segunda-feira, 22 de julho de 2013

Lancelote Miguel Rodrigues.

 
 
 
 
 
 
 
 
Father Lancelote Miguel Rodrigues, priest of Macau’s refugees, died on June 17th, aged 89
Among the crowds of thin, anxious people, you could spot him in an instant. Dark, burly, bespectacled, in his white vestments, he would clamber on a sampan to embrace an old man, or crouch to watch children making fireworks. You could hear him, too, bellowing in several languages—Cantonese, Malay, soy-flavoured Portuguese—or singing loudly and sweetly to his guitar, while his audience danced. For the thousands of refugees who passed from the 1940s through the island of Macau, just across the Pearl river from Hong Kong, Father Lancelote Rodrigues was the self-appointed bringer of happiness and, as important, the gatekeeper to a new life.
Those refugees came in several waves. The 1940s brought Shanghai Portuguese, many of them bankers or company bosses, fleeing Mao Zedong’s Red Army. More came during China’s Cultural Revolution of the 1960s, when Chinese soldiers too descended briefly on Macau, plastering their slogans on the walls. In the 1970s and 1980s thousands of Vietnamese boat people arrived on their rickety, overloaded craft; in the 1990s crowds of East Timorese sought refuge from the Indonesian army. All of these encountered Father Lancelote, greyer with the years but not a whit less frisky or influential, and just as prone to take out his guitar and start strumming.
His broad smile summed up the tolerance of Macau, a place to which, when trouble flared anywhere in East Asia, anyone could come. For centuries Portuguese and Chinese had lived crammed together there, Christ beside Confucius, pretty baroque churches among more than 200 Chinese gambling dens in which Father Lancelote, too, liked to have a flutter or two. When, in the 1960s, neon-lit Western-style casinos began to rise on every side, Father Lancelote welcomed those too for the jobs and wealth they brought in. Moralising was not in his nature; after all, he grinned, he had most of the vices himself. The blood that flowed in his veins was Portuguese-Irish from his father and Malay-Dutch from his mother, an easy blend of old colonial powers, with a strong admixture as the years went on of finest vinho verde and Johnny Walker Black Label.
His work with refugees started officially in 1948 and never really ended. When he began he was not an ordained priest, just a young man, originally from Malacca, who had spent 13 years in St Joseph’s seminary furtively smoking, pining for girls and suffering Jesuit discipline. He wanted to give it up, but working with the Shanghai refugees changed his mind. These people, once wealthy but now with nothing, were mostly housed in the Canidrome, a decaying greyhound-racing stadium, sometimes in the dogs’ own kennels. Comforting them convinced Lancelote that if he was to be sufficiently loving and useful, he should be a priest. And so a priest he became.
Curry with paella
Over the years, working with one agency after another—but principally for the Catholic Relief Services based in Hong Kong—he found the refugees food, shelter and money. He got them jobs, often on the building sites for Macau’s new hotels and casinos. And whenever he could he secured them new, permanent lives in Europe, Australia, Canada or the United States. More than 2,000 Portuguese Chinese and more than 8,400 boat people were resettled abroad through his efforts.
The work was not easy with these penniless, paperless wanderers, and he was not a financier or a bureaucrat. But he had a better way to get the funds and forms he needed: an immense network of friends and contacts whose help he would solicit over lunches of grilled prawns, fish curry, paella and “Scottish water”. Good food, drink and conversation never failed, he found, to bring the money in.
North Americans were his particular target. Between 1952 and 1967 he received help worth $90m from the United States. In exchange he fed them information about Communist China, shrugging off rumours that he was a CIA man, though he was quite happy, as Sir Lancelote da garrafa redonda, to give any CIA agent a seat and a drink at his convivial table. Anyone was welcome who would help his cause. One young man from Montreal, sent to Macau to give Canadian visas to boat people, found himself plied with cognac at 11 in the morning to issue more visas faster.
As a tireless ambassador of happiness, only two things made him sad. One was that the resettled refugees from China had not done more, as time passed, to forge links from their new countries to their old one. After 1985 he had worked in mainland China as a missionary, putting up clinics and schools and helping AIDS victims; it was important to build bridges with the place, especially since Macau, like Hong Kong, had become an official part of it, its offshore palace of forbidden pleasures.
His second regret was how, over the years, Mammon had eclipsed God in Macau, and the Portuguese-speaking congregation at his church of Santo António had grown ever sparser and older. He remembered different times, when the streets came alive with candles on the feast of St John in midsummer. But he was one of a dwindling breed: colonial Macanese, for whom creed, race and colour never mattered, but whose hearts and doors were open to whomever fate blew their way.
 
