É
difícil falar da morte de uma pessoa como o Diogo Ramada Curto. Mesmo muito.
Fala-se da morte, mas apenas se sabe o que essa palavra quer dizer quando morre
alguém como o Diogo.
Falar
do desaparecimento do Diogo é falar da minha dor. Falar da minha dor é falar do
Diogo. Para que ele continue a falar comigo, e eu com ele. Por isso
escrevo sobre o Diogo. Escrevo sobre o Diogo através da minha dor e sobre a
minha dor através do Diogo. Escrevo para encher bem os olhos e o coração com a
sua imagem. E, com ela, mitigar os momentos de penosa saudade que me aguardam
longe dele.
Quando
morre um amigo como o Diogo, sofre-se muito. Sente-se que uma parte de nós
também morreu. Mas, ao mesmo tempo, o Diogo está ainda mais vivo naquilo que
penso, sinto, escrevo.
Escrever
sobre a dor é escrever contra a morte. A dor é o que dá forma à ausência da
pessoa querida e o que impede o seu desaparecimento. Escrever sobre alguém que
desapareceu e que se ama tanto é uma forma de continuarmos a levá-lo connosco,
fazendo com que a sua presença continue a fazer-se sentir em nós.
Escrever
sobre o Diogo não é falar de uma vida apagada para sempre. É fazer com que ele
continue a renascer todos os dias, através de quem fica. É mantê-lo connosco,
negando a impossibilidade do seu regresso.
Como
fazer a dor entrar nas palavras? Como viver com os nossos mortos? Quando se é
novo, dizem, o sofrimento ajuda a crescer. E quando deixamos de ser novos? Como
descrever a experiência de sobreviver a um Amigo como o Diogo? O que é que nos
acontece quando alguém que amamos tanto parte de repente? Alguém que nos marcou
de maneira tão instantânea?
Não
me atrevo a resumir o extraordinário ser humano que era o Diogo. Nem a dizer
que o conheci e o compreendi completamente. Mas posso contar-vos o que ele fez
em mim e o que a sua ausência me vai fazer, o resto da vida inteira.
O
Diogo era mais do que um Amigo. Era o meu Irmão mais velho. Era o Amigo, o
Irmão, o Professor, o Mestre.
Falar
do Diogo é falar da minha vida e de como ela se viu radicalmente alterada
quando o conheci. Vi-o pela primeira vez aos 20 anos. Foi em
Setembro de 1992, no início do terceiro ano da licenciatura em Sociologia, na
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, como meu professor da disciplina de
História do Pensamento Social.
Recordo-me
da emoção intelectual que essas aulas produziam na minha cabeça ainda
adolescente. Mesmo se não compreendia quase nada do que havia a compreender
naquilo que o Diogo dizia. Mas foi justamente essa incompreensão que me
levou a procurar uma maneira de a preencher. Por isso estudei. Estudei muito.
Provoquei-o nas aulas. Discuti as ideias dele. Para o impressionar. Para que
ele reparasse em mim.
Nas
aulas, o Diogo empregava a fundo a sua inteligência e a sua invejável cultura,
aquecia os nossos cérebros como uma chama viva. Punha-nos a pensar e a debater
as questões nos seus diferentes prismas. Como professor, era equivalente à água
que dão as fontes, ou às próprias fontes que dão água.
Às
segundas-feiras, entre as 8h e as 11h, com um intervalo de vinte minutos, o
Diogo ensinou-me mais do que qualquer biblioteca (dir-me-ão que exagero,
talvez, mas pouco importa).
Ensinou-me
a importância da crítica e da oposição, a pôr em causa a aparente transparência
da realidade social. Ensinou-me a aproximar o discurso sociológico do
histórico, a possibilidade de multiplicar as linhas narrativas com que se faz a
História e a Sociologia, procurando as ligações entre as estruturas sociais e
as estruturas mentais, nomeadamente recorrendo ao método biográfico, mas
não só.
Ensinou-me
o poder transformador do conhecimento, como ele nos pode modificar e como nós o
podemos mudar, e que mais importante do que o conhecimento é o que se pode
fazer com ele. Ensinou-me que não podemos manter as nossas impressões e
opiniões quando os factos e os documentos as contradizem.
