segunda-feira, 11 de maio de 2015

De profundis.

 
 
 
 
«Disse a dois empregados novos; “Se me roubarem dou-vos um tareião que vos parto ao meio”»
(Olivier Costa, cozinheiro, entrevista a Sol/Tabu, de 8-5-2014)


De profundis.

 
 
 
 

«Claro que, como não havia gestão da parte do meu pai, aquilo acabou mal.
− Como?
Comigo a bater num vereador da câmara porque o meu pai não pagava as rendas e o vereador entrou pela cozinha a insultá-lo. Dei-lhe uma cabeçada. No dia a seguir ficámos logo sem esplanada. Depois, para aí em 2000, abri um restaurante chamado Olímpio, no antigo Michel, mas tive problemas com a vizinhança que atirava baldes de lixívia aos meus clientes.»
(Olivier Costa, cozinheiro, Sol/Tabu, de 8-5-2014)


De profundis.

 
 
 
 

«− (…) não acredito que fique indiferente ao facto de muita gente achar que o Guilty é uma casa de prostituição.
Vou explicar porquê. Eu não posso esconder que tenho uma fama de mulherengo. Qualquer homem com dinheiro, que não se droga e que não bebe, tem de ter um vício. Eu gosto de mulheres bonitas. Não é nenhum segredo. Já me separei várias vezes por outras mulheres. Acontece. É o único problema que tenho. Que graças a Deus não é nenhum problema! Podem falar que aquilo tem miúdas que fazem isto e aquilo. Mas nunca assisti. Em qualquer sítio que venda copos à noite há sempre umas miúdas mais oferecidas e há sempre droga. Vamos deixar de ser hipócritas: de facto eu pago presenças às miúdas. Não vou mentir.
− Presenças é uma coisa, prostituição é outra.
Dentro do meu restaurante, quando sei que alguma miúda faz uma proposta, já não é nossa Oliviette. Sim, porque é verdade que existem as Oliviettes. Isto faz-se em todo o lado da Europa, mas mais uma vez fui o pioneiro em Portugal. Fui o pioneiro a trazer miúdas e a pagar-lhes para fazerem presenças. Agora fazem todos igual. Se for ao Main tem miúdas giras, Se calhar, se fizer o seu trabalho de casa, também elas se vendem. E não é por causa disso que se diz que o Main é só putas. Porquê? Porque, como o Guilty é mais pequenino, se eu tenho 20 miúdas, automaticamente para o português aquilo é uma casa de putas. O Guilty é a noite mais gira de Lisboa para um homem solteiro ou até casado que se queira divertir – em vez de ir para o Elefante Branco, que é mesmo de putas. Ali não são putas, são miúdas. E ou ele tem jeito ou não tem, mas isso já é problema dele.»
(Olivier Costa, cozinheiro, Sol/Tabu, de 8-5-2014)


De profundis.

 
 
 
 
«− Actualmente os principais clientes do Guilty são angolanos?
Não posso negar que o angolano é uma super ajuda ao grupo Olivier. Os angolanos e os brasileiros são quem mete óleo nos motores. E quem disser o contrário na restauração de luxo está completamente enganado. Quem disser que não precisa nem gosta dos angolanos está a ser hipócrita. Acho inacreditável o que estão a fazer aos angolanos.
− Por que diz isso?
É a perseguição, o racismo, as perguntas: “De onde é que veio o dinheiro?”. E eles estão a desaparecer.
− Não é legítimo perguntar? Ou quando se tem um negócio o importante é facturar e não interessa de onde vem o dinheiro?
Acho que os angolanos não são a al-Qaeda ou o Estado Islâmico. Não matam ninguém. Em Angola, o Presidente não manda matar pessoas. É um país democrático e aquilo vai funcionando. O dinheiro vem do petróleo, se declaram ou não, não é nosso problema. São esquemas deles lá. Queremos é que venham cá gastar. Eles são o motor da economia de luxo em Portugal.
− Para alguém que tem uma fatia tão grande de clientes angolanos e um parceiro angolano, o General Kopelipa…
Está enganada, não tenho um parceiro angolano.
− Mas em tempos teve.
Não posso falar sobre isso.
− Mas tem sócios?
Tenho um sócio, mas não é angolano. Quer dizer, não é bem sócio, é um padrinho.
− É português?
Não posso dizer.
− Nunca dá a cara?
Não precisa. Não vive cá.»

