mesmo tempo, o Diogo está ainda mais vivo naquilo que penso, sinto, escrevo.

Escrever sobre a dor é escrever contra a morte. A dor é o que dá forma à ausência da pessoa querida e o que impede o seu desaparecimento. Escrever sobre alguém que desapareceu e que se ama tanto é uma forma de continuarmos a levá-lo connosco, fazendo com que a sua presença continue a fazer-se sentir em nós.

Escrever sobre o Diogo não é falar de uma vida apagada para sempre. É fazer com que ele continue a renascer todos os dias, através de quem fica. É mantê-lo connosco, negando a impossibilidade do seu regresso.

Como fazer a dor entrar nas palavras? Como viver com os nossos mortos? Quando se é novo, dizem, o sofrimento ajuda a crescer. E quando deixamos de ser novos? Como descrever a experiência de sobreviver a um Amigo como o Diogo? O que é que nos acontece quando alguém que amamos tanto parte de repente? Alguém que nos marcou de maneira tão instantânea?

Não me atrevo a resumir o extraordinário ser humano que era o Diogo. Nem a dizer que o conheci e o compreendi completamente. Mas posso contar-vos o que ele fez em mim e o que a sua ausência me vai fazer, o resto da vida inteira.

O Diogo era mais do que um Amigo. Era o meu Irmão mais velho. Era o Amigo, o Irmão, o Professor, o Mestre.

Falar do Diogo é falar da minha vida e de como ela se viu radicalmente alterada quando o conheci. Vi-o pela primeira vez aos 20 anos. Foi em Setembro de 1992, no início do terceiro ano da licenciatura em Sociologia, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, como meu professor da disciplina de História do Pensamento Social.

Recordo-me da emoção intelectual que essas aulas produziam na minha cabeça ainda adolescente. Mesmo se não compreendia quase nada do que havia a compreender naquilo que o Diogo dizia. Mas foi justamente essa incompreensão que me levou a procurar uma maneira de a preencher. Por isso estudei. Estudei muito. Provoquei-o nas aulas. Discuti as ideias dele. Para o impressionar. Para que ele reparasse em mim.

Nas aulas, o Diogo empregava a fundo a sua inteligência e a sua invejável cultura, aquecia os nossos cérebros como uma chama viva. Punha-nos a pensar e a debater as questões nos seus diferentes prismas. Como professor, era equivalente à água que dão as fontes, ou às próprias fontes que dão água.

Às segundas-feiras, entre as 8h e as 11h, com um intervalo de vinte minutos, o Diogo ensinou-me mais do que qualquer biblioteca (dir-me-ão que exagero, talvez, mas pouco importa).

Ensinou-me a importância da crítica e da oposição, a pôr em causa a aparente transparência da realidade social. Ensinou-me a aproximar o discurso sociológico do histórico, a possibilidade de multiplicar as linhas narrativas com que se faz a História e a Sociologia, procurando as ligações entre as estruturas sociais e as estruturas mentais, nomeadamente recorrendo ao método biográfico, mas não só.

Ensinou-me o poder transformador do conhecimento, como ele nos pode modificar e como nós o podemos mudar, e que mais importante do que o conhecimento é o que se pode fazer com ele. Ensinou-me que não podemos manter as nossas impressões e opiniões quando os factos e os documentos as contradizem.

Em tudo isso, e muito mais, o Diogo levava à prática o hábito salutar de nos ensinar a duvidar daquilo que ele próprio ensinava. Por mais cortantes que fossem as nossas ideias, o Diogo acolhia-as com regozijo. Valorizava o espírito de contradição, a independência de juízo próprio, a nossa autorrealização intelectual. Procurava sempre dotar-nos de competências críticas, mais do que agradar ou ser um professor popular.

O Diogo amava a crítica e a crítica era a sua manifestação natural. Gostava de observar atitudes opostas, senão mesmo provocá-las. Sabia que é a crítica que destrói a tendência das nossas ideias para se reificarem, coisificarem, cristalizarem.