The Economist. Aqui
 
 
 
 

domingo, 21 de julho de 2013

Crónica do Cairo.







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Começámos a falar sobre política dentro da igreja com o agente da polícia que guardava o templo. Esta conversa decorreu entre mim, o padre e o polícia.

Falámos sobre a grande traição dos líderes da Irmandade Muçulmana e o que eles fizeram durante a revolução de 25 de Janeiro em 2011: contactar membros do Hamash para coordenar a sua entrada no Egipto e fazer fugir os prisioneiros islamistas da prisão. Na altura, ninguém se apercebeu deste facto, pois todos estavam mais ocupados com os acontecimentos e as reivindicações da revolução de 25 de Janeiro, cuja prioridade era a demissão de Mubarak.

A estratégia da Irmandade Muçulmana depois da demissão de Mubarak consistia sempre em ameaçar o Conselho das Forças Armadas. Isto começou desde a sua exigência para alterar a Constituição, para que pudessem fazer uma Constituição à medida dos seus interesses até Morsi ganhar as eleições presidenciais.

Lembro-me muito bem do dia em que se anunciou o resultado final das eleições presidenciais. Foi um dia de terror. No caso de Morsi perder as eleições, havia a expectativa de que todo o Egipto ficaria em ruínas. Todos os funcionários saíram do trabalho ao meio-dia. Ninguém estava na rua na hora do anúncio dos resultados, excepto os manifestantes da Praça Tahrir, que são membros ou apoiantes da Irmandade Muçulmana. Mal foi anunciado o resultado, toda a gente ficou contente e saiu para a rua para festejar a vitória de Morsi, incluindo os revolucionários, pois o outro candidato era uma figura cimeira do antigo regime e durante a campanha dissera que o seu modelo era Mubarak. Os revolucionários escolheram o menos mau…

Antes do dia 30 de Junho, costumava assistir à manifestação em frente do Ministério da Cultura porque fora indigitado um novo ministro islamista para essa pasta. Era uma manifestação da elite egípcia: todas as pessoas ligadas à cultura, actrizes, realizadores, escritores, artistas plásticos. O ministro não conseguiu entrar no Ministério e foi obrigado a trabalhar a partir de outro lugar. O slogan de que mais gostei era «Morsi, Morsi, acorda, 30 de Junho é o teu último dia!». Havia sempre concertos de todos os tipos durante a noite, os jovens costumavam ficar ao lado da estrada a mostrar a propaganda da campanha rebelde aos que passavam de carro. De vez em quando, um carro parava para assinar o documento dos rebeldes. Os manifestantes cantavam o hino nacional e canções patrióticas com grande entusiasmo.

Adorei esta manifestação por uma razão muito simples: a Embaixada de Portugal fica do outro lado do Ministério da Cultura. Era fascinante ver a bandeira de Portugal acima destas manifestações. Adorava olhar para a bandeira portuguesa para cima e tive vontade de declarar aos manifestantes que o povo português apoiava a manifestação. Até tive a ideia de cantar o fado…

Antes do dia 30 de Junho fui para a casa assistir às notícias e debates pela televisão. Tinha a convicção de que não só iria ocorrer a queda do regime do Morsi mas também o fim da Irmandade Muçulmana no Egipto e no mundo árabe. Devo confessar que não era entusiasta desta revolução, como todos os egípcios, porque, para mim, o Egipto já não é verdadeiramente o meu país.

