quinta-feira, 6 de outubro de 2022

São Cristóvão pela Europa (195).

 


No distrito de Kelheim que faz parte da Baixa Baviera encontrei quatro São Cristóvãos.

Em Bad Abbach, a Igreja do centro da pequena cidade é dedicada a São Cristóvão e tem naturalmente uma imagem do Santo no altar-mor: uma tela.




O jardim de infância local é também denominado de São Cristóvão e dispõe de um mural




Em Abensberg, a Igreja paroquial de Santa Bárbara tem uma imagem do nosso Santo:






Gasseltshausen é um caso muito interessante. A igreja românica, talvez do Século XIII, exibe um formato muito peculiar. Tem dois andares, mais parecendo uma torre muito robusta. As paredes têm 2,5 metros de espessura e o edifício deve ter servido certamente como fortaleza.




No interior um São Cristóvão de madeira de cerca de 1500:





Fotografias de 18 de Agosto de 2022

 

José Liberato

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

O Retrato de D. Manuel II com os trajes da Ordem da Jarreteira.

 




No Turf Club em Lisboa, na sala de entrada que abre sobre o jardim, encontra-se um retrato a óleo de El Rei D. Manuel II, de corpo inteiro, envergando o manto e insígnias da Ordem de Jarreteira, tendo ao pescoço a insígnia das Três Ordens (Cristo, Aviz e Santiago) e ao peito a placa da Ordem da Torre e Espada. Ao lado do Rei estão, sobre uma mesa, a Coroa Real de Portugal e o Cetro.

O retrato é obra do pintor britânico George Hillyard Swinstead (1860-1926), membro da Royal Society, autor de ampla obra pictórica, tanto de retratos de figuras da sociedade inglesa da época como de paisagens e pinturas de género.

Não podemos deixar de nos interrogar acerca de quando este retrato terá sido pintado e por que motivo o foi por um pintor britânico e não por um bom retratista português da época. Alem disso também nos assalta a curiosidade de saber por que razão se encontra agora no Turf Club.

Teremos de voltar atrás no tempo para encontrarmos resposta a estas perguntas.

El Rei D. Manuel II foi investido na Real Ordem da Jarreteira do Reino Unido em fevereiro de 1909, pelo Rei Eduardo VII. A amizade deste Rei por El Rei D. Carlos tinha sido intensa e verdadeira. A sua indignação pelo assassinato deste seu parente e seu filho primogénito, dois cavaleiros da Ordem da Jarreteira, foi notória. Quis por isso e no mais curto espaço de tempo, distinguir o jovem sucessor, D. Manuel II, com o acolhimento na Ordem e com a distinção que esse acolhimento significava. D. Manuel sentiu profundamente o valor dessa distinção e durante toda a sua vida não faltou nunca às celebrações da Ordem, na capela de S. Jorge e no castelo de Windsor, todos os meses de junho.


George Hillyard Swinstead (1860-1926), aqui fotografado no seu estúdio


  

David Knights-Whittome no seu estúdio em Sutton. A pose que adota relembra-nos que o fotógrafo seria também o pintor dos cenários das fotografias que tirava.


Ainda durante a vida do rei D. Carlos e no seguimento das visitas que efetuou a Londres, chegou ao conhecimento do Rei a alta qualidade dos trabalhos do fotógrafo britânico, David Knights-Whittome, fotógrafo da Casa Real britânica e membro da Royal Photographic Society. Tendo-se iniciado na fotografia em 1897, ao fotografar o elenco de uma produção local da peça “The Sign of the Cross”, abriu em 1904 um estúdio em Sutton, Surrey, localizado no número 18, The High Street. A sua arte terá encontrado sucesso comercial já que em 1911 irá abrir um segundo estúdio, desta feita no número 24 da Station Road, em Epsom, também em Surrey.

Era um fotógrafo famoso, cujos trabalhos eram muito apreciados e disputados quer pela Família Real quer pela alta sociedade daquele país. São muito conhecidas as suas fotografias de grupos da sociedade britânica em “house-parties” nas quais figuram muito frequentemente o Rei Eduardo VII, bem como o Marquês de Soveral. Foi, alem disso, o fotógrafo oficial da coroação do Rei Jorge V, bem como da cerimónia de investidura do então Príncipe de Gales em Carnarvon. Foi fotógrafo da rainha Alexandra e fotografou o Rei Afonso XIII de Espanha e a Rainha Vitoria Eugénia bem como os Reis da Dinamarca e Noruega. Na sua Inglaterra natal é ainda lembrado pelas centenas, talvez milhares, de retratos que tirou a jovens militares ingleses durante a I Grande Guerra, muitos dos quais seriam, provavelmente, os primeiros e únicos registos fotográficos das suas jovens vidas.



