segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Geração Z ou os riscos de uma infância baseada no telemóvel.

 


 

          Pela sua indiscutível oportunidade, pela evidência com que se mostra neste livro as consequências da mudança de uma infância baseada em brincar para uma infância baseada no telemóvel, e quais os danos que tal mudança já está a provocar à saúde mental e ao desenvolvimento social, a leitura de A Geração Ansiosa, por Jonathan Haidt, Publicações Dom Quixote, 2024, é mais do que necessária, e não só para pais e educadores.

          Este reputado psicólogo norte-americano socorre-se de uma comunicação fluída para nos falar de três questões fundamentais: o declínio da infância baseada em brincar; o surgimento da infância baseada no telefone; e qual a ação coletiva que se impõe para que se difunda uma infância mais saudável. Recorda-nos que os membros da Geração Z são hoje cobaias para uma forma radicalmente nova de crescimento, longe das interações da vida real que ocorrem nas pequenas comunidades em que os seres humanos evoluíram ao longo da história; ao fenómeno sociocultural em que vive a Geração Z que designa por A Grande Reconfiguração da Infância, onde avultam as tecnologias que moldam os dias e as mentes das crianças bem como as bem intencionadas e desastrosas medidas se tomam para proteger excessivamente as crianças e restringir a sua autonomia no mundo real; porque as crianças precisam de uma grande porção de jogo livre e, ao invés, os adultos consideram que os filhos não devem sair sem vigilância, preferem-nos em casa a jogar e nos chats. Para um mais claro entendimento do leitor, define interações sociais por quatro características: são corpóreas, no sentido em que usamos os nossos corpos para comunicar; são sincrónicas, isto é, ocorrem ao mesmo tempo e seguem pistas subtis quanto aos tempos e à interação; implicam principalmente a interação de um-para-um ou de um-para-vários, havendo apenas uma interação em cada momento; ocorrem no seio de comunidades com elevados padrões de inclusão e exclusão e por isso as pessoas estão fortemente motivadas a investir nas relações e a solucionar os conflitos quando estes surgem.

          Falando do declínio na saúde mental, este é manifestado por um aumento acentuado nos padrões de ansiedade e depressão, processo que começou no início da década de 2010 e que afeta as raparigas de forma mais acentuada. Os smartphones combinados com proteção excessiva dificultam o acesso das crianças e adolescentes às experiências sociais corpóreas de que mais precisam. Continuando o seu raciocínio quanto às origens da crise de saúde mental na década de 2010, destaca o crescente receio e superproteção parental que se terá instalado na década de 1990. A combinação entre o smartphone e a superproteção acabaram por dificultar o acesso das crianças e adolescentes às experiências sociais corpóreas. Seguidamente, o autor expõe as investigações que mostram que uma infância entrada no telefone perturba o desenvolvimento de múltiplas formas, e destaca quatro danos fundamentais: privação de sono, privação social, fragmentação da atenção e dependência. Igualmente o autor releva a dificuldade em fazer a transição da adolescência para a vida adulta. E conclui este ponto dizendo que a vida centrada no telefone afeta a todos – crianças, adolescentes e adultos. E faz propostas para práticas que nos podem ajudar a todos a viver melhor.

          E assim chegamos ao que se pode e deve fazer agora. Dá conselhos baseados em dados e investigações científicas, sobre o que as empresas tecnológicas, Governos, escolas e pais podem fazer para resolver uma série de problemas de ação coletiva – porque só uma ação coletiva e coordenada permite tomar ações que são melhores para todos a longo prazo. Como ele afirma, a Geração Z tem todas as qualidades necessárias para impulsionar uma mudança positiva. A primeira destas qualidades é não estar em negação, a maioria dos jovens mostra-se recetiva a novas formas de interação. A segunda qualidade será o desejo dessa geração em colaborar num mundo mais justo e solidário, desejo que se pode tornar realidade quando os jovens se organizarem e inovarem, encontrando novas soluções.

          Este psicólogo propõe quatro reformas que podem criar as bases para uma infância mais saudável na Era digital, e que são:

1-    Nada de smartphones antes do secundário. Os pais devem adiar o acesso permanente das crianças à internet, dando-lhes apenas telemóveis básicos (com aplicações limitadas e sem browser de internet), até ao 9º ano de escolaridade.

2-    Nada de redes sociais antes dos 16 anos. Deixem as crianças atravessar o período mais vulnerável do seu desenvolvimento cerebral antes de os ligar a uma fonte de comparação social e de influenciadores escolhidos algoritmicamente.

3-    Escolas livres de telefones. Em todas as escolas, desde a primária ao secundário, os alunos deveriam guardar os seus telefones, smartphones e quaisquer outros aparelhos pessoais que possam enviar e receber mensagem de texto, em cacifos ou estojos fechados durante todo o período letivo. É o único meio de lhes libertar a atenção para os outros e para os seus professores.

4-    Mais brincadeiras sem supervisão e mais independência durante a infância. É assim que as crianças desenvolvem competências sociais, superam a ansiedade e se tornam jovens adultos autónomos de forma natural.

E também nos adverte que os adultos da Geração X (1965-1980) e de gerações anteriores não experimentaram o mesmo aumento dos transtornos relacionados com depressão e ansiedade no período após 2010, mas muitos destas gerações acabam por sentir o desgaste, a dispersão e o esgotamento provocado pelas novas tecnologias e as suas incessantes interrupções e distrações, e conjetura que à medida que a inteligência artificial generativa permite a produção de fotografias, vídeos e reportagens noticiosas super-realistas, é provável que a vida online se venha a tornar bastante mais confusa. Impõe-se reagir e retomarmos o controlo das nossas mentes.

Tirando algumas apreciações que possam constituir particularidades específicas norte-americanas, este livro de Jonathan Haidt, é mais do que pertinente para nós, temos aqui ferramentas para dar novo caminho à Grande Reconfiguração da Infância. É por isso que classifico este livro como de leitura obrigatória.

 

                                                                                            Mário Beja Santos

 

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