  Como referi atrás, a estratégia da Irmandade Muçulmana e dos seus apoiantes consistia sempre em ameaçar todos. A Irmandade Muçulmana fez uma aliança com antigos terroristas. Até se costumava dizer que Morsi era o patrocinador do terror no Egipto. Conseguiram todos os seus meios graças ao Conselho das  Forças Armadada. Voltaram a usar a mesma estratégia antes do dia 30 de Junho, mas, felizmente, não conseguiram aterrorizar o povo egípcio porque o povo egípcio não teme ninguém e não aceita que o ameacem. Todos os apoiantes de Morsi disseram que o Egipto iria ficar em ruínas se Morsi se demitisse do poder e que nunca iria haver estabilidade política no país. 

Chegou o dia 30 e houve a maior manifestação de sempre na história do Egipto. Todas as praças  e ruas do Egipto estavam cheias, e não apenas a Praça Tahrir. Uma avenida muito grande em frente do palácio presidencial no Cairo ficou completamente cheia. Esta avenida é como a Avenida da Liberdade, em Lisboa. Ninguém esperava que esta grande massa de pessoas saísse para a rua, nem sequer as forças da oposição que convocaram a manifestação. As Forças armadas fizeram tudo para proteger as manifestações.

No dia seguinte, surgiu a declaração das Forças Armadas convocando todas as forças políticas para se sentar à mesa e discutir os problemas e deram 48 horas para que isso acontecesse. A oposição não aceitou qualquer solução que não fosse a demissão do Morsi, pois perderam toda a confiança nele e no seu regime.  

Toda a gente ficou extremamente feliz com esta declaração das Forças Armadas e saiu para a rua para festejá-la. No dia seguinte, Morsi fez um discurso horrível para o país, em que repetiu a palavra «legitimidade» 42 vezes. Disse que estava pronto a sacrificar a sua vida para poder proteger essa legitimidade. No dia seguinte, o Conselho das Forças Armadas convocou todas as forças políticas: a oposição, que nomeou Mohamed el Baradei, o Partido Salafista, o xeque de al Azhar, os jovens que fizeram a campanha rebelde e também a Irmandade Muçulmana, que rejeitou o convite . Passaram as 48 horas e toda a gente estava à espera de ouvir uma declaração. Passaram mais horas e a reunião não terminava. Num encontro na Casa da União Patriótica  (El Sessy) o Ministro da Defesa fez o seu histórico discurso, anunciando a suspensão da Constituição e a indigitação do Presidente do Tribunal Constitucional  como Presidente temporário.

Houve uma alegria imensa nas ruas do Egipto. No momento em que o ministro estava a proferir o discurso, foi ordenado o encerramento dos canais islamistas, que ameaçavam matar e usar da violência no caso de deposição de Morsi. Fui para a rua e vi como os jovens e muitas outras pessoas festejaram a queda do regime da Irmandade Muçulmana.  

         Os egípcios ficaram felizes, mas também os povos dos países do Golfo, pois havia um grande conflito entre a Irmandade Muçulmana e esses países, com excepção do Qatar. As grandes figuras da Irmandade Muçulmana costumavam insultar os povos destes países, além de existir uma forte oposição da Irmandade Muçulmana às monarquias dos países do Golfo. Toda a gente no Egipto e nos países de Golfo sentiu que o Egipto regressara às mãos dos egípcios.

Devo reconhecer que as Forças Armadas tiveram grande interesse em depor Morsi, pois ele e a Irmandade Muçulmana eram uma grande ameaça para a segurança nacional. Os militares só precisaram que saíssem para a rua muitas pessoas e isso acabou por acontecer. Saíram milhões de egípcios, quer pessoas interessadas na política, quer pessoas comuns que sofreram imenso durante o ano de Morsi por haver muitas problemas em tudo: no gás, na electricidade, na água e na economia, além de Morsi destruir imenso a imagem do Egipto no exterior.

