sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Bernanos contra Franco.


 
 
Georges Bernanos

 
 
Georges Bernanos e o seu veemente panfleto político contra Franco,
Os Grandes Cemitérios ao Luar (1938)
 
 
“L´avant veille deux cents habitants de la petite ville voisine de Manacor, jugés suspects par les Italiens, avaient été tirés de leurs lits en pleine nuit, conduits par fournées au cémitière, abattus d’une balle dans la tête et brûlés en tas un peu plus loin. Le personnage que les convenances m’ obligent à qualifier d’évêque-archevêque, avait délégué là-bas un de ses prêtes qui, les souliers dans le sang, distribuait les absolutions entre deux décharges. Je n’insiste pas plus longtemps sur les détails de cette manifestation religieuse et militaire (…).
“…cette petite île majorquine est un vase clos. Le sang n’y séchera pas vite.”
G. Bernanos, Les Grands Cimetières sous la Lune.[1]
 
“Do not believe
Because the blood has not been answered
The lie will not be answered
Do not believe it.”
Archibald MacLeish, poema The Spanish lie.                                                                                                                                                                           
 
 
 
 
Les Grands Cémitières sous la Lune foi uma da obras francesas que mais me impressionou, embora seja essencialmente um panfleto político e moral contra um dos maiores crimes cometidos no século XX, os massacres perpetrados em Maiorca pelos Falangistas, no início da Guerra Civil espanhola, quando ali residia em Palma o romancista católico Georges Bernanos (1888-1948). Estabelecido nas Baleares desde 1934, amigo da família monárquica e franquista dos marqueses de Zayas, o escritor francês deixou dessas atrocidades e do apoio que lhes deram os prelados espanhóis na “cruzada anticomunista”, um dois mais extraordinários textos de protesto de uma consciência cristã indignada com a sangrenta repressão, feita com o auxílio de “Camisas negras” italianos enviados por Mussolini, como o célebre e sinistro “conde” Rossi,[2] trajado de negro com uma cruz branca pendurada no pescoço, que calcorreou a ilha numa carro de corrida vermelho, na companhia de um  capelão falangista armado,  assassinando trabalhadores maiorquinos, cenas a que Bernanos dedica duas páginas sangrentas no seu panfleto.
Dest’arte, neste extensíssimo panfleto veemente, o romancista católico que escrevera  Sous le Soleil de Satan (1926) e o Journal d’un Curé de Campagne (1936), que fora antigo discípulo do jornalista anti-semita Édouard Drumont (1844-1917) e do dirigente  monárquico da “Action Française” Charles Maurras (1869-1952), assim como inicialmente simpatizante de Franco, tornar-se-ia,  desde a publicação d’Os grandes Cemitérios ao Luar (1938), uma das vozes mais vibrantes e dramáticas  na denúncia do imperdoável horror que as milícias e tropas nacionalistas cometiam na ilha mediterrânica, sob o nome da “cruzada anticomunista” – o historiador britânico Hugh Thomas cifra em  3.000 os  republicanos fuzilados nas Baleares, contra 7.000 a 8.000 na Navarra, 9.000 em Sevilha, 9.000 em Valladolid, 2.000 em Saragoça e, ao todo, cerca de 50.000 nos seis primeiros meses da guerra civil em toda a Espanha [3] –, erguendo esse monumento de cólera ferida como um solo de uma invulgar força espiritual e força literária. Raramente um crime tão hediondo se traduziu em palavras de uma indignação magoada, nobre e duradoira. Rompendo com a direita na qual militara tantos anos, Bernanos inscrevia-se, com esta incandescente archote polémica, no reduzido número de escritores católicos franceses, como Jacques Maritain (também dissidente da Action Française)  François Mauriac, como um dos ardentes adversários da causa que irmanava Franco, Mussolini, Salazar e Hitler.
 
 
Henri Cartier-Bresson, Sevilha, 1933
 
 
 
