Hoje em dia, já ninguém come só porque tem fome.
Comer tornou-se uma identidade.
O foodie é o turista da comida: tira
fotografias, faz perguntas, comenta tudo e dá notas. Gosta mais da ideia de
comer do que do próprio acto. É capaz de comer um pastel de nata desconstruído
e dizer que foi “inesquecível”. Foi, mas não pelo sabor.
O gourmand é outro campeonato. Come de tudo,
e muito, é um bocado alarve. Não quer saber se o prato tem pedigree — desde que
tenha sabor. É feliz com arroz de carqueja e ainda mais feliz com arroz de
carqueja repetido. O gourmand não inventa, não conceptualiza, não fotografa.
Come. E isso, atualmente, é quase revolucionário.
O gourmet, por fim, é o grand seigneur
da mesa. Fala de vinhos como de uma cátedra. Não come, degusta. De preferência
com espuma de trufa e sobre um blini. É sofisticado, culto e um
bocadinho ridículo. Acha que comer é sobretudo uma arte. E às vezes,
só às vezes, tem razão.
José António Nogueira de Brito

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