quinta-feira, 11 de maio de 2023

São Cristóvão pela Europa (214).

 


Flobecq é uma comuna belga na Província de Hainault.

Se bem que pertencendo à Valónia e sendo francófona, situa-se na fronteira linguística entre o flamengo e o francês. É uma comuna “à facilités”, o que no jargão belga significa que o cidadão se pode exprimir perante a Administração numa língua nacional diferente daquela que é a oficial. No caso, a língua oficial é o francês mas pode utilizar-se o flamengo.

A igreja paroquial é dedicada a São Lucas mas possui muita iconografia de São Cristóvão:

 

 

No interior, uma imagem:

 




Um vitral representando o Santo:




E outro representando o seu martírio:



Numa aldeia da comuna, La Houppe, há uma Capela de São Cristóvão:

 



No interior, a respectiva imagem:




                                                                    Fotografias de 23 de Abril de 2023

 

                                                                     José Liberato


Um gigante da literatura visitou a URSS do deus Estaline e denunciou a fraude.

 


 


 

Nunca entendi como um documento histórico e documental como o que André Gide escreveu por ocasião da sua viagem à URSS, em 1936, jamais tenha conhecido tradução portuguesa. Posso perceber que o Estado Novo não consentiria que um dos maiores vultos da literatura contemporânea, alicerçado em ideologia anticapitalista, que tenha feito o elogio fúnebre de Máximo Gorki, em plena Praça Vermelha, perto de Estaline e outros consagrados da época, viesse dizer abertamente que guardava a esperança a despeito das monstruosidades que observara, algumas bem próxima das que podiam ser praticadas pelo regime de Adolfo Hitler. Teria sido o maior embaraço para a nossa despótica censura. Mas que em democracia tenha preciso chegarmos em 2023 para conhecer este primor da escrita e a tremenda denúncia deste espírito independente é para mim incompreensível. É urgente conhecer e guardar nas estantes Regresso da URSS, por André Gide, Publicações D. Quixote, 2023.

Antes de mais, o primor literário, temos aqui observações esplendentes do consagrado Prémio Nobel da Literatura de 1947. Oiçam só: “Garanto que há qualquer coisa de trágico na minha aventura soviética. Enquanto entusiasta convicto, fui para admirar um novo mundo, e ofereceram-me, para seduzir, todas as prerrogativas que eu detestava no antigo.” Dirá no prefácio que houvera da sua parte admiração e amor pela URSS. “Ali, ocorria uma experiência sem precedentes que nos enchia os corações de esperança, e da qual esperávamos um progresso imenso, um impulso capaz de arrastar toda a humanidade. Nos nossos corações e nos nossos espíritos, ligávamos decididamente o destino glorioso da URSS ao futuro da própria cultura.” Visitou, percorreu largos troços do país, assediado pela classe política e pelo aparelho do partido comunista, preferiu ir conversar com gente política, o que permitiu ditar a seguinte observação: “Ali existe o bom e o mau; direi mesmo: o excelente e o pior. O excelente foi obtido muitas vezes à custa de um enorme esforço. O esforço nem sempre obteve, em toda a parte, aquilo que pretendia obter. Pode por vezes pensar-se: ainda não. Por vezes, o pior acompanha em dobro o melhor. E passa-se do mais luminoso ao mais sombrio com uma brusquidão desconcertante. Acontece com frequência que o viajante, de acordo com convicções pré-estabelecidas, seja apenas sensível a um ou ao outro. Demasiadas vezes, os amigos da URSS recusam-se a fazer o mal, ou pelo menos a reconhecê-lo; de modo que, demasiadas vezes, a verdade sobre a URSS é dita com ódio, e a mentira com amor.”