Fotografias dos jovens Príncipes, na entrada do Palácio das Necessidades, perto dos seus aposentos. Em ambas as fotografias são visíveis as dedicatórias à sua mãe, Rainha D. Amélia.


O Arquivo e Biblioteca de Sutton, Inglaterra, onde se guardam mais de dez mil dos seus negativos em placas fotográficas, merece uma nota da nossa parte pela história fascinante do seu repetido abandono, esquecimento e redescoberta. Tendo sido encontrado praticamente intacto em 1978 (cerca de 60 anos depois do fotógrafo abandonar a sua arte) no antigo estúdio em Sutton, foi novamente votado ao esquecimento nos arquivos e caves da Biblioteca de Cheam e posteriormente dos Civic Offices, instituições locais sem os recursos ou pessoal para assegurar a devida preservação do importante legado histórico que lhe havia chegado por mero acaso do destino. Apenas em 2014, graças a uma bolsa no valor de perto de 100 mil libras da Heritage Lottery Fund, foi possível catalogar, digitalizar e preservar a coleção, publicitando-a sob o título “The Past on Glass”.

Em 1905 David Knights-Whittome dirigiu-se a Lisboa a fim de fotografar o rei D. Carlos, o seu filho primogénito e herdeiro, D. Luís Filipe, e o Infante D. Manuel. Não chegou até nós a fotografia do rei D. Carlos, mas sim as duas fotografias dos seus filhos tiradas no túnel de entrada do Palácio das Necessidades. Os dois príncipes irão oferecer essas fotografias, com dedicatórias, a sua mãe a Rainha D. Amélia e encontram-se hoje no gabinete de trabalho da Rainha no Palácio da Pena. Irá ainda fotografar as salas do Palácio das Necessidades, nomeadamente a nova sala de banquetes, bem como a entrada dessa mesma sala, mais pequena, e que servia para as refeições diárias da família real.




Em cima, a Sala Azul ou Sala dos Embaixadores, e em baixo parte da Sala de Banquetes recém-terminada e utilizada pela Família Real como Sala de Jantar diária. As fotografias são de David Knights-Whittome, presumivelmente em 1905, no Palácio das Necessidades.






Ainda nesse ano verificamos que retratou com todo o detalhe e com o seu alto sentido artístico, o interior do palácio de Monserrate, em Sintra, com as preciosidades que aquelas salas encerravam. Certamente a convite do seu proprietário, Sir Frederick Cook, Visconde de Monserrate, que não deixou escapar a oportunidade de solicitar o desempenho de tão prestigioso artista. Fotografou também os membros da família Cook e os grupos de amigos que frequentavam a sua bela casa, esplêndido recheio e maravilhosos jardins.

Regressou mais tarde a Lisboa, em 1909, quando já reinava D. Manuel II. O jovem Rei havia ingressado em junho desse ano na prestigiada Ordem da Jarreteira da Grã-Bretanha. Quiçá o Rei terá reencontrado David Knights-Whittome nas cerimónias da Ordem, na qualidade de fotógrafo oficial da Casa Real britânica. Nesse encontro poderá ter tido origem o convite do Rei.

Conhecemos uma carta do fotógrafo, de setembro de 1909, dirigida a um Mr. King, Cônsul britânico em Lisboa, pedindo a sua intercessão para que as autoridades alfandegárias não abrissem as caixas que continham as placas fotográficas de vidro, pois estas ficariam irremediavelmente perdidas se fossem expostas à luz. Nessa mesma carta encontramos uma anotação do Marquês de Lavradio, Secretário do Rei, clarificando que “Este photographo vem tirar retratos a S.M. El Rei”.

Segundo Lourenço Correia de Matos, cuja informação agradeço, David Knights-Whittome formulou, a 4 de março de 1910, em carta dirigida ao Marquês de Lavradio, um pedido para ser fotógrafo da Casa Real. O pedido viria a ser despachado a 13 de abril e o alvará passado a 27 desse mês.


