As
apps sobre plantas são, regra geral, uma treta. Pus-me a navegar no PlantsApp e a coisa não acertava uma. Espécies simplicíssimas, vulgaríssimas de Lineu, nem uma.
Esperemos que esta seja melhor, pois o Jardim Tropical merece-o. Muito.
quarta-feira, 17 de junho de 2020
Mais festa!
Quase
1600 figuras, das mãos e da arte de Diamantino Tojal, uma reconstituição da
procissão do Corpus Christi no século XVIII. Na Igreja da Graça, a não perder, informações
aqui.
Uma festa!
No
Museu Antoniano (ou de Santo António), 330 peças dos Irmãos Baraça em delírio
processional! mais informações, aqui
terça-feira, 16 de junho de 2020
Quando Madrid está triste
Esta é uma história triste, que talvez não acontecesse cá. Não porque fosse
impossível os dois membros de um casal morrerem de Covid, como aconteceu a José
Luís e a Pilar. Mas, Portugal, em Portugal há um ódio às varandas, que ora são
confinadas a alumínio, ora são recicladas para armazém de tralha a céu aberto,
ora são pura e simplesmente abandonadas, salpicadas aqui e ali por plantas
tristes. Madrid não é assim, pois os espanhóis sabem gozar a vida – e gozar uma varanda
ao sol é gozar a vida. E a varanda de Pilar e José Luís era um assombro, dizem,
um jardim suspenso mais do que babilónico, no coração do bairro de Embajadores.
Morreu ele primeiro, aos 71 anos. A seguir foi ela, dias depois, com 70 anos.
Gostavam da vida, ambos reformados, ele a dar aulas de guitarra, ela,
ex-modista, a vestir-se vaidosa, de sevilhana, bailando zarzuelas. Depois, a
existência a dois, anos a fio, a ida juntos à missa, os pinchos
de tortilla no bar do rés-do-chão do prédio, os risos e os amigos. Morreram
um, depois o outro – e o jardim foi a seguir. É hoje uma imagem imensamente
triste, pungente, a varanda mais triste de Madrid. E quando Madrid está triste,
o mundo chora.
São Cristóvão pela América (18).
O Cleveland Museum of Art
em Cleveland, Ohio, revela-se um manancial inesperado.
Normalmente, as imagens
de São Cristóvão são solitárias, em ambientes agrestes e isolados. Nesta
gravura do holandês Alart du Hameel (1449-1509), São Cristóvão e o Menino são
retratados num ambiente pletórico, quase caótico, no meio de uma multidão:
Do alemão Hieronymous
Hopfer (1500-1563), uma gravura do Século XVI. Iniciais no topo:
Um trabalho de 1931 de
Charles Frederick Ramus (1902-1979):
Do mesmo autor, uma
gravura de 1940:
Do primeiro quartel do
Século XV, proveniente de Salzburgo, Áustria, parte de um tríptico
representando São Cristóvão e Santo Erasmo em cima e Santa Bárbara e uma outra
santa em baixo.
José Liberato
segunda-feira, 15 de junho de 2020
A braços com os abraços.
Há
as vozes, há os ecrãs, há as palavras. E há os abraços, o impulso do abraço,
tão difícil de conter com os vivos. De travar ao vivo e de deixar oco ao longe.
Não é que as palavras sejam incolores, mas às vezes o coração esquece, ou
ignora, o afeto que a mão inscreve. De tempos a tempos são precisos abraços.
Abraços-abraços.
De Temps En Temps,
de Josephine Baker, que calhou saber dar a “embrasser” o sentido mais amplo que
a palavra comporta -- do amor, da amizade, da empatia, da solidariedade. Ela
que se recusou a atuar perante plateias racialmente segregadas nos EUA, que aí
se envolveu nas lutas pelos direitos cívicos e ajudou depois a resistência em
França, seu país adotivo, durante a segunda guerra mundial. Com a qualidade que
era a sua, e se faz rara no circo do mundo, de não confundir o acessório com o
essencial.
Manuela
Ivone Cunha
São Cristóvão pela América (17).
No Boston Museum of Fine
Arts encontra-se em restauro um altar do início do Século XV, de estilo
bizantino, pintado para a Igreja de Santo Estêvão em Monopoli, Apúlia em
Itália.
Representa da esquerda
para a direita São Cristóvão, Santo Agostinho, Santo Estêvão, a Virgem Maria,
São João Baptista, São Nicolau e São Sebastião:
Na National Gallery of
Arts em Washington, um desenho de um anónimo conhecido como o Master of Drapery
Studies, o que pode ser traduzido pelo Mestre dos Estudos de Roupagem. Na época
as escolas de pintura desenvolviam muito as técnicas de pintura de tecidos, as
suas pregas, as suas dobras.