Depois de passarmos pelas suas aulas, nunca mais se olhava para as coisas da mesma maneira. Saía-se fascinado por perceber que o conhecimento pode afectar-nos tanto, conter tantas coisas, alterar tanto a nossa maneira de pensar.

Ainda que não o soubesse, o meu futuro começou ali, nas aulas do Diogo. Depois de ter sido seu aluno, procurei muitas vezes a sua companhia. Tentava encontrá-lo quando sabia que ele poderia andar por perto, queria estar nos sítios que ele frequentava, no Bar Artis (do Mário Pilar e da Paula, onde conheci a muito querida Né Parada Ramos, o Carlos Severo, o Orestes, o Luís Paulo, a Luísa Robot, o Nuno Antunes, e tantos outros) ou no Targus (do Hernâni Miguel), sobretudo estes, mas também no Frágil ou nos Três Pastorinhos. Quando o via no Bairro Alto, seguia-o à distância. Queria fazer parte da sua vida. Ser como ele. Crescer com ele.

Dez anos depois, tinha eu 28 anos, no final do meu mestrado em Economia e Sociologia História, orientado por ele, desafiou-me para o substituir na Faculdade, durante o período em que ele estaria nos Estados Unidos, na Universidade de Brown (em Providence), como professor convidado. Tornei-me seu assistente na mesma disciplina em que o conheci, História do Pensamento Social, continuando sempre a ensinar-me nas minhas primeiras investigações académicas. Os minutos, horas, dias, semanas, meses, anos que se seguiram foram tempos de enriquecimento intelectual e afectivo.

O Diogo era uma enorme massa de vida inteligente. Um agente de transmissão de conhecimentos e erudição ampla e firme. Era o intelectual na plena força do pensamento crítico. Era-o até aos ossos, até à essência do seu ser. Poucos o igualavam em estudo, ironia e sarcasmo (como ele, lembro-me apenas do António Araújo e do José Lima).

Durante 35 anos, desenvolvemos uma amizade estreita e consistente. Estabelecemos uma espécie de comunhão espiritual, feita de muitos e bons convívios. Convívios também, por vezes, instáveis e voláteis, altamente combustíveis.

Com o Diogo era possível salvaguardar a amizade quando as nossas opções e escolhas de trabalho não coincidiam com as dele. Se era capaz de ser um crítico implacável, também de se transformar, rapidamente, num amigo verdadeiro daqueles que criticava.

Dispunha de uma excepcional faculdade para inventar analogias e era um contador de histórias nato. Todos os fragmentos da experiência quotidiana estavam apenas à espera de que ele lhes desse forma e sentido, para depois os costurar numa narrativa significativa e divertida. Cruzando conhecimentos que vinham dos livros com conhecimentos que não tinham vindo dos livros.

Em muitas coisas éramos irreconciliáveis. Zangámo-nos algumas vezes. Gozámos um com o outro. Discordámos e provocámo-nos mutuamente, amuámos. Mas, no fim do dia, íamos sempre ter a uma mesa de café para preservarmos e renovarmos a nossa amizade. O Diogo conseguia ser imensamente terno, de uma ternura e inocência que me deixavam quase sem palavras.

Homem de intuições certas, mas também, por vezes, de acções erradas, o Diogo sofria as suas próprias ambivalências. Apanhado pelas convenções da sua geração, nem sempre conseguia livrar-se delas completamente.

Não escondia os seus defeitos, rugosidades, deficiências. Tão-pouco fugia à autocrítica, enunciando um discurso explícito de questionamento de si próprio.

O Diogo era disciplinado, mas nunca satisfeito. Era comunicativo e carismático. Adulto e infantil. Terno e rude. Duro e afável. Generoso e franco. Tudo isso ao mesmo tempo, conseguindo passar com grande rapidez de um estado a outro.