Sir Frederick Cook e Lady Mary Cook, no Palácio de Monserrate, Sintra, numa foto de David Knights-Whittome.


Sala de Jantar no Palácio de Monserrate, igualmente numa foto de David Knights-Whittome.



Fotografias do Rei D. Manuel II, vestido com os trajes da Ordem da Jarreteira. As legendas, bem como a menção ao fotógrafo, em inglês, indicam que estas fotos terão tido circulação em Inglaterra.


As fotografias, das quais conhecemos vários exemplares, em diferentes posições, teriam agradado muito a El-Rei e eventualmente, durante as sessões de pose, D. Manuel II terá dito ao fotógrafo ou este terá sugerido, que seria adequado fazer-se pintar, com os vistosos trajes da Ordem da Jarreteira, num belo retrato a óleo. O artista terá mesmo sugerido o nome de um pintor inglês, seu amigo, também ele conhecido autor de retratos de importantes personalidades, e também de paisagens e cenas de género. Tratava-se de George Hillyard Swinstead, membro da Royal Academy of Art. A sugestão terá sido aceite pelo Rei e assim o pintor deslocou-se posteriormente a Lisboa para começar os esboços preparatórios do retrato, a ser terminado com base nas fotografias de Knights-Whittome. Dá-se então a revolução de outubro que derrubou a Monarquia e implantou a República em Portugal. 

O jovem Rei viu-se obrigado a deixar o país e dirigir-se a Inglaterra para estabelecer residência. De início, e com a sua mãe, a Rainha D. Amélia, assim que chegaram, instalaram-se na mansão de seu tio, o Duque de Orléans, em Woodnorton.  Nesta casa, terá ainda pousado, uma ou duas vezes, para o pintor.  E o quadro ficou pronto! No entanto, D. Manuel terá tido que participar ao pintor e ao fotógrafo que, dada a sua instabilidade financeira, ainda sem notícias acerca do destino dos seus bens em Portugal, não lhe seria possível completar os pagamentos do retrato. Todavia, o antigo perceptor dos Príncipes F. Keraush, que havia acompanhado o Rei no exílio, dirige uma carta ao fotógrafo em fevereiro de 1911, incluindo um cheque de 10 libras e 16 xelins para pagamento de 12 fotografias de D. Manuel com os trajes da Ordem da Jarreteira.


Carta de David Knights-Whittome guardada no Arquivo de Sutton, em que o fotógrafo pede a intervenção do Cônsul Britânico em Lisboa no sentido de garantir que as placas fotográficas não serão abertas na Alfândega de Lisboa.


David Knights-Whittome posa em frente ao retrato de D. Manuel II, possivelmente no estúdio de George Hillyard Swinstead. Escrita na própria fotografia encontramos uma possível nota do fotógrafo, “unfinished”. Foi a digitalização e publicação desta fotografia, guardada no Arquivo de Sutton, que desencadeou o presente estudo.



Também no Arquivo de Sutton existe correspondência entre o fotógrafo e o pintor em que ambos lamentam a pouca sorte que tiveram ao arriscar o que chamam “um considerável empreendimento financeiro” e que afinal se revelou ter um desfecho ingrato.

Começa então a epopeia do retrato, com o pintor, assim como o fotógrafo, a dirigem várias cartas a diversas personalidades, inglesas e americanas que conhecem ou conheceram o Rei, tentando convencê-las a comprar a pintura sem, no entanto, conseguirem qualquer resultado positivo. Tentam igualmente interessar diferentes e conhecidas casas leiloeiras, igualmente sem sucesso. Obtêm mesmo uma resposta da Christie´s que lhes diz que a tentativa de venda em leilão de um tal retrato não oferecia quaisquer perspetivas favoráveis.

Depois de uma constante e persistente campanha para vender o retrato, sem qualquer êxito, os dois autores entram num profundo desânimo.   Então, o pintor já desinteressado do destino que o retrato pudesse vir a ter, ofereceu-o ao fotógrafo que o guardou na sua casa.


Rei D. Manuel II e o Marquês de Soveral durante a Visita de Estado a Londres em 1909. Fotografia de David Knights-Whittome.




