quinta-feira, 7 de julho de 2016




impulso!

100 discos de jazz para cativar os leigos e vencer os cépticos !

 

 

# 47, # 48 - SONNY ROLLINS

 

 
Fotografia de Francis Wolff
 

 
Sabe lá ele quando começou. Aos 16 anos já não era a brincar que se irmanou com Jackie McLean, Kenny Drew e Art Taylor, todos da mesma mocidade, para abrilhantarem os saraus da escola. As vocações prematuras, se lhes cai o êxito em cima, tendem a acabar depressa e mal. Não foi o caso de Sonny Rollins, o derradeiro semi-deus do jazz, que a tudo sobreviveu, a gerações e a géneros, e na Primavera de 2016, 65 anos depois da sua primeira gravação, dá à estampa o quarto tomo dos seus “Roadshows”, que sob o título “Holding the Stage” compila actuações ao vivo, desde 1979 até 2012. Veredicto unânime: a chave da Arca da Aliança ainda é ele que a guarda – aos 85 anos.
Foi muito sôfrega a década de 50, talvez a mais empolgada do jazz. Em 1954 os 28 anos de Miles Davis insuflavam um prestígio que transbordava a sua verdura, auspiciando qualquer coisa de grandioso. Dele se abeirou um jovem 4 anos mais novo, o que nestas idades corresponde quase a um ciclo de vida, com três composições: "Oleo", "Airegin" e "Doxy". Num ápice é gravado e lançado o disco “Miles Davis With Sonny Rollins” que em 1957, já Miles e Rollins eram luminárias, foi consolidado no álbum “Bags Grooves”. Os temas vieram a cristalizar como imortais e deste estofo se fazem as lendas.
 
 

Saxophone Colossus
1956 (2014)
Concorde Music Group
Sonny Rollins (saxofone tenor), Tommy Flanagan (piano), Doug Watkins (contrabaixo), Max Roach (bateria).
 
