domingo, 12 de junho de 2016

Uma entrevista de Spínola.

 

Fotografia de Armando F. Pereira


 
         Foi no dia 24 de Novembro de 1975, festa de "Thanksgiving" (Acção de Graças), dia em que se comemora a chegada dos Peregrinos da "Mayflower" aos Estados Unidos, em 1621, festa que é sempre comemorada na quarta quinta-feira do mês de Novembro; festa em que nunca falta o peru, a ponto de muitos luso-americanos a terem baptizado de "Festa dos Perus."
         Toda a comitiva do General Spínola foi almoçar a casa do Dr. Adriano Seabra Veiga, médico e Cônsul Honorário de Portugal, no estado de Connecticut; almoçar não digo bem: banquetear-se, pois era tradição dessa casa tratar os hóspedes com todos os requintes de uma culinária refinada, de tradição portuguesa, o que quer dizer que a grande variedade de pratos superiormente preparados era acompanhada dos melhores vinhos e licores, servidos respectivamente em louça da Vista Alegre e em copos de fino cristal, dispostos com todos os requintes de etiqueta numa toalha da Madeira, tudo servido por empregados de mesa em uniforme, sob o comando de um mordomo, sempre vestido de traje a rigor.
         Desnecessário é dizer que, tratando-se de um banquete de festa e de convidados tão ilustres, não faltaram os brindes.        
         Terminado o banquete e as saúdes, fomos sentar-nos à sala de estar, adornada com quadros dos séculos XVII e XVIII, com peças antigas de louça da China e da Companhia das Índias, com estatuetas de mármore e com uma lareira também feita de mármore.
         Enquanto uns nos entretínhamos a conversar e outros também a saborear o seu licor e/ou o seu havana, o Professor Veiga Simão, então auto-exilado nos Estados Unidos, conduziu o General Spínola para a cave da casa, transformada em sala de estar, sala de jogos e em bar. É que aí se encontrava à sua espera um jovem jornalista português, Carlos Pinto Coelho, co-fundador,  com Artur Portela Filho, do diário Jornal Novo, em 1975, e seu correspondente. Feitas as devidas apresentações por Veiga Simão, o General Spínola começou por dizer que não estava na disposição de dar entrevistas a jornalistas portugueses, pois sabia, por experiência, que distorciam sempre o que ele dizia. Que disso tinha ele demasiadas provas. Que não tivesse esse receio, apressou-se a esclarecer Veiga Simão. Havia que distinguir entre jornalistas e jornalistas. Que Carlos Pinto Coelho era jovem, mas era um jornalista profissional e consciencioso.
         E depois de muita insistência, por parte de Veiga Simão, o General Spínola anuiu a conceder uma entrevista, mas com a condição de que as perguntas lhe fossem submetidas por escrito, a fim de ele responder também por escrito. Mas que precisava de tempo. Que provavelmente só no dia seguinte podia ter prontas as respostas.
         E assim ficou acordado. De maneira que, enquanto o General Spínola e Veiga Simão voltaram para o salão nobre, para aí se juntarem aos anfitriões e aos outros convidados, Carlos Pinto Coelho ficou na sala de estar da cave a escrever as perguntas.
         Como jornalista responsável, Carlos Pinto Coelho – que se tinha deslocado de Portugal de propósito para entrevistar pessoalmente o General Spínola – sabia de cor e salteado as perguntas que desejava fazer. De maneira que só foi questão de passar essas perguntas para o papel, em letra grande e bem legível, ao gosto do homem do monóculo.
         Com essas perguntas no bolso, o General Spínola e comitiva – Capitão Ramos, D. Maria Luisa, sobrinha do General, Cirurgião, mais o motorista, o meu velho amigo Manuel Gaspar – regressámos a Hartford, a meia hora de distância.
         Como para o cair da tarde desse mesmo dia estava programada uma conferência do General Spínola à comunidade portuguesa, no Grémio Lusitano de Ludlow, Estado de Massachusetts, passada uma hora, pouco mais ou menos, estávamos a caminho de Ludlow, a uns cinquenta minutos de carro. Por ter umas diligências pessoais a fazer em Ludlow, resolvi levar também o meu carro. Por outro lado, ao passo que a D. Maria Luisa ficou no hotel, em Hartford, juntaram-se duas pessoas à comitiva do General: o Dr. José Valle de Figueiredo, espécie assessor e adido de imprensa do General Spínola, e o Comandante Alberto Rebordão de Brito, cujas verdadeiras funções durante parte da "tournée" do General nos Estados Unidos e Canadá, durante parte dos meses de Novembro e de Dezembro de 1975, nunca cheguei a compreender bem. Sei que tinha fama de valente como fuzileiro naval, que servira sob as ordens do General Spínola na Guiné e que era seu afilhado de casamento, segundo informações obtidas do Capitão Marques Ramos.
