quinta-feira, 20 de maio de 2021

Último dos inocentes, protector de Portugal, inimigo dos jesuítas.

 

 


Uma “comemoração” da Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital, de Maio de 2021

 


A 18 de Maio de 1721, a família Carillo foi quase dizimada pela Inquisição Espanhola. No auto-de-fé que se celebrou no Convento de São Domingos em Madrid foram queimadas duas gerações e um troço de madeira, representando uma terceira. Entre os supliciados estava a mais velha das relaxadas ao braço secular na infame história daquela instituição: Maria Barbara Carillo, 95 anos, “relapsa, convicta, y pertinazmente negativa en sus errores1

 

Além de Maria Barbara, morreram o seu filho Antonio e a nora Ana Maria de Morales. Foi ainda queimada a estátua da filha destes, Ana Carillo, já morta mas que, à imagem dos pais e da avó, foi representada com o sambenito e coroça dos penitentes.

 

Auto de fe de la Inquisición, Francisco de Goya

 

Escapou da fogueira Gaspar Carillo, irmão de Ana, 36 anos, solteiro e sem profissão. De sambenito, abjurou a sua fé judaica e, sem bens, condenado a prisão perpétua, foi 7 anos para os remos das “galeras de su Majestad”, sem salário, para ser mais tarde restituído à prisão.

 

Trezentos anos depois, serve-nos de pouco consolo, aos cristãos do século XXI, saber que em determinados momentos foram os monarcas, mais papistas do que os papas, a perseguir os judeus ou os cristãos-novos sob a bandeira da Inquisição.

 

Exemplo disso foi o que se passou cinquenta anos antes desse auto-de-fé quando, noutro Maio, o de 1671, outra feroz perseguição antijudaica se seguiu ao roubo do Senhor da Igreja de Odivelas. Tal impacto – até internacional – teve no seu tempo que até nome de localidade veio a dar: o Senhor Roubado.

 

Tendo sido os judeus acusados do roubo das hóstias consagradas, em abstracta presunção de culpa, e perante a pressão popular, D. Pedro, Príncipe Regente desde 1667 em vez do seu incapaz irmão D. Afonso VI, proibiu aos cristãos-novos o exercício de cargos públicos e ainda de andarem de coche e a cavalo, de vestirem seda e usarem adornos com metais ou pedras preciosos.

 

Mesmo depois de se ter provado que a “nação hebraica” estava inocente e que tinha sido “um rústico, um jovem sem cultura e sem doutrina”2, um vulgar ladrão, possivelmente bêbado, que roubara a igreja sem perceber a gravidade do que fazia, as perseguições aos cristãos-novos, que estavam até então bastante integrados na sociedade, continuaram.

 

Veio a ser o Papa a apelar, sem sucesso, ao perdão geral dos conversos. A Inquisição acabou suspensa por Roma por causa dos abusos locais e a perseguição a judeus e a cristãos-novos foi um foco de tensão permanente entre Roma e a corte de Lisboa de então.

 

* * *

 

Nos últimos anos do seu longo reinado (quase 39 anos, dos quais 16 de regência e 23 em seu próprio nome), D. Pedro II contou com a imponente presença em Lisboa da sua irmã, D. Catarina de Bragança, a única portuguesa a sentar-se até hoje no trono de Inglaterra.

 

Por romântica que seja a ideia de que foi por sua influência que o chá, a mais britânica das tradições, se tornou popular, D. Catarina foi na realidade profundamente impopular no país onde lhe coube reinar.

 

Charles II and Catherine of Braganza c.1662, gravura comemorativa do casamento de Carlos II de Inglaterra com a Infanta D. Catarina, P STENT, Royal Collection Trust

 

 

Mal-amada pelos ingleses, traída compulsivamente pelo marido, perseguida por ser católica, foi, para cúmulo, incapaz de dar um herdeiro legítimo a um rei que tinha uma dúzia de filhos bastardos e precisava de consolidar uma dinastia acabada de restaurar após a breve experiência republicana de Cromwell.

