domingo, 13 de setembro de 2026

Em boa conserva.

 



Gordura não é formosura, infelizmente, mas, na comida, é a gordura que a torna voluptuosa! Essencial para cozinhar a mais de 100 graus — fritar, saltear, dourar —, dar textura e transportar aromas, tem, no entanto, um perigo: a mais pode tornar-se cansativa e, no limite, fazer tudo saber a gordura. E não queremos isso. Pelo contrário, tão importante como a gordura é saber dominar a gordura. Entra o ácido. E entram os picles.

No início, fizeram-nos por outra razão. Conservar vegetais, adicionando-lhes a acidez do vinagre ou o sal da salmoura, era uma forma de não desperdiçar comida. Estávamos na Mesopotâmia, cerca de 2400 anos A.C., muito longe da iniciativa sustentável do «Juntos contra o Desperdício»!

Mas foram os ingleses, muito mais tarde, que popularizaram os pepinos conservados em vinagre. E baptizaram-nos pickles, diz que a partir do neerlandês médio pekel, nada menos do que… salmoura. Agora estão na moda. Ou melhor: os alimentos fermentados em conserva são agora o último grito, mas não é a mesma coisa. Os fermentados — kimchi, chucrute, turşu — são óptimos e também muito antigos, mas é a moda da microbiota que explica a loucura de chefs e Tik-Tokers. Outra conversa. São resultado de fermentação láctica, provocada por sal e água.

Os picles não precisam de fermentar: está lá o ácido acético do vinagre para os conservar. E é precisamente esta acidez que vem domesticar a gordura.

Quem come um hambúrguer ou uma Reuben sandwich sem picles? Ou umas carnes frias e pâtés sem cornichons? Os exemplos são muitos por todo o mundo, do achar indiano para acompanhar um caril à giardiniera italiana com antipasti. Mas o melhor casamento é bem português!

O que seria de uma carne de porco à portuguesa sem picles em abundância? Admissível até na variante à alentejana, com amêijoas, ou nos rojões à minhota (desculpem-me os puristas de cada região) são essenciais na versão nacional, para cortar a gordura e a fritura do porco. E dar-lhe contraste, tensão e interesse.

Noutros pratos, fica à imaginação do cozinheiro. Uma carne gorda — idealmente um chambão de vaca — guisada lentamente em vinho tinto, em baixa temperatura, e acrescida de umas cebolinhas em picle na altura de servir ganha outra vida.

E o melhor dos picles é que até os podemos fazer em casa. Uma couve-roxa bem segada, duas partes de vinagre para uma de água a ferver, grãos de mostarda e de pimenta preta, uma colher de açúcar e outra de sal, num frasco bem cheio — idealmente em vácuo — transforma-se noutra coisa numa semana no frigorífico.

Só precisa de arejar bem a cozinha, caso contrário fica num sarilho. Ou, como dizem os ingleses, “in a pickle”.

 

                                            José António Nogueira de Brito




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