         No dia seguinte partimos para a Califórnia, a fim de o General apelar ao fervor e ao apoio patriótico das comunidades luso-americanas aí estabelecidas, quase todas de origem açoriana e madeirense. Essa a missão pública, pois a missão secreta era procurar convencer alguns dos milionários das vacarias,  leitarias e grandes empresas agrícolas, entre esses portugueses, a apoiar a missão política e patriótica e anti-comunista do General Spínola, com uns milhões de dólares, servindo-nos para isso de duas pessoas nossas conhecidas e de plena confiança: a D. Maria Giglito, luso-americana, casada com um armador de San Diego, e o Dr. Décio de Oliveira, dentista em San Jose ou cidade vizinha, especificamente Oakland e Santa Clara. Ilusão das ilusões. Como se diz noutra parte, nos chapéus passados pela audiência, por ocasião dos discursos recheados de patriotismo, feitos pelo General Spínola, nem sequer caiu o suficiente para pagar as despesas com a viagem e com a  estadia da comitiva na Califórnia.
         Mas voltemos à entrevista destinada ao recém-nascido Jornal Novo de Lisboa. Como no dia anterior não tinha havido tempo para isso, fez-se saber ao Professor Veiga Simão que ela só poderia estar pronta quando chegássemos à Califórnia. Que uma vez aí chegados, em hora que agora não sei precisar com exactidão, eu ditaria por telefone ao Carlos Pinto Coelho as respostas do General Spínola. Combinou-se de antemão o número que eu devia ligar, e  assim se fez.
         Mas para que à nossa chegada à Califórnia a entrevista pudesse estar pronta para ser transmitida pelos fios telefónicos continentais, necessário se tornava produzi-la durante a viagem. E assim aconteceu. O General Spínola e o Dr. José Valle de Figueiredo, sentados um ao lado do outro, iam fabricando as respostas, que o Dr. Figueiredo escrevia à mão. Terminada uma página, entregava-ma a mim, sentado na coxia, do lado oposto, e eu passava-a à máquina, na minha Olivetti portátil.
         Íamos aí por metade da segunda página, quando uma senhora sentada próximo de mim se começou a queixar que o ruído da máquina estava a perturbar-lhe o repouso. Eu fiz de conta que a não ouvi e continuei a martelar impertérrito nas teclas da minha Olivetti. Mas a dita senhora não se deu por vencida e fez uma queixa formal a uma das hospedeiras de bordo. E a hospedeira de bordo fez-me ver que não era bonito perturbar o repouso de uma passageira. E eu fiz ver à hospedeira de bordo que fizesse favor de compreender, que se tratava de um assunto altamente transcendente, etc. e tal, e que, com um pouco de boa vontade, talvez fosse possível resolver esse problema a contento de todos. Como? – perguntou ela. – Muito facilmente – respondi eu. Convencer essa senhora, aparentemente alérgica à música de uma inocente máquina de escrever, a sentar-se num dos lugares vazios lá muito à frente do avião. Bastaria dar a entender à delicada senhora que tinha havido um entendimento prévio entre nós e a hospedeira de bordo-chefe, mediante o qual nos seria possível realizar essa tarefa tão urgente nos moldes em que estávamos a realizá-la. E, graças à compreensão e aos bons ofícios de uma hospedeira, extremamente simpática e bonita, como eu lhe dei claramente a entender com um fugitivo e grato sorriso, o bater das teclas da minha Olivetti pôde continuar a fazer música dissonante durante o resto do voo. E foi desta maneira que se tornou possível ter a entrevista completa, pronta para ser transmitida por telefone ao destinatário, no momento em que aterrámos no aeroporto da Califórnia e nos hospedámos no hotel, na portuguesíssima e açorianíssima cidade de San Jose.
         Foi feita esta transmissão a partir do telefone do quarto em que fiquei alojado. Mas foi essa entrevista publicada em Portugal? De maneira nenhuma. E porquê? – Porque as respostas que o General Spínola deu a Carlos Pinto Coelho não foram do total agrado de Veiga Simão, em conivência, não manifesta ao General Spínola e aos outros membros da sua comitiva, naturalmente, com o seu amigo e protector político, chamado António Almeida Santos, uma das eminências pardas do novo regime político português. É que nessa entrevista o General Spínola se recusava a acatar o conselho de Veiga Simão: apoiar publicamente e incondicionalmente o governo recém-formado, sob a chefia do Almirante Pinheiro de Azevedo.
          Os que porventura tenham a curiosidade de ler essa malograda entrevista, confeccionada de uma forma tão bizarra, poderão fazê-lo abrindo o livro de António de Spínola, Ao Serviço de Portugal, 2.a edição (Lisboa: Ática / Livraria Bertrand), pp. 359-368, obra que o abaixo-assinado ajudou a dactilografar e a rever e cujo título sugeriu, como está contado noutra prosa ainda inédita.     
 
António Cirurgião
 

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