sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Jogos florais.




 
 
 

 
 
 
 
 
 




Durante algum tempo, não sei se muito, se pouco, um casal inglês já entradote nos anos foi fotografado em frente à sua casa. Faz mesmo lembrar American Gothic, de Grant Wood, sobre o qual um dia destes ainda me ponho a escrever aqui, assim tenha eu tempo. Mas nem sei se o farei, pois o tempo cansa – o tempo, cansa. 

Em cada uma das estações do ano, uma imagem, ou várias. Ao que parece, mas não há certezas, quem as tirou foi o fotógrafo Ken Griffiths, e foram publicadas no The Sunday Times em 1973. A sequência termina subitamente. E a última imagem, curiosamente, é a mais invernosa. Se repararem, o casal não envelhece muito e a mulher está sempre, mas sempre, na mesma posição, levemente inclinada para a direita. Mudam os tempos, muda a indumentária e as estações do ano no jardim floral. Mas eles, homem e mulher, feitos casal, permanecem iguais. Nos rostos, a expressão inexpressiva do amor possível – ou, pelo menos, do propósito inquestionado de envelhecerem juntos. A vontade, forjada pelo tempo, de morrerem assim: primeiro, um; depois, o outro. O que, provavelmente, aconteceu. Há muito ou  pouco tempo, isso já nem sei.





Depois de publicado este «post» (ou «posta» ou o que o valha), mandaram-me Isto. A última imagem da série, previsivelmente feita de luz e sombra. Veio de longe ou de perto, aqui, aí.

Obrigado, S.







quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Mogadíscio, 1993.

 
 
 
 

 
Paul Watson
Mogadíscio, Somália
Outubro de 1993
 
 

 

«Gutle pediu-me que ficasse no carro, enquanto ele e os dois guardas iam sondar os ânimos da população. Será que eles se importariam que eu fotografasse o corpo? Gutale regressou pouco depois, meteu a cabeça dentro do carro e, com um sorriso nervoso, anunciou que os líderes do bando me autorizavam a tirar fotografias. Senti o coração aos pulos e a cabeça à roda. Foi uma descarga de adrenalina como jamais experimentei em toda a minha vida. O terror da morte fazia-me sentir mais vivo do que nunca.
Avancei, híper-alerta, escudado apenas por um trio de protectores que não teria qualquer hipótese caso a turba decidisse voltar-se contra nós. E, nesse momento, a multidão apartou-se, formando um fanático semicírculo em redor do cadáver. Os meus olhos percorreram a cena frenética como uma câmara guiada por mãos invisíveis. Olhei para o chão. E foi assim que conheci o primeiro-sargento William David Cleveland.
Tive então de decidir, em menos de um segundo, se devia ou não despojar um homem morto do seu último resquício de dignidade. O momento da escolha, no turbilhão da poeira e suor, repulsa e medo, continua presente no meu espírito, negando-me a paz: no instante em que estava prestes a premir o botão do obturador, o mundo mergulhou no silêncio, a multidão que me rodeava tornou-se numa mancha indistinta, e uma voz disse:
Se o fizeres, nunca mais te livrarás de mim.
“Perdoa-me”, pensei. Queria que ele compreendesse. Que me perdoasse. Eu já tinha fotografado muitos cadáveres, vários deles mais chocantes do que aquele. Mas Cleveland tinha qualquer coisa de diferente, um significado que eu levaria anos a compreender. Naquele centésimo de segundo, antes de consumada a decisão, eu percebi o que tinha a fazer. Sentia os músculos tensos, os sentidos ultra-apurados, atentos à mais subtil ameaça. Estava ligeiramente inclinado para a frente, a tentar obter o melhor ângulo, os ombros rígidos, na expectativa de um ataque. Um coro indistinto de novas perguntas atravessou-me o espírito. Como um médico legista durante uma autópsia, obriguei-me a ser frio e objectivo. Não podia permitir que as minhas emoções me imobilizassem. Qualquer hesitação, o mais pequeno sinal de incerteza, poderia atrair sobre mim a primeira pedrada, e, se assim fosse, depressa tombaria sob uma tempestade de pedras, balas, punhos e pés, tal como acontecera em Julho a quatro colegas meus.
Exultante, a multidão dançava e espancava o corpo de Cleveland com tamanho prazer que, na sua sede de vingança, dir-se-ia que não estava apenas a profanar o corpo de um soldado caído, mas a celebrar a vitória sobre todo um exército derrotado. Alguns cuspiam no cadáver. Outros pontapeavam-no e apedrejavam-no. Um homem novo, de óculos de piloto, abriu caminho para ficar na fotografia e fez um gesto obsceno ao soldado morto, o rosto torcido num esgar de alegria. Um velhote ergueu a bengala como se fosse uma moca e golpeou vigorosamente o cadáver, uma, duas vezes. Os mais jovens acharam esta cena hilariante.
Olhem para o velho, como malha!
Eu sentia-me a estremecer a cada golpe. Aquele soldado era para mim um perfeito estranho, e, depois de ter visto mortas e estropiadas tantas mulheres e crianças somalis, não sentia senão desprezo por homens como ele, que espalhavam a morte a partir dos céus. A partir desse momento. Agora estávamos ali os dois, um diante do outro, entre as nuvens de poeira e o fedor acre do lixo em putrefacção, numa ruela sem nome de um país que nos era estranho – e, pela primeira vez, senti que havia dois lados: nós e eles. E eu nada podia fazer para o ajudar. A turba exultava a cada nova injúria, balançava como uma onda, alimentando-se do seu próprio frenesim. Os homens que puxavam as cordas enroladas em torno dos pulsos do soldado, esticando-lhe os braços bem acima da cabeça, faziam-no rolar de um lado para o outro, sob a luz branca e impiedosa da manhã de Mogadíscio. O homem morto dançava com os seus algozes como uma marioneta quebrada.
Eu sentia-me como que a pairar sobre tudo aquilo, via-me a mim próprio a fazer algo de completamente insano: a fotografar seres humanos transformados em animais. Tentei distanciar-me alguns passos daquela realidade – da imagem enquadrada pelo óculo da câmara – esforçando-me por obter, nos poucos segundos de que dispunha, uma prova que os militares jamais pudessem refutar. Não havia margem para erro. E assim, no meio do caos, ao invés de pensar em como salvar-me ou em que direcção fugir, como decerto faria uma pessoa normal, dei por mim preocupado com a possibilidade de ter carregado mal o rolo, com o tempo e a velocidade do obturador, perguntando-me se não seria melhor usar o flash por causa das sombras projectadas pelo sol castigador.
Será que troquei as pilhas da máquina?
Clic
O corpo está mole: terá morrido há muito tempo?
Clic
Aqueles ferimentos de bala que tem nas pernas: terá sido alvejado logo a seguir ao despenhamento ou mais tarde?
Clic
E se estiver apenas inconsciente? Será possível que ainda esteja vivo?
Clic
Pobre homem… Quem és tu?
Clic
Mal tinha começado quando Gutale e o meu principal guarda-costas me disseram que era altura de sair dali. A turba, que de início tolerara a minha presença, começava agora a mudar de disposição. “Mas que está ele a fazer aqui?”, gritou alguém em somali.
Gutale puxou-me rapidamente para dentro do carro.»
   
