quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A Mimosa da Graça.

 




Fiquei admirado: gastaram-se (gastámos) quase dois milhões de euros em projetos de erradicação da mimosa e outras espécies invasoras. É muito dinheiro. Mas realmente tinha de ser. As mimosas e outras acácias ocupavam já cerca de 17 mil hectares de terrenos no continente, dois mil deles em áreas protegidas. No Parque Natural do Montesinho, no Gerês, na serra do Açor, em Viana, nas margens do Mondego, tudo se transformava num denso manto dourado ao chegar a primavera. Mal punha pé, ou antes mal lançava raízes num sítio qualquer logo começava a instalar-se, usando todas as armas de que dispõe: cresce rapidamente, produz quantidades enormes de sementes, que permanecem viáveis no solo durante vários anos, formando povoamentos extremamente densos, mesmo em solos muito pobres, mesmo sem intervenção humana. O pior é que o fazem à custa das espécies nativas que vêem o seu crescimento dificultado pela densidade e pelas substâncias segregadas pela mimosa. Que às tantas começaram a invadir os terrenos de cultivo. Foi aí que se começou a tomar a sério o problema. 
Porque até aí não era um problema. Pelo contrário, admiravam-lhe as lindas flores ornamentais, com os seus caraterísticos pompons amarelos que enfeitavam as encostas de Portugal inteiro e faziam a felicidade dos passeios e dos fotógrafos de domingo. Eram apreciadas e procuradas. A moda oitocentista das plantas exóticas abriu-lhe as portas: as primeiras mimosas australianas, importadas da Austrália através de viveiristas europeus, foram plantadas em meados do século dezanove em Lisboa, na Quinta do Lumiar, propriedade dos futuros duques de Palmela. A seguir, o interesse industrial abriu-lhes o caminho para a horticultura comercial: por ser de crescimento rápido, fornecer madeira e lenha, taninos para os curtumes, além de poder ser usada na fixação de solos e consolidação de taludes. Um empresário portuense plantou 600 hectares de acácias e eucaliptos nas suas propriedades orgulhosamente batizadas Nova Austrália e Nova Tasmânia, nos arredores de Abrantes.  E também o Estado via na mimosa um auspicioso factor de desenvolvimento, pelo seu interesse económico e florestal, e desatou a plantá-las no Gerês e em matas públicas do litoral centro. 

 

O problema (agora já se dizia “ecológico”) que a mimosa trazia consigo só começou a tornar-se evidente nas décadas de 1970 e 1980: os grandes incêndios criavam grandes zonas disponíveis que a mimosa de crescimento rápido colonizava imediatamente. Um estudo feito na serra da Estrela apurou uma densidade de mais de 62 mil sementes por metro quadrado.
A invasão era imparável: o êxodo rural, o abandono dos campos, a redução da agricultura e do pastoreio tradicionais deixava-lhe o terreno livre. E o decreto-lei que finalmente classifica a – dourada, promissora, tão bonita que ela é – mimosa, Acacia dealbata de seu nome completo, só chegou em 1999. O que pode explicar que (apenas nos dois municípios estudados) a área ocupada pela Acacia dealbata tenha aumentado 417% entre 2004 e 2021.


De resto é como no resto: demoramos sempre um certo tempo até nos darmos conta dos problemas.
Que o diga a Mimosa da Graça, uma graciosa leitaria e pastelaria que durante muitos anos serviu a Rua da Graça, em Lisboa, e de que já só resta o singelo portal com suas letras de um gosto quase clássico, à espera do destino que lhe será dado pelo fundo de investimento que já a deve ter comprado e que a há de vender. Talvez os donos não se tenham apercebido que os moradores da rua e da freguesia tinham desandado e já não foram a tempo de responder à nova procura dos brunches, e smoothies e matchas, e sucos de açai e as outras novidades que a boa da leitaria não tinha visto aparecer e instalar-se como gosto dominante. Como as mimosas da história, tinha aparecido por cá uma gente diferente, de gostos diferentes e com dinheiro, que aos poucos foram colonizando as pastelarias que por aí havia, e que agora se chamavam Neighbourhood, Brunch and Bites ou Locals Nomads. As espécies nativas não aguentaram a concorrência, as rendas e os trespasses subiram para totais inalcançáveis pelas modestas leitarias apanhadas a molhar o bolo de arroz no galão (quentinho, se faz favor). Foram sendo corridas. Mas tinha de ser. Não se podia perder este bem-vindo contributo para equilibrar o défice nacional. São milhares e milhares destas mimosas que diariamente são despejadas pelos voos e os cruzeiros ao preço da chuva chegados de todas as partes do mundo. E temos de lhes dar o que eles querem: por eles, mudámos as comidas que comíamos, mudámos os hábitos e costumes que seguíamos e mudámos até a língua que falávamos. Um dia (talvez) virá aí um tardio decreto-lei a moderar a falta de modos da invasão e ocupação, mas entretanto as mimosas vão alastrando, a um ritmo superior aos 417% das suas congéneres vegetais. 


Será que valeu a pena? – hão de um dia perguntar-nos. Não sei. A Leitaria Mimosa da Rua da Graça, em Lisboa, talvez seja uma espécie de resposta.


                                                    Zé Lima 






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