Pensar em
comida de conforto, aquilo a que dantes chamávamos comida caseira, é falar de
rolo de carne. Carne picada, temperos, pão, recheio opcional, tudo moldado num
cilindro e levado ao forno. Tão simples e familiar como saboroso e
reconfortante. Ao ponto de todos gostarmos de o comer em casa, mas não se
servir em casa nenhuma.
É cozinha
de aproveitamento e economia, familiar, mas com boa apresentação. Fatias bem
formadas, que podem ser bonitas consoante o recheio: de cenouras e aipo a
chouriço, farinheira ou salsichas, passando pelo simples e fotogénico ovo
cozido. Quase sempre com queijo. Ou tipo terrine, com recheio de foie gras e
envolto em fatias de bacon.
Mas não
se pense que é apenas um prato da cozinha familiar do século XX. Já os romanos
picavam carne e misturavam-na com pão ou farinha. O truque não estava apenas em
fazê-la render, mas em conseguir uma massa que ligasse tudo com os temperos.
Durante séculos, picar ou triturar carne foi uma forma de aproveitar diferentes
cortes e sobras. Misturada com pão, gordura, ervas, ovos e especiarias, dava
origem a recheios, almôndegas ou peças maiores para assar. Não é por acaso que
em Itália lhe chamam polpettone, literalmente uma grande almôndega.
As
primeiras receitas escritas de versões reconhecíveis do rolo de carne aparecem,
no entanto, sobretudo no século XIX, nas cozinhas alemã e austríaca, entre
outras. Foi preciso a princesa Estefânia da Bélgica, casada com Rodolfo,
príncipe herdeiro da Áustria, interessar-se pelo prato, em versões mais
exuberantes, com ovos, salsichas e pepinos de conserva, para este ganhar
estatuto na corte dos Habsburgos. Daí o nome Stefaniebraten, Rulo Stefani ou
Stefánia szelet, conforme os países da Europa Central.
Já os
alemães e os dinamarqueses, de uma honestidade quase brutal, chamaram-lhe
Falscher Hase e Forloren hare, respetivamente: lebre falsa. O assado até podia
passar por uma lebre, falsa, naturalmente.
Terão
sido precisamente os emigrantes germânicos a levá-lo para as Américas. No
Chile, a ligação é evidente até no nome: asado alemán, particularmente
associado ao sul do país. Nos Estados Unidos, a história passa primeiro pelo
scrapple, uma massa de carne de porco com farinha de milho, tradicional na
Pensilvânia, terra de forte presença alemã, que se arrefecia, cortava em fatias
e fritava. Não era propriamente um rolo de carne, mas partilhava a mesma lógica
de aproveitamento. Daí até ao famoso meatloaf, na forma que hoje conhecemos, o
caminho não foi necessariamente direto. O prato consolidou-se no século XIX e
popularizou-se ainda mais durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra
Mundial.
Não
confundir com o nome do cantor! Neste caso, Meat Loaf era a alcunha de Marvin
Lee Aday. De pele muito rosada e rechonchudo em criança, o pai chamava-lhe
carinhosamente Meat. O treinador de futebol fez o resto: por lhe ter pisado um
pé, gritou-lhe que tirasse de cima do dele aquele «pedaço de rolo de carne». E
assim nasceu o nome artístico, quando ainda não se falava tanto de bullying.
Voltando
à cozinha e ao século XIX, o Boston Cooking School Cookbook, de 1884 — não
confundir com o Boston Consulting Group — já incluía receitas de carne picada
ligada com pão ralado e ovos. Daí até aos anos 1950 foi um ápice: o prato
tornou-se um clássico da cozinha doméstica americana.
Não deixa
de ser curioso: os alemães levaram a tradição para a América e foi por causa
deles, ou melhor, da guerra contra eles, que o prato se tornou ainda mais
popular. A blitzkrieg também teve os seus efeitos colaterais gastronómicos. A
História tem destas ironias.
Claro que
os americanos tinham de lhe pôr uma marca: o rolo passou a ser coberto de
ketchup, para lhe dar doçura, cor e aquele verniz alaranjado da assadura. Mas
não se pense que por cá estamos imunes. Uma receita divulgada pela RTP, no
programa Cá por Casa, em dezembro de 2018, combina carne de vaca, pão embebido
em leite, ovos, parmesão, salsa e mostarda, com um molho de tomate que leva
ketchup e açúcar mascavado. Enfim, há gostos para tudo.
Eu
prefiro o rolo seco, segundo uma receita que tem passado na família. Mais
trabalhoso, mas requintado. Cozido em água, apertado dentro de um pano, vai
depois ao forno, coberto de pão ralado. Um molho de carne e um belo puré fazem
o resto.
Desta ou
de outra forma, hoje é comida caseira em todo o mundo. Turcos, vietnamitas,
filipinos, chilenos: todos têm a sua versão. Mudam os temperos, as ervas
aromáticas e os recheios, mas a ideia mantém-se.
Talvez
essa seja a sua maior virtude. Sem uma história grandiosa, associado a uma
corte, a um convento ou a uma região, o rolo de carne internacionalizou-se e
pertence hoje, sobretudo, à história quotidiana da alimentação familiar.
Cozinha
caseira. Ou, para sermos modernos, comida de conforto.
José
António Nogueira de Brito

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