sexta-feira, 5 de outubro de 2018
Salazar, o B.I.
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quinta-feira, 4 de outubro de 2018
Sexo a Sul.
Quando
este quadro de Christiaen van Couwenbergh foi mostrado em Delft, em 1632,
suscitou repulsa. Não por mostrar uma violação de uma mulher negra por homens
brancos, mas por exibir – horror! – uma relação sexual inter-racial. O
historiador Pascal Blanchard (e outros) acaba de lançar Sexe, race et colonies. O subtítulo diz tudo: «A dominação do corpo
do século XV aos nossos dias». Por cá também há muitas fotografias da guerra
colonial como estas aqui mostradas, vindas de França e outras paragens. Um tema
que bem merece ser estudado numa
perspectiva histórica, com serenidade, sem psicodramas ou complexos de um sentido ou doutro.
quarta-feira, 3 de outubro de 2018
Vidas singulares: Luisa Casati (1881-1957).
Já todos ouviram falar de Luisa Casati (ou Luisa, Marchesa Casati Stampa di Soncino),
pelo que não há sequer razão para lhe dedicar uma posta destas. E, menos ainda,
para copiar vergonhosamente a Wikipedia, padroeira dos grandes artistas. Também a Casati
o foi, patrona de grandes artistas e musa e marquesa e mulher, por sinal riquíssima.
Dizem mesmo que Luisa Adele Rosa Maria Amman foi, a seu tempo (1881-1957), a
mulher mais rica de Itália. Herdou muito nova, por morte da mãe (tinha ela 13)
e do pai (tinha ela 15). Amante de D’Annunzio, poeta exquis, casou com um marquês, mas o casal manteve comodamente residências
separadas durante toda a vida matrimonial. A doideira familiar prolongou-se
geneticamente, bastando dizer que um bisneto de Luisa, com o nome catita de
Péricles Plantageneta James Casati Wyatt, snado em 1963, e notabilizou e
notabiliza como gerente de parque aquáticos no Arizona. A bisavó comprou um
grande palazzo no Grande Canal, Veneza, mais tarde adquirido por Peggy
Guggenheim para aí instalar o museu com o seu nome, Museu Giggenheim. Nessa
casita, a Casati tinha, por exemplo, um criado só para alimentar um pavão, por
forma a que o dito pavão, alimentado ao minuto, não saísse do seu lugar, no vão
de uma janela, onde a sua silhueta fazia um efeito que a senhora marquesa
apreciava visualizar. Como apreciava sair à noite na Praça de São Marcos, alas
abertas por criados negros carregando tochas – e dois leopardos a ladear,
uivantes. A marquesa percorria a praça vestida de peles tão-só, isto é, nua.
Também houve dois papagaios albinos que a Casati pintava, como se fossem
bonecos, com as cores que lhe pareciam mais adequadas a cada dia. Uma esteta,
portanto. Depois, foi para Capri, arrendou e tomou de assalto a casa famosa de
Axel Munthe. Desembarcou na ilha, note-se, com dois criados negros, dois
leopardos, dois cãos greyhound, duas gazelas, dois papagaios, uma cobra boa constritor,
um mocho e muita, muita bagagem. É claro que brincadeiras destas custavam um
tanto, e a Casati acumulou uma dívida de 25 milhões. Teve de colocar as suas
coisas, que eram muitas, muitas, a leilão, tendo Coco Chanel sido uma das
arrematantes, sua cabra colaboracionista. Depois foi para Inglaterra, onde se
resguardou em apartamento com só um quarto, ou seja, na miséria. Em resultado
disto, claro, morreu de ataque, aos 76 anos da mais completa doideira. Mesmo post mortem continuou a inspirar
actrizes como Vivien Leigh e Ingrid Bergman e um arraial de costureiros, assim perfilados:
John Galliano, Alexander McQueen, Karl Lagerfeld, Omar Mansoor e mais não conto
porque a Wikipedia não deixa, mas há muitos links e livros.
Métodos naturais de conservação.
MÉTODOS NATURAIS DE CONSERVAÇÃO
O melhor e mais eficaz método natural de conservação do Presunto, para evitar que o ranço lhe pegue, é comê-lo o mais rapidamente possível.
*
Os queijos não apodrecem nem se decompõem, envelhecem.
*
Não há queijos podres nem malcheirosos, há palatos mais sensíveis ao processo de maturação.
*
Os queijos envelhecidos são naturalmente saudáveis porque são curados.
*
No envelhecimento é que está a saúde: quanto mais velho é o queijo, mais curado está.
