quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Joaninha dos Olhos Verdes ou a aurora da moderna literatura portuguesa.

 


Ainda hoje a nata dos investigadores não obteve consenso quanto à essência dessa obra-prima que dá pelo nome Viagens na Minha Terra, que Almeida Garrett publicou em 1846. Sabe-se que é uma obra de rutura, anuncia o romantismo num processo literário híbrido, um romance (?) publicado em folhetim, cheio de considerações pessoais, de citações, relatos de visitas, uma viagem ao Ribatejo que logo arranca com uma reflexão estuporada, completamente inusitada, que José Saramago aproveitou para epígrafo do seu romance Levantado do Chão, de 1980: “E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”. Isto a caminho da Azambuja, daqui irá até ao Cartaxo, não deixa de registar observações, se dúvidas houvesse quanto à formidável cultura de Garrett era viajar aqui com ele, vê-lo sabedor de línguas e das respetivas literaturas, homem de salão, e sempre pronto a classificar ou criticar. Basta vê-lo a escrever sobre o Cartaxo: “É uma das povoações mais bonitas de Portugal, asseada, alegre; parece o bairro suburbano de uma cidade”. É profuso em dar explicações e fazer comentários, antes de chegar ao Vale de Santarém, parece estar a perguntar ao leitor: “De onde veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver sítio, lugar ou coisa que o valha, com o nome de Meca; e daí talvez o admirável rifão português que ainda não foi bem examinado como devia ser, e que decerto encerra algum grande ditame de moral primitiva: ‘andou por Seca (Asseca?) e Meca e olivais de Santarém’. A ponte da Asseca corta uma várzea imensa que há de ser um vasto paul de Inverno: ainda agora está a dessangrar-se em água por toda a parte”. Enfim, depois de muita cogitação chega-se ao Vale de Santarém, “pátria dos rouxinóis e das madressilvas, cinta de faias belas e de loureiros viçosos”. Até aqui, nada de romanesco, mas já chegámos ao Vale de Santarém, avista-se a janela da Joaninha, começa uma história, ou quase, vem interpolada por mais citações de alta cultura, mas sim aparece a Joaninha, a sua avó cega, e prefigura-se uma apresentação da protagonista: “Joaninha não era bela, talvez nem galante sequer no sentido popular e expressivo que a palavra tem em português, mas era o tipo de gentileza, o ideal da espiritualidade. Naquele rosto, naquele corpo de dezasseis anos, havia, por dom natural e por uma admirável simetria de proporções, toda a elegância nobre, todo o desembaraço modesto, toda a flexibilidade graciosa que a arte, o uso e a conversação da Corte e da mais escolhida companhia vêm a dar a algumas raras e privilegiadas criaturas no mundo”. Apresentada e comentada, no fim do capítulo insinua-se a apresentação de novo ator, Frei Dinis, o austero guardião de São Francisco de Santarém. Logo Garrett sente-se no dever de falar dos frades e paira no ar a crítica aos barões trazidos pela causa liberal. A avó chama-se Francisca, sente-se faísca elétrica no ar, o frade postula considerações graves sobre a Guerra Civil, fala-se do neto Carlos que Frei Dinis diz ser rapaz maldito, entre dois está o abismo todo do Inferno. E vem a descrição de Frei Dinis, amostra ténue, só no final da trama iremos entender o enredo pecaminoso, por ora descreve-se Dinis de Ataíde e como chegou à Ordem de São Francisco depois de algumas peripécias, as visitas de sexta-feira de Frei Dinis à Avó Francisca e a Joaninha são bem aciduladas. E chega a hora dos segredos, o frade traz uma carta para Joaninha, esta, percebe-se claramente, tem embevecimento pelo primo Carlos e eis como num quadro de ópera que Carlos entra em cena, é militar liberal, é um encontro muito terno, irão suceder-se os bilhetes de primo para prima, ainda não sabemos nada da sua vida amorosa por outras bandas, e se pretendemos saber logo tudo Garrett troca-nos as voltas, por ora o enredo é idílico, assim: “Carlos tinha a mão de Joaninha apertada na sua; e os olhos húmidos de lágrimas cravados nos olhos dela, de cujo verde transparente e diáfano saíam raios de inefável ternura. Dizer tudo o que ele sentia era impossível: tão encontrados lhe andavam os pensamentos, em tão confuso tumulto se lhe alvorotavam todos os sentidos”. Haverá encontros românticos, em plena Guerra Civil, a horas escusas, e com o apoio das sentinelas. E Garrett revela-nos o seu feitiço por Santarém, mas também o seu completo desapontamento: “Santarém é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poética parte das nossas crónicas está escrita. Rico de iluminuras, de recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados primorosos, o livro era o mais belo e o mais precioso de Portugal. Encadernado em esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras, fechado a broches de bronze por suas fortes muralhas góticas, o magnífico livro devia durar sempre enquanto a mão do Criador se não estendesse para apagar as memórias da criatura. Mas esta Nínive não foi destruída, esta Pompeia não foi submergida por nenhuma catástrofe grandiosa. O povo de cuja história ela é o livro, ainda existe; mas esse povo caiu à infância, deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha…”.

