Para comemorar os 15 anos da coleção
Ensaios da Fundação reúnem-se textos de dezassete autores sobre temas da
atualidade nacional. A obra chama-se Livros leves. Opinião de peso.
Fundação Francisco Manuel dos Santos. No prefácio, o diretor de publicações
António Araújo faz uma breve viagem pelas bibliotecas de difusão de
conhecimento que fazem parte da história da cultura portuguesa dos séculos XIX
e XX, até chegarmos a estes ensaios que somam 152 títulos, dois milhões de
livros nas mãos dos portugueses.
Abre as hostilidades José Manuel Sobral
falando da identidade nacional, discorre sobre as muitas metamorfoses por que
vivemos concluindo “No mundo cada vez mais globalizado, e onde as migrações
assumiram um carácter massivo, a identificação oficial continua a ser feita em
termos nacionais, de que decorrem processos de inclusão ou exclusão em termos
de direitos de cidadania, o que mostra a sua importância decisiva para os
destinos individuais. E se a inserção dos Estados nacionais em organizações
internacionais ou mesmo supranacionais, como, no caso português, a União
Europeia, lhes retirou soberania, não parece ter afetado a preeminência dada
pela população à pertença nacional.”
Tiago Fernandes responde pelo ensaio O
regime democrático em Portugal (1974-2025). Mostra as suas reservas aos que
agitam que está próxima uma crise demográfica em Portugal, lembrando que o
sistema democrático conta com partidos liberais-democráticos robustos capazes
de competir com a direita radical. “Embora enfraquecidos, o centro-direita e o
centro-esquerda tradicionais não desapareceram, como em muitas outras
democracias contemporâneas. E persiste a natureza interclassista do PS e do
PSD. Embora o voto nos partidos de direita continue associado a maiores níveis
de rendimento e prática religiosa, as bases sociais e apoio dos principais
partidos portugueses são ainda socialmente diversas e plurais. Um último
recurso para resistir a uma eventual crise democrática e derrotar a
extrema-direita, caso esta chegue ao poder máximo do Estado, é a sociedade
civil portuguesa, cujas raízes remontam à revolução de 1974-1975. Em Portugal,
os símbolos, as canções e os temas expressos em eventos de protesto refletem uma
forte memória do momento fundador da democracia, o 25 de abril.”
Luciano Amaral vem abordar a economia
portuguesa no século XXI. Dirá que o grande problema social português, ao fim
de 50 anos de democracia, é fundamentalmente económico. “O grande escolho no
caminho do maior crescimento continua a ser o baixo nível de produtividade da
economia. Não é fácil perceber como resolvê-lo. Já se tentou muito,
especialmente com as reformas estruturais propostas pela Troika. Mas o impacto
no crescimento foi limitado. Talvez porque o principal problema da economia
portuguesa se mantém: a baixa intensidade de capital (isto é, a baixa relação
entre os instrumentos de produção existentes, como máquinas, infraestruturas ou
veículos de transporte e a mão-de-obra) e a fraca produtividade desse mesmo
capital.” E convém não esquecer que estamos a enfrentar novas e grandes
incertezas e se regressou em força ao protecionismo da economia mundial.
Nuno Garoupa é autor de um dos mais
polémicos textos deste livro, sobre O Inconseguimento crónico da Justiça
portuguesa. Não esquecendo que os ganhos conjunturais não ocultam a
persistência de problemas estruturais e o agravamento de bloqueios, é
profundamente crítico com os governos PS e PSD/CDS, diz terem uma visão míope
da justiça. “Continuam a apresentar medidas avulsas para descongestionamento ou
simplificação processual, como se o problema fosse de gestão corrente e não de
bloqueio institucional. Após 30 anos de reformas pontuais, o que se impõe é uma
mudança de paradigma. É necessário um programa coerente, sustentado numa visão
estratégica de 20 anos, capaz de reestruturar o sistema judicial de forma
integrada. Tal mudança exige mecanismos estáveis e institucionais para planear,
debater, propor e avaliar reformas estruturais. A proposta de criação de uma
comissão permanente e independente para a reforma da justiça permanece
ignorada. Curiosamente, a AD recuperou essa proposta no seu programa eleitoral de
2024, mas abandonou-a assim que chegou ao poder. Esta recorrente ausência de
continuidade revela um padrão de governação que privilegia promessas eleitorais
vazia em detrimento de compromissos institucionais duradouros.” E elenca as
diferentes dimensões que vemos abarcadas por uma reforma paradigmática.
Confesso que o texto que mais me
impressionou pela sua originalidade é o de Sofia Guedes Vaz intitulado Um
alfabeto do ambiente. Pôs-se em viagem, foi percorrer a Estrada Nacional 2
em bicicleta. “Queria construir uma cartografia pessoal do território a partir
da perspetiva desse meio de transporte, uma visão lenta, silenciosa, sensorial
e próxima do chão. Queria reencontrar a sustentabilidade do país em mim,
percorrer um atlas vivo da geografia portuguesa e transformar os 738 Km de
Chaves a Faro num percurso de dúvidas e incertezas, mas acima de tudo
esperança.” E construiu um alfabeto suscetível de inspirar alguém. A: Amor, dá
esperança quando tudo parece falhar. B: Bicicleta, não só pela paz que dá
naquele caminhar, mas também porque tem sido o grande responsável por uma
revolução suave na mobilidade. C: e se o Consumo fosse um ato de cidadania,
porque consumir é um ato político e ético, por inerência um ato de cidadania.
D: Descarbonizemos, porque descarbonizar está ligado às florestas, somos um
país florestal, no qual mais de 30% do território contém árvores. E: Ecosofia,
uma filosofia pessoal vivida em harmonia ecológica. A autora caminha para a
letra I: Incêndios e diz-nos que foi de Castro Daire até Viseu poucos dias
depois de um grande incêndio. “Foi doloroso ver, sentir e cheirar as paisagens
desoladoras e escuras, carbonizadas”, irá depois falar em lixeiras, em
plásticos, nos oceanos, na qualidade do ar, nas energias renováveis, não
esquecerá as utopias. E despede-se do leitor com amenidade e um olhar num
futuro melhor: “T de Tempo, a liberdade de não olhar para o relógio. Tempo para
o Outro, Tempo para nos reconectarmos com a comunidade. G de Gratidão, por
tudo, pela natureza e por quem me apoiou ao longo desta aventura. E S de
Silêncio, claro. Apesar de ter encontrado gente gira, as horas de silêncio
foram as mais especiais. Silêncio é para sonharmos com um mundo melhor.” Passei
ao crivo algumas citações de ensaios de grande qualidade que abrem pistas para
refletirmos sobre o país que somos e como ele poderá vir a ser mais livre, mais
justo e mais desenvolvido.
De leitura obrigatória.
Mário Beja Santos

Sem comentários:
Enviar um comentário