Num período mais curto do que uma presidência, Sonny Rollins ascende de escudeiro a campeão. Só no ano de 1956 oficia um triângulo de ouro de obras que não há outro modo de as reputar senão de nucleares:
Em Janeiro e Fevereiro é ele o diplomata que acorda a aliança entre o trompetista Clifford Brown – outro nascido em 1930, mas que as parcas nos roubaram prematuramente – e o baterista Max Roach no supino “Clifford Brown and Max Roach at Basin Street”.
Em Maio grava “Tenor Madness” com um noviço que topara na sua passagem pelas formações de Miles e Monk. O jazz tinha ganho o hábito de ouvir os tenoristas de cada geração à maneira dos rounds do boxe: Coleman Hawkins, o abrasador, versus Lester Young, o ondulante; Dexter Gordon neste canto e Stan Getz no outro. Sonny Rollins não só arriscou como aumentou a parada convocando John Coltrane a medir-se com ele. O futuro separá-los-ia, como dois estrangeiros de vocabulário de tal modo distinto que inviabilizaria qualquer diálogo, mas aqui, no transcurso dos 12 minutos da faixa “Tenor Madness”, que dá nome ao disco, ambos se aliam em deturpar o jogo, conferenciando mais do que concorrendo – não eram planeta e lua, era a alvorada de duas estrelas.
Em Junho o caso de Sonny Rollins fica muito sério. Com “Saxophone Colossus” salda todas as promessas: patenteia uma plena maturidade e exibe uma personalidade musical rematada. E isto, ao contrário do que a jactância do titulo poderia augurar, asseverando um estilo sem saliências, nem a veleidade e a extravagância próprias da juventude que se quer afirmar contra o mundo.
Sonny Rollins é o Howard Hawks, o Mies Van den Rohe, o Steinbeck, o Barnett Newman do jazz. Em vez da explosão (Charlie Parker) ou da exploração de todas as variáveis possíveis como o rato num labirinto (John Coltrane), cada frase do saxofone tenor de Rollins é indubitável e incisiva, sem pontas soltas, expelida como se fosse uma evidência à espera de ser proferida. A Coleman Hawkins vai buscar a acutilância e a robustez, de Lester Young herda o ar olímpico de que aquilo sai sem esforço, de Dexter a verve e de Getz… bom, de Getz nada, sem desprimor para o próprio... “Saxophone Colossus” abre com o tema “St. Thomas”, ao género de calipso, como um manifesto: progressões harmónicas? Com certeza, sem elas não há jazz, mas “it’s melodics, stupid…” – é uma cápsula que encerra o ADN de Sonny Rollins.
Estava tudo dito? Não, não estava, ainda vinha aí “Way Out West” gravado menos de um ano depois, já em 1957. A capa do disco está entre as mais bizarras do jazz: Rollins, vestido no trinque de buckaroo, de peito feito e saxofone na mão como um revólver, a posar no deserto, com cactos, caveira de boi e tudo… Muito devem ter ele e o fotógrafo William Claxton gozado com esta maluquice a comemorar primeira visita de Rollins ao Oeste. O que está por detrás desta testada não é menos arrojado: um trio de saxofone sem piano? Coisa nunca dantes perpetrada… O baterista Shelly Manne era “angelino” de adopção e instituíra-se como um prumo da cena da “tinsel town”; Ray Brown estava de passagem pela cidade como acompanhante de Oscar Peterson. Quem sabe se não terá sido da atmosfera relaxada de Los Angeles – que na verdade é luva de cetim solapando punho de aço – nos antípodas do ambiente febril e fabril de Nova Iorque, que os terá inspirado a pegarem em dois temas de filmes western “I’m an Old Cowhand” e “Wagon Wheels” e com eles dar o tom para uma música a um passo de descambar na paródia mas sendo, de facto, uma apropriação irrepreensível pelo jazz de acordes que lhe são alheios, tão certeira como um tiro de John Wayne.
Decidir a preferência e a importância entre “Saxophone Colossus” e “Way Out West” – e para quê escolher se se pode ficar com os dois? – é questão de moeda ao ar.
Muita água correu desde então sob as pontes e na primeira de três licenças sabáticas foi literalmente debaixo delas que Sonny Rollins passou uma temporada a tocar – retomaria funções públicas com o álbum fielmente intitulado “The Bridge” (1962). Doravante teria um percurso avarandado, donde se debruçava sobre o que ia passando no caudal do jazz, arredio a mergulhar nele de corpo inteiro. Conviveu uns anos de casa e pucarinho com o free jazz: três crias na Impulse!, das quais “East Broadway Run Down” (1966) foi a que vicejou melhor até aos nossos dias. Durante a década de 70 molhou a sopa no jazz de fusão sem glória nem bronca e que atire a primeira pedra quem, tendo passado por ela, não sofreu a tentação do baixo e do piano eléctrico. Outros brotavam e soçobravam, lideravam, dividiam, inovavam e recuperavam; Sonny Rollins entrava e saía de cena, às vezes fazendo figura de misantropo noutras de um áugure que se escusa a revelar tudo o que sabe. Acerca dele começou a propagar-se a noção – tão legendária quanto real – de que havia dois Rollins: o dos discos, outro dos concertos. Certo era que evitava os estúdios, cujos preciosismos sonoplásticos o desgostavam e cujo recato sentia como fúnebre. Todavia nas suas actuações ao vivo nada estava garantido e só é possível comparar a sua conduta à da tradição tauromáquica: se o “duende” tomasse conta dele a sessão seria arrebatadora, se não, deixava andar, conformado com a má sina do dia.
 

 
Without a Song, the 9/11 Concert
2005
Milestone - 93422
Sonny Rollins (saxofone tenor), Clifton Anderson (trombone), Stephen Scott (piano), Bob Cranshaw (baixo eléctrico), Perry Wilson (bateria), Kimati Dinizulu (percussão).
 