*
O bolor é um adereço decorativo resultante da passagem e desfile do Tempo sobre os alimentos. O bolor sai, o queijo fica.
*
Um queijo só está cientificamente extinto e tecnicamente impróprio para consumo quando o óbito por intoxicação alimentar for oficialmente confirmado pelo Médico Legista.
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Ricardo Álvaro
terça-feira, 2 de outubro de 2018
Eu, Alexandre Herculano.
“É
a minha nova instalação artística”, diz Daniel Blake depois de pintar a spray numa das paredes exteriores do
Centro de Emprego uma frase em que, além de denunciar a incompetência grosseira
dos serviços, aproveita para gozar com a música chata a que esses mesmos
serviços o sujeitam durante as horas em que o deixam pendurado ao telefone. O
filme Eu, Daniel Blake, que despertou
apaixonadas discussões em 2016, ano de estreia, passou um destes dias na RTP e
logo uma nova poeira de debate se ergueu no ar. Como nunca o tinha visto
aproveitei agora a oportunidade, e o episódio de “street art” que relato em
cima serve para explicar o motivo pelo qual, apesar de todas as “provocações”
do realizador Ken Loach, não verti uma lágrima durante os 96 minutos.
Inicialmente,
através de um processo de auto-análise e também por causa dos subtis
comentários que a minha mulher ia soltando, atribuí a aridez das glândulas
lacrimais à incapacidade de sentir sentimentos sentimentais sensíveis, mas a
verdade é que, depois de afastar o ruído inerente à reflexão sobre o eu, bem
como o ruído inerente ao convívio prolongado entre seres humanos de sexos
opostos, lembrei-me dos riachos que escorreram pela minha cara quando vi o Umberto D., clássico do neo-realismo
italiano com o qual Eu, Daniel Blake
estabelece óbvios paralelos. A diferença decisiva entre o desgraçado Umberto
Domenico Ferrari, um italiano que se vê mergulhado numa situação de gravíssima privação
material, e o desgraçado Daniel Blake, um inglês que se vê mergulhado numa
situação de gravíssima privação material, é a atitude com que cada um deles
enfrenta a provação. Umberto D. é um símbolo quase perfeito daquilo a que damos
o nome de pobreza envergonhada; pelo contrário, Blake, no meio do desastre,
mantém a cabeça erguida, reclama, satiriza, provoca amigavelmente os vizinhos
do lado e, saudavelmente encolerizado, ainda ameaça o vizinho afastado de lhe
esfregar a cara na merda do próprio cão se ele se voltar a atrever a fazer do
jardim dos outros casa de banho para canídeos. Salvo melhor entendimento de
carácter meloso, acredito que Daniel Blake merece que não choremos por ele.
Antes
de avançar na análise recuperemos resumidamente o guião. Daniel Blake é um
marceneiro viúvo que acaba de sofrer um ataque cardíaco. Fruto de uma época em
que o trabalho tinha não só uma função económica mas também uma forte
componente de legitimação da própria existência, vê-se, de repente, encalacrado
numa armadilha procedimental: os médicos dizem-lhe que ainda não pode regressar
ao emprego e a Segurança Social, depois de lhe fazer uma dúzia de perguntas, considera-o
apto para trabalhar e não lhe concede o subsídio de doença. Sem salário e com
os apoios públicos a minguarem a cada dia, rapidamente se vê forçado a vender
os poucos pertences que tem para conseguir sobreviver, ao mesmo tempo que
percorre uma enervante via-sacra nas repartições de um Estado dominado pela
desumanidade, frieza formal e rigidez legalista.
Álvaro
Cunhal, no ensaio A Arte, o Artista e a
Sociedade, recorda, a propósito do significado da obra de arte, uma frase
cortante do crítico Dobrolyubov. Para esse revolucionário russo do séc. XIX,
cuja prematuridade se traduziu em escritos poéticos aos treze anos e morte por
tuberculose aos vinte e cinco, a sentença era clara: o que um autor pretende
exprimir é muito menos importante do que aquilo que realmente exprime. Não é
nada fácil contestar esta ideia, seja em relação a artistas propriamente ditos,
a desculpas dadas às três da manhã com hálito a whisky e batom no colarinho da
camisa, ou a discursos contra a especulação imobiliária proferidos da varanda
de um prédio lisboeta reabilitado com o objectivo de gerar mais-valias
pantagruélicas. No entanto, para ser justo, devo dizer que, embora tenha dúvidas
sobre algumas análises ao filme de Ken Loach, não afirmo peremptoriamente que
aquilo que pretendeu exprimir seja diferente daquilo que realmente exprimiu.