 

E se em Portugal e em Espanha, por aquele tempo, se perseguiam os judeus, em Inglaterra eram os católicos o alvo da caça.

 

A questão religiosa está entranhada no ADN institucional inglês de forma quase imorredoira, tendo permitido, nos últimos 500 anos, os mais espantosos assomos de catolicismo e de anti-papismo. Basta pensar que há 500 anos, em 1521, Henrique VIII publicava o seu Assertio Septem Sacramentorum, uma apaixonada defesa dos Sete Sacramentos contra os ataques de Martinho Lutero.

 

Por esta prosa o Papa Leão X lhe deu o título de Defensor da Fé, que os monarcas ingleses usam orgulhosamente até hoje, embora já não sob a alçada papal. Claro que o mesmo Henrique VIII, para se divorciar de Catarina de Aragão, renegou o Papa e a Igreja daí a poucos anos. Os reinados que se seguiram foram de guerra, morte e tensão social em abundância. A questão religiosa tampouco se resolveu com o longo e glorioso reinado anglicano de Isabel I.

 

O sucessor da Rainha “Virgem”, o jovem Rei da Escócia, Jaime VI, parecia ser o sonho do ecumenismo: baptizado católico, crescido presbiteriano escocês e finalmente convenientemente atraído pelo anglicanismo que lhe garantiria o trono inglês onde reinaria como Jaime I.

 

Nos anos seguintes, o catolicismo perseguiu os reis ingleses com ferocidade prosélita. Jaime casara com uma princesa dinamarquesa e  luterana, mas Ana da Dinamarca acabaria por se converter à fé de Roma. O filho de ambos, Carlos I, casou com uma princesa francesa e católica – o que foi em si mesmo um dos condimentos da Guerra Civil que se travou no seu reinado e lhe custou a cabeça.

 

Já depois da Restauração, o neto de Jaime I, Carlos II, casou com D. Catarina de Bragança, infanta portuguesa e católica, tendo o Tratado de Casamento estipulado expressamente que a noiva poderia reter a religião católica – em troca de uma fortuna em dinheiro e ainda de Bombaim e de Tânger...

 

The Apotheosis of Catherine of Braganza 1675-c.1684, Pintura de Antonio Verrio (c. 1639-1707) no tecto da Câmara da Rainha no Castelo de Windsor, descrição completa no site da Royal Collection Trust

 

 

Perante esta sucessão de casamentos com católicas, era quase inevitável que o passo seguinte se desse: o irmão e herdeiro do Rei, Jaime, Duque de York, reconciliou-se com Roma. Viúvo e pai de duas filhas, Jaime casou com Maria de Modena, uma princesa italiana e católica e jovem. Furioso com a conversão do irmão e ciente da resistência que ia gerar em Londres, Carlos II orquestrou o casamento da sua sobrinha Maria, filha mais velha de Jaime, com o seu sobrinho Guilherme, Príncipe de Orange e soberano dos Países Baixos, filho de uma outra irmã sua e, sobretudo, protestantíssimo.

 

Contudo, a corte sentiu como os papistas ganhavam terreno. O Parlamento ameaçou retirar o Duque de York da linha sucessória e a Rainha D. Catarina foi falsamente implicada numa Conspiração Papista em 1678, acusada de tentar envenenar e matar o marido. O Parlamento chegou a decidir levá-la a julgamento, o que motivou protestos veementes do Regente de Portugal e o envio de uma embaixada a Londres.

 

As ordens religiosas e em especial a Companhia de Jesus, braço armado de Roma, voltaram a sofrer na pele. Nos quatro anos que demorou a demonstrar a total falsidade da denúncia da Conspiração, pelo menos 35 inocentes foram executados, a maioria dos quais jesuítas, com vários outros a morrer na prisão. Tudo acompanhado pelos incentivos de uma multidão sedenta de sangue católico, ainda que inocente.