No imediato rescaldo do 11 de Setembro de 2001 os repórteres predavam as ruas limítrofes dos escombros World Trade Center em busca de aflições que pudessem melodramatizar a catástrofe. Por sorte, no raio de visão de um deles despontou o tipo ideal: um velho negro de barba branca, jungindo um saco de plástico com os parcos haveres e, pormenor comovente, segurando um saxofone debaixo do braço. Na brevíssima entrevista o tom do repórter foi o de comiseração e paternalismo que é hábito da profissão dedicar aos desvalidos com quem se quer mostrar simpatia. Ignorava ele que se tratava de Sonny Rollins. Dizia muito do estado do jazz, quanto à sua popularidade no dealbar do século XXI, que um dos seus maiores ídolos fosse, aos 71 anos, desconhecido de cara e, provavelmente, de nome.
Quatro dias depois, ainda sem casa nem bens pessoais, Rollins daria um concerto em Boston publicado em 2005 sob o título “Without a Song, the 9/11 Concert”. Mal habituada – ou melhor, demasiado bem habituada, porque aos heróis exige-se que deem sempre um pedaço de céu – a crítica venerou mais do que amou a obra, detectando o dilema do costume: fora uma noite de música impecável, porém cursiva, sem rasgos excepcionais de criatividade. O próprio Sonny Rollins diria mais tarde que não se lembrava de nada. 
Mas foi o público quem 4 anos após o horror do 9/11 reconheceu e sentiu nesta obra a expressão genuína daqueles dias dolorosos. E assim é que escutando “Without a Song” com os critérios da emoção mais despertos do que os do intelecto, se torna palpável o pathos do momento onde até os defeitos comovem. O disco ganhou pregnância na memória colectiva andou de mão em mão, tanto como andará um disco de jazz hoje em dia, e, o que é meramente simbólico, mas por isso mesmo não despiciendo, à faixa “Why Was I Born?” foi atribuído um Grammy com ovação de pé. Um ano depois, a revista JazzTimes dá a mão à palmatória e, sem mudar uma linha da sua crítica ao valor intrínseco da obra, porque não era disso que se tratava, reconheceu-lhe o merecimento que havia ignorado.
De “Without a Song” em diante, Sonny Rollins ganhou novo fôlego, ou foi-lhe dada uma nova atenção que na sistemática do jazz o retirou da classe dos dinossauros e recolocou na dos mamíferos vivazes. Seguiu-se a ainda inconclusa série de “Roadshows”.
Sonny Rollins: aquele que já é imortal insiste em continuar a sê-lo.
 
 
 
 
José Navarro de Andrade
 
 

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Cartas de mulheres à Cornélia.

 
 
 
 
 
Numa palavra, a fêmea (regra quase geral) contraria e reprova tudo o que faz a outra fêmea. Veja o que se passa na «Cornélia». A «Ofélia» contraria a «Cornélia», mas apareça um macho que nenhum outro lhe moverá guerra tão aberta.
A luta pela libertação será concretizada quando a mulher deixar de ser invejosa, enredeira, abandalhada, etc., etc., etc.
Obrigado mais uma vez, Maria João Seixas.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Soir d'hymen.

 
 


Servidor de Reis e Presidentes.


 
Palácio Nacional da Ajuda, aqui
 
 
 