Knights Whittome acabou por abandonar, por volta de 1918, a profissão de fotógrafo, não sem antes se ter alistado para contribuir para o esforço de guerra da Grã-Bretanha. Foi promovido a tenente na Royal Garrison Artillery e serviu como oficial comandante da “New Holland Gun station” de 1916 a 1919. Após o final da Grande Guerra muda-se com a família para Wimbledon e posteriormente para Bournemouth, onde a mulher tinha uma loja. Mudando-se uma última vez, para St. Albans, é lembrado pelo seu grande envolvimento cívico na comunidade local, servindo tanto no City como no County Council, vida política que culminaria com a sua eleição para “Mayor” de St. Albans (1940-1941), onde viria a falecer em 1943.

Através de correspondência guardada no arquivo do Turf Club em Lisboa podemos verificar que muitos anos mais tarde, creio que podemos afirmar ter sido em 1960, surge um anúncio no diário britânico “The Times” pondo à venda o retrato em causa.

Estabelece-se então uma correspondência entre o Vice presidente do Club, Júlio Jardim de Vilhena, e a anunciante, Mrs. W.V.Pett, em que  Vilhena manifesta o  interesse do Club em adquirir o retrato para a sua galeria de retratos reais.







Mrs. Pett, Margaret Jacinth Pett, fora casada com um dos dois filhos do fotógrafo, Ronald John, Oficial da Royal Air Force, falecido durante a Segunda Guerra Mundial, e casara posteriormente com um senhor Pett.  Sabemos, através de um neto do fotógrafo, Michael Knights-Whittome, que em 1943 quando este falece sem deixar testamento, a sua mulher, Sarah Elizabeth (Draper), vivia ainda em St. Albans. Michael Knights-Whittome partilhou ainda lembrar-se efetivamente do grande retrato, nas escadas da casa da família, onde habitava a avó, e que este, pela sua dimensão e solenidade lhe causara um certo temor e uma impressão duradoura que guarda, 80 anos volvidos.

Na mesma altura, também o filho mais velho do casal Knights-Whittome, Maurice, terá tentado assistir na venda do quadro, que se continuava a revelar difícil. Algures entre essa época e 1959 o retrato terá então passado para a posse de Mrs. Pett, talvez por esta ter expressado interesse nele, por a venda que se revelava cada vez mais improvável, ou porque a mudança de casa obrigaria a deixar alguns dos objetos mais volumosos, e sem ligação direta com a família (como o retrato de um antigo Rei estrangeiro).

Guarda-o então no armazém duma empresa que restaurava e conservava pinturas, James Bourlet & Sons, na Nassau Street em Londres. Cedo manifesta pressa em vendê-lo e, segundo diz na correspondência guardada no Club, fizera diligências nesse sentido junto da Fundação da Casa de Bragança, sem resultados favoráveis. Afirma ainda que segurara pintura em 500 guinéus (10.030 libras 2021), mas que estava pronta a reduzir o preço para 300 guinéus (6.018 libras 2021). Após um período de deliberação em que a compra é levada a aprovação dos sócios, e durante o qual Mrs. Pett se revela impaciente, preço foi aceite pelo Turf Club.

Por uma carta de James Bourlet & Sons, de fevereiro de 1961, dirigida ao Visconde de Asseca, então Presidente do Club, hospedado no Claridge’s Hotel em Londres, ficamos a saber que Asseca havia visitado este estabelecimento e concordado com os custos que seriam os seguintes:

i)   i) Limpeza do quadro e envernizamento – 18 libras (1961) – 344 libras (2021)

 

ii) ii) Embalagem do retrato e envio em nome do Visconde de Asseca para Sena Sugar Estates na Avenida da India em Lisboa – 18 libras e 10 xelins (1961) – 344 libras (2021)

 

ii) iii) Seguro para o transporte – 351 libras (1961) – 6.705 libras 2021


 


Carta da Sra. Margaret Jacinth Pett, datada de 20 de novembro de 1960, relatando outras manifestações de interesse ao anúncio e expressando o desejo de o vender ao Turf Club.


November 20th

Dear Sir,

Thank you for your letter dated November 14th. I hope you are in the process of contacting your members before reaching a decision on purchasing the portrait of King Manuel. I should be grateful if you would kindly let me know as quickly as conveniently possible, as I have had several replies to my advertisement, but have delayed coming to any conclusion with them until I hear from you.

