Prosseguindo nos caminhos da Baviera, agora mais ao Norte, cheguei à cidade
histórica dos banqueiros Fugger, onde reuniu a dieta de Augsburg e onde o
protestantismo lançou a Confissão de Augsburg.
Na Catedral de Augsburg, uma imagem de São Cristóvão:
Ainda na Catedral, um dos maiores frescos de São Cristóvão que já vi:
Em Weissenburg, cidade que durante muito tempo constituiu o ponto mais
avançado do Império Romano na Germânia, a igreja de Santo André exibe um
extraordinário tríptico gótico tardio datado de 1496:
Na parte central, São Bento, Nossa Senhora sobre um Crescente e São
Sebaldo. Nas partes laterais, Santo Antão e São Sebastião.
Em baixo os catorze santos auxiliadores de que já aqui falámos. O primeiro
deles é São Cristóvão:
A família Fugger, natural de Augsburg e já rica no início do século XV
sobretudo devido à sua actividade no têxtil, tornou-se no decorrer do século um
potentado europeu ao investir na Banca.
Grandes financiadores dos Habsburgos, conseguiram em especial garantir de
forma bem pouco ortodoxa várias eleições ao Sacro Império Romano-Germânico. Foi
o caso das eleições de Maximiliano I e em especial de Carlos V, recebendo em
troca grandes favores dos imperadores.
Relacionaram-se com os Reis de Portugal, nomeadamente com D. João II e D.
Manuel I, tendo chegado a constituir uma verdadeira PPP para as especiarias a
seguir à chegada de Vasco da Gama à Índia.
Tiveram uma representação em Lisboa e relacionaram-se com Portugal através
da Feitoria em Antuérpia.
Em 1512, Jakob Fugger von der Lilie (1459-1525) resolveu construir um
imenso edifício em Augsburg destinado à sua habitação na cidade mas também a
fins comerciais.
O edifício perdurou ao longo dos séculos mas foi destruído na II Guerra
Mundial. Foi reconstruído e ainda permanece na propriedade da família.
Por esta casa passaram os imperadores Maximiliano I e Carlos V, Dürer,
Lutero, Ticiano e Mozart para além de uma infinidade de reis e cardeais. Em especial,
muitos dos eleitores do Império Sacro Romano-Germânico pernoitavam no complexo,
o que era muito conveniente para os Fugger.
Mas mais interessante ainda é o Fuggerei um complexo de habitação social
criado pelos Fugger em 1519. Oito ruas em condomínio fechado com renda
simbólica. Há quem diga que a renda se mantém igual desde 1519. Os moradores
têm a obrigação moral de rezar pela família Fugger que ainda hoje continua a
gerir o complexo.
Aqui morou o bisavô de Mozart, Franz Mozart.
Durante a II Guerra Mundial foram construídos bunkers para proteger as
famílias moradoras.
O texto abre assim: «há um mês e meio
uma faculdade obscura do Reino Unido, a Goldmsiths, anunciou que iria proibir o
consumo de carne de vaca nas suas instalações».
Suspeito que Ricardo Alves,um defensor de Boris Johnson e de um Brexit rápido, seja
doutorado numa universidade menos obscura. Cambridge, por exemplo. Recomendo
que veja o que fez Cambridge (desde 2016!), decerto uma universidade de terceira para os elevados
padrões académicos do Prof. Alves.Leia aqui o que fizeram a Ulster University, a University of East Anglia e diversos colleges em Oxford, ou o que fizeram a Universidade de Edimburgo e a Westminster University. OK, doutor Alves?
E
não, não se proibiu o consumo de carne bovina em instalações nenhumas: nas ementas
da cantina deixou de ser servida carne de vaca, mas quem quiser pode comê-la à
vontade. De uma vez por todas: não está proibido o consumo de carne de vaca, a
carne de vaca deixou de ser servida nas ementas da universidade. Abstenho-me de comentar as afirmações de Assunção
Cristas, segundo as quais «querer banir o acesso das pessoas, por exemplo, à carne de vaca, é tão ilegítimo como banir refeições vegetarianas», lembrando tão-só que, segundo sei, não existem
recomendações da Organização Mundial de Saúde (Agência Internacional para a Investigação em Cancro) e da nossa Direcção-Geral de Saúde
sobre moderação no consumo de vegetais, ao contrário do que sucede com a carne
de vaca.