 
Se, como diz a Bíblia, Jacob serviu sete anos Labão como pastor, Vital Ferreira Fontes passou mais de cinco décadas de vida a apascentar reis e presidentes. Natural da freguesia de Santana, concelho da Sertã, fora enjeitado à nascença, deitado à roda. Consta que seu pai era fidalgo, «um senhor que não me quis», dirá Fontes, já no fim da vida, ao jornalista Rogerio Perez, que compilou o testemunho do antigo serviçal da Ajuda e de Belém em Servidor de Reis e de Presidentes, livro publicado em 1945 pela Editora Marítimo-Colonial, Lda.
Começou no Palácio da Ajuda, com D. Luís. Antes disso, servira como soldado do 8 de Cavalaria, em Castelo Branco, e depois em Artilharia 1, em Lisboa. Os preparativos do casamento de D. Carlos obrigaram à contratação de pessoal suplementar para a Ajuda e para as Necessidades. Vital veio – e ficou. Mais de cinquenta anos. Entretanto, deu-se uma revolução, e com ela mudou o regime político. Instaurada a República, questionaram-no se queria continuar ao serviço. «Entenderam perguntar-me se desistia do lugar, e eu respondi que continuava servindo a Nação, se me fosse permitido. Como não havia nada contra mim, e todos me conheciam como empregado zeloso e cumpridor, mandaram-me então para o Palácio de Belém.» Com o mesmo desvelo com que outrora servira monarcas e príncipes de sangue azul, entregou-se agora a tratar de presidentes, eleitos e republicanos. Por ele passaram todos os da Primeira República, que foram sete. Mais tarde, os da Ditadura Militar, entrando pelo Estado Novo adentro. Vital Fontes reformou-se no tempo de Carmona, indo viver para uma modesta casinha no Alto da Ajuda, na companhia da sua mulher (e de uma horta com couves). Mas, apesar de aposentado, continuava a visitar Belém e a Ajuda, onde dava corda aos relógios. Deslocava-se à Presidência sempre que o Chefe do Estado lá ia (um dia por semana: às quartas-feiras), acompanhando-o ainda quando Carmona ia aos teatros da capital. Tinha, entre outros dotes, um talento especial para acender os cigarros que o Presidente enrolava, muito fininhos. Não era um pormenor de somenos. Ainda que o marechal fizesse os seus cigarros com suma perícia, sobravam sempre uns fiapos de tabaco; havia que lhes dar lume com os maiores cuidados, não fossem eles queimar a farda de gala do Chefe do Estado ou a toalha da mesa de cerimónia. A chegada dos isqueiros – a que Vital chama «acendedores automáticos» – tornou esta função dispensável, mas outras tarefas de relevo tinha o mordomo de desempenhar. Por exemplo, certificar-se, antes de cada banquete, que os pés da mesa não coincidiam com o lugar do Presidente, incomodando-o; acontecera uma vez, aquando da Exposição do Mundo Português, e a falha deixou Carmona deveras arreliado. Fumador compulsivo, o Chefe do Estado, que ademais era frugal na alimentação, passava tormentos nos banquetes de gala, no advento do seu cigarrinho. Logo que servia a sobremesa, Vital sussurrava-lhe, discretamente, «É agora!», e de imediato António Óscar de Fragoso Carmona passava à sala adjacente, onde se tomava café – e se podia fumar…
A propósito de fumos, o livro conta que terá sido em Lisboa, ainda nos tempos da Monarquia, que Afonso XIII queimou o seu primeiro cigarro, protegido por D. Carlos e às escondidas de D. Amélia. Ao que parece – di-lo Vital Fontes com uma ponta de escândalo –, na Corte espanhola as senhoras fumavam. E até a rainha de lá o fazia, algo nunca visto em terras de Portugal, pelo menos em público.
Mas o que mais horrorizava o serviçal de reis e presidentes eram os modos dos convidados à mesa, no decurso dos banquetes oficiais em Belém ou na Ajuda: gente que erguia o copo a reclamar mais vinho, como se estivesse numa taberna; convidados que se sentavam antes que a mesa de honra o fizesse; senhoras que olhavam desconfiadas quando os criados lhes ajeitavam as cadeiras; cavalheiros que gesticulavam com os talheres nas mãos, outros que levavam a faca à boca. Havia até quem pedisse palitos no final das refeições! «Já me tem acontecido pedirem-me palitos e, o que é pior, usarem deles com grande à-vontade, fazendo até com a língua aquele ruidozinho que é o pior dos ruídos.» Mas era possível descer mais baixo: «pior que o uso do palito é aquilo de substituir a lavagem dos dentes com o bochechar do café. Que também já vi disso» − conclui Vital Fontes, acrescentando em pesaroso balanço de vida: «Que não terei eu visto em tantos anos de banquetes?!...»
Nem tudo foram mágoas, porém. Em Luanda, por exemplo, quando aí se deslocou acompanhando Carmona em visita oficial, Vital Fontes observou, com maravilhado espanto, «um banquete de quinhentos talheres, e que bem servido, por negros que envergonhariam muitos criados brancos.» Também no Lobito a criadagem africana mostrou ser capaz de servir um ágape faustoso no Hotel dos Caminhos de Ferro. Em Porto Aboim, Vital presenciou outro episódio, este patriótico e comovente. Após ter avistado Carmona, um ancião negro, com 105 anos de idade, virou-se para o seu patrão e disse que já podia morrer tranquilo. Porquê? «Porque já vi o branco que manda em todos os brancos.» Vital Fontes acrescenta, com orgulho nacionalista, que para os africanos o tratamento de «brancos» era reservado aos portugueses; os outros eram ingleses, franceses, germanos, mas «brancos» só existiam uns, os colonos de Portugal.