 
 
(Olivier Costa, cozinheiro, Sol/Tabu, de 8-5-2014)

 

De profundis.

 
 
 
 
 
 
 
 
«Eu marco tendências. Podem gostar ou não. Mas isso ninguém me pode tirar. Está mais do que provado que sou uma pessoa que cria tendências. Sou eu que cria a tendência e depois toda a gente copia.»
(Olivier Costa, cozinheiro, Sol/Tabu, de 8-5-2014)

De profundis.

 
 
 

 
«Sou o gajo mais querido que existe.»
(Olivier Costa, cozinheiro, Sol/Tabu, de 8-5-2014)


De profundis.

 
 
Fotografia de Garry Winogrand
 
 

«Sou uma locomotiva, só olho para a frente.»
(Olivier Costa, cozinheiro, Sol/Tabu, de 8-5-2014)


sábado, 9 de maio de 2015

Berlim, ontem e hoje.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 




 
 







 
 
Mão amiga, a quem muito agradeço,fez-me chegar estas imagens publicadas no Frankfurter Allgemeine, aqui.
Berlim, hoje e há 70 anos. Muitas diferenças. A maior de todas não está nos edifícios, é intangível. É a paz em liberdade.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O tango do desaparecido.

 
 
Fotografia de João Pina, Buenos Aires (2004)


 
Já falei, entrevistei e mais o diabo a sete do João Pina. As pessoas ficam boquiabertas com o livro Condor mas nem sempre imaginam o que custa fazer aquilo. Pessoalmente, financeiramente, até fisicamente, é um trabalho épico. Ou julgam que é só chegar a um sítio, instalar-se num bom hotel, e fazer umas selfies na piscina com umas vítimas de Pinochet? O que não custa localizá-las, conversar com elas, saber o que sofreram, persuadi-las a darem testemunho…
         Por vezes há a ideia de que estes fotógrafos levam uma vida regalada e cosmopolita, que só o facto de aparecerem no NY Times, como o João apareceu, lhes dá passaporte para uma existência aventurosa – e remunerada à farta e à grande. Puro engano. Os jornais e as revistas internacionais estão a investir cada vez menos em trabalhos de grande fôlego, como os que faz o João Pina. O projecto Condor levou anos a pôr em prática. Hoje vemos o livro, folheamo-lo, e temo-lo para sempre, como homenagem às vítimas das ditaduras do Cone Sul. Parece fácil, não é. E, para piorar as coisas, o material deste ofício é caro, caríssimo. E, para piorar ainda mais o que já de si era muito mau, o João Pina acaba de ser assaltado nas ruas de Buenos Aires. Um assalto à mão armada, em plena luz do dia. Ficou sem as ferramentas que lhe permitiram fazer livros como Por Teu Livre Pensamento ou Condor. Para minorar o dano, o João Pina lançou uma acção de crowdfunding: http://robado.joao-pina.com/
Sim, somos amigos. E os amigos são para as ocasiões. Sobretudo ocasiões difíceis, como esta. Ocasiões como esta em que, num golpe de segundos, alguém se vê privado do que de essencial tem.
 
Robbed in Buenos Aires, é só clicar e contribuir.
 
António Araújo


A Rússia, de Herlánder Ribeiro.

 
 
 
 
Ninguém pode dizer hoje o que pode resultar da guerra que a Rússia está travando com a Alemanha: nem estados-maiores, nem correspondentes de guerra, nem mesmo os supostos diplomatas de várias cores.

quinta-feira, 7 de maio de 2015





impulso!

100 discos de jazz para cativar os leigos e vencer os cépticos !