O
melhor trecho do colunista Alves, porém, é a insinuação brincalhona de que o
Reitor da Universidade é «sócio de um McDonald’s em Coimbra». Talvez não
tão brincalhona assim, pois logo a seguir se diz: «Não
seria a primeira vez, muito longe disso, que um lugar público era usado para
benefício pessoal.» Lindo, não?
Também
bom, muito bom: «O reitor é da área farmacêutica, pelo
que não terá especiais conhecimentos sobre as questões ambientais.»
Melhor ainda, o colunista do Observador questiona as alterações
climáticas, perguntando: «O alarmismo sobre a degradação do ambiente é justificado
e há um ponto de não retorno a partir de 2030, como nos querem fazer crer? Ou
há um aumento da temperatura média principalmente porque estamos num período
interglacial quando a dita temperatura aumenta naturalmente? Ou ainda, há uma
agenda anticapitalista por trás deste alarmismo, usando as questões ambientais
em substituição da revolução para nos impor uma visão totalitária da sociedade?»
Sem comentários. Toda a opinião é livre, mas a imbecilidade deve
ser denunciada.
Confesso que não percebo o vendaval do
bife. O reitor da Universidade de Coimbra anunciou que, no início do próximo
ano, as cantinas académicas vão deixar de servir carne de vaca. Só isso,
nada mais do que isso. Não disse que o consumo de carne de vaca está proibido
no interior das instalações académicas. Determinou apenas que um determinado produto
deixa de ser servido nas cantinas. Um produto cujo consumo a OMS desaconselha
em doses excessivas, sabendo nós também que moderar o consumo de carne de vaca
é também vantajoso para o ambiente. O que Coimbra fez nem sequer é original, muitas universidades inglesas fizeram-no – e não consta que isso tenha merecido
pronúncia pública do ministro da agricultura inglês ou da rainha Isabel II. O
que a Universidade de Coimbra está a fazer é, tão-só, eliminar a carne de vaca
das ementas das cantinas. Justifica-se que um ministro venha falar – de resto,
com pouco respeito pela autonomia universitária – em «populismo» e «demagogia»?
Uma universidade pública dar um sinal público de compromisso com algo que é
defendido por todas as instituições internacionais de referência, com a OMS à
cabeça, é «populismo» e «demagogia»? A universidade será por acaso obrigada a
servir bife de vaca? Alguém disse, porventura, que um aluno que seja apanhado a
comer um hambúrguer no Páteo das Escolas será punido ou perseguido? Por amor de
Deus, o que está em causa é, e é apenas, uma decisão sobre as ementas de uma cantina. Uma decisão que não é neutra, obviamente, que tem uma carga
simbólica, evidentemente. Mas essa carga simbólica é negativa e desprezível?
Não. Podem não a achar louvável, podem achar o que quiserem, mas decidir, em
nome da saúde e do ambiente, que num estabelecimento público não se serve mais
um determinado produto – é só isso! – não parece ser uma questão que mereça
comentários, incluindo este. Todos os dias há centenas de vozes a apelar à
moderação no consumo de carne de vaca. Agora, o reitor de Coimbra, juntando-se
ao coro, determinou que as cantinas académicas deixar de servir bifes.
Dir-se-á, repete-se, que isto é um sinal. Pois é, e ainda bem. Ou não é também um
sinal, de sentido contrário, proclamar-se que se come carne de vaca, como se isso interessasse e tivesse a ver com o assunto? E, entre os
dois sinais públicos, entre os dois gestos simbólicos (vetar o bife vs. proclamar o seu consumo), ambos legítimos numa
sociedade livre, qual é o mais positivo do ponto de vista sanitário e
ambiental? Qual é? Importam-se de ler esta nota da Direcção-Geral de Saúde sobre consumo de carne e cancro?