O desenho é baseado em
trabalhos de Martin Schongauer já aqui mencionado. Representa São Cristóvão,
São João Baptista, a Virgem e o Menino e Cristo abençoando. Do último quartel
do Século XV:
Do artista americano
Fritz Eichenberg (1901-1990) um São Cristóvão de 1949. Gravura também da
National Gallery of Art em Washington:
Ainda na National Gallery
of Art uma gravura francesa da segunda metade do Século XV, colorida à mão:
No Cleveland Museum of
Arts, uma pintura de Andrea de Mantegna (1431-1506) dos primeiros anos do
Século XVI, em papel:
José Liberato
sábado, 13 de junho de 2020
O céu que nos protege.
Ruby Bridges já aqui falámos dela,
muitas vezes. Tínhamos um projecto grande, lindo, adiado por causa desta Couve Covid, mas não abandonado, nunca. Deu-me notícias, falámos da América em chamas. Com a
sabedoria de quem sofreu o racismo na pele, de quem viu um filho ser morto,
Ruby aconselhou calma, serenidade.
Podem segui-la aqui: https://www.instagram.com/rubybridgesofficial/
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sexta-feira, 12 de junho de 2020
Assim, não, nunca.
Aos
imbecis criminosos que vandalizaram a estátua do Padre António Vieira, só cabe perguntar:
se vivesse hoje, de que lado estaria Vieira, do lado de George Floyd ou do lado
de Derek Chauvin?
Aliás,
de que lado esteve o Padre António Vieira quando viveu, do lado dos índios ou
do lado dos que oprimiam os índios?
Admitiu
a escravatura dos negros africanos, é certo, como todos na sua época, mas não
arriscou tudo, até a vida, em defesa dos índios da América?
quinta-feira, 11 de junho de 2020
Simple minds.
A Casa da Moeda, como vemos, acabou de aderir ao Google
Translator, versão pirata.
Vultos
da Nossa História = Vultures of Our History.
Isto,
sim, é public service.
Agora a sério. (5/5)
Mesmo
curta e pouco séria, a série que hoje se conclui sobre a 5ª sinfonia de
Beethoven pode ter interferido com a parcimónia de quem se priva de ouvi-la ao
desbarato, na esperança de mantê-la fresca e de vir ainda a ser surpreendido
com qualquer coisa de novo, uma visão original à enésima interpretação. Logo
naquele pompompompom inicial, é assim como esperar um “to be or not to be”
shakespeariano nunca ouvido a sair da cartola de qualquer ator – excluindo,
talvez, o que nos ofereceu o divertido filme de
mesmo nome, de Ernest Lubitsch, que, por mim, não vejo a menor necessidade de
poupar. Já perdi a conta às vezes que o vi, com companhia de todas as idades e
feitios, e nunca se gastou, nem perdeu um grama de graça.
Embora
compreenda o cuidado, há algum pessimismo em tanta poupança. Além de ninguém
interpretar hoje uma peça, qualquer peça, como há 50 anos, continua a haver
muitas leituras por onde escolher. Proponho aqui duas de um rol seleto, numa espécie
de campeonato de interpretações das últimas 3 décadas.
Antes,
porém, dois dedos de conversa, não tão arrebatada como a de um crítico
contemporâneo de Beethoven, romântico em todos os sentidos do termo, com uma
verve tão vertiginosa que o imagino a escrever num carril de montanha russa. Citando
livremente, eis um mix das apreciações
mais sóbrias que fez desta sinfonia, pouco depois da sua estreia. Segundo ele, a
5ª faz de cada ouvinte atento um visionário encantado, com a alma a ser íntima
e profundamente abalada por um sentimento que não é senão essa indescritível
mistura de saudade infinita e portentoso desejo, e que até ao último acorde não
consegue escapar de um reino maravilhoso em que todo esse anseio -- a dor, a
alegria, o abatimento, a esperança, o amor -- irrompe numa harmonia plena de
todas as paixões sob a forma de sons. E.T.A. Hoffman dixit.
Antes
de mais, então, há que não esquecer a conversa do destino: que a sinfonia
versaria sobre o destino e que o pompompompom seria até o destino a bater à
porta – assim um toctoctoctoc, digamos. Não se sabe quem o disse, se Beethoven,
se o seu secretário. Ora, o secretário era conhecido por dizer tudo o que lhe
assomava ao crânio, e Beethoven, esse, por dizer o que fosse preciso para
enxotar quem lhe moía o juízo com perguntas -- e é sabido que quanto mais
enigmática e profunda soa a resposta, mais satisfeitas ficam tais aves e mais
depressa largam a porta.
