segunda-feira, 8 de junho de 2020

São Cristóvão pela América (16).




Os Harvard Art Museums em Cambridge, Massachusetts, prosseguem fechados pelo menos até Setembro.

No seu espólio, um desenho atribuído a Domenico Morone (1442-1518), feito em Verona, e identificado pelos museus de Harvard como São Cristóvão.




De Francesca Alexander (1837-1917) um desenho-poema da segunda metade do Século XIX, extraído da sua obra Tuscan songs:



De um autor anónimo conhecido como o Mestre de Santo Ildefonso, esta pintura do Século XV devia constituir a aba de um altar desdobrável:




Da autoria de outro anónimo conhecido como o Mestre da Vida de Santa Inês, este quadro representando São Sebastião e São Cristóvão:



No Smithsonian Art Museum uma escultura em ouro, pedras preciosas e esmalte dos primeiros anos do Século XVII:



José Liberato
















Roger Williams Park, Providence.









Fotografias de Onésimo Teotónio de Almeida









B5: Bambo nº 5 (2/5)







Para a 5ª sinfonia beethoveana de hoje é necessário empenhamento, espírito de aventura e atenção fina para uma audição em duas etapas: a 1) e a 2). Não é possível, desta vez, começar pela segunda, muito menos sem preparar a primeira. Ajuda, ainda, alguma bonomia face à qualidade audiovisual deficiente de alguns documentos. Enquanto não sabem que são históricos, podem ser bastante negligentes na apresentação.

1) A etapa propedêutica é esse clássico a sul do Equador, o Mambo nº 5, de Pérez Prado e a sua orquestra. Quem preferir pode também entrar aqui, com o “plus” coreográfico e a vivacidade “live” a compensarem a qualidade sonora abaixo de fraca.




2) Mau grado a qualidade visual do vídeo que se segue, também ela deficiente, quem respeitou a ordem instituída neste post estará agora em plenas condições de identificar o original híbrido que é a proposta nipónica de Akira Miyagawa e da sua orquestra de jovens músicos, sendo para tal obrigatória a visualização integral do primeiro minuto. Poderá depois, num eixo geomusical Norte-Sul-Ocidente-Oriente, desfrutar a título opcional da própria felicidade do maestro, particularmente patente a partir do momento 2’35’’.




Manuela Ivone Cunha








Portugal 1943.



domingo, 7 de junho de 2020

B5: Onde está o açucareiro? (1/5)






Tal a palestrante que, perante uma assistência hesitante em disparar a primeira pergunta do debate – sempre a mais intimidante –, sugere avançar de imediato para a segunda, proponho-me saltar a ainda inexistente quarta contribuição para a efeméride alternativa do 250º aniversário de Beethoven e passar diretamente à quinta. Mais propriamente, a quinta das suas sinfonias, que aqui será designada pelo acrónimo vitamínico B5 e não se limitará à quinta-feira, mas se desdobrará em várias “quintas de Beethoven” ao longo de cinco dias. 

É de lembrar que o rol de contributos para esta efeméride se mantém resolutamente fiel à promessa de não passar da curiosidade de algibeira, do fait-divers, e de gracinhas musicais com e sem tino para todas as idades.

Começa-se, como é lógico, pelo princípio, sendo o princípio o próprio processo de composição do primeiro andamento da sinfonia e as condições materiais e objetivas da sua produção, em particular das primeiras quatro notas.

Esse pompompompom de abertura que viria a constituir um dos motivos mais célebres da história da música ocidental, e que continua ainda hoje a pôr à prova muito maestro e maestrina, é assim explicado allegro con brio, densidade e contexto pelos Monty Python Flying Circus:


Manuela Ivone Cunha.









sexta-feira, 5 de junho de 2020

George Floyd, in memoriam.




No início desta semana corri seca e meca desta Net toda em busca de dados e mais dados sobre George Floyd, para um obituário dele que vai sair ou já saiu no Expresso. Depois, hoje, a Rita mandou-me isto, que é a oração fúnebre de Al Sharpton. Claro que tremi. Trememos todos, ou não?














São Cristóvão pela América (15).




