domingo, 7 de junho de 2026

Carta de Bruxelas.

 




                                                                                                                         Ranço


É uma experiência generalizada da infância, uma experiência de alegria: passa-se com um lápis num papel sobre uma moeda e aparece a face da moeda. O processo e a imagem dele resultante fascinam as crianças, mas elas sabem muito bem, ainda assim, que o valor real está por detrás do papel. A recente nota do gabinete de imprensa do Partido Comunista Português a propósito da morte de Carlos Brito inverte o processo: é o papel que revela o desvalor que se quer ocultar. O comunicado é emitido «a pedido de vários órgãos de comunicação social». Ao abdicar da iniciativa e externalizar o factor desencadeante, o PCP elimina o militante e, mais importante, a pessoa. Política e publicamente, a morte sela um destino individual de relevância colectiva. Ao contrário do que pensam os partidários de uma autenticidade mal compreendida, o elogio fúnebre de um adversário político não é um exercício de hipocrisia. É o reconhecimento do valor da participação na vida pública, um valor que precede as diferenças ideológicas – sem nunca as anular. Nesse sentido, está nele contido a admissão da radical da falibilidade humana, sem que isso implique a renúncia à acção. Esse conflito de dois pontos de vista é constitutivo da acção política e um dos seus elementos trágicos. O PCP suprime, pois, a pessoa na medida em que, na sua morte e não no combate político, onde as diferenças podem e devem afirmar-se, desvaloriza a liberdade política absoluta, que contém por definição a liberdade de mudar de opinião – a condição de possibilidade de um consenso a alcançar reside no horizonte do dissenso. Ao pronunciar-se por palavras que lhe foram extorquidas, o PCP diz que Carlos Brito não é dos seus. Foi, quando as opiniões coincidiam; deixou de ser, quando aquelas divergiram. Se pudesse, o partido com paredes de vidro teria guardado um silêncio sepulcral na sua morte, no momento em que já não está em causa a diferença de opiniões mas sim a igualdade de uma humanidade comum. Precisamente aquilo que o PCP não reconhece: nele a ideologia fagocita a humanidade. Não é nada de novo e já foi pior. La Rochefoucauld diz algures que os velhos gostam de dar bons conselhos para se consolarem de já não estarem em idade de dar maus exemplos. O PCP leva a máxima ao paroxismo. Apesar do alcantilado rigor nos princípios, a história do comunismo mostra as suas práticas abomináveis. Bem pode pregar hoje em sentido oposto, mas os testemunhos são inequívocos. Margarete Buber-Neumann, militante comunista de destaque antes da segunda guerra mundial, é taxativa. Descreve as vias sinuosas do dirigente do Partido Comunista Alemão, Walter Ulbricht, da seguinte forma: «Para eliminar das suas próprias fileiras os opositores ou muito simplesmente camaradas que o estorvavam, servia-se de um meio simples mas eficaz. Se esses opositores se encontravam na Alemanha, mandava redigir as chamadas listas negras em que os denunciava publicamente como trotskistas. Essas listas eram feitas para caírem nas mãos da Gestapo que prontamente os prendia» (Der kommunistische UntergrundEin Beitrag zur Geschichte der kommunistischen Geheimarbeit, p.53,  1968). Ursula Hirschmann descreve exactamente o mesmo processo nos seus apontamentos autobiográficos, Noi, senza Patria (1975), publicados postumamente. Todos os meios são válidos e os nacional-socialistas prestam bons serviços – talvez seja isto a «superioridade moral dos comunistas» a que Álvaro Cunhal se referia. Rançoso, o PCP vê-se agora obrigado a redigir comunicados a pedido de vários órgãos de comunicação social para se consolar de já não estar em idade de entregar os dissidentes aos nazis.

 

                                                            João Tiago Proença


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