Leiamos esta passagem d’Os Grandes Cemitérios…: “Vi lá, em Maiorca, passarem pela Rambla camiões carregados de homens. Rolavam com um barulho de trovão, ao lado das esplanadas multicores, lavadas de fresco, muito molhadas, com o seu alegre murmúrio de festa popular. Os camiões estavam cinzentos com a cor da poeira das estradas, cinzentos também os homens sentados quatro a quatro, comos bonés cinzentos poisados de lado e as suas mãos ao longo das calças de cotim, bem tranquilos. Eram apanhados em cada entardecer nas povoações perdidas, à hora em que voltavam dos campos; partiam para a sua derradeira viagem. A camisa colada aos ombros pelo suor, os braços ainda cansados do trabalho da jornada, deixando a sopa servida em cima da mesa e uma mulher que chega demasiado tarde à porta do jardim, toda esbaforida, com uma sacola embrulhada numa toalha nova: A Dio – recuerdos!”[4]
Rompendo com o seu mestre Charles Maurras, contra o qual escreveu diversas obras, como Nous autres Français (1938) e Scandale de la Vérit , Bernanos constatara, a partir da atitude dos prelados católicos espanhóis durante a guerra civil que presenciara em Maiorca, esta verdade amarga: “A Cristandade fez a Europa. A Cristandade está morta. A Europa vai morrer…”, (Sous le Soleil…),[5] dirigindo uma série de críticas contundentes à igreja que falava de “Cruzada contra o Comunismo” – não garantira o bispo de Salamanca que os comunistas e os anarquistas eram “filhos de Caim” e que “os judeus e os maçons tinham envenenado a alma nacional com absurdas doutrinas, e os contos tártaros e mongóis se tinham convertido num sistema político”? [6]
Bernanos abria a segunda parte do seu panfleto com estas palavras: “A Tragédia espanhola é um montão de cadáveres. Todos os erros de que a Europa acaba de morrer e que ela tenta vomitar em terríveis convulsões vêm ali apodrecer juntas.”[7] A partir deste ponto, o panfleto colérico de Bernanos dirige-se especialmente ao episcopado espanhol que ajudou Franco na sua “cruzada anticomunista” ou “Guerra santa”, acrescentando: “Penso que a Cruzada espanhola é uma farsa (…). Por detrás do general Franco reencontramos as mesmas gentes que se mostraram igualmente incapazes de servir uma Monarquia que eles finalmente traíram ou organizaram uma República que tinham largamente contribuído a fazer, as mesmas gentes, ou seja, os mesmos interesses inimigos, num instante federados pelo ouro ou pelas baionetas do estrangeiro. É a isto que chamam uma revolução nacional?”[8] Quanto aos prelados espanhóis que defendiam a “Cruzada”, Bernanos trata-os ironicamente por “Excelências” e “Suas Senhorias”, declarando que na aventura franquista se consumava a ruptura entre a Igreja de Deus e os pobres, impostura que ele não tolerava, verberando-a com uma veemência profética. Contudo, apesar do seu tão evidente Zeitgeist que impregna este livro circunstancial, Os Grandes cemitérios… continuam a ser, como há mais de três quarto de século, uma obra imorredoira, que não envelheceu, antes se lê hoje como aquilo que ela também é, um monumento da escrita literária, da melhor literatura, uma obra de cultura redigida no meio dum período de trevas e opressão, um texto admirável e justo. Creio mesmo que esta obra e um dos raríssimos exemplos de uma panfleto, redigido como libelo bradado “sub specie temporis”, que ganhou uma estatura literária e profética que o colocou na esfera das obras que são lidas geração após geração, como um texto de profecia e nobreza anímica.
 
 
 
 
 
A leitura deste prodigioso grito de repulsa – que só foi editado em português 30 anos depois (1968) – suscitou-me, ao lê-lo há muitos anos atrás, uma das mais fortes emoções intelectuais, como poucos outros textos foram capazes de me transmitir, até pelo facto inegável de, nesta esplêndida cólera de uma consciência ousadamente livre diante das mentiras dos “biens-pensants”, se sentir vibrar uma escrita de imenso valor retórico, forte dimensão espiritual – mesmo para um leitor alheio à fé religiosa de Bernanos – e densidade intelectual, já que nas mais de quatrocentas páginas desse grandioso panfleto se ouve o trágico monólogo de uma consciência excepcionalmente lúcida e corajosa diante dos massacres que em Espanha se cometeram. E soma-se ainda a essa valia o apreço que me deu achar nele um detalhe curioso, a passagem onde Salazar era tratado com o merecido desdém que lhe causavam outros ditadores da época, como Hitler, Estaline, Franco e Hirohito, fingindo Bernanos esquecer-se do nome do político português da altura – mencionando-o apenas como “o autocarta português cujo nome me escapa”, astúcia oratória que volta a repetir duzentas páginas adiante, desta forma: “o autocrata português cujo nome me escapa uma vez mais, caramba – o distinto professor vegetariano que redigiu, como Dolfuss, a constituição dum inofensivo Estado corporativo e que espera, sem dúvida, mais tarde ou mais cedo, o mesmo destino que o seu pobre confrade.”[9] (Era evidente que o adjectivo de “vegetariano” tinha uma função puramente desdenhosa para Salazar).
Pouco depois, criticaria com a mesma indignada repulsa os responsáveis políticos franceses pelos acordos de Munique que tinham permitido a Hitler ocupar a Checoslováquia (Nous Autres Français, 1938), em seguida condenaria nos seus escritos o armistício de 1940 e a demissão da França de Pétain, o regime de Vichy. Em Julho de 1938, Bernanos partia, com toda a sua família, com a sua mulher e os seus 6 filhos, para o Paraguai, dirigindo-se logo a seguir para o Brasil, onde chega ao Rio em 1 de Setembro. Estabelece-se numa fazenda em Juiz de Fora (Minas Gerais), depois em Vassouras, em seguida em Pirapora e Barbacena, como agricultor e criador de gado, onde viveria até 1945, período que recordaria no seu livro Les Enfants humiliés (póst., 1949) e, no Brasil, em Le Chemin de la Croix-des-Ames, reeditado em França em 1948.
Em suma, Bernanos, não viveu na Europa nem o período da Segunda Guerra Mundial, nem a ocupação da França, nem o regime de Vichy. Regressando a Paris em 1945, por iniciativa do general De Gaulle, que lhe enviara um telegrama pedindo o seu retorno – o político no qual o romancista viu sempre a encarnação da honra francesa ultrajada –, a demissão do chefe da França Livre, em 1946, suscita-lhe o desejo de partir de novo, o que faria em 1947, em direcção à Tunísia, onde escreveria sua derradeira obra, a peça O Diálogo das Carmelitas, só tornando ao seu país por motivo de doença grave, falecendo no hospital americano de Neuilly, em Julho de 1948.
                                                                                                                           