 

Carlos II, pessoalmente responsável por desmascarar o autor da falsa acusação, nunca duvidou da lealdade da Rainha D. Catarina. Ter-se-á convertido ao catolicismo no leito de morte, apesar de ter sempre apoiado a facção anglicana do Parlamento e o endurecimento das leis contra os católicos.

 

The solemn mock procession of the Pope Cardinalls Jesuits fryers &c: through the citty of London November the 17th. 1679. Panfleto satírico anti-católico, 1680. EB65 A100 680s4, Houghton Library, Harvard University


 

A True Narrative of the Horrid Plot and Conspiracy of the Popish Party (1679). Panfleto satírico sobre a Conspiração Papista, procurando ridicularizar a denúncia, Royal Collection Trust

 

Foi o irmão e sucessor de Carlos, Jaime II de Inglaterra e VII da Escócia, a sofrer as consequências desta genética atracção fatal pelo catolicismo. Foi coroado com Maria de Modena em 1685 numa cerimónia anglicana, ainda que ambos fossem católicos. D. Catarina de Bragança, agora Rainha-Viúva, continuou em Inglaterra, onde o novo Rei foi amolecendo as leis contra os católicos e perseguindo anglicanos, o que havia de se revelar fatal.

 

Em Junho de 1688, ao fim de três anos de reinado e dez de casamento, a Rainha Maria deu à luz um príncipe saudável. Jaime, herdeiro do trono desde o seu nascimento foi alvo, naturalmente, de insistentes rumores: de que não era filho do Rei e de que o bebé da Rainha era nado-morto e um impostor tinha sido posto na cama dentro de uma escalfeta.

 

O rumor da escalfeta foi tal forma sério de que o Rei teve de publicar testemunhos de dezenas de pessoas que haviam assistido ao parto para o desmentir. Entre as pessoas dadas como presentes no parto, a Rainha-Viúva Catarina3, que havia de ser madrinha no baptismo, em Outubro, sendo padrinho o Papa, representado pelo Núncio4.

 

Em Novembro do mesmo ano, Guilherme de Orange, genro do Rei, invadiu a Inglaterra para garantir que o Protestantismo não era suplantado e para verificar os rumores sobre o Príncipe de Gales. Com pouca resistência e ajudado pela notícia da fuga da Rainha e do pequeno Príncipe para França e da tentativa de fuga do Rei, Guilherme chegou a Londres a poder dizer que não queria ser rei. No ano seguinte, o Parlamento legitimou a invasão estrangeira e o golpe.

 

Os ingleses adjectivaram-na, romanticamente, como Gloriosa: a revolução que substituiu os herdeiros legítimos do trono por um soberano estrangeiro, por motivos religiosos. 

 

* * *

 

D. Catarina continuou a viver em Londres mesmo depois da Revolução Gloriosa, nos primeiros anos do curto reinado conjunto (uma originalidade inglesa) dos Reis Guilherme III e Maria II, ambos reis por direito próprio. As tensões por causa do seu catolicismo não cessaram e a Rainha-Viúva partiu de Londres em 30 de Março 1692, sem aparato e não deixando saudades5.

 

A corte de Lisboa recebeu-a de braços abertos em 20 de Janeiro de 1693 e quando D. Pedro II ficou viúvo pela segunda vez e doente ou ausente, foi a sua irmã a assumir a regência. Fê-lo em dois períodos: em 1704 e 1705. Ao lado da antiga soberana, os seus sempre fiéis jesuítas.


 

Katharine Queen Dowager c.1685-1705, Mezzotint de D. Catarina de Bragança como Rainha-Viúva, ISAAC BECKETT (1653-1719), Royal Collection Trust

 

 

As relações entre Portugal e a Santa Sé eram especialmente importantes para o Rei D. Pedro II, que procurava uma estabilização depois do reconhecimento da independência pelo Papa, o que aconteceu apenas depois da assinatura do tratado de paz com Espanha.

