sábado, 25 de julho de 2020

Férias e bons aromas.





Onde se ouve uma caixa de música, se dança uma valsa – romântica – e tudo cheira bem.

“A música de Déodat de Séverac cheira bem” – foi Debussy quem o disse.

Marie-Joseph-Alexandre Déodat de Séverac. Do conjunto de peças En vacances, a VI - “Où l'on entend une vieille boîte à musique – e a VII - “Valse Romantique”. Ambas por Aldo Ciccolini.





Manuela Ivone Cunha


sexta-feira, 24 de julho de 2020

Sarah Hegazy (1989-2020).








Todos nos lembramos desta Mariana de Paris em Maio, a greve dos estudantes. A imagem veio-me à memória ao ver outra Mariana, Sarah Hegazy. Com uma diferença: por ter desfraldado uma bandeira com o arco-íris, Sarah foi presa e torturada. Em 1968, com todos os males que tinha e tem, França era uma democracia. Em 2020, o Egipto é uma ditadura. E mais não digo. Bom fim-de-semana.






Amália, 100 anos.












O Fuji em Paris.





Estranho, no mínimo.







          Baltasar Garzón era o juiz dos direitos humanos. Depois, fez-se advogado, uma sociedade com nome pomposo, International Legal Office for Cooperation and Development. Agora, aparece a defender o alegado testa de ferro de Nicolás Maduro. Estranho, no mínimo. Tristíssimo, no máximo.





Yuri Dimitrev, historiador do Gulag: preso (um processo político?)














Separados à nascença.



General Botelho Moniz

Treinador António Boronha 





Luís Faustino































 

Empilhadora, uma nova e tão bela editora.












quinta-feira, 23 de julho de 2020

A ida à lua: a perspectiva inglesa.



























Verão. Furiosamente Verão.






Depois da revelação que continua a ser a aproximação à liberdade e puro prazer do Verão, das Quatro Estações de Antonio Vivaldi, por Nemanja Radulovic com a Double Sens Orchestra -- impetuosa, desgrenhada e com uma garra decapante –, o extravagante Nigel Kennedy a bater o pé furioso, chocante e impune – e oh! tão feliz a levitar nas botas cardadas e a levar os colegas da Orquestra de Câmara Polaca a levantar voo com ele.

A rematar, a delícia desconcertante da recomposição contemporânea da mesma estação por Max Richter, com Daniel Hope e a Orquestra de Câmara de Berlim.

Abram alas para este bouquet estival, as asas que o confinamento não tiver atrofiado e desamparem a loja as máquinas de costura de picar o ponto. Fujam, isto não é para salões!

Nas três versões de L’Estate, o 3º andamento (Presto), em poucos minutos cada.









Manuela Ivone Cunha







Parabéns, António Cabral.









Não há coincidências? Poças, só há. Ontem, no dia de aniversário de António Cabral, o maior tintinólogo que conheço (além de uma pessoa extraordinária, claro), no dia do aniversário de António Cabral, dizia, surgiu a notícia de que o original do Lótus Azul, de Hergé, foi descoberto num caixote ou caixa ou lá o que é e vai ser leiloado em grande, com previsões de 3 milhões. Não tendo, de momento, disponibilidade para oferecer um presente tão vultuoso, junto envio a imagem acima, que não é o original mas imita bem e até anda lá perto, tão perto como o meu abraço, de parabéns e muita amizade (quanto ao mais, é só imprimir, recortar e emoldurar)










O Códice Boxer.








Tive o privilégio de conhecer Charles Boxer, mas não de ver este códice que tem o seu nome (e para pesquisar as imagens que vão junto, calculem, tive de percorrer muito anúncio de roupa interior masculina). Nem sabia da existência do Códice Boxer nem de que chegou a ser bombardeado pela Luftwaffe (!). É uma maravilha feita no século XVI em Manila para que Felipe II visse como eram os de lá. Assombroso.   



terça-feira, 21 de julho de 2020

O fim de Freud.



Ilustração de Vítor Higgs




Freud, a caminho de Londres e do fim. Em «Péssima Companhia», no Diário de Notícias, aqui







Censura em Hong Kong: um alerta.

















Parabéns, Maria João Pires.









