Portugueses ciganos, Cinco séculos de
resistência, por Ana Cristina Pereira, FFMS/Ensaios da Fundação, 2026, é uma
viagem empolgante acerca de uma etnia cuja proveniência continua a ser objeto
de discussão; a sua presença está historicamente documentada em Portugal, uma
conceituada jornalista vai bater-lhes à porta, ouvir os seus anseios, traça-nos
numa narrativa de grande vivacidade a história antiga e recente do
anticiganismo, segregações, exclusões, preconceitos arreigados, basta recordar
expressões que vêm da noite dos tempos como “ciganices” ou “um olho no burro e
o outro no cigano”. Ficaremos, no termo desta categorizada, até com a ideia de
que as insinuações de um populismo fervente e ignaro estejam a contribuir para
atitudes mais inclusivas no trabalho, na escola, na autarquia, nos locais de
residência. Há casos em que o discurso do ódio leva o comportamento democrático
a fazer mais para derrubar os muros da desumanização, e com sucesso.
Por esta leitura estimulante vamos
conhecer, através de três gerações, o que tem vindo a mudar na cultura cigana,
os ganhos em dignidade, os casamentos por amor, o reconhecimento pelas gerações
mais antigas do valor da educação, as barracas que deram lugar a casas, o gosto
pela sedentarização sem prejuízo da manutenção dos pilares da entreajuda
familiar – é inequívoco que o cigano ama os valores da família.
Vamos conhecer estudos, depoimentos,
inclusive os itinerários desta minoria étnica transnacional, teve a sua placa
giratória nos Balcãs, conheceu toda a casta de perseguições, foram gazeados nos
campos nazis e o seu historial de marginalização em Portugal entronca o
obscurantismo aos preconceitos mais alarves. Começaram a ter direitos de cidade
na Constituição de 1986 e outros documentos subsequentes como a Declaração
Universal dos Direitos Humanos e a Convenção Europeia dos Direitos Humanos.
Como observa uma socióloga, esta abertura para a cidadania e para o
reconhecimento da dignidade cigana foi sempre feita com bastantes vagares. E
mostra-se como tem vindo a ser alargado o fosso entre ciganos e não ciganos.
Com a democracia, os ciganos ganharam
ativismo e a própria justiça passou a punir o discurso do ódio. E temos uma
incursão por esse movimento associativo e as suas características: Os
Viquingues do Bairro de São João de Deus; o Governo criou o Alto Comissariado
para a Imigração e as Minorias Étnicas, surgiram os rendimentos de inserção com
exigências no campo da saúde, na empregabilidade e na formação; veio depois a
Associação Cigana de Coimbra, relevou-se o papel da mediação; apareceu um
projeto com vários parceiros com renome fruto da Iniciativa Comunitária EQUAL,
onde a educação é prioritária. Enfim, há o trabalho nas redes sociais, as
associações que surgiram lutam contra a discriminação externa (que dificulta o
acesso à educação, ao emprego, à participação na vida pública) e contra a
discriminação interna (procurando sensibilizar as velhas gerações que se
abriram novas oportunidades para as meninas e para as mulheres).
Temos uma súmula das políticas
públicas, de um novo ativismo contra os ódios e preconceito, desmontam-se
mentiras, não é esquecida aa ligação entre alguns ciganos e o tráfico de droga.
Por vezes há desalento com a previsão de refluxos, basta recordar que a última
Estratégia Nacional de Integração das Comunidades Ciganas acabou no final de
2023. Portugueses ciganos têm ganho projeção na sua participação política, é o
caso de Carlos Miguel ligado à Câmara Municipal de Torres Vedras, a despeito da
infamante campanha de oposição, dizendo “Querem um cigano na presidência da
Câmara? Querem a Câmara cheia de ciganos?”. Hoje há ciganos a trabalhar em
várias autarquias e como diz Carlos Miguel, “Nós só vamos conseguir ultrapassar
o preconceito se as pessoas nos conhecerem melhor. onde é que as pessoas nos
podem conhecer melhor? No dia a dia, na escola, no trabalho”. A reportagem
desvela as atribulações para ter acesso ao emprego, há histórias de sucesso de
portugueses ciganos que enfrentam no porto de trabalho as ideias feitas, o
racismo mais desalmado, e aprendem a dar a volta a quem afina pela exclusão e a
discriminação.
Era inevitável, Ricardo Quaresma, uma
das lendas do futebol nacional e internacional, aprendeu desde muito novo a
ouvir alarvices nos estádios, do título “Ó cigano, passa a bola!” já teve as
suas questiúnculas com o chefe da extrema-direita portuguesa e está pronto para
mais. Confessa que fica feliz vendo pessoas da sua etnia a estudar cada vez
mais, deixa uma observação: “É muito bonito dizer que o cigano tem que
trabalhar. Eu concordo que o cigano tem que trabalhar. E oportunidades para o
cigano trabalhar?”
Há portugueses ciganos que são astros
musicais e Ana Cristina Pereira faz deles um relato. Há também portugueses
ciganos nas artes do palco e noutras esferas do universo artístico.
No termo daa sua reportagem, a autora
deixa as suas interrogações quanto à falta de meios para a fixação dos ciganos,
o arrendamento local era lhes hostil e não só pelo preço da habitação. E deixa
um comentário para a reflexão do leitor:
“Poucas pessoas reconhecem o anticiganismo,
como se fosse uma norma assente há pessoas que pensam que os ciganos não
trabalham porque não querem trabalhar, são pobres porque são preguiçosos, vivem
isolados porque não gostam de interagir com outras culturas.” Os ataques de que
são alvos os ciganos não geram condenação moral. Enquanto o anticiganismo não
for reconhecido, esta reação será vista como um alimento para maais ódio, mais
discriminação, mais desigualdade.
Nesse processo, importa o modo como
contamos histórias uns aos outros – nos meus de comunicação social, nas redes
sociais, no contacto direto com familiares, amigos, vizinhos. A inclusão de uma
população tão marginalizada exige políticas públicas fortes, mas joga-se também
na profundidade das relações interpessoais, na escola, no trabalho. Em suma,
envolve a sociedade no seu conjunto”.
De leitura obrigatória.
Mário
Beja Santos










































