Ranço
É uma experiência generalizada da
infância, uma experiência de alegria: passa-se com um lápis num papel sobre uma
moeda e aparece a face da moeda. O processo e a imagem dele resultante fascinam
as crianças, mas elas sabem muito bem, ainda assim, que o valor real está por
detrás do papel. A recente nota do gabinete de imprensa do Partido Comunista Português a propósito da morte de
Carlos Brito inverte o processo: é o papel que revela o desvalor que se quer
ocultar. O comunicado é emitido «a pedido de vários órgãos de comunicação
social». Ao abdicar da iniciativa e externalizar o factor desencadeante, o PCP
elimina o militante e, mais importante, a pessoa. Política e publicamente, a
morte sela um destino individual de relevância colectiva. Ao contrário do que
pensam os partidários de uma autenticidade mal compreendida, o elogio fúnebre
de um adversário político não é um exercício de hipocrisia. É o reconhecimento
do valor da participação na vida pública, um valor que precede as diferenças
ideológicas – sem nunca as anular. Nesse sentido, está nele contido a admissão
da radical da falibilidade humana, sem que isso implique a renúncia à acção.
Esse conflito de dois pontos de vista é constitutivo da acção política e um dos
seus elementos trágicos. O PCP suprime, pois, a pessoa na medida em que, na sua
morte e não no combate político, onde as diferenças podem e devem afirmar-se,
desvaloriza a liberdade política absoluta, que contém por definição a liberdade
de mudar de opinião – a condição de possibilidade de um consenso a alcançar
reside no horizonte do dissenso. Ao pronunciar-se por palavras que lhe foram
extorquidas, o PCP diz que Carlos Brito não é dos seus. Foi, quando as opiniões
coincidiam; deixou de ser, quando aquelas divergiram. Se pudesse, o partido com
paredes de vidro teria guardado um silêncio sepulcral na sua morte, no momento
em que já não está em causa a diferença de opiniões mas sim a igualdade de uma
humanidade comum. Precisamente aquilo que o PCP não reconhece: nele a ideologia
fagocita a humanidade. Não é nada de novo e já foi pior. La Rochefoucauld diz
algures que os velhos gostam de dar bons conselhos para se consolarem de já não
estarem em idade de dar maus exemplos. O PCP leva a máxima ao paroxismo. Apesar
do alcantilado rigor nos princípios, a história do comunismo mostra as suas práticas
abomináveis. Bem pode pregar hoje em sentido oposto, mas os testemunhos são
inequívocos. Margarete Buber-Neumann, militante comunista de destaque antes da
segunda guerra mundial, é taxativa. Descreve as vias sinuosas do dirigente do
Partido Comunista Alemão, Walter Ulbricht, da seguinte forma: «Para eliminar
das suas próprias fileiras os opositores ou muito simplesmente camaradas que o
estorvavam, servia-se de um meio simples mas eficaz. Se esses opositores se
encontravam na Alemanha, mandava redigir as chamadas listas negras em que os
denunciava publicamente como trotskistas. Essas listas eram feitas para caírem
nas mãos da Gestapo que prontamente os prendia» (Der kommunistische Untergrund – Ein
Beitrag zur Geschichte der kommunistischen Geheimarbeit, p.53, 1968). Ursula Hirschmann descreve exactamente
o mesmo processo nos seus apontamentos autobiográficos, Noi, senza Patria (1975), publicados postumamente. Todos os meios são
válidos e os nacional-socialistas prestam bons serviços – talvez seja isto a
«superioridade moral dos comunistas» a que Álvaro Cunhal se referia. Rançoso, o
PCP vê-se agora obrigado a redigir comunicados a pedido de vários órgãos de
comunicação social para se consolar de já não estar em idade de entregar os
dissidentes aos nazis.

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