Desengane-se quem pense que o livro se cinge ao longo consulado de Óscar Carmona. Servidor de Reis e Presidentes fala-nos da agonia e morte de D. Pedro V (que Vital garante ter sido assassinado); das «aventuras de amor» de D. Luís, um rei que, além do amor, «comia muito, e tudo com pão e manteiga»; da visita a Portugal do futuro rei Eduardo VII, na altura ainda príncipe de Gales, com paragem festiva em Lisboa e uma burricada à Pena; das desavenças entre D. Maria Pia e a duquesa de Palmela por causa de uma cabeleireira, que preferiu servir a duquesa, pois esta pagava melhor do que a rainha de Portugal; dos trabalhos da criadagem sempre que Maria Pia decidia jantar na praia, no Estoril, obrigando os serviçais a verificar se algum talher de prata não ficara perdido no areal; de ter sido essa rainha, pouco modesta nos gastos, a introduzir em Portugal o primeiro elevador (instalado em Mafra) e os patins de rodas; da simplicidade de hábitos do infante D. Afonso, sempre metido nas garagens de Belém, as mãos sujas de óleo de reparar automóveis (que depois conduzia desenfreadamente, o que lhe valeu, na Lisboa do tempo, a alcunha de «Arreda»); do desdém de D. Carlos pela «excessiva etiqueta», a ponto de ter abolido o beija-mão na Corte portuguesa; da tormentosa noite do regicídio, quando raros fiéis se apresentaram nas Necessidades para velar os cadáveres de D. Carlos e do Príncipe Real; do ambiente pesado dos últimos dias da Monarquia e da atribulada fuga da família régia até à Ericeira, de onde partiu rumo ao exílio.
 Depois, a República. E, com ela, os presidentes. Teófilo Braga, que só a muito custo foi convencido a deslocar-se a Belém em viatura própria, abandonando o uso do eléctrico ou do popular «Chora». Manuel de Arriaga, que pagava do seu bolso uma renda mensal avultada – cem escudos – para pernoitar em Belém (antes disso, alugara um palacete na Horta Seca e comprara um automóvel para as deslocações oficiais). Bernardino Machado, que concedia intermináveis audiências a pessoas das mais variadas origens sociais e gastava todo o salário em festas e recepções. Sidónio Pais, que sofria de insónias e trabalhava noite fora, com a capa militar pelos ombros e um cobertor pelos joelhos. Morreu em funções, baleado na Estação do Rossio. Ou, nas palavras de Vital Fontes, «O sr. dr. Sidónio Pais foi um dia ao Porto, e à volta só o vi depois de embalsamado, na sala Luís XV, cheia de gente a desfilar e muitos a chorar.»
Nitidamente, o aprumado Vital apreciava sobremaneira a figura de Manuel Teixeira Gomes e o apuro do seu gosto. Chama-lhe «príncipe árabe» e recorda, com indisfarçável saudade, a elegância do Presidente e homem de letras que, curiosamente, era ferrenho adepto de futebol, assistindo, sempre que podia, a uma partida «do jogo da bola». Em contraste com esta admiração por Teixeira Gomes, os modos de caserna de Gomes da Costa, cujos gritos de fúria troavam por todo o Palácio de Belém, não deixaram saudades no refinado serviçal de reis e presidentes.
A perspectiva de Vital Ferreira Fontes – e aí reside o interesse do seu livro – é a perspectiva do criado. Não o do conhecido filme de Joseph Losey, que pouco a pouco inverte a hierarquia das posições entre senhor e servo. Vital jamais o faria. Pelo contrário, mostra-se sempre respeitador e humilde perante a memória de todos quantos serviu.
Mais curioso ainda é saber que também no nosso tempo existiu uma versão aggiornata de Vital Ferreira Fontes. De seu nome João Casteleiro, esteve 43 anos em serviço no Palácio de Belém. Pese a diferença de muitas décadas, as trajectórias de vida de um e de outro revelam surpreendentes afinidades. João Casteleiro tinha nove anos quando o pai foi contratado para o Palácio de Cascais, no forte da Cidadela, servindo o último presidente com que Vital trabalhou, Óscar Carmona. Durante a adolescência, João Casteleiro empregou-se numa farmácia, nas imediações da Cidadela, cumpriu os deveres militares e, entrando na idade adulta, pediu ao pai que o colocasse em Belém. O Presidente de então, Craveiro Lopes, acabou por contratá-lo como contínuo, tinha ele 29 anos. Depois, seguiu-se Américo Thomaz – que, à semelhança de Carmona, só se deslocava a Belém uma vez por semana. Quando ocorre o 25 de Abril, o Palácio esteve três dias entregue aos funcionários, que ocuparam o tempo em jogos inocentes e brincadeiras de salões. Numa célebre cadeira com dois leões dourados – que Júlio Pomar colocaria no retrato oficial de Mário Soares – os colegas sentaram João Casteleiro, e nomearam-no Presidente, funções que exerceu três dias, até à chegada dos militares. Num registo semelhante ao de Vital Fontes, João Casteleiro diz que todos os presidentes que serviu, antes e depois da revolução de Abril, eram «homens bons». Nutre especial afeição por Ramalho Eanes e recorda o «feitiozinho» de Mário Soares: «zangava-se muito, gritava, mas depois passava-lhe rápido!» Uma vez, o Presidente ficou exasperado por terem servido rosbife a convidados ingleses, que obviamente já conheciam o prato e decerto pretendiam provar a comida portuguesa. Apesar das suas zangas momentâneas, em 1983 Mário Soares concedeu-lhe o título oficial de «mordomo» do Palácio de Belém, funções que abandonou durante a Presidência de Jorge Sampaio. Se Vital Fontes se lamenta, muito en passant, do temperamento azougado dos filhos de Bernardino Machado, João Casteleiro demitiu-se devido ao filho de Jorge Sampaio o ter preterido na organização de um evento, favorecendo um funcionário mais novo, segundo referiu o mordomo em entrevista ao jornal Correio da Manhã, em Janeiro de 2016. Passam os tempos, mudam as chefias do Estado. Mas lá permanece, intocada, a perspectiva do criado. Da Monarquia à República, atravessando o Estado Novo e o Portugal democrático, Vital Fontes e João Casteleiro partilharam o mesmo destino, sobre o qual, de resto, têm visões bastante próximas. Outros os seguirão, pois servir é tarefa antiga. Tão velha que até vem na Bíblia.
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
Vital Fontes, Servidor de Reis e de Presidentes. Da Monarquia à República. Do Sr. D. Luís ao Sr. General Carmona. Compilação de Rogerio Perez, Lisboa, Editora Marítimo-Colonial, Lda., 1945.

