Pela sua indiscutível oportunidade, pela evidência com que
se mostra neste livro as consequências da mudança de uma infância baseada em
brincar para uma infância baseada no telemóvel, e quais os danos que tal
mudança já está a provocar à saúde mental e ao desenvolvimento social, a
leitura de A Geração Ansiosa, por Jonathan Haidt, Publicações Dom
Quixote, 2024, é mais do que necessária, e não só para pais e educadores.
Este reputado psicólogo norte-americano socorre-se de uma
comunicação fluída para nos falar de três questões fundamentais: o declínio da
infância baseada em brincar; o surgimento da infância baseada no telefone; e
qual a ação coletiva que se impõe para que se difunda uma infância mais
saudável. Recorda-nos que os membros da Geração Z são hoje cobaias para uma
forma radicalmente nova de crescimento, longe das interações da vida real que
ocorrem nas pequenas comunidades em que os seres humanos evoluíram ao longo da
história; ao fenómeno sociocultural em que vive a Geração Z que designa por A
Grande Reconfiguração da Infância, onde avultam as tecnologias que moldam os
dias e as mentes das crianças bem como as bem intencionadas e desastrosas
medidas se tomam para proteger excessivamente as crianças e restringir a sua
autonomia no mundo real; porque as crianças precisam de uma grande porção de
jogo livre e, ao invés, os adultos consideram que os filhos não devem sair sem
vigilância, preferem-nos em casa a jogar e nos chats. Para um mais claro
entendimento do leitor, define interações sociais por quatro características:
são corpóreas, no sentido em que usamos os nossos corpos para comunicar; são
sincrónicas, isto é, ocorrem ao mesmo tempo e seguem pistas subtis quanto aos
tempos e à interação; implicam principalmente a interação de um-para-um ou de
um-para-vários, havendo apenas uma interação em cada momento; ocorrem no seio
de comunidades com elevados padrões de inclusão e exclusão e por isso as
pessoas estão fortemente motivadas a investir nas relações e a solucionar os
conflitos quando estes surgem.
Falando do declínio na saúde mental, este é manifestado por
um aumento acentuado nos padrões de ansiedade e depressão, processo que começou
no início da década de 2010 e que afeta as raparigas de forma mais acentuada.
Os smartphones combinados com proteção excessiva dificultam o acesso das
crianças e adolescentes às experiências sociais corpóreas de que mais precisam.
Continuando o seu raciocínio quanto às origens da crise de saúde mental na
década de 2010, destaca o crescente receio e superproteção parental que se terá
instalado na década de 1990. A combinação entre o smartphone e a superproteção
acabaram por dificultar o acesso das crianças e adolescentes às experiências
sociais corpóreas. Seguidamente, o autor expõe as investigações que mostram que
uma infância entrada no telefone perturba o desenvolvimento de múltiplas
formas, e destaca quatro danos fundamentais: privação de sono, privação social,
fragmentação da atenção e dependência. Igualmente o autor releva a dificuldade
em fazer a transição da adolescência para a vida adulta. E conclui este ponto
dizendo que a vida centrada no telefone afeta a todos – crianças, adolescentes
e adultos. E faz propostas para práticas que nos podem ajudar a todos a viver
melhor.
E assim chegamos ao que se pode e deve fazer agora. Dá
conselhos baseados em dados e investigações científicas, sobre o que as
empresas tecnológicas, Governos, escolas e pais podem fazer para resolver uma
série de problemas de ação coletiva – porque só uma ação coletiva e coordenada
permite tomar ações que são melhores para todos a longo prazo. Como ele afirma,
a Geração Z tem todas as qualidades necessárias para impulsionar uma mudança
positiva. A primeira destas qualidades é não estar em negação, a maioria dos
jovens mostra-se recetiva a novas formas de interação. A segunda qualidade será
o desejo dessa geração em colaborar num mundo mais justo e solidário, desejo
que se pode tornar realidade quando os jovens se organizarem e inovarem,
encontrando novas soluções.
Este psicólogo propõe quatro reformas que podem criar as
bases para uma infância mais saudável na Era digital, e que são:
1- Nada
de smartphones antes do secundário. Os pais devem adiar o acesso permanente das
crianças à internet, dando-lhes apenas telemóveis básicos (com aplicações
limitadas e sem browser de internet), até ao 9º ano de escolaridade.
2- Nada
de redes sociais antes dos 16 anos. Deixem as crianças atravessar o período
mais vulnerável do seu desenvolvimento cerebral antes de os ligar a uma fonte
de comparação social e de influenciadores escolhidos algoritmicamente.
3- Escolas
livres de telefones. Em todas as escolas, desde a primária ao secundário, os
alunos deveriam guardar os seus telefones, smartphones e quaisquer outros
aparelhos pessoais que possam enviar e receber mensagem de texto, em cacifos ou
estojos fechados durante todo o período letivo. É o único meio de lhes libertar
a atenção para os outros e para os seus professores.
4- Mais
brincadeiras sem supervisão e mais independência durante a infância. É assim
que as crianças desenvolvem competências sociais, superam a ansiedade e se
tornam jovens adultos autónomos de forma natural.
E
também nos adverte que os adultos da Geração X (1965-1980) e de gerações
anteriores não experimentaram o mesmo aumento dos transtornos relacionados com
depressão e ansiedade no período após 2010, mas muitos destas gerações acabam
por sentir o desgaste, a dispersão e o esgotamento provocado pelas novas
tecnologias e as suas incessantes interrupções e distrações, e conjetura que à
medida que a inteligência artificial generativa permite a produção de
fotografias, vídeos e reportagens noticiosas super-realistas, é provável que a
vida online se venha a tornar bastante mais confusa. Impõe-se reagir e
retomarmos o controlo das nossas mentes.
Tirando
algumas apreciações que possam constituir particularidades específicas
norte-americanas, este livro de Jonathan Haidt, é mais do que pertinente para
nós, temos aqui ferramentas para dar novo caminho à Grande Reconfiguração da
Infância. É por isso que classifico este livro como de leitura obrigatória.
Mário
Beja Santos

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