Mas
mesmo sem tomar a ideia à letra, seria difícil imaginar a humanidade às voltas
com o destino ao som de uma polka ou de uma valsa de J. Strauss. Não admira que
não costumem ser lá muito convincentes as interpretações demasiado afáveis e
amáveis – bonitas, em suma, mas a que falta força.
Excluindo
essas, portanto, por muito competentes que sejam, vamos às duas de eleição, por
acaso nos antípodas uma da outra.
A
primeira é a que seduz logo à primeira, justamente. Deve ser difícil aliar
tanta vida com tanta elegância e fluidez, uma sonoridade tão sumptuosa com
tanta finura e claridade. É a interpretação de Riccardo Chailly à frente
da Gewandhausorchester de Leipzig. A ideal para oferecer a sobrinhos e
afilhados.
Já
a de Nikolaus Harnoncourt com o Concentus Musicus talvez não seja a prenda mais
avisada para primeira audição. É mais para as pessoas poupadinhas do primeiro
parágrafo, que estejam disponíveis para ouvir uma coisa nunca ouvida e não se
desconcertem com um grão de estridência e de loucura, algum excesso e algum
negrume. Os meus ouvidos leigos, que até aí só conheciam interpretações
pesadotas e massacrantes, das que nos perdem ao fim de uns minutos e nos põem a
pensar no jantar ou a desencravar ideias para artigos pendentes, foram
apanhados de surpresa com a sinceridade e a urgência desta interpretação no fio
da navalha. Tão sábia e tão limpa em cada elemento, e ao mesmo tampo tão rugosa
e tão excêntrica, tão lírica e tão quimérica.
É
também por isso que discordo de quem disse não haver já no século XXI
apreciações com tanta energia descritiva como a de Hoffman, uns parágrafos
acima. É só ver o comentário de um youtuber
a essa mesma versão de Harnoncourt, que aqui deixo em transcrição traduzida:
“Radical
e obsessiva, livre e hipercriativa, reflexiva e perigosa, selvagem e profunda,
contemporânea. Beethoven encara o século XXI mais moderno do que nunca.
Obrigado, Herr Harnoncourt, pelo antídoto contra a estupidez”. Se isto não é um
comentário enérgico, vou ali e já venho.
1)
Sinfonia No.5 em Dó
Menor Op.67 - 1. Allegro con brio, de Ludwig van Beethoven, pela Gewandhausorchester,
de Leipzig, sob a direção de Riccardo Chailly
2)
Sinfonia No.5 em Dó
Menor Op.67 - 1. Allegro con brio, de Ludwig van Beethoven, pelo Concentus
Musicus de Viena, sob a direção de Nikolaus Harnoncourt.
Manuela Ivone Cunha
quarta-feira, 10 de junho de 2020
B5: A mola da roupa (4/5).
Na
amostra de sons e imagens-testemunho do génio humano enviada para o espaço em
1977 a bordo da sonda Voyager, uma
espécie de montra do melhor da
humanidade, não ia faltar, é claro, a 5ª sinfonia de Beethoven. Desconheço que
interpretação da peça seguiu, mas os extraterrestres não serão esquisitos neste
ponto.
Esta
amostra pode, porém, fazer perder de vista que a criatividade humana se exprime
de muitas maneiras, e que nem toda a genialidade se apresenta assim, talhada para
altos voos, sejam eles literalmente interestelares ou, como se diz ser o caso
da 5ª sinfonia, evocativos do Destino – o destino do género humano ou o do
Manuel Germano.
Mesmo
não tendo sido selecionadas para embarcar na Voyager, há coisas que mereceriam também elas constar no cartão de
visita da humanidade e lhe são, a ela, tremendamente úteis. Excluindo os robots,
que isso é batota, destaco por exemplo o elevador de pepinos de conserva, que
evita a pesca ao dedo no interior do frasco, o ralador de legumes que poupa esse
ou outro dedo à ralação junto com a batata na última etapa, a guilhotina da
extremidade superior dos ovos à la coque,
de uma precisão que previne a penetração de estilhaços da casca no interior, ou
ainda boa parte do recheio de qualquer loja de artigos para o lar em países de
língua alemã. Transita-se aí de maneira muito mais económica para outra
dimensão, a velocidade warp.
Dessas
engenhocas domésticas, mais inventivas e honestas que o espertalhaço ovo do
Colombo, há uma tão banal quanto menosprezada, quer antes, quer depois da
ascensão e declínio das máquinas de secar e do regresso do pitoresco estendal,
mais amigo dos tecidos e do ambiente: a mola da roupa. Não é brincadeira
nenhuma, a mola da roupa.