 

O vil metal haveria, contudo, de esfriar as relações. Os quindénios eram pagamentos devidos à Santa Sé a cada 15 anos pelas congregações religiosas. Num braço de ferro que havia de se estender até bem entrado o reinado do Magnânimo D. João V, Roma foi exigindo o pagamento de dívidas em atraso do tempo dos Filipes e a regularização dos pagamentos de todos os colégios jesuítas, incluindo os que se tinham associado ao padroado real. O Rei recusava que os colégios sob a sua alçada tivessem de pagar tributos a Roma, fiando-se porventura nas palavras de Cristo e vendo-se como César.

 

Em 1698 chegou a Portugal um novo Núncio Apostólico, o Arcebispo Michelangelo Conti, que haveria de presidir ao clímax desta contenda. Conti tentou pressionar o novo Provincial dos Jesuítas ameaçando-o com a remoção do cargo caso não pagasse os quindénios, ao que o padre Domingos Nunes terá respondido que seria um favor que lhe fazia, como a qualquer outro a quem aliviassem de tarefa que “lhe rendia tão pouco”.

 

Perante a humilhação continuada, Roma passou a medidas mais severas e decretou a proibição da admissão de noviços pela Companhia, que entrou em vigor em Setembro de 1704. Pela mesma altura, D. Catarina estava Regente por ausência do irmão, envolvido na Guerra da Sucessão Espanhola. O Núncio Conti, entendendo a regência como eventual momento de fraqueza da posição real, terá exigido com maior veemência ao Provincial o pagamento devido.

 

À Rainha D. Catarina, sempre rodeada de jesuítas, não lhe escapou a afronta. Inspirada quiçá pelo anti-papismo que a perseguira em Inglaterra, proibiu o Núncio de entrar no Paço, restringiu-lhe privilégios diplomáticos e escreveu ao Papa protestando pelo que considerou ser “injúria à sua pessoa e à do rei, como um desprezo do seu sexo e menoscabo das ordens reais”6. O momento de maior tensão entre Portugal e a Santa Sé do reinado teve por protagonista um argumento de discriminação sexual por parte de uma rainha vítima de persistente discriminação religiosa.

 

D. Pedro II retirou as ordens da irmã contra Conti assim que reassumiu o poder. D. Catarina morreu no fim de 1705 mas os jesuítas não pagaram os quindénios. Conti foi nomeado Cardeal em meados de 1706 e foi chamado ao Paço, em finais do mesmo ano, para dar a extrema-unção ao Rei, o que fez, absolvendo-o dos seus pecados. Foi já D. João V a impor-lhe o barrete cardinalício e o Núncio foi designado, ao regressar a Roma, Cardeal-Protector de Portugal.

 

Bartomoleu de Gusmão apresentando o seu protótipo ao Rei, à Rainha e ao Cardeal Conti, Bernardino de Souza Pereira, Museu Paulista

 

No anos que por cá permaneceu até regressar aos Estados Papais, o Cardeal Conti assistiu deleitado aos ensaios da famosíssima passarola do Padre Bartolomeu de Gusmão7, sacerdote de formação jesuíta que mais tarde havia de cair nas malhas insidiosas da lusa Inquisição. O termo do “longo e deplorável litígio” dos quindénios, como lhe chama a História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal, só aconteceria em 1716. Como sabemos, para os jesuítas o pior estava ainda para vir.

 

* * *

 

No preciso dia 18 de Maio de 1721 em que a judia Maria Barbara Carillo era barbaramente queimada aos 95 anos de idade, um novo Papa era coroado na Basílica de São Pedro: Michelangelo Conti, Cardeal-Protector de Portugal8.

 

Tinha sido escolhido 10 dias antes pelo Conclave dos cardeais eleitores por unanimidade – descontado o seu próprio voto noutro cardeal. Escolheu para seu nome pontifício um nome que até hoje não voltou a ser usado por qualquer Vigário de Cristo: Innocentius, no latim papal; Inocêncio, no nosso vernáculo.