(Paul Watson, Tanta Terra, Tanta Guerra,
trad. port., Colares, Pedra da Lua, 2010, pp. 48-51).

 
 


 
 

O sargento William David Cleveland Jr. foi morto no dia 3, ou 4, de Outubro de 1993, em Mogadíscio, na Somália. Nasceu em Phoenix, Arizona, em 27 de Janeiro de 1959, sendo filho de William David e Nada Irene Barr Cleveland. Além de uma irmã, morta quando criança, tinha dois irmãos e uma irmã mais nova. Tinha cinco filhos: dois rapazes, do seu primeiro casamento, com Linda Amy Shaw; dois rapazes e uma rapariga, do seu segundo casamento, com Christine Werner. Em jovem, gostava de atletismo, tendo ganho várias medalhas na modalidade de corrida. Em 1978, logo após a sua formatura na High School de Peoria, ingressou nas Forças Armadas, tendo prestado serviço na Alemanha, na Coreia e na Somália, onde morreu. Foi enterrado em local não especificado, no dia 23 de Outubro de 1993, com direito a honras militares. Por vontade da família, a imprensa não esteve presente nem foram captadas fotografias do funeral.
Mais informações, aqui.

 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Natal é quando um Líder quiser.





Apesar de ter tido um final de ano atarefado,o líder norte-coreano não deixou de inaugurar uma nova estância de esqui de luxo.


Alguns estimam que este equipamento social, essencial ao bem-estar dos norte-coreanos, terá custado cerca de 300 milhões de dólares.


Ainda não encontrámos ofertas de pacotes turísticos Inverno 2014 para este destino, mas a qualidade e a segurança estão garantidas, ou não tivessem sido inspeccionadas pelo próprio"líder supremo":  



 
 
 
 

 


Obrigado, Nuno!





É a vida.




 
O artista canadiano Jon Rafman teve uma ideia genial, mas trabalhosa (o que chamamos «genial» é quase sempre muito, muito trabalhoso). Navegou horas a fio no Google Street View, à procura das imagens que foram captadas por um acaso: a espontaneidade total e global é uma das grandes maravilhas deste trabalho. Aqui está o mundo todo, inteiro, um lugar diverso e estranho – muito movimentado. Imagens da Natureza e de rara beleza, outras de violência urbana e humana, tudo aquilo que as câmaras do Google apanham e surpreendem num segundo. Agora imagine-se o trabalho que Jon Rafman deve ter tido – e continua a ter – para produzir o extraordinário 9 Eyes. Entrevista ao autor, noutro local fantástico, o blogue do NY Times.  






































Receita de Ano Novo.

 
 
Fotografia de João Pina
 
 
 
Receita de Ano Novo
 
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
 
Carlos Drummond de Andrade 
 
 
 
(obrigado, Sofia)
 
 
 
 

Bom Ano Novo.





Henri Cartier-Bresson
Times Square, NY, 1959
 

Ian Berry
Trafalgar Square, Londres, 1964
 
Josef Koudelka

Praga, 1967