 
(texto originalmente publicado na revista Epicur, Primavera de 2016)
 
António Araújo





 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O ouro ao bandido.

 
 

 
 
 
Saiu há pouco Némesis, de Misha Glenny, um interessantíssimo livro-reportagem sobre a vida de «Nem da Rocinha», que durante anos foi o «dono» da principal favela do Rio. O livro de Glenny não tem o fulgor de outras obras, como o impressionante testemunho Abusado, de Caco Barcellos (não publicado entre nós…). Aliás, Antônio Francisco Bonfim Lopes, «Nem da Rocinha», não foi sequer um típico «dono de morro»; longe disso, o que até talvez o torne uma personagem mais singular do que os seus comparsas no crime a alta escala. Némesis recomenda-se – e muito – como um exemplo de reportagem minuciosa, sendo um guia informado pelos labirintos do tráfico de coca, percorridos a um ritmo alucinante graças à mestria narrativa de Misha Glenny. Talvez percebamos melhor do que falamos ao ver a imagens do ouro que os traficantes do Complexo do Alemão trazem ao pescoço. Símbolos de poder, marcas de ostentação, estas correntes milionárias são também grilhetas, num certo sentido. Mesmo quando teve oportunidade de escapar da favela, rumo à clandestinidade e ao anonimato, Nem da Rocinha foi incapaz de fazê-lo. Para o bem ou para o mal, estava aprisionado ao morro onde cresceu. Por uma pesada corrente de ouro, pó – e sangue.
 
 
 
 
 
 
 
 

domingo, 3 de julho de 2016

Lisboa, 1940.

 
A. J. Liebling (1904-1963) 

 
Abbott Joseph «A. J.» Liebling (1904-1963) foi um dos mais conhecidos repórteres da revista New Yorker, onde começou a escrever em 1935, e aí permaneceu até à morte.
         Nesta nota, enviada de Lisboa em 24 de Junho de 1940, e publicada na New Yorker na sua edição de 6 de Julho do mesmo ano, Liebling dá conta da atmosfera vivida na capital portuguesa após a invasão de França pelos exércitos nazis e, bem assim, da tensão existente no país e nas comunidades estrangeiras que aqui residiam ou se encontravam de passagem.
         À semelhança do que ocorreu com textos aqui publicados (de Hugh Trevor-Roper ou Mary McCarthy), a tradução da reportagem de Liebling não pretende ser particularmente rigorosa ou, digamos assim, «profissional».  
 