I do hope you will decide to purchase the portrait as I feel a club would be an ideal place for it.

Yours sincerely,

Jacinth Pett





Não encontrei referência explicita quanto à data da inauguração do quadro no Club, mas desde os primeiros anos da década de 60, do século XX, que o retrato de El-Rei D. Manuel II adornou, durante muitos anos, a pequena sala de jantar denominada “Sala dos Reis”. Além deste retrato pendem nas suas paredes os retratos de El-rei D. Luís, de El-rei D. Carlos, de D. Duarte Nuno, Duque de Bragança e D. Duarte Pio, Duque de Bragança.

Sendo um interessante conjunto, com harmonia e dignidade, é o retrato de D. Manuel II, pela dimensão, técnica e composição, que mais nos impressiona. Sabemos agora, finalmente, que a sua história corresponde ao impacto que causa aos visitantes. Na verdade, mostrando unicamente uma das suas personagens, serve de crónica pictórica ao Portugal do início do século XX. Deixa transparecer um jovem Rei, com ambição, orgulhosamente investido da dignidade estrangeira da Jarreteira que lhe haviam conferido, mas sem esquecer a herança e responsabilidade que o acompanhavam sempre, manifestada nas Ordens portuguesas e na coroa que repousa, com as suas consideráveis dimensões reais, ao seu lado. Como o país que se predispunha a ser a sua única casa, o destino do quadro torna-se incerto, acompanha brevemente o exílio e aparenta abandonar qualquer ligação a Portugal. Permanecerá longe, não por desinteresse do retratado, mas pela conturbada conjuntura, e depois de perto de meio século e incontáveis esforços da família do fotógrafo, retorna finalmente ao nosso país. Ao voltar, encontra um Portugal muito diferente daquele que deixou em 1910, mas encontra ainda uma acolhedora casa no Turf Club.

 

 

 

 

AGRADECIMENTOS

 

Agradeço ao Presidente do Turf Club, Conde do Cartaxo, que autorizou e apoiou a investigação no arquivo documental do Club.

Ao Embaixador João da Rocha Páris – Visconde da Torre – que colaborou na pesquisa e seleção dos textos pertencentes ao arquivo do Club permitindo que se juntassem assim dois lados da correspondência que 60 anos e muitos quilómetros separaram.

A Abby Matthews, Project Officer do The Past on Glass e responsável pelo Arquivo de Sutton, cuja descoberta e publicação dos negativos originais e correspondência permitiu desencadear a investigação.

A Michael Knights-Whittome, neto do fotógrafo, que ajudou a clarificar a ligação da família ao retrato.

Ao Dr. Hugo Xavier, Conservador do Palácio Nacional da Pena, agradeço a indicação da curiosa fotografia da sala de jantar no Palácio das Necessidades, inédita, e que constituiu o primeiro trabalho de David Knights-Whittome com que me cruzei.

Last but not least ao meu colega Ricardo Mateus Pereira pela sua fundamental participação neste estudo através da pesquisa e consulta de variadas fontes. 



Manuel Côrte-Real 

 






Entre Oriente e Ocidente (16).

 


 

Sobranceira à cidade de Shkodra, a Cidadela de Rozafa foi o cenário de um terrível cerco em 1479 promovido pelo invasor otomano, chefiado pessoalmente pelo sultão Mehmet II, o mesmo que conquistou Constantinopla liquidando o Império Bizantino.

Na cidadela podem ver-se imponentes muralhas e as ruínas da mesquita adaptada da catedral cristã, do paiol, da residência dos paxás.

 





 

A cerca de 30 quilómetros ao Sul de Shkodra, num quadro rural muito aprazível, quem diria que seria possível encontrar um sofisticado restaurante que serve os produtos da sua própria quinta.

Estamos em Fishnë, no Mrizi i Zanave, a Sesta das Fadas em albanês.

Ninguém diria também que foi um campo de reeducação do temível regime comunista de Enver Hoxha. Do seu regime apenas restam aqui os bunkers que antigamente povoavam a paisagem albanesa.

 






 

Fotografias de 17 de Maio de 2022

 

José Liberato


segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Os Césares, de Adriano a Constantino, um prodígio de divulgação cultural.

