Há poucas coisas melhores
do que um bom azeite. De acordo. Mas não é razão para tanto disparate à volta
das gorduras vegetais. Desde logo, nos nomes.
A palavra azeite vem do
árabe az-zayt, literalmente “o óleo”, enquanto óleo vem do latim oleum
e, antes, do grego elaion, ou oliveira. Ambos têm o mesmo significado e
a mesma origem: a oliveira. Ingleses, italianos, ou até espanhóis, escolheram
uma delas, mas depois todos discriminaram a origem da gordura — seja olive
oil, olio di oliva ou aceite de oliva. Os portugueses, sempre os
mais espertos nestas anedotas, ficaram com as duas, a árabe e a latina: azeite
para o óleo da oliveira e óleo para os restantes, como se não servissem para
nada. A não ser para o motor do carro.
Mas servem. Melhor do que
o azeite em muitos casos. O de girassol para fritar (neutro, crocância limpa),
o de colza para a salada de batata (muito leve, toque amanteigado), e o de soja
para a maionese (emulsiona melhor). Até para uma salada verde que se queira muito
fresca e leve, um óleo vegetal pode ser melhor opção (de noz, avelã ou grainha
de uva). Para não falar da cozinha asiática (sésamo, amendoim) ou de um verdadeiro
fondue - por favor, nunca, nunca de vinho!
Voltemos ao azeite. Fundamental
na base da nossa cozinha, o estrugido (ok, refugado) é-lhe território natural. E
é o ideal para temperar. Seja uma salada de tomate, uma posta de bacalhau ou
uma entrada de hummus. Até, como uma pitada de sal ou de pimenta moída, um fio
sobre o prato — sopa ou principal — fica sempre bem. Ou só com pão. Certo. Mas
evitemos alguns desmandos.
Por exemplo, a menos que
seja com azeite virgem, mais caro, comprar conservas em azeite nem sequer faz muito
sentido. Em toda a indústria alimentar, o azeite utilizado é refinado, sem
sabor, praticamente o mesmo que um óleo vegetal neutro (e não é só pelo preço:
o refinado oferece melhores condições de estabilidade na produção). Esclarecido
o detalhe, pior mesmo são aqueles que excluem qualquer azeite que não seja
virgem extra, por causa da acidez ou do amargor do sabor.
Sim, a acidez — maturação
da azeitona em excesso — tem limites e é controlada em laboratório. Mas, para
ser de qualidade superior, mais do que baixa acidez, interessa o sabor, razão
pela qual é a prova que determina a classificação. Azeites de variedades com
carácter (a cobrançosa, por excelência, também a cordovil, verdeal ou galega),
extraídas cedo na colheita, maceradas a baixa temperatura, são garantia de
qualidade.
Nada de novo. Pequena
produção, lagar próximo das oliveiras, de preferência velhas, privilegiando
variedades de bom sabor e menos a produtividade da árvore: é o básico dos bons alimentos.
Ainda melhor se tiver um travo ligeiramente amargo, até picante!
Isso não faz destes
azeites superiores o ingrediente indispensável do estrugido ou do polvo à
lagareiro. Haja bom senso. Como na escolha do vinho para um coq au vin, um
polvo assado vou eu cozinhá-lo se me derem um virgem extra primeiras azeitonas,
já agora de colheita noturna! E o vinho.
José António Nogueira de
Brito

Prezado José António Nogueira de Brito, tenho lido com muito gosto e sabor seus artigos publicados ultimamente no Malomil, os quais, pelo estilo espirituoso, lembram-me muito os de Apicius, pseudónimo de Roberto Marinho de Azevedo, pioneiro do jornalismo gastronómico brasileiro, colaborador do Caderno do Domingo do Jornal do Brasil do Rio de Janeiro entre os anos de 1970 e 1990, falecido em 2006. O anúncio que ilustra este seu artigo sobre o óleo da oliveira é do azeite produzido em São Paulo pela grande conglomerado Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, hoje extinto, que produzia também óleo de semente de algodão e de mamona em João Pessoa, Paraíba, com a mesma marca.
ResponderEliminarCaro Rubem Amaral Jr, a imagem, magnífica, é obra do nosso amigo comum, o António, não podeia deixar de ser. Dá-me enorme satisfação que goste de ler estas modestas crónicas, não passo de um aprendiz de feiticeiro, ou de um pobre pecador, subjugado aos prazeres da gula. Por vezes, confesso, com traços de alarvidade. Fico também muito curioso e interessado na obra do Roberto Marinho de Azevedo, sabe se é possível comprar alguma reedição dos textos da sua coluna?
ResponderEliminarCaro José António Nogueira de Brito, em 2015, crônicas do Apicius no JB - não sei se todas, pois parece que foram mais de mil - foram reeditadas em e-book. Infelizmente, não consegui informação de como adquiri-lo, pois parece que a editora fechou. Há muita informação sobre ele na Internet, buscando, por exemplo, por "jornalista gastronômico brasileiro Apicius".
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