Para
a 5ª sinfonia beethoveana de hoje é necessário empenhamento, espírito de
aventura e atenção fina para uma audição em duas etapas: a 1) e a 2). Não é
possível, desta vez, começar pela segunda, muito menos sem preparar a primeira.
Ajuda, ainda, alguma bonomia face à qualidade audiovisual deficiente de alguns
documentos. Enquanto não sabem que são históricos, podem ser bastante negligentes
na apresentação.
1) A
etapa propedêutica é esse clássico a sul do Equador, o Mambo nº 5, de Pérez Prado e a sua orquestra. Quem preferir pode
também entrar aqui,com
o “plus” coreográfico e a vivacidade “live” a compensarem a qualidade sonora
abaixo de fraca.
2) Mau
grado a qualidade visual do vídeo que se segue, também ela deficiente, quem
respeitou a ordem instituída neste post
estará agora em plenas condições de identificar o original híbrido que é a
proposta nipónica de Akira Miyagawa e da sua orquestra de jovens músicos, sendo
para tal obrigatória a visualização integral do primeiro minuto. Poderá depois,
num eixo geomusical Norte-Sul-Ocidente-Oriente, desfrutar a título opcional da
própria felicidade do maestro, particularmente patente a partir do momento
2’35’’.
Tal a
palestrante que, perante uma assistência hesitante em disparar a primeira
pergunta do debate – sempre a mais intimidante –, sugere avançar de imediato para
a segunda, proponho-me saltar a ainda inexistente quarta contribuição para a
efeméride alternativa do 250º aniversário de Beethoven e passar diretamente à
quinta. Mais propriamente, a quinta
das suas sinfonias, que aqui será designada pelo acrónimo vitamínico B5 e não se
limitará à quinta-feira, mas se desdobrará em várias “quintas de Beethoven” ao
longo de cinco dias.
É de
lembrar que o rol de contributos para esta efeméride se mantém resolutamente
fiel à promessa de não passar da curiosidade de algibeira, do fait-divers,
e de gracinhas musicais com e sem tino para todas as idades.
Começa-se,
como é lógico, pelo princípio, sendo o princípio o próprio processo de
composição do primeiro andamento da sinfonia e as condições materiais e objetivas
da sua produção, em particular das primeiras quatro notas.
Esse
pompompompom de abertura que viria a constituir um dos motivos mais célebres da
história da música ocidental, e que continua ainda hoje a pôr à prova muito
maestro e maestrina, é assim explicado allegro
con brio, densidade e contexto pelos Monty Python Flying Circus:
No
início desta semana corri seca e meca desta Net toda em busca de dados e mais
dados sobre George Floyd, para um obituário dele que vai sair ou já saiu no
Expresso. Depois, hoje, a Rita mandou-me isto, que é a oração fúnebre de Al
Sharpton. Claro que tremi. Trememos todos, ou não?
Os
Harvard Art Museums, também fechados, têm um acervo notável.
Comecemos
pela gravura.
Do
anónimo Mestre FVP activo na Flandres na 2ª metade do Século XV:
De
uma edição de 1507 da Lenda Dourada de Voragine, publicada em Lübeck, o
capítulo referente a São Cristóvão com uma ilustração:
De
um anónimo de Veneza, uma gravura do Século XVI, tendo em baixo uma oração ao
Santo implorando uma boa colheita de fruta:
De
um gravador francês do Século XIX que assinava J. Hebert:
De
Orazio Borgianni (1574-1616), versão em gravura de um quadro do próprio:
E
finalmente de Bartolomeo Biscaino (1632-1657), uma gravura representando São
Cristóvão de joelho em terra, talvez no momento em que, não obstante o peso,
termina a sua missão de conduzir o Menino ao outro lado da margem:
Via
Rita Sá Marques, entrou-me hoje pela vista dentro o trabalho estupidamente
estupendo de Dalton Paula, de que aqui apenas se mostra uma pálida e muito
pequenina amostra. Tudo o que ali vemos tem, digamos, boa energia e, logo, boa
onda, quem precisados estamos.
O Detroit Institute of
Arts é outro dos museus americanos fechado por razões sanitárias.
Possui nas suas colecções
um vitral alemão dos primeiros anos do Século XVI:
No Museu de Detroit uma gravura de Andrea Zucchi (1678-1770)
feita a partir de um quadro de Tintoretto representando o martírio de São
Cristóvão:
Ainda no Detroit Institute
of Arts um célebre quadro de Lucas Cranach o Velho (1472-1553) do primeiro
quartel do Século XVI. A assinatura de Cranach está no tronco em baixo do lado
esquerdo: uma cobra pintada a preto. Menino Jesus não exibe o orbe, antes
indica o caminho. Original a presença da sereia em primeiro plano:
Nos Estados Unidos há
ainda outro quadro de Lucas Cranach o Velho representando São Cristóvão. Está
no Cummer Museum of Art and Gardens em Jacksonville na Flórida:
No Timker Museum of Art
em San Diego, Califórnia, um tríptico de Niccolo di Buonaccorso, pintor
italiano activo na segunda metade do Século XIV, intitulado Nossa Senhora da Humildade.
