Tirando o acervo documental, felizmente e em
grande parte conservado e tratado, de Amílcar Cabral, para além das suas obras
de cariz ideológico na luta anticolonial e como líder revolucionário,
restam-nos poucos depoimentos de responsáveis do PAIGC, tanto no que se refere
ao período da luta armada como nos tempos posteriores. Há uma primeira obra de
Aristides Pereira, para a qual concorreu Leopoldo Amado, uma segunda também
deste alto dirigente entrevistado pelo jornalista José Vicente Lopes, desta
feita mais disponível e quebrando sigilos do passado; há o testemunho de Luís
Cabral sobre a obra do irmão, a par do seu percurso dentro do PAIGC, biografia
e hagiografia; temos igualmente testemunhos de dirigentes ou quadros do PAIGC
de origem cabo-verdiana ou guineense, mas o cabal esclarecimento que comportam
é diminuto, alguns deles têm até a
particularidade de serem de pura vanglória ou procurarem trazer justificação às
tragédias de governação a partir de 1974 (das quais eles não têm qualquer
responsabilidade).
O que Rosário Luz vem procurar neste trabalho
biográfico (ou autobiográfico?) sobre Manecas Santos é procurar revisitar a
viagem de uma sigla, revelada efémera, sobre a unidade Guiné-Cabo Verde,
contando com um ator de eleição, o então jovem cabo-verdiano Manuel Maria
Monteiro Santos, nascido na cidade de Mindelo, em ambiente burguês, tendo
estudado em Lisboa e daqui partido para a luta, preparando-se em Cuba, e
depois, degrau a degrau, galgando a hierarquia e assumindo responsabilidades
nomeadamente no período histórico de 1973, quando o aparecimento dos mísseis
Strela abanaram fortemente a última supremacia que restava às Forças Armadas na
Guiné; viagem que se prolonga com o seu desempenho no poder do Estado, como
chegou a ministro da Economia e das Finanças e vem agora depor sobre o colapso
do Estado. Temos, pois, Manecas Santos na primeira pessoa, em jeito de prólogo
fala da sua chegada à Guiné em 1968, como fez a tarimba, com quem combateu e
aonde, em 1971 passa a ser comandante de um corpo de Exército e no ano
seguinte, tendo voltado de treinos em antiaéreos na Crimeia, irá assumir o
comando militar na frente norte.
Fala-nos do Mindelo, da família e do meio;
concluído o liceu em S. Vicente, vem para Lisboa, estuda na Faculdade de
Ciências, refere-nos os estudantes africanos, em 1964 parte para Paris, daqui
segue para Argel, depois Havana, confessa que a intensidade do treinamento
físico foi implacável e que, fisicamente, a guerra na Guiné não foi mais do que
um passeio. Descreve o Exército de Libertação e como ele foi concebido por
Amílcar Cabral. “Cabral cuidava pessoalmente da formação de todas as unidades
do Exército. Era ele quem escolhia o comandante, o segundo oficial e organizava
toda a estrutura. Apesar da sua baixa estatura, emanava autoridade, e quando
era necessário impor-se, fazia-o sem titubear. No entanto, possuía uma natureza
afável e um trato agradável. Mantinha uma relação de extrema proximidade com os
soldados, chamando cada um pelo nome e visitando frequentemente as bases para
verificar o andamento das operações.” Menciona o recrutamento dos
guerrilheiros, como o trabalho de mobilização foi encetado no Sul. Alude à
organização tanto do Exército como o papel das milícias, o apoio dado pela
União Soviética, observa a importância da medida tomada no I Congresso em que o
poder miliar ficou subordinado ao poder político. E deixa-nos uma descrição
detalhada de como se processou a guerrilha na Guiné, esta foi o palco das mais
violentas das guerras coloniais. É neste preciso instante que Manecas Santos
nos traz a primeira inverdade: em meados de 1968, cerca de dois terços do
território já estavam sob a administração do PAIGC.
