sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A Amadora é muito mais do que o dormitório de Lisboa, fique sabendo.

 





          Falava-se (e ainda se fala) da Amadora em tom galhofeiro, preconceituoso, vem à conversa que se chamava Porcalhota, que não passa de um dormitório, enxameado de bairros clandestinos. A jornalista Cátia Bruno dá-nos um relato luminoso, clarividente, em que a Amadora, esse concelho pequeno, mas com a maior densidade populacional de Portugal não cabe no retrato depreciativo de um lugar formado de blocos de cimento rudemente desenhados, um antro de problemas gerado por todas as formas de pobreza e pela dura vivência dos imigrantes – a Amadora é bem mais do que isso.

          Toda esta narrativa, que gera uma leitura empolgada, assenta em seis lugares que ilustram seis dimensões, a saber: economia, desporto, transportes e mobilidade, imigração, habitação e cultura – a jornalista recolhe depoimentos que ajudam a compreender que aquele espaço urbano tem identidade, a despeito de todos os zunzuns que se prestam a desvalorizar o viver e trabalhar na Amadora. “Das antigas fábricas da Sorefame à Cova da Moura, do Estádio José Gomes aos corredores do Babilónia, eis uma outra cidade, onde a herança operária, o peso da imigração e a reinvenção do espaço urbano criaram um quotidiano e uma identidade dinâmicos e irreplicáveis.” É esta a viagem que nos propõe Cátia Bruno em O subúrbio Amadora, a cidade-fronteira, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2026.

          Sim, na Amadora há um acumular de gente em altura. A autora consultou as estatísticas camarárias: a proporção de pessoas que vivem numa casa com uma área útil inferior a 15m2 por pessoa é de 11,8%, bem superior aos 5,7% da média nacional, não subsistem dúvidas, a Amadora é o município com maior densidade populacional. É claro que há alguma insegurança, os níveis de criminalidade estão em linha com a média nacional, e são mais baixos do que os de muitos outros concelhos da Área Metropolitana de Lisboa. Sim, a Amadora foi sempre um entreposto, crescer na Amadora é sonhar com a vida em Lisboa. Cátia Bruno vai procurar dar a conhecer a Amadora para lá das imagens feitas. “Entrevistei pessoas que nasceram, vivem ou frequentam o concelho. São de diferentes idades, raças e profissões. Queria encontrar um mosaico que retratasse a vida da Amadora – porque sim, a Amadora tem vida. Todos os entrevistados deste livro, sem exceção, nutrem um carinho particular pela cidade, que não veem apenas como dormitório.” Dirá que a Amadora já não é a cidade suburbana de décadas passadas, tem mais parques e outros lugares de lazer.

          Começa a viagem pelos seis lugares. Logo a Sorefame, mas havia outras indústrias na envolvente, fábricas de borracha, metalúrgicas, de cabos elétricos. A Sorefame catapultou-se com a construção dos pilares e das vigas de estrutura da ponte sobre o Tejo, depois produziu locomotivas e vagões para a CP e o Metro de Lisboa, com as alterações tecnológicas; o capítulo fabril atingiu duramente a Amadora, ainda sobrevivem duas fábricas de relevo. Estádio José Gomes significa o Estrela da Amadora, dá-nos ao pormenor os altos e baixos do clube, acabando por dizer que o Estrela continua a ser um clube da periferia com quem todos simpatizam, numa identificação que há muito não se sentia na Reboleira. E daqui rumamos para a estação de comboio, vamos acompanhar a vida de quem parte cedo para o trabalho, caso das mulheres da limpeza, temos aqui a evolução dada pela história do comboio e, por simpatia, a história do transporte dentro do concelho. “Apesar de a Amadora ser frequentemente apontada como um eficaz nó de mobilidade que liga Lisboa a Sintra, a verdade é que há zonas do concelho que continuam a estar muito afastadas da linha ferroviária. A situação era particularmente grave em vários bairros de habitação social onde foram realojados moradores de antigos bairros clandestinos.

          O centro comercial por excelência da Amadora chama-se Babilónia, com uma superfície de 4.600m2 e quase 100 lojas, teve o seu esplendor até ao final do século, os hipermercados deram uma volta ao texto, o Babilónia sobrevive com a chegada das lojas geridas por imigrantes e os clientes estrangeiros. “Há muito que a Amadora é terra de imigrantes e o Babilónia é o espelho vivo”.

          Agora o foco é a Cova da Moura. “É um labirinto: seis mil pessoas distribuídas por um território de 0,2Km2, preenchido por casas construídas de forma desordenada, estradas apertadas e escadas íngremes. É um dos bairros clandestinos mais conhecidos no país em que as casas são quase todas feitas de pedra e tijolo.” Vem à baila J. Pimenta, um antigo pedreiro que fez fortuna construindo pequenos apartamentos a baixo custo, modelo de negócio que se tornou especulativo. E conta-se também a história do Programa Especial de Realojamento, isto em 1993, é um dos elementos mais cativantes desta reportagem que aqui nos é contado, iremos só ouvir falar, além da Cova da Moura, da Quinta do Laje, Quinta do Pomar, Estrada Militar da Mina e Estrada Militar do Alto da Damaia.

          Não se pode falar do rap nem do Hip-Hop sem incluir a Amadora, das suas vedetas, caso dos Buraka Som Sistema, a autora dá-nos uma belíssima descrição.

          A modos de epílogo, ficamos a saber que o encenador Tiago Rodrigues, atualmente diretor artístico do Festival d’Avignon, nasceu na Amadora, tal como o futebolista Rui Costa, o apresentador João Baião e o ator Nuno Lopes. Cátia Bruno recorda-nos que esta Amadora está em transformação acelerada, o processo de gentrificação de Lisboa também se faz sentir na Amadora, os lugares populares de comer também conhecem essa transformação, mas o risco maior é precisamente na área da habitação, os prédios de luxo fazem a sua aparição, e daí a pergunta inquietante: quando o subúrbio ficar demasiado caro, para onde serão empurrados os amadorenses?

          Cátia tem muita esperança no futuro da sua cidade, nos jovens dinâmicos, nos trabalhadores, no comércio vivo, no ativismo social, na criatividade como a dos Buraka. “De uma forma ou outra, a cidade conseguirá enfrentar o que aí vier e sobreviverá. O subúrbio não vai desaparecer – e ainda bem.”

          Cátia Bruno pertence aos revitalizadores da reportagem jornalística, já andou pela Ucrânia e Síria, assistiu ao Brexit, e contou agora, de forma admirável, como a Amadora se tornou uma cidade-fronteira, onde se desenha o seu futuro também em função de tudo o que se passa nos poderosos concelhos vizinhos. 


                                                                Mário Beja Santos

 


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