 

A inocência,

 

1. Qualidade ou estado de inocente.

2. Ignorância do mal; pureza; simplicidade, ingenuidade.

3. Isenção de culpa.9

 

é uma qualidade que, pelos padrões contemporâneos, dificilmente alguém negaria a Maria Barbara Carillo, condenada por seguir a sua fé, como continuam a ser tantas pessoas até aos dias de hoje, cristãos, judeus e muçulmanos pelo mundo fora.

 

Se à partida dificilmente se poderia dizer que Michelangelo Conti era culpado ou indigno do nome que escolheu, a verdade é que a autoproclamação da inocência, seja enquanto ignorância do mal ou enquanto pureza ou simplicidade, dificilmente será pelo menos compatível com a humildade que se exige a qualquer seguidor de Cristo. Ingénuo, depois do que vira em Portugal, também já não era.

 

Innocentius XIII P.M., Gravura do Papa Inocente XIII, Jacob Frey, British Museum

 

A escolha de nome papal pelo Cardeal Conti teve em conta raízes familiares profundas. Foi o quarto – e último – Papa da poderosa família Conti di Segni. O primeiro pontífice da família, Lotario dei conti di Segni (1161-1216), tinha escolhido reinar como Inocêncio III, ao já então longínquo tempo dos nossos D. Sancho I e D. Afonso II.

 

A solene cerimónia de coroação na Basílica de São Pedro foi descrita em pormenor para as cortes europeias e a Gazette francesa publicou o relato a 14 de Junho, detalhando cada passo, cada ornamento e paramento, cada gentilhomem e cardeal, o sic transit gloria mundi repetido três vezes, a coroação com a tiara e a primeira saída do Vaticano sob grandes aclamações10.

 

Para os que esperavam candura ou inocência do Papa Inocêncio XIII, o curto pontificado terá sido uma desilusão. Apesar da sua educação num Colégio da Companhia de Jesus em Roma, Conti tinha ficado mal impressionado com a atitude dos jesuítas em Lisboa. Considerava-os, muito provavelmente, relapsos, convictos e pertinazmente negativos nos seus erros, para parafrasear a sentença de Maria Barbara.

 

Na condenação que reiterou do uso do rito chinês, em que os missionários jesuítas misturavam práticas confucianas para melhor evangelização dos povos da Grande China, Inocêncio aplicou de forma radical o único remédio que vira funcionar em Portugal: proibiu a admissão de noviços até que ficasse provado que não continuavam a celebrar no rito chinês.

 

Provando-se pelos seus actos ainda menos inocente, no sentido de puro, dos três cardeais que Inocêncio nomeou, um era seu irmão. E dos três beatos que proclamou, um era da sua família.

 

Neste emaranhado de histórias cruzadas, importa referir que Inocêncio XIII confirmou o apoio de Roma ao deserdado Jaime Stuart, que teria nascido para a realeza numa escalfeta e então se proclamava, desde a morte do pai em 1701,  Jaime III de Inglaterra e VIII da Escócia. A Igreja apoiaria aliás a pretensão dos católicos Stuart e as suas tentativas de retomar a coroa até à morte de Jaime, em 1766, só então reconhecendo a dinastia dos protestantes Hanover, que ainda hoje reinam sob o nome de Windsor.

 

* * *

 

O que resta, nos nossos dias, deste infindável romance?

 

A Basílica de São Pedro conserva um monumento aos Três Stuart – Jaime III e os seus dois filhos: Carlos, o Bonnie Prince Charlie que invadiu a Escócia em 1745 e quase chegou a Londres, e o Cardeal Henrique Stuart. Os jacobitas (seguidores de Jacobus, Jaime em latim) – mas já não o Papa – reconheceram-nos como Carlos III e Henrique IX de Inglaterra, respectivamente.

 

Surpreenderá, contudo, que mais de 300 anos depois haja ainda fiéis da causa jacobita, ou seja, pessoas que acreditam que o legítimo soberano inglês e escocês não é a veneranda senhora que ali se senta há quase 70 anos, mas antes o actual Duque da Baviera, Chefe da Casa Real bávara, descendente de Carlos I de Inglaterra. E, por mais insólito que possa parecer, será provavelmente um futuro Príncipe reinante do Liechtenstein a herdar a pretensão jacobita.