Pois
bem, o reconhecimento do engenho técnico e a homenagem que sempre lhe foi devida
por proteger meias, camisas e outras peças interiores e exteriores dos ventos e
intempéries do destino, chegaram por fim. E chegaram às cavalitas da 5ª
sinfonia – a do Destino – numa versão que conta a bela história do inventor da
mola da roupa, um espírito tão vivo e curioso que na infância a sua
criatividade selvagem e ainda não orientada atraía já a atenção dos passantes com
invenções como o extrator de grainhas de groselhas ou o açaime para formigas
furiosas.
A
história foi resgatada por Francis Blanche e Pierre Dac em La Pince À Linge, aqui interpretada com apenas meia-barba por Les
Quatre Barbus.
Manuela Ivone Cunha
terça-feira, 9 de junho de 2020
B5: V de Vitória? As eras da ERA (3/5).
Há quem chame à 5ª de Beethoven a Sinfonia da
Vitória. A designação vem do uso que lhe foi dado como símbolo de
vitória – da Vitória com V e de várias vitórias com v – pelas Forças
Aliadas durante a Segunda Guerra Mundial. Tanto poderá ter sido em razão da
famosa sequência rítmica pom-pom-pom-poooooom, que acontece marcar a letra V em
código Morse, ou simplesmente porque o V de vitória corresponde a 5 em numeração
romana.
Por
mais um daqueles acasos que não quis vir só, e desta vez trouxe companhia
torcida ou, no mínimo, tortuosa, “a 5ª” voltará a ser associada a uma outra
batalha, uma que leva já quase um século e cujo desfecho se previa para 2020 –
o ano em que se comemora o tal 250º aniversário de Beethoven.
A ligar tudo isto, a versão disco da
5ª de Beethoven de Walter Murphy, caracteristicamente anos 70, com o sugestivo
nome A Fifth of Beethoven – um trocadilho em inglês com
uma medida líquida corrente em bebidas brancas nos EUA. Se já era um
êxito, mais popular se tornou ao entrar com destaque na banda sonora do hit que
foi o filme Saturday
Night Fever, com um John Travolta a ascender ao estrelato. Ambos aqui.
E ei-la que regressa, A Fifth of Beethoven, agora como tema de Mrs. America, uma
mini-série assinada por Dahvid Wall, aclamada pela crítica e estreada este ano,
em torno do movimento para ratificar a emenda constitucional sobre igualdade de
direitos perante a lei, independentemente do sexo, nos EUA: a Equal Rights
Amendment (ERA). Apesar de muitos e muitas presumirem que essa coisa simples,
elementar, que é a proteção contra discriminações em função do género se
encontra há muito inscrita na lei fundamental daquele país, a verdade é que não
está, e como tal não pode beneficiar da robustez e da estabilidade jurídica que
só ela garante.
Primeiro apresentada ao Congresso em
1923, é nos anos 1970, os anos do disco, que a
aprovação da emenda parece para lá de pacífica, e assim mais que certa, ao
reunir num larguíssimo consenso os dois principais partidos -- o republicano e
o democrata -- e o apoio de presidentes como Carter, Ford e Nixon. Aprovada
foi. Restava apenas a ratificação por um mínimo de 38 estados, o que aconteceu
sem pestanejar com 35.
Só que em vez do tranquilíssimo
passeio que se antevia, é neste ponto que a maré vira, com a inesperada entrada
em cena de um movimento de reação conservador encabeçado por uma desconcertante
e contraditória mulher chamada Phyllis Schlafly. É nesse movimento, na sua
mecânica e no modo como se envolveu na batalha para travar a ERA, que são
reconhecíveis as tendências que transformaram depois a paisagem política nos
EUA e desembocariam na eleição de Trump.
E a
ERA, já foi? Entre avanços, revogações e recuos, lá conheceu novo impulso a
partir de 2010, com uma nova vaga de feminismos e movimentos como o Me Too, até o
estado da Virgínia se prestar a ficar na história com H como o 38º cuja
ratificação viria a garantir, este ano, o final que sempre se esperara da
história com h. Só que não. Há agora todo um novelo jurídico em
torno de prazos de ratificação que não se sabe ao certo se expiraram ou não, o
que garantirá talvez muitas outras historiazinhas com h ainda mais pequenos,
quem sabe até à comemoração do 500º aniversário de L. Van Beethoven, embora sem
sinfonias para dançar.
Manuela Ivone Cunha
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