A pianista portuguesa Maria João Pires


Foi durante o ano lectivo de 1952-53. Era eu estudante de Filosofia no Instituto Filosófico Salesiano do Estoril quando se realizou uma das várias festas anuais. Se bem me recordo, foi no dia 8 de Dezembro, por ocasião da celebração da festa de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira do Reino de Portugal, desde que o Rei Dom João IV, em 1646, em plena Guerra da Restauração, assim a jurou e proclamou, colocando-lhe sobre a cabeça a coroa real portuguesa. Como sempre acontecia em efemérides desta natureza, o acontecimento, albo signando lapillo, foi celebrado com pompa e circunstância, primeiro na igreja, com missa cantada pelo orfeão, a quatro vozes, depois no refeitório, com um banquete requintado e, por fim, no palco.
         Deixando subentendido, à imaginação do leitor, o que se passou na igreja e no refeitório, vou narrar sucintamente o que se passou no palco.
         Pelo cair da tarde desse dia, realizou-se, no salão de actos do instituto e do colégio, um solene sarau, o qual consistiu  numa breve palestra sobre Aquela que, sempre virgem, teve o altíssimo privilégio de ser concebida sem mácula original e de ser Filha, Esposa e Mãe de Deus;  num recital de poesias de cariz religioso, respigadas nas obras de poetas renascentistas, tais como Camões, os irmãos Diogo Bernardes e Frei Agostinho da Cruz, e em colectâneas de poetas barrocos, tais como Sóror Violante do Céu e Jerónimo Baía, e nas obras de dois poetas românticos: João de Deus e Antero de Quental; na representação de um breve coro falado, de carácter sacramental, encomendado a um padre vocacionado para coisas dessa natureza; na execução, pelo orfeão, de alguns motetes a quatro vozes, compostos por Palestrina e por Tomás Luis de Victoria; e na interpretação ao piano, por modestos amadores, de algumas peças programáticas, alusivas ao evento.
Quando toda a audiência se preparava para sair da sala de teatro, depois de uma justa ovação em homenagem à Imaculada Conceição da SS. Virgem, Padroeira de Portugal, e a todos os protagonistas do sarau, eis que, inesperadamente, surge de entre as cortinas, que começavam a descer, uma senhora idosa, vestida e penteada à moda antiga, trazendo pela mão, para junto do piano, uma menina de uns sete anos de idade, com um vestido cor de rosa e com o cabelo a cair-lhe pelos ombros, em duas lindas tranças, se bem me recordo do traje e do penteado.
Perante a mágica aparição, toda a assistência retoma os seus assentos e espera pelo milagre. A menina, com uma serenidade e uma desenvoltura fora do vulgar, senta-se ao piano e brinda os ouvintes com umas breves e belas peças de Mozart e de Schumann, interpretadas com uma maestria impressionante. Era a menina-prodígio Maria João Pires, que se havia estreado com recitais de piano aos cinco anos de idade.
Dizer que Maria João Pires foi a vedeta do memorável sarau em homenagem a Nossa Senhora da Conceição é desnecessário.

A propósito da evocação da pianista portuguesa mais célebre do século XX, parece-me oportuno traduzir do Inglês para o Português uma entrada do meu Diário em que memorializo pequenos episódios referentes aos meus dois netos: Camille e Calvin.

“Manchester, 6 de Outubro de 2009

CAMILLE E O NOCTURNO N.º 1 DE CHOPIN

Quando a minha neta Camille tinha cinco anos de idade, decidi levar comigo a minha computadora, por ocasião de uma das minhas visitas semanais a Boston, num domingo. Enquanto Calvin estava a dormir a sesta, ocorreu-me ir ao You Tube e procurar a celebrada pianista portuguesa Maria João Pires para a ver tocar Chopin. E lá estava ela a tocar o Nocturno n.º 1.
Era durante a noite, em casa dela: estava vestida de camisa de dormir branca; e estava a tocar à luz das velas. Depois de haver tocado os primeiros compassos (toda a sessão dura 5 minutos e 43 segundos), vemos a sua filha na cama, vestida também de camisa de dormir branca, a despertar em câmara lenta, a dirigir-se descalça para a sala e começar a dançar em passos de balé, ao som noturno, vaporoso e acariciante das notas do piano. Ao dar-se conta da presença da filha, a mãe volta-se para ela e sorri de uma forma aprovativa, a rescender a amor e a ternura maternal. E lá estamos nós a ouvir a música e a observar alternadamente a mãe a tocar e a filha a rodopiar e dançar embebecida pela sala, irradiando doçura e alegria. Por um momento, enquanto a música continua, dá-se uma mudança de cena: a mãe e a filha, vestidas de roupa normal, encontram-se no campo, em pleno dia, a colher flores silvestres e a sorrir felizes, em companhia de um lindo cachorrinho e de uma galinha branca. Em menos de um minuto, vemo-las, a ambas, novamente dentro da sala, iluminada com velas, fazendo o que haviam feito antes de as vermos no campo. Depois, cerca de um minuto antes do final, observamos a pequenina a abrandar o passo, a bocejar ligeiramente com o sono, a voltar para a cama, a cerrar os olhos sonolentos e serenos, a adormecer em paz etérea e a sonhar com anjos. Maria João Pires toca as últimas notas, apaga as velas e o espectador presume que a prodigiosa pianista e mãe doce e carinhosa vai disfrutar de um bem merecido repouso noturno.
Cem por cento ciente de que a minha princesinha Camille, que há mais de um ano vinha a estudar balé, na escola da Companhia de Boston Ballet, adoraria ver o vídeo, pedi-lhe que pegasse num banco alto e que se sentasse ao meu lado, no balcão que separa a cozinha da sala de estar. Ela aceitou a minha sugestão e eu surpreendi-a com a cena que acabo de descrever.
Quando o vídeo chega ao fim, a Camille pede-me que espere um minuto. Vai ao seu quarto e, passados uns instantes, aí volta ela, vestida de camisa de dormir branca e descalça, com o seu longo cabelo castanho-claro e cacheado a cair-lhe pelas espaldas. Pede-me que torne a tocar o vídeo e começa a imitar a filha de Maria João Pires. Quando o vídeo chega ao fim, Camille, quase em indescritível estado de êxtase, pede-me que o repita mais uma vez e eu faço-lhe a vontade com a maior satisfação. E ela pede-me que o repita vezes sem conta, imitando cada movimento da pequena bailarina, incluindo o fechar os olhos sonolentos, deitar-se no sofá, cobrir-se com um cobertor, levantar-se em câmara lenta, dançar em rodopio, em estado de levitação, voltar a deitar-se no sofá e voltar a adormecer, em etérea e santa paz. Mas chegou o momento em que Camille, provavelmente um pouco mais familiarizada com o balé que a adorável e encantadora filha de Maria João Pires, me disse que ela podia ir para além de um mero rodopio e dançar em passos de balé. E, dizendo isto, Camille deu uma breve demonstração.
Durante quanto tempo rodopiou e dançou, em passos de balé, ao som do Nocturno n.º 1 de Chopin, tocado magistralmente por Maria João Pires? Eu apenas sei dizer que foi durante longo tempo, e sei também que esta foi uma das muitas ocasiões em que a minha pequena bailarina Camille tomou um autêntico banho de imersão na arte divina da música clássica, superiormente interpretada pela minha compatriota Maria João Pires e miraculosamente criada por Frederico Chopin, compatriota dos avós maternos e da mãe de Camille, todos, como Chopin, nascidos em Varsóvia.      