 

As mais duras leis anti-católicos foram removidas por iniciativa do Duque de Wellington em 1829, durante o reinado de Jorge IV, apesar da oposição do Rei. A partir de então os católicos voltaram a poder ser eleitos para o Parlamento. Porém, só muito recentemente, em 2013, se alterou uma cláusula do Act of Settlement de 1701, que retirava da linha de sucessão ao trono quem casasse com um católico. O trono, esse, continua interdito a papistas.

 

Os jesuítas, por sua vez, depois de verem a sua ordem extinta e perseguida, continuam a ser peculiares em muitas das suas abordagens e não raro envoltos em polémica. Pertinazmente pouco dados à ortodoxia e à rigidez litúrgica, cumprem à risca a premonição de uma das testemunhas da Conspiração Papista: “The Jesuits fear neither death nor danger, hang as many as you will, others are ready to take their places”.

 

Em 2013 um jesuíta foi pela primeira vez eleito Papa: Jorge Mario Bergoglio, antigo Provincial dos Jesuítas na Argentina, escolheu como nome Francisco, em honra do santo do despojamento. Às voltas com a atracção humana e curial pelo vil metal desde o início do Pontificado, o último motu proprio que assinou impede os membros da Cúria, cardeais incluídos, de receber presentes que valham mais de €40, o que em Roma não deve dar para um ramo de flores silvestres.

 

A Inquisição foi gradualmente reconhecida como contrária às leis de Deus e dos Homens e extinta nos diferentes países ao longo do século XIX. Mas os seus métodos vieram a ser amplificados de forma trágica pelos regimes totalitários e ditatoriais do século XX. Até os Familiares do Santo Ofício encontram eco nos informadores das polícias políticas. As mais recentes notícias sobre as perseguições no seio da Academia pelo mundo fora, procurando coarctar a liberdade de expressão e levando não raro à exposição e tentativa de humilhação pública de quem se desvia da linha de pensamento autorizada pela nova bitola de consciência, são exemplo de que o espírito inquisitório sobreviveu nos mais inusitados fóruns.

 

Também as perseguições religiosas seguem pelo mundo fora. O anti-judaísmo transformou-se em anti-semitismo e continua a brotar nos sítios mais inesperados. As perseguições aos católicos seguem o curso dos séculos anunciado por Cristo no Seu tempo: “Se Me perseguiram a Mim, também vos perseguirão a vós.” (Jo 15, 20)

 

Os autos-de-fé, por sua vez, continuam hoje numa rede social perto de si – não já passíveis de descrições eloquentes como a de Voltaire, a de Dostoevsky ou a mais completa, de Saramago no seu Memorial do Convento.

 

Chamam-lhe nos nossos tempos cyberbullying e, como acontecia com os autos-de-fé originais, dispensam prova e os assistentes pouco se importam com a culpa. Turbas sedentas de sangue digital, humilham, caluniam, desprezam e riem, gozam, fazem justiça pelo insulto em verdadeiras caças às bruxas – com os mais variados pretextos e com um fervor próprio dos assistentes às fogueiras dos séculos idos.

 

Porventura tão inocentes quanto as perseguidas pela Inquisição, nas veias das vítimas do cyberbullying corre sangue real (no sentido de verdadeiro) e não digital, e não raro sofrem consequências físicas do abuso digital.

 

Perante essa realidade, em Portugal aprovou-se recente a pomposamente designada Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital, no essencial um corpo proclamatório inútil e vago de lugares comuns para fazer manchetes nos jornais e provar, segundo o preâmbulo do projecto de lei, que estamos na vanguarda dos Direitos Humanos.

 

Trata-se, no essencial, de uma inconsequente proclamação dos referidos direitos – sem definição de regras para os garantir ou para evitar o abuso dos mesmos, apesar das leituras que encontram no diploma a promessa do regresso da censura, agora na era digital.