Da energia que espalhava à minha volta tirei eu a força que muitas vezes não conseguia ter. Passava-me roupa quando já não lhe servia, como um irmão mais velho (que de facto era e sempre foi). Fazia os possíveis e os impossíveis para me ajudar, arranjando-me pequenos trabalhos para conseguir encher o frigorífico e continuar a escrever como exercício de liberdade e de libertação. Junto do seu braço sólido, sentia menos medo.

Todos os dias, todas as tardes de todos os anos, partilhámos momentos inesquecíveis, situados numa outra parte do tempo. As festas de final de ano na sua propriedade de Vale da Pinta (Cartaxo), o amor que o Diogo tinha a essa casa, em tempos uma enorme adega, transformada num espaço para todos. As horas de Verão a caiar as paredes da quinta, ele com um lenço na cabeça com nós nas quatro pontas, por causa do sol, mas também para se rir de si próprio. Os momentos de repouso nos sofás do seu apartamento em Lisboa, no Campo de Santa Clara, a folhear livros antigos, depois dos almoços de sábado, com a boa comida que o Diogo sabia cozinhar e proporcionar aos amigos, juntando-os à sua volta. E como eram agradáveis os dias bem passados a deambular juntos pelos alfarrabistas…

O Diogo fazia parte de muitas vidas e, de certo modo, é consolador verificar que tanta gente foi tocada pelo Diogo. Ver tantas pessoas, entre amigos e conhecidos, colegas da Academia, do Colégio Militar, do Rugby, ex-alunos de muitas gerações diferentes, precipitando-se ao encontro uns dos outros, para se apoiarem mutuamente.

Não voltar a ver o Diogo, nunca mais, na Biblioteca Nacional ou na Feira da Ladra, não voltar a ouvir diariamente o toque do telefone e ver o nome dele no ecrã (ele telefonando-me ou eu telefonando-lhe), nunca mais reparar no velho carro dele no parque de estacionamento da Biblioteca Nacional (sinal de que já tinha chegado) e não voltar a esperar por ele na mesa do bar (para deitarmos conversa fora e saber novidades um do outro, antes de começarmos o trabalho de todos os dias). Nada disso, nunca mais, vai repetir-se durante o resto da minha vida.

Na Biblioteca Nacional, depois da nomeação da actual ministra da Cultura, o Diogo dizia-se ignorado e aviltado. As queixas que lhe ouvia na intimidade, a ansiedade que sentia pela forma como era destratado por uma personagem sinistra, que ele próprio escolhera, a quem não se encontram senão intrigas e pequenezes. Anões insuflados de um suposto poder, desprezando um gigante como o Diogo. Mas este é o nosso tempo, esta é a gente que manda no nosso país.

E, no entanto, ninguém corporizou a ideia de uma Biblioteca Nacional, democrática e aberta a todos, como o Diogo. A Biblioteca Nacional será sempre como se o Diogo continuasse ali, naqueles corredores e naquele lugar (o Q9) que era quase sempre o dele.

Custa-me muito. Custa-me muito imaginar a minha vida sem a presença do Diogo, e a vida em geral sem ele. Viver é assistir à morte a fazer círculos concêntricos à nossa volta, cada vez mais estreitos, até chegar a nós. Hoje, com 54 anos, isso tornou-se ainda mais claro.

O Diogo faz parte da minha geografia íntima. O meu mundo era mais feliz e divertido com o Diogo. Mas o Diogo deixou-nos. Desvaneceu-se precipitadamente. A sua morte súbita significa que a minha vida se alterou drasticamente. Que os meses que aí vêm serão tempos de um poderoso e profundo trabalho de reconstrução interior.

Mais realidade que a da morte é impossível. A rotação imperturbável da morte, a indiferença do universo e da natureza pela nossa dor, a insignificância da nossa escala, a miragem da duração para lá da qual se ergue o vazio.

Nunca mais serei o mesmo. Nunca mais me sentirei completo. Perdi o meu amigo e o meu irmão mais velho e nada nem ninguém vai substituí-lo. É preciso repetir isto muitas vezes. Agora, mais do que nunca.

 

João Pedro George




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