Lembro-me de falar com um reformado num café sobre o Presidente do Egipto. Disse que o Egipto não pode ser governado por um civil e que as pessoas um dia irão beijar as mãos das Forças Armadas para que estas governem o país. Foi isto que aconteceu. Agora toda a gente está à espera de um novo Presidente, mas primeiro irão ser estabelecidas regras para a instauração da democracia, que começam por uma Constituição, eleições parlamentares e depois eleições presidenciais. O reformado afirmou ainda que irá aparecer, na altura certa, uma pessoa que é ou foi das Forças Armadas. Na história recente, o Egipto foi governado por três pessoas que pertenciam às Forças Armadas. Isto ao longo de 60 anos, menos o ano de Morsi, que foi o pior ano de sempre, um ano de pesadelo para os egípcios. A experiência de Irmandade Muçulmana foi um mal inevitável. Ainda bem que ocorreu naquela altura, e não agora depois. Toda a gente se apercebeu das intenções da Irmandade Muçulmana e de como eles usaram a religião para atrair imensas pessoas.

Devo dizer que há grande esperança e que tudo vai correr bem. A esperança vem do entusiasmo e a sinceridade dos jovens que fizeram as duas revoluções.

 
Samir H.



sábado, 20 de julho de 2013

Moçambique: notas de campo (15).





Fotografia de Sean Sheridan, aqui




Foi raptado mais um empresário em Maputo, prática que vem sofisticando a natureza do crime em Moçambique. A novidade dos últimos dias foi a de a vítima ter sido um empresário português branco. Talvez não seja por acaso que, até agora, o grupo mais vulnerável a tal prática tenha sido o dos islâmicos de origem asiática. Veremos o que ocorrerá, de agora em diante, com a minoria portuguesa branca em Moçambique, sociedade em que certas modas pegam depressa, como os próprios raptos. Talvez também não seja por acaso que a vulnerabilidade possa pairar longe de empresários chineses ou da elite empresarial negra moçambicana, ainda que também estes não estejam absolutamente imunes aos raptos. Mas o nível de incidência comparativa entre diferentes segmentos ético-raciais terá certamente razões explicativas. Ignorar este dado significa obliterar uma peça importante na compreensão do assunto. Avento, por isso, a hipótese de poder existir, nas lógicas do fenómeno dos raptos em Moçambique, alguma associação com as atitudes políticas dos que controlam o estado. Tais atitudes oscilam entre um extremo de relacionamento desfavorável (ou distante), o que deixa uns grupos étnico-raciais minoritários mais vulneráveis, e um extremo de relacionamento favorável (ou preferencial), o que deixa outros grupos étnico-raciais mais protegidos. Para além de se tratar de pessoas-alvo ricas, o tempo permitirá aferir a validade de outras lógicas. De qualquer modo, existem indícios, mesmo que para já frágeis, de os raptores manifestarem tendências selectivas na escolha da pertença étnica ou racial das vítimas. Ou seja, o volume das contas bancárias das vítimas, sendo o atributo central em situações de raptos que visam obter valores monetários elevados em troca do resgate, pode não minimizar necessariamente outros atributos. Por seu lado, o contexto social onde tais práticas ocorrem é sempre relevante, o que implica ter em atenção ao modo como se processa a integração das minorias étnicas e raciais nas sociedades de acolhimento, bem como a natureza e os efeitos sociais, mesmo que indesejáveis, dos discursos e demais atitudes das elites dominantes. E para percebermos os últimos devemos prestar atenção ao que é manifesto (por hábito dominado pelo politicamente correcto) e sobretudo às inconfessadas fórmulas latentes (onde, muitas vezes, se jogam as cargas agressivas). De resto, as interpretações do lado problemático dos fenómenos étnicos e raciais continuarão fragilizadas enquanto aprioristicamente se persistir em circunscrevê-los a determinadas sociedades (em geral ocidentais), apenas a determinadas minorias (em geral não-brancas), apenas a pessoas de determinado estatuto socioeconómico (os pobres). Sociedades maioritariamente negras, como a moçambicana; minorias raciais não-negras, como a portuguesa branca ou islâmica asiática; ou indivíduos pertencentes a classes médias e altas (de acordo com os padrões das sociedades de acolhimento, não necessariamente das sociedades de origem) – deveriam também captar muito mais a atenção dos que pretendem compreender o mundo de hoje. É plausível a tese da existência de sociedades fortemente escrutinadas ao nível do tratamento conferido às minorias raciais e étnicas (e bem!), como as europeias, comparativamente a outras que são muito mais raramente escrutinadas a este mesmo nível. A propósito, e não se trata de mero detalhe face ao que está em causa, existem sintomas evidentes de anti-portuguesismo nos discursos e demais atitudes de uma parte das elites moçambicanas, em particular as ligadas ao poder político do estado, contudo tais atitudes tendem a inverter-se à medida que descemos na hierarquia social. Escrito em linguagem elementar, a comunidade portuguesa branca tende a ser forte entre os pobres moçambicanos, a grande maioria da população, e tende a revelar-se demasiado fraca entre os ricos moçambicanos, a esfera decisiva do poder. Daí que o termo xenofobia seja inadequado, mas não dispomos de outro. Suponho que algo de equivalente possa estar a ocorrer noutros contextos africanos. Quanto à comunidade islâmica de origem asiática (monhés, na designação depreciativa), a tendencial ostracização revela-se socialmente mais transversal a elites e gente comum, em Moçambique. Neste caso, de mais longa duração histórica em diversos países africanos, a realidade revela a necessidade de um escrutínio bem mais apurado desde já, precisamente porque o fenómeno vai transitando do período colonial para o pós-colonial em fórmulas reinventadas. Em geral, sobre os monhés alimentam-se uns quantos estereótipos (como associá-los, por atacado nos discursos de senso comum, a determinados tipos de criminalidade), mas que podem acima de tudo significar a procura de um bode expiatório vulnerável para descartar males de muitos outros. Em suma, as questões sensíveis que afectam as minorias étnicas e raciais em sociedades maioritariamente negras são assuntos a que as universidades e a comunicação social deveriam prestar muito mais atenção, viciados que estão em modelos de pensamento do século XX. São eles que impedem que se compreenda muito melhor o século XXI, um século substantivamente distinto do século que lhe antecedeu. Essa é a fonte de demasiadas incongruências, demasiados olhares selectivos, demasiadas dualidades de critérios, demasiadas incompreensões. Ajustar, o melhor possível, o pensamento à realidade vivida é uma incontornável ambição dos que se interessam pelos destinos do mundo.
 
