quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Irmãos génios.

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Otto Glória e Vinicius de Moraes. Lisboa, Novembro de 1968







EUSÉBIO (entre um adeus e um «whisky»). DIÁLOGO COM VINÍCIUS


Por Neves de Sousa




- Este cara você não precisa de apresentar. Senta aqui, Eusébio, senta.

Eusébio ficou de pé. Olhando e sorrindo. Estendeu a mão sem jeito de menino sem jeito.

         - Pois, não posso… Tenho de ir. Mas eu conheço o senhor. Eu vi o seu «show» na Argentina.

Eusébio, menino sem-jeito, lá da beira-praia estendido à porta do muceque. Menino que deu volta ao Mundo: e deixou o pé descalço justamente para calçar as botas.

- Quando o Benfica lá esteve, o senhor recorda?

Maniqualmente, o poeta diz que sim.

- Foi em Agosto, O Pelé estava comigo, o sr. Vinícius lembra-se?

Ficaram-se, por instantes. Vinicius dizendo que, Eusébio pensando que. «É, dessa vez o “show” não estava muito bom, não». Eusébio morno, pondo água na fervura, saindo do beco: «E os outros, os outros não vieram?»

- Baden veio.

- E as moças? - quer saber o negrão – E as moças?

- Ficaram a gravar nos Estados Unidos. Mais tarde…

O copo sobe e desce, na mão fremente do poeta único. Eusébio quer dizer adeus. Cristina de Moraes, a mulher de Vinícius, pega o fio da meada:

- Eusébio, você sabe? Eu sou «vidrada» por você…

Cristina é fã do futebol. Conhece, salteado e de cor, os nomes e os feitos dos craques de continente e meio. Para ela, o ídolo é Rivelino.

Eusébio condescende:

- Foi o melhor. No jogo da F.I.F.A. ele foi o melhor.

- E o Gerson? Já imaginou que está jogando o Corintians? Miséria, Eusébio, miséria….

Vinícius espera que lhe encham o copo.

- Aqui, em Lisboa, o espectáculo vai ser no dia 12.

Eusébio promete:

- Eu não vou faltar!

Foi então que Otto o chamou. E Vinícius ficou entregue a Costa Pereira, e este bombardeado por dois fogos: Cristina, que logo ali se lembrou do «arqueiro» que saía do «arco» e defendia com a cabeça; Vinícius que dava parabéns. Vinícius que batia a tecla daquele contentamento-bebé que está na raiz de algo que se chama génio…

         Pois é.    


Diário de Lisboa, 25 de Novembro de 1968

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