O que há verdadeiramente singular
nesta novela? Temos um adolescente à janela, o pensamento desliza à solta,
atropelam-se desejos, a par de uma grande sensação de tédio, depois vemo-lo
inserido no ambiente familiar, há uma atmosfera de tensão que percorre o país,
a Alemanha fizera capitular a Polónia numa guerra-relâmpago, partilhara os
despojos do país com a URSS, iria inevitavelmente virar-se para oeste, a França
e a Grã-Bretanha tinham declarado guerra. A cabeça do adolescente gira em todas
as direções, reflete sobre a guerra e a distribuição que a acompanha: “Tenho
mil pensamentos. Talvez eu não seja normal. Imagine-se que havia um
bombardeamento, que neste momento apareciam aviões alemães a sobrevoar a
cidade. Uma bomba, nesta enfadonha rua de merda, seria mesmo fantástica.
Prédios a arder, uma boa dúzia deles todos em renque. Imagine-se que esta rua
estava em chamas, incluindo a nossa casa, que perdíamos tudo.” E continua
radical, a falar em abrigos subterrâneos, em valas comuns, em profundação de cadáveres,
que as bombas caiam por toda a parte. Assim se começa a desenhar uma potente
água-forte, uma notável peça literária sobre a arrogância da juventude, o
desejo de aventura, a perda da inocência, o chocante a assustador encontro com
os bombardeamentos, a tal guerra chegara àquele país de bonomia e do gosto do
bom viver, naquele exato momento ia mudar, por vezes de modo radical, a
sociedade, a civilização e a cultura, mas nada se sabia ainda naquele início da
invasão alemã. Cai, Bomba! por Gerrit Kouwenaar, Publicações Dom Quixote
2026.
Regressamos à novela quando Karel chega das
compras que fizera a pedido da mãe, instala-se no quarto. O adolescente está
dominado por pensamentos fulminantes, um tanto caóticos, sabe, entretanto, que os
tios vêm jantar, chamam-se Robert e Lies, os pais chamam-se Cora e Philip,
parece estarmos numa atmosfera de bonomia, o tio Robert só fala em felicidade,
no fim do jantar o tio pede-lhe para ir no dia seguinte transmitir uma mensagem
a alguém, o tio deu-lhe um papelinho enrolado e uma nota de dez florins.
Karel sente que há problemas graves entre
o pai e a mãe, um conflito que ele não entende, mas que o constrange. É neste
ambiente que o irmão lhe vem anunciar que começou a guerra, o ataque alemão. Cá
fora ainda tudo parece normal. Aquele rapaz de 17 anos questiona-se como vai
ser a guerra, há pessoas que estão descansadas, acreditam que daqui a pouco vão
aparecer os ingleses. O pai de Karel dá a saber que os alemães estão a cem
quilómetros da cidade, há que contê-los; nas ruas, os automóveis continuam a
circular como sempre, as lojas estão abertas, correm notícias que tanques e
tropas motorizadas francesas e inglesas atravessaram a fronteira belga. Karel
sai de casa e vai olhar a água da ponte, sempre com o seu espírito renitente e
contraditório pensa que devia chover, que o tempo devia estar frio e sombrio.
Nisto, dois aviões voavam por cima da cidade, Karel viu dois pontinhos a cair.
Seguir-se-ão estrondos, casas esventradas, a guerra dava sinal de vida.
Então Karel foi cumprir o pedido do tio
Robert, levou uma mensagem à amante dele, é recebido pela filha, acolhimento
amistoso, elas perguntam-lhe se os ingleses já chegaram, ele não sabe, mas
decerto hão de vir. Karel é confrontado com uma atmosfera de uma inquestionável
normalidade, elas revelam serem judias, põem a hipótese de terem de fugir,
ainda confiam com a chegada das tropas britânicas para suster as alemãs. A
filha sentou-se ao piano e tocou uma melodia lenta e sincopada. A mãe não tem
resposta para a carta do tio Robert.
No dia seguinte Karel sai de bicicleta,
pedala a uma velocidade moderada pelas ruas sem automóveis, onde as pessoas
passeavam em família, entediadas, aquele ataque alemão trouxera um contratempo
nos lazeres habituais. Volta a bater à porta da casa onde estivera na véspera,
a filha, de nome Ria, convida Karel a passear, pede-lhe um beijo, a serenidade
continua a reinar naquela casa, mas a mãe comunica que vão apanhar o barco das
quatro horas. Ria mostra-se apaixonada por ele. Karel parte confuso, é o
despertar sensual.
O ambiente da cidade modificou-se, os
cinemas estavam todos fechados. Nisto aparece o pai, vem assustado por nada
saber do filho, regressam a casa. Chegou a hora da roda do destino inserir a
tragédia, houve bombardeamento, morreu o tio Robert, a tia está hospitalizada,
Karel vai visitá-la. Assalta-o uma grande vontade de partir. Lança-se à
estrada, há áreas inundadas, faz parte do plano holandês de travar os alemães.
Alguém informa Karel que a Holanda se rendeu e dá-lhe boleia na bicicleta. E
dá-se um encontro com os alemães. Ria e a mãe tinham fugido, ele está transido
por ter desejado que caíssem bombas, tem 17 anos, não sabe para onde ir, a vida
parece ter perdido sentido, é este estado de espírito, com as lágrimas a
rebentarem-lhe dos olhos que um dos soldados alemães lhe pergunta: “Meu caro,
então o que é que aconteceu?”
No
posfácio, o escritor Wiel Kusters comenta a
novela de Kouwenaar, encontra características comuns entre Kouwenaar e Karel,
apesar da guerra não ter sido completamente inesperada significou uma rutura
total, toda aquela atmosfera que vemos antes da invasão alemã ficará
completamente alterada, aquele jovem de 17 anos é submetido a um quadro afetivo
com Ria que o desperta para uma vida sentimental que ele desconhecia. Houve
base histórica para os acontecimentos que ele descreve na novela, em 11 de maio
as bombas alemãs arrasaram catorze prédios num ponto de Amesterdão, um
bombardeiro alemão que fora atingido por artilharia antiaérea continua a voar e
largou mais duas bombas. Cai, Bomba! Contém reminescências nítidas deste
episódio fatal. O que há de devastador nesta descrição de um destino impiedoso
é vermos um adolescente a sentir que tomou o comboio da História e que nos
conquistou o coração.
Saudemos uma obra-prima,
veio tarde, mas ainda bem que veio.
Mário Beja Santos

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