 

 

# 99 – RUDRESH MAHANTHAPPA

 
 

Fotografia de Ethan Levitas
 

Desde logo o nome interpela a curiosidade biográfica – como veio ter ao jazz alguém de apelido indiano? Filho de um catedrático em física quântica, Rudresh Mahanthappa cresceu em Boulder, nas faldas das Rocky Mountains do Colorado, estampa idílica de cidadezinha universitária americana, onde a vida não poderia ser mais aprazível e gentrificada. Não foi todavia em casa que Rudresh se cativou com a música dos seus ancestrais, mas durante o curso de jazz no selecto Berklee College of Music. Após um doutoramento em composição na DePaul de Chicago, onde se deixou permear pela vocação vanguardista local, granjeou uma Bolsa Guggenheim para pesquisar o sofisticado e antigo sistema musical Karanataka Samgita do sul da Índia, que em alienígena se denomina de “música carnática”. Um itinerário que, apesar do aroma de exotismo, é afinal americano de gema: o filho de emigrantes, mesmo que de alto coturno, que porfia por se inscrever na tradição, espigando uma voz singular por via da mestiçagem.
Charlie Parker apossou-se do saxofone alto, muito mais do que fizera Louis Armstrong com o trompete. Neste instrumento, para além de alcançarem um estilo pessoal, Dizzy Gilespie e Miles Davis, e depois, menos consensualmente, Wynton Marsalis, vieram reinventá-lo e redefini-lo. No caso do saxofone alto pareceria proeza impossível recompor as balizas harmónicas que Bird estremou, como se o tivesse esgotado. Claro que na posterior crónica do jazz não faltam nomes que lograram uma voz sucessora de Parker, sem que a rotulassem de epígona: Sonny Stitt, Art Pepper, particamente coevos dele, “Cannonball” Adderley, de quem se quis fazer seu herdeiro. Mas desbravadores como Lee Konitz, Ornette Coleman e Eric Dolphy, por exemplo, só conseguiram desprender-se desta legado remontando até às origens (Johnny Hodges e Benny Carter, pois claro, os Faróis de Alexandria do saxofone alto na era do swing), onde pudessem inflectir por diferentes caminhos.
Foi então ao instrumento mais estigmatizado do jazz que Rudresh Mahanthappa entregou a a sua criatividade. Como ilustração didáctica, o músico, numa entrevista, fez um ângulo de 90º com a mão e disse: “Charlie Parker é assim” e depois abriu ligeiramente para 105º: “eu sou assim”. No seu percurso Rudresh deixa-se, “assim”, transportar pelos predicados harmónicos da música carnática, orienta-se pela estrela polar das elaborações melódicas de Ornette Coleman e caminha bem assente no chão desse género musical que se identifica tradicionalmente como jazz. Desta mistura explosiva resulta uma alta voltagem sonora que daria para iluminar uma cidade se a ligassem à corrente.
 

Apex
2010
Pi Recordings - 3564
Rudresh Mahanthappa, Bunky Green (saxophone alto); Jason Moran (piano); François Moutin (contrabaixo); Jack DeJohnette, Damion Reid (bateria)
 
A arte da conversação será um dos fascínios do jazz de sempre, que o sobressai doutros géneros, mais atentos aos custos do que aos ganhos da reciprocidade, do desafio e da permuta entre personalidades musicais. O que faz de “Apex” uma obra esplêndida é, portanto, a labareda que se desprende do encontro entre um jovem impetuoso como Rudresh e a chama prometaica do veterano Bunky Green, 85 anos que já deram a volta ao mundo do jazz, desde as essenciais formações de Charles Mingus do início da década de 60, até ao ensino académico, donde tem vindo a exercer um magistério de influência, tutelando, por exemplo, o frutuoso movimento M-base, promulgado pelos discípulos Steve Coleman e Greg Osby.
Dois saxofonistas altos, como Rudresh Mahanthappa e Bunky Green, de gerações diferentes e disposições musicais tão díspares quanto as vidas que percorreram para aqui chegar, quando tudo parece separá-los é quando mais pontos de contacto acabam por serem revelados no dueto por eles formado. No tema “Summit”, cada um dos saxofonistas gera um turbilhão de colcheias que vai correndo pela secção rítmica e termina num apex (precisamente) de grande comunhão colectiva, revelando o extremo classicismo da sua arquitectura. O tema imediatamente a seguir é “Soft”, uma balada de andamento quase lírico, que evolui segundo as mesmas ordenadas. De certo modo estas duas composições são o mise en abyme de “Apex”, que nunca deixa de emular os princípios universais do jazz – que o atravessam do ragtime ao swing e do bebop ao free – aqui formulados de maneira tão fundamental quanto particular. Resta assinalar que, como de costume o que está atrás é tão importante como o que se apresenta na primeira linha. De modo que as investidas de Mahtanthappa e Green dependem da logística rítmica fornecida quer pelo primaveril Jason Moran, um dos mais cativantes pianistas que emergiram neste século, quer pelo outonal Jack DeJohnette (nalgumas faixas), que em “Summit” assume um protagonismo entusiástico.
É pouco provável daqui a dez anos ouvir-se “Apex” como percursor do que seja, mas vai uma apostinha que os vindouros escutá-lo-ão como um cume na acidentada cordilheira do saxofone alto no jazz?
 