Eis um pálido e primeiríssimo aviso das
tensões e conflitos que nos aguardam, nesta e noutras matérias (por agora, à conta do bife coimbrão, já temos dois ministros à batatada). As alterações
climáticas, está estudado, irão provocar guerras entre povos e nações, confrontos a
propósito da água e de outros bens essenciais. Portugal e Espanha,
provavelmente, vão ter vários confrontos diplomáticos, espera-se que só
diplomáticos, a propósito de rios e cursos de águas. Mas os conflitos vão
eclodir, e muito, no interior de cada país, pois a emergência climática vai
obrigar a mudarmos radicalmente de estilo de vida, afectando interesses
instalados em muitos sectores económicos, e não só. Há alarmismo e algum
desnorte, sem dúvida. Mas, com serenidade e calma, devemos concluir que temos
de mudar, e mudar muito. Todos os dias há sinais que o mostram, relatórios
novos, dados incontroversos. O facto de uma decisão tão simples e circunscrita,
como esta do reitor de Coimbra, suscitar tamanho vendaval é um preocupante
prenúncio das guerras que aí vêm, na hora em que tivermos de agir – e agir
drasticamente. É isso que os que criticam o reitor de Coimbra deviam perceber,
quando falam em populismo ou proclamam o seu apreço ao bife. Como será quando
as coisas forem mais sérias e mais drásticas? Dir-se-á que já não será no tempo
de Capoulas Santos ou doutros como ele. Talvez, não sei. Mas sei que os que vierem a
seguir, as gerações vindouras, não deixarão de julgar os que agora mandam e
decidem pelo que fizeram – e, sobretudo, pelo que deixaram de fazer.
Os
miúdos que agora vão a concertos de música e a festivais zambujeiros deste
mundo globalizado e chinês nem sabem bem o que é ir a um concerto, ou o que
significa ir a um concerto. Portugal, Junho de 1981, ainda era um país tipo RDA
pós-salazar e pós-PREC, onde chegava muito pouco, quase nada, do que acontecia
lá fora. Não havia Internet nem Zara, e a pornografia possível difundia-se em
suporte papel com nome de Gina. Kispo era uma marca de blusões aceitável, até
apreciada. E até sei, vejam lá, de histórias reais de Big Mac’s comprados em
Heathrow e trazidos semifrios para Lisboa, onde eram devorados até ao último
sésamo. As marcas eram, mais do que hoje, uma etiqueta social poderosa, com
autocolantes colados nas janelas dos quartos teen, a tapar o sol. Nas paredes,
cartazes das estrelas, jamais de Roberto Carlos. Roberto Carlos era e é o
cúmulo da foleirice – e estamos cá para dizê-lo. Roberto Carlos, como pessoa,
na «vida real», como se dizia dos actores das novelas brasileiras, pode ser um
canalha com poucos escrúpulos, algo de que nos apercebemos – e, ainda assim,
muito ao de leve – nas entrelinhas do extraordinário Vale Tudo. O Som e a Fúria de Tim Maia, de Nelson Motta. Mas foi
assim:
Em
22 de Junho de 1981, o Rei actuou no Estádio de Alvalade para o que então era uma
enchente, oito mil pessoas, uma estatística que hoje é igual à dos estrangeiros
que se apinham e me abespinham no meu miradouro à Graça. Eu tinha na altura um
maravilhoso cartão de imprensa, tirado no Palácio Foz, como fotógrafo
freelancer de uma agência francesa, a AFIP (Agence Française de Information
Photographique). Que um menor de idade pudesse trabalhar infantilmente como
fotógrafo de uma agência francesa, que o Estado português soberano lhe desse um
cartão oficial que dizia «Press» e lhe dava acesso a tudo o que era lugar
público reservado são coisas que não cabem muito na cabeça dos miúdos de hoje,
mundo globalizado e chinês. Mas era assim na RDA lusitana – e ainda está por
estudar a importância brutal, absolutamente brutal, que os concertos tiveram
para os miúdos portugueses da altura, um fogo-fátuo de cosmopolitismo essencial
para a consolidação da democracia e para pavimentar a entrada na CEE. Na
altura, além dos concertos e das revistas de importação, dos filmes que ficavam
meses em cartaz e eram alvo de reprises estivais (foi assim que de uma
assentada vi todo o Woody Allen no Caleidoscópio), além disso não havia nada,
absolutamente nada. Uns felizardos iam a Paris, mas sobretudo a Londres, um
piloto da TAP era alguém como Bill Gates, mas fora isso muito pouco. Agora os
miúdos vão passar fins-de-semana em Amesterdão com a mesma ligeireza com que antes
eu ia a Alverca, mas as alterações climáticas vão acabar com o low cost aéreo e
os seus filhos ou netos terão de voltar a gozar Alverca, na melhor das
hipóteses. É claro que isso vai criar ainda mais conflitos e tensões, e irão
falar de injustiça geracional, da mesma forma que hoje falam da «conspiração
grisalha» dos mais velhos, que para si reservaram o melhor e o que resta do
Estado-Providência em escombros e das pensões da segurança social. Com o
ambiente, vai ser o mesmo. A necessidade de responder às alterações climáticas
vai matar a globalização (adeus, chineses), vai diminuir as viagens pelo ar, vai
acabar com fins-de-semana neerlandeses. Quando se começar a ter de racionar a
água do banho, evitar as praias infestadas de mosquitos, largar o transporte
particular, as gretas thunbergs vão culpar-nos a nós, e aos nossos filhos, por
causa dos fins-de-semana neerlandeses, dos gap years no Perú, Macchu Pichu, do «mochilão» em orientes extremos. Vai
ser bonito, vai.