Em
tudo isso, e muito mais, o Diogo levava à prática o hábito salutar de nos
ensinar a duvidar daquilo que ele próprio ensinava. Por mais cortantes que
fossem as nossas ideias, o Diogo acolhia-as com regozijo. Valorizava o espírito
de contradição, a independência de juízo próprio, a nossa autorrealização
intelectual. Procurava sempre dotar-nos de competências críticas, mais do que
agradar ou ser um professor popular.
O
Diogo amava a crítica e a crítica era a sua manifestação natural. Gostava de
observar atitudes opostas, senão mesmo provocá-las. Sabia que é a crítica que
destrói a tendência das nossas ideias para se reificarem,
coisificarem, cristalizarem.
Depois
de passarmos pelas suas aulas, nunca mais se olhava para as coisas da mesma
maneira. Saía-se fascinado por perceber que o conhecimento pode afectar-nos
tanto, conter tantas coisas, alterar tanto a nossa maneira de pensar.
Ainda
que não o soubesse, o meu futuro começou ali, nas aulas do Diogo. Depois de ter
sido seu aluno, procurei muitas vezes a sua companhia. Tentava encontrá-lo
quando sabia que ele poderia andar por perto, queria estar nos sítios que ele
frequentava, no Bar Artis (do Mário Pilar e da Paula, onde conheci a muito
querida Né Parada Ramos, o Carlos Severo, o Orestes, o Luís Paulo, a Luísa
Robot, o Nuno Antunes, e tantos outros) ou no Targus (do Hernâni Miguel),
sobretudo estes, mas também no Frágil ou nos Três Pastorinhos. Quando o via no
Bairro Alto, seguia-o à distância. Queria fazer parte da sua vida. Ser como
ele. Crescer com ele.
Dez
anos depois, tinha eu 28 anos, no final do meu mestrado em Economia e
Sociologia História, orientado por ele, desafiou-me para o substituir na
Faculdade, durante o período em que ele estaria nos Estados Unidos, na
Universidade de Brown (em Providence), como professor convidado. Tornei-me seu
assistente na mesma disciplina em que o conheci, História do Pensamento Social,
continuando sempre a ensinar-me nas minhas primeiras investigações académicas.
Os minutos, horas, dias, semanas, meses, anos que se seguiram foram tempos de
enriquecimento intelectual e afectivo.
O
Diogo era uma enorme massa de vida inteligente. Um agente de transmissão de
conhecimentos e erudição ampla e firme. Era o intelectual na plena força do
pensamento crítico. Era-o até aos ossos, até à essência do seu ser. Poucos o
igualavam em estudo, ironia e sarcasmo (como ele, lembro-me apenas do António
Araújo e do José Lima).
Durante
35 anos, desenvolvemos uma amizade estreita e consistente. Estabelecemos uma
espécie de comunhão espiritual, feita de muitos e bons convívios. Convívios
também, por vezes, instáveis e voláteis, altamente combustíveis.
Com
o Diogo era possível salvaguardar a amizade quando as nossas opções e escolhas
de trabalho não coincidiam com as dele. Se era capaz de ser um crítico
implacável, também de se transformar, rapidamente, num amigo verdadeiro
daqueles que criticava.
Dispunha
de uma excepcional faculdade para inventar analogias e era um contador de
histórias nato. Todos os fragmentos da experiência quotidiana estavam apenas à
espera de que ele lhes desse forma e sentido, para depois os costurar numa
narrativa significativa e divertida. Cruzando conhecimentos que vinham dos
livros com conhecimentos que não tinham vindo dos livros.
Em
muitas coisas éramos irreconciliáveis. Zangámo-nos algumas vezes. Gozámos um
com o outro. Discordámos e provocámo-nos mutuamente, amuámos. Mas, no fim do
dia, íamos sempre ter a uma mesa de café para preservarmos e renovarmos a nossa
amizade. O Diogo conseguia ser imensamente terno, de uma ternura e inocência
que me deixavam quase sem palavras.
Homem
de intuições certas, mas também, por vezes, de acções erradas, o Diogo sofria
as suas próprias ambivalências. Apanhado pelas convenções da sua geração, nem
sempre conseguia livrar-se delas completamente.
Não
escondia os seus defeitos, rugosidades, deficiências. Tão-pouco fugia à
autocrítica, enunciando um discurso explícito de questionamento de
si próprio.
O
Diogo era disciplinado, mas nunca satisfeito. Era comunicativo e carismático.