 
José Navarro de Andrade
 
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Penteados e Adornos Femininos das Indígenas de Angola.

 
 








Ao publicar estas imagens da  exposição Penteados e Adornos Femininos das Indígenas de Angola, promovida em 1951 pela Agência Geral das Colónias, sob o patrocínio do Ministro das Colónias, e muitas outras do mesmo teor que tenho divulgado  aqui, há uma interrogação que me assaltou: até que ponto aquilo a que assistimos, um novo interesse pelo tempo colonial (sobretudo no que se refere ao seu imaginário), não significa uma nova forma de colonialismo? Ou, pelo menos, um revisitar da atracção pelo «exótico» que marcou o século XIX e se prolongou até meados do século XX?
         Em si mesmo, isso nada tem de censurável. Por exemplo, na publicação das imagens destas mulheres – alguém duvida? – não existia apenas um propósito político, propagandístico, colonizador, o que se quiser. Havia também, queiramos ou não, um gosto voyeur, dentro dos estritos limites da moralidade vigente, na contemplação de corpos desnudados e seios de mulheres.
         E agora, no nosso tempo, o renovado interesse por este universo tropical, sobretudo ao nível imagético e iconográfico, não tem algo de revivalista? A questão é mais funda do que falar-se do «remorso do homem branco», para usar as palavras de Pascal Bruckner; e, obviamente, deve ser vista com serenidade. Não é, entendamo-nos, um ataque rasteiro aos post-colonial studies. Dizer que os estudos pós-coloniais são, em si mesmos, uma forma de «colonialismo académico», praticado no conforto dos gabinetes das universidades do Ocidente, é coisa que não faz sentido. Mas faz sentido – e, provavelmente, já alguém falou disto – perguntar se a revisitação do imaginário colonial não devia, ela própria, ter consciência da sua «pulsão exótica» e incorporar essa autocrítica nos trabalhos que desenvolve. Será, não será? Aqui fica a pergunta.
 
António Araújo
 
 
 


terça-feira, 5 de maio de 2015

Cães de guarda e polícia (em francês).

 
 
 







Decálogo do Bom Desportista.

 
 
 
 
 
 
 
O bom desportista não é agente inconsciente e passivo do treino a que se sujeita, mas o melhor fiscal da sua própria acção. É facto essencial no trinómio da colaboração médio-pedagógica em educação física, no qual o médico e o treinador são, como orientadores e fiscalizadores desse treino, os indispensáveis obreiros. O desportista é o único capaz de eliminar as soluções de continuidade que o treino e o exame médico-pedagógico, sistematicamente, oferecem.
 

Estatutos da Associação Portugal-URSS.

 
 
 
 
 
 
Artigo 5º − A Associação não tem carácter partidário, estando aberta a todos os que adiram aos seus objectivos de intercâmbio, cooperação e amizade entre o povo Português e os povos da União Soviética.

URSS, mal amada bem amada, de Fernando Namora.

 
 
 
 
 
A propósito, diga-se que na URSS (melhor: em qualquer país socialista) antes ou logo após uma entrevista na TV, na rádio, na imprensa, nos é discretamente entregue um sobrescrito: dentro dele, uma remuneração substancial. Entrevista é trabalho, ou tem por detrás, normalmente, anos de devoção a uma ideia. E trabalho é para ser recompensado – não nada tem que ver com o apego ou o desapego aos dinheiros.


Educar, de Agostinho de Campos.

 
 
 
 
Chamamos cábula  a um estudante que, no meio dos outros que trabalham, estuda pouco ou nada; e para quem o tempo se esvai, como o fumo no ar, sem ser aproveitado em qualquer cousa útil e saudável. Personagem pouco simpática, e muito perigosa, para si e para os outros.