 
Gabriel Mithá Ribeiro
 
 
 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Verney, 300 anos.











 
 
 

Nos 300 Anos de Luís António Verney, uma conversa com Octávio dos Santos, um dos elementos da organização das comemorações.
 
 
 
 
 

P - Que sentido faz comemorar, nos nossos dias, o tricentenário do nascimento de Luís António Verney? Que importância teve - ou tem - para a cultura portuguesa?

Se faz sentido - e sem dúvida que faz - comemorar, assinalar, relembrar nos nossos dias «grandes aniversários» - 25, 50, 100, 150, 200 anos... - do nascimento e/ou do falecimento de grandes vultos da nossa História e da nossa Cultura, como, entre muitos outros, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, António Vieira, também faz sentido (tentar) prestar uma homenagem semelhante a Luís António Verney que é um dos autores mais importantes da nossa literatura, e não apenas do século XVIII. Ele não se limitou a ser - o que já não seria pouco... - uma das melhores mentes nacionais do seu tempo: também foi uma das melhores da Europa. Pela sua erudição, pela sua facilidade de comunicação, pela sua sensatez... enfim, pelo seu patriotismo, que o levou a contribuir à distância (porque estava em Roma), incansavelmente, durante anos, com o melhor do seu esforço intelectual, para o progresso e o desenvolvimento do seu país, e não só ao nível da educação... Pelo seu ecletismo, pela sua versatilidade, foi um autêntico enciclopedista... aliás, e curiosamente, em 2013 também se comemoram os 300 anos do nascimento de Denis Diderot (a 5 de Outubro).