É
por isso que é tão importante e tão fundamental gritar Obrigado, Senhor. Por
estarmos vivos, aqui, aí. Por Roberto Rei. O camarim era numa roulotte colocada
no meio do relvado, havia um túnel de lona que protegia o Monarca Supremo dos
olhares da plebe no caminho até atrás do palco, atrás da porta. E eu, tonto
miúdo, levava uma t-shirt amarela (da Adidas!) em homenagem canarinha ao
menestrel das Baleias. Do concerto, já lembro pouco, excepto as fotografias que
então lhe tirei numa Asahi Pentax, Roberto de branco, nas emoções encenadas, de
cravos alvos na mão, muito artificialmente comovido, lágrimas de plástico. Depois
um apontamento no diário parvo, qualquer coisa em transe foleiro como «não é
todos os dias que se vê o Rei». Hoje vê-se o Rei todos os dias, no Youtube, mas
não é a mesma coisa. Não, não é. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra
coisa, uma outra coisa. E, a seguir ou antes de Roberto, muitos outros
concertos (todos os que existiam), bem perto dos palcos, bendito cartão Press
do Palácio Foz. Poucos foram como aquele, uma noite de Junho de 1981, ainda
havia o Muro em Berlim e uma Cortina de Ferro geográfica e sobretudo mental que
fazia (e faz) de nós um país encantadoramente periférico e atrasado. Mais em
1981 do que hoje, é certo. E por isso nunca mais fui ver Roberto, que agora é
piroso e velho, mas antes, quando já era piroso posto que não tão velho, Roberto
era o que havia, como as revistas porcas da Gina ou os blusões loucos da Kispo.
Gozar o que há, mesmo sendo pouco e fraquinho, kitsch e roberto carlos, é uma
lição zen que deveria ser mais seguida, sobretudo pela miudagem do mochilão, que
tem tudo menos um passe press que abre ou abria mundos infinitos para um
adolescente que, obrigado Senhor, era capaz de se espantar com o mundo, com
todo o mundo, e de sofrer com ele. Andamos cada vez mais encharcados em
antidepressivos, massacrados nos empregos ou nos muitos reveses da infortuna,
mas talvez devêssemos começar as manhãs a ouvir este homem-canalha e a agradecer
ao Senhor por ele existir já há tantos anos nas nossas vidas que se tornou uma
parte insondável de nós. Há dias, com a morte de Roberto Leal, alguém colocou
desastradamente nas redes uma foto rip com a cara de Roberto Carlos. Tremi de
pensar que um dia ele vai morrer, envolto num caixão branco e chorado por tudo
quanto foi mulher-a-dias e porteira de buço do Portugal que foi meu. Quando ele
morrer, há uma parte de nós que vai ficar cadáver, como cadavéricas são já estas
memórias de Alvalade 1981, perdão.
Obrigado, Senhor: o Rei está vivo e nós também. A ouvi-lo em volume
máximo.
Não.
Nas páginas do Expresso, Miguel Sousa Tavares disse o óbvio: não. Como é que um país que está comprometido com uma
agenda de descarbonização pensa em construir um novo grande aeroporto? As
emissões de gases-estufa na União Europeia aumentaram 87% entre 1990 e 2006, e
não dão sinais de parar. Na conferência trienal da ICAO, em 2016, a aviação
internacional conseguiu iludir o problema, que se agrava de dia para dia, até
ao dia. Para ter uma ideia do impacto ambiental da aviação, basta ler esta entrada da Wikipedia. Como é óbvio, as coisas vão mudar, e mudar drasticamente,
provavelmente com a imposição de taxas pesadas, com aumentos de preços e
diminuição do número de voos – será económica (e ambientalmente) viável um grande
aeroporto em Lisboa, daqui a quarenta ou cinquenta anos? Não, e não venham com
projecções enviesadas sobre o aumento do tráfego aéreo, pois essas projecções
não têm em conta o que irá acontecer em termos de taxas, preços, custos,
diminuição de passageiros. É sustentável um novo grande aeroporto no Montijo? Não.
E ninguém pensa nisso?