Parece-me antes que estamos, usando uma comparação muito em voga, perante um Teste
de Rorschach: projectamos no ecrã as nossas convicções e por isso vemos na
história de Daniel Blake aquilo que queremos ver. O que não deixa de ser
irónico, dado que essa costuma ser a reacção do público perante uma obra
abstracta e o trabalho do realizador britânico é, supostamente, um marco do
realismo.
Conhecemos
bem, por nunca a ter escondido ou disfarçado, a sua ideologia fortemente
esquerdista. A estreia do filme em Londres contou, aliás, com a presença do
amigo e líder trabalhista Jeremy Corbyn, que logo o aproveitou para atacar as
políticas de direita do governo do partido conservador. A premissa para essa
investida é simples: Daniel Blake, bem como a sua companheira de infortúnio
Katie Morgan (que conheceu nos corredores da sinistra burocracia kafkiana que
nos é apresentada), são vítimas dos ataques “neoliberais” ao Welfare State protagonizados
pelos tories. De acordo com esta
visão o sistema foi, por razões economicistas, propositadamente ”afinado” para
complicar a vida dos cidadãos, até que estes, cansados e desmoralizados, se
afastam e desistem do suporte estatal. No entanto, e aqui regresso à mancha de
tinta de Hermann Rorschach, podemos olhar para o drama dos personagens através
de uma lente diferente, à qual podemos dar o nome, em jeito de homenagem, de
“lente de Herculano”. E tentar responder a uma pergunta muito simples: há neste
enredo macabro alguma sombra de liberdade, ou, pelo menos, de não intromissão
excessiva do Estado na vida dos cidadãos? Ou estamos, pelo contrário, a
assistir a uma actuação de “Estado-papá”, em que, por contrapartida de uma
“mesada” raquítica, vemos o funcionalismo a controlar ao milímetro a vida de
Katie e Blake, ao ponto de, por causa de um ligeiro atraso, castigarem a
primeira com a suspensão da dita “mesada”? Katie Morgan e Daniel Blake estão, de
facto, a ser esmagados pelos formalismos e idiossincrasias dos serviços
públicos, mas interessa perceber se tal não acontecerá por estarmos na presença
de uma quase relação absolutista “soberano-súbdito”, relação essa contra a qual
o liberalismo nasceu no século XVII.
E
esta é apenas a interpretação dominante do oposto ideológico de Ken Loach,
pois, numa análise à lupa, conseguimos encontrar no filme argumentos ao gosto
de todo o tipo de fregueses: o entusiasta do rigor prussiano pode achar
correcta e adequada a atitude intransigente da repartição (os dinheiros dos
contribuintes devem ser geridos sem contemplações sentimentais e a verdade é
que Blake, tendo passado o filme a andar de um lado para o outro e a fazer
biscates na sua casa e na casa de Katie, deu sempre a impressão de estar com
vontade e em condições de trabalhar); o libertário pode especular que, sem a
existência do Estado, Daniel Blake teria poupado o dinheiro que foi descontando
para a Segurança Social e não estaria agora com a própria vida nas mãos de
burocratas; e, acima de tudo, o “gajo de Alfama” encontrará mais uns quantos
motivos para afirmar que os funcionários públicos são uns madraços da pior
espécie e que só servem para fazer trinta por uma linha com o objectivo de
lixar o pessoal.
Em
resumo, Ana Avoila até pode ter pensado que gostou deste filme, mas talvez não
seja má ideia reflectir mais um bocado no assunto.
Sérgio
Barreto Costa
sbcosta13@gmail.com
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
Hum.
Lisboa está imunda e, diz
a Câmara, a culpa é do inusitado afluxo de turistas, que deixou desprevenida a
edilidade e os seus serviços de recolha de lixo. Vamos deixar por ora a questão
de saber se a CML não devia ter prevenido isto e, mais ainda, se não devia ter
atalhado isto a tempo, uma vez que a vinda dos turistas não começou este ano,
nem por sombras. Não houve tempo?! Ninguém previu?! Adiante. O que não se percebe é o seguinte: deixando
os senhores turistas, a qualquer hora do dia ou da noite, a qualquer dia da
semana, domingo incluído, sacos de lixo à porta dos alojamentos, sacos que
depois ficam ao sol e aos gatos & ratos durante dias inteiros, não seria de obrigar os
proprietários do alojamento local a ensinarem os seus hóspedes? E, em caso de
falha, não deveriam ser responsabilizados, ou os turistas ou os donos dos
alojamentos? Quantas coimas foram já aplicadas a proprietários de alojamentos
locais por colocação indevida de lixo na via pública? Hum.
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