 

P - O «Ano Verney» contempla várias iniciativas. Quais, em concreto?

Não tantas como nós na organização gostaríamos... embora seja possível que mais venham a ser anunciadas e realizadas para além das que estou já a adiantar aqui e das que vamos apresentar, a 23 de Julho, dia de aniversário de Verney. Antes de mais, destaque merecido para a Biblioteca Nacional, nossa principal parceira neste projecto, que abriu em Maio uma exposição dedicada a Luís António Verney, que se prolonga até 30 de Agosto, e que promoveu, no dia 11, uma conferência sobre Verney pela Prof.ª Zulmira Santos, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Outras iniciativas estão em preparação nas áreas: da música, com concertos de compositores da época de Verney, em especial portugueses e italianos; das artes plásticas, com um projecto que colocará alunos de uma faculdade de Lisboa a ilustrar um livro cuja acção se situa num século XVIII «alternativo» e fantástico, e em que uma das personagens é, claro, Verney... Estamos a desenvolver contactos para que livros de Verney sejam, se não (re)editados, pelos menos relançados no mercado... muito em especial, exemplares que a Sá da Costa (editora) ainda poderá ter do «Verdadeiro Método de Estudar». E, evidentemente, o congresso de 16, 17 e 18 de Setembro, a iniciativa central das comemorações...   

 

P - No próximo dia 23 de Julho, pelas 18h, será apresentado o «Ano Verney» e um Congresso sobre a sua obra. Em que consistirá este Congresso?

... denominado «Luís António Verney e a Cultura Luso-Brasileira do seu Tempo», cujo programa já pode ser visto no sítio do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, entidade que, formalmente, o organiza e durante o qual se tentará reequacionar o legado de Luís António Verney, e dos seus contemporâneos, nos tempos de hoje, repensando, em simultâneo, todo o século XVIII luso-brasileiro em várias áreas do conhecimento: Artes, Filosofia, Ciências Naturais, Direito, Economia, Educação, Literatura, Política, Religião... Mais de 30 especialistas e estudiosos foram convidados para explanar e para debater as suas ideias e os seus trabalhos, e os de outros, entre os quais António Braz Teixeira, António Cândido Franco, Artur Anselmo, Duarte Ivo Cruz, Helena Murteira, Manuel Curado, Maria Alexandra Gago da Câmara, Pedro Calafate, Renato Epifânio, Rui Lopo... Há o objectivo de, posteriormente, editar em livro as actas do congresso. 

 

P - A terminar, que ensinamentos poderíamos extrair do Verdadeiro Método de Estudar? Seria possível uma reforma do ensino - e da universidade, em particular - a partir dos enunciados da obra de Verney?

O principal ensinamento que poderíamos talvez hoje extrair do «Verdadeiro Método de Estudar» não teria tanto a ver, penso eu, com a sua forma e o seu conteúdo - afinal, muita coisa mudou, e melhorou, nestes últimos 250 anos... - mas, sim, mais com o seu «espírito»... com o objectivo, com o propósito que o animou: instituir um sistema de ensino que abrangesse, que acolhesse, as mais recentes teorias e práticas do seu tempo. Luís António Verney queria «integrar» Portugal na Europa do conhecimento daquela época, «puxar» o país, tanto quanto possível, para vanguarda da cultura e da ciência que ele via florescer à sua volta. Queria clareza, queria exigência, queria complementaridade, queria rigor, queria eficiência. Queria uma educação caracterizada pela relevância, que não se traduzisse em diletantismo e superficialidade. É por isso, e muito mais, que Verney é ainda hoje, e sempre será, uma referência de excelência. 

 

 

Entrevista de António Araújo

 

 

 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Os operários a caminho da guerra.