Os Harvard Art Museums, também fechados, têm um acervo notável.

Comecemos pela gravura.

Do anónimo Mestre FVP activo na Flandres na 2ª metade do Século XV:




De uma edição de 1507 da Lenda Dourada de Voragine, publicada em Lübeck, o capítulo referente a São Cristóvão com uma ilustração:




De um anónimo de Veneza, uma gravura do Século XVI, tendo em baixo uma oração ao Santo implorando uma boa colheita de fruta:




De um gravador francês do Século XIX que assinava J. Hebert:



De Orazio Borgianni (1574-1616), versão em gravura de um quadro do próprio:




E finalmente de Bartolomeo Biscaino (1632-1657), uma gravura representando São Cristóvão de joelho em terra, talvez no momento em que, não obstante o peso, termina a sua missão de conduzir o Menino ao outro lado da margem:




José Liberato












Obrigadhiggs.








Estas ilustrações são do Vítor Higgs e termos uma coisa nossa ilustrada assim é assim uma coisa hum, sem palavras. Obrigado, Vítor.






quinta-feira, 4 de junho de 2020

o deus das pequenas coisinhas.








Via Rita Sá Marques, entrou-me hoje pela vista dentro o trabalho estupidamente estupendo de Dalton Paula, de que aqui apenas se mostra uma pálida e muito pequenina amostra. Tudo o que ali vemos tem, digamos, boa energia e, logo, boa onda, quem precisados estamos. 














São Cristóvão pela América (14).





O Detroit Institute of Arts é outro dos museus americanos fechado por razões sanitárias.

Possui nas suas colecções um vitral alemão dos primeiros anos do Século XVI:



No Museu de Detroit uma gravura de Andrea Zucchi (1678-1770) feita a partir de um quadro de Tintoretto representando o martírio de São Cristóvão:



Ainda no Detroit Institute of Arts um célebre quadro de Lucas Cranach o Velho (1472-1553) do primeiro quartel do Século XVI. A assinatura de Cranach está no tronco em baixo do lado esquerdo: uma cobra pintada a preto. Menino Jesus não exibe o orbe, antes indica o caminho. Original a presença da sereia em primeiro plano:



Nos Estados Unidos há ainda outro quadro de Lucas Cranach o Velho representando São Cristóvão. Está no Cummer Museum of Art and Gardens em Jacksonville na Flórida:



No Timker Museum of Art em San Diego, Califórnia, um tríptico de Niccolo di Buonaccorso, pintor italiano activo na segunda metade do Século XIV, intitulado Nossa Senhora da Humildade. Santa Catarina à direita da Virgem. O tríptico devia ser portátil pelo que a sua utilização em viagem justifica a presença de São Cristóvão:





José Liberato















quarta-feira, 3 de junho de 2020

A rockin' pneumonia. Roll Over Beethoven.





You know my temperature's risin'
And the jukebox's blows a fuse
My heart's beatin' rhythm
And my soul keeps singing the blues
Roll over Beethoven
And tell Tchaikovsky the news
I got a rockin' pneumoniaI need a shot of rhythm and blues
I think I got it off the writerSittin' down by the rhythm revue
Roll over Beethoven
We're rockin' in two by two

E vão três. Mais um contributo para a efeméride Beethoven. Humor negro no destaque em título, mas Beethoven não se eriçaria, creio – ele que ria quando uma improvisação lhe saía estupenda, e ria depois da emoção que provocava em quem o ouvia: “Estão doidos? Sois doidos. Como se pode viver entre crianças mimadas assim?”

E mau grado o semblante carregado, a roçar a fúria, com que por vezes o pintam, rir-se-ia ainda deste Roll Over Beethoven, de Chuck Berry. Quanto a mim, rio-me além disso com “Tchaikovsky”, na pronúncia de Berry:




Manuela Ivone Cunha





Passeio ao Jardim.







José Liberato, sempre culto e atento, mandou isto, um extraordinário (e repousante) passeio pelo Jardim das Delícias, de Hieronymus Bosch. Entrai, entrai.

















segunda-feira, 1 de junho de 2020

Horologium florae. A hora das flores.