 




 

Barry Strauss é um professor universitário e conceituado especialista em história militar do mundo antigo. Este é o segundo de dois volumes sobre os imperadores romanos, como nos adverte o autor no prólogo: “A grandeza destes homens, a vaidade, a capacidade de liderança e os seus muitos fracassos, a reverência pela tradição e a implacável prontidão para mudarem com o intuito de sobreviveram, são os temas centrais. O presente volume retoma a história dos Césares de 118 a 337. O capítulo final, contudo, expande-se até à queda do Império Romano no Ocidente, em 476, durante o reinado de Rómulo Augusto. Serão destacados nestas páginas cinco grandes imperadores que moldaram as respetivas épocas, de Adriano a Constantino, e incluindo também Marco Aurélio, Sétimo Severo e Diocleciano.” Livro de leitura obrigatória para entender as vicissitudes de um dos maiores impérios da História, fundado por Augusto: Dez Césares, por Barry Strauss, Volume II: De Adriano a Constantino, Bertrand Editora, 2021.

O que torna esta narrativa empolgante é a proximidade que o autor estabelece entre a obra e o homem, a sanha do poder imperial, os seus deuses, o seu próprio endeusamento, as suas conquistas, a banalidade das execuções, as conquistas, o uso das riquezas, incidentalmente os sinais daquele génio que se propagaram pela língua, pelo sistema de Direito, pelas estradas e pelos aquedutos, pelos preceitos de higiene, não esquecendo os sonhos de perpetuação em panteões, arcos triunfais, um sem número de esculturas.

Começamos por acompanhar Adriano: “Os bustos retratam-no como uma pessoa inteligente e autoritária, com um rosto oval e faces arredondadas, um nariz aquilino, orelhas grandes e olhos repletos de luz e brilho. A barba de Adriano não era apenas uma afirmação de estilo, mas também um símbolo cultural e político. Adriano parecia estar sempre em trânsito, a cavalo ou a bordo de um navio, sempre de um extremo do império para o outro, da Britânia à Síria. Fazia questão de se encontrar com as pessoas comuns, cumprimentando-as como fazem hoje os políticos democráticos e misturava-se com as tropas de todos os lugares visitados, partilhando as suas comidas simples e comendo, como elas, ao ar livre.” Personalidade complexa, como anota o autor: “Nunca ninguém fez um esforço maior para preservar a paz nem marcou uma posição mais vincada contra a expansão imperial. Nenhum outro imperador estudou os clássicos com maior empenho ou foi melhor poeta ou arquiteto – tendo ainda sido escultor e pintor.” Amava a Grécia e a sua cultura. Contou com a ajuda da mulher de Trajano e de sua mulher Víbia Sabina, ela é uma das raras mulheres que deixou um registo escrito. Terá sido um casamento de conveniência, Adriano preferia jovens rapazes. Adriano assumia-se como o segundo Augusto, aliás será tratado como Imperador César Trajano Adriano Augusto. Enfrentou revoltas na Dácia, no Danúbio, na Mauritânia e na Britânia, respondeu com firmeza. Observa o autor que para Trajano, Roma era uma superpotência, para Adriano Roma era uma comunidade, este queria um novo império no qual as elites provinciais participassem no governo como iguais. Deixou o seu nome ligado à muralha em Inglaterra, à Vila Adriana, ao Panteão em Roma. O seu mausoléu é hoje o Castelo Santo Ângelo, que foi usado pelos Papas. Adriano marca o apogeu do império romano, sonhou e concretizou um império próspero, Roma e o Oriente grego registaram uma explosão de produção cultural e um florescimento artístico.

Sucedeu-lhe Marco Aurélio, publicou um livro que ainda hoje é muitíssimo lido, Pensamentos. Diz Barry Strauss que Marco Aurélio é o mais próximo de um filósofo-rei de que há registo, isto num período em que Roma sofreu calamidades sem precedentes, o que veio a pôr à prova a sua força de caráter. Tal como Adriano, Marco Aurélio admirava a filosofia de Epicteto, o estoico grego. Marco Aurélio casou com Ana Galéria Faustina, mais tarde ser-lhe-á o título de Augusta, será imperatriz. Marco Aurélio pretendia ser um reformador iluminado, acabou por ser enredado numa luta crepuscular na fronteira, daí o conjunto de viagens que teve de fazer para lidar com os bárbaros, foi bem-sucedido, dispersou-os pelas terras do império, desde a Germânia à Dácia e à Itália. Enfrentou revoltas, jugulou-as. Ao contrário dos seus antecessores, respeitou o senado e jurou não ser responsável pela morte de qualquer senador. O autor considera que os Pensamentos são a última grande obra da filosofia estoica da Antiguidade e a mais amada nos nossos dias, terá toda a razão. Sucedeu-lhe Cómodo, iniciar-se-á um período sangrento, Cómodo será assassinado, seguem-se vários imperadores e a guerra civil até chegar um novo líder, Sétimo Severo, será um tempo de guerra, política e assassínio, a dinastia por ele fundada durará 42 anos. Severo combinou um exército forte com um Estado forte, ideário prosseguido por Diocleciano e Constantino, os dois últimos Césares aqui magnificamente narrados por Barry Strauss.