Não esconde a alegria profunda que usufruiu no contacto direto, em acampamentos infantis ou estaleiros, por exemplo, afirma mesmo que em nenhum outro lugar contacto com quem quer que seja se estabelece de forma tão fácil. Observou as numerosas filas em que centenas de pessoas esperam pacientemente; constata a indolência de muitos, uma massificação sem gosto, móveis feios; e não esconde o seu completo desapontamento com a falta de liberdade de opinião, a fábrica de manipulação montada pelo comunismo: “Na URSS, é aceite à partida e uma vez por todas que, sobre qualquer questão, não pode haver mais do que uma opinião. Além disso, as pessoas têm uma mente tão condicionada que esse conformismo se torna fácil, natural, insensível, ao ponto de não parecer que haja qualquer hipocrisia nisso.” E refletindo sobre tantos padrões de falta de qualidade dirá que a felicidade dos operários russos é feita de esperança, confiança e ignorância. Mais adiante, dirá mesmo que o cidadão soviético vive numa extraordinária ignorância do estrangeiro. “Convenceram-no de que tudo no estrangeiro, em todos os domínios, corre muito pior do que na URSS. Esta ilusão é habilmente mantida, pois é importante que todos, por menos satisfeitos que estejam, se congratulem com o regime que os preservem dos piores males.”

Deu-lhe para perceber que estava à assistir à reconstituição de camadas da sociedade ou mesmo de classes, via-se à vista desarmada o aburguesamento, o espírito pequeno-burguês. E procurou observar as diferentes tiradas ou palavras de ordem, o uso inflacionado de contrarrevolucionário. “O menor protesto, a menor crítica está sujeita às piores penas.” E empregará uma frase que lhe merecerá pesadas críticas quando o livro foi publicado: “Duvido que em qualquer outro país, mesmo na Alemanha de Hitler, o espírito seja menos livre, mais limitado, mais receoso (aterrorizado), mais submissivo.”

Todo este discurso de André Gide irá pôr os comunistas franceses em rebuliço, como é que aquele gigante literário, convidado pelo deus Estaline a discursar sobre Máximo Gorki se atreveu a escrever: “A efígie de Estaline está em toda a parte, o seu nome em todas as bocas, e os louvores que lhe são feitos surgem também sem falta a todos os discursos. A duração, amor ou medo, não sei; sempre e em toda a parte ele está presente.” A receção do seu escrito foi alvo de um vendaval. Gide atrevera-se a fazer reparos, ao nível de um qualquer “contrarrevolucionário”: fizera críticas demolidoras à guerra antirreligiosa, ao condicionalismo férreo das mentalidades, a maus-tratos a trabalhadores agrícolas. Gide não perdeu tempo, respondeu aos insultos, apreciou algumas críticas de boa-fé, e para surpresa do leitor verificará que o genial escritor de Os Moedeiros Falsos estava altamente documentado, como se não tivesse viajado à procura de ver a esperança, e reponta com os moralistas que o criticam: “Uma análise superficial, um julgamento apressado, foi dito do meu livro. Como se não fosse precisamente a primeira impressão, na URSS, o que nos encantou! Como se não fosse ao olhar mais profundamente que encontrámos o pior. É no fundo do fruto que o bicho se esconde. Mas quando digo que esta maçã tem bicho, acusam-na de não ver claramente ou não gostar de maçãs. Se me tivesse contentado em admirar, não me teriam feita essa censura; e nesse caso, seria merecida.”

E rebate as acusações que lhe fazem, ponto por ponto, deita por terra as infantilidades dogmáticas, lembra que esse colosso do cinema que era Serguei Eisenstein foi obrigado a uma autocrítica idiota, teve que parar um novo filme por não estar de acordo com as exigências da doutrina; desmonta a propaganda de que estava a pôr termo ao analfabetismo, de que o operariado era altamente participante, todo um embuste, os sovietes já não funcionavam, e volta-se para os comunistas franceses para os acusar de não terem mentido aos operários.

Não se deve ler a primeira narrativa de Gide sem se ler a sua resposta aos críticos, a altíssima qualidade da sua escrinha não desfalece, desmonta as mentirolas sem humilhar os fanáticos.

Trata-se de um relato magistral na denuncia da monstruosidade do estalinismo. Gide foi à URSS atraído pelas questões sociais e não esconde a desilusão de ver a esperança tão maltratada.

De leitura obrigatória. 


Mário Beja Santos 





domingo, 7 de maio de 2023

São Cristóvão pela Europa (213).

 


 

A pequena aldeia de Hanzinelle situa-se na Bélgica, também na Província de Namur e no município de Florennes.