 

Lisboa, 1940

 
 
Carta de Lisboa
24 de Junho 1940 (por Clipper)
 
         Actualmente, Lisboa é das poucas cidades europeias confortáveis que restam, mas paira no ar alguma inquietação. Os acontecimentos em França refrearam o ímpeto dos preparativos da comemoração dos 800 anos da independência e da «libertação do jugo espanhol» que pôs termo a uma união temporária com o país-vizinho. Pacíficos por natureza, os portugueses não podem deixar de pensar que pouco conseguirão fazer para evitar o regresso do jugo espanhol, caso Franco assim o deseje, e esperam que ele não se sinta muito melindrado pelas festividades em preparação.
         O regime do Senhor Salazar, um professor universitário de economia política que envergou as vestes de ditador absoluto, manteve Portugal um país solvente, mas desarmado. A Espanha fascista, com uma situação financeira em descalabro, como qualquer bom economista poderá explicar-vos em dez minutos, começa a erguer a cabeça com a sua dispendiosa artilharia. É a habitual equação canhões vs. manteiga, aqui aplicada a uma escala reduzida. O condutor português do Wagons-Lits que faz o percurso de Irun até Lisboa já deixou de gracejar com o contraste entre os preços das refeições na carruagem-restaurante e aquilo que os espanhóis têm para comer. O seu apetite e a comida continuam bons, mas anda preocupado. 
         O Senhor Salazar alimenta a esperança de que o General Franco se mostre grato pelos favores que lhe fez durante a Guerra Civil. Está ciente de que, pela primeira vez desde as guerras peninsulares, a tradicional aliança de Inglaterra com Portugal constituiu mais uma ameaça do que um trunfo. Não é, em todo o caso, uma aliança que mesmo um ditador possa romper de um dia para o outro, já que o inglês é a segunda língua falada em Lisboa, os bancos ingleses controlam o sistema financeiro do país, durante séculos os ingleses foram os grandes consumidores de vinho do Porto e Portugal sabe que, caso a Grã-Bretanha seja derrotada, as colónias portuguesas serão confiscadas. Por outro lado, os Portugueses são afectuosos e sentimentais; aqueles que não têm posses – ou seja, a grande maioria da população – reagiram às derrotas de França de uma forma ingénua, entrando em pânico. Os italianos não são populares por aqui, nem mesmo os alemães, ainda que a comunidade germânica de Lisboa seja numerosa. Há umas semanas, a polícia fez uma rusga ao clube e à escola alemã e descobriu uma apreciável quantidade de armas – tantas que quase chegariam para formar um exército em Portugal.
         Para quem viva em Lisboa, é difícil abstrair muito tempo da situação política, mas, na aparência, a vida corre sem sobressaltos, seja na capital, seja na Riviera portuguesa, uma região em forma de crescente que começa ao norte da cidade e se espraia por umas trinta milhas ao longo da costa. Não é necessário tapar as janelas à noite, algumas sessões de cinema chegam a começar à uma da manhã e o Casino Estoril, a zona de veraneio mais em voga no país, só se anima por volta das três da madrugada. Para aqueles que acabam de chegar de França, de Inglaterra ou da Alemanha, tudo isto parece outro mundo. A vida social britânica, que sempre teve a atmosfera típica de uma festa de jardim de um governador colonial, prossegue sem alterações, com os ingleses a jogar às cartas com os seus compatriotas, a fazer representações de teatro amador (Sir John Barrie e Ian Hay são os dramaturgos favoritos), a apostar moderadamente no Casino. Espera-se que o duque de Kent participe na abertura das comemorações centenárias e um comité especial do Royal British Club está a preparar com rigor a sua recepção, apenas se interrogando se os alemães e os italianos não chegarão antes dele.     
         Em caso de emergência, a Marinha inglesa certamente será capaz de resgatar do país os residentes de nacionalidade britânica, mas, até que isso aconteça, os ingleses enfrentam grandes dificuldades em regressar a Londres. Não existe uma linha regular de transporte de passageiros e os navios fretados são pequenos, desconfortáveis e escassos. Os únicos meios para abandonar o país são os Pan American Clippers, com destino a Nova Iorque, e as carreiras que rumam à América do Sul. Como estas últimas não são muito procuradas, os hotéis de Lisboa enchem-se de americanos vindos de França que esperam por um lugar no Clipper. À primeira vista, o número total, cerca de mil pessoas, não parece significativo. Contudo, se compararmos os passageiros que um Clipper pode transportar – no máximo, vinte cinco, na viagem para Oeste – e os quartos decentes que existem nos hotéis de Lisboa e da linha do Estoril, apercebemo-nos de que aquele número é astronómico. 
    ***
         Perante o que se passou, os ingleses continuam a abanar gravemente as suas cabeças, dizendo que é comum Churchill abster-se de recriminações, e que o que restou do exército francês deveria ter sido evacuado para defender as Ilhas Britânicas. O desaparecimento daquele exército alterou de tal forma a correlação de forças entre as diversas nações europeias que ainda ninguém se habitou à ideia; foi como se tivesse morrido subitamente a pessoa que é o ganha-pão de uma família numerosa.
         No mês passado, em Nancy, quase todos os correspondentes ingleses e americanos juntaram esforços em busca da única divisão britânica que supostamente alcançou a frente de batalha. Actualmente, essa divisão esfumou-se. O episódio têm o seu quê de divertido, já que os perigos criados pelo falhanço do governo de Chamberlain em enviar tropas para a frente de combate só se tornaram patentes no mês passado, quando o exército francês, reduzido a menos de um milhão de homens, para não falar das divisões imobilizadas na fronteira italiana, tentou enfrentar em campo aberto três milhões de soldados alemães.
 