 

  O jornalista e escritor francês Lucien Deslinières gostava de sonhar a utopia mas nunca a conseguiu viver. Em 1899 publicou, com um esperançoso título, L´Application du Système Collectiviste, conseguindo, antes de ter aplicado o que quer que seja, encontrar motivo para preencher 544 páginas. Jean Jaurès, que escreveu o prefácio, dizia justamente: até agora os socialistas proibiram-se de descrever com precisão a sociedade futura; finalmente, surge Deslinières, o qual no seu livro demonstra com toda a força como será abundante a produção colectivista. O problema foi passar à prática: Deslinières tentou estabelecer uma quinta colectivista no México, mas falhou; depois, passou-lhe pela cabeça repetir a tentativa na União Soviética, tendo sido comissário para a agricultura na Ucrânia, em 1920, onde quis aplicar as suas ideias, mas falhou devido, afirma-se candidamente, a falta de … dinheiro. Voltou a França, onde ainda teve coragem, e encontrou editor, para publicar, em 1923, um livro com um título ultra-optimista: “La production intensive.” Há quem  nunca aprenda …
   Em 1908, Deslinières tinha publicado o primeiro volume (não consta que tenha havido segundo) do seu Projet de Code Socialiste, que ofereceu à S.F.I.O. (Section Française de l´Internationale Ouvrière), para que o partido tivesse disponível “uma organização social no momento em que quaisquer circunstâncias, que precipitassem os acontecimentos, como, por exemplo, uma grande guerra europeia, lhe facilitassem apossar-se do poder político”. Uma guerra parecia, pois, a oportunidade azada para a revolução socialista.
    No entanto, os socialistas sentiam-se presos por um dilema: por um lado, a guerra poderia conduzir à queda definitiva do capitalismo, pelo que, mesmo não a provocando, os revolucionários nada deviam fazer para a evitar; no entanto, também tinham a consciência de que o conflito poderia ser uma calamidade, na qual os trabalhadores seriam os que mais sofreriam, pelo que os socialistas deviam recorrer a todos os meios possíveis para eliminar a possibilidade de guerra.
    Também os governos enfrentavam um grave dilema: sem um significativo suporte popular, dificilmente um governo arriscaria tomar o caminho da guerra; ora, face ao crescente peso eleitoral dos socialistas, como se poderia ter a certeza, quando se tivesse de tomar a decisão fatal, que os cidadãos estariam dispostos a marchar para a frente de batalha?
    Assim, no caminho para a Grande Guerra, a atitude dos trabalhadores e, em particular, das suas organizações profissionais e políticas na eventualidade de um conflito, constituía o principal temor dos governantes. No Império Austro-húngaro e na Rússia, é certo, sindicatos e partidos socialistas relativamente fracos não preocupavam seriamente aqueles que viam no conflito uma oportunidade para consolidar o império e o seu poder. Já os Governos francês e alemão estavam confrontados com os dois maiores partidos socialistas existentes, formalmente revolucionários, e, juntamente com o Governo britânico, com movimentos sindicais poderosos. As suas tomadas de posição em caso de guerra eram muito importantes, porventura decisivas para o sucesso dos respectivos países no conflito que se adivinhava. Por isso, a análise prévia sobre as possíveis reações dos partidos e dos sindicatos quando confrontados com uma guerra real determinaria o modo como os governantes enfrentariam a crise. Quanto menor a incerteza maior seria a liberdade de acção dos governos.
    No fundo, a grande questão era saber se as várias comunidades políticas em confronto tinham sabido encontrar resposta para uma pergunta: como tornar credível um Estado que vai pedir às pessoas a quem não dá de que viver que vão morrer para a defender?