António Cirurgião









segunda-feira, 20 de julho de 2020

Um retrato da União.










O astro do dia.






Não são já as janelas a olhar a rua. É a rua -- os olhos na rua -- a olhar as janelas.

O astro do dia faz boum.
Tudo com ele diz boum
Quando o coração faz boum-boum

O mundo inteiro faz boum.
Tudo com ele diz boum
Quando o coração faz boum-boum

Boum, Charles Trénet 





Manuela Ivone Cunha





domingo, 19 de julho de 2020

Canalhas.









O Chega quer fazer um referendo à pena de morte (e fez um «referendo interno» sobre a pena de morte). Um referendo à pena de morte é obviamente inconstitucional e, como tal, nunca será permitido. Mas nada disso interessa ao Chega ou a André Ventura, nem a pena de morte, nem a morte nem a vida. O que interessa é fazer barulho, que falem do Chega. Ai sim? Então vamos fazer barulho: faz agora 33 anos que foi filmado Fourteen Days in May, cinéma vérité sobre o assassinato legal de Edward Earl Johnson, cuja culpabilidade veio depois a ser seriamente questionada. Vejam os minutos finais da execução de Earl Johnson. Vejam e meditem se é humano ou moral um partido andar a fazer jogadas politiqueiras com coisas destas. Numa palavra: canalhas.









A Sunday Smile.





A Sunday smile, we wore it for a while
And a cemetary mile we paused and sang
A Sunday smile, we wore it for a while
And a cemetary mile we paused and sang
About a Sunday smile, and we felt clean

Dos Beirut.




Manuela Ivone Cunha.







sábado, 18 de julho de 2020

Skittles.






Nunca soube muito bem como é que se começa um texto a falar de assuntos sérios. Estas pessoas são amostras marcantes do excesso de força da polícia nos Estados Unidos.

Breonna Taylor, Trayvon Martin, Elijah McClain e Michael Marshall sofreram deste abuso de poder e infelizmente nem todos tiveram justiça.


Breonna Taylor morreu a 13 de março de 2020 com 26 anos. Três polícias entraram no apartamento dela e o namorado de Breonna pensava que eram ladrões e disparou. Os polícias dispararam 23 vezes, matando Breonna com 8 tiros e continuam livres.

Trayvon Martin morreu com 17 anos no dia 26 de fevereiro de 2012. George Zimmerman, um polícia, achou que ele tinha uma arma e disparou contra Trayvon e depois sim revistou-o e encontrou um pacote de Skittles. George Zimmerman em 2018 assinava pacotes de Skittles como se aquela morte fosse um orgulho.

Elijah McClain foi morto com 23 anos no dia 24 de agosto de 2019. Nesse dia, uma mulher ligou para a polícia a reportar um homem que andava na rua com uma máscara. A polícia, mal encontrou Elijah, deteve-o. Passado 15 minutos, os polícias deitaram McClain no chão e injectaram-no com ketamine. Elijah McClain foi enviado para o hospital mas acabou por morrer devido a esta substância.

Michael Marshall morreu dia 7 de novembro de 2015 após ser detido pela polícia. Michael tinha doenças mentais e já na esquadra teve um episódio psicótico. Os polícias pensaram que ele estava a resistir e derrubaram no, encostando a cara dele no chão durante 13 minutos. Michael acabou por vomitar passados 3 minutos de estar deitado e morreu sufocado no seu próprio vómito.

Todas mortes trágicas e desnecessárias causadas por excesso de poder.

Black Lives Matter não foi uma moda mas sim um pedido de ajuda a todos nós.


Joana Araújo