Nunca soube de onde vem a expressão “vulgar de Lineu”, um depreciativo aplicado àquilo que é corriqueiro e banal.  E é com a soberba dos ignorantes que declaro não tencionar ir à internet descobrir. Dispensei-me de o fazer a partir do momento em que me deparei com uma ideia extraordinária do próprio Lineu, ideia essa que, sendo extraordinária e por conseguinte propriamente invulgar, de vulgar não terá então nada, embora continue a ser de Lineu. Carl Linnaeus, esse mesmo, o pai da taxonomia.

A ideia pode não ter tanta utilidade para o progresso da humanidade em geral e do conhecimento em particular. Mas sem belas extravagâncias, daquelas que não fazem mal a nada nem a ninguém, a humanidade também não ia a lado nenhum de jeito.

Com o suspense já no ponto de rebuçado, a revelação: Lineu, o botânico, pôs um jardim a dar horas. Não o dia e a noite, para aqueles desorientados que nem nisto sabem a quantas andam – isso sim, seria vulgar da parte de Lineu. São mesmo todas as horas, do dia e da noite. Um jardim com dezenas de plantas cujas flores se abrem e fecham em momentos particulares do dia, dispostas na sequência devida, e… voilá: eis o relógio floral. Um relógio, para mais, com uma precisão surpreendente, a tal ponto que os relojoeiros suecos tomaram Lineu de ponta por recearam ter de fechar portas. Como podiam eles saber que o relógio interno a comandar o movimento rítmico das plantas também tem os seus quês complicativos, como a latitude e a duração do dia?

Quem diz dia, diz noite. Sim, há florações notívagas e crepusculares, como há abelhas diurnas e borboletas noturnas, que isto é todo um pas-de-deux entre as plantas e os seus polinizadores. Dizer que é um pas-de-deux sofisticado é pouco, quando já começa a conseguir fintar as alterações climáticas que tantos desencontros têm causado a estes pares, pondo os Romeus a acordar da hibernação cedo de mais, quando as Julietas ainda estão pasmadas a dormir a desoras.

Pois essa delícia estapafúrdia que foi a experiência cronobiológica do relógio de flores, agora ao alcance de qualquer canteiro, seria replicada no século 20, desta vez numa peça de relojoaria musical chamada L'Horloge de Flore, de Jean Françaix. Cada andamento dá pelo nome de uma flor, em função da posição no relógio.

Em baixo duas flores-horas-músicas desse relógio, uma noturna e uma diurna:

1) Um cacto notívago, para começar, cujas grandes flores se abrem, magníficas, depois das 10h da noite.

2) No pico do dia, por volta das 12h, o jasmim de Malabar, que já vi designar de planta “triste”. Triste? O compositor discorda em absoluto, com toda a razão. Basta ouvir.

3) A dar-lhe igualmente razão, mas antes do tempo deste relógio, o conhecido Dueto das Flores, da ópera Lakmé, de Léo Delibes. Mais do que conhecido, conhecidíssimo a partir do minuto 1, por via de publicidade e de filmes onde entram perfumes, atmosferas florais ou tecidos vaporosos e esvoaçantes. É o jasmim, no seu enlace com a rosa, que encanta Lakmé pela manhã. A história não acaba bem-bem, mas o jasmim não tem culpa disso.
      
1)
10h (p.m.) – “Cierge à grandes fleurs”, L'Horloge de Flore, de Jean Françaix, com Albrecht Mayer no oboé e a Academy of St. Martin in the Fields, conduzida por Mathias Mönius.



2)
12h – “Nycanthe du Malabar”, L'Horloge de Flore, de Jean Françaix, com Albrecht Mayer no oboé e a Academy of St. Martin in the Fields, conduzida por Mathias Mönius.




3)
Dueto das Flores ("Viens, Mallika"), Lakmé (Ato 1), de Delibes. Na interpretação perfeita da soprano Sabine Devieilhe e da mezzo-soprano Marianne Crebassa, com a orquestra Les Siècles, dirigida por François-Xavier Roth (também pode ser vista a mexer em traje informal aqui). 




Manuela Ivone Cunha