A igreja matriz, construída em 1899 com projecto do Arquitecto François Van Riel, é dedicada a São Cristóvão.

No exterior uma estátua:

 


No interior uma imagem do Santo:




 

Um altar:

 


E três pendões processionais:

 




 

                                                                    Fotografias de 21 de Abril de 2023

 

                                                                                                    José Liberato


quinta-feira, 4 de maio de 2023

São Cristóvão pela Europa (212).

 

 

Neste final do mês de Abril dei uma volta pela Bélgica, pela França e pela Holanda e não deixei de me interessar pelo nosso Santo.

Hun-sur-Meuse é uma aldeia nas margens do rio Meuse, pertencendo à Província de Namur na Bélgica.

Na aldeia, uma pequena capela é dedicada a São Cristóvão. Sucedendo a outras capelas foi inaugurada na actual forma em 1927.  Durante a II Guerra Mundial, em 1944, foi incendiada pelos alemães.

 



No exterior, uma estátua do Santo:

 


No interior uma imagem:

 


E uma série de vitrais inaugurados em 1953, contando a saga de São Cristóvão.

Ao serviço de um rei que tinha receio do diabo:

 


Ao serviço do demónio:

 

 

À procura do mais poderoso:

 

 

E a imagem tradicional do grande protector dos viajantes:

 


O martírio, quando as flechas não conseguem ferir o Santo:

 


Uma flecha desvia-se e atinge um olho do Rei que dirige o martírio:

 


Um capacete ao rubro colocado na cabeça do Santo como forma de o martirizar:

 

 

E finalmente é degolado:

 


 

                                                                        Fotografias de 21 de Abril de 2023

 

                                                                                                            José Liberato


quarta-feira, 3 de maio de 2023

A contagem decrescente do Estado Novo, de fevereiro a abril de 1974.

 





 

Os meses finais do chamado regime de Marcello Caetano foram dominados por acontecimentos imprevistos, uns, outros uma tentativa desesperada para comprar armas sofisticadas na quimera de que era possível manter uma guerra em três frentes, num quadro de solidão internacional, e num país sem dinheiro e com graves carências de oficiais. O ensaio Rumo à Revolução, de José Matos e Zélia Oliveira, Guerra e Paz Editores, 2023, alicerçado numa grande consulta de documentos e arquivos nacionais e estrangeiros, revela o que de fundamental aconteceu nos meses que precederam à queda da ditadura num só dia. Trata-se de uma narrativa que irá seguramente enfurecer aqueles que insistem que a guerra colonial tinha sustentabilidade, os recursos não faltavam, para eles a hecatombe foi a falta de vontade em combater, e por tal “crime” se desmoronou o Império. Num país em que ainda impera o culto do sebastianismo, tais nostálgicos não serão desarmados pela verdade dos factos, bem evidentes neste primoroso ensaio.

No essencial, vamos ver aqui abordados: o que de decisivo representou a publicação do livro de Spínola; a busca de armas, sobretudo contando com a gratidão dos EUA pela cedência das Lajes após a guerra dos 6 dias, que trouxe consequências nefastas também para a economia portuguesa; as alterações que se tinham registado em Moçambique, o eterno problema da Guiné, a movimentação dos capitães; as consequências da demissão de Costa Gomes e de Spínola; e, como depois da abortada revolta nas Caldas, um golpe fulminante fez baquear um regime que durara décadas e que parecia não ter fim.

