sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Deixem a francesinha em paz.

 


                                           Daniel David da Silva



Há coisas que ganham importância precisamente porque nunca pediram importância nenhuma. A francesinha era uma delas. Nasceu no Porto, na Regaleira, ali por 1952 ou 1953, pela mão de Daniel David da Silva, homem regressado de França e da Bélgica, onde conhecera o croque-monsieur e o croque-madame — sandwiches quentes de café parisiense, discretas, civilizadas, com meio século de avanço sobre as nossas derivadas nortenhas.

E talvez esteja aí o segredo. O croque francês sabia exactamente o que era: comida de brasserie. Pão, queijo, fiambre, béchamel, um ovo por cima na versão madame, e siga. Nunca precisou de ser património da humanidade nem assunto de debates identitários. Os franceses, que levam a cozinha mais a sério do que nós levamos a política, perceberam sempre uma coisa elementar: há pratos que existem para dar conforto, não para impressionar.

A francesinha, quando nasceu, também sabia isso. Era comida de cervejaria. Mais pesada, até excessiva, um disparate maravilhoso para acompanhar finos com batatas fritas e boa conversa. Pão de forma, bife, linguiça, salsicha fresca, queijo flamengo derretido e um molho atomatado, picante e ligeiramente ordinário — a cheirar a cerveja, como deve ser. Uma sandwiche para comer sem fotografar. Ninguém saía da Regaleira a discutir notas de prova do molho.

Mas eis que chegou a era da francesinha gourmet. E com ela o brioche. O brioche é sempre o primeiro sinal de decadência gastronómica. Surge inevitavelmente quando alguém decide que um prato popular precisa de “elevação”. Depois vêm a trufa, os enchidos artesanais de pequenos produtores emocionados, o cheddar maturado, a redução de vinho do Porto, o hambúrguer wagyu e outras faltas de originalidade contemporâneas. Tudo servido em tábuas de madeira, para que a sandwich possa ser fotografada antes de arrefecer.

O mais curioso é que os franceses, tão dados a modernices quanto qualquer lisboeta de barba aparada, também fazem versões hipster do croque-monsieur há anos — com trufa (croque au truffe), salmão fumado (croque norvégian) ou queijo de cabra (croque provençal) — mas ao menos têm a decência de lhes chamar outra coisa. O original continua sossegado nos cafés e bistrôs, sem crises existenciais.

Por cá não. Aqui as próprias cervejarias e tascas parecem competir para destruir aquilo que lhes dava sentido. Em vez de fazerem uma francesinha clássica impecável, assumindo-a como aquilo que é, decidiram entrar numa corrida para ver quem inventa a francesinha mais instagramável do país.

E depois veio a expansão. Braga na linha da frente, Lisboa logo atrás, cada cidade convencida de que consegue “melhorar” uma receita portuense que nunca pediu melhoramentos. A francesinha não é alta cozinha. Felizmente.

É uma extravagância popular nascida numa cervejaria do Porto nos anos 50, inspirada numa sandwiche francesa de café. E talvez a melhor forma de a respeitar seja precisamente parar de tentar transformá-la noutra coisa qualquer. 


                                            José António Nogueira de Brito





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