                                                                                                                       
João Medina
 
 





[1] G. Bernanos,  Les Grands Cimetières sous la Lune, Paris,  Livre de Poche, 1962, pp. 139-40 e 183-4, respectivamente. Veja-se a apresentação e notas que acompanham esta obra (Les Grands Cimetières….) no volume das obras completas de G.B, Essais et Écrits de Combat, Paris, Gallimard, col. Bibliothèque de la Pléiade, 1971 (pp.1408-1489, notas dea  Jacque Bachot e pref. geral de  Michel Estève, pp.IX-LI,). E veja-se o estudo de Max Milner, Georges Bernanos, Paris, Librairie Séguier, maxime pp.231-251.


[2] Cf. Bernanos, op. it., pp.162-3. O britânico Hugh Thomas ocupa-se da acção de Rossi na sua obra La Guerra civil española, Barcelona, Mondadori, no vol. I, p.414 (acção nas Baleares) O tão falso “conde” como “general” Rossi, chamava-se, na verdade, Arcovaldo Bonaccorsi. Várias divisões de fascistas italianos enviadas por Mussolini, participaram na guerra civil espanhola, como em Guadalajara, dirigidas por Mario Roata, cognominado de “Mancini” (1887-1968), mais tarde julgado na Itália como autor de crimes de guerra,, onde  fora chefe do Estado Maior italiano do Duce,  sendo condenado e depois libertado, recuperando as suas honrarias.


[3] Hugh Thomas, La Guerra civil española, pp.291-2.


[4] G. Bernanos,  Les Grands Cimetières…, p.p.96-7.


[5] G. Bernanos, op. cit., p.193.


[6] H. Thomas, op. cit., p.558.


[7] G. Bernanos, Les Grands Cimetières…, p.190.


[8] G. Bernanos, op. cit., pp.197-8.


[9] Bernanos, op. cit. pp.196 e 414. O filho mais velho de Bernanos estava então alistado na Falange. Nas suas cartas, a partir de Setembro de 1936, G.B. deplora a ferocidade dos crimes franquistas de que fora testemunha em Palma. O prefácio desta obra sua é datado de Janeiro de 1937, sendo o livro publicado em França em 1938. Na citada edição da colecção Pléiade, incluem-se o textos sobre a guerra civil de Espanha não reunidos em livro de G.B., pp.1423-1450. Em relação ao seu maurrasianismo, veja-se o estudo de Paul Sérant Les Dissidents de l’Action Française, Paris, Editions Copernic, 1978, pp.113-168 (G. Bernanos). Sobre o seu exílio na América do Sul, veja-se a obra de M. Milner, Georges Bernanos, Paris,  Librairie Séguier,  1989, pp.265-287. Sébastien Lapaque publicou um estudo dedicado ao exílio brasileiro de G.B., Sous le Soleil de l’Exil, Paris, Grasset, 2003. Quanto ao chanceler austríaco Engelbert Dollfuss (1892-1934), chanceler federal desde 1932 a 1934, herdeiro espiritual de Monsenhor Seipel, procurou fazer da Áustria um estado cristão e autoritário, criando o partido Frente Patriótica (extrema-direita), no que foi apoiado por Mussolini, proibindo o partido nazi austríaco que defendia o Anschluss. Em 1934 fez uma nova Constituição criando um regime cristão autoritário e corporativo. Foi assassinado pelos SS austríacos em 25-VII-1934. Sucedeu-lhe Kurt von Schuschning (1897-1977), mas a anexação da Áustria pela Alemanha hitleriana consumar-se-ia quatro anos depois, sendo o sucessor de Dollfuss preso pela Gestapo (1938-1945). Emigrou para os E.U.A. depois da guerra.

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