Estamos em 15 de fevereiro de 1974, Marcello Caetano preside, sem saber, à última reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional. O general Costa Gomes informa os presentes de que tinha sido assinado um contrato para a aquisição de uma bateria de mísseis antiaéreos e de que se procurava rapidamente adquirir armas anticarro para enfrentar as viaturas blindadas que se dizia estarem na posse do PAIGC. O chefe do Governo referiu as grandes dificuldades em comprar armas nos mercados internacionais, era o que se estava a passar com os mísseis antiaéreos franceses Crotale. Costa Gomes retoma a palavra para salientar a degradação da situação interna em Moçambique, nesta frente militar faltavam helicópteros e caças, o secretário-de-Estado da Aeronáutica referiu igualmente as dificuldades da sua aquisição e, mais adiante, chamou a atenção para a necessidade para prosseguir com o reequipamento da Força Aérea, pendiam graves ameaças na Guiné e Angola. Dias depois, Caetano irá ler o livro de Spínola, compreendeu que era agora inevitável o golpe de Estado. Os autores espraiam-se sobre o pensamento daquele que irá ser o presidente da Junta de Salvação Nacional, uma quase comédia de enganos de quem autorizou a publicação do livro. Caetano chama os dois generais enquanto os capitães conspiram, temos aqui uma súmula dos acontecimentos que vão espoletar o descontentamento corporativo com a legislação do ministro Sá Viana Rebelo numa tentativa de suprir a escassez de oficiais. Caetano está demissionário, Thomaz não aceita, começa um período da fuga para a frente, desde o seu discurso na Assembleia Nacional até à remodelação ministerial.

É bem interessante a exposição que os autores fazem sobre a esperança em que os EUA fornecessem armas capazes de contrabalançar equipamento superior de guerrilha, Kissinger, que viera a Lisboa agradecer em 17 de setembro de 1973 o auxílio prestado pelo Governo de Caetano, deixará claro de que o Congresso nunca permitiria a cedência às claras daquele armamento, dava como contrapartida o fornecimento e instalação de uma central nuclear, bolsas de estudo, fornecimento de cereais e colaboração técnica e financeira na prospeção de energia geotérmica nos Açores. E avivam-se as dificuldades em Moçambique e na Guiné, a África do Sul compromete-se a fazer um empréstimo de seis milhões de contos, o que daria para cobrir grande parte das necessidades portuguesas no campo do armamento, isto enquanto o PAIGC fez a sua declaração unilateral de independência com o imediato reconhecimento de muitas dezenas de países.

É o momento azado de se fazer a descrição do nascimento do MFA, isto enquanto Caetano discursa na Assembleia Nacional, começaram as transferências compulsivas de militares, inequivocamente críticos do Governo, este é remodelado, introduzindo-se uma nova orgânica, Luz Cunha substitui Costa Gomes, segue-se a precipitação da chamada revolta das Caldas, o Governo parece aliviado e anuncia que há normalidade em todo o território. Escreveu-se no Avante! que “o Governo e o regime não cairão por si próprios nem tão pouco por ação de umas dezenas de oficiais do exército, mesmo que corajosos e patriotas. A sublevação no 16 de março mostra-o mais uma vez”. Não deixa de ser curioso o que se passa na noite de 24 de abril de 1974 durante um jantar em Bona como elementos do Partido Social Democrata Alemão em que o ministro das Finanças disse a Mário Soares que a ditadura portuguesa estava para durar, Mário Soares não conseguiu convencer o seu interlocutor que o fim do regime português estava para breve.

O cônsul português em Milão recebe instruções para ir a Londres, num quadro de total secretismo para falar com o representante da guerrilha do PAIGC, propunha-se denunciar uma possível independência para a colónia portuguesa, reunião inconclusiva, fica prevista uma outra para meses depois, dá-se o 25 de Abril. A 28 de março, Caetano profere a sua “conversa em família”, deixa claro que se mantém intransigente, a guerra prosseguirá.

A súmula dos acontecimentos do golpe de 25 de Abril, pelo seu rigor e frescura narrativa, revela-se um dos mais belos textos sobre a organização do golpe, num contexto que alguns ainda acreditavam ser de completa normalidade: 23 de abril reúne pela última vez o Conselho de Ministros, Caetano é a máscara do cansaço físico e psicológico, há jantares e encontros entre os homens do Estado na noite de 24, temos o desenrolar dessa noite, tudo culminará com a tomada da PIDE/DGS, no amanhecer de 26, isto enquanto Spínola dá a primeira conferência de imprensa na Pontinha:

“Ao contrário do que seria de esperar, os arquivos da polícia política que continham milhões de fichas foram encontrados aparentemente intactos. Nas mesas de alguns agentes encontraram algumas revistas Playboy e Penthouse. No gabinete de Silva Pais permaneciam três quadros fixos na parede com as imagens de Américo Thomaz, Marcello Caetano e Salazar. São dadas ordens para os retirar e Silva Pais prontifica-se para tal, mas o de Salazar era mais difícil por estar mais alto. Diz-se que alguém foi então buscar um escadote e o retrato de Salazar também foi removido. O fim do regime estava consumado.”