Adulto e infantil. Terno e rude. Duro e afável. Generoso e franco. Tudo isso ao
mesmo tempo, conseguindo passar com grande rapidez de um estado a outro.
Da
energia que espalhava à minha volta tirei eu a força que muitas vezes não
conseguia ter. Passava-me roupa quando já não lhe servia, como um irmão mais
velho (que de facto era e sempre foi). Fazia os possíveis e os impossíveis para
me ajudar, arranjando-me pequenos trabalhos para conseguir encher o frigorífico
e continuar a escrever como exercício de liberdade e de libertação. Junto do
seu braço sólido, sentia menos medo.
Todos
os dias, todas as tardes de todos os anos, partilhámos momentos inesquecíveis,
situados numa outra parte do tempo. As festas de final de ano na sua
propriedade de Vale da Pinta (Cartaxo), o amor que o Diogo tinha a essa casa,
em tempos uma enorme adega, transformada num espaço para todos. As horas de
Verão a caiar as paredes da quinta, ele com um lenço na cabeça com nós nas
quatro pontas, por causa do sol, mas também para se rir de si próprio. Os
momentos de repouso nos sofás do seu apartamento em Lisboa, no Campo de Santa
Clara, a folhear livros antigos, depois dos almoços de sábado, com a boa comida
que o Diogo sabia cozinhar e proporcionar aos amigos, juntando-os à sua volta.
E como eram agradáveis os dias bem passados a deambular juntos
pelos alfarrabistas…
O
Diogo fazia parte de muitas vidas e, de certo modo, é consolador verificar que
tanta gente foi tocada pelo Diogo. Ver tantas pessoas, entre amigos e
conhecidos, colegas da Academia, do Colégio Militar, do Rugby, ex-alunos de
muitas gerações diferentes, precipitando-se ao encontro uns dos outros, para se
apoiarem mutuamente.
Não
voltar a ver o Diogo, nunca mais, na Biblioteca Nacional ou na Feira da Ladra,
não voltar a ouvir diariamente o toque do telefone e ver o nome dele no ecrã
(ele telefonando-me ou eu telefonando-lhe), nunca mais reparar no velho carro
dele no parque de estacionamento da Biblioteca Nacional (sinal de que já tinha
chegado) e não voltar a esperar por ele na mesa do bar (para deitarmos conversa
fora e saber novidades um do outro, antes de começarmos o trabalho de todos os
dias). Nada disso, nunca mais, vai repetir-se durante o resto da
minha vida.
Na
Biblioteca Nacional, depois da nomeação da actual ministra da Cultura, o Diogo
dizia-se ignorado e aviltado. As queixas que lhe ouvia na intimidade, a
ansiedade que sentia pela forma como era destratado por uma personagem
sinistra, que ele próprio escolhera, a quem não se encontram senão intrigas e
pequenezes. Anões insuflados de um suposto poder, desprezando um gigante como o
Diogo. Mas este é o nosso tempo, esta é a gente que manda no nosso país.
E,
no entanto, ninguém corporizou a ideia de uma Biblioteca Nacional, democrática
e aberta a todos, como o Diogo. A Biblioteca Nacional será sempre como se o
Diogo continuasse ali, naqueles corredores e naquele lugar (o Q9) que era quase
sempre o dele.
Custa-me
muito. Custa-me muito imaginar a minha vida sem a presença do Diogo, e a vida
em geral sem ele. Viver é assistir à morte a fazer círculos concêntricos à
nossa volta, cada vez mais estreitos, até chegar a nós. Hoje, com 54 anos, isso
tornou-se ainda mais claro.
O
Diogo faz parte da minha geografia íntima. O meu mundo era mais feliz e
divertido com o Diogo. Mas o Diogo deixou-nos. Desvaneceu-se precipitadamente.
A sua morte súbita significa que a minha vida se alterou drasticamente. Que os
meses que aí vêm serão tempos de um poderoso e profundo trabalho de
reconstrução interior.
Mais
realidade que a da morte é impossível. A rotação imperturbável da morte, a
indiferença do universo e da natureza pela nossa dor, a insignificância da
nossa escala, a miragem da duração para lá da qual se ergue o vazio.
Nunca
mais serei o mesmo. Nunca mais me sentirei completo. Perdi o meu amigo e o meu
irmão mais velho e nada nem ninguém vai substituí-lo. É preciso repetir isto
muitas vezes. Agora, mais do que nunca.
João
Pedro George

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