Há cerca de 18 anos à porfia no que concerne a
História da Guiné Portuguesa e a História da Guiné-Bissau, tenho-me deparado
com mitologias e mentiras cujos autores teimam em franco despudor reincidir. O
doutor Carlos Lopes, a quem devemos estudos de alto significado, escreveu que
na Operação Tridente o PAIGC tinha abatido 500 militares portugueses; o
historiador português Rui Ramos veio dizer que em 1970 o PAIGC tinha sido
sustido, já não tinha bases na Guiné, vinha do exterior, flagelava e retirava –
pergunta-se como é que é possível uma tirada destas quando possuímos a história
das campanhas da Guiné que demonstram inequivocamente que nesse ano de 1970
íamos aos mesmo santuários em que PAIGC estava instalado há anos, e com pouco
sucesso.
Inevitavelmente, falará da operação de cerco a
Guidaje e da resposta das tropas portuguesas enviando um batalhão de comandos
africanos até uma base do PAIGC em Cumbamory. Dirá: “Sofremos baixas
absolutamente negligenciadas: cinco feridos e nenhum homem morto. O exército
colonial sofreu baixas pesadas. O adversário deixou 16 cadáveres em campo,
todos de comandos africanos.” Desse-se Manecas Santos ao cuidado de investigar
o que sabemos sobre tal operação, teria ido ao Arquivo da Defesa Nacional, onde
existe um registo das transmissões portuguesas que interferiram nas
transmissões de Cumbamory para Conacri, onde se diz abertamente que as forças
do PAIGC tiveram um número de mortos superior a 60…
Quanto ao assassinato de Cabral, é contido, não
fala nem na PIDE nem em Spínola, dirá que foi praticado por ilustres
desconhecidos, está certamente esquecido que o embaixador de Cuba em Conacri,
Oscar Oramas, chegou pouco depois ao local do crime, e escreveu mais tarde que
viu Osvaldo Vieira, entre outros, a esconder-se atrás da vegetação; acontece
que esses ilustres desconhecidos ameaçaram todo o grupo cabo-verdiano de morte,
deram-lhes ordem de prisão, enquanto se dirigiam para Sékou Turé. Acontece que
não existe nenhum documento que comprove qualquer propósito de Spínola ou da
PIDE para induzir tal assassinato. Mas convém deixar sempre no ar de que o
complô tinha o braço longo de Spínola e dos seus infiltrados.
Reconheça-se a importância do seu depoimento na
época do pós-Cabral, dá-nos um retrato da multiplicidade de contradições dentro
do PAIGC e da sua ocupação do Estado, relata o definhamento ideológico, fala da
sua atividade como ministro e quantos aos fuzilamentos praticados pelo PAIGC,
dirá algo de surpreendente, que talvez por volta de 1976 Luís Cabral jantou com
Ramalho Eanes em Belém, e este ter-lhe-á pedido que fossem devolvidos a
Portugal antigos efetivos do exército colonial, Cabral Terá concordado, convocou
altos responsáveis, entre eles António Alcântara Buscardini, chefe dos Serviços
de Segurança do Estado e este, com toda a desfaçatez informou Cabral que os
soldados não podiam ser devolvidos porque já tinham sido executados, tinha
tomado individualmente tal decisão, Cabral engoliu a afronta. A história
seguramente estará na desmemória de Manecas, haverá fuzilamentos, que estão
devidamente registados até dezembro de 1977, e há que perguntar como é que é
possível um chefe de segurança andar a praticar matanças sem o presidente
saber. Nino Vieira será uma rábula parecida depois de 14 de novembro de 1980,
manda abrir as valas de gente executada, ele que era primeiro-ministro, também
não sabia…
Um testemunho para juntar ao de outros líderes do PAIGC, impõe-se como um retrato fiel do desmoronamento do Estado, onde Manecas Santos foi elemento preponderante.
Mário Beja Santos