segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Sem elas não há iscas.

 



De todos os pratos lisboetas, as iscas com elas são talvez o mais emblemático e original. Um pitéu «à antiga»! A boa notícia é que ainda se encontram em muitas boas tascas e casas de pasto. A má é que estão a desaparecer.

Mas há outra razão para apreciar ainda mais as iscas. “Liver with potatoes” não encanta ninguém. O gosto mineral do fígado, a textura peculiar e a tradição das miudezas como cozinha de aproveitamento fazem o resto: os turistas ficam de fora. Como as crianças. E ainda bem.

Dito isto, comecemos pelas iscas propriamente ditas. Fígado de porco, cortado muito fininho. Mas nem sempre foi assim. Até à Primeira Guerra Mundial, comiam-se de vaca. A escassez e o preço da carne empurraram taberneiros e comensais para o porco.

Segue-se a marinada, durante pelo menos duas horas no frio: alho, louro, vinho branco, vinagre, sal e pimenta. A fritura há de ser em banha, sim, neste contexto nada de azeite e ainda menos de outros devaneios amanteigados. O segredo está na rapidez. Com iscas tão finas, queremos evitar que sequem e preservar uma textura macia por dentro. Retiram-se as iscas, leva-se a marinada à frigideira até ferver e reduzir. As iscas regressam por um instante e servem-se com o molho por cima.

Então e a cebola? Primeiro erro capital! Também fica bem, mas já não são iscas com elas: é fígado de cebolada. Saboroso, sem dúvida, mas menos original. Italianos (fegato alla veneziana), espanhóis (hígado encebollado) e até franceses e alemães, todos têm as suas versões, com pequenas variações.

E elas? As batatas, claro. Fritas? Segundo erro. Tudo na sua ocasião. Uma bifonga? Batatas fritas. Alheira? Nem se questiona, fritas claro. Mas para as iscas, elas são mesmo cozidas, cortadas às rodelas grossas e mais nada. No final, é esmagar uma ou duas rodelas com o garfo e rapar o molho. Vão-me agradecer.

Suspeita-se que seja assim desde o século XVIII, nas tabernas de Lisboa. Pelo menos no século XIX já temos testemunhos escritos: Volúpia, de Albino Forjaz de Sampaio, é uma referência importante. Já nessa altura se queixava: “Ia-se às iscas. Ah! Mas não se pense que as iscas eram o que são hoje. Não. Perdeu-se a poesia das iscas.” Eça de Queiroz fez-lhes a homenagem no Crime do Padre Amaro: Gustavo, o tipógrafo, chegado de Lisboa, não resiste a pedi-las e a explicar como se fazem, já que em Leiria não as conheciam, razão de grande atraso para o nosso homem. Em 1904, o famoso Tratado Completo de Cozinha e Copa deixa-nos por escrito uma receita que já consagra a tradição.

Nessa altura, a proteína ainda não estava na moda. Ou, pelo menos, não se falava dela. Mas alegremo-nos: as iscas são uma excelente fonte de proteína, muito ricas em ferro e boas fornecedoras de vitaminas B e A. E fazem tudo isto com poucas calorias — esqueçamo-nos, por um instante, da banha da fritura.

Tem tudo para gostarmos. É economia de aproveitamento, é uma carne de baixo preço, tem valor nutricional, uma técnica simples e com poucos ingredientes. Cheias de sabor e com um molho que pede pão e batatas.

Já não existe a mítica Casa das Iscas da Travessa do Cotovelo, mas ainda se as podem apreciar com nota artística por Lisboa. É vaguear entre a Maçã Verde, em Santa Apolónia, a tasca Das Flores e a Taberna da Rua das Flores, no Chiado, e o Zé da Mouraria. Ou a Tasca do Gordo, já em Pedrouços, dizem-me. Eu fico pelo centro da capital.

Mas, por umas iscas com elas, ia sem dúvida até Pedrouços e, se fosse preciso até à Costa da Caparica. É que sem elas, a vida não era a mesma coisa. Como dizia o Albino, ia-se a poesia. 


                                                                José António Nogueira de Brito

 


 

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