Uma narrativa de grande fôlego a não perder.

  

                                                                                Mário Beja Santos





quinta-feira, 27 de abril de 2023

Não há, na literatura portuguesa e lusófona, uma joia literária como esta.

 

 



 

“Aqui estamos em frente da Torre, meus senhores, peço que se descubram e ao mesmo tempo um minuto de silêncio pela alminha dos Senhores que lá estão.

Esta Torre já não se sabe de quantos séculos podemos datá-la, mas é certo é que Dom Raymundo Barbela – crê-se que tenha sido o primeiro da família da Torre – saiu destas bandas para ajudar com os seus homens as cargas de Dom Afonso Henriques, seu primeiro do coleteral. As pedras são todas da prumitiba, mesmo lá perto da torreta podemos ainda ler as inscrições latinas que rezam a sepultura de Dom Martim, morto de adigestão quando de uma lampreiada para festejas as vitórias do primo. Tem a Torre trinta e dois metros de altura, é a máor da península e os degraus contam-se em oitenta e nove, com patamares de descanso. A vista lá de cima é grandiosa”.

Sim, nem antes nem depois desta aventura literária de Rúben A. se foi tão longe a falar de um Portugal feérico, mitológico, façanhudo. Há um guia que apresenta os visitantes as memórias de um Portugal inventado, e momentos há em que se pode supor que estamos perante romance do fantástico, com incursões pelo sobrenatural, mas recomenda-se leitura cuidada, porque este romance escrito em plena década de 1960 é uma xácara habilidosa para caricaturar o nacionalismo bacoco, Rúben A. tratou com pinças esta visita ao alto daquela Torre, “outrora de menagem, estendia-se um país inteiro, ceiva virgem de uma nação. Toda a História se abria com a paisagem.” Em plena pandemia, a Coleção Miniatura de Livros do Brasil fez reaparecer uma das obras-primas da literatura portuguesa e lusófona, A Torre de Barbela, em boa hora o fez, tem preço acessível, é obra para ficar nas nossas estantes, leitura a retomar quando se impõe repensar o Portugal do Quinto Império, das bravuras mil, das extraordinárias peregrinações, nação mirífica e imortal. Porque os que vivem na Torre levam às centenas de anos uma boa convivência, tudo na margem esquerda do rio Lima, a Ribeira Lima, após o horário da visita com aquele guia estrondoso, os antigos Barbelas, vindo de oito séculos diferentes, ressuscitam e habitam os seus arredores, é uma azáfama de amores e ardores, coscuvilhices e êxtases, naquele espaço minhoto, onde se vai falar da Moutosa, a Vila de Serzedelo, Viana do Castelo, a Serra de Arga, o Jardim dos Buxos, e do que pelo adiante se dirá, esses Barbelas, têm muito para contar:

“Quando a linha do horizonte baixava em intensidade e os fumos azulados batiam a favor do vento e do andar das coisas, naquela dimensão abrupta que testemunhava o acender das constelações, os Barbelas realizavam-se vindos do sonho e da fantasia para os reais domínios da Torre. De noite, ressuscitavam e, de companhia, traziam os amores e os ódios de outras eras e de outras sensibilidades, os dramas pessoais e a contagem de fábulas capazes de entrarem pelas ruelas aveludadas dos vizinhos de Serzedelo e de Vitorino das Donas. Aquele ressuscitar transfigurava a Torre. A procissão saía a pé ante pé dos túmulos de pedra, dos sarcófagos egípcios – trazidos por Dom Payo da Barbela quando das suas incursões por terras do Prestes João – e também da vala comum surgiam ainda os apátridas, filhos ilegítimos, frades, freiras, e os que remotamente pertenciam à venerável espérmia da Torre.” Entraram em cena o Menino Sancho, Dona Urraca, o Cavaleiro e o seu garrano Vilancete, Dona Mafalda Madeleine de Barbelat (esta terá papel crucial num desfecho trágico que nem vos conto), percorre-se toda a História de Portugal e a sua épica, e chega o momento de apresentar a grandeza do lugar:

“O Solar da Barbela data precisamente do século XVI, quando os Barbelas em protesto contra os anos de cativeiro espanhol resolveram abandonar a capital do Reino e regressar às terras. Nessa época, os Barbelas voltaram à vida rural e nada mais encontraram da propriedade do que a Torre e o terreiro ao lado, com algumas habitações toscas. O oiro das especiarias e o comando das esquadras da Índia tinham levado os braços disponíveis nas redondezas. Quando Dom Sebastião desapareceu na sua fatal correria de Alcácer, além de arrastar muitos Barbelas consigo, deu também um ar desolador à pátria. Os fumos da Índia e as espumas de África trouxeram consigo a desolação, sem que para isso fossem bastantes as façanhas dos fidalgos de Entre Douro e Minho.” Os Barbelas até tiveram santos, como São Cyro, é o comandante espiritual da Torre. Há paixões escondidas, dignas de Tristão e Isolda, como o Cavaleiro e Madeleine, há visitas dos Barbelas à Beringela, que têm um fumeiro muito especial, logo as enguias. E ao longo destas centenas de páginas vamos convivendo com os Barbelas, há gente que até lembra o Eça de Queiroz, como o Dr. Mirinho, que ninguém se iluda, a Torre de Rúben A. é o miraculoso país do passado, onde se celebram centenários, onde há bruxas apaixonadas, como aquela que vive em São Semedo, Madeleine é ligação à França, convém não esquecer os caixotes de Paris e a literatura que nos afogueou, antes e depois com a monarquia constitucional. Espantosa arquitetura da escrita, onde não falta o bobo italiano, passeios de burro, igrejas como não há no outro Portugal. Veja-se só: “A única igreja no Norte de Portugal que se pode comparar vagamente com a da Moutosa é a da Montaria, no caminho de Orbacém para São João de Arga. Mas é melhor não comparar. O curioso distinguirá imediatamente uma qualidade única em São Lourenço. Possui, como só a Torre de Belém, uma proporção de medidas que equilibra o pensamento ao primeiro relance. Olhando-se em frente fica-se à procura do desnível e do imperfeito. O talho de pedra granítica, com os santos padroeiros das principais freguesias da Ribeira Lima empunhando uma escada para subirem mais facilmente ao Céu, transmite uma doçura de penetração que envolve até o menos crente.”

Não esqueça o leitor de acompanhar a trama amorosa do Cavaleiro por Madeleine, tudo isto num lugar soberbo, de nome a Fontinha, que “fora desde tempos idos o ponto de partida dos Barbelas para as viagens de aquém e além-mar. Daquele estreito molho de granito e terra batida, sombreado pelas ramagens quentes de salgueiros e choupos, as bateiras saíam em direção a Viana, donde os barcos de maior calado levavam a família aos mais diversos destinos do mundo.”

Não se fala aqui só do Portugal maravilhoso, há histórias de assombrar, é o caso do Grande Nevoeiro, uma das diabruras mais imprevistas do destino. “De Barcelos ao Lindoso, dos contrafortes do Gerês até às terras raianas do rio Minho, e descendo pela linha das costa, montes e vales ficaram cobertos de um misto de nevoeiro e neve que transformou o sentido do voo das aves e deu aos homens uma atitude meio religiosa meio borguista que perdurou pelos tempos.”

Porventura por sermos descentes dos Barbelas, é imperativo dever nosso conhecer de fio a pavio toda esta saga genialmente redigida por Rúben A. Está aqui o nosso retrato, caso não esteja muito iludido: “Falavam, falavam, conversando fiado por tempos sem conta, discutiam, assentavam decisões e conversas, e ao fim encaminhavam-se ao natural de nada se ter passado. Enfim, o que havia era, bem ou mal, a prata da casa. Aquela prata que se apresentava nas grandes ocasiões de cerimónia e onde se comia a malga do caldo-verde e o naco de broa acompanhado de uma lasca de bacalhau cru ou de uma rodela de enchido de porco. Um destino embebido de fatalismo, uma espécie de não-te rales. O resto não os preocupava em profundidade.”