Primeira, porque é que numa sociedade
democrática e aberta, baseada na igualdade e na transparência das instituições, a Maçonaria se
mantém elitista e de acesso reservado, secretista, opaca e nebulosa, mas se
proclama progressista e avançada? Porque é que não há gente do povo na Maçonaria, porque é que os pedreiros livres não podem ser pedreiros-livres?
Segunda, porque é que uma organização
que reclama um longo historial em defesa dos direitos humanos e da igualdade
mantém uma separação discriminatória – pior que a da Igreja – entre maçonaria
masculina e maçonaria feminina? E porque é que é incapaz de se libertar desse
arcaísmo misógino?
Terceira, porque é que, sempre que se
fala da Maçonaria, alguns respondem com o Opus Dei, numa tentativa de equiparação
de culpas, reveladora de má consciência?
Estou a ler Green Philosophy, do papa
do conservadorismo Roger Scruton, e sobre o livro falarei depois, se tiver vagar,
paciência, engenho – e vontade.
Há uma coisa que Scruton diz e que, não
sendo muito original (a discussão sobre «externalidades» é antiga e vasta), faz
que pensar. A propósito dos plásticos, mas também poderia ser a propósito de
outras coisas, como a construção de casas em leitos de cheias ou actividades
poluentes. Diz ele, e com razão, que para umas empresas não pagarem por
embalagens de vidro ou de outros materiais, para aumentarem o lucro ou pouparem
usando o plástico, mais baratinho, todos nós acabamos por pagar – em custos
ambientais mas em custos económicos, com as despesas de remoção, tratamento,
etc., etc. Quer dizer – e isto não é dito por um marxista, mas pelo nome maior
do conservadorismo de direita –, estamos todos a pagar para alguns, poucos, não
pagarem. É uma espécie de imposto indirecto, ou oculto, a favor de uns
privados, não destinado ao Estado para ser distribuído e gasto em despesas
sociais. É um preço adicional que acarretamos. Quando paga mais barato por um
produto numa embalagem de plástico, não está verdadeiramente a pagar mais
barato; no imediato, parece mais barato, em comparação com uma embalagem de
vidro, de cartão, de metal. Mas, na verdade, há um preço diferido, e bem
elevado. O que julga que custa três euros se calhar vai custar-lhe cinco euros,
o custo que vai suportar no ambiente que o envolve, na remoção e no tratamento,
nos serviços de limpeza urbana, no que for. Estou a extrapolar um pouco a
partir do que diz Scruton, mas creio que esta é uma injustiça oculta do nosso
tempo, mais uma. Injustiça não é apenas vertical, ricos e pobres, ou
geracional, de idosos para mais novos. É injusto, parece-me, que, para uns
poucos pouparem nos custos de produção e aumentarem os ganhos, todos termos de
pagar. Sem nos apercebermos disso, o que torna ainda menos transparentes,
claras e leais as regras do mercado. Bom domingo.
De novo na Baviera prossigo uma rota de Imagens de São Cristóvão desde Füssen até Augsburg.
Em Füssen, a fachada da Igreja do Hospital do Espírito Santo, construída em 1748 e 1749 e uma jóia do rococó da Suábia e da Baviera:
No Museu da Abadia de Ottobeuren, duas imagens de
São Cristóvão. A da esquerda proveniente da Região alemã de Allgäu de fins do
Século XV e a da direita da também região alemã da Alta Suábia, datada de cerca
de 1500:
Em Memmingen, na Igreja de São Martinho, um
fresco:
Definição
de Tortúlia (substantivo neutro):
conversas treta-a-treta à volta da lixeratura e do bolorento miolo literário,
encontros de poetretas e poetísicas pulítica e pueticamente correctos,
festivais de puetaria decorados com prosas murchas de plástico, eventos
coolturais, lançamentos de fogo-de-artifício editorial seguido de apanhamento
de canas ocas e rachadas para entretenimento da província do espírito,
distribuição de papos-secos sem côdea nem miolo, cursos de escrituração
criativa e outras deformações profissionais de inseminação artificial,
explicações de Brutoguês, doutoramentos Horroris Causa, obscuras
aparições instantâneas naturais desta patética República das Badanas,
leituras à capela de «puemas» e «textículos» de saco privado subsidiadas por
bolsas públicas, exibições e palrações de artistas da escola do Rotundismo de
freguesia, congressos e colóquios do movimento Bacoco-Cocó, mesas redondas
ocupadas por bestas quadradas, «e assim sucessivamente».