quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Mogadíscio, 1993.

 
 
 
 

 
Paul Watson
Mogadíscio, Somália
Outubro de 1993
 
 

 

«Gutle pediu-me que ficasse no carro, enquanto ele e os dois guardas iam sondar os ânimos da população. Será que eles se importariam que eu fotografasse o corpo? Gutale regressou pouco depois, meteu a cabeça dentro do carro e, com um sorriso nervoso, anunciou que os líderes do bando me autorizavam a tirar fotografias. Senti o coração aos pulos e a cabeça à roda. Foi uma descarga de adrenalina como jamais experimentei em toda a minha vida. O terror da morte fazia-me sentir mais vivo do que nunca.
Avancei, híper-alerta, escudado apenas por um trio de protectores que não teria qualquer hipótese caso a turba decidisse voltar-se contra nós. E, nesse momento, a multidão apartou-se, formando um fanático semicírculo em redor do cadáver. Os meus olhos percorreram a cena frenética como uma câmara guiada por mãos invisíveis. Olhei para o chão. E foi assim que conheci o primeiro-sargento William David Cleveland.
Tive então de decidir, em menos de um segundo, se devia ou não despojar um homem morto do seu último resquício de dignidade. O momento da escolha, no turbilhão da poeira e suor, repulsa e medo, continua presente no meu espírito, negando-me a paz: no instante em que estava prestes a premir o botão do obturador, o mundo mergulhou no silêncio, a multidão que me rodeava tornou-se numa mancha indistinta, e uma voz disse:
Se o fizeres, nunca mais te livrarás de mim.
“Perdoa-me”, pensei. Queria que ele compreendesse. Que me perdoasse. Eu já tinha fotografado muitos cadáveres, vários deles mais chocantes do que aquele. Mas Cleveland tinha qualquer coisa de diferente, um significado que eu levaria anos a compreender. Naquele centésimo de segundo, antes de consumada a decisão, eu percebi o que tinha a fazer. Sentia os músculos tensos, os sentidos ultra-apurados, atentos à mais subtil ameaça. Estava ligeiramente inclinado para a frente, a tentar obter o melhor ângulo, os ombros rígidos, na expectativa de um ataque. Um coro indistinto de novas perguntas atravessou-me o espírito. Como um médico legista durante uma autópsia, obriguei-me a ser frio e objectivo. Não podia permitir que as minhas emoções me imobilizassem. Qualquer hesitação, o mais pequeno sinal de incerteza, poderia atrair sobre mim a primeira pedrada, e, se assim fosse, depressa tombaria sob uma tempestade de pedras, balas, punhos e pés, tal como acontecera em Julho a quatro colegas meus.
Exultante, a multidão dançava e espancava o corpo de Cleveland com tamanho prazer que, na sua sede de vingança, dir-se-ia que não estava apenas a profanar o corpo de um soldado caído, mas a celebrar a vitória sobre todo um exército derrotado. Alguns cuspiam no cadáver. Outros pontapeavam-no e apedrejavam-no. Um homem novo, de óculos de piloto, abriu caminho para ficar na fotografia e fez um gesto obsceno ao soldado morto, o rosto torcido num esgar de alegria. Um velhote ergueu a bengala como se fosse uma moca e golpeou vigorosamente o cadáver, uma, duas vezes. Os mais jovens acharam esta cena hilariante.
Olhem para o velho, como malha!
Eu sentia-me a estremecer a cada golpe. Aquele soldado era para mim um perfeito estranho, e, depois de ter visto mortas e estropiadas tantas mulheres e crianças somalis, não sentia senão desprezo por homens como ele, que espalhavam a morte a partir dos céus. A partir desse momento. Agora estávamos ali os dois, um diante do outro, entre as nuvens de poeira e o fedor acre do lixo em putrefacção, numa ruela sem nome de um país que nos era estranho – e, pela primeira vez, senti que havia dois lados: nós e eles. E eu nada podia fazer para o ajudar. A turba exultava a cada nova injúria, balançava como uma onda, alimentando-se do seu próprio frenesim. Os homens que puxavam as cordas enroladas em torno dos pulsos do soldado, esticando-lhe os braços bem acima da cabeça, faziam-no rolar de um lado para o outro, sob a luz branca e impiedosa da manhã de Mogadíscio. O homem morto dançava com os seus algozes como uma marioneta quebrada.
Eu sentia-me como que a pairar sobre tudo aquilo, via-me a mim próprio a fazer algo de completamente insano: a fotografar seres humanos transformados em animais. Tentei distanciar-me alguns passos daquela realidade – da imagem enquadrada pelo óculo da câmara – esforçando-me por obter, nos poucos segundos de que dispunha, uma prova que os militares jamais pudessem refutar. Não havia margem para erro. E assim, no meio do caos, ao invés de pensar em como salvar-me ou em que direcção fugir, como decerto faria uma pessoa normal, dei por mim preocupado com a possibilidade de ter carregado mal o rolo, com o tempo e a velocidade do obturador, perguntando-me se não seria melhor usar o flash por causa das sombras projectadas pelo sol castigador.
Será que troquei as pilhas da máquina?
Clic
O corpo está mole: terá morrido há muito tempo?
Clic
Aqueles ferimentos de bala que tem nas pernas: terá sido alvejado logo a seguir ao despenhamento ou mais tarde?
Clic
E se estiver apenas inconsciente? Será possível que ainda esteja vivo?
Clic
Pobre homem… Quem és tu?
Clic
Mal tinha começado quando Gutale e o meu principal guarda-costas me disseram que era altura de sair dali. A turba, que de início tolerara a minha presença, começava agora a mudar de disposição. “Mas que está ele a fazer aqui?”, gritou alguém em somali.
Gutale puxou-me rapidamente para dentro do carro.»
   
(Paul Watson, Tanta Terra, Tanta Guerra,
trad. port., Colares, Pedra da Lua, 2010, pp. 48-51).

 
 


 
 

O sargento William David Cleveland Jr. foi morto no dia 3, ou 4, de Outubro de 1993, em Mogadíscio, na Somália. Nasceu em Phoenix, Arizona, em 27 de Janeiro de 1959, sendo filho de William David e Nada Irene Barr Cleveland. Além de uma irmã, morta quando criança, tinha dois irmãos e uma irmã mais nova. Tinha cinco filhos: dois rapazes, do seu primeiro casamento, com Linda Amy Shaw; dois rapazes e uma rapariga, do seu segundo casamento, com Christine Werner. Em jovem, gostava de atletismo, tendo ganho várias medalhas na modalidade de corrida. Em 1978, logo após a sua formatura na High School de Peoria, ingressou nas Forças Armadas, tendo prestado serviço na Alemanha, na Coreia e na Somália, onde morreu. Foi enterrado em local não especificado, no dia 23 de Outubro de 1993, com direito a honras militares. Por vontade da família, a imprensa não esteve presente nem foram captadas fotografias do funeral.
Mais informações, aqui.

 

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