A tensão do drama sobe de tom, torna-se à história de Joaninha, Carlos é ferido, chegou a hora de aparecer a outra, de nome Georgina, é inglesa de gema, aparece o Frade, vamos saber qual a ligação deste com Carlos, por que crimes espia o guardião do Convento de São Francisco, a história de Joaninha ainda não chegou ao fim, Garrett aproveita o interlúdio para nos descrever o património da cidade, vai mesmo jantar nos Reais Paços de Afonso Henriques, atravessa Santarém muito arruinada, é muitíssimo bem acolhido em casa fidalga, lá do alto a vista é magnificente, mas há que regressar ao miolo da história, vamos agora ouvir falar de muita desgraça até Garrett desancar em Carlos que vai ser barão, isto já de partida de Santarém, em jeito de conclusão o autor desce até ao Vale e faz algumas perguntas, segue-se a extensa carta de Carlos a Joaninha, tudo se vai esclarecer sobre o passado de Carlos, ele bem pede perdão à prima, mas não resistiu a ser barão e poderá mesmo vir a ser deputado qualquer dia, oportunismo é coisa que não falta a estas classes ascendentes, e assim termina o livro:

“Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De todas quantas viagens, porém, fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra.

Se assim o pensares, leitor benévolo, quem sabe? Pode ser que eu tome outra vez o bordão de romeiro, e vá peregrinando por esse Portugal fora, em busca de histórias para te contar.

Nos caminhos de ferro dos barões é que eu juro não andar. Escusada é a jura, porém. Se as estradas fossem de papel, fá-las-iam, não digo que não. Mas de metal!

Que tenha o Governo juízo, que as faça de pedra, que pode, e viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra”.

Lemos nos bancos de escola comentários à obra, à semelhança do que o sistema educativo procede com Bernardim Ribeiro, Camões, Vieira e outros dominadores da língua portuguesa. O que não aprendemos na nossa adolescência é que este livro de Garrett rompe com o estilo velho literário, arranca com um hibridismo de notas de viagem, de considerações culturais, e chegados ao Vale de Santarém floresce uma apoteose romântica, sem igual. É certo que Garrett teve continuadores, mas ele foi o pioneiro, e relê-lo é um deslumbramento, é como se estivéssemos a atravessar a porta de uma mentalidade fechada para a alvorada do livre pensamento. Só pelo gigantismo desta prosódia Garrett garantiu o seu lugar no Panteão. 


Mário Beja Santos





3 comentários:

  1. Acredito que seja um livro deslumbrante de uma leitura entusiasmante. .
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    Cumprimentos poéticos.
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    Pensamentos e Devaneios Poéticos
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  2. Mais uma sugestão de releitura que agora há-de ser com outros olhos certamente

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