Diocleciano restaurou a estabilidade no império que vivia na mais completa violência, isto enquanto os inimigos de Roma não pararam de empurrar as fronteiras tanto no Oriente como no Ocidente. No fim do século III, depois de catorze anos de luta contínua, Diocleciano e os seus corregentes conseguiram finalmente fixar as fronteiras. Deve-se a este imperador a mais assanhada perseguição religiosa aos cristãos. O cristianismo vai fermentar num espaço de grande variedade de religiões estrangeiras, havia mistérios gregos, deuses egípcios, o movimento Hare Krishna, o culto de Mitra, o judaísmo, é neste ambiente que o cristianismo ganhou seguidores, o imperador detestava o poder da Igreja, serão tempos terríveis para os cristãos. E caprichosamente o homem que acabaria por triunfar como sucessor de Diocleciano, Constantino, marcou uma rotura menor do que se poderia pensar. Será o primeiro imperador cristão, não deixará de ter um comportamento muito semelhante ao de Diocleciano no que diz respeito ao governo, ao exército e à economia, o autor dá-nos aqui uma narrativa de grande vivacidade onde não falta a cristianização da cidade de Roma, a criação de Constantinopla, mas já estava aberta a porta ao eclipse de Roma, estavam criadas as condições para o império romano sem Roma, sem Itália e mesmo sem maior parte da Europa.

Para surpresa de muitos dos leitores, fica-se a saber que o Ocidente romano sempre fora mais pobre de que o Oriente romano. Roma irá ser saqueada, ao contrário de Constantinopla. Em 476, o Ocidente romano será tomado pelos invasores, Constantinopla só desaparecerá com o império romano do Oriente em meados do século XV. No entanto, ainda iremos ouvir falar de Ravena e de um conjunto de mosaicos de altíssimo valor artístico. E o autor conclui: “Quando Augusto criou o Império Romano, jamais podia imaginar que seria na pequena Ravena, uma cidade portuária longe de Roma, que o resplendor final do império no Ocidente se demoraria.” Escreveu um crítico que este livro se lê como um guião da Guerra dos Tronos e que o autor é o melhor académico do Mundo Antigo a escrever nos dias de hoje para o leitor comum. É bem verdade, e deve ficar aqui escrito, porque se trata de leitura. Imperdível. 


Mário Beja Santos






 





Entre Oriente e Ocidente (15).

 

 

A entrada na Albânia fez-se pela cidade de Shkodra, quinta cidade do país e centro económico do Norte.

É o principal centro católico da Albânia (40 % de católicos) e cidade mártir da ditadura. Aqui foi criado o Museu do Ateísmo em 1967:

 



Só em 1990 foi possível realizar a primeira cerimónia religiosa depois de 30 anos de proibição total.

Hoje, a Igreja de São Francisco é decorada pelas chamadas pinturas anticomunistas da autoria do pintor albanês Pjerin Sheldija

 





Atracção maior da cidade é o Museu Marubi, criado a partir de um estúdio de fotografia fundado pelo italiano Pietro Marubi (1834-1903) e depois continuado pelos seus descendentes.

Uma fotografia de refugiados em 1914, vítimas de deportação numa altura de grandes indefinições nas fronteiras:

 


Enver Hoxha na varanda da Câmara de Shkodra fotografado pelos Marubi e a fotografia adulterada à boa maneira do regime:

 




E outras fotografias de ambiente otomano e depois dos militantes da Resistência:






Fotografias de 17 de Maio de 2022

 

José Liberato