domingo, 18 de janeiro de 2026

Na literatura de entretenimento há por vezes obras admiráveis, domina-as uma certa intemporalidade.

 


 

Na chamada literatura de entretenimento, há obras que ganham foros de popularidade, ultrapassando o chamado ciclo efémero mesmo os best-sellers têm por natureza uma vida curta. Um livro como O Código da Vinci, de Dan Brown, está agora completamente esquecido, enquanto um romance como Rebecca, de Daphne du Maurier, ainda hoje atrai muitos leitores. Numa outra perspetiva, há romances que cabem no formato da literatura de entretenimento e possuem em si uma energia literária que assegura sucessivas edições, década após década, é o caso da literatura de crime e mistério de George Simenon, ainda hoje um dos escritores franceses do século XX mais lidos em todo o mundo.

Jeffrey Archer, como escreve na badana do seu romance Uma Questão de Honra, Bertrand Editora, 2024, tem 300 milhões de exemplares vendidos em 114 países e é publicado em 47 línguas, o mesmo é dizer que é um dos maiores autores de best-sellers do planeta. Qual o magnetismo deste livro? Obviamente que tudo vai arrancar com um problema de cariz mundial, em 1966, o líder soviético informa os seus pares do Kremlin de que o ícone São Jorge e o Dragão, que fora propriedade do Czar, era uma falsificação. A Segurança do Estado recebe ordens para descobrir onde está o original, este encerra um segredo de uma desmedida importância, trata-se de um documento estratégico, mexe com a ordem mundial. Vai ser desencadeada uma caça ao tesouro. E como um bom livro é sempre uma história bem contada, estamos agora na leitura de um testamento, ficamos a saber que um antigo coronel das forças britânicas caído em desgraça deixa nesse testamento uma carta misteriosa ao seu filho. Abre-se a caixa de Pandora.

Caçador e fugitivo vão estar no turbilhão dos acontecimentos. Adam Scott, capitão e filho do dito coronel, vê a sua vida virada do avesso, a sua amada brutalmente assassinada e ele passa ao estatuto de fugitivo, os caçadores são o KGB e a CIA e até será vigiado pelos seus compatriotas britânicos. A intenção de todos é silenciá-lo, o documento dentro do ícone original é uma verdadeira bomba atómica.

Voltando ao passado, ficamos a saber que o coronel acompanhava os presos nazis julgados em Nuremberga. O Marechal Goering, que ele vigiava permanentemente, recebera secretamente uma ampola de cianeto de potássio e suicidara-se, mas tinha deixado uma carta ao cuidado do coronel, este fora exautorado pelas suas autoridades pelo suicídio de uma das figuras proeminentes do III Reich. Aquela carta é o busílis da história.

O camarada Romanov é o agente que iniciou a caçada, foi escolhido pela Segurança do Estado para descobrir o paradeiro do ícone do Czar, põe a trabalhar uma equipa de investigadores, descobre-se que uma pretensa cópia fora oferecida a um Grão-Duque alemão, as investigações chegam a Goering, daqui chega-se ao coronel Scott, isto enquanto Adam procura um tradutor alemão, para saber do conteúdo da carta, vai batendo a várias portas. Há uma encomenda guardada num banco em Zurique, nesta altura o leitor já está completamente capturado, poderá ser uma história da carochinha, mas uma boa perseguição e uma estrutura narrativa bem condimentada entre o que faz o perseguidor e como o perseguido se vai desenvencilhando numa apertada teia, cresce o frémito da leitura com o aparecimento de determinadas figuras, como um competente financeiro soviético que a seu tempo preparará uma tremenda armadilha a Romanov.

Este chega ao banco suíço por onde andara Adam Scott, vem à procura de património seu, que poderá fazer dele um milionário. Estamos perante um elemento novo, Adam Scott, que tem a patente de capitão, é candidato a um lugar no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Romanov revela-se um assassino implacável, mata a sua colaboradora que o acompanhara na missão à Suíça, de regresso a Moscovo teve de explicar que a dita colaboradora desapareceu inesperadamente, a visita ao Banco de Zurique revelara um outro ícone que não o pretendido. A Segurança do Estado tem desconfiança do comportamento do Romanov, agora tem outro agente na sua peugada.

O leitor está mais absorvido do que nunca, Adam Scott é já um fugitivo, surge mais um elemento na história Emmanuel Rosenbaum, um velho também portador de um segredo, viremos a saber que se trata de uma caracterização de Romanov, estamos agora em Genebra. A maratona contra o tempo é sufocante, os britânicos vêm a saber que o ícone São Jorge e o Dragão fora deixado ao pai de Scott por Goering. Em Genebra espalham-se agentes no terreno, russos e suíços, Adam para fugir à vigilância dos seus perseguidores disfarça-se de elemento de uma orquestra filarmónica que anda em digressão pela Europa, chegou a altura de introduzir o elemento amoroso, trata-se de Heidi, esta aceita ajudá-lo, ele entra no autocarro que leva os músicos para outra cidade.

Como o leitor pode imaginar tudo irá acabar bem para Adam Scott, o seu perseguidor Romanov irá ter um fim trágico, o documento do ícone jamais abalará as relações entre os EUA e a União Soviética. Então, porquê o título Uma Questão de Honra? Quando finalmente Adam Scott compreende o que tem na sua posse, fica ainda mais determinado a proteger o documento que possui um segredo avassalador, a sua fuga desesperada pela verdade vai mais além do que é uma questão de vida ou de morte, é uma questão de honra, aquele segredo acabará por reabilitar o nome do seu pai, e aquele ícone que levara à morte de gente foi vendido por 14 mil libras em leilão.

E não digo mais, este thriller de um grande contador de histórias merece a melhor atenção do leitor que queira acompanhar uma caçada ao tesouro em 1966, em plena guerra fria, porque aquele envelope deixado em testamento podia pôr em marcha uma cadeia de acontecimentos, suscetível de alterar o equilíbrio entre as duas superpotências.

Lê-se com agrado, pode-se não acreditar na história bem contada, diga-se em abono da verdade que ela já foi tratada por outros romancistas, mas é um entretenimento desopilante de primeiríssima classe. 


                                                                Mário Beja Santos

 


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