***
         Curiosamente, os fascistas espanhóis continuaram a trocar francos por pesetas, ao passo que os portugueses, francófilos mas prudentes em questões financeiras, recusam-se a aceitar a moeda gaulesa. Até agora, o único movimento ostensivo de Espanha foi a ocupação da zona internacional de Tânger, algo que, segundo a versão oficial, foi feito «com o consentimento dos governos francês e britânico». Os homens de negócios de Lisboa só se aperceberam daquela operação quando começaram a receber correspondência com selos ostentando a cara de Franco em vez dos retratos do rei Jorge e da rainha Isabel.   
         Em Irun, a cidade fronteiriça onde é habitual esperar várias horas pelo Sud-Express para Lisboa, já servem refeições, o que não sucedia há nove meses atrás. Os espanhóis dizem que a alimentação é demasiado cara para os seus níveis salariais, mas o mero facto de ela existir é já um progresso. Os jornais espanhóis são, naturalmente, pró-nazis e pró-italianos, ainda que as pessoas que encontramos nos bares de Irun ou nas tabernas de Fuenterrabia, nas redondezas, façam troça dos italianos. «Os alemães não lhes vão dar nada de nada», dizem. Admiram os alemães e congratulam-se por ver os franceses humilhados. Os espanhóis antifascistas mantêm-calados, e não é certo que ainda nutram grande simpatia pelos ingleses.
         Há umas noites atrás, um alemão que falava inglês virou-se para um casal de americanos num bar de Lisboa e disse-lhes: «Meus caros, Hitler não tem quaisquer pretensões relativamente ao Canadá ou aos Estados Unidos. É um homem recto, que apenas reclama aquilo a que tem direito». Faz lembrar o que alguém disse de uma eleição realizada no Sarre já parece há quase um século, em 1935.
 
A.   J. Liebling
 
 
Tradução de António Araújo 
 
 
 
 
 

 

sábado, 2 de julho de 2016

Memória Futurográfica.

 
 
 
Fotografia de Vivian Maier

 
O Presente é já
e tudo é a cores,
o dia de amanhã,
espectro obscuro
vindo do Passado,
uma Futurografia
a preto-e-branco
mal impressa em
papel-cinza e mal
aparada à cabeça,
muito para além
da mancha desta
nossa existência.
 
Ricardo Álvaro


sexta-feira, 1 de julho de 2016

A Minha Viagem à União Soviética, de Hortênsia Neves de Sousa.

 
 
 
 
 
 
           «Claro que eu continuava a dizer que esperasse, mas ela não queria esperar e batia cada vez mais, gritando-me diversas coisas dentre elas a de que o banho era colectivo. Eu nessa altura já começara a vestir-me e protestava contra aquilo de banho colectivo, mas ela, enfurecida, gritava que «na nossa organização tudo é colectivo e quem não estiver bem que se vá embora». Ainda retorqui que bem sabia que lá quase tudo poderia ser colectivo, mas que o banho também fosse colectivo é que não estava certo».
(Hortênsia Neves de Sousa, A Minha Viagem à União Soviética, Lisboa, Didáctica Editora, 1973, pp. 51-52, realce no original)
 
 

O Tabaco à Luz da Medicina Moderna.

 
 




As objectivas fotográficas têm retratado o nosso Primeiro Ministro em milhares de circunstâncias, públicas e privadas, mas nunca de cigarro na boca.