 

O corpo normativo concreto que permita a acção das autoridades e que eficazmente puna o abuso, o cyberbullying, ficou por fazer. Como falta, naturalmente, um incentivo palpável a uma literacia digital que eduque e dessa forma possa prevenir o abuso – ou sequer transmita às pessoas a consciência desse abuso que, por ser difuso e digital, passa por vezes despercebido.

 

Muito mais fez por esta causa Cristina Ferreira, rainha dos media, quando há tempos lançou um livro com um provocador título, a alertar para essa realidade. Não tendo lido além da sinopse, creio que é um contributo importante. São já demasiado longas as listas de pessoas que, tendo sido vítimas de bullying, puseram termo à vida.

 

Olhando à História, percebemos que cada uma dessas vítimas não foi a primeira cujo sangue inocente foi derramado. O mundo que hoje nos rodeia, exacerbado na dissensão, na violência e na intolerância, permite-nos perceber, também e infelizmente, que não será a última.

 

Ademar Vala Marques

Maio 2021

 

 

 

1 RELACION DE LOS REOS QUE salieron en el Auto particular de Fè, que el Santo Oficio celebrò en la Iglesia de el Convento de Santo Domingo el Real de esta Corte, el Domingo diez y ocho de este presente mes de Mayo de 1721. 1721

 

2 Lourenço, Maria Paulo Marçal, D. Pedro II, 2007.

 

3 Gazette du 3 Juillet 1688.

 

4 Gazette du 6 Novembre 1688.

 

5 Uma referência diminuta na London Gazette noticiou o seu próximo embarque para Calais, para começar o seu regresso a Lisboa, viajando pelos reinos católicos de França e Espanha.

 

6 Rodrigues, Francisco, História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal, Volume 3, Capítulo VI, Porto 1944.

 

7 Tirapicos, Luís Artur Marques, Ciência e diplomacia na corte de D. João V: a acção de João Baptista Carbone, 1722-1750, Lisboa, 2017.

 

8 Na London Gazette de 10 de Junho houve referência ao facto de a corte portuguesa estar “very pleased” com a eleição do Papa, antigo Núncio em Lisboa.

 

9 "inocência", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2021.

 

10 Gazette du 14 Juin 1721.

 








12 comentários:

  1. Uma aula de história simplesmente fabulosa. Grato pela partilha.
    .
    Abraço fraterno
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
    .

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  2. Já agora deixo uma notícia que sobre um tema que vocês aqui abordaram há uns tempos: https://www.zerohedge.com/geopolitical/defeat-uks-blm-cecil-rhodes-statue-wont-be-removed

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    1. Muito obrigado. O argumento para não retirarem a estátua - a falta de dinheiro - é o mesmo que os levou a colocá-la.
      Ademar Vala Marques

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  3. Obrigado, vou ver a notícia

    António Araújo

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  4. Maravilhoso! E, sinais dos tempos, são hoje alguns jesuítas que querem pôr fim aos ritos que não lhes agradam e que lhes limitam a influência. Agora que chegaram ao poder, farão o mesmo que os Contis e os Henriques VIII desta vida, mas por via cibernética. A história é mesmo uma coisa bonita. https://religionnews.com/2021/04/13/the-future-of-liturgical-reform-in-the-catholic-church/

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    1. Obrigado pelo seu comentário.
      Creio, na verdade, que os jesuítas sempre foram adeptos da evolução litúrgica em nome da conversão dos povos e que o Papa Conti, na linha dos seus antecessores, procurou preservar a unicidade litúrgica. Não deixa de ser curioso, contudo, que tenha sido o Papa Pio XII, tido hoje como pináculo do conservadorismo, a permitir a incorporação dos ritos confucianos que referi no texto.
      Escrevi aqui um texto sobre a questão da reforma da Igreja na altura do polémico filme dos 2 Papas. Talvez lhe interesse:
      https://malomil.blogspot.com/2020/01/dois-papas-reforma-e-o-maniqueismo-papal.html

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