Nem vale a pena insistir que estamos perante um livro de leitura obrigatória.


                                                                                            Mário Beja Santos




quarta-feira, 26 de abril de 2023

São Cristóvão pela Europa (211).

 


 

Não tinha ainda tido ocasião de pesquisar imagens do nosso Santo na cidade de Évora.

Foi o que fiz há poucos dias com bons resultados.

No Museu de Évora existe um quadro, representando São Cristóvão, do pintor conhecido como Frei Carlos. Falecido cerca de 1540, Frei Carlos era natural de Lisboa mas tinha ascendência flamenga. Professou como frade jerónimo no Convento do Espinheiro em Évora onde organizou uma escola de pintura.  O quadro é um óleo pintado sobre madeira de carvalho e deve ter sido realizado por volta de 1530.

 


Na Igreja de São Tiago, construída no Século XIV mas objecto de profunda reformulação nos Séculos XVI e XVII quando foi profusamente revestida por frescos que misturam de forma curiosa motivos sagrados e profanos. Um dos frescos representa São Cristóvão:

  




Finalmente as Casas Pintadas, anexas ao actual Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida, antigo Palácio da Inquisição, devem o seu nome a um notável conjunto de frescos que decoram uma galeria e um oratório, nos jardins do Centro de Arte.

Estas casas pertenciam a D. Francisco da Silveira, Coudel-Mor dos reis D. Manuel I e D. João III e foram anexadas ao Palácio da Inquisição no final do Século XVI.

Nos frescos, a imagem de São Cristóvão:





                                                    Fotografias de 18 de Abril de 2023.

 

                                                                                       José Liberato


domingo, 23 de abril de 2023

Desnudar a perversidade da invasão do Iraque? Foi o que fez John le Carré numa das suas obras-primas.

 




Em 2002, John le Carré manifestou-se publicamente contra a invasão do Iraque perpetrada pela Administração Bush e aliados, escreveu, andou em manifestações, deu entrevistas. E em 2003 publicou (título em português) Amigos até ao Fim, que Publicações D. Quixote acaba de reeditar, esta obra-prima literária é de leitura oportuna neste mundo de mentiras, em que estamos vergados a vendilhões do jornalismo. A arquitetura do romance é extraordinária, anda à volta da história de dois amigos, Ted Mundy, filho expatriado de um oficial do Exército britânico, mobilizado para o Paquistão, e Sacha, um radical alemão, pequenote, claudicante, mas com uma mente brilhante e um entusiasmo inquebrantável. O destino pô-los juntos em Berlim nos anos 1960, ambos anarquistas e com vivência comunitária. A narrativa mistura tempos e lugares, iremos percorrer a carreira de Ted, desde espião camuflado ao serviço ao British Council até guia turístico num castelo de Luís da Baviera, Linderhof; depois de Berlim, Sacha desapareceu da cena e reencontram-se agora, dez anos depois, numa receção num país da Europa de Leste; Sacha, para estupefação de Ted, é agora funcionário da RDA e propõe a Ted uma operação de espionagem: passar segredos de Estado para o Ocidente, apoiando-se nas tarefas que ele exerce no Birtish Council. Andamos numa corrediça entre o passado e o presente, Ted, depois de tanta vicissitude, parece ter encontrado o seu ninho de amor com uma turca, fartou-se de aventuras, a Guerra Fria acabou como o seu casamento com Kate culminou num desastre.

E John le Carré, dentro deste bordado que se irá transformar numa teia de aranha, afasta-os, estamos agora centrados em Ted Mundy, dentro da tal narrativa de feedback, faz jornalismo e biscata, e depois encontra trabalho no British, vem casamento e filho. Quando tudo parece sedimentar-se e o fogo da juventude ficar para trás, dá-se o assombroso reencontro com Sasha, passara de anarquista a marxista-leninista, mas estava agora dececionado, interessa-se em trair, é preciso que a mentira comunista se desmorone. John le Carré faz sair da cartola um autocarro psicadélico com um grupo de teatro que serve às mil maravilhas para que, a pretexto do teatro de Shakespeare, Sasha lhe entregue os tais segredos de Estado, tão importantes que os Serviços Secretos Britânicos os repartirem com os Primos, ou seja, a CIA. Esta irá entrar em campo, a seu tempo, e com uma perversidade devastadora.