 
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    A resposta seria dada em 1914. A iminência da guerra fez com que os Governos francês e alemão adoptassem algumas medidas preventivas. O Ministério do Interior francês elaborou uma lista − o célebre Carnet B −, onde se enumerava o nome dos sindicalistas e militantes socialistas que considerava prioritário sujeitar a medidas de detenção em caso de guerra. O governo alemão, pelos vistos mais confiante no patriotismo dos seus “revolucionários”, limitou-se a desenvolver contactos regulares com alguns socialistas que considerava mais susceptíveis de serem seduzidos por apelos patrióticos: Gustav Noske foi convidado a visitar um navio de guerra enquanto outro socialista, Albert Südekum, mantinha contactos regulares com o gabinete do Chanceler Bethmann-Holweg como representante de Friedrich Ebert, líder do SPD. É certo que em 1919, Noske, então no governo do SPD, usaria os Freikorps para afogar no sangue a intentona spartaquista (Noske sobreviveria ao nazismo, não sem passar por um campo de concentração). E Lenine, em Fevereiro de 1915, escreveria um artigo no “Sotsial-Demokrat” (não passa despercebida a ironia do nome do jornal) onde falava dos “Südekumes”: uma designação genérica para todos os oportunistas sem escrúpulos e social-chauvinistas (a inventiva no impropério sempre distinguiu os bolcheviques).
    Na verdade, os sinais existentes davam alguma liberdade de acção aos governos. Na França, temeu-se a quebra da unidade nacional quando do homicídio de Jean Jaurès, em 31 de Agosto, na iminência da mobilização. Pois nada se passou: poucos se juntaram às cerimónias fúnebres, não houve manifestações nem a mínima alteração da ordem pública. Sentiu-se uma profunda emoção, mas esta surgiu mais como uma marca da impotência perante a evolução dos acontecimentos, já profundamente interiorizada na consciência dos franceses.
 
 

 
 
   Para John A. Hall e John Ikenberry (em O Estado, Editorial Estampa, Lisboa, 1990), decisivo nesta fase foi precisamente “o facto de a elite política sentir que podia confiar nos trabalhadores no que diz respeito à prática política com o estrangeiro...”. As discussões no seio da Segunda Internacional tinham concluído sem que tivesse sido adotada uma posição clara, definitiva e pronta a aplicar em caso de conflito: greve geral multilateral que impediria o esforço de guerra. Quando os governantes ouviram os líderes operários dizer que nenhuma garantia havia de que do outro lado da fronteira se fizesse greve, puderam concluir que o movimento operário não estava unido, estando contagiado pelo espírito patriótico de cada país. Perceberam então que os operários fariam a guerra.
  Quando todos partiram para a guerra, com entusiasmo, Aquilino Ribeiro, que residia em Paris no início das hostilidades, ainda não se apercebera da mudança de mentalidades. Em 2 de Agosto, escreveria no seu diário que os operários,
 
   “... rivalizavam (...) na febre de defender a bandeira que (...) tempos antes atafulhavam nas sentinas (...). No último congresso não preconizaram e votaram, para o caso de guerra, a greve geral? Numa e noutra parte os socialistas marcharam para a hecatombe com a mansidão de borregos.”
 
   Começou então a perceber-se que os operários fizeram a guerra porque o Estado lhes dava alguma coisa que não queriam perder. Não eram mansos borregos, mas cidadãos que, acima da consciência de classe, colocavam valores mais poderosos. Hobsbawn,  assinalando que o exército francês contava com até 13% de desertores e apenas foi confrontado com 1,3% em 1914, falou  na “prova melancólica do sucesso da política integradora da democracia.”
   Depois, a estória foi outra: os operários sentiram-se enganados durante a guerra, esquecidos depois desta. Em 1919, Clemenceau viveria em pânico porque, enquanto negociava Versalhes, tinha um milhão de soldados entusiasmados com experiências revolucionárias na Rússia, na Alemanha, na Hungria, esperando a desmobilização de armas na mão. É bem verdade: há sempre que contar com o dia de amanhã.
 

José Luís Moura Jacinto

 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Maria Keil.

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Até 27 de Outubro, no Palácio da Cidadela de Cascais, organizada pelo Museu da Presidência da República, uma exposição sobre a obra de Maria Keil. Imperdível.










Hong Kong.

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Fotografia de Romain Jacquet-Lagreze