Santa Catarina à direita da Virgem. O tríptico devia ser portátil pelo que a
sua utilização em viagem justifica a presença de São Cristóvão:
I got a rockin' pneumoniaI need a shot of rhythm
and blues
I think I got it off the writerSittin' down by
the rhythm revue
Roll over Beethoven
We're rockin' in two by two
E vão três.
Mais um contributo para
a efeméride Beethoven. Humor negro no destaque em título, mas Beethoven não se eriçaria,
creio – ele que ria quando uma improvisação lhe saía estupenda, e ria depois da
emoção que provocava em quem o ouvia: “Estão doidos? Sois doidos. Como se pode viver
entre crianças mimadas assim?”
E mau grado o semblante carregado, a
roçar a fúria, com que por vezes o pintam, rir-se-ia ainda deste Roll Over Beethoven, deChuck Berry. Quanto a mim, rio-me além
disso com “Tchaikovsky”, na pronúncia de Berry:
José
Liberato, sempre culto e atento, mandou isto, um extraordinário (e repousante) passeio pelo Jardim
das Delícias, de Hieronymus Bosch. Entrai, entrai.
Nunca soube de onde
vem a expressão “vulgar de Lineu”, um depreciativo aplicado àquilo que é
corriqueiro e banal. E é com a soberba dos
ignorantes que declaro não tencionar ir à internet descobrir. Dispensei-me de o
fazer a partir do momento em que me deparei com uma ideia extraordinária do
próprio Lineu, ideia essa que, sendo extraordinária e por conseguinte propriamente
invulgar, de vulgar não terá então nada, embora continue a ser de Lineu. Carl
Linnaeus, esse mesmo, o pai da taxonomia.
A ideia pode não ter
tanta utilidade para o progresso da humanidade em geral e do conhecimento em
particular. Mas sem belas extravagâncias, daquelas que não fazem mal a nada nem
a ninguém, a humanidade também não ia a lado nenhum de jeito.
Com o suspense já no ponto de rebuçado, a
revelação: Lineu, o botânico, pôs um jardim a dar horas. Não o dia e a noite,
para aqueles desorientados que nem nisto sabem a quantas andam – isso sim, seria
vulgar da parte de Lineu. São mesmo todas
as horas, do dia e da noite. Um jardim com dezenas de plantas cujas flores se abrem e fecham em
momentos particulares do dia, dispostas na sequência devida, e… voilá: eis o relógio floral. Um relógio,
para mais, com uma precisão surpreendente, a tal ponto que os relojoeiros
suecos tomaram Lineu de ponta por recearam ter de fechar portas. Como podiam
eles saber que o relógio interno a comandar o movimento rítmico das plantas também
tem os seus quês complicativos, como a latitude e a duração do dia?
Quem
diz dia, diz noite. Sim, há florações notívagas e crepusculares, como há
abelhas diurnas e borboletas noturnas, que isto é todo um pas-de-deux
entre as plantas e os seus polinizadores. Dizer que é um pas-de-deux
sofisticado é pouco, quando já começa a conseguir fintar
as alterações climáticas que tantos desencontros têm causado a estes pares,
pondo os Romeus a acordar da hibernação cedo de mais, quando as Julietas ainda
estão pasmadas a dormir a desoras.
Pois essa delícia estapafúrdia que
foi a experiência
cronobiológica do relógio de flores, agora ao alcance de qualquer canteiro, seria
replicada no século 20, desta vez numa peça de relojoaria musical chamada L'Horloge de Flore, de Jean Françaix. Cada
andamento dá pelo nome de uma flor, em função da posição no relógio.
Em
baixo duas flores-horas-músicas desse relógio, uma noturna e uma diurna:
1) Um
cacto notívago, para começar, cujas grandes flores se abrem, magníficas, depois
das 10h da noite.
2) No
pico do dia, por volta das 12h, o jasmim de Malabar, que já vi designar de planta
“triste”. Triste? O compositor discorda em absoluto, com toda a razão. Basta
ouvir.
3) A
dar-lhe igualmente razão, mas antes do tempo deste relógio, o conhecido Dueto
das Flores, da ópera Lakmé, de Léo Delibes. Mais do que conhecido, conhecidíssimo
a partir do minuto 1, por via de publicidade e de filmes onde entram perfumes, atmosferas
florais ou tecidos vaporosos e esvoaçantes. É o jasmim, no seu enlace com a
rosa, que encanta Lakmé pela manhã. A história não acaba bem-bem, mas o jasmim
não tem culpa disso.
1)
10h
(p.m.) – “Cierge à grandes fleurs”, L'Horloge
de Flore, de Jean Françaix, com Albrecht Mayer no oboé e a Academy of St.
Martin in the Fields, conduzida por Mathias Mönius.
2)
12h – “Nycanthe du Malabar”, L'Horloge de
Flore, de Jean Françaix, com Albrecht Mayer no oboé e a Academy of St.
Martin in the Fields, conduzida por Mathias Mönius.
3)
Dueto
das Flores ("Viens, Mallika"), Lakmé
(Ato 1), de Delibes. Na interpretação perfeita da soprano Sabine Devieilhe e da
mezzo-soprano Marianne Crebassa, com a orquestra Les Siècles, dirigida por
François-Xavier Roth (também pode ser vista a mexer em traje informal aqui).