Dentro desta arquitetura da escrita de altos e baixos, vemos o desmoronamento do Muro de Berlim, o impensável acontece, vem aí a reunificação. A vida familiar de Ted estiolou após o divórcio, a Guerra Fria já não precisa dele. E Sasha surge de novo. Ted tivera um instituto de línguas em Heidelberg, um sócio especializado em gestão danosa levou o negócio à ruína. Sasha irá surgir naquele universo ameaçador em que eramos regidos por uma superpotência unipolar, vem inflamado, é indispensável mudar tudo, encontrou patrono, o impalpável Dimitri, para financiar uma academia que será um altifalante de alternativa ao capitalismo. É nesse contexto, que será desencadeada a invasão do Iraque e montada uma operação que pretende mostrar ao mundo que o radicalismo satânico de Saddam Hussein tem antenas perigosíssimas no mundo ocidental.

As derradeiras páginas desta obra-prima oscilam entre solilóquios premonitórios, Ted apercebe-se que foi atraído para uma cilada, vagueia à volta da escola, anda confuso, os Serviços Secretos britânicos deram-lhe passaportes para ele e Sasha, urge que eles desapareçam, fora montada uma trama ignóbil. E rebentam explosões, os amigos reencontram-se, foram vítimas de uma operação da CIA, mas são demonstradamente amigos até ao fim.

O cinismo, o maquiavelismo de todo este ardil, fica para o fim, como o autor relata:

“O círculo de Heidelberg, como se tornou imediatamente conhecido nos media de todo o mundo, desencadeou ondas de choque através das cortes da Velha Europa e de Washington e foi um sinal claro para todos os críticos da política americana de imperialismo democrático-conservador.

Durante cinco dias inteiros a imprensa e a televisão foram obrigadas a respeitar qualquer coisa de parecido com um silêncio estupefacto. Havia manchetes sensacionais, mas não havia notícias substanciais, pela boa razão de que as forças de segurança tinham agido dentro de uma espécie de estúdio cinematográfico vedado a estranhos.

Um setor inteiro da cidade tinha sido isolado e os seus habitantes, perplexos, tinham sido evacuados para hotéis equipados com pessoal especializado e sem poderem comunicar com ninguém durante a operação.

Nenhum fotógrafo, nenhum repórter dos jornais ou das televisões tinha tido acesso à cena do assalto até que as autoridades tivessem a certeza de que os mínimos vestígios de potencial de espionagem tivessem sido todos retirados para análise”.

Amigos até ao Fim é a denúncia de um mundo onde se instalou a não-verdade, onde é possível estarmos permanentemente a ingurgitar falsidades, ou ficarmos em estado de dúvida, é a manipulação sórdida dos noticiários onde as centrais de intoxicação debitam, hora a hora, as “verdades” que interessam. Porque aquilo que foi a espionagem é hoje um expediente de envenenamento dos espíritos, tornando derrisório o primado da liberdade de pensamento, que aqueles dois amigos até ao fim teimavam em defender, a despeito de muita utopia nos amanhãs que cantam.

John le Carré já era universalmente conhecido desde que escrevera O Espião Que Veio do Frio e um conjunto de obras que passaram ao cinema e à televisão, valorizadas pela genialidade do ator Alec Guinness.

Quando a Guerra Fria acabou, le Carré fez mudança de agulha, observou à sua volta aquele mundo que se compunha e decompunha, com exércitos privados, uma indústria farmacêutica ignóbil, milionários inescrupulosos na venda de armas, o acirramento de conflitos regionais. E mostrou, se dúvidas subsistissem, que era um dos magníficos operadores da escrita à escala mundial. Não sei se Amigos até ao Fim, mas, não posso, a pensar nesta infeção das fake news convido o leitor a embrenhar-se nesta obra-prima, é mesmo de leitura obrigatória. 


                                                                        Mário Beja Santos